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domingo, 18 de dezembro de 2016

Crítica: Sing - Quem Canta Seus Males Espanta


Sing - Quem Canta Seus Males Espanta
por Joba Tridente

Está chegado às salas de cinema mais uma deliciosa, cantante e dançante animação: Sing - Quem Canta Seus Males Espanta, produzida pela Illumination (O Lorax: Em Busca da Trúfula Perdida, Meu Malvado Favorito, Minions, Pets - A Vida Secreta dos Bichos)..., tomara que ao menos ela consiga levantar o astral dos espectadores sobreviventes deste nefasto ano de 2016.


Sing - Quem Canta Seus Males Espanta (Sing, 2016), escrita e dirigida por Garth Jennings, acompanha o dia a dia do incansável produtor teatral Buster Moon (Matthew McConaughey), um coala apaixonado pelo palco e que, mesmo amargando prejuízo com os últimos espetáculos, acredita que o seu teatro pode voltar a ser a grande sensação da cidade onde convivem diferentes espécies animais. Para tanto, num momento de “ou tudo ou nada” (pois quando se está no fundo do poço o único caminho é para cima), ele junta seus parquíssimos recursos e cria um Programa de Calouros.


Muitos pretendentes à fama de cantor(a) vêm pelo prêmio, mas outros querem mesmo é soltar a bela voz. Da multidão de excelentes candidatos, Moon e a sua assistente Senhorita Crawly, uma lagarta camaleão muito idosa, selecionam o impagável Gunter (Nick Kroll), um simpaticíssimo porco cantor e dançarino literalmente brilhante; o jazzista ególatra Mike (Seth MacFarlane), um rato branco malandro; Rosita (Reese Whiterspoon), uma porca engenhosa, mãe de 25 leitões, que não abre mão da oportunidade; o adorável Johnny (Taron Egerton), um jovem gorila que vai ter de escolher entre os negócios ilegais da família e o seu sonho; a rebelde Ash (Scarlett Johansson) uma porco-espinho punk-rock buscando reconhecimento; a adolescente Meena (Tori Kelly), uma elefanta com bela voz, mas tímida demais...


Após o prólogo vertiginoso, com um impressionante “movimento de câmara” destacando recortes, enquadramentos, planos-sequência, Sing entra no ritmo tradicional (mas não menos ousado) das hollywoodianas histórias musicadas..., entremeando, sem nenhum exagero (apenas o essencial!), pitadas de romance, aventura, ação e drama, na descrição singular e distinta de cada personagem. Numa trama envolvente, em que todos os carismáticos protagonistas têm luz própria, há que saber dosar a energia, para não queimar o filme de nenhum deles.

Sing - Quem Canta Seus Males Espanta tem um roteiro básico e na medida da diversão para todas as idades. É deliciosamente leve, sem ser raso. É bem-humorado, sem precisar se sujeitar à escatologia. As gags são ótimas (a sequência de Moon no lava-carros é sensacional). Na verdade, todos os personagens (até os coadjuvantes!) têm os seus “15 minutos” arrebatadores (alguns, infelizmente, já vistos nos trailers).


A trama criativa (cheia de boas reviravoltas) não força nenhuma mensagem edificante piegas e ou lição de moral conservadora, mas, subliminarmente, dá uns bons toques sobre perseverança e triunfo na carreira (principalmente) artística e deixa espaço para se refletir sobre a rotina das donas de casa; a desestruturação familiar; o mercado de trabalho burocrático e ou artístico para o sexo feminino; a valorização do artista de rua (acredite, já vi artista reagindo da mesma forma que Mike, por conta de alguns trocados)...


Enfim, Sing, codirigido por Christophe Lourdelet, é mais uma boa surpresa neste 2016 de belas animações, como Kung Fu Panda 3; Pets - A Vida Secreta dos Bichos; Cegonhas - A História Que Não Te Contaram; o erótico Festa da Salsicha; Trolls; a obra-prima Kubo e as Cordas Mágicas, o magnífico A Tartaruga Vermelha. Sob direção tão cuidadosa, falar da qualidade técnica é redundância. Os personagens, além de graciosos, têm grande personalidade e uma vida crível. O cenário é bacana, o figurino é perfeito e as canções variadas (cerca de oitenta) para satisfazer a todo público (pop, rock, rap, punk, clássico) dão ritmo e arredondam maravilhosamente a já colorida narrativa.


