segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Crítica: Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald



Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald
por Joba Tridente

Os fãs do cinema fantasia de qualidade, sabem que, com o fim da franquia Harry Potter, ficou um vazio bem maior que uma tela branca de cinema pode proporcionar. Mas, como em abracadabra que deu certo, sempre há uma chance de alguma outra varinha de condão ser manipulada, para o bem ou para o mal, por mãos habilidosas, maliciosas e ou, pior, maquiavélicas, dentro ou fora da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, eis que, em 2016, voltamos a conviver com o mistério ao folhear as páginas cinematográficas da enciclopédia Animais Fantásticos e Onde Habitam, escrita pelo magizoologista Newt Scamander. Naquele primeiro capítulo, roteirizado por J.K. Rowling e com ótima direção de David Yates, conhecemos uma realidade mágica surpreendente, nos anos 1920, em Nova York, período em que o sonho americano desenvolvimentista e o pesadelo moralista andavam lado a lado com a intolerância e o preconceito, abrindo caminho para a xenofobia.


É nessas primeiras páginas que conhecemos o perverso Grindelwald, disfarçado de Percival Graves (Colin Ferrel), e assistimos à sua prisão pelo MACUSA (Congresso Mágico dos Estados Unidos da América). Agora, quando ia ser entregue às autoridades britânicas, após uma fuga espetacular, o verdadeiro Grindelwald (Johnny Deep) chega a Paris disposto a destilar suas ideias fascistas (para um Bem Maior) e arregimentar bruxos de sangue puro, a fim de estabelecer a superioridade dos magos sobre os trouxas. O único mago que pode derrotá-lo é o seu bom e velho amigo Albus Dumbledore (Jude Law). À medida que Grindelwald age sorrateira e criminosamente para criar uma sociedade ultranacionalista, acompanhamos o sofrimento do jovem obscuro Credence (Ezra Miller), que procura por sua mãe biológica enquanto foge de um bocado de magos. Até mesmo Newt Scamander (Eddie Reydmayne) deixa um pouco de lado seus Animais Fantásticos para encontrar Credence. Pelo que se vê, há bem mais humanos empoderados (caçando ou sendo caçados) que animais domesticados. Mas, sabe como é nesse mundo de bruxedos, quando um portal se abre, ou você chuta o balde, de vez, ou atravessa o pedestal e seja o que a magia quiser...


Imersivo e vertiginoso (em 3D IMAX), Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald (Fantastic Beasts: The Crimes of Grindelwald, 2018), novamente roteirizado por J.K. Rowling e dirigido por David Yates, é daquelas tramas de fios abundantes que vão sendo tecidos vagarosamente para só dar a conhecer o resultado do bordado no arremate. Haja paciência para tantos ornatos! A saga dramática (que está no segundo de cinco capítulos) não adianta muito o alcance feiticeiro das varinhas de condão nas motivações radicais de Grindelwald; nas razões pessoais (talvez até demais) de Albus Dumbledore; na dúbia imparcialidade de Newt; na catarse apavorante do transtornado Credence...

Assim, por enquanto, o que se vê da imensa tessitura é pouco mais de uma curiosa estampa colorida ganhando forma aqui e uma agulhada sangrenta acolá. Imagens impressionantes e conteúdo suficiente apenas para entreter, por hora ou sessão, o espectador que vai ter de esperar ao menos até 2020, para conhecer os novos pontos desse imbróglio, onde um bocado de personagens, como Jacob (Dan Fogler), Queenie (Alison Sudol), Tina (Katherine Waterston), Leta (Zoë Kravitz), Teseu (Callum Turner), Nagini (Claudia Kim), com suas idiossincrasias, mais ou menos exploradas, tenta firmar pé num terreno pra lá de escorregadio, entre o mundo “real” e o “paralelo” (nas entranhas parisienses). Toda via da costura sem dedal, no entanto, nada impede um espectador questionar, por exemplo, se, pelo voar da carruagem de Grindelwald, os fascinantes Animais Selvagens de Newt perderão espaço na história..., se é que não foram meros chamarizes para o enredo sombrio atual..., e ou, contrariando o que se sabe da batalha final entre Grindelwald e Dumbledore, serão os salvadores do dia ou da saga.


Enfim, diferente de Harry Potter, cujos capítulos, de certa forma, tinham começo, meio e fim, Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald, parece seguir uma linha tipo novela de tv: continua no próximo filme. Ele segue apresentando personagens e mais personagens, desvelando vagamente a personalidade (e intimidade) de um ou outro mago, mas nada que entregue o jogo (da liga) dos vilões e (da liga) dos mocinhos. É um bom aperitivo (sem dúvida!). Mas, para muitos espectadores ansiosos, não muito mais que isso: um produto pensado para ser saboreado com parcimônia, já que a próxima página ainda está em branco.

