domingo, 13 de outubro de 2019

Crítica: A Cidade dos Piratas



A Cidade dos Piratas
por Joba Tridente

Quando se fala em desenho animado, a referência do grande público é a de entretenimento para crianças, com bichinhos e objetos falantes, canções grudentas e histórias edificantes. Mas, no submundo das pranchetas, há muita história ao gosto dos espectadores adultos, que chegou às salas de cinema e ou pode ser encontrada na web, como Psiconautas - As Crianças Esquecidas; Uma Grande Aventura; Anomalisa; Túmulo dos Vaga-lumes; In This Corner of the World; Persépolis; Mary & Max - Uma Amizade Diferente; Rugas; Quando o Vento Sopra; A Festa da Salsicha; Chico e Rita; Fritz, O Gato; O Homem Duplo; Waking Life; Valsa com Balshir; A Ganha-Pão; Perfect Blue; Akira; Heavy Metal; As Bicicletas de Belleville; O Congresso Futurista; Idiots and Angels; O Menino e o Mundo; Uma História de Amor e Fúria; Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock’n’roll... Não há desculpas para quem gosta de animação-cabeça, com temática (sexual, social, política, religiosa) contemporânea, achar que apenas o público infantil é priorizado.


Isso posto, vamos ao que interessa: A Cidade dos Piratas. Quem conhece os filmes do cineasta gaúcho Otto Guerra talvez já saiba (será?) o que esperar da sua mais recente animação em longa-metragem A Cidade dos Piratas. Porém, o espectador de primeiro desenho animado e ou o que só sabe da sua desconcertante obra cinematográfica apenas de ouvir falar e ou, ainda, no momento, está curioso por causa das célebres tiras Piratas do Tietê, da quadrinista Laerte Coutinho, que serviu de inspiração para o filme, vai ter uma baita surpresa..., é capaz até de ficar sem chão. Os machos convictos que se cuidem!

É que, longe da sua zona de conforto de mero espectador, alinhavar a balbúrdia, com tanto assunto polêmico (e muito pertinente no Brasil do retrocesso!)..., como transexualidade e homofobia; bissexualidade e preconceito sexual; machismo e feminismo; assédio e lavagem cerebral; poesia e palavrão; poluição urbana e mental; criatividade, desenvolvimento de roteiro e produção cinematográfica; agruras do câncer de cólon de Otto..., mixado a várias entrevistas reais de Laerte, é nada fácil.


Pelo bom uso e anárquico abuso da metalinguagem, ousaria dizer que Otto faz da animação A Cidade dos Piratas, o seu 8 ½, de Fellini..., uma vez que (diretor e personagem na trama) ele discorre com amargura e humor corrosivo sobre os obstáculos que precisou vencer, do início do projeto, em 1993, quando a ideia era simplesmente animar as tiras Piratas do Tiête, até a mudança de gênero (também sexual) de Laerte, que já não se sentia mais à vontade para adaptar o passado machista e tortuoso de seus personagens saqueadores e acabou turvando as águas do rio-esgoto Tietê, alterando, assim, completamente o curso de navegação do desenho animado.

Toda via do tumultuado tráfego n’A Cidade dos Piratas, no entanto, é bom frisar que, nesse ir e vir de piratas por tintas nunca antes navegadas, os roteiristas Rodrigo John, Laerte Coutinho, Thomas Créus e Otto Guerra não desembarcaram e tampouco desterram completamente os velhos piratas das tirinhas..., apenas atenuaram seu protagonismo. No noves fora da embarcação da discórdia, entre mortos e feridos, após um prólogo cruel, quem marca maior presença no enredo é o Capitão. Os demais aparecem em flashes e ou reconfigurados em outras personagens bem consistentes (político rancoroso, empresário enrustido, crossdresser etc), que soam como metáfora do nosso cotidiano (retrógrado) em busca do poder ou da felicidade.


Uma vez que a trama (com suas histórias paralelas) expõe um panorama intenso, embora íntimo e pessoal, do tumultuado processo fílmico do desenho animado, incluindo a separação profissional do diretor com a produtora Marta Machado e a discussão com a equipe de animadores, bem como o desnudamento de Larte (de certo modo já visto em Larte-se), é difícil classificar o gênero cinematográfico de A Cidade dos Piratas, com seu toque documental e biográfico, em meio aos traços uniformes de ficção e realidade.

Talvez, com a opção de costurar retalhos de várias narrativas (não necessariamente do universo dos Piratas do Tiête, mas sem perder a relevância) numa cidade-labirinto autofágica, onde reina um antropomórfico Minotauro, diria que A Cidade dos Piratas é uma animação híbrida em todos os sentidos. Cada um vai senti-la à sua maneira. Este é o papel da arte! Independente do que eu diga e ou do que o espectador verá na telona, a experiência do cinéfilo será sempre única. O que não quer dizer que não possa ser compartilhada e discutida com um público maior.


Enfim, com ou sem definição precisa de gênero, a provocativa animação A Cidade dos Piratas, de Otto Guerra (Rocky e Hudson: Os Caubóis Gays; Wood e Stock: Sexo, Orégano e Rock’n’roll; Até que a Sbórnia nos Separe), tem a leveza e a sutileza de um rinoceronte numa loja de cristais finos. Portanto, esteja preparado mais para o desconforto do que para o riso (raríssimo), mesmo diante de cenas escatológicas. Se por um lado é tecnicamente irretocável, com suas sequências em preto e branco e ou coloridas, gags-cartuns animadas, excelente montagem (sem perder o ritmo e ou atropelar a narrativa, com a inserção das entrevistas de Laerte ao Roda Viva e Marília Gabriela, entre outros programas)..., por outro, a dublagem (principalmente de Marco Ricca) deixa a desejar. Às vezes é difícil entender as falas das personagens..., mas isso não impede saborear alguns diálogos inteligente e a poesia de Fernando Pessoa, bem como os desabafos de Laerte sobre a sua sexualidade (da adolescência à terceira idade).

Não é um filme de fácil digestão, pela quantidade de temas apresentados, mas deve encontrar um público adulto receptivo hoje, e amanhã, possivelmente um pesquisador interessado em nossos medos presentes. Como diz Laerte: O negrume do medo surge ao nos vermos sem a proteção de uma dor que possa ser curada. Estreia dia 31 de Outubro de 2019.


Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeos-documentários fiz em 1990. O primeiro curta-metragem (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado em Curitiba, no Paraná, Brasil.

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