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quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Crítica: Crepúsculo do Caos


CREPÚSCULO DO CAOS

(The Last of England)

por Joba Tridente 

O ativista, escritor, cenógrafo, roteirista, diretor Derek Jarman (Sebastiane; A Tempestade; Caravaggio; Wittgenstein; Blue) é um capítulo a parte na cinematografia britânica. Mestre do desconcerto visual, da erotização divinizada, da metaforização sociopolítica, suas obras (que incomodam espectadores de mente tacanha) são verdadeiros manifestos de cor e luz embalados por trilhas sonoras que, por vezes, tornam-se protagonistas. É, sem dúvida, um dos autores internacionais que mais sublimaram o fazer cinematográfico, buscando novas sensações e novas costuras na edição de imagens captadas pelos mais diversos meios. Nesse sentido, Crepúsculo do Caos (The Last of England, 1987 - o título vem de uma pintura, de 1855, do pré-rafaelista Ford Maddox Brown) radicaliza na mensagem, sem qualquer sinal de esnobismo, sobre a tolerância (sexual, social e racial). Na verdade, sobre a falta de tolerância. Crepúsculo do Caos estreia dia 30/09/2021 no serviço de streaming Petra Belas Artes À LA CARTE, com mais quatro novos títulos*. 

“o amanhã foi cancelado por falta de interessados” 


Lá se vão 34 anos e o Crepúsculo do Caos, de Derek Jarman (1942/1994), que poderia soar datado e tematicamente localizado, com sua visão pós-apocalíptica de uma Inglaterra totalitária sob o comando da mão de ferro Margaret Thatcher, continua mais atual que nunca, com a ascensão da extrema-direita na Europa (?) e dos novos fascistas emergindo no contingente de outros continentes. Com fotografia de Christopher Hughes e Derek Jarman, que aproveitou fotos e imagens (em super-8, VHS, 35 mm) também da família, sonorizado por Simon Turner e Andy Gill e narrado por Nigel Terry, a ficção futurista roteirizada por Jarman, com citações de Shakespeare, TS Eliot, Allen Ginsberg..., é um filme que atropela o espectador com a pungência e urgência da sua narrativa imagética.   


É impossível ficar indiferente diante do tropel de imagens que evocam violência física, desespero sexual, mendicância, fome, drogas, execução, colonização (Índia), tortura, terrorismo (Irlanda), guerra (Malvinas)..., num retrato ferino da morte sociocultural do que se conhece como civilização. Ama-se ou deixa-se a sala às primeiras imagens homoeróticas no viés da angústia de um belo jovem ('Spring' Mark Adley) seduzido pelo belo Cupido de Caravaggio. Ativista dos direitos dos homossexuais (ingleses), Derek, que sempre afrontou o conservadorismo (hipócrita) inglês, não se faz de galinha morta e canta de galo diante da homofóbica Cláusula 28, de Thatcher..., fazendo seu canto de revolta ecoar além Reino. 


Num olhar furtivo, realidades sociais, políticas e econômicas passadas e presentes amalgamam num painel ainda (?) atemporal. Têmpera raspada num vidro. Bandeiras virando trapo, símbolos ressignificados, cidadãos virando nada na sina migratória, virando lixo nas fronteiras, virando bicho na clandestinidade. Hoje, a sequência (bizarra?) do casamento de uma jovem (Tilda Swinton), que passa pela execução do marido (irlandês?) e culmina no corte em frangalhos do vestido de noiva, pode ser lida como a saída (Brexit) do Reino Unido da União Europeia, sem perder (ou ganhando mais) a força da indignação e da denúncia. 