A cópia que deve chegar aos cinemas brasileiros é a que traz (apenas) os diálogos “dublados” por “celebridades” e as canções (no original inglês americano) sem legenda. O que é uma pena, já que algumas composições têm a ver com a história dos intérpretes (se conseguir, se segure ao ouvir a clássica My Way, numa apresentação arrebatadora de Mike/Seth MacFarlane). Quanto à “dublagem”, a pior (e a voz mais reconhecível) é a da cantora Sandy. Toda via melodiosa, no entanto, se gosta dos gêneros animação e musical, não se deixa levar por esses detalhes (pecaminosos!) da dublagem e da falta de legenda.

Sing - Quem Canta Seus Males Espanta é um espetáculo emocionante e grande na sua inocência. Mesmo que seu enredo não dure muito na sua memória, após a sessão (o que eu duvido!), vale cada minuto da sua exibição.


Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Crítica: Ave, César!


O cinema dos irmãos Joel e Ethan Coen se destaca pelo nonsense, ironia e, principalmente, pelo humor negro da melhor qualidade (e profundidade). Eles conseguem falar de qualquer assunto e com uma perspicácia rara..., como, por exemplo, em sua mais recente obra: Ave, César! Aqui a velha Hollywood dos anos 1950 serve como plataforma (mero detalhe!) para se discutir comunismo, religião e capitalismo de forma tão ferina que os ativistas políticos e os praticantes religiosos podem até emburrar com a colocação do assunto, mas (radicalmente!) morrendo de rir de suas idiossincrasias e ou idiotices.


Ave, César! (Hail, Caesar!, 2016), escrito e dirigido por Joel Coen e Ethan Coen, é um filme na medida para quem aprecia um bom (e raro!) cinema com conteúdo crítico e muito bom humor. A narrativa acompanha alguma horas (literalmente) cruciais na vida de Eddie Mannix (Josh Brolin), produtor executivo da Capitol Pictures, às voltas com prazos, orçamentos  e contratações; sequestro de sua maior estrela, Baird Whitlock (George Clooney), em meio às filmagens do épico Ave, César! (um filme sobre Jesus Cristo); atores monossilábicos, como o adorável Hobie Doyle (Alden Ehrenreich, roubando as cenas), ou problemáticos, como a atriz e nadadora DeeAnna Moran (Scarlett Johansson); as gêmeas colunistas sociais Thora e Tessália Thacker (Tilda Swinton); o controle do cigarro e o assédio profissional da Lougheed Aircraft Manufacturing, que espera que ele deixe o instável mundo do cinema pelo estável mundo bélico...


Ave, César! é um comédia deliciosamente superlativa da primeira à última cena. Um cinéfilo-pulga pode até dizer que já foram feitos muitos filmes homenageando o cinema, abusando da metalinguagem para falar da construção e desconstrução do sonho, da fantasia, da ilusão (dialogando com a realidade) e que a nova geração provavelmente não vai entender as referências de filmes clássicos da era de ouro etc. Mas, como disse acima, não é exatamente esse o foco dos Coens. Num mundo a cada dia mais pulverizado por ideologias a cada vez mais irracionais (será que existe alguma que não o seja?), os irmãos cutucam, com seu humor peculiar, principalmente aquelas entranhadas até o talo na política, na religião e na economia capitalista.


Saber algo sobre Herbert Marcuse (1898-1979) e o famoso livro O Capital (Das Kapital), de Karl Marx (1818-1883), é interessante, mas não necessário, já que ambos são assuntos di-da-ti-ca-men-te discutidos, em sequências hilárias, por um grupo de escritores comunistas ocupados em doutrinar artistas e (subliminarmente) espectadores e pode ser pesquisado depois. Assim como não é preciso saber quem foram o astro Gene Kelly e as estrelas Carmen Miranda e Esther Williams, para curtir as cenas em que são homenageados na pele de Channing Tatum (o ambíguo Burt Gurney), de Veronica Osorio (a risonha Carlotta Valdez), de Scarllet Johansson (a temperamental DeeAnna Moran).


É preciso um bocado de inteligência para dosar as “sutilezas” ao desvelar bastidores da vida (religiosa e capitalista) e da arte (de interpretar/representar) de forma tão crítica e ácida..., mas sem jamais perder a ternura do bom humor. E, é claro, inteligência e malícia Joel e Ethan Coen têm em dobro. Sabem, como poucos criadores da sétima arte, solidificar o que está no ar e sutilmente deixar que esta plataforma se desmanche por si só..., como, por exemplo, nas antológicas sequências de reunião de um sacerdote católico e um ortodoxo, um pastor protestante e um rabino para analisar a personificação do mítico Jesus Cristo (que para muitos seria filho de Deus) em filmes, e o desconcertante (!!!) discurso de um centurião aos pés da cruz de Cristo. Gostando ou não das suas abordagens (incômodas?), a verdade é que os Coens não subestimam o seu público, preferem fazê-lo pensar. 


