sábado, 19 de janeiro de 2019

Crítica: A Favorita


A Favorita
por Joba Tridente

Quem não gosta de uma boa intriga amorosa ou política palaciana, principalmente do tipo “inspirada em fatos”? Só é indiferente quem jamais ouviu e ou leu Contos de Fadas, com seus enredos mirabolantes envolvendo príncipes e princesas, reis e rainhas e a plebe em geral. E não há (creio eu) lugar melhor para encontrar intriga de qualidade que num certo reino unido por romances sinistros, dramas maquiavélicos, comédias de erros, tragédias voluntariosas ao gosto bem dosado de um Shakespeare (1564-1616) ou de um irônico Jonathan Swift (1667-1745). Ah, o que seria do mundo sem as “fofocas” reais inglesas de ontem e de hoje?!


Bem, assunto sobre a monarquia inglesa é o que não falta nem para a sétima arte que, dependendo da autoria, direção ou atuação, pode ser mais ou menos contundente. É o caso do provocativo A Favorita (The Favourite, 2018), uma sátira “romanticamente política” dirigida com elegância e muito simbolismo pelo talentoso grego Yorgos Lanthimos (O Lagosta), que não deixa acumular sujeira embaixo e ou atrás de tapetes colossais..., afinal, se houve algo de podre no Reino da Dinamarca, a lama podia muito bem feder na Grã-Bretanha da Rainha Anne (1665-1714), que reinou de 1702 a 1714.

Roteirizado por Deborah Davis e Tony McNamara, com algumas liberdades dramáticas e de calendário, enfatizando as tramas do poder e os fiapos da subserviência, A Favorita traz um recorte (em releitura ousada) da corte da Rainha Anne (Olivia Colman), entre os anos 1704 e 1711, onde (em meio a maquiavélicas discussões parlamentares sobre política de guerra e política de economia) as primas Sarah Churchill (Rachel Weisz) e Abigail Masham (Emma Stone) desenvolvem estratégias ignóbeis para “merecerem” o favoritismo da rainha. Afinal, ser a favorita de Anne significava ser seu braço direito e, por conta de intimidades sexuais, se achar no direito de influenciar e (até) repreender a governanta real..., e ou mesmo “ensaiar” um governo paralelo.


Segundo registros históricos, Lady Sarah Churchill, a Duquesa de Marlborough (1660-1744), aproveitou muito bem o seu período de Guardiã da Bolsa Privada (1702-1710) e de “porta-voz” influente no palácio e no parlamento..., até se achar mais importante que a real cereja do bolo e cair em desgraça real, por conta de seu caráter irascível e ganância. A alpinista social Abigail Masham (1670-1734), que literalmente foi ao chão, mas sacudiu a lama e aprendeu rapidamente o jogo de cintura real, para dar a volta por cima e cobrar caro por seus favores, também nomeada Guardiã da Bolsa Privada (1711-1714), não ficou muito atrás da prima na sede de poder. Cientes da saúde fragilizada e das carências afetivas da Rainha Anne, cada uma, com suas artimanhas bem urdidas, acabou arranjando um jeito de lucrar em família...

Toda via alternativa aos salões de festas, de patos ou de coelhos, no entanto, assim como nem todo prendedor de cabelo é uma coroa real, nem tudo que é história oficial está no excelente enredo, que foca apenas a essência da discórdia..., e de uma forma deliciosamente inusitada e totalmente amoral.


Exuberante e de uma beleza plástica incontestável (na reconstituição de época), por se tratar da adaptação de fatos históricos, obviamente a sua trama pode até ser discutível em alguns pontos, mas é impossível não se deixar enredar por ela do princípio ao fim. Ainda que, por vezes, dolorosamente melancólica, não lhe falta sarcasmo, humor negro, nonsense..., e um insinuante flerte com a luxúria. A suntuosa trilha sonora é praticamente um personagem com força suficiente para roubar algumas cenas (e rouba!): incomoda, enaltece, amedronta. Eu, que a cada dia odeio mais as trilhas, aqui me calo. O que é aquela arrepiante versão de Skyline Pigeon do Elton John?


Enfim, protagonizado por três atrizes em estado de graça (com Olivia Colman arrebatando todas as glórias), este drama detalhista - que enche os olhos com tanto requinte visual (como na troca de lentes, que sugere em seus enquadramentos desconcertantes as mais diversas significações, inclusive a de que a imagem certa na hora certa vale mais que mil palavras ou diálogos ferinos) - não deixa de ser sobre o empoderamento feminino em um tempo (?) nada favorável às mulheres. Embora alguns personagens notórios na política e na sociedade britânica, como Robert Harley (Nicolas Hoult), Sidney Godolphin (James Smith), John Churchill (Mark Gatiss) e Samuel Masham (Joe Alwin), deem o conturbado ar da graça em ótimas sequências, a eles está reservado um bom segundo plano narrativo (não na história oficial, é claro..., já que, naquele tempo (?), tapete para puxar não faltava). É Yorgos Lanthimos mais uma vez se superando. O exuberante A Favorita é simplesmente espetacular!


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

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