quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Crítica: Silvio e os Outros



Crítica: Silvio e os Outros
por Joba Tridente

Não há dúvidas de que o polêmico diretor Paolo Sorrentino, com suas obras carregadas de simbolismo, crítica sociopolítica e religiosa, metáforas, referências e reverências aos grandes mestres do cinema italiano, divide opiniões entre espectadores e crítica a cada novo filme. Portanto, não é nenhuma novidade o rebuliço com a sua leitura (sempre muito particular) de um recorte da vida do também polêmico empresário e político Silvio Berlusconi no seu recente Loro (Silvio e os Outros, 2018).

Em Silvio e os Outros (Loro, 2018), que mais uma vez traz roteiro em parceria com Umberto Contarello, com quem escreveu os excelentes Aqui é o Meu Lugar (2011) e A Grande Beleza (2013), Paolo Sorrentino (A Juventude, 2015), nos apresenta uma espécie de “lado B” do seu ótimo Il Divo (2008). Ou seja, enquanto a moeda de duas caras roda na banca, notamos em uma face que se escancara as idiossincrasias da outra face que se contrai em desenfreada e populista busca (sem culpa) da coroa vaidosa do poder. Em ambos, as dores do ocaso, nas cinebiografias iguais mas diferentes sobre dois notórios políticos italianos (Giulio Andreotti e Silvio Berlusconi) que, cá pra nós, não são muito diferentes de outros políticos e suas politicagens em outras partes do mundo latino ou não.


Condensado entre os anos 2006 e 2009, este filme estranho e que parece meio truncado, às vezes, possivelmente por ter sido lançado originalmente em duas partes, na Itália, e em apenas uma no mercado exterior (com cerca de 60 minutos a menos), tem de tudo um pouco: drama, comédia (insossa), ópera-bufa, música e dança, sátira de fatos... Neste espetáculo tão repleto de alegorias, que mal cabem no palco das ostentações, acompanhamos a movimentação sinuosa da horda de bajuladores em busca de ricas migalhas sociais (tendo como moeda de troca o sexo e as drogas), comandada pelo vivaldino Sergio Morra (Riccardo Scamarcio), os bastidores das negociatas parlamentares e o relacionamento em crise do inescrupuloso Silvio Berlusconi com sua angustiada segunda esposa Verônica Lario (Elena Sofia Ricci). Cada segmento com uma distinta paleta de cores, sons e figurinos que embevecem ou enojam a distinta plateia.


Com seu tom de sarcástica melancolia, Silvio e os Outros traz à luz fragmentos da solidão política e familiar e o vazio abismal de um homem velho virando cinza (com seu bilhões que já não compram tudo), saudoso de uma juventude que já vai longe e ciente de que a sua grana polpuda já não lhe serve de sedutora maquiagem nos conchavos para mudar o cenário político italiano, para que tudo permaneça igual (a seu favor). Através de um olhar nada complacente de Sorrentino, o ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi, excepcionalmente interpretado por Toni Servillo, que também vestiu com a mesma categoria a pele de Giulio Andreotti, parece um boneco automanipulado usando a sorridente máscara-símbolo da comédia teatral na tentativa de corromper políticos influentes e ou de convencer as jovens alpinistas sociais de que é o macho alfa (ainda que ridículo e decadente) do governo e do mercado capital.


Em sua narrativa (quase linear) Silvio e os Outros pode parecer enfadonho, às vezes, mas o que conta mesmo são os seus momentos mais brilhantes e de sagacidade invejável. Aí, ao menos duas sequências se destacam: numa, Berlusconi se lembra do seu tempo de corretor de imóveis e tenta provar a si mesmo que ainda tem lábia suficiente para vender o que quiser; noutra, bem mais pungente..., e tão desconcertante quanto a antológica cena em que a tinta do cabelo e a maquiagem escorrem pelo rosto envelhecido do compositor Gustave Aschenback (Dirk Bogarde), que queria parecer mais novo aos olhos do adolescente Tadzio (Björn Andrésen), em Morte em Veneza (1971), de Luchino Visconti..., Berlusconi dá de cara com um de seus maiores pesadelos ao assediar uma garota cinquenta anos mais jovem que ele. Uma sequência que vai te acompanhar por um bom tempo, principalmente por causa do diálogo ferino!

