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domingo, 24 de abril de 2022

Crítica: Como Matar a Besta

COMO MATAR A BESTA
Matar A La Bestia
por Joba Tridente

O filme especialmente escolhido para a abertura da Sessão Vitrine, no dia 28 de abril de 2022, é uma coprodução que une Argentina, Brasil e Chile num drama de mistério (em tom fabular) que flerta com o universo onírico: Como Matar a Besta, da diretora argentina Agustina San Martín. 


Escrito por Augustina, a narrativa acompanha a chegada de Emília (Tamara Rocca), uma adolescente de dezessete anos, numa cidadezinha na fronteira da Argentina com o Brasil, em busca do irmão Mateo, que não responde às suas chamadas telefônicas, registradas na secretária eletrônica. No lugarejo, rodeado de floresta e tomado por uma neblina que nunca dissipa, Emília se instala na velha hospedaria da sua tia Inês (Ana Brun) e quando se põe em busca do irmão, encontra uma gente local arredia e temerosa com a história de uma besta-fera, que toma forma dos mais diversos animais e estaria escondida na floresta. Não demora para a garota perceber que terá de resolver o misterioso sumiço de Mateo sozinha, já que os moradores, que o ignoram completamente, estão mais preocupados em encontrar o amedrontador animal selvagem. Entre idas e vindas pela comunidade e em meio a problemas com vários eletrodomésticos da hospedaria e os decididos caçadores da fera, Emília faz amizade com Julieth (Julieth Micolta), uma hóspede recém-chegada... 


Como Matar a Besta (Matar A La Bestia, 2021) é um filme em que a bela fotografia de Constanza Sandoval e os achados cenográficos da direção de arte de Agustín Ravotti, num excelente estudo de imagem, contam mais sobre a trama obscura do desaparecimento de uma pessoa e o aparecimento de uma fera, do que a “interação” dos seus “monossilábicos” personagens que, de tão ausentes, parecem espectros aprisionados pela religião e/ou pela ordem estabelecida. Em sua trama econômica (quase um fiapo), vista através de espelhos embaçados, janelas empoeiradas, cortinas velhas e rasgadas, ambientes claustrofóbicos..., todos os alinhavos, todas as costuras possíveis de conteúdo ganham forma e cor tão somente nas observações do espectador, que poderá aceitar ou não a “sugestão” de metáforas (sociais, políticas, religiosas, sexuais) não explicitadas na narrativa em aberto. Cabe a ele dar asas à imaginação, preencher as várias lacunas e fazer conjecturas com os elementos mínimos que terá em mãos. Embarcar ou não na narrativa opressiva (que beira o surrealismo) e de rumo incerto é uma opção. 


Com sua trama lenta e ambígua, que pode dar a impressão de que o filme é uma ótima ideia para um curta com intenção de média que esticado virou longa, Como Matar a Besta deve satisfazer as expectativas daquele público que gosta de mergulhar no universo mítico latino-americano, sabor realismo fantástico, com pitadas de provocação, principalmente religiosa. Ao seu enredo (com pouquíssimos elementos), certamente não faltarão perguntas para espectadores e (ainda que não explore a metalinguagem) personagens encontrarem uma saída daquela estranha e inalterável bruma..., isso se as respostas chegarem a tempo! 

Enfim, seduzido pela fotografia e pela cenografia que (com seu inegável protagonismo) roubam a cena e a essência da história (jogada para um segundo plano), me parece que Como Matar a Besta resulta mais num filme introspectivo, de contemplação da psique humana, que necessariamente de mistério. Quem assistir concluirá! Ou não!

Trailer: Aqui

 

NOTA: As considerações acima são pessoais e, portanto, podem não refletir a opinião geral dos espectadores e cinéfilos de carteirinha. 

Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros videodocumentários fiz em 1990. O primeiro curta-metragem (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.


quarta-feira, 6 de abril de 2022

Crítica: Belchior - Apenas um Coração Selvagem


BELCHIOR - APENAS UM CORAÇÃO SELVAGEM
links: textos em laranja

Quem dos mais antigos admiradores da obra do cantor e compositor BELCHIOR não se lembra da sua “morte” e da sua “ressurreição”, há alguns anos, com a inusitada campanha “FORA TEMER! VOLTA BELCHIOR!”?  

BELCHIOR (1946-2017), que já foi nome de ponta na MPB, simplesmente sumiu de cena num dia qualquer de 2008 (por livre e espontânea vontade, parece) e os fãs, bem como a imprensa, só se deram conta, alguns anos depois, por causa de carros, em seu nome, encontrados, em total abandono em estacionamentos. Foi o suficiente para pipocar muito disse-me-disse sobre o seu desaparecimento e quase que imediatamente, no rastro das primeiras notícias, começar, por todo o Brasil, o movimento “VOLTA BELCHIOR”. 

Bem, esse assunto (que foi manchete por muito e muito tempo) mais ou menos novo e de grande repercussão, ajudou a reavivar a carreira do cantor e compositor cearense que (redescoberto) recebeu merecidos tributos, de grandes nomes do cenário musical brasileiro, em discos e teatro..., e terá sua trajetória contada em cinco filmes e uma série de tv, conforme matéria da jornalista Maria do Rosário Caetano para a Revista de Cinema. O primeiro deles, BELCHIOR - APENAS UM CORAÇÃO SELVAGEM, de Camilo Cavalcanti e Natália Dias, já pode ser assistido gratuitamente, em exibições presenciais e online, no É TUDO VERDADE 2022. 