Enfim, considerando a genialidade do argumento e do roteiro de Ave, César!; o seu elenco (que também inclui Ralph Fiennes, Jonah Hill, Frances McDormand, Alison Pill, Wayne Knight, David Krumholtz, Christopher Lambert, entre outras estrelas) em perfeita sintonia; a produção impecável na reconstituição de época; que, assim como na ficção Brazil (1985), de Terry Gilliam, na minha leitura da fascinante comedia dos Coens também vi indícios de um Brasil (até de rede social) atual, em ebulição política, econômica e religiosa..., para mim, já estaria entre os melhores filmes do ano!

Ave, César! é um excelente desafio (muito além das referências cinematográficas) para aquele público sagaz que sabe a diferença entre um conteúdo de qualidade e um mero jogo de cena. Curioso? Vá e veja onde você encaixaria tão provocante metáfora. Ou, se não está nem aí para alegorias, divirta-se (do mesmo jeito) com os trocadilhos, digamos, capitalistas...

domingo, 17 de agosto de 2014

Crítica: Lucy


De Luc Besson gosto de Subway (1985), de Imensidão Azul (1988). Ao ler o pressbook de Lucy, achei que o filme estaria à altura (não esperava que superasse!) do meu favorito e seu melhor trabalho: O Quinto Elemento. Confesso que ao sair da Cabine de Imprensa, achei que seria melhor processar as ideias antes de emitir alguma opinião sobre o que tinha visto. O veredicto apressado: insanidade total.

Insanidade? Sim! Lucy (Lucy, França, 2014), de Luc Besson, é uma ficção pseudocientífica policial tresloucada com pé no acelerador, dedos no gatilho e totalmente sem cabeça. Ôps! Ôps? A trama “discute” a possibilidade do homem, que erroneamente dizem usar apenas 10% do cérebro, conseguir usar 100% (o que já é feito). Como sair de 10% pra 100%? Lucy (Scarlett Johansson) é uma estudante americana em Taipei (Taiwan) que, num rela-rela com seu namorado basbaque, se vê presa (fugir, nem pensar!) a uma maleta com droga e, na (con)sequência, prisioneira do chefão do crime Jang (Choi Min-sik), que a sequestra e a transforma em mula do potente alucinógeno CPH4, que pretende despachar para Paris, Roma, Berlin.


Todavia, num incidente (absurdo, dado o valor do produto!) seu corpo absorve a droga e rapidamente ela começa a despertar os 90% do cérebro adormecido e a desenvolver habilidades sobre-humanas. Acreditando (?) ter apenas 24 horas de vida, Lucy decide viajar para a França, a fim de se consultar com o neurocientista Samuel Norman (Morgan Freeman), que estuda a potencialidade do cérebro humano para além dos 10%..., e de se encontrar com o policial francês Pierre del Rio (Amr Waked), que está no encalço dos outros mulas  a caminho da Europa.

Como sou um ser 100% pensante, mas com a memória falha em 10%, talvez não consiga enumerar todas as “referências” e “homenagens” do produtor, roteirista e diretor Besson aos filmes que precederam a Lucy. Deixa-me ver, a minha lembrança mais antiga é a do Viagens Alucinantes (1980), de Ken Russel e a mais recente - passando por AKIRA (1988), de Katsuhiro Otomo e Matrix (1999), de Andy e Lana Wachowski - é do ótimo Sem Limites (2010), de Neil Burger. Ainda divagando sem critério, cito o belíssimo Ela (2013), de Spike Jonze, o descartável Transcendence (2014), de Wally Pfister, que trocou fiação com Geração Proteus (1977), de Donald Cammell e O Passageiro do Futuro (1992), de Brett Leonard. É melhor acabar logo com a dor de cabeça finalizando com O Cérebro (trash de 1988), dirigido por Ed Hunt.


Se bem que Luc Besson pode não conhecer (?) nenhum dos filmes que citei. Como se sabe, tem muito diretor de cinema que vê (e depois revê) apenas os próprios filmes. O que não tem muita importância, já que o grande público também tem memória curta. Mas, enfim, o frenético Lucy, de francês, tem apenas o seu diretor. O resto é tipicamente clichê e previsibilidade norte-americana, com uma pitada hard-core sul-coreana: tiroteio gratuito; correria; perseguição de carro na contramão (ah!) e sob marquises (oh!) e entre pessoas (ih!); sadismos etc.