Enfim, considerando a pertinência do enredo e a encenação da trama no desnudamento do curinga Silvio Berlusconi, um magnata também na política, e a excelência do elenco, um filme a ser visto por quem já conhece e gosta das obras cinematográficas de Paolo Sorrentino e por quem tem curiosidade em mergulhar no seu mundo anárquico sempre na tangência e na efemeridade do tempo...


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Crítica: Voando Alto



Voando Alto
por Joba Tridente

Todos sabem que a animação é um “gênero” cinematográfico que ocupa seus realizadores por muitos anos. Por isso, quando uma produção chega às salas de cinema, a história contada pode lembrar muitas outras que chegaram antes. Aí, o que até então poderia ser inédito cai no piso da sala de projeção. O que não quer dizer que, mesmo um déjà-vu, não possa agradar alguma parcela de espectadores (principalmente a infantil) que espera o reforço das mensagens edificantes na formação de seus pimpolhos. Ainda que nem sempre os realizadores estejam preocupados com a moral da história, mas em uma narrativa que seja divertida para toda a família.

Esticando esta linha tênue, em busca de nós cegos, poderia tranquilamente dizer que Voando Alto (Manou - Flieg Flink!, 2019), cuja produção começou em 2014, é uma animação “genérica”, já que lembra, entre outras, as recentes Missão Cegonha (2017); Pato Pato Ganso (2018) e Ploey - Você Nunca Voará Sozinho (2018). Assim como estas animações, ela também se ocupa tanto com a indefectível jornada do herói do seu protagonista, quanto com questões pertinentes ao racismo; à tolerância; ao pertencimento; ao preconceito; às diferenças raciais e à solidariedade entre colônias de aves vizinhas e ou entre pássaros desgarrados de seus bandos. Assim, se o argumento e o roteiro lembram algo já visto, na telona ou na telinha, pode não ser culpa dos realizadores, mas mero fruto do acaso. O que não quer dizer que, quando as semelhanças são demais, independente da questão técnica, o espectador não deva desconfiar dos grandes (e famosos!) estúdios. Que cinéfilo não se lembra do quibrocó envolvendo as animações mexicanas Festa no Céu (2014) e Dia de Muertos (?) e a norte-americana Viva - A Vida é uma Festa (2018)?
  

Toda via dos voos espetaculares por ruelas, florestas e mares, que leva alguns pássaros a migrar da fria Europa para a quente África, no entanto, vamos pousar no que interessa no momento: a animação alemã Voando Alto, dirigida por Andrea Block e Christian Haas, proprietários da LUXX Studios (responsável pelos efeitos especiais de Independence Day: Resurgence e The Grand Budapest Hotel). O roteiro simples de Axel Melzener e Andrea Block se passa na Riviera Francesa e narra as aventuras da andorinha órfã Manou que, após um incidente em seu ninho, é adotada por um casal de gaivotas e cresce acreditando ser uma gaivota, fazendo praticamente o impossível para agir como uma ave marinha..., mesmo sem ter corpo e natureza para tanto.  Mas, quando parece que o destino está conspirando contra a sua estadia na colônia das gaivotas, Manou acaba conhecendo e se identificando com as andorinhas Yusuf, Poncho e Kalifa, dá um novo rumo à sua vida, na colônia das ágeis companheiras, e será o fiel da balança na hora da migração das gaivotas..., contrariando a ideia de que as duas espécies de aves não se bicam!


Embora, aos olhos de um adulto, a narrativa escorregue aqui ou ali, não se deve esquecer que Voando Alto é uma animação pensada (?) para crianças entre os cinco e os dez anos. Ainda que pouco original e equivocada (?) em algumas informações sobre nidificação, a história é bacaninha e bem colorida. Tecnicamente salta aos olhos a arte hiper-realista na criação de um segundo plano onde se destacam os belíssimos cenários panorâmicos (ou detalhes impressionantes) da Côte d'Azur, na França, contrastando com uma arte mais caricata no traçado/desenho estilizado dos personagens..., fazendo, por exemplo, com que as andorinhas (com seu bicos curtos) pareçam tão estranhas quanto o personagem Percival, uma ave esquisita (que deveria ser o alívio cômico da trama) que lembra o extinto Dodô, mas que, segundo minhas pesquisas, seria uma ave brasileira (?).