Sem necessariamente entrar no mérito do sumiço de Belchior, o ótimo documentário BELCHIOR - APENAS UM CORAÇÃO SELVAGEM, traz uma compilação de entrevistas e apresentações de Belchior, bem como recortes de matérias críticas na mídia impressa, desde o começo da sua carreira..., além de poemas e canções interpretadas pelo excelente ator cearense Silvero Pereira. Assim, sem outras vozes críticas, além daquelas que aparecem nas matérias televisivas, tudo o que se ouve e o que se vê é a franqueza do cantor e compositor..., que encontrou a consagração na voz de Elis Regina, com a gravação antológica de “Como Nossos Pais”..., sobre a sua arte musical, o Brasil e a América Latina. 

Ainda que abrangente, é claro que, pelo formato autorretrato (que registra do nascer ao poente do astro), o documentário deixa um gostinho de “quero mais”..., que terá de esperar um pouco pela chegada das novas peças do grande mosaico, com conteúdos outros, sobre BELCHIOR, vindo por aí!

 

ONDE ASSISTIR

BELCHIOR - APENAS UM CORAÇÃO SELVAGEM

07/04/2022 – 20h: Espaço Itaú de Cinema Augusta (SP)

07/04/2022 – 20h: Espaço Itaú de Cinema Botafogo (RJ)

07/04/2022 – 21h: É Tudo Verdade Play - Limite de 1800 Visionamentos

08/04/2022 – 13h: É Tudo Verdade Play - Limite de 200 Visionamentos

08/04/2022 – 15h: Debate com equipe do filme 

no canal do É Tudo Verdade no Youtube


Assista ONLINE no É TUDO VERDADE PLAY

Programação Completa do É TUDO VERDADE 2022

Matéria de Maria do Rosário Caetano 

falando dos próximos filmes sobre Belchior: AQUI


NOTA: As considerações acima são pessoais e, portanto, podem não refletir a opinião geral dos espectadores e cinéfilos de carteirinha. 

Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros videodocumentários fiz em 1990. O primeiro curta-metragem (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.


segunda-feira, 7 de março de 2022

Crítica: O Ingrediente Secreto

 O  INGREDIENTE  SECRETO

ISCELITEL

por Joba Tridente 

Nos últimos anos (pelo excesso de filmes assistidos?) não tenho encontrado motivação alguma para rir diante de elogiadíssimas “comédias” (pelo riso solto) francesas, italianas, norte-americanas, com um punhado de personagens insuportáveis e situações enfadonhas, batidas, que especialistas acharam (onde?) hilárias, e protagonizadas por atores “engraçadíssimos”. Bem, para não entender o tal “humor” corriqueiramente coloquial, provavelmente eu estava com a cabeça, corpo e alma pra lá de Marrakesh. Porém, após tantos riscos com todo tipo de comédia e já pensando que o engasgo do riso era tão somente meu, eis que finalmente me peguei rindo à vontade com uma pérola de humor negro que chegou lá da Macedônia do Norte: O Ingrediente Secreto (Iscelitel, 2017), do roteirista e diretor Gjorce Stavreski, para exibição exclusiva no Festival Volta ao Mundo: Macedônia do Norte, realizado serviço de streaming À La Carte. 

“aspirina com canela” 


É claro que para uma obra cômica (cinematográfica, teatral, literária) fazer alguém rir de verdade, é preciso, antes de tudo, de uma boa história, de um roteiro convincente, de uma trama envolvente, que faça o espectador sentir alguma empatia (mínima) pelos seus protagonistas..., se anti-heróis, muito melhor. É o caso do arrebatador O Ingrediente Secreto, onde o espectador se solidariza imediatamente com o mecânico de trens Vele (Blagoj Veselinov), que vive na periferia da capital Skopje, está sem receber salário há quatro meses e cujo pai Sazdo (Anastas Tanovski) é portador de câncer de pulmão. 


Em dificuldades financeiras e sem poder contar nem mesmo com o Sistema de Saúde para pagar os remédios caros do pai, Vele acaba oportunamente se apropriando de um pacote de entorpecentes escondido num vagão e, seguindo uma receita da internet, faz um bolo com maconha para aliviar as dores insuportáveis de Sazdo. A receita dá certo e o pai se recupera. No entanto, a notícia da melhora do velho se espalha e coloca Vele numa saia justa. Enquanto os idosos com as mais diversas doenças querem, a todo custo, a tal receita do bolo milagroso, uma dupla de traficantes grosseiros desconfia que o mecânico está com a “carga” que lhes pertence. Encurralado, Vele precisa encontrar um jeito de se livrar dos bandidos e da velhada carente de um “curandeiro” que se amontoa na porta da sua casa. A alternativa mais viável para se livrar do incômodo é também a mais dolorida para pai e filho..., mas, uma hora ou outra, terá de ser enfrentada. 


Ainda que a base da receita seja o tratamento medicinal alternativo de maconha, em doenças graves que já não respondem aos remédios convencionais, a narrativa abre pauta também para observações (em subtramas) de outros questionamentos de uma população cansada de promessas governamentais e que (sem saída!) carece de curandeirismo (metáfora genial). O grande trunfo do roteiro de Stavreski, que trabalha com excelência um drama pesado com grande dose de humor absurdo (aliviando a tensão), é a perspicácia de colocar numa mesma tigela ingredientes (Socioeconomia, Neoliberalismo, Saúde, Medicina Alternativa, Desemprego, Educação) que dão ótima liga e enriquecem o sabor de um bolo que tanto cura alguns males quanto fortalece o cérebro para um grito de indignação de maior alcance. 