Merecedor do Prêmio Teddy, de 1988, em Berlim, para Derek Jarman e do júri para Tilda Swinton, Crepúsculo do Caos, talvez seja o filme mais crítico à Grã-Bretanha já realizado. Com poesia e porrada ele desvenda o que se quer oculto e reescreve o que ser quer esquecido ou apagado das páginas da história. Não é de fácil digestão e vai muito além da sinopse: “Uma visão pessoal do diretor sobre o declínio de seu país, em uma linguagem mais próxima da poesia do que da prosa. Uma meditação sombria em Londres e Belfast sob Thatcher.”..., já que permite as mais diversas leituras e releituras por ingleses (desunidos) e espectadores que só estão de passagem apreciando a paisagem da troca, ou da troça. 


Crepúsculo do Caos é simplesmente catártico! Assim como a vida (do antes e do pós-pandemia), o artista busca cor na ausência da cor. No retardo da barbárie, a imundície iguala todos os miseráveis (executados e executores). No labiríntico cenário de todas as dores e amores mutilados, onde há trevas: a tocha dos ignorantes desvela a ferrugem das personas enodoadas pela ganância..., onde há fome: o descarte é o banquete que escancara os dentes podres dos desesperados. Um filme construído com imagens e pedaços de filmes novos e antigos..., imperdível em qualquer época. Uma obra para quem odeia ter a sua inteligência subestimada. Eros e Thanatos nos pratos da balança cujo fiel é o Caos.

 

NOTA: As considerações acima são pessoais e, portanto, podem não refletir a opinião geral dos espectadores e cinéfilos de carteirinha. 

Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros videodocumentários fiz em 1990. O primeiro curta-metragem (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

 

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*ESTREIAS

 PETRA BELAS ARTES À LA CARTE

 

Para a próxima quinta (30/09/2021), o À La Carte anuncia um filme brasileiro que pode, sim, ser chamado de obra-prima do cinema mundial: Cabra Marcado para Morrer (1984), de Eduardo Coutinho (1933–2014), um filme histórico, necessário, mais do que uma joia cinematográfica, um registro que continua a refletir a realidade sócio-político-cultural do Brasil de hoje.

 


CABRA MARCADO PARA MORRER

Brasil, 1984, cor e p/b, 119 min.

Documentário, 12 anos.

Direção: Eduardo Coutinho

Elenco: Elizabeth Teixeira e Eduardo Coutinho

Narração: Ferreira Gullar e Tite de Lemos. 

O diretor Eduardo Coutinho começou a rodar este documentário na Paraíba, Nordeste do Brasil, em 1964, quando veio o golpe militar. Obrigado a interromper o projeto, Coutinho voltou a ele em 1981, procurando os mesmos lugares e pessoas, mostrando o que havia acontecido desde então, e tentando reunir uma família cujo patriarca, um líder político que lutava pelos direitos dos camponeses, havia sido assassinado dois anos antes das filmagens originais. Este homem era João Pedro Teixeira. Líder da Liga Camponesa de Sapé, município paraibano, ele se tornou um símbolo histórico de resistência, um lutador contra a criminalização dos movimentos populares no campo, no período pré-golpe de 64. 

No dia 02 de abril de 1962, João Pedro foi assassinado a tiros de fuzil, disparados por dois policiais enquanto voltava de João Pessoa para a sua casa, vítima de um crime encomendado por um grupo de latifundiários liderados por Agnaldo Veloso Borges, que assumiu, às pressas, um cargo político, apenas para garantir sua imunidade, enquanto os demais envolvidos foram condenados e absolvidos de seus crimes três anos depois. 


Cabra Marcado para Morrer tem como protagonista Elizabeth Altino Teixeira, viúva de João Pedro. Ela, que por algum tempo assumiu as causas de seu companheiro assassinado, sendo presa diversas vezes, sobreviveu a mais de uma tragédia familiar e passou a viver na clandestinidade, adotando um nome falso e se refugiando no Rio Grande do Norte. Em 1981, quando foi reencontrada por Eduardo Coutinho, para a retomada e conclusão do filme, ela, enfim, voltou para a Paraíba, indo morar em João Pessoa, numa casa que ganhou do próprio Coutinho. Homenageada com o Diploma Bertha Lutz e a Medalha Epitácio Pessoa, hoje Elizabeth tem 96 anos de idade. João Pedro Teixeira, por sua vez, além de se manter vivo neste documentário e na memória nacional, virou nome de rua no município de Parnamirim, no Rio Grande do Norte. 