É sempre saudável a chegada de novos produtores ao mercado do desenho animado. Pois, dependendo da qualidade técnica e da história contada, pode atiçar os grandes concorrentes, diversificar o campo de criatividade, e até mesmo (tentar) quebrar a hegemonia norte-americana na área. Voando Alto é a primeira animação da LUXX Studios e, pelo que se vê, está bem acima da média, apresentando sequências aéreas de tirar o fôlego. O que não quer dizer que está isenta de equívocos (como os grandes estúdios), ou que não precise de mais de atenção no desenvolvimento do roteiro e mesmo na edição (como os grandes estúdios), evitando que o ritmo lento ou a carência de humor (mesmo infantil) comprometa a narrativa, que nem precisa ser inédita, desde que seja inovadora.


A animação alemã realmente tem pontos semelhantes com aquelas citadas acima, mas também busca uma abordagem diferente e menos piegas em sua trama. As escorregadelas...,  como os diálogos fora do contexto infantil e ou furos (?) relacionados à distância entre o ninho da recém-nascida andorinha Manou e o ninho das gaivotas; ovos sendo chocados às vésperas da migração; um filhote de gaivota órfão (?); o antropomorfismo desnecessário na apresentação musical (totalmente deslocada) de uma banda de andorinhas..., possivelmente incomodarão mais a um adulto (atento). Detalhes que, para qualquer criança mergulhada na convidativa fantasia e no fascinante momento lúdico, passarão batidos.

Enfim, Voando Alto, com sua mensagem altruísta e conciliadora, é um filme que tem elementos para agradar crianças e seus acompanhantes. Afinal, a construção de uma ponte sempre facilita o diálogo entre os divergentes.


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

terça-feira, 2 de julho de 2019

Crítica: Homem-Aranha: Longe de Casa


Homem-Aranha: Longe de Casa
por Joba Tridente

Havia quem apostasse que ele jamais voltaria do pó de Thanos. Havia quem apostasse que, assim como outros heróis, suas células estariam espalhadas por todo o universo. Havia muitas teorias estapafúrdias sobre heróis e super-heróis que não voltaram e ou sequer voltariam da Guerra Infinita que culminou no Ultimato. Mas ele não só voltou como, mesmo precisando urgentemente de férias e de um bom plano para conquistar MJ (Zendaya), o adorável adolescente Peter Parker/Homem-Aranha (Tom Holland, excelente) já está soltando (meio a contragosto, é verdade) suas teias na Europa, para mais uma vez salvar o mundo, enquanto a sua vida romântica desanda.

Enredado ao ótimo Homem-Aranha: De Volta ao Lar (2017) e ao alucinante Vingadores: Ultimato (2019), a mais recente aventura juvenil Homem-Aranha: Longe de Casa (Spider-Man: Far From Home, 2019), dirigida por John Wats (HA: De Volta ao Lar) traz o aracnídeo às voltas com os mistérios do Mysterioso (Jake Gyllenhaal, excelente), um Herói que diz ser de uma Dimensão Paralela e que aparece no nosso planeta, perseguindo quatro vilões estranhos, e, através do agente Nick Fury (Samuel L. Jackson), pede a ajuda do Homem-Aranha para combater os Elementais da Natureza (Terra, Ar, Água, Fogo) que destruíram o seu mundo. Bem, é claro que o ex-Herói da Vizinhança não vai negar teia.


Mas, tinha que ser justamente agora, quando ele se prepara para sair em viagem de férias pela Europa, com a sua turma do colégio, e acredita ter a chance de finalmente se declarar à MJ, na Torre Eiffel? Bem, num tempo de escassez de Heróis (pós-Ultimato) e já que até o gorducho Thor foi guardar outras galáxias, cabe a ele (mesmo sendo um “aprendiz” de Herói) honrar os Vingadores (é o mínimo que o seu mentor Tony Stark esperaria dele). Assim, na hora do não tem tu vai tu mesmo, vale tudo para o garoto que ainda não aprendeu a conciliar os ardores da adolescência com as grandes responsabilidades..., até mesmo encarnar um obscuro Macaco Noturno para enfrentar as chamas de um vilão incandescente. 