“Atire nele, filho.
Coloque o dedo no gatilho e atire.
Acabe com seu pai primeiro.
Em seguida, avance pela vizinhança
e mate cada alma viva deste país esquecido por Deus!
Não pense, atire e nos salve dessa miséria!
Atire, garoto! Atire...”


Com notável direção do meticuloso Gjorce Stavreski (que, além do roteiro e direção, fez produção, edição de som e desenho dos títulos de abertura do filme), excelentes performances naturalistas do elenco, que inclui o alivio cômico Dzem (Aksel Mehmet), com destaque para Blagoj Veselinov e Anastas Tanovski..., o irônico e tragicômico O Ingrediente Secreto, que faz crítica sociopolítica certeira ao país dos Balcãs e assemelhados, é um delicioso achado em tempos de comédias pretenciosas e cujo humor não (me) parece ir além da aldeia dos realizadores. 


Sem abusar de trilha sonora (o ouvido do espectador agradece), esta inventiva dramédia de humor negro balcânico, com alguns diálogos amargos e sinceros, pontuados de nostalgia, locações adequadas (principalmente às sequências de suspense), ótima fotografia (por vezes intimista) de Dejan Dimeski e desfecho surpreendente, é daqueles filmes originais que se vê pouco por essas bandas. Já tive oportunidade de assinalar em outras ocasiões que a melhor crítica ao sistema (político e/ou social e/ou religioso e/ou científico) é aquela que se faz com inteligência, com ótima dose de sutileza e de humor absurdo, e não aquela berrante, ideologizada e que (de tão explícita!) se torna redundante e aborrecida. Imperdível! Quero mais... 

 

NOTA: As considerações acima são pessoais e, portanto, podem não refletir a opinião geral dos espectadores e cinéfilos de carteirinha. 

Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros videodocumentários fiz em 1990. O primeiro curta-metragem (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba. 


segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Crítica: A Ilha de Bergman

A ILHA DE BERGMAN

Bergman Island

por Joba Tridente

Fårö é uma ilha de areia fina e paisagem árida, repleta de monólitos de calcário, chamados ‘raukar’, no mar Báltico, a nordeste de Gotland, a maior ilha da Suécia. Hoje em dia Fårö é mais conhecida como a Ilha de Bergman, não porque o famoso cineasta fosse seu proprietário, mas porque adquiriu propriedades, viveu e trabalhou na ilha por mais de 40 anos e foi onde rodou filmes como Através de um espelho; Persona; A hora do lobo; Vergonha; A paixão de Ana; Cenas de um casamento. Ali encontra-se o Centro Cultural Bergman, que proporciona ao turista fã do cineasta o Safári Bergman (passeio por locais de filmagem e pontos curiosos) e a Semana Bergman (com seminários, sessões de cinema, conferências), no final do mês de junho. Ou seja, atrações turísticas cinéfilas, em torno da obra e do grande diretor sueco, não faltam. Inclusive, uma das casas de Ingmar Bergman (1918-2007) é oferecida como residência de artista para autores em crise criativa e/ou em busca de inspiração, como é o caso dos protagonistas do drama romântico A Ilha de Bergman (Bergman Island, 2021), escrito e dirigido pela francesa Mia Hansen-Løve. 

“Bergman foi tão cruel em sua arte

quanto em sua vida.” 


Híbrido de ficção e documentário (mas longe do docudrama), A Ilha de Bergman é um provocante exercício de metacinema que explora as nuances do desejo e da reflexão no fazer cinematográfico, ao acompanhar a rotina de viagem e de desenvolvimento de roteiros de um casal de cineastas nova-iorquinos, Tony (Tim Roth) e Chris (Vicky Krieps). Enquanto o reconhecido diretor Tony participa de eventos da Semana Bergman, do Safári Bergman e escreve com facilidade o seu roteiro..., a insegura Chris, tomada pela melancolia, enfrenta uma crise de criatividade que só começa a ser vencida quando conhece o estudante de cinema Hampus (Hampus Nordenson) e decide traçar o seu próprio itinerário pela ilha bucólica, pesquisando apenas que lhe interessa. 

Mais tranquila, ela esboça algumas ideias para um filme, que se passa em Fårö, ao longo de três dias, e cujos protagonistas, Amy (Mia Wasikowska), uma jovem cineasta, e Joseph (Anders Danielsen Lie), seu ex-namorado, estão ali para prestigiar o casamento de uma amiga e, inevitavelmente, se recordam da relação amorosa que tiveram há algum tempo. Enquanto Chris discute a trama com Tony, esperando que ele a ajude resolver o final da história, o roteiro vai ganhando forma na imaginação do marido (e do espectador). Quanto ao epílogo, este será a chave que fechará as duas narrativas (envolvendo Chris e Amy) e arrematará uma terceira, num encadeamento irresistível e surpreendente em que as aparências (de personagens transitando entre os filmes) realmente enganam, principalmente no cinema. Bem, o termo “fim” também não é dos mais confiáveis... 

“A morte é apenas uma luz se apagando.” 


Uma vez na Ilha de Bergman e às voltas com um roteiro que acaba se dividindo em três e trata basicamente de relações humanas (familiares, conjugais, amorosas, sociais, culturais), a(s) história(s) contada(s) por Hansen-Løve acaba(m) resvalando na obra singular do mestre sueco..., principalmente a Cenas de Um Casamento (constantemente citada no enredo), num catártico contraponto nas “três” narrativas. Porém, ainda que invoque situações análogas em alguns pontos estruturais (notadamente nos diálogos), não parece ser o caso de uma releitura (fragmentada)..., ainda que pairem dúvidas. 

