domingo, 13 de outubro de 2019

Crítica: A Cidade dos Piratas



A Cidade dos Piratas
por Joba Tridente

Quando se fala em desenho animado, a referência do grande público é a de entretenimento para crianças, com bichinhos e objetos falantes, canções grudentas e histórias edificantes. Mas, no submundo das pranchetas, há muita história ao gosto dos espectadores adultos, que chegou às salas de cinema e ou pode ser encontrada na web, como Psiconautas - As Crianças Esquecidas; Uma Grande Aventura; Anomalisa; Túmulo dos Vaga-lumes; In This Corner of the World; Persépolis; Mary & Max - Uma Amizade Diferente; Rugas; Quando o Vento Sopra; A Festa da Salsicha; Chico e Rita; Fritz, O Gato; O Homem Duplo; Waking Life; Valsa com Balshir; A Ganha-Pão; Perfect Blue; Akira; Heavy Metal; As Bicicletas de Belleville; O Congresso Futurista; Idiots and Angels; O Menino e o Mundo; Uma História de Amor e Fúria; Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock’n’roll... Não há desculpas para quem gosta de animação-cabeça, com temática (sexual, social, política, religiosa) contemporânea, achar que apenas o público infantil é priorizado.


Isso posto, vamos ao que interessa: A Cidade dos Piratas. Quem conhece os filmes do cineasta gaúcho Otto Guerra talvez já saiba (será?) o que esperar da sua mais recente animação em longa-metragem A Cidade dos Piratas. Porém, o espectador de primeiro desenho animado e ou o que só sabe da sua desconcertante obra cinematográfica apenas de ouvir falar e ou, ainda, no momento, está curioso por causa das célebres tiras Piratas do Tietê, da quadrinista Laerte Coutinho, que serviu de inspiração para o filme, vai ter uma baita surpresa..., é capaz até de ficar sem chão. Os machos convictos que se cuidem!

É que, longe da sua zona de conforto de mero espectador, alinhavar a balbúrdia, com tanto assunto polêmico (e muito pertinente no Brasil do retrocesso!)..., como transexualidade e homofobia; bissexualidade e preconceito sexual; machismo e feminismo; assédio e lavagem cerebral; poesia e palavrão; poluição urbana e mental; criatividade, desenvolvimento de roteiro e produção cinematográfica; agruras do câncer de cólon de Otto..., mixado a várias entrevistas reais de Laerte, é nada fácil.


Pelo bom uso e anárquico abuso da metalinguagem, ousaria dizer que Otto faz da animação A Cidade dos Piratas, o seu 8 ½, de Fellini..., uma vez que (diretor e personagem na trama) ele discorre com amargura e humor corrosivo sobre os obstáculos que precisou vencer, do início do projeto, em 1993, quando a ideia era simplesmente animar as tiras Piratas do Tiête, até a mudança de gênero (também sexual) de Laerte, que já não se sentia mais à vontade para adaptar o passado machista e tortuoso de seus personagens saqueadores e acabou turvando as águas do rio-esgoto Tietê, alterando, assim, completamente o curso de navegação do desenho animado.

Toda via do tumultuado tráfego n’A Cidade dos Piratas, no entanto, é bom frisar que, nesse ir e vir de piratas por tintas nunca antes navegadas, os roteiristas Rodrigo John, Laerte Coutinho, Thomas Créus e Otto Guerra não desembarcaram e tampouco desterram completamente os velhos piratas das tirinhas..., apenas atenuaram seu protagonismo. No noves fora da embarcação da discórdia, entre mortos e feridos, após um prólogo cruel, quem marca maior presença no enredo é o Capitão. Os demais aparecem em flashes e ou reconfigurados em outras personagens bem consistentes (político rancoroso, empresário enrustido, crossdresser etc), que soam como metáfora do nosso cotidiano (retrógrado) em busca do poder ou da felicidade.


Uma vez que a trama (com suas histórias paralelas) expõe um panorama intenso, embora íntimo e pessoal, do tumultuado processo fílmico do desenho animado, incluindo a separação profissional do diretor com a produtora Marta Machado e a discussão com a equipe de animadores, bem como o desnudamento de Larte (de certo modo já visto em Larte-se), é difícil classificar o gênero cinematográfico de A Cidade dos Piratas, com seu toque documental e biográfico, em meio aos traços uniformes de ficção e realidade.

Talvez, com a opção de costurar retalhos de várias narrativas (não necessariamente do universo dos Piratas do Tiête, mas sem perder a relevância) numa cidade-labirinto autofágica, onde reina um antropomórfico Minotauro, diria que A Cidade dos Piratas é uma animação híbrida em todos os sentidos. Cada um vai senti-la à sua maneira. Este é o papel da arte! Independente do que eu diga e ou do que o espectador verá na telona, a experiência do cinéfilo será sempre única. O que não quer dizer que não possa ser compartilhada e discutida com um público maior.


Enfim, com ou sem definição precisa de gênero, a provocativa animação A Cidade dos Piratas, de Otto Guerra (Rocky e Hudson: Os Caubóis Gays; Wood e Stock: Sexo, Orégano e Rock’n’roll; Até que a Sbórnia nos Separe), tem a leveza e a sutileza de um rinoceronte numa loja de cristais finos. Portanto, esteja preparado mais para o desconforto do que para o riso (raríssimo), mesmo diante de cenas escatológicas. Se por um lado é tecnicamente irretocável, com suas sequências em preto e branco e ou coloridas, gags-cartuns animadas, excelente montagem (sem perder o ritmo e ou atropelar a narrativa, com a inserção das entrevistas de Laerte ao Roda Viva e Marília Gabriela, entre outros programas)..., por outro, a dublagem (principalmente de Marco Ricca) deixa a desejar. Às vezes é difícil entender as falas das personagens..., mas isso não impede saborear alguns diálogos inteligente e a poesia de Fernando Pessoa, bem como os desabafos de Laerte sobre a sua sexualidade (da adolescência à terceira idade).