Homem-Aranha: Longe de Casa, roteirizado por Erik Sommers e Chris McKenna (que bateram cartão em De Volta ao Lar) é uma comédia juvenil de ação e aventura de ficção científica, onde não faltam bons efeitos especiais; destruição (óbvio!) de grandes marcos arquitetônicos; romances improváveis; piadas e gags (previsíveis) que, assim como no filme anterior, nem sempre funcionam; sequências de tirar o fôlego, no terceiro ato, com algumas cenas que até lembram a magnífica animação Homem-Aranha no Aranhaverso (2018); e o melhor, tem reviravoltas espetaculares para quem conhece (ou não!) o personagem Mystério..., inclusive nas duas cenas pós-créditos. A primeira é uma bomba que vai dar o que falar (assim como Vingadores: Guerra Infinita) e a segunda é uma pegadinha genial, levemente (?) relacionada a uma fala (que pode passar despercebida) no segundo ato!


Felizmente, desta vez, o trailer não estragou a receita, mas falar demais sobre a sua trama é acabar entregando os ingredientes de qualidade que dão charme e ponto ideal de cozimento nesta história arrebatadora. Se bem que, com certeza, em breve (infelizmente já está na web!), quem não assistir na estreia, vai ser alertado por algum basbaque. Toda via das produções Sony/Marvel, porém, basta dizer que Homem-Aranha: Longe de Casa tem seus momentos de leveza, de pancadaria tradicional do gênero, de emoção genuína e até de uma curiosa explicação do retorno dos desaparecidos. Todo o elenco é muito bacana..., Tom Holland e Jake Gyllenhaal (com personagem difícil e muito bem desenvolvido) estão excepcionais. O roteiro tem lá suas escorregadelas e algumas incoerências (que fazem parte do pacote juvenil expandido), mas não decepciona. A direção de John Watts é certeira e raramente perde o tom. Enfim, os fãs e espectadores de primeira (?) aventura não vão ter do quê reclamar! Ah, não falei (ou reclamei!) da trilha sonora, porque também é uma surpresa...


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

terça-feira, 18 de junho de 2019

Crítica: Turma da Mônica: Laços


Turma da Mônica: Laços
por Joba Tridente

Muita gente, no Brasil e mundo afora, cresceu lendo gibis e se divertindo com os personagens Cebolinha, Mônica, Cascão, Magali, Chico Bento, Astronauta, Louco, Bidu, criados por Maurício de Sousa e que, há muito tempo, deixaram as páginas das revistinhas para animar aventuras na televisão e no cinema..., e nos últimos anos ganharam releituras inspiradas de outros roteiristas e ilustradores e também edições especiais na série Graphic MSP. É uma dessas boas releituras, a premiada graphic Turma da Mônica - Laços (2013), criada pelos irmãos Vitor Cafaggi e Lu Cafaggi, que dá base para o filme homônimo, com elenco de carne e osso às voltas com o sumiço do Floquinho, cachorro de estimação do Cebolinha.

Dirigido por Daniel Rezende (Bingo: O Rei das Manhãs), o filme de aventura infantil Turma da Mônica: Laços tem roteiro de Thiago Dottori, que mexe pouco no original dos irmãos Cafaggi..., apenas explicita uma ceninha a mais aqui, dá uma amarradinha cênica (ou “dramática”) maior ali ou acrescenta um personagem acolá. O mesmo não pode ser dito do visual das crianças escolhidas para representarem o presunçoso Cebolinha (Kevin Vechiatto) e o sujinho Cascão (Gabriel Moura), já que lembra em nada os traços dos personagens na releitura impressa, e menos ainda naquela definida por Maurício de Sousa.


No filme, ambos são cabeludos e, inclusive, o agora bem clareado e limpinho Cascão (antes negro ou “moreno” de cara suja) tem o cabelo cacheado, em vez de raspado e com um tufo crespo no cocuruto..., enquanto que o Cebolinha, apresenta apenas alguns fios de cabelo rebeldes. Toda via da higienização ampla, no entanto, após o banho geral na caracterização dos personagens, ficaram mais próximos dos desenhos que a gente conhece a invocada Mônica (Giulia Benite) e a comilona Magali (Laura Rauseo). O que (a mim!) tira 50% do brilho do elenco protagonista.

Segundo Maurício (em matéria publicado no Extra), o personagem Cascão nunca foi caracterizado como negro. Mas não é o que se vê nas antologias MSP 50 Artistas, MSP + 50 Artistas e MSP 50 Novos Artistas, onde os ilustradores representam o menino como “moreno” ou negro, e tampouco nas antigas tirinhas, que levam os leitores a imaginá-lo (no mínimo) afrodescendente. Aliás, por falar em Cascão, nas suas primeiras tiras, a sua família (“morena”) também trazia no rosto as mesmas marcas de sujeira do filho, até serem limpas (por conta do politicamente correto?) anos depois...