Embora considere que o roteiro, por vezes confunde mais do que explica; certo que o elenco protagonista e (mesmo) de apoio é excelente; ressaltando a qualidade dos efeitos especiais e reclamando da invasiva e insuportável “trilha sonora”..., Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald, com suas metáforas sobre o fascismo e a doutrinação do medo, pode ser visto como um bom (e informativo) espetáculo (sobre os rumos da direita no mundo real) e ou um longo e belo passatempo à beira do escapismo...


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Crítica: O Grinch


O Grinch
por Joba Tridente

O paraíso do entretenimento cinematográfico é muito louco. Sabe-se lá quantos cifrões passam pelas mentes capitais hollywoodianas para decidir os filmes que (re)produzirão. No mundo literário há trocentas histórias que, dependendo do roteirista e do diretor, dariam excelentes filmes. Mas, em tempos de indefectíveis refilmagens (de novo e outra vez), lá pra bandas da terra das palmeiras e do sol caliente, onde até a Disney vem readaptando suas animações clássicas com atores, alguma releitura pode até surpreender. É o caso da terceira versão de O Grinch, que está de volta em formato de longa-metragem animado, dirigido por Yarrow Cheney e Scott Mosier.


Criado pelo escritor e ilustrador norte-americano Dr. Seuss (1904-1991), o personagem apareceu no divertido poema de 32 versos: The Hoobub and the Grinch, em 1955 e, na sequência, no livro How the Grinch Stole Christmas (Como o Grinch roubou o Natal), em 1957..., que foi adaptado para um curta-metragem de animação televisiva, dirigido por Chuck Jones (1912-2002), com roteiro e arte bem fiéis ao livro e às ilustrações originais, em 1966. A fábula, que também ganhou versões musicais para os palcos, foi adaptada e bem ampliada para o longa-metragem estrelado por Jim Carrey e Taylor Momsey, com direção de Ron Howard, em 2000. Agora é a vez da Illumination Entertainment mostrar a sua versão animada e também ampliada desta história que encanta e enternece gerações há seis décadas.


O Grinch (The Grinch, 2018) é daquelas animações de encher os olhos e de cair o queixo, com sua belíssima arte. O roteiro divertido e dramático (sem pieguice), escrito por Michael LeSieur e Tommy Swerdlow, aquece até o coração mais empedernido, ao contar a envolvente história do velho Grinch, um indivíduo solitário, tão inteligente quão rabugento, que mora no nevado Monte Espicho, no arredor de Quemlândia, com seu fiel e explorado cão Max, e todo fim de ano se incomoda com as alegres e agitadas festas natalinas dos quemlandianos, repletas de cantoria, comilança e consumo desenfreado. Porém, como barulho pouco é bobagem, ao saber que os seus vizinhos estão planejando realizar uma festa natalina três vezes maior que a última, o arredio ser de pelo verde decide que, se quiser sossego e neve fria, o melhor a fazer é se disfarçar de Papai Noel e roubar o Natal deles. Enquanto isso, no aprazível vilarejo a decidida garotinha Cindy-Lou Quem, que vive com a sobrecarregada mãe e dois irmãos bebês, traça um plano infalível para encontrar o Papai Noel e, cara a cara, lhe fazer um pedido muito especial...


Se você se viu tentado a assistir ao trailer, infelizmente vai perder algumas surpresas e gags visuais engraçadíssimas. Mas, mesmo assim, há muita coisa ainda para se curtir e rir e refletir nessa fábula sessentona que soa contemporânea, ao falar de consumismo, solidariedade e amor ao próximo. Embora não faça diferença na apreciação, vale ressaltar que, excetuando o curta de 1966, as duas versões mais recentes tomaram liberdades iguais, mas diferenciadas (pensando no público alvo), ao criar um passado para o triste (e quase trágico) Grinch e um núcleo familiar para Lucy..., além do perfil do protagonista, que em 2000, na pele de Jim Carrey, lembrava o vilão Coringa e, agora, em 2018, está mais para mal-humorado (digamos) azarado.