Não é um filme de fácil digestão, pela quantidade de temas apresentados, mas deve encontrar um público adulto receptivo hoje, e amanhã, possivelmente um pesquisador interessado em nossos medos presentes. Como diz Laerte: O negrume do medo surge ao nos vermos sem a proteção de uma dor que possa ser curada. Estreia dia 31 de Outubro de 2019.


Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeos-documentários fiz em 1990. O primeiro curta-metragem (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado em Curitiba, no Paraná, Brasil.

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Crítica: Coringa



C O R I N G A
por Joba Tridente

Advertência: Se você é um espectador que está ansioso para assistir à mais nova versão “biográfica” do Coringa, no cinema (que é onde deve ser visto), é bom esquecer tudo aquilo que você conhece e ou que pensa conhecer e ou, ainda, o que ouviu falar sobre o icônico arquiinimigo do Batman..., pois esta história de origem, sem o homem-morcego por perto, pode dar um nó “irreversível” no seu cérebro, principalmente se tiver coulrofobia (medo de palhaços).


Coringa (Joker, 2019), estrelado, ou melhor, incorporado com maestria por Joaquin Phoenix, sob direção minuciosa de Todd Phillips, traz uma leitura incômoda da personagem que, levada pelas circunstâncias e a esquizofrenia, passa de um palhaço lúdico, de sonho de criança ("Minha mãe sempre me diz para sorrir e fazer uma cara feliz. Ela me disse que eu tinha um propósito: trazer risos e alegria ao mundo"), a um palhaço amedrontador, de pesadelo (“Só o que eu tenho são pensamentos negativos.”), e que espectador algum vai querer encontrar pelas ruas do seu sono. Se, como cantou Caetano Veloso em Vaca Profana (1984), “De perto ninguém é normal.”, quanto mais nos aproximamos e tentamos decifrar este “novo” Coringa (ou Arthur Fleck, seu nome de batismo), mais enigmático e real ele nos parece no alto (ou no interior) de sua paranóia homicida (norte-americana?).


É impossível não sentir empatia pelo dedicado Arthur Fleck/Coringa, principalmente no primeiro ato ("Sou só eu, ou as pessoas estão ficando mais loucas lá fora?"), vivendo uma vida miserável, cuidando da mãe (Frances Conroy) enferma, enfrentando todo tipo de humilhação, na rua e no trabalho, e, entre um transtorno e outro, escrevendo seu show stand-up (a sua tábua de salvação), que sonha em apresentar no programa televisivo de Murray Franklin (Robert De Niro) e se tornar tão famoso quanto o seu ídolo (e quem sabe ser perdoado por suas falhas morais). Assim como..., em uma cidade cheia de nãos, aos menos favorecidos social e mentalmente, feito a caótica Gothan City, tomada por ratos e pelo lixo doméstico e humano..., é fácil entender a razão das suas ações e reações insanas, que vão aflorando no seu cotidiano perverso e crescendo rumo ao apoteótico terceiro ato.

Possivelmente, por causa da acentuada presença do astro De Niro, como apresentador de tv, os cinéfilos mais antigos veem na trama visceral de Coringa, em que a ficção ganha ares de realidade (contemporânea), referências aos filmes O Rei da Comédia (no que tange à fama a qualquer preço) e Taxi Driver (no que tange à justiça a qualquer preço), ambos de Martin Scorsese. Toda via das referências, porém, não me parece que estas reverências causem ruídos (ou demérito) na trama original, escrita por Scott Silver e Todd Phillips, que não muda o caráter de Arthur Fleck/Coringa, mas acentua o desequilíbrio mental do futuro vilão (vítima da sociedade?) idiossincrático. Ainda que conte com a presença dos Wayne, mais precisamente na figura de Thomas Wayne (Brett Cullen) que, por conta de um desfecho clássico, torna-se uma piada mortal, na visão do inconstante Coringa (com seu angustiante tique do riso), não deixa de ser uma história autônoma.


Enfim, não creio que Coringa, premiado com o Leão de Ouro, no Festival Internacional de Cinema de Veneza, em 2019, seja a senha para qualquer maluco (psicopata ou não) se inspirar e sair fazendo justiça com as próprias mãos (se não falhar o dedo no gatilho), afinal, por mais semelhanças que tenha com a realidade (da impunidade) é uma ficção com base em elementos quadrinescos. O que não quer dizer que as HQs não possam refletir o cotidiano das terras do tio Sam e d’outras paragens terráqueas.

Então, considerando o fascinante estudo de personagem; a performance tão arrebatadora quão assustadora de Joaquin Phoenix; a perspicácia do roteiro que, mesmo com duas sequências previsíveis, magnetiza o espectador; a violência psicológica, que é muito mais perturbadora que a violência (explícita) física; a neurose de um mundo (real) comandado por criminosos; as apavorantes sequências dentro do metrô, com destaque para a derradeira, insuportavelmente opressiva; a válvula de escape do humor mínima; o cinismo à flor da pele e à luz dos olhos; a trilha sonora tensa; a cenografia (claustrofóbica); o vistoso figurino do Coringa; a sensacional fotografia detalhista de Lawrence Sher..., o filme Coringa vai fazer você querer menos realismo e mais ficção no cinema.