No murmurinho cinéfilo, acredita-se que a metaficção de Mia Hansen-Løve (que foi casada com o famoso cineasta francês Olivier Assayas) talvez seja menos ficção do que parece e que, nas entrelinhas, traria elementos da sua vida profissional e pessoal, tanto na composição do enredo quanto no desenvolvimento das personagens. Talvez por isso (?) que, a princípio, a ambiguidade (?) feminina, a dependência e/ou a necessidade da aprovação e/ou da conivência masculina aos projetos profissionais e/ou pessoais de Chris e Amy (alter egos de Mia?) soa bem estranha, já que, também no cinema, as mulheres estão conquistando com relevância o seu espaço. Depois, durante o processo de amadurecimento dos projetos das duas (ou três?) mulheres, aceita-se tais atitudes como catarse (autoral?). Supondo que, para se livrar de todas as aflições, inseguranças, medos femininos, só “exorcizando” os homens (soberanos) que (sublimados) não atendem às suas expectativas. Daí a impressão de uma marioneteira (Mia) manipulando uma marionete (Chris) que manipula outra marionete (Amy)..., na esperança de uma hora as cordas catárticas se romperem e libertá-las (de si mesmas), para que encontrem a independência profissional e pessoal em algum lugar fora da Ilha de Bergman (real e fictícia). Em algum lugar onde as obras impactantes de autores consagrados não fustiguem os (as) autores(as) iniciantes em busca da própria linguagem. 


Enfim, além do ótimo elenco esmiuçando o mirabolante roteiro e da bela fotografia de Denis Lenoir, enquadrando maravilhosamente as peculiaridades da convidativa Fårö, a diretora Mia Hansen-Løve ainda aproveita o itinerário e a (auto)reflexão de seus personagens cinéfilos pela ilha povoada de fantasmas peliculares bergmanianos, para anotar alguns dados biográficos (mais ou menos relevantes) sobre o cineasta, um indistinto homem/artista. Alguns dados são conhecidos e outros recebem comentários irônicos (meio que fora do contexto) da personagem ChrisNesse ir e vir por uma ilha tão cheia de fatos e fantasias, não falta nem mesmo um “encontro” folclórico com moradores que ainda “cumprem” à risca as recomendações de Bergman sobre as informações que devem dar aos turistas. 

A Ilha de Bergman é um filme que pode fazer o fã de Ingmar Bergman querer revisitar a sua fascinante obra e o espectador leigo a conhecer e certamente se surpreender com o quanto o cinema passado pode fazer sombra no cinema presente. Ah, não confundir o instigante Bergman Island (2021), de Mia Hansen-Løve, com o interessante Bergman Island (2006), de Marie Nyreröd. Pois, entre o devaneio e a memória das águas do mar, nem toda onda é a responsável por esculpir um “raukar”. 

Produzido pela França, Bélgica, Alemanha, Suécia e México, A Ilha de Bergman, chega aos cinemas brasileiros em 24 de fevereiro de 2022, com distribuição da Pandora Filmes.

Trailer Aqui

 

NOTA: As considerações acima são pessoais e, portanto, podem não refletir a opinião geral dos espectadores e cinéfilos de carteirinha. 

Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros videodocumentários fiz em 1990. O primeiro curta-metragem (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba. 


segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Crítica: Licorice Pizza


LICORICE  PIZZA

por Joba Tridente 

Possivelmente por causa do sobrenome, há quem confunda os excelentes diretores norte-americanos Wes Anderson (dos fascinantes Os Excêntricos Tenenbaums; Viagem A Darjeeling; O Fantástico Sr. Raposo; Moonrise Kingdom; O Grande Hotel Budapeste; Ilha de Cachorros) e Paul Thomas Anderson (dos instigantes Boogie Nights; Magnólia; Sangue Negro, Trama Fantasma), ainda que suas premiadas obras sejam distintas. Particularmente, me identifico mais com Wes Anderson, cujo último filme, A Crônica Francesa, menosprezado por parte da crítica, amo de paixão..., por lembrar o meu tempo de redação de jornais e revistas culturais. Embora goste muito do significativo trabalho de Paul Thomas Anderson, confesso que o seu recente Licorice Pizza (2021), indicado ao Oscar 2022, não me pegou em sua corrida sem rumo pelas calçadas e ruas de Encino, na Califórnia. 


Escrito e dirigido por Paul Thomas Anderson, o badalado Licorice Pizza, com todas as idiossincrasias técnicas (testadas e aprovadas em filmes anteriores) do autor, acompanha a turbulenta “relação amorosa” de uma jovem judia, de “25 anos”, que ainda busca o seu lugar no mundo, Alana Kane (Alana Haim), com o adolescente, de 15 anos, Gary Valentine (Cooper Hoffman), um jovem estudante do ensino médio, ator mirim e empreendedor com grande tino comercial..., no Vale de San Fernando, na Califórnia, em 1973. Curiosidades: Alana Haim integra a banda norte-americana de indie rock HAIM, com as irmãs Este e Danielle que, assim como seus pais, aparecem na trama, como membros da família da sua personagem. Cooper Hoffman é filho do falecido ator Phillip Seymour Hoffman. Ambos estreando muito bem no cinema. 