Com sua história simples, de um cachorrinho de estimação sequestrado e o plano “infalível” do Cebolinha para resgatá-lo, Turma da Mônica: Laços (que está  mais para Turma do Cebolinha) deve agradar ao público jovem que conhece o imaginativo universo infantil (recheado de brigas para saber quem é o dono da rua) do quarteto do Limoeiro. Embora não tenha certeza se esse público vai compreender o propósito do sequestro do Floquinho; a confusão (gratuita) com outra turma do bairro; a independência das crianças de sete anos que parecem mais ousadas que seus pais e, principalmente, a mudança das características físicas do Cebolinha e do Cascão. Vai depender do quanto ele vai levar a sério a mudança física das crianças e do quanto vai dar asas à imaginação e deixar de lado esses detalhes (insignificantes?). Para os adultos (ranzinzas que já foram leitores e colecionadores dos gibis) acompanhantes mais exigentes (conforme a expectativa!), a falta de humor e a narrativa um tanto arrastada e, por vezes, desnecessariamente dramática e claudicante, pode causar sonolência.

Assim, “relevando” o roteiro fantasioso (menos interessante e bem menos soturno que a intensa graphic homônima) que coloca quatro crianças de sete anos (?) se aventurando na mata em busca de um cachorro, enquanto seus abobalhados pais agem feito barata tonta; sentindo que a trama carece de humor (infantil, juvenil ou adulto!), de gags visuais realmente divertidas (não previsíveis!) e que não se saiba a razão (tapar buraco ou aumentar a metragem?) da presença chata, piegas e redundante do Louco (Rodrigo Santoro, caricato) no enredo; lembrando que é uma história direcionada para o público infantil e não para adultos saudosistas (que,  frustrados, talvez não enxerguem aqui a turminha das suas revistinhas antigas); considerando a mensagem que reforça a importância dos laços de amizade no nosso dia a dia..., ainda que situado num passado lúdico, num bairro que hoje (infelizmente!) é mero fruto de imaginação, Turma da Mônica: Laços, certamente vai encontrar o seu público!


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta-metragem (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Crítica: MIB: Homens de Preto Internacional


MIB: Homens de Preto Internacional
por Joba tridente

Há 22 anos, MIB: Homens de Preto, um excelente filme de ficção científica, com seu humor pastelão e negro e muita bizarrice, dirigido por Barry Sonnenfeld e estrelado por Tommy Lee Jones e Will Smith causou sensação nos cinemas. Baseado na HQs Men in Black (1991), de Lowell Cunningham, a produção que custou meros 90 milhões, arrecadou perto de 600 milhões de dólares. Em 2002 chegou aos cinemas o menos impactante Homens de Preto 2 e, em 2012, fechando admiravelmente a trilogia, o divertido Homens de Preto 3, também protagonizados por Lee Jones e Smith e dirigidos por Sonnenfeld.

Em tempos de recomeço de franquias milionárias, ou de apresentação independente de episódio perdido, eis que, sete anos depois, MIB está de volta, recauchutado e sugerindo, nas entrelinhas, uma mudança de “comportamento (ou apego) machista” à sigla titular que, caso retorne em novos capítulos (internacionais?),  não causará surpresa se virar WIB: Mulheres de Preto, protagonizado por dupla feminina, tal o empoderamento e a presença delas nas batalhas contra alienígenas mal intencionados. Ou MIB: Men in Black & WIB: Women in Black..., já que o terno preto básico cai bem em um ou em outro gênero! Uma conversa também ouvida no entrecena de X-Men Fênix Negra.


Uma vez que (por enquanto) os realizadores de MIB: Homens de Preto Internacional (Men in Black International, 2019) acreditam que em argumento vitorioso não se deve mexer muito, a variação no roteiro (bem) juvenil de Matt Holloway e Art Marcum é pequena. Daí, o que pode ser novidade para alguns espectadores, pode parecer meio repetitivo para outros. Porém, nada aborrecido! Estão em cena a tradicional dupla improvável, formada pelo experiente agente inglês H (Chris Hemsworth) e a dedicada estagiária norte-americana M (Tessa Thompson)..., que teve contato com extraterrestre quando criança e se considera preparadíssima para ser agente MIB..., a ação tresloucada, as armas estranhas, os alienígenas fofos (as) ou bizarros (as) e, é claro, o bom humor (leve) e meio pastelão, com umas gags bem legais. A melhor delas faz referências ao (ex-) Thor de Hemsworth. Aliás, os dois protagonistas já dão um bom trocadilho com o tema...