A trama insana (ou vice-versa) tem mais furos que o queijo suíço Batman (2012) de Christopher Nolan. O que quer dizer que suscita muito mais “por quês”: Se Lucy tem todo esse poder, por que agiu e ou não agiu assim? Porque ela matou fulano e não matou beltrano? Por que esse sujeito ainda está vivo? Porque a polícia francesa não prendeu os traficantes? Óbvio que se Luc respondesse a todos os “por quês” faria um filme diferente. Possivelmente melhor e não um arremedo de produções estadunidenses do gênero, cujas situações o espectador (memória 100%) já viu trocentas vezes. Bom, mas há que se pensar no espectador (memória 10%) que nunca viu, no cinema ou na tv, perseguições de automóveis, carro batendo ou dando cambalhotas ou voando, tiros a queima roupa ou troca de tiros em lugares públicos, matança de inocentes etc..., não é? Honestamente? Não!


Lucy não é o primeiro e com certeza não será o último filme a falar de drogas (leves ou pesadas) reais ou fictícias, como a CPH4, de Besson, e dos seus efeitos colaterais.  Também porque parece haver um público ávido por “tramas” sobre a belicosidade do tráfico e traficantes. Algumas produções podem até “confundir” o público com a glamourização do tema, mas nunca é demais lembrar que (qualquer) droga vicia e overdose não transforma o usuário em alguém superpoderoso (como Lucy)..., overdose mata. Por falar nisso, nunca consegui entender porque quando um personagem está chapado, bêbado, em cena, quem vê tudo fora de foco e fora de oderm é o espectador e não ele.

Pastiche do gênero policial sci-fi dramático norte-americano, Lucy não apresenta novidade nem na direção, que embaralha “discursos” ou “tempo” ou “cérebro” para parecer inteligente. Da retórica inicial: “A vida nos foi dada há um bilhão de anos. O que fizemos com ela?” à retórica final: "A vida nos foi dada há um bilhão de anos. Agora você sabe o que fazer com ela."..., o roteiro de Besson é pretensioso e a sua analogia com o fóssil Lucy, querendo ir onde o 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick, já esteve há muito tempo, é tola. A metaforização animal/homem/universo (do prólogo ao epílogo) é piegas.


Pontos positivos: elenco protagonista (Johansson tem carisma e fã clube e Freeman status), ainda que o personagem Samuel Norman, de Morgan Freeman, seja o mesmo Joseph Tagger, de Trancendence; fragmentos do mundo animal; parte dos efeitos especiais; a metragem de 90 minutos, que nos livra de 30 minutos ou mais de encheção de saco e idiotices; a ausência de humor, que poupa olhos e ouvidos dos espectadores de piadas escatológicas hollywoodianas.

Considerando que é difícil saber o que é pior, se o script imbecil que subestima o espectador (100%) ou se a narrativa que faz o espectador (10%) se sentir esperto por “antecipar” os acontecimentos clichês; que há nada de novo na tela, a não ser um au revoir sutileza europeia..., o meu veredicto tranquilo: insanidade total.

PS: Apesar da história e do desfecho, a irresistível Lucy In The Sky With Diamonds, de Lennon e McCartney, não faz parte da trilha sonora de Eric Serra. Seria óbvio demais! Atenção: Confira a letra só após o filme..., senão vira spoiler.

terça-feira, 8 de abril de 2014

Crítica: Capitão América 2 - O Soldado Invernal


Em tempos de câmera de vigilância, e-mail de vigilância, twitter de vigilância e outros instrumentos de vigilância ainda não desvelados ou comunicados pelos governos que controlam os meios de comunicação..., e com a Guerra Fria requentando em fogo baixo, toda a paranoia com a segurança no mundo, principalmente nos EUA, é pouca. Um assunto capaz de tirar o sono de qualquer cidadão, até mesmo o de um herói de guerra que renasceu do gelo para um mundo cada vez mais absurdo e tecnológico.

Capitão América 2 - O Soldado Invernal (Captain America: The Winter Soldier, EUA, 2014), com direção de Anthony Russo e Joe Russo e roteiro de Christopher Markus e Stephen McFeely, surpreende com uma trama de espionagem esperta (tipo anos 1970) e muito próxima da realidade: o preço da segurança de alta tecnologia. O Steve Roger que retorna é um sujeito gentil, correto, um capitão ciente de que, em setenta anos que passou congelado, o mundo mudou, mas alguns vícios totalitários (leia-se: genocídio) persistem travestidos de democracia. Todavia, antes de restaurar a ordem mundial, é preciso compreender os sinais da desordem mundial.