Enquanto a paixonite do improvável casal fica ali no sobe e desce dos encontros e desencontros amorosos e/ou profissionais, como se numa montanha russa desenfreada, alguns personagens bizarros, que tanto pegam quanto largam o bonde andando, aparecem em subtramas pra lá de fragmentadas (para testar o nível de envolvimento dos jovens e/ou a paciência do espectador). Entre eles, Jon Peter (Bradley Cooper) um irritante produtor; Jack Holden (Sean Penn) uma estrela hollywoodiana; Rex Blau (Tom Waits), um histriônico diretor de cinema; Joel Wachs (Benny Safdie), um candidato cuja carreira política está em risco; Jerry Frick (John Michael Higgins), um dono de restaurante de comida japonesa..., que entram em cena, fazem lá seus gracejos (alguns constrangedores), sempre na presença do precoce Gary e/ou da faz tudo Alana, e, então: “- Bye, bye! So long! Farewell!”. 


Licorice Pizza não tem uma história a ser seguida, mas um punhado de esquetes “cômicos” que forçam a mão no “humor” racista, escatológico e sexista, cuja graça vai depender do nível de leitura do espectador, que pode se esbaldar (?) ou se incomodar (!) com as bobageiras típicas norte-americanas..., acreditando que, se era normal rir de tais piadas nos anos 1970, não há nada de mal em rir delas nos anos 2020. Empatias e empatias! Acho que em tempos pandêmicos ando levando tudo muito a sério demais da conta! Ainda mais quando vejo arcos desamarrados e flechas tortas sem alvo definido. 


Ao que se sabe, a nostálgica “trama” é baseada nas memórias de Thomas Anderson, que viveu naquela região, e em alguns fatos envolvendo conhecidos seus e/ou personalidades. O título é uma homenagem à cadeia de lojas de discos Licorice Pizza (Pizza de Alcaçuz), do sul da Califórnia, dos anos 70-80. Daí a trilha sonora ser embalada por grandes baladas, incluindo na seleção David Bowie; Paul McCartney & Wings; Nina Simone; Donovan; The Doors; Seals and Crofts; Sonny & Cher, Bood, Sweat & Tears; Suzi Quatro..., entre outros. Como a música, praticamente, não para, a impressão é a de que, de repente, alguns personagens vão começar a cantar e a dançar como se estivessem em um musical. Sinceramente, chega uma hora em que... 


Enfim, a “comédia” romântica Licorize Pizza (de vários sabores discutíveis) pode não satisfazer o paladar de todos os espectadores famintos por uma boa e divertida história. Seu roteiro vago, por vezes, subestima a inteligência do público pensante, com seus alívios cômicos duvidosos e gags desastrosas, suas sequências torturantes que vão muito além da “piada”, seus retalhos mal costurados na grande colcha retrô do vintage sonho americano self-made man. Mas não há como negar mérito ao seu maior acerto: a escolha do excelente elenco repleto de gente com corpo e cara bem comum. Numa narrativa que dura 133 minutos (40 a 50 minutos a menos fariam grande diferença), o grande destaque fica para a performance dos jovens e carismáticos atores Alana Haim e Cooper Hoffman.

Trailer Aqui

 

NOTA: As considerações acima são pessoais e, portanto, podem não refletir a opinião geral dos espectadores e cinéfilos de carteirinha. 

Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros videodocumentários fiz em 1990. O primeiro curta-metragem (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

domingo, 11 de abril de 2021

Crítica: Culpado Por Suspeita


CULPADO POR SUSPEITA

por Joba Tridente

Um povo mal informado sempre elege governantes mal intencionados. A canalhice institucional não é privilégio de governo de país mais conhecido e ou de país mais esquecido. Ela se espalha feito vírus e se inocula no poder de tal forma que fica difícil (mas não impossível!) combatê-la. São raros aqueles que professam a política sem interesses outros que não o de servir à pátria e, principalmente, aos cidadãos que os elegeram (para ordenar o caos). Quem está no poder quer (mesmo!) poder e fará de tudo (mesmo!) para se manter poderoso no cargo. A qualquer iniciativa para barrar os seus alucinados desmandos, ele se dirigirá ao seu curral de imbecis dizendo ser vítima de uma conspiração global comunista ou socialista ou imperialista pagã para tirá-lo do comando da nação e dominar o mundo. Sabemos muito bem onde se perpetuam e onde desejam se perpetuar tais extremistas. Basta olhar pelo vão das pesadas cortinas e ou por debaixo dos panos que cobrem as mesas dos conchavos.


É por essas e outras noções de perigo sociopolítico que nos avizinham que o enredo de Culpado Por Suspeita (Guilty By Suspicion, 1991), dirigido por Irwin Winkler (Tempo de Recomeçar, De-Lovely - Vidas e Amores de Cole Porter) ainda nos tira o chão. Em pleno 2021, exemplos (próximos)..., de mandatários corruptos, autodenominados defensores da tradição e da família e da religião e (principalmente) do patrimônio, que assombram o povo, alimentando-o com o seu próprio medo do fantasma da ideologia do terror..., não nos faltam. Políticos prepotentes, com seus dois neurônios (Tico e Teco) lavados pela evangelização armamentista inspirada no livro de crônicas da ignorância milenar, não desistem da posição estratégica de destruidor cultural. Para quem arroga poderes (até) divinos, para mandos e desmandos, o maior pesadelo é se defrontar com gente pensante, gente informada, gente culta..., à margem dos seus currais da ignorância e subserviência.