Portanto, se você tem coulrofobia (medo de palhaço), surtos psicóticos, toma remédio controlado (psicotrópico, tarja preta), é sugestionável, é criança, passe longe (muito longe!) de Coringa. Caso contrário, boa sessão! Pois, como disse o mestre Charles Chaplin: “A vida é uma tragédia quando vista de perto, mas uma comédia quando vista de longe.” Será?!


Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeos-documentários fiz em 1990. O primeiro curta-metragem (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado em Curitiba, no Paraná, Brasil.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Crítica: Hebe - A Estrela do Brasil



HEBE - A ESTRELA DO BRASIL
por Joba Tridente

O Brasil tem grandes nomes da cultura popular do rádio, teatro, cinema, literatura, televisão, folclore que, sob o olhar certo, resultariam em excelentes documentários e ou cinebiografias dramatizadas (docudramas). Pena que a maioria (e dependendo da ocupação artística!) só ganha reconhecimento cinematográfico após a morte..., talvez porque não tenha como contestar do além-túmulo, caso a adaptação não lhe faça jus e ou extrapole na fantasia (do ouvi dizer) sem comprovação de dados. Há que se atentar também para que a cinebiografia não vire uma cine-hagiografia, confundindo devoção ao artista com devoção ao cinema. A linha é tênue e é preciso cuidar para que não se quebre o encanto dos fãs...

Em geral, as personalidades mais visadas para abrilhantar as telonas são da área do entretenimento musical. Assim, já se destacaram nas salas de cinema os cantores e compositores Cazuza, Zezé de Camargo e Luciano, Gonzação e Gonzaguinha, Erasmo Carlos, Tim Maia, a cantora Elis Regina, o cantor Wilson Simonal. Houve espaço também para o médium Chico Xavier, o médico Bezerra de Menezes, jogador Heleno, a militante alemã Olga Benário. Bem como para os apresentadores de televisão  Bingo (Bozo) e Chacrinha, que agora ganham a companhia iluminada da cantora, atriz e apresentadora Hebe Camargo (1929-2012) em Hebe - A Estrela do Brasil.


Como virou tendência destacar apenas um breve recorte na vida de qualquer cinebiografado, o docudrama Hebe - A Estrela do Brasil, dirigido por Maurício Faria, a partir do roteiro de Carolina Kotscho, traz somente fatos ocorridos nos anos 1980, quando Hebe, com 40 anos de carreira, comprou briga contra a censura, os políticos corruptos, a igreja, os produtores e a televisão, para que tivesse a liberdade de falar o que pensasse e apresentar em seu programa, sempre ao vivo, quem ela quisesse, inclusive transgêneros, como Roberta Close. Nesse período de abertura censurada, ao sentir-se amordaçada e enquadrada em movimentos partidários, já que falava também dos menos favorecidos, clamou: A Hebe não é de direita! A Hebe não é de esquerda! A Hebe é direta!


Além dos atropelos da célebre apresentadora na frente e atrás das câmeras, na televisão, Hebe - A Estrela do Brasil expõe parcialmente um lado menos conhecido de Hebe Camargo (Andréa Beltrão, magnífica): a vida em família, onde o relacionamento harmonioso com o filho Marcelo (Carlos Horowicz) contrasta com a relação conturbada com o abusivo e ciumento marido Lélio (Marco Ricca). Também é tocante o registro sutil da sua solidão, nos bastidores dos holofotes, e a escassa vida social em meio a tanto luxo.

Hebe - A Estrela do Brasil traz, em meio a flashes de histórias paralelas (que podem soar pulverizadas) com o filho, o marido e o sobrinho Cláudio Pessutti (Danton Mello), uma composição interessante e nada monótona da vida da famosa apresentadora, muito bem interpretada (e não imitada!) por Beltrão. Em sua narrativa não faltam as discussões com empresários, a intimidade com os convidados, no famoso sofá, os selinhos (na boca), o figurino e as jóias exuberantes (caríssimas), as polêmicas (por falar o que queria) e as contradições (por falar o que queria) desta que foi considerada a melhor apresentadora de televisão de um Brasil de outros tempos (?). De um Brasil que prometia abertura e não do que insiste na meia volta-volver (!). Dificilmente nesse Brasil do retrocesso a apresentadora teria o brilho de outrora..., já que não parecia ser dada a concessões.


Hebe - A Estrela do Brasil não é um filme hilário, mas tem lá seus breves momentos de humor, num enredo por vezes pesado. A reconstituição de época é excelente. A montagem é ágil e os recortes fotográficos, com Hebe de costas, é genial. O elenco, assim como Andréa Beltrão, não imita, mas interpreta (por exemplo, Roberto Carlos ou Silvio Santos), o que valoriza a personificação. Uma vez que a Globo é a produtora, há que se louvar a liberdade aparentemente incontida das críticas de Hebe a ela e da citação dos canais Bandeirantes e SBT, palcos dos famosos programas. Se bem que não podia ser diferente se o que se busca e dar veracidade ao relato.