Com diálogos irônicos e personagens graciosos, boas doses de humor pastelão e nonsense, o desenho animado O Grinch é capaz de cativar até mesmo o público alheio ao Natal (cada vez mais materialista). Tecnicamente irretocável, a animação transborda cores e luzes, ao dar forma harmoniosa aos personagens, aos admiráveis objetos de cena e, principalmente, à arquitetura deslumbrante de Quemlândia. Certamente muito adulto vai viajar no tempo ao mergulhar de cabeça e se deixar enredar pela história singela. Toda via Jingle Bells, no entanto, como não poderia ser diferente, o filme que saúda as boas ações do Natal é repleto de canções natalinas que dialogam com a narrativa. Mas, infelizmente, no Brasil, elas não são dubladas e muito menos legendadas..., como se as letras, por vezes edificantes, não tivessem importância para a compreensão das crianças (público alvo) e ou dos acompanhantes que não dominam o inglês. Fora essa bronca antiga, entendendo ou não a cantoria, nada mais te impede de curtir este excelente espetáculo que chega todo rimado para lembrar que o Natal é muito mais que presentes e banquetes faustosos...


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Crítica: Chacrinha: O Velho Guerreiro



Chacrinha: O Velho Guerreiro
por Joba Tridente

Praticamente uma década após o documentário Alô, Alô, Terezinha (2009), de Nelson Hoineff, e trinta anos da sua morte, o indefectível comunicador Abelardo “Chacrinha” Barbosa (1917-1988), é “novamente” tema de filme em Chacrinha: O Velho Guerreiro, dirigido por Andrucha Waddington.


A trama, que se pretende um leque de cores a uma paleta básica, é urdida em duas fases (digamos!) distintas. Na primeira, a apresentação e a ascensão de Abelardo Barbosa (Eduardo Sterblitch), que desembarca no Rio de Janeiro em 1939, quando a viagem para a Alemanha, a bordo do navio Bagé, onde trabalhava como “baterista” do Bando Acadêmico, é interrompida por causa da Segunda Guerra Mundial. Na então capital federal, de bico em bico, ele vira locutor da Radio Tupi e depois da Radio Fluminense, que ficava numa chácara e onde criou o animado programa Rei Momo na Chacrinha (daí que vem o “Chacrinha”). Com o sucesso do programa, feito em estúdio, passou para o auditório com Cassino do Chacrinha. A segunda fase, já como Chacrinha (Stepan Nercessian), aquele que veio pra confundir e não para explicar, o espectador acompanha os altos e baixos da sua carreira alucinada na televisão.


Em cena, o Velho Guerreiro, que estreou na TV Tupi (Rancho Alegre e Discoteca do Chacrinha), em 1956, foi pra TV Rio e depois pra Globo (Buzina do Chacrinha e Discoteca do Chacrinha), de lá voltou pra Tupi, passou pela TV Bandeirantes e retornou à Globo, onde apresentou o Cassino do Chacrinha (1982 a 1988), parece estar com tudo e não estar prosa. Porém, como em toda via biográfica rápida, a se acreditar no foco que aleatoriamente jorra luz (sem manter a luminosidade) onde bem entende, ou provoca curto-circuito ora num palco (rádio/tv) e ora noutro (casa/família), o fardo de melancolia do palhaço de auditório (com intrigas, fofocas de bastidores, denúncias graves e críticas pipocando de todo lado) era tão pesado que faz supor que o preço do seu sucesso era quase insuportável. Aparentemente, a sua única alegria era ser o centro das atenções em meio àquela bagunça generalizada diante das câmeras de tv e do seu público fiel. Ou seria esta impressão também falsa?


Enfim, com direção claudicante de Andrucha Waddington e roteiro frágil de Claudio Paiva, Julia Spadaccini e Carla Faour, Chacrinha: O Velho Guerreiro, oriundo do morno espetáculo teatral festivo Chacrinha - O Musical (difícil acreditar que tenha orçamento de 12 milhões de reais), também dirigido por Andrucha, à primeira vista é agradável e até divertido, com seu humor grosseiro ou nonsense (bem menos baixaria que o humor do musical). Mas, após a sessão, quando a gente começa a pensar e a discutir sobre o que viu, quando a ficha cai realmente, cada tilintar da moeda dá a impressão de que se assistiu tão somente a uma venerada hagiografia travestida de cinebiografia..., onde há muito barulho por nada. Ou muito paetê pra um palco onde a lamúria é bem maior que a felicidade. Tamanha é a mordida em fatos (?) e fofocas (?) por uma boca pequena demais para mastigar o imbróglio sagrado.


Chacrinha: O Velho Guerreiro traz, para degustação da massa, um personagem folclórico e controverso, um fenômeno da televisão brasileira, um tropicalista antropofágico que é ainda é matéria de estudo e discussão. Persona riquíssima, mas cuja narrativa rasa, com mais questionamentos (discutíveis) que respostas às revelações (?) sensacionalistas, parece disposta a enaltecer a coragem do polêmico apresentador apenas para desculpar as suas falhas (?) técnicas, ou de caráter. Se assim é o que se vê, que cada espectador aprecie o que de melhor lhe convier, da ótima reconstituição de época às performances sensacionais de Eduardo Sterblitch e de Stepan Nercessian.