Assim como os roteiristas, o diretor F. Gary Gray evita invencionices e opta por uma direção sem sobressaltos..., levando em conta os absurdos da história dividida entre Londres, onde o agente T (Liam Neeson) é o chefe da Agência MIB, Marrakech e Paris. Mais uma vez o pivô do conflito entre humanos e imigrantes extraterrestres é uma joia preciosa, tão bela e apocalíptica quanto o Colar de Órion (do MIB, 1991) e a Luz de Zartha (do MIB 2, 2002). Ah, essa mania alienígena de miniaturizar energia cósmica! O porém (há sempre um!) é que, além de cuidar para que a tal joia interplanetária não caia (clichê: é claro que vai cair!) em mão erradas, H e M também precisam descobrir se há ou não um espião traíra entre os agentes MIB, por trás da morte misteriosa de um importante alien e que pode colocar em risco (claro!) o equilíbrio do universo e a existência da Terra! E por falar em Paris, as questões relacionadas à Torre Eiffel (onde se dará o desfecho da missão policial e ou espacial) e do seu idealizador Gustave Eiffel, me lembrou uma fantástica sequência do interessante Tomorrowland - Um Lugar Onde Nada É Impossível (2015).


Enfim, considerando a narrativa linear e bem (re)costurada; a engenhosa arte dos aliens graciosos e ou repulsivos; a qualidade do CGI dos expressivos imigrantes do universo e além e dos equipamentos bélicos e ou de locomoção; o ótimo elenco, que inclui ainda Emma Thompson, que retorna na pele da agente O, Rafe Spal, o agente C e Rebecca Ferguson, a alien Rizza; o bom ritmo; as sequências malucas e a ação eletrizante quase contínua..., embora tenha deixado de lado as paródias e os gracejos hollywoodiano, MIB: Homens de Preto Internacional é um agradável e esquecível passatempo juvenil que te entretêm por duas horas. Quem assistiu aos trailers não vai ter muita surpresa.


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta-metragem (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Crítica: X-Men: Fênix Negra


X-Men: Fênix Negra
por Joba Tridente

Fim ou recomeço? Em se tratando de HQ e ou de trilogia cinematográfica, pode ser qualquer coisa, dependendo da bilheteria ou do proprietário dos Direitos Autorais. Assim, independente do “desaparecimento” (ou seria morte?) de alguns personagens, X-Men: Fênix Negra, sendo o quarto filme na linha de sucessão da “trilogia” reiniciada com X-Men: Primeira Classe (2011), seguida de X-Men: Dias de um Futuro Esquecido (2014) e “encerrada” com X-Men: Apocalipse (2016), pode tanto ser o prólogo de mais uma “retomada” ou “rebombinada” ou “recomeçada” dos “X”, quanto o epílogo da “recente” franquia. Os espectadores mais velhos (?) sabem que a saga dos Mutantes ganhou as telonas na borda da virada do século XX, com X-Men: O Filme (2000), acompanhado de X-Men 2 (2003) e botando um “The End” definitivo (?) no X-Men: O Confronto Final (2006)..., e também se lembram que a explosiva Jean Grey/Fênix, já soltava as suas labaredas devastadoras por ali. Quem viu lá, vai comparar aqui! Será que a leitura cinematográfica de hoje (com muito mais recursos técnicos) é melhor que a leitura de ontem?