Narrado por Ferreira Gullar, imortal da Academia Brasileira de Letras e um dos mais importantes poetas do Brasil, Cabra Marcado para Morrer ganhou diversos prêmio nacionais e internacionais, e, em 2015, entrou para a lista da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) como um dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos. Embora para muita gente ele seja o melhor filme brasileiro já feito. Genial como sempre, mais atual do que nunca, Cabra Marcado para Morrer sempre será um clássico que todo mundo precisa conhecer. 


Prêmios: XXXV Festival de Berlim 1985 (Berlim/Alemanha): Prêmios FIPRESCI e Interfilm do Fórum de Cinema Jovem; FesTróia - Festival Internacional de Cinema de Tróia 1985 (Setúbal/Portugal): Prêmio Golfinho de Ouro; VI Festival do Novo Cinema Latino-americano 1984 (Havana/Cuba): Prêmio Coral de Melhor Documentário; I FestRio 1984 (Rio de Janeiro/RJ): Prêmio Tucano de Ouro de Melhor Filme, Prêmio da Crítica, Prêmio OCIC (Ofício Católico Internacional de Cinema) e Prêmio D. Quixote da FICC (Festival Internacional de Cinema); 13º Festival do Cinema Brasileiro de Gramado 1985 (Gramado/RS): Prêmio Hours Concours; Festival de Cine Realidade 1985 (Paris/França): Grande Prêmio. 

Diretor: Nascido em 11 de maio de 1933, em São Paulo (capital), Eduardo Coutinho foi graduado em Cinema na França pelo IDHEC (Institut Des Hautes Études Cinématographiques). Ele iniciou no cinema na década de 1960, participando do movimento Cinema Novo, passando a trabalhar na TV nos anos 70. Considerado um dos maiores diretores de documentários do Brasil, Coutinho escreveu e dirigiu filmes antológicos, como "Cabra Marcado para Morrer" (1984), "Edifício Master" (2002), "Santo Forte" (1999) e "Jogo de Cena" (2007). Com apenas dois longas-metragens ficcionais em sua filmografia, "O Homem Que Comprou o Mundo" (1968) e "Faustão" (1971), o diretor deixou uma filmografia de 23 títulos, incluindo quatro curtas, e uma longa lista de mais de 40 premiações em prestigiados festivais nacionais e internacionais. Eduardo Coutinho faleceu em 02 de fevereiro de 2014, aos 80 anos, no Rio de Janeiro.

 


VÍTIMAS DO PODER

(Eminent domain)

França | Israel | Canadá, 1990

Drama, 106 min, 14 anos

Direção: John Irvin

Elenco: Donald Sutherland, Anne Archer, Paul Freeman

Sinopse: Um membro do Politburo polonês de alto escalão foi banido do partido e deve descobrir por quê. Ambientado em 1979 na Polônia, antes dos eventos do Solidariedade.

 


GANGUE DE LADRAS

(Brave Ragazze)

Itália, 2019, Comédia, 95 min, 14 anos

Direção: Michela Andreozzi

Elenco: Ambra Angiolini , Ilenia Pastorelli,

Serena Rossi , Silvia D'Amico

Sinopse: A história é baseada em uma gangue de ladras francesas disfarçadas de homens, que operou na área de Avignon em meados da década de 1980.

 


PARA SEMPRE E UM DIA

(Forever and a day)

EUA, 1943, Drama, 104 min, 12 anos

Direção: René Clair, Edmund Goulding, Cedric Hardwicke,

Frank Lloyd, Victor Saville, Robert Stevenson e Herbert Wilcox.