Com a rica matéria-prima à disposição, fosse menos preguiçoso o seu enredo, Chacrinha: O Velho Guerreiro (que deve virar minissérie no canal que o produziu) poderia emparelhar com o excelente Bingo: O Rei das Manhãs (2017), de Daniel Rezende. Mas, ainda assim, é um melodrama padronizado que dá pro gasto!


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Crítica: Bhoemian Rhapsody


Bohemian Rhapsody
por Joba Tridente

Depois de tanto ruído no set: acusações, demissões e (in)definição de conteúdo, finalmente chega aos cinemas a deliciosa cinebiografia Bhoemian Rhapsody, uma fascinante celebração da arte musical do afinadíssimo Freddie Mercury (1946-1991) e da harmoniosa banda de rock inglesa Queen (1970-1991 - clássica), formada por ele (vocal e piano), Brian May (guitarra e vocal), Roger Taylor (bateria e vocal) e John Deacon (baixo).


Baseada no roteiro de Anthony McCarten (O Destino de Uma Nação) e com excelente direção iniciada por Bryan Singer e finalizada (não creditada) por Dexter Fletcher, a cinebiografia é um recorte preciso na trajetória do músico e do quarteto. Com foco maior à sua magna estrela Freddie Mercury, a saga vai de 1970 - quando Freddie (Rami Malek, que substituiu Sacha Baron Cohen), Brian May (Gwilym Lee), Roger Taylor (Ben Hardy) e John Deacon (Joseph Mazzello) criam a poderosa Queen - a 1985 - quando a banda faz a sua memorável apresentação no evento beneficente Live Aid (13.07.1985), organizado por Bob Geldof..., passando pelo apoteótico show no Rock in Rio (11.01.1985).


Embora circule com liberdade pela vida pessoal de Mercury, vale ressaltar que o enredo nada invasivo de Bhoemian Rhapsody apenas tangencia a sua origem parsi zoroastriano, o racismo, a sexualidade (reprimida), o amor real de toda a vida: Mary Austin (Lucy Boynton) e o amor de ocasião: Paul Prenter (Allen Leech), o sucesso, a droga a solidão... Ou seja, para felicidade dos fãs, em vez de se perder no labirinto de especulações escandalosas relacionadas ao mítico cantor e compositor, a narrativa ágil se ocupa mais em desvelar a essência musical do artista e da banda e o seu relacionamento com produtores acostumados com o padrão e não com a ousadia. E sem deixar de brindar o público com cenas do curioso e divertido processo de criação de seus maiores sucessos..., o que vai preparando o espectador para a emocionante catarse final (aguenta coração!): a antológica apresentação no Live Aid, vinte e poucos minutos que valem pelo filme inteiro (que deve ser visto numa sala com equipamento de som e de imagem de qualidade, tipo IMAX). O espectador interessado apenas em fofocas maldosas, escândalos e intimidades explícitas de Mercury, certamente vai quebrar a cara, pois é o que menos importa e (felizmente!) o que menos se vê na maior parte da ótima trama, que não dispensa o humor, quando necessário.


Enfim, considerando a excelente performance do elenco, com destaque para Rami Malek, que aos poucos vai incorporando Freddie Mercury com perfeição e impressionante sincronia vocal e física; louvando a escolha das músicas para a trilha sonora de qualidade e condenando a legendagem brasileira que, excetuando musicais comprovados, não traduz canções-diálogos e ou canções de extrema importância no contexto, como se fosse um crime legendá-las e ou como se no Brasil a língua oficial fosse a inglesa e não a brasileira (por distração, o recente Nasce Uma Estrela teve suas canções traduzidas); lembrando que não se nota turbulência alguma na troca de diretores e nem na eficiente reconstituição de época..., ainda que Bhoemian Rhapsody, com suas licenças poéticas e atropelos de datas, em busca de maior relevo dramático, (talvez) incomode algum cinéfilo ou fã mais purista ou meticuloso, a cinebiografia é um excelente espetáculo musical e visual. Um programa da melhor qualidade para se assistir em dias iluminados e principalmente para se rever nos dias cinzentos que camuflam a intolerância e o ódio no Brasil e no mundo... Que (sobre)viva a Arte em todos nós, agora e sempre!