Baseado nas HQs da Fênix Negra (de Chris Claremont, com arte de Dave Cockrum e John Byrne, publicadas em 1976-1977 e 1980) o filme de ação e drama, com pitadas românticas, X-Men: Fênix Negra (Dark Phoenix, 2019), roteirizado e dirigido por Simon Kinberg, nos (re)apresenta Jean Grey (Summer Fontana, criança, e Sophie Turner, adulta) vivendo dias felizes, como integrante da equipe de frente dos Mutantes, agora reverenciados como Super-Heróis. O ano é 1992 e quando o Professor Charles Xavier (James McAvoy), a pedido do presidente dos EUA, envia os seus melhores X-Men e X-Women numa missão de resgate da tripulação de um ônibus espacial, a equipe traz para a Terra, além dos astronautas, uma Jean Grey diferente, tomada por um força incontrolável, após absorver uma grande carga de energia cósmica. E na sua cola, uma “gente” com as piores intenções..., sob o comando de uma tal Smith (Jessica Chastain). Não vai ser fácil para Grey entender o que está acontecendo com ela e nem para os outros Mutantes encontrar uma forma de ajudá-la a controlar um misterioso poder que está colocando em risco a vida de todos ao seu redor..., e mesmo o equilíbrio do universo! Um poder que tem muito em comum com o poder de outra heroína vista recentemente nas telonas: Capitã Marvel. Aliás, os dois filmes (X-Men: Fênix Negra e Capitã Marvel) têm algumas situações  em comum...


X-Men: Fênix Negra, obviamente, é protagonizado por Fênix, mas não dispensa a força coadjuvante dos obstinados Raven (Jennifer Lawrence); Ciclope (Tye Sheridan); Fera (Nicholas Hoult); Noturno (Kodi Smit-McPhee); Mercúrio (Evan Peters) e Magneto (Michael Fassbender), sempre dispostos a uma pancadaria entre si e ou com inimigos alienígenas em comum. Embora dê umas escorregadelas (ou seriam furos de edição?), o enredo busca (re)contar o drama de ação (com suas manjadas questões de família biológica e  ou afetiva) de forma breve e coerente com a fantasia de ficção científica dos quadrinhos, sem se desviar muito do assunto (salvar a heroína e o planeta) e sem apelar demasiadamente para a pieguice, a comiseração e ou o romance grude tapa buraco.


Tem de tudo um pouco do gênero (vilões vs. heróis vs. preconceito = a destruições espetaculares), mas nada que ocupe muito tempo na tela, a não ser as batalhas. Nem mesmo a irritante trilha horrorosa é capaz de embaraçar a narrativa linear que apresenta algumas sequências impactantes (principalmente no primeiro ato), que podem fazer diferença para quem assistir em 3D (de profundidade) IMAX...., ponto para os ótimos efeitos especiais. Se bem que a explosiva briga (escura e confusa) entre a turma de Xavier e a de Magneto, não é das melhores, mas a dos dois times contra os violões, dentro de um trem (de novo?!), é muito legal (ou bem melhor que a terrível sequência da Capitã Marvel brigando com um Alien Metamorfo dentro do metrô).

Enfim, sem espaço para o humor, mas sempre com abertura para interessantes questionamentos morais, X-Men: Fênix Negra cumpre o que promete: diversão alucinadamente cósmica, sem aborrecer e ou frustrar muito o leitor/espectador com algumas liberdades inteligentes..., já que HQ é uma coisa e cinema (apesar dos fotogramas) é outra um bocado diferente (ou quase). O elenco é excelente; os personagens estão menos histéricos e passionalmente equilibrados; os diálogos (curtos ou longos), para a história que se propõe contar, são bons, sem fugir muito do clichê aceitável e sem cientificismo de dar nó em cérebro da garotada. Ainda que tenha algumas surpresas mostradas nos trailers (que só assisto depois da sessão normal!), não dá para comentar muito sem acabar cometendo spoiler. Ainda que a história da Fênix, ou ao menos seu argumento, seja bastante conhecida, o final (acredite!) não muda..., mas recebe tratamento apoteótico de arrepiar. Quanto ao destino de Xavier e Magneto, este, sim, vai dar um nó..., se você, é claro, se lembrar do final (?) mais ou menos recente dos dois...


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta-metragem (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Crítica: Rocketman



Rocketman
por Joba Tridente

A primeira sequência de Rocketman não poderia ser mais emblemática: Elton John, vestindo uma exuberante fantasia de diabo, entra por um corredor e caminha para o palco..., não para se apresentar a uma enlouquecida multidão de fãs, mas para se desnudar psicologicamente diante de uma plateia mínima de anônimos, num centro de reabilitação. Catarse ideal para o diretor Dexter Fletcher (Sunshine on Leith e  Voando Alto) lançar o gancho terapêutico (“sou viciado em álcool, cocaína, sexo, compras, remédios etc”) que vai resgatar e exorcizar momentos cruciais da infância, juventude e estrelato do compositor e cantor Elton Hercules John, nascido Reginald Dwight, incorporado com admirável segurança por Taron Egerton. A cada sessão Elton vai desmontando a sua fantasia (ou descendo do salto, como se dizia na época), se desnudando, a partir dos chifres, numa fascinante metáfora à libertação da mente e do corpo..., cujo ciclo será fechado com um olhar intimista e arrepiante da imagem inicial na leveza de um novo contexto, deixando para trás suas penas.