Ao observar a atual cultura do cancelamento (em vida!) nas redes sociais, principalmente de artistas (de qualquer área), por suas opiniões e ou posições sociopolíticas, é impossível não relacioná-la com a absurda censura cultural imposta a autores, diretores, atores etc, entre os anos 1950 e 1957, nos EUA macarthista, que destruiu a vida profissional e familiar de inúmeros intelectuais “de esquerda” que ousavam pensar e ou agir fora dos egocêntricos padrões “patrióticos” dominantes. Tachados de comunistas pró-soviéticos, aos artistas nominados na temível Lista Negra de Hollywood..., cujas vidas eram esmiuçadas desde a juventude, pelo séquito raivoso do Senador McCarthy, que conduzia as investigações do Comitê de Atividades Antiamericanas (HUAC)..., eram “oferecidas” duas alternativas: citar os nomes de outros “comunistas” de seu ciclo de amizades e ou trabalho e voltar à ativa, ou negar os nomes dos inimigos da pátria e ser condenado à prisão e ou ao desemprego. Os torturantes sete anos de perseguição infundada (à classe artística), desencadeados pelo histérico McCarthy, com o aval de J. Edgar Hoover, diretor do FBI e encarregado de “descobrir” as atividades anticomunistas dos “condenados” (sem crime), ainda ressoam nos EUA e deixam resquícios em outros países com vocação autoritária (principalmente abaixo da linha do Equador).


Inspirado em fatos, Culpado Por Suspeita acompanha o insensato processo judicial envolvendo um famoso roteirista e diretor cinematográfico, David Merril (Robert De Niro), que, ao se preparar para rodar seu próximo filme, recebe uma notificação para prestar depoimento, ao Comitê de Atividades Antiamericanas, sobre participações em reuniões comunistas. Pressionado pelo estúdio e espionado pelo FBI, Merril vê o círculo de trabalho diminuir e o circo midiático erguido pelo senador Joseph Raymond McCarthy aumentar e provocar danos (morais e profissionais) na sua vida e na vida de muitos amigos ou colegas de profissão. Assim, após dias de sufoco, as respostas de David à McCarthy e seu Comitê de Abutres, podem ser comprometedoras, mas ele está preparado para as consequências.

O personagem David Merril é fictício, mas o clima kafkiano ao seu redor, a tortura psicológica para delatar conhecidos ou nunca mais trabalhar em Hollywood e ou exercer outra profissão em qualquer lugar dos EUA, é real. Culpado Por Suspeita não é o único a mergulhar no macarthismo. Nessa mesma linha, com mais ou menos intensidade, já tivemos, entre outros filmes, No Despertar da Tormenta (1956); Testa-de-Ferro Por Acaso (1976); Hollywood em Julgamento (1976); Um dos 10 de Hollywood (2000); Boa Noite, Boa Sorte (2005); Trumbo - Lista Negra (2015)..., cada com suas peculiaridades que, no todo, nos dão um panorama do que foram aqueles dias negros para a cultura (principalmente) cinematográfica norte-americana. Um filme a se ver e a se questionar se tamanha angústia cultural e perseguição aos intelectuais realmente chegaram ao fim..., ou se há espaço para repescagem lá e cá. Em tempos de terra plana, há que se ocupar com a engrenagem da gangorra dos negacionistas...

*A partir de 08.04.2021 no serviço de streaming Belas Artes à La Carte

 

NOTA: As considerações acima são pessoais e, portanto, podem não refletir a opinião geral dos espectadores e cinéfilos de carteirinha.

Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros videodocumentários fiz em 1990. O primeiro curta-metragem (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.


segunda-feira, 29 de março de 2021

Crítica: A Despedida

 


A DESPEDIDA

por Joba Tridente

No universo artístico, conforme o tratamento recebido, a enfermidade, em geral, resulta em curiosa reflexão (sobre a fragilidade da vida) para o espectador saudável, e ou (até) a conformidade para o doente. Quanto mais grave a doença explorada, maiores os percalços do realizador da obra (cinematográfica, teatral, literária, plástica). Pois, dependo da posologia de sentimento, ela pode ter sucesso, ir pra encubação do amanhã ou ser totalmente ignorada até pelos hipocondríacos.

O cinema já falou de alcoolismo, surdez, cegueira, mudez, tabagismo, virose, depressão, psicopatia, câncer, Alzheimer, aids, autismo, esclerose... E também já expôs o drama de quem sofre de doença degenerativa e opta pela eutanásia (Amor; O Escafandro e a Borboleta; Mar Adentro; Menina de Ouro). Mas há sempre alguma variante, no glossário da medicina, a ser consultada. Não exatamente a variante da doença, mas a variante humana, a do doente atingido por uma enfermidade degenerativa e como ele se relaciona com a moléstia que aos poucos o deixa incapacitado, vegetando, apodrecendo numa cama e totalmente dependente de algum cuidador da família e ou não...


Em tempo de perdas humanas imensuráveis, ocasionadas pela pestilência do coronavírus, está chegando simultaneamente às salas de cinema e ao streaming uma história que, pela abordagem da eutanásia, há de emocionar e incomodar muita gente..., dos simpatizantes aos opositores: A Despedida. Dirigida pelo britânico Roger Michell (Notting Hill; Chá com as Damas), a narrativa acompanha os preparativos de Lily (Susan Sarandon) e de seu marido Paul (Sam Neill) para um grande final de semana em família. Lily, que sofre com a evolução da esclerose lateral amiotrófica e decidiu submeter-se a um suicídio assistido, espera se despedir da vida e da família em grande estilo. É a sua vontade, enquanto tem condições físicas e mentais de decisão, que espera ser respeitada por todos ao seu redor. Ela quer morrer em paz, se possível. Porém, suas filhas, a controladora Jennifer (Kate Winslet) - casada com Michael (Rainn Wilson) e mãe do adolescente Jonathan (Anson Boon), e a frágil Anna (Mia Wasikowska) - que mantém relação homoafetiva com Chris (Bex Taylor-Klaus), divergem sobre o desejo de eutanásia da mãe. Ou seja, como em toda via de comemoração, na vida ou na arte, o espectador há que se preparar para os indefectíveis atropelos de última hora: confissões avassaladoras, acusações fraternas, mágoas, mea-culpa etc. Quem também se junta ao grupo nesse momento de emoções conflitantes, e acaba prisioneira das discussões alheias, é Liz (Lindsay Duncan), a melhor amiga de Lily.


