A DESPEDIDA
por Joba Tridente
No universo artístico, conforme o tratamento recebido, a enfermidade, em
geral, resulta em curiosa reflexão (sobre a fragilidade da vida) para o
espectador saudável, e ou (até) a conformidade para o doente. Quanto mais grave
a doença explorada, maiores os percalços do realizador da obra
(cinematográfica, teatral, literária, plástica). Pois, dependo da posologia de
sentimento, ela pode ter sucesso, ir pra encubação do amanhã ou ser totalmente
ignorada até pelos hipocondríacos.
O cinema já falou de alcoolismo, surdez, cegueira, mudez, tabagismo,
virose, depressão, psicopatia, câncer, Alzheimer, aids, autismo, esclerose... E
também já expôs o drama de quem sofre de doença degenerativa e opta pela
eutanásia (Amor; O Escafandro e a Borboleta; Mar Adentro; Menina
de Ouro). Mas há sempre alguma variante, no glossário da medicina, a ser
consultada. Não exatamente a variante da doença, mas a variante humana, a do
doente atingido por uma enfermidade degenerativa e como ele se relaciona com a moléstia
que aos poucos o deixa incapacitado, vegetando, apodrecendo numa cama e
totalmente dependente de algum cuidador da família e ou não...

Em tempo de perdas humanas imensuráveis, ocasionadas pela pestilência do
coronavírus, está chegando simultaneamente às salas de cinema e ao streaming
uma história que, pela abordagem da eutanásia, há de emocionar e incomodar muita
gente..., dos simpatizantes aos opositores: A Despedida. Dirigida pelo
britânico Roger Michell (Notting Hill; Chá com as Damas), a
narrativa acompanha os preparativos de Lily (Susan Sarandon) e de
seu marido Paul (Sam Neill) para um grande final de semana em
família. Lily, que sofre com a evolução da esclerose lateral amiotrófica
e decidiu submeter-se a um suicídio assistido, espera se despedir da vida e da
família em grande estilo. É a sua vontade, enquanto tem condições físicas e
mentais de decisão, que espera ser respeitada por todos ao seu redor. Ela quer
morrer em paz, se possível. Porém, suas filhas, a controladora Jennifer
(Kate Winslet) - casada com Michael (Rainn Wilson) e mãe
do adolescente Jonathan (Anson Boon), e a frágil Anna (Mia
Wasikowska) - que mantém relação homoafetiva com Chris (Bex
Taylor-Klaus), divergem sobre o desejo de eutanásia da mãe. Ou seja, como
em toda via de comemoração, na vida ou na arte, o espectador há que se
preparar para os indefectíveis atropelos de última hora: confissões
avassaladoras, acusações fraternas, mágoas, mea-culpa etc. Quem também se junta
ao grupo nesse momento de emoções conflitantes, e acaba prisioneira das
discussões alheias, é Liz (Lindsay Duncan), a melhor amiga de Lily.

Cada cultura tem a sua forma de lidar com a morte. Algumas a veem como
algo natural, e até comemoram a passagem de um ente querido, outras a
escandalizam de tal forma que suas almas ficam penando por séculos. Quando se
trata de suicídio e ou de eutanásia, então, a grita de religiosos e familiares
egoístas é ensurdecedora. Bom senso e respeito aos mortos, nesta hora, nem
pensar. O ódio daqueles que preferem ver um parente apodrecendo numa cama,
gastando o que não tem com tratamento sem eficácia, em vez de morto, é maior
que a lógica da decência. A discussão do tema, no filme em questão, é, digamos,
mais civilizada.
A Despedida (Blackbird, 2019) é a versão melodramática anglo-americana
(ao gosto hollywoodiano) para o premiado drama dinamarquês Stille Hjerte
(Coração Mudo, 2014), do diretor Bille August (Pelle, o Conquistador; As
Melhores Intenções)..., aproveitando, inclusive, com algumas discutíveis
atualizações, o mesmo roteiro do também dinamarquês Christian Torpe. Quem
assistiu ao Coração Mudo não ficará indiferente à esta (desnecessária)
releitura, com suas idiossincrasias anglo-americanas contemporâneas. Pois,
ainda que razoavelmente parecidas, há sempre algo na bela cenografia, nos ótimos
diálogos, na história crível, nas escolhas da direção, a se comparar nas duas
produções.

Em Coração Mudo, o drama frio, direto e praticamente sem trilha
sonora, espreme-se pela casa aconchegante..., cujo clima de inquietação, que
beira o claustrofóbico, relando em um e outro visitante, a faz parecer pequena
para os convidados, sempre “amontoados” com suas dores e mágoas e a forçada
cordialidade. Em A Despedida, o melodrama espalha-se pela imensa casa, embalado
por trilha sonora chorosa, alcança todos os recantos de sua beleza gélida e individualiza
os convidados egocentrados em seus traumas, como se parte da decoração, distanciando
a cordialidade. Entre o conter e o ostentar, o melancólico perde espaço para o
melodrama e a recente tendência cinematográfica (acrescentando nada ao enredo)
assume as “novas” relações amorosas: sai o casal (Sanne/Dennis) e
entra o par lésbico (Hoje em dia é chique ter uma lésbica na família!) Anna/Chris...,
fazendo soar falsa a reação puritana ao álcool e ao fumo à mesa da última ceia
anglo-americana. Deste modo, a impressão é a de que a (desnecessária) mexida de
Christian Torpe, em seu próprio roteiro, tenha sido tão somente para tornar a
trama mais palatável (adocicada) ao gosto americano, também alheio às legendas.
Cortou aqui, acrescentou acolá, mas o importante é que não mudou a essência: o
desejo de eutanásia de Lily e o acerto de contas familiares. O motivo
que pode mudar o rumo dos acontecimentos, nas duas produções, não é dos mais
críveis, mas acaba funcionando no arremate (na versão dinamarquesa o epílogo é
mais interessante). Em um o suporte é a razão. No outro, a emoção. Em ambos, a preocupação
em questionar o tema com ternura e humanidade..., e longe de qualquer resquício
moralizante.

Enfim, A Despedida tem uma história tocante e, independente da
oportuna discussão, certamente vai levar parte do público às lágrimas. O elenco
é excelente e cada um tem seu tempo performático. A produção é irretocável, a
direção correta e o assunto adulto desvela-se respeitosamente,
de forma a manter a atenção e o senso crítico do espectador. Clichês à parte, embora
tenha sequências tensas e até de confrontos (convencionais), não é um filme
pesado ou sequer deprimente. Quanto ao título original Blackbird, não vi
referência e ou sequer metáfora relacionada à vida e ou à morte. Seria
interessante que obras com foco na eutanásia servissem de mola propulsora para
que a sociedade (ainda) retrógada deixasse o egoísmo de lado e, pensando na dignidade,
na dor do outro, discutisse o pertencimento do próprio corpo.
NOTA: As considerações acima são pessoais e, portanto, podem não
refletir a opinião geral dos espectadores e cinéfilos de carteirinha.
*Estreia prevista para
31.03.2021, nas salas de cinema e no Now, iTunes, Google Play, Youtube Filmes,
Vivo Play e Sky Play.
Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema)
aos 5 anos de idade. Os primeiros videodocumentários fiz em 1990. O primeiro
curta-metragem (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer
crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se
compara à "traumatizante" e divertida experiência de
cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do
norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003),
de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.