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Crítica: Podres de Ricos


Podres de Ricos
por Joba Tridente

Todo cinéfilo e ou mero espectador sabe que, entre o original e o improvisado, Hollywood prefere colocar um ator/atriz branco(a) americano(a) colorizado(a) para representar a etnia que for. Mas, a prática (xenofóbica?), que já foi mais crucial, parece que aos poucos está mudando, ainda que lentamente, principalmente no que tange a elencos asiáticos. Talvez de olho no mercado chinês e ou na “descoberta” de um grande filão sino-americano nos EUA. Independente do rumo dos ventos, no entanto, há que se saudar a chegada aos cinemas da deliciosa comédia romântica Podres de Ricos (Crazy Rich Asians, EUA, 2018), dirigida pelo taiwanês-americano Jon M. Chu, cujo elenco é majoritariamente asiático. Algo que não se via desde o belíssimo O Clube da Felicidade e da Sorte (The Joy Luck Club, 1993), dirigido por Wayne Wang.


Adaptado do romance homônimo de Kevin Kwan, pelos roteiristas Peter Chiarelli e Adele Lim, a trama acompanha os percalços do apaixonado casal formado pela chinesa Rachel Chu (Constance Wu) e pelo singapuriano Nick Young (Henry Golding), para provar a força do seu amor, quando da estada em Singapura para o casamento de Colin Khoo (Chris Pang), amigo de infância de Nick. Ela é professora de economia em Nova York e ele se prepara (sem muito entusiasmo) para um dia assumir os negócios bilionários da família em Singapura..., fato que Rachel só vai descobrir e sentir o peso da responsabilidade quando pisar em terra asiática e se ver aprisionada em um círculo de fofocas e preconceitos coordenado por “amigas” invejosas e por familiares de Nick. O empecilho maior virá da tradicional Eleanor Youg (Michelle Yeoh), mãe de Nick, que não tem a menor intenção de abrir mão do seu filho para uma sino-americana (amarela por fora e branca por dentro) sem nome de família. Nesta vida célere, o que vale mais, o amor ou o dinheiro? A herança cultural e social ou o caráter?


Para “conhecer” a resposta, só assistindo a esta envolvente comédia de costumes que desvela um mundo abastado além da ficção e do bolso dos meros mortais. O argumento deste conto de fadas contemporâneo, evidentemente, não é novo, já o vimos em outras produções norte-americanas e sabemos de antemão que o belo casal há de ficar junto no final. Ôps, spoiler? Que nada! Aqui, o que realmente interessa e mantém os nossos olhos grudados no opulento cenário, por onde desfila todo tipo de ostentação, de questionamento socioeconômico e de pequenos dramas familiares, é como serão trançados os fios dourados da meada tradicional (singapuriana) e onde serão amarrados os inesperados fios vulgares (americanos), que nem sempre podem ser cortados, para se criar um novo tecido.
  

Encabeçado por um elenco excelente, incluindo o de apoio, instigantes cenários (o que é aquele casamento, minha gente?!), gags divertidas, pitadas de ironia (ao luxo, à grife, ao brega), alguns diálogos ferinos e em especial uma sequência fascinante, onde as relações familiares e econômicas são avaliadas num complexo jogo de Mahjong, o filme Podres de Ricos jamais parece datado ou antiquado em sua trama. O seu enredo singelo pode não ser nenhuma obra-prima e sequer busca descobrir um novo caminho (comercial?) para a Ásia, mas, para uma produção norte-americana voltada, principalmente, para os asiáticos estadunidenses, cumpre perfeitamente a função de bem entreter e até de cativar o público de outros países.

Enfim, por não assistir a qualquer trailer antes de assistir a qualquer filme, e, portanto, não ter a menor ideia da trama, gostei. Ri um bocado com a desbocada Peik Lin (Awkwafina) e aprendi (superficialmente, afinal isto é cinema e não aula de história) sobre alguns costumes asiáticos..., talvez já nem tão regionais nesta grande aldeia (digital) global onde (ainda) não é fácil assimilar a cultura alheia. A diversão é garantida. Às vezes elegante e às vezes brega, mas nada preconceituosa!


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Crítica: O Primeiro Homem



O Primeiro Homem
por Joba Tridente

A mim, um dos filmes mais fascinantes sobre a corrida espacial norte-americana é Os Eleitos (1983), de Philip Kaufman, baseado no excelente romance homônimo de Tom Wolfe, lançado em 1979. O livro li apenas uma vez, já o filme, assisti várias vezes..., tenho inclusive o DVD. Me lembrei dele ao assistir a cinebiografia O Primeiro Homem, de Damien Chazelle (La La Land: Cantando as Estações, Whiplash), que traz Ryan Gosling na pele do circunspecto astronauta Neil Armstrong (1930-2012), o comandante da missão Apollo 11 e o primeiro homem (do título) a pisar na Lua, em 20 de Julho 1969. Isso não é spoiler, é fato! Mas, não importa, o drama narrado por Chazelle tem mais a ver com a essência, com a personalidade de Armstrong, o homem por trás do astronauta, do que com a história espacial estadunidense que ajudou a escrever.