Enfim, esta pode não ser aquela cinebiografia ampla, geral e irrestrita, recheada de divertidas fofocas, que todo fã espera dos seus ídolos, mas vale pelo registro de seus dias mais emblemáticos, quando finalmente Hebe vence a hipocrisia política, religiosa e televisiva e conquista definitivamente o seu direito de dar voz a quem bem entendesse. O que não quer dizer que nas décadas seguintes sua vida tenha sido um mar de flores perfumadas.

Vale ressaltar ao espectador que se incomodar com o conteúdo minguado, que talvez  ele encontre um brilho maior de Hebe Camargo na minissérie que a Globo está preparando para 2020, e ou no documentário realizado pela roteirista Carolina Gotscho que será lançado no próximo ano.


Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeos-documentários fiz em 1990. O primeiro curta-metragem (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado em Curitiba, no Paraná, Brasil.

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Crítica: O Menino Que Fazia Rir



O MENINO QUE FAZIA RIR
por Joba ridente

Após uma certa idade, a gente sempre acha que o nosso ontem era bem melhor que o nosso hoje..., principalmente em comparação com a infância, antes tão lúdica e agora tão eletrônica. Há uma frase, ou melhor, um questionamento emblemático, feito aos frequentadores das redes sociais, que me arrepia toda vez que penso nele (desde que o encontrei no Face Book) e que, assim como eu, duvido que até mesmo quem o fez tenha a resposta para: “Você se lembra qual foi a última vez em que saiu para brincar com os seus amigos?” Infelizmente não me lembro de quando deixei de ser criança..., das algazarras com a molecada da rua, das visitas aos parentes nos sítios, dos piqueniques e das “pescarias” nos córregos, das frutas colhidas nos pés..., e comecei a trabalhar, ainda adolescente, em uma farmácia, durante o dia e a estudar à noite.

Mas me lembro que, na minha formação, naquele tempo se escutava música brasileira, italiana, espanhola, inglesa e até japonesa no rádio. E no cinema fui aprendendo com filmes italianos, espanhóis, mexicanos, franceses, americanos, ingleses, alemães, japoneses e, claro, com a garra do cinema novo brasileiro, que, para mim, era o melhor do mundo, tamanha a comunhão. Décadas depois, assim como os cinemas de rua, a diversidade cinematográfica foi diminuindo e, com o advento dos cine-shoppings, americanizando. Sobra um festival ou outro ou alguma sala temporariamente desocupada para exibição de filmes não oriundos da monopolizadora terra do Tio Sam. E, é claro, uma caça árdua pela web, atrás de perolas que não chegarão por aqui nem via DVD...


Essa nostalgia toda é para falar do belo drama tragicômico alemão O Menino Que Fazia Rir (Der Junge muss an die frische Luft, 2018), dirigido com maestria por Caroline Link (Lugar Nenhum na África), a partir do precioso roteiro de Ruth Toma, baseado no livro homônimo do aclamado comediante Hape Kerkeling, lançado em 2014 e que vendeu mais de um milhão de exemplares. O versátil artista (comediante, apresentador, cantor, ator, diretor, dublador, escritor) popular alemão está afastado (por decisão própria) dos palcos, ao menos dos grandes shows. Mas, antes de sair de cena, presenteou os seus fãs com a autobiografia Der Junge muss an die frische Luft (O Menino tem que estar ao ar livre) onde fala da sua bem-amada infância e o despertar do seu talento para as artes cênicas no anos 1970.
  

O Menino Que Fazia Rir é permeando por uma narrativa poética (em off), que começa dizendo: “Talvez eu tenha que trabalhar mais...”, feita pelo menino Hans-Peter (o futuro Hape Kerkeling), que cresceu em meio as delícias da vida no campo e viveu no bucólico Vale do Ruhr até os sete anos, quando os seus pais (Margret e Heinz - Luise Heyer e Sönke Möhring) deixaram a casa dos avós paternos (Bertha e Hermann - Ursula Werner e Rudolf Kowalski) para morar com os avós maternos (Willi e Änne - Joachim Król e Hedi Kriegeskotte) na melancólica Recklinghausen. Mudam a luz, a arquitetura, a beleza e a qualidade dos ruídos da iluminada zona rural para o cinza da cidade industrial..., mas o bom humor e os sonhos de artista do pequeno Hans-Peter (Julius Weckauf, impressionante!), de sete anos, continuam o mesmo e pouco mudará nos próximos anos, mesmo com os dissabores da perda de dois entes muito queridos por ele: a avó Änne e a mãe, que sucumbiu à depressão.


Não sei se um diretor seria tão sutil, quanto Caroline Link o é, no contraponto da dor e da alegria..., seja no olhar ingênuo do menino descobrindo os percalços do mundo, seja no cotidiano da sua grande e barulhenta família que, por maior que seja a tristeza pela morte de parentes, segue em frente buscando o seu melhor em encontros festivos. Há momento para se lamentar e momento para se comemorar a vida nessa trama agridoce, repleta de nuances, onde o dramalhão piegas e o humor absurdo não têm vez.

A sutileza na direção de Link também é elogiável na entrega do elenco a seus papéis, levando o espectador a questionar se são atores profissionais e ou personagens reais do livro interpretando a si próprios. Não há um traço sequer de caricatura em quem quer que seja. Nenhum personagem ocupa espaço maior que o necessário ou a sua importância narrativa. Permitindo, assim, que a naturalidade transborde em qualquer sequência, sem sufocar o essencial, que é o mundo circular de Hans, fundamental na sua formação artística. Em um enredo rico em referências setentistas alemãs do pós-guerra interiorano, em momento algum ele é visto como um adulto em miniatura, mas, sim, como um garoto esperto que (dos 7 aos 9 anos), com seu talento nato para o humor brejeiro, está sempre alerta para o gestual e as falas de todos ao seu redor..., colhendo material para as hilárias imitações que alegrava os seus parentes e para a formação de acervo de tipos que viria a usar no futuro.


