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domingo, 17 de agosto de 2014

Crítica: Lucy


De Luc Besson gosto de Subway (1985), de Imensidão Azul (1988). Ao ler o pressbook de Lucy, achei que o filme estaria à altura (não esperava que superasse!) do meu favorito e seu melhor trabalho: O Quinto Elemento. Confesso que ao sair da Cabine de Imprensa, achei que seria melhor processar as ideias antes de emitir alguma opinião sobre o que tinha visto. O veredicto apressado: insanidade total.

Insanidade? Sim! Lucy (Lucy, França, 2014), de Luc Besson, é uma ficção pseudocientífica policial tresloucada com pé no acelerador, dedos no gatilho e totalmente sem cabeça. Ôps! Ôps? A trama “discute” a possibilidade do homem, que erroneamente dizem usar apenas 10% do cérebro, conseguir usar 100% (o que já é feito). Como sair de 10% pra 100%? Lucy (Scarlett Johansson) é uma estudante americana em Taipei (Taiwan) que, num rela-rela com seu namorado basbaque, se vê presa (fugir, nem pensar!) a uma maleta com droga e, na (con)sequência, prisioneira do chefão do crime Jang (Choi Min-sik), que a sequestra e a transforma em mula do potente alucinógeno CPH4, que pretende despachar para Paris, Roma, Berlin.


Todavia, num incidente (absurdo, dado o valor do produto!) seu corpo absorve a droga e rapidamente ela começa a despertar os 90% do cérebro adormecido e a desenvolver habilidades sobre-humanas. Acreditando (?) ter apenas 24 horas de vida, Lucy decide viajar para a França, a fim de se consultar com o neurocientista Samuel Norman (Morgan Freeman), que estuda a potencialidade do cérebro humano para além dos 10%..., e de se encontrar com o policial francês Pierre del Rio (Amr Waked), que está no encalço dos outros mulas  a caminho da Europa.

Como sou um ser 100% pensante, mas com a memória falha em 10%, talvez não consiga enumerar todas as “referências” e “homenagens” do produtor, roteirista e diretor Besson aos filmes que precederam a Lucy. Deixa-me ver, a minha lembrança mais antiga é a do Viagens Alucinantes (1980), de Ken Russel e a mais recente - passando por AKIRA (1988), de Katsuhiro Otomo e Matrix (1999), de Andy e Lana Wachowski - é do ótimo Sem Limites (2010), de Neil Burger. Ainda divagando sem critério, cito o belíssimo Ela (2013), de Spike Jonze, o descartável Transcendence (2014), de Wally Pfister, que trocou fiação com Geração Proteus (1977), de Donald Cammell e O Passageiro do Futuro (1992), de Brett Leonard. É melhor acabar logo com a dor de cabeça finalizando com O Cérebro (trash de 1988), dirigido por Ed Hunt.


Se bem que Luc Besson pode não conhecer (?) nenhum dos filmes que citei. Como se sabe, tem muito diretor de cinema que vê (e depois revê) apenas os próprios filmes. O que não tem muita importância, já que o grande público também tem memória curta. Mas, enfim, o frenético Lucy, de francês, tem apenas o seu diretor. O resto é tipicamente clichê e previsibilidade norte-americana, com uma pitada hard-core sul-coreana: tiroteio gratuito; correria; perseguição de carro na contramão (ah!) e sob marquises (oh!) e entre pessoas (ih!); sadismos etc.

A trama insana (ou vice-versa) tem mais furos que o queijo suíço Batman (2012) de Christopher Nolan. O que quer dizer que suscita muito mais “por quês”: Se Lucy tem todo esse poder, por que agiu e ou não agiu assim? Porque ela matou fulano e não matou beltrano? Por que esse sujeito ainda está vivo? Porque a polícia francesa não prendeu os traficantes? Óbvio que se Luc respondesse a todos os “por quês” faria um filme diferente. Possivelmente melhor e não um arremedo de produções estadunidenses do gênero, cujas situações o espectador (memória 100%) já viu trocentas vezes. Bom, mas há que se pensar no espectador (memória 10%) que nunca viu, no cinema ou na tv, perseguições de automóveis, carro batendo ou dando cambalhotas ou voando, tiros a queima roupa ou troca de tiros em lugares públicos, matança de inocentes etc..., não é? Honestamente? Não!