Ainda tentando se adaptar à realidade do “novo mundo”, Capitão América (Chris Evans) descobre, após operação de resgate em um navio sequestrado, que os agentes da SHIELD Nick Fury (Samuel L. Jackson) e Alexander Pierce (Robert Redford) estão agindo estranhamente. Ao tentar descobrir a razão é ameaçado e caçado por um Soldado Invernal (Sebastian Stan). Praticamente solitário em seu ideal de uma América que não reconhece e decidido a encontrar a pedra-chave do quebra cabeça que está colocando em risco a sua vida, acaba pedindo ajuda à Viúva Negra (Scarlett Johansson) e ao ex-paraquedista Sam Wilson (Anthony Mackie).

Esta é uma daquelas histórias que quanto menos se souber do enredo, melhor. Ele tem lá as previsibilidades do gênero que um espectador mais esperto pode até adivinhar. Mas, em vez de se preocupar em jogar esse jogo de reviravoltas, o bom é curtir o espetáculo (se puder economizar na pipoca sugiro o 3D IMAX).


Sequência, como todo mundo sabe, é uma incógnita, pode superar o filme anterior e ou enterrar de vez a franquia. Felizmente O Soldado Invernal está na primeira alternativa. E se não chega a superar totalmente o Capitão América: O Primeiro Vingador (2011), ao menos se equipara, com um roteiro inteligente (acessível a qualquer adolescente), ritmo frenético (a briga no elevador é ótima), cenas de luta primorosamente coreografadas, humor leve, fotografia impecável e um elenco excelente.

Para os mais emotivos, românticos ou sonhadores, que não se contentam com pouco, há ainda duas sequências nostálgicas arrebatadoras: a melancólica visita do herói ao Museu Smithsonian e o seu dramático reencontro com a (agora) velha namorada Peggy Carter (Hayley Atwell). São cenas curtas, um adendo emblemático que melhor traduz o desconforto de Steve Rogers em seu profundo mergulho nacionalista para resgatar a dignidade da sua América a cada dia mais imperialista. Passagens que fazem deste uma das melhores adaptações da Marvel, que garante ter trabalho para sua “linha de heróis” por mais duas décadas. Desde que se mantenha a mesma qualidade, com certeza as futuras aventuras serão bem-vindas. Afinal, sempre haverá um cientista maluco ou um militar maluco ou um governante maluco querendo dominar o mundo..., ou ainda um ET maluco querendo dominar o universo!

NOTA: Há uma cena imperdível nos créditos finais.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Crítica: Hitchcock



Biografia é um gênero controverso seja na literatura ou cinema. Com as tais liberdades poéticas (em nome do ritmo ou do interesse narrativo) há sempre espaço para lapidações e ou exageros de fatos tidos como reais (mesmo que fictícios). Se o sujeito está morto, o verbo deita e rola. Se o sujeito é o autor (de si mesmo) haja ouro para dourar a pílula. Ou seja, há que se acreditar duvidando de qualquer retrato e ou autorretrato. Se bem que, quando a biografia é realmente boa, quem se importa com o que é verdadeiro ou falso na história? Como salienta o cineasta John Ford (1894 - 1973) no seu brilhante O Homem Que Matou o Facínora (1962): "Quando a lenda se torna fato, imprime-se a lenda." 

Assim como Lincoln, de Spielberg, o drama Hitchcock (Hitchcock, EUA, 2012) não é uma cinebiografia de Alfred Hitchcock (1899 - 1980). Baseado em Alfred Hitchcock e o Making of Psycho, de Stephen Rebello, o filme “trata” de histórias de bastidores do (e no) set de filmagem de Psicose (1960), mais aos moldes de Sete Dias Com Marilyn (2011). Dirigido por Sacha Gervasi, com roteiro de J. McLaughlin, a trama ainda alfineta, costura e remenda o tumultuado relacionamento de Hitchcock (Anthony Hopkins) e sua mulher Alma Reville (Helen Mirren), aparentemente na berlinda dos “casos amorosos” com as loiras fatais das produções do fogoso (?), genioso e genial diretor. Alma, também seria a eminência parda (ou seria pálida?) por trás dos roteiros de sucesso de Hitch.


Hitchcock traça um perfil curioso e irônico do mestre do suspense que alterna o humor (bipolar?) entre o menino mimado e o psicótico e ou entre o sujeito carente e o autossuficiente. Já Alma ganha um traço mais equilibrado, o de mulher inteligente, que ciente da sua importância na carreira do (dependente) marido fazia vistas grossas (?) às suas fugidinhas. Estranho pacto para sobreviver às intempéries comerciais e amorosas do, então, Éden Hollywoodiano. Época que o cinema faz parecer tão convidativa quanto assustadora no crepúsculo de deuses e deusas tão fugazes quanto hoje.