Enfim, considerando a história envolvente, mesmo a quem não tem referência alguma sobre Hape Kerkeling, mas que vai querer saber mais sobre ele após a sessão; a cenografia, a fascinante reconstituição de época, tangente na belíssima fotografia de Judith Kaufmann; a direção de atores; o elenco sensacional, com destaque para a revelação Julius Weckauf (com seu impecável Hans-Peter) e Luise Heyer (com a sua adorável Margret, que vai da luz à sombra, numa performance impressionante); a nostálgica e harmoniosa trilha sonora; a lembrança de que a Alemanha também pode produzir filme iluminados e divertidos da maior qualidade..., O Menino Que Fazia Rir é simplesmente imperdível, para quem que dar um tempo ao panorama atual, que atravanca as salas de cinema, em busca de uma emocionante contemplação, que você só vai entender no final: “(...) Sou minha mãe, meu pai, meu irmão e meus avós. Sou as risadas e as dores deles. (...) Sou a direção em que a minha mãe empurrava o meu carrinho. Sou a vaca malhada no pasto, o milho amarelo na plantação e a papoula vermelha à beira do caminho. Sou o céu sem nuvens. Estou acordado.”


Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeos-documentários fiz em 1990. O primeiro curta-metragem (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado em Curitiba, no Paraná, Brasil.

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Crítica: Predadores Assassinos


PREDADORES ASSASSINOS
por Joba Tridente

Conheci e comecei a gostar de filme trash ainda no tempo do VHS (lembra?) e ampliei meu conhecimento e gosto com o advento da internet. O primeiro deles, O Ataque dos Tomates Assassinos (1978), eu nunca esqueci. Depois vieram o adorável Papai Noel Conquista os Marcianos (1964); Evil Dead - A  Morte do Demônio (1981); Re-Animator - A Volta dos Mortos-Vivos (1985); Carnossauro (1993); Sharknado (2013); entre outros clássicos do gênero. Foi pensando nesse prazer que aflora entre um filme cabeça e um de ação e aventura que decidi dar uma chance ao Predadores Assassinos (Crawl, 2019), após assistir, sem querer, a pedaços do trailer que remetem ao cinema bagaceira.

Como qualquer fã sabe, o cinema trash (de raiz) tem o impacto do horror engraçado e do humor apavorante, que te ganha pelo exagero e deficiência técnica em geral, incluindo a orçamentária. Não é uma arte de fácil domínio, já que tem uma “doutrina” própria que é muito “imitada”, mas poucos realizadores chegam a um resultado satisfatório. O que não quer dizer que famosos diretores (involuntariamente?) não tentem, como o alemão Roland Emmerich (2012, Independence Day - O Ressurgimento).


Digo isso porque não creio que fosse essa a primeira intenção do diretor francês Alexandre Aja e dos roteiristas Michael e Shawn Rasmussen, ao colocar em cena uma jovem estudante universitária e nadadora insegura (bem pensado, hein?!), Haley Keller (Kaya Scodelario), que, em meio ao alarme de um furacão de categoria 5, viaja até a região pantanosa de Coral Lake, na Flórida, enfrentando vento e chuva torrencial, à procura do pai Dave Keller (Barry Pepper) e, quando o encontra, acaba ficando presa com ele e o cachorro Sugar numa casa inundada e rodeada por jacarés imensos. Aí, ou nada ou nada de salvação!

Bem, o argumento pode até ter sido pensado para um filme de terror que fizesse o público (adolescente) sensível quebrar o dedinho, morder o dedão ou arrancar os olhos de tanto medo..., porém, com um enredo que beira o absurdo, em vez de uma trama tensa e apavorante (até tem algumas cenas, mas não é para tanto), o que se assiste é um drama-catástrofe (muito previsível) e até divertido, já que (inconscientemente?) o diretor se apropria de todos os clichês do gênero catástrofe-trash, com algumas situações e diálogos pra lá de estúpidos.


Ora, mesmo quem não é norte-americano ou mora em regiões sujeitas a furações e tornados sabe que atrás da ventania sempre vem uma enchente e ou um tsunami e que, por isso, soa um alarme com certa antecedência para evacuar a população da área de risco o mais rápido possível. Toda via dos moradores teimosos em descumprir a ordem oficial, porém, ou a falta de sinal de advertência, pode gerar consequências que, se bem adaptadas cinematograficamente (e Hollywood nunca perde o foco do quanto pior a tragédia, maior a bilheteria!), podem resultar em bons filmes, como o espanhol O Impossível (2012), de Juan Antonio Bayona, ou em deliciosas bagaceiras, com seus heróicos protagonistas egoístas que só pensam em salvar a própria família. Ah, a família estadunidense e suas tragédias pessoais e patrimoniais!


De volta aos mistérios dos pântanos norte-americanos, segundo minha memória afetiva, Alligator (1980), de Lewis Teague, foi o primeiro bom filme sobre jacarés assassinos que vi e que, se não me engano, abriu caminho para dezenas de produções crocodilianas (já numa pegada mais trash) que vieram depois..., onde incluo Predadores Assassinos.