Lucy não é o primeiro e com certeza não será o último filme a falar de drogas (leves ou pesadas) reais ou fictícias, como a CPH4, de Besson, e dos seus efeitos colaterais.  Também porque parece haver um público ávido por “tramas” sobre a belicosidade do tráfico e traficantes. Algumas produções podem até “confundir” o público com a glamourização do tema, mas nunca é demais lembrar que (qualquer) droga vicia e overdose não transforma o usuário em alguém superpoderoso (como Lucy)..., overdose mata. Por falar nisso, nunca consegui entender porque quando um personagem está chapado, bêbado, em cena, quem vê tudo fora de foco e fora de oderm é o espectador e não ele.

Pastiche do gênero policial sci-fi dramático norte-americano, Lucy não apresenta novidade nem na direção, que embaralha “discursos” ou “tempo” ou “cérebro” para parecer inteligente. Da retórica inicial: “A vida nos foi dada há um bilhão de anos. O que fizemos com ela?” à retórica final: "A vida nos foi dada há um bilhão de anos. Agora você sabe o que fazer com ela."..., o roteiro de Besson é pretensioso e a sua analogia com o fóssil Lucy, querendo ir onde o 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick, já esteve há muito tempo, é tola. A metaforização animal/homem/universo (do prólogo ao epílogo) é piegas.


Pontos positivos: elenco protagonista (Johansson tem carisma e fã clube e Freeman status), ainda que o personagem Samuel Norman, de Morgan Freeman, seja o mesmo Joseph Tagger, de Trancendence; fragmentos do mundo animal; parte dos efeitos especiais; a metragem de 90 minutos, que nos livra de 30 minutos ou mais de encheção de saco e idiotices; a ausência de humor, que poupa olhos e ouvidos dos espectadores de piadas escatológicas hollywoodianas.

Considerando que é difícil saber o que é pior, se o script imbecil que subestima o espectador (100%) ou se a narrativa que faz o espectador (10%) se sentir esperto por “antecipar” os acontecimentos clichês; que há nada de novo na tela, a não ser um au revoir sutileza europeia..., o meu veredicto tranquilo: insanidade total.

PS: Apesar da história e do desfecho, a irresistível Lucy In The Sky With Diamonds, de Lennon e McCartney, não faz parte da trilha sonora de Eric Serra. Seria óbvio demais! Atenção: Confira a letra só após o filme..., senão vira spoiler.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Crítica: Winter, O Golfinho



Winter, O Golfinho é um típico drama-terapia, inspirado em fatos reais, que conta (mais) uma história bacana sobre esperança e superação animal e (também) humana. Um prato cheio para os biólogos e psicoterapeutas. Não é o primeiro filme sobre personagens com alguma deficiência física e ou psicomotor, e, com certeza, não será o último. Um Sonho Possível (The Blind Side, 2009), dos mesmos produtores, até garantiu o Oscar à Sandra Bullock, em 2010.  

Dirigido por Charles Martin Smith, baseado no roteiro de Karen Janszen e Noam Dromi, é uma produção que pode ser vista sem sustos por toda a família que gosta de filmes que mexam com as suas emoções. A história é centrada em dois personagens: Sawyer (Nathan Gamble), um garoto introspectivo, com problemas de socialização familiar e escolar que, ao se relacionar com Winter, um golfinho fêmea que perdeu a cauda num acidente, acaba encontrando um novo sentido para a sua vida. Ao redor deles circulam Lorraine Nelson (Ashley Judd), mãe de Sawyer, o Dr. Clay Haskett (Harry Connick Jr.), que administra o Clearwater Marine Hospital, e sua filha Hazel (Cozi Zuehlsdorff), e o Dr. Cameron McCarthy (Morgan Freeman), médico especialista em prótese que tem a difícil missão de criar uma nova cauda para Winter.


A narrativa, que exercita uma pegada no “estilo” documentário mundo animal, acentua os dramas paralelos (falência do Hospital e soldados mutilados), para destacar a importância das pesquisas médicas na área de próteses e de terapias alternativas. A sua trama é simples e, clichês de ocasião à parte, funciona bem como filme-autoajuda ao demonstrar que sempre haverá alguém com um problema maior que o seu e que a solução para todas as aflições está no altruísmo. Convenhamos que o amor universal não é o maior dos sentimentos humanos, mas os americanos tratam a questão com tanta convicção que o espectador acaba aceitando e, até acreditando que o mundo (dos homens) tem salvação. Pelo menos na ficção.