Hitchcock explora os devaneios do diretor, da pré-produção do thriller Psicose (com a compra de todos os exemplares do livro homônimo de Robert Bloch, para que o espectador não soubesse o final da história) à pós-produção (com a decisiva colaboração de Alma), cujo lançamento levou a plateia à loucura. Na trama há algumas sacadas bem interessantes (processo criativo do diretor), engraçadas, e outras difíceis de acreditar. Anthony Hopkins está bem caraterizado, lembra o velho Hitch e convence no papel do polêmico diretor. O grande mérito da direção é parecer não levar muito a sério a narrativa. O que não deixa de ser uma jogada de mestre, já que planta na cabeça do espectador a dúvida sobre a veracidade de tudo no (e do) “mundinho” que se vê na tela.


É impossível não comparar o drama americano com o britânico telecine The Girl (2012), thriller psicológico que (também) especula a discutível obsessão do diretor por loiras e de seus depravados avanços sexuais, não correspondidos pela atriz Tippi Hedren (Sienna Miller), e a busca da narrativa perfeita, durante as filmagens de Os Pássaros (1963) e de Marnie (1964), que se seguiram à Psicose (1960), em cujos bastidores Hitch teria (também) assediado sexualmente Janet Leigh (Scarlett Johansson). Baseado em Spellbound by Beauty: Alfred Hitchcock and his Leading Ladies, de Donald Spoto, o telecine britânico, dirigido por Julian Jarrold, é muito mais tenso que o drama americano também na caracterização. Vale notar que, quando do lançamento de The Girl, várias atrizes, que teriam sido “vitimas sexuais” de Hitchcock, foram entrevistadas e negaram o ocorrido.

O Hitchcock do filme inglês, interpretado por Toby Jones, “ganhou” um cabeção monstrengo, boca pequena, postura rígida muito da esquisita e perdeu uns quilinhos. Dependendo do ângulo ou do close, a desproporção apavora. Alma (Imelda Staunton) não fica muito atrás. O sombrio casal parece ter saído diretamente de um filme de horror. Quanto à trama, é o tal negócio, se não se conhece o original, deve se duvidar das traduções. O que não quer dizer que não se pode gostar, mesmo duvidando da autenticidade, de um ou de outro ou mesmo dos dois filmes, que mais afrontam do que homenageiam o mestre do suspense, pintado como um voyeur macabro. Diversão garantida para os amantes de cinefofoca de bastidores. 

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Crítica: Compramos Um Zoológico



Se há um “gênero” querido (e rendoso) no cinema americano é o sempre edificante baseado em uma história real. Todo ano é lançado ao menos um filme explorando o tema e, dependendo da intensidade do foco (relações sociais, familiares, religiosas, trabalhistas), acaba até indicado ao Oscar. Geralmente são produções com variações “biográficas” sobre um cidadão americano (ou quase) que, contra todas as adversidades da vida, torna-se um vencedor. Um exemplo heroico a ser seguido em todo o mundo.

Inspirado na vida de Benjamin Mee, um ex-colunista britânico do The Guardian e autor de We Bought a Zoo: The Amazing True Story of a Broken-Down Zoo, and the 200 Animals That Changed a Family Forever (algo como: Compramos um Jardim Zoológico: A Incrível História Verídica de um Jardim Zoológico Falido e os 200 Animais que Mudaram Para Sempre a Vida de Uma Família), o drama Compramos Um Zoológico, de Cameron Crowe, é o baseado em uma história real, da vez (de fim de ano). Ele “mostra” como a família de Mee comprou o falido Dartmoor Zoological Park, na Inglaterra, para onde o autor se mudou com a mãe, a mulher Katherine (que morreu três meses antes da reinauguração), os filhos Ella e Milo e o irmão Duncan, e o transformou em uma grande atração turística. A história dos Mee foi contada, anteriormente, em quatro episódios, no documentário Ben’s Zoo, do canal BBC2.


Na trama cinematográfica, a ação foi transferida para a região de Los Angeles, nos EUA. Lá acompanhamos o dia a dia de Benjamin Mee (Matt Damon), ex-colunista de um jornal da cidade que, na tentativa de superar a morte da esposa e melhorar o relacionamento com os dois filhos, Dylan (Colin Ford), de 14 anos e Rosie (Maggie Elizabeth Jones), de 7, se muda com a família para o interior, onde comprou uma casa que abriga, no quintal, o Rosemoor Wildlife Park, um zoológico falido. O desafio (e válvula de escape) de Mee cresce na medida em que seu plano de uma nova vida familiar esbarra nas dificuldades para restabelecer o zoo, precariamente administrado por Kelly Foster (Scarlett Johansson), que conta apenas com uma pequena mas abnegada equipe para cuidar de animais doentes e em extinção.  