Explico: embora seus recursos financeiros e efeitos especiais sejam bem melhores que aqueles dos irresistíveis filmes da Asylum, em seu indefectível momento divã, o enredo não deixa de apelar para o “emocionante” acerto de contas em família (disfuncional). Assim como em qualquer filme trash que se preze, na hora mais tensa (com o céu desabando, prédios ruindo, ETs e outros monstros atacando, água no nariz, fogo nas partes íntimas), um pai ausente vai (sempre!) discutir a desconfortável relação com um(a) filho(a) cheio de culpas. Aqui, Haley e Dave também vão precisar curar mágoas passadas e mal-entendidos entre eles e o resto da família. Os jacarés que esperem a sua vez de atacar e ou de se consultar. A hora da psicanálise cinematográfica é sagrada! Primeiro a catarse e o perdão e depois a salvação da família, se der tempo..., geralmente dá!


Por mais que tente (?) se levar a sério, assim como o espanhol Jaume Collet-Serra com o seu tubarão territorialista em Águas Rasas (2016), Alexandre Aja raramente consegue criar um clima de terror convincente, de pânico arrepiante, com seus jacarés gigantes (em CGI) atacando a dupla protagonista (com suas ideias estúpidas de sobrevivência) e os coadjuvantes (com suas ideias estúpidas de se dar bem na vida). A mim, pela enfadonha previsibilidade, os ataques provocaram mais risos do que pavor. Também porque (e não podia ser diferente) o ataque “sangrento” dos répteis varia conforme os elencos: para um, qualquer abocanhada é suportável (?) e, não importando a intensidade e o tamanho do estrago físico, lhe dá mais ânimo e agilidade para lutar heroicamente contra a gigantesca ameaça assassina que vem do pântano; para outro, uma mordiscada é fulminante. Uau! Isso dói! Mas só quando rio no rio!

O que não quer dizer que a parte mais sugestionável do público (adolescentes?) não possa se assustar, sentir calafrios, ter pesadelos com corpos destroçados e ou querer ficar longe de rios e pântanos, principalmente se não for um nadador competitivo. Se bem que tenho minhas dúvidas quanto a eficiência do medo induzido pela trilha sonora, já que não é preciso ser nenhum cinéfilo para saber quem vai ser a próxima vítima e de onde virá o ataque dos crocodilos..., principalmente em algumas sequências ridículas (como a da escada). Será que não ter ideias ridículas ajuda? Alguém que não pense tolices pode confundir um jacaré estadunidense, mas será que confundiria um crocodilo norte-americano?


Enfim, considerando o roteiro tosco (quem em sã consciência faria um escoamento de água daquele tamanho e num porão?) e linear, sem nenhuma novidade e ou sequer reviravolta; a infalível mensagem de superação (jornada da heroína por águas infestadas de jacarés: melhor motivação não há); a exaltação dos valores da perseverante família americana; o excesso de clichês que inclui até mesmo um cão de estimação (você nem imagina o que vai acontecer com o pet...); os furos de continuidade e maquiagem; bons efeitos especiais e boa dupla de protagonistas..., ainda que o suspense seja pífio, Predadores Assassinos cumpre o que promete: corpos despedaçados e uma boa dose de sangue para quem não espera muito desse tipo diversão com algum susto (ou vice-versa)!

Ah, e é curtinho, não chega nem a 90 minutos (bem menor que a minha resenha). Para que mais? Cachê de jacaré tá caro, de fazer rolar lágrimas de crocodilo! Sei, essa foi de doer. Mas é pra ir entrando no clima trash de autoajuda insana!


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeos-documentários fiz em 1990. O primeiro curta-metragem (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado em Curitiba, no Paraná, Brasil.

sábado, 21 de setembro de 2019

Crítica: Project Blue Book



PROJECT BLUE BOOK
por Joba Tridente
Quando era jovem e vivia no Planalto Central do Brasil, sempre que possível, saía cerrado afora em busca de Discos Voadores ou UFOs ou OVNIs. De noite e ou de dia, eu e outros malucos ficávamos à espreita de luzes estranhas e ou de formas estranhas no horizonte seco, sob um céu esplendoroso e sem igual (?) no mais belo bioma do planeta. Quando a viagem de exploração e observação dava em nada, para não perder o tempo, a turma se reunia em torno de uma mesa e tentava se comunicar com os ETs através do copo corrido. Maluquice total! Tinha gente (e ainda tem) que dizia incorporar algum alienígena e começava a psicografar e ou a falar as mesmas mensagens pacificadoras e apocalípticas que rezam até hoje, pedindo que todos os humanos (seus irmãos terrestres) se preparassem para o fim dos tempos que estava próximo etc. Nem sei quantas vezes o mundo já acabou e quantas teorias da conspiração já foram desveladas desde então. Com o tempo fui deixando de lado a diversão paranormal-ufológica, que ia muito além de cair na estrada e ou ficar de mãos dadas ao redor de uma mesa redonda falando com um copo vazio emborcado, e passei a cuidar de outras coisas, mas nunca desdenhando da ficção científica literária e ou cinematográfica, que amo de paixão. Ainda criança, ao que me lembro, o primeiro filme que assisti no cinema foi de ficção científica. Também na infância era fã das séries de televisão Os Invasores, O Túnel do Tempo, Terra de Gigantes, Perdidos no Espaço, entre outros. Adulto, me apaixonei pela clássica Arquivo X, com o intrépido Fox Mulder (David Duchovny) ciente de que a “Verdade Está Lá Fora” dos gabinetes governamentais...