Apoiado numa trilha sonora que provoca emoções até no mais frio dos espectadores, Winter, O Golfinho (Dolphin Tale, EUA, 2011), pode não ser um grande filme, mas cumpre o seu papel de utilidade pública (intencional ou não) ao denunciar o desrespeito dos pescadores com a fauna marinha, vitimando muitos animais. O elenco, que traz ainda Kris Kristofferson, como Reed, o pai de Clay, é irregular, mas não chega a comprometer a produção cujas estrelas (por uma boa causa) são Winter e Sawyer

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Crítica: Invictus



Invictus é um poema escrito por William Ernest Henley e, em sua última estrofe, diz algo como: "Não importa o quanto é estreito o portão,/ a quantos castigos sentenciado;/ eu sou o dono do meu destino;/ eu sou o capitão da minha alma" (It matters not how strait the gate,/ How charged with punishments the scroll,/ I am the master of my fate;/ I am the captain of my soul.). Invictus (Invicto: invencível) é o poema que inspirou Nelson Mandela e o manteve lúcido nos 27 anos, de profundas feridas, passados num cárcere, por acreditar na liberdade e na igualdade de direitos em sua terra negra dominada por brancos ingleses. Invictus (Invictus, EUA, 2009) é o novo filme de Clint Eastwood, feito para quem acredita na paz e no perdão em busca da conciliação.

Numa forte e bela sequência inicial, dois grupos distintos de garotos (brancos uniformizados e negros com roupas comuns) jogam rúgbi, em campos separados. A passagem do carro presidencial, levando Nelson Mandela, desperta sentimentos contraditórios em ambos: temor e esperança no amanhã ainda incerto. A cerca do apartheid ainda levará um tempo maior para ser derrubada. A confiança da minoria branca racista levará um tempo para ser conquistada. E tempo é o que Nelson Mandela não tem. Invictus não é um filme-biografia sobre Mandela, mas sobre um momento crucial na história da África do Sul, logo após ele assumir o governo do país ainda engasgado com o “fim” do apartheid (segregação) e em grave crise socioeconômica.

Baseado no livro Playing the Enemy, de John Carlin, Invictus mostra como Nelson Mandela (Morgan Freeman), dando um grande passo rumo ao futuro de efetivas mudanças, uniu uma nação cheia de rusgas em torno de uma paixão em comum (mesmo segregada): o rúgbi. Para tanto contou com a prestimosa colaboração de Francois Pienaar (Matt Damon), o capitão da desacreditada equipe da África do Sul, Springboks, amada pelos brancos e odiada pela maioria negra, para virar a página da história dela e dos sul-africanos. A aposta única era a Copa Mundial de Rúgbi de 1995, realizada na África do Sul. Com uma poética “injeção” de ânimo e um desejo de reconhecer um país unido, governo e atletas despertaram uma nação. De um lado o presidente sem medo: O esporte tem o poder de mudar o mundo. Tem o poder de inspirar, de unir as pessoas, de uma maneira que nada mais consegue. A nação arco-íris tem início agora. A reconciliação começa agora. O perdão começa agora. De outro, uma equipe que buscou honrar a camisa até o fim: Quer a gente goste ou não, somos mais do que um time de rúgbi… Os tempos estão mudando. Nós também precisamos mudar.

Clint Eastwood está se tornando um mestre das sutilezas, explorando com precisão a intenção da palavra ou do gestual, através de imagens de forte impacto. Daí a maioria dos seus acertos, como em Invictus, onde os diálogos são mínimos, alguns quase monossilábicos. A bela fotografia de Tom Stern, com seu impressionante registro dos jogos de rúgbi e o dinamismo na edição de Joel Cox e Gary D. Roach, são um espetáculo a parte. Se, quando ator, os seus soturnos personagens, praticamente, entravam mudos e saiam calados, sob a sua direção não é muito diferente. Morgan Freeman e Matt Damon (sem exageros e maneirismos) encontraram o tom exato de seus personagens e convencem bem nos papéis carregados de nuances e sotaques. O único perigo em filmes como este, que fala de um ícone da política mundial, é o peso dramático que, num vacilo, pode escorregar para o sentimentalismo barato. Como em algumas sequências (talvez desnecessárias) em que Clint (buscando cumplicidade?) joga com a emoção do espectador, podendo desagradar alguns cinéfilos, por considerá-las muito piegas. Mas isso é um detalhe, uma questão de leitura.

Diferente de suas realizações anteriores, marcadas pela violência física ou psicológica, para sanar violações de direitos, Invictus é até linear, mas não é monótono. Há um tempo (e um ritmo) para refletir e um tempo para agir. A delicadeza de Eastwood, na exposição do racismo, em cenas ou diálogos, corta mais que uma navalhada explícita. Mas não derrama sangue. Invictus é um filme que emociona (e muito), constrange (um pouco) e provoca (pra valer) mesmo quem não é fã de Eastwood ou desconhece a jornada de Nelson Mandela: O que passou, passou. Agora vamos olhar para o futuro.
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