O drama, com pitadas de humor, é simpático. Otimista ao extremo, e não poderia ser diferente (?), tem uma narrativa que anda na corda bamba do clichê fácil e da pieguice. É um filme linear que cumpre à risca o propósito do roteiro de Crowe e Aline Brosh McKenna, se bastando no retrato de pessoas comuns vencendo os percalços familiares e profissionais. Não se aprofunda na somatização da dor de Benjamin, que sofre pela morte da mulher e se culpa pela incapacidade de educar os filhos, principalmente o aborrescente Dylan, com quem não consegue dialogar. Tampouco no trauma do menino que se isola num mundo de figuras fantasmagóricas. O que motiva a história é a determinação do cidadão (americano) que (sempre) resolve os seus problemas naturalmente, na hora adequada.


Compramos Um Zoológico (We Bought A Zoo, EUA, 2011) tem boas performances de todo o elenco. Os melhores momentos são arrebatados pela graciosa e doce Maggie Jones (Rosie), que ilumina a tela com a sua inocência e carisma. As sequências mais descontraídas (e ternas) ficam por conta da bela Lily Miska (Elle Fanning) e Dylan, vivendo a “complicada” descoberta do primeiro amor. No acerto das contas pendentes, com a boa sorte sorrindo para todos (até para os animais), o enredo até desenha um flerte entre Kelly Foster e Benjamin Mee, mas, sinceramente, o casal (de atores) não tem a menor química. A trilha funcional, com boas músicas, é mais um complemento do que intrusão e a caprichada fotografia de Rodrigo Prietro emoldura bem o bucólico cenário. Um programa na medida para o público que gosta de se emocionar e ao final do espetáculo dizer: eu também posso!

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Crítica: O Spirit, de Frank Miller


por Joba Tridente
O SPIRIT de quem, mesmo?

O ano 2009 talvez fique marcado pela polêmicas adaptações cinematográficas dos clássicos dos quadrinhos como Watchmen (de Alan Moore) na visão de Zack Snyder e The Spirit (de Will Eisner) na visão de Frank Miller. No entanto, se em Watchmen, de Zack Snyder, é possível encontrar algumas qualidades, no desastrado The Spirit (EUA, 2008), de Frank Miller, encontra-se apenas o marasmo, o equívoco, a galhofa, a caricatura do adorável personagem de Will Eisner (1917-2005).

The Spirit, o filme é, digamos... Então, tem aquele celular em 1940... Ah, tem também aquela cena do laptop... Deixa eu ver, acho que tem uma músiquinha... Ah, tem as gags de desenho animado... Nas mãos estranhas de Frank Miller, que até prometia, na co-direção de Sin City, The Spirit é contrangedor. E olha que Miller assinou contrato para mais dois filmes do personagem. Will Eisner que se cuide na tumba ou, já que Spirit faz companhia a ele no mundo dos mortos, que o envie à Terra em missão boicote.

Muito se fala da estética de The Spirit ser semelhante à de Sin City. Eu diria estar mais para genérica. Mas esse nem é o problema maior de The Spirit, já que a maior influência de Miller, nas suas irrepreensíveis HQs, foi Will Eisner, com seu jeito cinematográfico de desenhar e escrever uma boa história cheia de contradições humanas e por isso verdadeira. O problema desta adaptação é que não há adaptação, apenas embromação. O que se vê na tela é praticamente um Spirit inventado por Frank Miller. Algo como se ele tivesse ouvido falar de um personagem genial que parecia ter vivido aventuras assim e assado mas não se tinha muita certeza e então, com um, digamos, “roteiro” do espírito doido, se pôs a filmar. Como se lhe bastassem lembranças esparsas de um personagem de HQ, herói de ocasião e irônico por natureza..., porém boa gente. Tudo bem que HQ é HQ e cinema é cinema..., desde que seja cinema. Frank Miller é um dos maiores mestres da narrativa, mas em HQ. Aqui ele não sabia que tinha tanta casca de banana pelo caminho.