Elenco: Kent Smith; Ruth Warrick; George Kirby,

Doreen Munroe, May Beatty

Sinopse: Durante a 2ª Guerra Mundial um americano viaja até a Inglaterra para vender uma velha propriedade da sua família, que fica nos arredores de Londres. Entretanto, ele encontra na casa uma mulher que lá vive e é contra a venda. Eles conversam e ela lhe conta a história da mansão, desde a construção por um almirante inglês em 1804 até o presente. Tanto o americano quanto a moradora da casa ficam exultantes, pois após um bombardeio a pintura do fundador da casa continua intacta, uma simbólica prova da resistência da Inglaterra nos momentos mais difíceis.

 

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quarta-feira, 13 de abril de 2016

Crítica: Ave, César!


O cinema dos irmãos Joel e Ethan Coen se destaca pelo nonsense, ironia e, principalmente, pelo humor negro da melhor qualidade (e profundidade). Eles conseguem falar de qualquer assunto e com uma perspicácia rara..., como, por exemplo, em sua mais recente obra: Ave, César! Aqui a velha Hollywood dos anos 1950 serve como plataforma (mero detalhe!) para se discutir comunismo, religião e capitalismo de forma tão ferina que os ativistas políticos e os praticantes religiosos podem até emburrar com a colocação do assunto, mas (radicalmente!) morrendo de rir de suas idiossincrasias e ou idiotices.


Ave, César! (Hail, Caesar!, 2016), escrito e dirigido por Joel Coen e Ethan Coen, é um filme na medida para quem aprecia um bom (e raro!) cinema com conteúdo crítico e muito bom humor. A narrativa acompanha alguma horas (literalmente) cruciais na vida de Eddie Mannix (Josh Brolin), produtor executivo da Capitol Pictures, às voltas com prazos, orçamentos  e contratações; sequestro de sua maior estrela, Baird Whitlock (George Clooney), em meio às filmagens do épico Ave, César! (um filme sobre Jesus Cristo); atores monossilábicos, como o adorável Hobie Doyle (Alden Ehrenreich, roubando as cenas), ou problemáticos, como a atriz e nadadora DeeAnna Moran (Scarlett Johansson); as gêmeas colunistas sociais Thora e Tessália Thacker (Tilda Swinton); o controle do cigarro e o assédio profissional da Lougheed Aircraft Manufacturing, que espera que ele deixe o instável mundo do cinema pelo estável mundo bélico...


Ave, César! é um comédia deliciosamente superlativa da primeira à última cena. Um cinéfilo-pulga pode até dizer que já foram feitos muitos filmes homenageando o cinema, abusando da metalinguagem para falar da construção e desconstrução do sonho, da fantasia, da ilusão (dialogando com a realidade) e que a nova geração provavelmente não vai entender as referências de filmes clássicos da era de ouro etc. Mas, como disse acima, não é exatamente esse o foco dos Coens. Num mundo a cada dia mais pulverizado por ideologias a cada vez mais irracionais (será que existe alguma que não o seja?), os irmãos cutucam, com seu humor peculiar, principalmente aquelas entranhadas até o talo na política, na religião e na economia capitalista.


Saber algo sobre Herbert Marcuse (1898-1979) e o famoso livro O Capital (Das Kapital), de Karl Marx (1818-1883), é interessante, mas não necessário, já que ambos são assuntos di-da-ti-ca-men-te discutidos, em sequências hilárias, por um grupo de escritores comunistas ocupados em doutrinar artistas e (subliminarmente) espectadores e pode ser pesquisado depois. Assim como não é preciso saber quem foram o astro Gene Kelly e as estrelas Carmen Miranda e Esther Williams, para curtir as cenas em que são homenageados na pele de Channing Tatum (o ambíguo Burt Gurney), de Veronica Osorio (a risonha Carlotta Valdez), de Scarllet Johansson (a temperamental DeeAnna Moran).