Adaptado do livro First Man: The Life of Neil A. Armstrong, de James R. Hansen (2005), por Josh Singer (Spotlight - Segredos Revelados e The Post - A Guerra Secreta), O Primeiro Homem (First Man, 2018), traça um panorama interessante sobre o discretíssimo Neil Armstrong, que serviu na Marinha dos EUA; combateu na Guerra da Coréia (1950/1953); foi piloto de teste na Estação de Voo do Comitê Consultivo Nacional para a Aeronáutica (NACA) e entrou para a NASA em 1962, no Grupo dos Nove primeiros astronautas, onde comandou a Gemini VIII, em seu primeiro voo ao espaço, em 1966, e posteriormente a Apolo 11, em 1969.

A saga do lendário astronauta, que ao pisar na Lua criou a frase: "Este é um pequeno passo para o homem e um salto gigantesco para a humanidade", começa a ser narrada pouco antes de Armstrong (Gosling) deixar a NACA, para se inscrever no programa espacial da NASA, num prólogo impactante, a bordo de um avião de teste desenfreado, pilotado por ele, dando o tom da viagem que o espectador fará (por terra e por ar) para acompanhar a sua (in)tensa rotina. Ainda que o (docu)drama acompanhe o dia a dia dos pilotos em cansativas aulas teóricas e perigosas aulas práticas (sujeitas a erros de cálculo que podem custar a vida dos pioneiros espaciais frente ao obsessivo desejo de chegar à Lua antes dos russos, “acomodados” em cápsulas que hoje nos parecem verdadeiras geringonças), o interesse maior de Chazelle é decifrar o enigmático Armstrong, um profissional forte e hábil ao tomar decisões sob pressão e pai e marido introspectivo (de uma fragilidade tocante) no convívio familiar.


Emoldurando a direção subjetiva de Chalezze, está a fotografia magistral e não menos subjetiva de Linus Sandgren (La La Land), incômoda e claustrofóbica em sua constância de close-ups e movimentos nervosos (que podem provocar vertigem em IMAX), buscando desvelar, nas mínimas expressões, o quê o monossilábico engenheiro aeroespacial Neil oculta em seu íntimo. Filmado em 16 e 35 mm e algumas sequências espetaculares em 65 mm-IMAX, O Primeiro Homem coloca o espectador lado ao lado com os astronautas nas precárias aeronaves que, além de apertadas, parecem prestes a se desmontar em pleno voo, espalhando pilotos, placas, circuitos e parafusos para todo lugar. Uma aflição compensada com as imersivas sequências de paisagens siderais de beleza rara, onde aeronaves dançam tal qual dançaram as de Kubrick em 2001 - Uma Odisseia no Espaço (1968)..., ou com as cenas impactantes do cinzento silêncio lunar que nos convida a refletir sobre o futuro que era ingênua especulação ontem e o que poderá ser poluída realidade amanhã.


Diferente de La La Land: Cantando as Estações, onde, segundo Chazelle, os músicos brasileiros e latinos (leia-se: mexicanos) são personae non gratae nos EUA (leia-se: Los Angeles), porque tomam o lugar dos músicos “nativos” estadunidenses, O Primeiro Homem passa a uma galáxia de distância da hagiografia nacionalista, que seria (?) até natural, por se tratar do retrato de um herói norte-americano. A xenofobia do roteirista e diretor também ficou trancada no armário. O que vemos na tela, é um recorte conciso dos anos 1961 a 1969 da vida do cauteloso Neil Armstrong. Material suficiente para saber quem ele era, como se relacionava com a família e a importância da sua participação na custosa corrida espacial. Não há nem mesmo cenas do famigerado nacionalismo triunfal (viu, mundo, do que nós somos capazes?) pós-pouso na lua. Bandeiras norte-americanas aparecem apenas ocasionalmente, há nada que as destaque além da tradição (ou rotina) de um gesto patriótico.


Enfim, considerando o roteiro enxuto e a direção (documental) sóbria, livre de maneirismos, inclusive na condução do ótimo elenco; a dinâmica dos efeitos especiais e a magnífica fotografia; tentando esquecer a invasiva “trilha sonora” (irritante e desnecessária em boa parte, pois tira a força da trama e do drama), que cresce quando emudece nas cenas lunares..., O Primeiro Homem é um filme bom de se ver e de se deixar envolver. Não se preocupe com a metragem (2h20’) você nem vai sentir o tempo passar, pois vai estar voando alto (preferencialmente em um cinema IMAX) com a extraordinária e assustadora saga de um herói (de carne e osso) do espaço. Uma viagem e tanto para quem gosta do assunto e gostaria de saber um pouco mais dos primórdios da conquista do espaço..., ao menos da conquista da nossa vizinhança celeste.