Bem, esse prólogo simplificado está aí só porque assisti e gostaria de comentar que no burocrático e frouxo seriado Project Blue Book o que não falta é clichê e caricatura, numa tentativa inútil de emular o saudoso Arquivo X..., deixando óbvio que a distância qualitativa entre os dois é estratosférica. Arquivo X (1993/2002) era uma série de ficção científica especulando fatos ufológicos, teorias conspiratórias e atividades paranormais, numa bem dosada mistura de suspense, terror, ação, humor, intrigas, ceticismo, fé. Já Project Blue Book (Projeto Livro Azul, 2019) é uma série dramática de não-ficção científica fictícia (se é que me entende!) especulando fatos ufológicos norte-americanos e equilibrando os dados genéricos do seu livreto de anotações “verídicas” secretas num "thriller" repleto de lugares comuns e muito borbulhantes. Ploft! Ploft! Ploft! Não importa a cena, você (por mais leigo que seja) já sabe exatamente o que vai acontecer. É capaz até mesmo de antecipar os diálogos ridículos, principalmente os femininos.


O alerta inicial diz que a série é baseada em eventos reais..., estudados pelo Capitão Michael Quinn (Michael Malarkey), personagem inspirado no Capitão da USAF Edward J. Ruppelt, e o astrônomo Dr. J. Allen Hynek (Aidan Gillen) que, na série, além de especialista em ufologia, tendo criado a sigla OVNI, para se referir a Objetos Voadores Não Identificados, também tem conhecimentos práticos de medicina, antropologia, paleontologia, mitologia, misticismo, hipnotismo, farmacologia etc. Um gênio que, até ser convocado pelo governo norte-americano para decifrar e desqualificar eventos ufológicos, era professor de astronomia na Northwestern University.

Já a sua mulher Mimi (Laura Mennel) é vista como uma imbecil e mãe negligente. Em plena Guerra Fria (EUA versus União Soviética), enquanto o marido caça OVNIs, ela, que parece conhecer ninguém na vida, além do ocupado marido e do superativo filho Joel (Nicholas Holmes), torna-se amiga de uma serigaita (loira fatal), Susie Miller (Ksenia Solo), numa loja de departamento, e imediatamente sente a língua coçando para compartilhar Segredos de Estado (“que ela não pode falar”) do importante Dr. Hyneck (é assim que ele se apresenta para as pessoas simples que veem coisas que não devem ver no céu e ou na terra)..., como se o título de Dr. lhe desse autoridade sobre qualquer assunto. É preciso dizer quem e ou o quê faz a tal loira, que apareceu “do nada”? Quais são as suas reais intenções nesse quibrocó do pesquisador doido e roteirista sem noção e ou imaginação escorregando no quiabo com maionese?


Criado por David O'Leary e produzido por Robert Zemeckis (De Volta Para o Futuro) para o canal History, o enredo é uma bagunça fantasiosa que seria cômica não fosse dramática. É difícil saber qual é o objetivo da pretensiosa série situada nos anos 1950: farsa ou paródia ufológica em meio à paranoia da Guerra Fria? Como se não bastasse a indefinição, não há uma personagem sequer que desperte um mínimo de simpatia. Quem não é arrogante ou prepotente é idiota ou tratado como ignorante. Ainda que a reconstituição de época e dos avistamentos seja muito boa, as histórias “reais” dos OVNIs (cada capítulo uma “ameaça” nova) e dos alienígenas não empolgam, principalmente por causa das descartáveis “histórias” paralelas tapa-fotograma que a todo instante interrompem a trama.

A série se leva tão a sério que até declina do contato imediato com o humor de qualquer grau. Enquanto a narrativa se arrasta, a relação absurda das duas mulheres, que mal se conhecem e já são amigas desde criancinhas, se torna tão chata e os seus diálogos tão estúpidos que você há de querer correr (no controle remoto) as sequências em que elas aparecem..., ou ainda desejar que sejam sequestradas por algum extraterrestre alucinado. Ah, e certamente você vai perguntar muito em qual buraco da minhoca, não catalogado pelo projeto, se esconde o menino Joel quando não está (?) em casa. 


Enfim, com seu suspense forçado na trilha sonora enfadonha, a série deve interessar mais ao espectador (pouco exigente) que aprecia a temática Discos Voadores e gostaria de “saber” algo sobre o Projeto Livro Azul (1952 a 1970) da Força Aérea dos Estados Unidos, que buscava descobrir (ou encobrir) a periculosidade (ou a origem) dos OVNIs, do que ao espectador com mais vivência no assunto e que se lembra de outras séries explorando o mesmo tema, como a Project U.F.O (1978/1979), também baseada em arquivos do Project Blue Book.

Dos dez capítulos, o penúltimo me pareceu o pior. Embora o foco abdução seja curioso, ele tem absolutamente nada a ver com os episódios anteriores, já que a reação dos dois caçadores oficiais de OVNIs, diante de um fato realmente novo e instigante, é totalmente contraditória (para não dizer improvável!) com os esforços que vinham fazendo para certificar os eventos. Se bem que o último capítulo da primeira temporada é muito mais estranho no contexto mal encaixotado do espaço sideral. Bom, isso se você não relevar o ET na Proveta do Von Braun, os soturnos e “invisíveis” Homens de Preto e outros penduricalhos que é melhor que descubra e julgue por conta própria. Arrisque no piloto! Se não gostar, desista da viagem! Se gostar, aperte o cinto e caia na estrada ou pegue carona num caça e desfrute, porque, segundo as mensagens, “o fim está próximo”!