É preciso um bocado de inteligência para dosar as “sutilezas” ao desvelar bastidores da vida (religiosa e capitalista) e da arte (de interpretar/representar) de forma tão crítica e ácida..., mas sem jamais perder a ternura do bom humor. E, é claro, inteligência e malícia Joel e Ethan Coen têm em dobro. Sabem, como poucos criadores da sétima arte, solidificar o que está no ar e sutilmente deixar que esta plataforma se desmanche por si só..., como, por exemplo, nas antológicas sequências de reunião de um sacerdote católico e um ortodoxo, um pastor protestante e um rabino para analisar a personificação do mítico Jesus Cristo (que para muitos seria filho de Deus) em filmes, e o desconcertante (!!!) discurso de um centurião aos pés da cruz de Cristo. Gostando ou não das suas abordagens (incômodas?), a verdade é que os Coens não subestimam o seu público, preferem fazê-lo pensar. 


Enfim, considerando a genialidade do argumento e do roteiro de Ave, César!; o seu elenco (que também inclui Ralph Fiennes, Jonah Hill, Frances McDormand, Alison Pill, Wayne Knight, David Krumholtz, Christopher Lambert, entre outras estrelas) em perfeita sintonia; a produção impecável na reconstituição de época; que, assim como na ficção Brazil (1985), de Terry Gilliam, na minha leitura da fascinante comedia dos Coens também vi indícios de um Brasil (até de rede social) atual, em ebulição política, econômica e religiosa..., para mim, já estaria entre os melhores filmes do ano!

Ave, César! é um excelente desafio (muito além das referências cinematográficas) para aquele público sagaz que sabe a diferença entre um conteúdo de qualidade e um mero jogo de cena. Curioso? Vá e veja onde você encaixaria tão provocante metáfora. Ou, se não está nem aí para alegorias, divirta-se (do mesmo jeito) com os trocadilhos, digamos, capitalistas...

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Crítica: Expresso do Amanhã


Em meados dos anos 1970, Jacques Lob (1932-1990) escreveu o roteiro da graphic novel Le Transperceneige (O Perfuraneve) e ofereceu ao desenhista Alexis (1946-1977), de quem era admirador. O quadrinista, que infelizmente faleceu pouco antes de completar 31 anos, só teve tempo de realizar 16 pranchas. No início dos 1980, Lob retomou o projeto em parceria com o desenhista Jean-Marc Rochette e a hq foi publicada, entre 1982 e 1983, na revista À Suivre e, em 1984, no formato de álbum. Numa divertida entrevista, que você pode conferir em L’OBS Rue 89, Rochette comenta que, antes de morrer, Lob lhe disse não ter interesse em continuar a história. O desenhista, então, se juntou ao roteirista Benjamin Legrand e lançou, em 1999 e 2000, mais dois álbuns: L’Arpenteur (O Explorador) e La Traversée (A Travessia). O mais incrível é que, “graças” a uma edição coreana “pirata”, cinco anos depois da edição francesa, Joon-ho Bong, o diretor do alucinado The Host (2006), conheceu a hq, que resultou no ótimo Snowpiercer (Expresso do Amanhã), que finalmente chega aos cinemas brasileiros.


Expresso do Amanhã (Snowpiercer, 2013), do diretor sul-coreano Joon-ho Bong, autor do roteiro em parceria com Kelly Masterson (Antes que o Diabo saiba que Você e está Morto), é uma versão apenas inspirada na famosa graphic francesa que está sendo lançada no Brasil com o título O Perfuraneve (Le Transperceneige). Na envolvente trama cinematográfica (assim como nos quadrinhos) acompanhamos o desejo de ascensão da maltrapilha classe “z”, ocupante dos últimos vagões de um expresso que, em meio a uma nova era glacial, há 18 anos viaja pelo mundo, levando nos primeiros vagões a intocável classe “a”. Ele não para nunca, porque não há estações. Se parar, todos morrem congelados.