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Crítica: Nasce Uma Estrela



Nasce Uma Estrela
por Joba Tridente

Há filmes que, sei lá se pela aura ou pelo tema, de tempos em tempos alguém decide refilmar com alguma variação, como, por exemplo: Nasce Uma Estrela. O drama original, estrelado Janet Gaynor e Frederic March, escrito e dirigido por William A. Wellman, é de 1937. A primeira refilmagem (e a melhor versão), com Judy Garland e James Mason, dirigida por George Kukor, é de 1954. A segunda, com Barbra Streisand e Kris Kristofferson, dirigida por Frank Pierson, é de 1976. Agora, chega aos cinemas a terceira adaptação, estrelada por Lady Gaga e Bradley Cooper..., que, além da direção, dividiu o roteiro com Eric Roth e Will Fetters.


Nasce Uma Estrela (A Star Is Born, 2018), melodrama musicado, gira ao redor do alcoólatra Jackson Maine (Bradley Cooper), um famoso cantor e compositor de country-rock, e a sóbria Ally (Lady Gaga), uma garota pretendente a cantora. Pelas tramas do destino ou pela sede do acaso, após um show, Maine para em uma boate pra encher ainda mais a cara e fica extasiado ao ouvir a talentosa, mas insegura, Ally cantando La Vie en Rose. Após este encontro ocasional, o romance e o casamento que parece perfeito também nos grandes palcos (de onde Ally voa para o estrelato) e na vida..., o casal de artistas se dá conta de que no mar de rosas que navegam há tanto um bom perfume quanto muitos espinhos no barco volúvel das artes musicais que leva o velho (estilo descolado) a desembarcar para que o novo (estilo pop) ocupe o seu lugar e reme desesperadamente até ancorar num “próximo estilo” qualquer. Dai, enquanto a carreira rock’n’roll bêbada de Maine toma um rumo incerto, a carreira pop genérica de Ally (formatada pela indústria fonográfica) ruma ao sucesso meticulosamente programado. Um panorama (involuntário?) do show business que, no palco das ilusões e dos milhões, segue gerando artistas (sem personalidade) que, dia mais dia menos, serão massacrados no salão da fama, pois o som do coração, que se (a)creditou original ontem, será mera moeda sem valor amanhã.


Quem conhece as versões anteriores de Nasce Uma Estrela, sabe o que esperar do melancólico melodrama e do seu (inevitável?) epílogo trágico, que aqui se repete (80 anos depois) controverso e pouco crível, porém aberto a diversas leituras: ato extremo de libertação do vício?; ato extremo de indignação com a decadência moral?; ato extremo de fuga da fama alheia?; ato extremamente egoísta travestido de boa ação, pois o motivo que o antecede não parece ser para tanto (já não o era nas versões anteriores)? Será que, com a chegada do frígido novo estilo (pop-crush), o quente velho estilo (rock-whisky), segundo uma canção do filme, realmente tem de morrer? Ou será mera força de expressão num cenário musical (mundial) extremamente confuso?


Enfim, levando em conta que a direção de Bradley Cooper é boa e até surpreende em alguns momentos, mas não chega a ser de excelência; sentindo que o roteiro (na pressa de registrar a decadência de Maine e a ascensão de Ally) deixa algumas lacunas e que o contexto musical de Ally é bem mais interessante (na primeira parte) enquanto artista independente (ou indie), do que após a sua caricata formatação física e musical (pela indústria fonográfica) que a iguala a trocentas cantoras tão talentosas quanto ela, mas sem a mesma chance e ou sorte (fazendo ecoar o que apregoa seu pai Lorenzo (Andrew Dice Clay), ao falar de cantores do passado, feito ele, ofuscados por Frank Sinatra); reconhecendo que o elenco (principal e de apoio) é de primeira e que Cooper e Gaga não desafinam nos diálogos e muito menos na cantoria (ao vivo); ciente de que belas canções como “Shallow”, “Always Remember Us This Way” e “I'll Never Love Again” têm grande chance de nomeação ao Oscar e são o que há de melhor na trama que, de certo modo, desmistifica o universo business; lembrando que a arte (do começo de carreira de Ally) pode se inspirar na vida (do começo de carreira de Lady Gaga)..., ainda que a adaptação contemporânea pareça incoerente em tempos cada vez mais individualistas, e que eu não tenha conseguido me conectar totalmente com o filme, acredito que Nasce Uma Estrela encontrará seu público, principalmente, entre os espectadores jovens e fãs de Lady Gaga.