Nota: O material ufológico recolhido pelo governo norte-americano é farto. Porém, dos mais de 12.000 eventos, apenas uns 700 não teriam explicação lógica. Quem tiver paciência pode pesquisar na web sobre os casos mais famosos do Project Blue Book e inclusive fazer download.



*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeos-documentários fiz em 1990. O primeiro curta-metragem (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Crítica: Heróis Modestos



HERÓIS MODESTOS
por Joba Tridente

Parece que, após o sucesso da adorável animação em longa-metragem Mary e a Flor da Bruxa (2017), o novo estúdio japonês Ponoc, criado por Yoshiaki Nishimura para produzir desenhos animados infantis que agradem a espectadores de todas as idades, não vai ter muito empecilho para se estabelecer num mercado global tão concorrido. Ao menos é o que indica o volume um do seu festival de curtas-metragens intitulado Heróis Modestos (Chiisana Eiyuu: Kani to Tamago to Toumei Ningen, 2018), que estreou recentemente na Netflix, trazendo três fascinantes animações: Kanini & Kanino, de Hiromasa Yonebayashi; A Vida Não Se Perderá, de Yoshiyuki Momose; Invisível, de Akihiko Yamashita. Assim como Nishimura, os três diretores são “crias” do famoso Studio Ghibli, do mestre Hayao Miyazaki. Os temas tratados nos três curtas são originais e não subestimam a inteligência da criançada e muito menos a de qualquer jovem ou adulto que ame desenho animado e uma história de excelência..., ao falar de relacionamento familiar, alergia e invisibilidade social.


Kanini & Kanino, dirigido por Hiromasa Yonebayashi (As Memórias de Marnie; O Mundo Secreto de Arrietty; Ponyo - Uma Amizade que Veio do Mar; Mary e a Flor da Bruxa) conta a história de dois pequeninos irmãos anfíbios que vivem e aprendem a caçar com o pai em um córrego, onde estão sujeitos a vários perigos, já que podem ser levados por uma correnteza mais forte e ou abocanhado por animais maiores, inclusive peixes. Quando um incidente os afasta do pai, as duas crianças partem à sua procura... Embora tenha uma pitadinha de suspense, a natureza exuberante deste mundo fantástico e o tom bucólico, com o ruído da água entre as pedras, é até relaxante. Praticamente sem diálogo, com algumas boas pontuações da trilha e o gestual dos personagens graciosos, em um traçado limpo (clássico!), o curta Kanini & Kanino, com seu roteiro redondinho, encanta (qualquer público) do princípio ao fim! É pura magia!


A Vida Não Se Perderá, do diretor Yoshiyuki Momose, é uma das mais originais histórias animadas que já vi. Nunca imaginei que um tema como alergia a certos alimentos pudesse gerar uma animação tão instigante. Essa narrativa singela, baseada em fatos, acompanha o dia a dia do pequeno e apaixonante Shun, um garoto vigoroso que, desde cedo, aprendeu a lidar com a sua alergia. Porém, por mais atentos que a mãe superprotetora e ele estejam, um vacilo na leitura de um rótulo alimentar pode fazer a diferença entre a vida e a morte. A Vida Não Se Perderá é um filme que traz a bela luz da primavera e do verão num traçado simples e deliciosamente colorido. O roteiro tem todos os elementos para escorregar na pieguice...; porém, a direção sóbria jamais tangencia o dramalhão. A sequência final impressiona e arrepia pela intensidade. Mas, a cena em que Shun acredita que se conseguir acabar com o alimento que lhe causa alergia os seus problemas estarão resolvidos é um achado precioso. Enfim, uma pérola que, com certeza vai emocionar crianças e adultos! Lindo demais!


Invisível, com direção de Akihiko Yamashita, é uma brilhante metáfora sobre a invisibilidade social. Nele acompanhamos um dia na vida de um homem que, por mais capacitado e gentil que seja, é totalmente invisível aos olhos dos colegas de trabalho, dos comerciantes, dos pedestres, dos motoristas ao seu redor. Seu corpo e sua alma são tão leves, que ele precisa carregar algum objeto pesado para conseguir se movimentar entre as pessoas..., para se sentir um humano entre humanos. Mas não é fácil quando se vive em um mundo de aparências e em que cada um só enxerga aquilo que lhe interessa (principalmente o próprio umbigo). Toda via da ignorância visual, no entanto, quando a vida lhe parece não ter mais sentido algum, a compreensão e a cumplicidade podem vir do olhar de alguém que ele menos espera... Magnífico! Ainda que melancólico, Invisível é de uma beleza perturbadora, no traçado ágil (e bota agilidade nisso!) e no roteiro inteligente que nos convida a refletir profundamente sobre a solidão individual e coletiva também nas redes sociais, onde cada carinha (anônima ou não) fica à espera de uma curtida e ou um cutucão que talvez jamais receba. Provavelmente muitas carinhas do mesmo livro passarão umas pelas outras (nas ruas, calçadas, praças) sem se reconhecerem e ou sequer se cumprimentarem...

Sugiro que, após se deleitar com esta excelente seleção de curtas japoneses, que distingue três modestas formas de heroísmo, você assista também à entrevista de Yoshiaki Nishimura, que fala da produtora Ponoc, dos três diretores convidados e do processo de criação das animações!


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta-metragem (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...