Cada cultura tem a sua forma de lidar com a morte. Algumas a veem como algo natural, e até comemoram a passagem de um ente querido, outras a escandalizam de tal forma que suas almas ficam penando por séculos. Quando se trata de suicídio e ou de eutanásia, então, a grita de religiosos e familiares egoístas é ensurdecedora. Bom senso e respeito aos mortos, nesta hora, nem pensar. O ódio daqueles que preferem ver um parente apodrecendo numa cama, gastando o que não tem com tratamento sem eficácia, em vez de morto, é maior que a lógica da decência. A discussão do tema, no filme em questão, é, digamos, mais civilizada.

A Despedida (Blackbird, 2019) é a versão melodramática anglo-americana (ao gosto hollywoodiano) para o premiado drama dinamarquês Stille Hjerte (Coração Mudo, 2014), do diretor Bille August (Pelle, o ConquistadorAs Melhores Intenções)..., aproveitando, inclusive, com algumas discutíveis atualizações, o mesmo roteiro do também dinamarquês Christian Torpe. Quem assistiu ao Coração Mudo não ficará indiferente à esta (desnecessária) releitura, com suas idiossincrasias anglo-americanas contemporâneas. Pois, ainda que razoavelmente parecidas, há sempre algo na bela cenografia, nos ótimos diálogos, na história crível, nas escolhas da direção, a se comparar nas duas produções.

Em Coração Mudo, o drama frio, direto e praticamente sem trilha sonora, espreme-se pela casa aconchegante..., cujo clima de inquietação, que beira o claustrofóbico, relando em um e outro visitante, a faz parecer pequena para os convidados, sempre “amontoados” com suas dores e mágoas e a forçada cordialidade. Em A Despedida, o melodrama espalha-se pela imensa casa, embalado por trilha sonora chorosa, alcança todos os recantos de sua beleza gélida e individualiza os convidados egocentrados em seus traumas, como se parte da decoração, distanciando a cordialidade. Entre o conter e o ostentar, o melancólico perde espaço para o melodrama e a recente tendência cinematográfica (acrescentando nada ao enredo) assume as “novas” relações amorosas: sai o casal (Sanne/Dennis) e entra o par lésbico (Hoje em dia é chique ter uma lésbica na família!) Anna/Chris..., fazendo soar falsa a reação puritana ao álcool e ao fumo à mesa da última ceia anglo-americana. Deste modo, a impressão é a de que a (desnecessária) mexida de Christian Torpe, em seu próprio roteiro, tenha sido tão somente para tornar a trama mais palatável (adocicada) ao gosto americano, também alheio às legendas. Cortou aqui, acrescentou acolá, mas o importante é que não mudou a essência: o desejo de eutanásia de Lily e o acerto de contas familiares. O motivo que pode mudar o rumo dos acontecimentos, nas duas produções, não é dos mais críveis, mas acaba funcionando no arremate (na versão dinamarquesa o epílogo é mais interessante). Em um o suporte é a razão. No outro, a emoção. Em ambos, a preocupação em questionar o tema com ternura e humanidade..., e longe de qualquer resquício moralizante.


Enfim, A Despedida tem uma história tocante e, independente da oportuna discussão, certamente vai levar parte do público às lágrimas. O elenco é excelente e cada um tem seu tempo performático. A produção é irretocável, a direção correta e o assunto adulto desvela-se respeitosamente, de forma a manter a atenção e o senso crítico do espectador. Clichês à parte, embora tenha sequências tensas e até de confrontos (convencionais), não é um filme pesado ou sequer deprimente. Quanto ao título original Blackbird, não vi referência e ou sequer metáfora relacionada à vida e ou à morte. Seria interessante que obras com foco na eutanásia servissem de mola propulsora para que a sociedade (ainda) retrógada deixasse o egoísmo de lado e, pensando na dignidade, na dor do outro, discutisse o pertencimento do próprio corpo.

NOTA: As considerações acima são pessoais e, portanto, podem não refletir a opinião geral dos espectadores e cinéfilos de carteirinha.

*Estreia prevista para 31.03.2021, nas salas de cinema e no Now, iTunes, Google Play, Youtube Filmes, Vivo Play e Sky Play.

 

Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros videodocumentários fiz em 1990. O primeiro curta-metragem (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

terça-feira, 23 de março de 2021

Crítica: Siron. Tempo Sobre Tela

 


SIRON. TEMPO SOBRE TELA

por Joba Tridente

O goiano Siron Franco é um dos mais renomados artistas plásticos brasileiros. Suas fascinantes obras repercutem em galerias e museus no Brasil e no exterior. Algumas são vendidas, para colecionadores, antes mesmo de idealizadas e pintadas. Siron Franco, cuja sua obra pessoal se alimenta de sonhos, traumas, pesadelos, memórias e cuja obra monumental se inspira na cultura milenar indígena e ou insanidades contemporâneas, assim se traduz: “Eu lembro mais das coisas que pintei do que das coisas que vivi”. É em busca dessas lembranças que se ocupa o ótimo documentário Siron. Tempo Sobre Tela (2019), roteirizado e dirigido por André Guerreio Lopes e Rodrigo Campos.