The Spirit, personagem criado pelo genial Will Eisner em 1940 e aposentado em 1952, com diversas tentativas de voltar à ativa (em 1998, pelos geniais Alan Moore e Dave Gibbons, e em 2007, por Darwyn Cooke), é o policial Denny Colt, tido como morto, que “volta à vida” na pele de um investigador e apavora os vilões que agem principalmente, nas sombras, em Central City. Temido pelos malvados, perseguido por vilões, amado pelas mocinhas e vilãs maliciosas, Spirit é um “herói” às avessas. Em meio a crimes, romances, mistérios, ele apanha muito, também bate, mas acaba solucionando os casos mais estranhos com tiradas geniais, filosóficas, com humor ferino..., mas divertido. The Spirit, de Will Eisner, merece uma releitura melhor.

The Spirit, o filme traz Gabriel Macht, na pele do herói, Dan Lauria (Comissário Dolan), Sarah Paulson (Ellen Dolan) e os vilões: Samuel L. Jackson (Octopus), Scarlett Johansson (Silken Floss), Eva Mendes (Sand Saref) e Paz Vega (Plaster de Paris)..., nenhuma atuação que mereça algum destaque.

The Spirit não é um filme para fãs do personagem ou até mesmo para quem ouviu falar dele, já que é ridículo demais para ser levado a sério. Mas os desavisados podem até gostar.

Crítica: Vicky Cristina Barcelona



VICKY CRISTINA BARCELONA
por Joba Tridente

Curitibano, de certa forma, não acha muita graça em comédia de Woody Allen. Humor inglês, então, nem pensar. Bem, como não sou (apenas estou) curitibano, me sinto livre para rir de tudo que é e que pareça ser engraçado.


Sessão da tarde.
Eu me divertindo, rindo. Na minha frente duas mulheres cochichando, durante o filme todo Filme termina e um delas me olha por um bom tempo e depois sai. Acompanho os créditos. Saio da sala. Elas estão me esperando querendo saber porque eu ria tanto.
- Como assim?
- É um filme dramático, tenso, sério, como o senhor pode achar graça?
- É um filme de Woody Allen, com a sua paleta de humor para todos os gostos (evidentemente para quem gosta de um bom humor): sutil, ferino e até mesmo negro, sempre desvelando o que nos parece o ridículo de cada um.
- O senhor acha que somos ridículos? O ser humano é ridículo?
- Acho! Principalmente quando amamos sem qualquer limite. Woody Allen brinca com todas as possibilidades do amor e o desejo intenso, reprimido, ciumento, neurótico, possessivo... Se amamos intensamente somos ridículos. Se reprimimos intensamente esse desejo somos ridículos. O que torna a vida, de certa forma, divertida, se não para a gente, ao menos para os outros. Sim, porque se não somos nós, são os outros. Há sempre o eu e o outro. O ser humano complica o que parece simples: a entrega ao prazer.


Ah, o desejo! Ah, a vontade!
Há sempre um bando de críticos enfadonhos enterrando Woody Allen, filme após filme, como se ele fizesse filme para a crítica e não para o seu público cativo ou não. Viva Woody Allen! Assim como em Dirigindo no Escuro, fica claro (ôpa!) que tudo é uma questão de como se vê um filme do grande diretor. Acredito ter visto todos os filmes de Woody Allen e penso que em nada perdeu sua produção européia: dos londrinos Match Point, Scoop e O Sonho de Cassandra ao espanhol Vicky Cristina Barcelona. Não o vejo como um Woody Alien em terras do velho continente, mas um sujeito ainda com os pés bem firmes no chão e sabendo muito bem onde anda ou navega. O amor e as relações humanas (até mesmo as não-humanas), o desejo e a repulsa ao sexo, em mãos certas, pode resultar em deliciosas e maravilhosas obras de arte, como no filme Cashback, de Sean Ellis, com uma edição fantástica e um registro fetichista raramente visto no cinema.


No delicioso, divertido e alucinante Vicky Cristina Barcelona tudo funciona: roteiro, atores, música belíssima, fotografia magistral..., muito além de um simples postal. Nele, talvez o mais sensual dos filmes de Woody Allen, enquanto o amor é desejo intenso, o sexo se insinua em cada recanto turístico ou não de Barcelona e de Oviedo. A luz quente, a brisa campestre, o roçar de corpos, o sussurro, a música catalã..., tudo tão à flor da pele, transforma expectador em bem mais que mero voyeur


O sensualíssimo Vicky Cristina Barcelona (Vicky Cristina Barcelona, Espanha, EUA, 2008) visita Woody Allen de outros tempos e outros filmes, mas por outras portas e janelas sempre abertas para novas experiências amorosas, avassaladoras, transgressoras, inesperadas..., e nunca confessadas. É divertido e longe de qualquer divã!
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