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Crítica: Venom


VENOM
por Joba Tridente

Ando um tanto afastado das histórias em quadrinhos e, sendo um leitor e ex-colecionador das antigas HQs, quando vejo a atual pluralização de alguns personagens (para atender a “novos” segmentos sociais?), me afasto mais ainda. Do (herói? anti-herói? vilão?) Venom a lembrança mais recente é a da sua aparição na telona em Homem Aranha 3, de 2007..., ano em que começou a corrida para um filme do personagem (que já foi vilão e parceiro do HA). Bem, dez anos depois, chegou a hora de ver como ficou este filme (solo!!!) da verdadeira origem do Venom (Venom, 2018), estrelado pelo excelente Tom Hardy (Mad Max: Estrada da Fúria) e dirigido por  Ruben Fleicher (Zumbilândia).

Simples e direta, a trama de Venom não perde tempo com embromações e trata logo de situar paralelamente o espectador na rotina do jornalista investigativo Eddie Brook (Hardy) e na chegada dos alienígenas Symbiotes a Terra, a bordo de um foguete do maquiavélico empresário Carton Drake (Riz Ahmed). Não demora e já vemos como Venom migrou para o corpo hospedeiro do estressado jornalista Brook (Hardy), é caçado por uma equipe de segurança da Fundação Vida e por policiais e pretende ficar por ali (incorporado) até se confrontar com o symbiote Motim, que tem (é claro!) um plano maligno e nada amigável para o planeta...


Baseado na minissérie em quadrinhos Venom: Lethal Protector (1993) e na HQ Planet of the Symbiotes (1995), a ficção científica Venom traz um roteiro juvenil que cumpre satisfatoriamente a apresentação do personagem-título e de seu hospedeiro (sublinhando seus comportamentos - alienígena e humano - nos próximos capítulos da franquia). Com seu jeitão deliciosamente antiquado, é bem divertido. Porém, a violência (até) moderada, pode não agradar totalmente o público mais adulto que estiver na expectativa de pancadaria (mais gore!) e muita destruição, “características” dos filmes do gênero.

A mim, a metragem certa e a trama enxuta, que se ocupa apenas do essencial sobre Brook e Venom, tem tudo para divertir tanto a garotada adolescente quanto o público mais adulto e menos ranzinza. Talvez por ter querido saber praticamente nada do enredo, eu (que não li a sinopse e sequer vi o trailer e ando mais flexível em relação a produções cinematográficas quadrinescas) ri um bocado e nem me incomodei com a preferência da direção por uma zona de conforto médio a um salto mirabolante no escuro profundo para agradar grandes e pequenos espectadores. E mais, como não me lembro das HQs originais e sei que história em quadrinhos de ação (antiga) é uma coisa e cinema de ação (contemporâneo) é outra, bem como exigir coerência nesse caso é bobagem..., relevei.


Quanto ao elenco, quem se sai melhor é Tom Hardy, que parece se divertir muito com suas improvisações (?) hilárias com o Venom. A ação é aquela padrão atual (preferencialmente sem sangue!): perseguição de carro e de moto (com algumas cenas pastelão), tiroteio, explosões e mortes inusitadas (!!!)..., mas nada que gere pesadelos noturnos. Ainda que traga duas sequências pós-créditos (uma delas em animação do Homem Aranha no Aranhaverso), Venom se basta por si só (tem começo, meio e fim). Ou seja, independe de continuações. Toda via das franquias, no entanto, caso continue, tomara que cada capítulo seja completo e único em sua narrativa, sem elipse ou link para o próximo... O CGI (dos symbiotes) é razoável.

Enfim, embora não apresente o sarcasmo ou a violência de Deadpool, a catarse de  Logan e nem a ironia de Os Jovens Titãs em Ação, acredito que Venom tenha material suficiente para enredar o espectador com um humor que vai do ingênuo ao nonsense (com umas duas ou três gags impagáveis em meio ao humor negro). Não lhe falta nem aquela pegada pop que a gente se acostumou a ver e que faz a diferença nas produções da Marvel (lembrando que este é o Universo - paralelo - Marvel da Sony). Pode não ser dos mais memoráveis filmes sobre um anti-herói (amigo da vizinhança de São Francisco) e até mesmo provocar o chororô dos fãs (sedentos de mais terror, mais suspense e mais sangue)..., mas, cá pra nós, ele cumpre fielmente o que promete: uma boa sessão pipoca para todo mundo.


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

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