Siron. Tempo Sobre Tela, que foi gestado por 19 anos, começou a ganhar forma e conteúdo no ano 2000, quando os diretores, estudantes em Londres, a convite da produtora Malu Campos, passaram a registrar o processo criativo de Siron, que estava por ali produzindo uma série inspirada no bairro Soho. André, que define o filme como “uma tapeçaria do tempo”, conta que, ao analisar o material original, viram que o quê tinham em mãos era “um registro único e importante do trabalho de Siron” e, decididos a ir além, começaram a captar novas imagens no ateliê do artista, em Aparecida de Goiânia, a realizar entrevistas com Siron e a levá-lo a lugares de sua infância. “Pouco antes de começarmos a montagem, Siron nos disponibilizou seu acervo de vídeos, material riquíssimo e inédito, cerca de 180 fitas VHS e Super-8 que ele filmou ao longo da vida, trabalhando nos diversos ateliês, fazendo experimentos de videoarte, viajando para a Europa e para o México nos anos 70 etc.”, complementa André Guerreiro.


Pintor, desenhistas, escultor, performer, ativista, Siron Franco (autor de peças perturbadoras em referência ao Césio 137) tem a mesma intensidade expressiva de suas obras ao falar da sua trajetória profissional e do descaso das autoridades com a cultura no país, referindo-se, naquele momento, ao ato de vandalismo que destruiu, a marretadas, o Monumento As Nações Indígenas, composto de 499 totens, dispostos num espaço de cem mil metros de diâmetro, no setor Buriti Sereno, em Aparecida de Goiânia, com reproduções de obras raras e artesanais dos indígenas brasileiros, na comemoração dos 500 anos da descoberta do Brasil. Em redor do monumento, hoje tomado pelo mato e ponto de consumo de drogas, seriam construídas Escolas e Centros de Estudos da Cultura Indígena..., uma tristeza, ao se comparar o estado atual do local com as imagens do desenvolvimento do projeto e da inauguração. Ainda que não sejam citadas, mais duas obras monumentais de Siron Franco foram vandalizadas, uma em Salvador (BA) e outra em Goiânia (GO). A de Salvador, instalada em 2002, no paredão de concreto em frente ao Dique de Tororó, em homenagem aos 454 anos da cidade, teve suas 454 peças em alumínio fundido, inspiradas em pinturas rupestres, roubadas, uma a uma (a última em 2013). Na obra Caleidoscópio, com indígenas e crianças representando o passado e o futuro, instalada em 2015, na Praça Cívica, em Goiânia, os vândalos jogaram tinta misturada a ácido, em 2016.


André e Rodrigo tomaram cuidado para não perder o foco da matéria e assim, em Siron. Tempo Sobre Tela sabemos o que interessa sobre a genialidade e a arte original do artista, mas praticamente nada sobre sua família e familiares. O que não quer dizer que uma imagem aqui e uma confissão acolá não nos remeta a alguma intimidade de início de carreira, quando pintava retratos, dividindo os lucros com a mãe e a compra de material de pintura, para chegar às Madonas. Ou não permita espiar a solidão do artista diante de uma tela branca que será pintada e repintada exaustivamente, até desvelar as cores e as imagens do inconsciente de Siron que, quando jovem, queria “vender a minha alma: ser do bem e dedicar a minha vida à arte”.

Siron Franco se dedica cada vez mais intensamente à sua instigante arte que roda o mundo e, a cada década ou a cada domínio de técnica, muda de tom em busca de outras significâncias. Nas mãos do artista, imagens outras podem ganhar forma numa tela pintada há anos. Imagens sobre imagens. Ideias se sobrepondo a ideias e o que era um simples reparo vira uma nova obra, para o desespero do proprietário da pintura. Siron, que desde criança é fascinado por todo tipo de imagem, não se cansa de buscá-la onde, aparentemente, ela não está. O seu trabalho “nasce da exaustão, do cansaço, de pintar uma coisa e ver outra coisa e continuar pintando”..., e a cada pincelada dialogar com a sua crença religiosa, o seu posicionamento sociopolítico, os seus atos de fé.


Siron. Tempo Sobre Tela foi editado por Danilo do Valle, com acompanhamento direto dos diretores e suas anotações sobre o farto material disponível. Para André Guerreiro Lopes: “Não se filma Siron impunemente. Tentamos dar forma fílmica, da nossa maneira, à mente criadora de Siron, ao fluxo ininterrupto de pensamentos e ideias, às associações pictóricas, os tempos que se embaralham a cada quadro, o eterno fazer e desfazer de imagens até se chegar à obra final.” Para Rodrigo Campos, o documentário “elucida os meandros do pensamento, da personalidade e da arte desse grande criador brasileiro disponíveis para o maior número possível de pessoas, o que se torna particularmente importante neste momento atual, em que o desprezo das instituições oficiais e de uma grande parte da elite econômica do Brasil pela arte só não é maior do que seu desprezo pela vida em si mesma.

NOTA: As considerações acima são pessoais e, portanto, podem não refletir a opinião geral dos espectadores e cinéfilos de carteirinha.


Siron. Tempo Sobre Tela tem estreia prevista para 25 de março de 2021, simultaneamente nos cinemas e nas plataformas de streaming, Belas Artes A La Carte, Now, Vivo TV, Sky Play e Looke, com distribuição da Pandora Filmes.


Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros videodocumentários fiz em 1990. O primeiro curta-metragem (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.


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