Esta admirável locomotiva autossuficiente, que roda a toda velocidade, em círculo (vicioso), é o único veículo em movimento na face gelada da Terra e seus ocupantes os únicos sobreviventes de um desequilíbrio ecológico provocado pelo próprio homem. Todos são prisioneiros neste imenso comboio. O que os diferencia é a “igualdade” na miséria e ou na riqueza de cada um. Enquanto houver um intransponível Purgatório separando o abastado Céu do abominável Inferno, quem se acha a cabeça manda e quem é considerado o pé do gigantesco corpo serpenteante, se tiver juízo (e amor próprio) obedece. Pelo menos essa é a lógica defendida por Mason (Tilda Swinton), a “relações públicas” de Wilford (Ed Harris), o endeusado criador da máquina. Ou era até a hora em que miseráveis, sob a liderança de Curtis (Cris Evans) e Edgar (Jamie Bell), se levantaram, ergueram a cabeça e deram um passo à frente e depois outro..., em busca do “dono da voz”.


Sustentada por um roteiro original e muito instigante, a narrativa sombria (de 126 minutos) vai se costurando sequência a sequência com perspicácia e perturbador humor negro. Assim como os esfomeados rebeldes, o espectador não sabe o que esperar quando o grupo abrir a porta do próximo carro. Não há o “acorde!” ensurdecedor dos filmes de terror. Vagão a vagão o conteúdo não se repete. Mas, intensifica! Amedronta! É preciso ter estômago e nervos de aço para aguentar tanta violência (nunca gratuita!) verbal, moral e física. Num espaço cada vez mais claustrofóbico, sem que se perceba, as minúcias das cenas vão grudando na retina e as sutilezas dos diálogos subliminarmente se acomodando nas vagas do cérebro, até desvelarem uma realidade apavorante. A alma pode não ter cor, como canta André Abujamra, mas, independente do corpo, sangra vermelho. Afinal, a maldade não é “privilégio” de nenhuma classe social!


Expresso do Amanhã é um sci-fi com consciência ecológica e socioeconômica, coisa rara, hoje em dia, no mercado capitalista tomado pela moda da romântica distopia juvenil. Razão que também deve ter contribuído para o boicote dos distribuidores que queriam cortar e mudar o começo e o fim do drama para oferecer algo mais palatável ao “inocente” público norte-americano. O que não adiantou muito, já que mesmo lançado em poucas salas, contrariando os “donos do mercado”, o filme (com inegável DNA sul-coreano) fez razoável sucesso nos EUA. É claro que nem tanto quanto na Coreia do Sul, que levou mais de 10 milhões de espectadores aos cinemas. Essa confusão atrapalhou e adiou o lançamento nos Estados Unidos (2014), e no Brasil (2015).


Enfim, considerando a pertinência da temática; a tessitura do enredo, com soluções inteligentes e apuro técnico; o desempenho espetacular de todo o elenco, com destaque para Tilda Swinton (irreconhecível e roubando todas as cenas), Cris Evans (excelente) e o notável Song Kang-ho; a direção segura de Joon-ho Bong (excetuando por um deslize com um personagem no fim da trama)..., se gosta de ficção científica com substancia e que não te subestime, vá e veja, pois, com certeza, você vai ter muito o que pensar após a sessão desta fascinante (e incômoda!) parábola. 

domingo, 10 de agosto de 2014

Crítica: Amantes Eternos


Desde o Nosferatu (1922), de Murnau, muitos vampiros passaram pelas telas de cinema. A variada fauna de vampiros já provocou tanto calafrios quanto risos. Os últimos que nos chegam, com o selo Jim Jarmusch de qualidade, são intelectuais que preferem a tranquilidade do lar sombrio, ao burburinho de uma vida noctívaga. Em vez do risco de uma jugular infectada, a garantia de um puríssimo sangue “O” hospitalar.

Em Amantes Eternos (Only Lovers Left Alive, 2013), Adam (Tom Hiddleston) é um vampiro músico apaixonado por instrumentos de cordas raros e discos de vinil. Vivendo em uma Detroit (EUA) em ruínas, conta com a ajuda do simpático humano Ian (Anton Yelchin) para conseguir suas preciosidades musicais. A sua mulher Eve (Tilda Swinton), dona de invejável biblioteca, mora em Tanger (Marrocos). Ali compartilha sangue e filosofia com o dramaturgo Christopher Marlowe (John Hurt), aquele que alguns acreditam ser o autor dos famosos dramas de Shakespeare. O músico cool e a leitora voraz vivem uma relação mais espiritual que física. No entanto, sonhos preocupantes com Ava (Mia Wasikowska), a irresponsável irmã de Eve, faz com que o erudito casal se reencontre para decifrar suas aflições.


Amantes Eternos surpreende por ser um drama romântico, quase trágico, sobre vampiros. Ele nada tem de terror. O que pode frustrar quem espera ver sangueira jorrando, corpos despedaçados, morcegos ao entardecer etc, recursos cênicos tradicionais em filmes populares do gênero. Felizmente, Jarmusch não é tradicional e muito menos faz o gênero cinema popular que se degusta com combo e smartphone. O seu público é o espectador pensante que espera se deliciar com uma história, ainda que gótica, mais reflexiva. E reflexão, entremeada de nonsense e humor negro (óbvio!), é o que não falta a estes vampiros existencialistas que pelos séculos e séculos acompanharam a evolução e a derrocada social, econômica, cultural, científica dos humanos (ou zumbis, como se referem aos homens). Basta um requintado cálice de sangue entre os dedos para que os dândis soltem a língua (venenosa?) com ironias sobre grandes nomes da literatura, teatro, música... Quando estão enfastiados de revisitar o passado, destilam sobre o presente. E vão (sobre)vivendo em meio ao vintage cult e o descontrole (autoral) tecnológico.


Após a sessão me peguei pensando numa possível sintonia entre Estranhos no Paraíso (1982) e Amantes Eternos (2013), por um pequeno detalhe. Lá atrás, Eva (Eszter Balint) chegava da Hungria, para “agitar” a vida do primo Willie (John Laurie) e seu amigo Eddie (Richard Edson). Agora é Ava (ou seria Lilith?) quem chega de Los Angeles para “agitar” o Paraíso de Adam (Adão) e Eve (Eva) e, por tabela, provocar o “Anjo da Guarda” Ian. Achei curiosa e divertida e essa analogia (e ruptura) sobre o Paraíso (Perdido, de John Milton?), ou o que nos parece ser um Paraíso até que a “tentação” maliciosamente o enreda. O que distingue ou sobrepõe a Eva (de ontem) e a Ava (de hoje) eu sei. Porém, talvez eu esteja viajando num sangue contaminado. Quem quiser tirar a dúvida, veja os dois filmes e conclua por conta própria.

Não creio que haja um diretor de cinema mais underground que Jim Jarmusch. Em uma antiga fan page (abandonada em 2011) é possível encontrar em Minhas Regras de Ouro, e ou atribuídas a ele, um conceito interessante sobre autenticidade e originalidade. À margem de Hollywood, seu território é palco de personagens melancólicos e ou entediados com os rumos do mundo. Não há como ficar indiferente à sua constância ou preferência pelos marginalizados que vivem por teimosia vagando pelo ermo, pelo submundo americano, ou alçando voos baixos por outras paragens igualmente soturnas.


Tratados com apaixonada relevância, seus marginais são sempre convincentes e, por isso, tão arrebatadores quanto a música que veste particularmente cada um. Música que foge do estereótipo “trilha sonora” e envolve até a plateia mais sisuda..., se é que público sisudo se arrisca a ver cinema alternativo.  Jarmusch e música são tão indissociáveis que em Amantes Eternos ele comparece com o seu trio (indie) Sqürl em números e intervenções arrepiantes..., principalmente para quem gosta do bom e velho rock. Com certeza esta é umas das trilhas que estará fácil entre as melhores de 2014.

Enfim, considerando a excelência do elenco; a provocação e inteligência do roteiro que dribla todos os clichês; a trilha irretocável que ilumina e aconchega a sombria história; a notável fotografia de Yorick Le Saux; um Jarmusch ainda surpreendente..., reserve já o seu ingresso.

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