Rocketman é uma rock-biografia ousada no ritmo e na linguagem, feito o seu biografado, indo do drama com música ao drama musical, sem jamais temer o ridículo. Um expurgo para cada resgate da memória. Uma canção, indiferente à data da composição, para ilustrar teatralmente cada fase da vida: o desamor dos pais; a insegurança (bis)sexual; a carência afetiva; a solidão do sucesso... Números musicais cheios de nuances, em suas coreografias e cores, substituindo diálogos melodramáticos e fazendo o espectador se atentar aos dizeres das letras sensacionais de Bernie Taupin (Jamie Bell),  que muitas vezes ficam em segundo plano, quando o ouvinte se deixa envolver apenas pela magnética melodia de Elton John.

Pelo que se vê, assim como grandes expoentes do cenário musical mundial, Elton John não teve uma vida fácil antes e ou depois do sucesso. Tomado pela autocomiseração, desde a infância, por mais que se encastelasse, só encontrou redenção ao descer ou rolar degrau a degrau de sua torre de diamantes. O que não quer dizer que a cinebiografia seja depressiva (deprê!). Muito pelo contrário, o roteiro de Lee Hall (Billy Elliot), aliado à direção eficaz de Fletcher, tem empatia suficiente para falar de dores e humores alheios sem torturar o público.


É claro que, pelo refrão rock-pop, muitos espectadores irão buscar (quase em vão) semelhanças com Bhoemian Rhapsody (2018), a cinebiografia de Freddie Mercury/Queen. Até há alguns pontos biográficos em comum (principalmente relacionados às drogas e à sexualidade), mas as narrativas têm objetivos diferentes: Bhoemian é extrovertido e Rocketman é introvertido..., porém, sem perder a musicalidade dos dois geniais astros. O que realmente aproxima uma produção da outra é o fato de Dexter Fletcher ter assumido a direção (não creditada!) de Bhoemian, quando Bryan Singer foi demitido, e a presença, em comum nos dois enredos, do produtor John Reid, produtor musical do Queen (de 1975 a 1978) e produtor musical (de 1970 a 1998..., fez fortuna!) e amante de Elton John. Na cinebiografia do Queen, Reid foi interpretado por Aidan Gillen e na de Elton John, por Richard Madden.


Enfim, considerando a excelência do elenco; o talento de Taron Egerton, que interpreta (sem imitar Elton John!) todas as canções do filme; a narrativa enxuta, com suas ótimas elipses; a fascinante reconstituição de época, de figurino e de videoclipes; os números musicais criativos, atemporais e essenciais na condução da história etc..., se você não está nem aí pra cronologia musical, que prioriza o instante cênico e não o instante da composição; admira a arte da dupla Elton John/Bernie Taupin; gosta de uma cinebiografia bem contada e muito melhor cantada, que (levando em conta algumas liberdades poéticas) traça um perfil emocionante do compositor e cantor inglês que há cinquenta anos vem produzindo obras de qualidade, creio que não vai ter do que reclamar, Rocketman é o filme da hora. Uma boa sessão e viaje no tempo sem culpa. Mas, se sentir vontade, desça do salto também e vai ser feliz a seu modo!

*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Crítica: Godzilla II: Rei dos Monstros



Godzilla II: Rei dos Monstros
por Joba Tridente

Estava pensando nas minhas considerações ao novo velho Godzilla, que está de volta às salas de cinema, quando decidi dar uma olhada no que escrevi, lá nos idos de 2014, sobre o Godzilla, de Gareth Edwards. Para minha “surpresa”, se eu fizesse um Ctrl+C lá e um Ctrl+V cá, ganharia tempo, já que não há muito a acrescentar.

Ou seja, lá: Que Godzilla é um simpático lagartão da mitologia japonesa que ganhou notoriedade com o filme japonês Godzilla, de 1954, exorcizando na telona os horrores da 2ª Guerra Mundial, como o ataque atômico (de 1945) a Hiroshima e Nagasaki. Que ele vem resistindo ao tempo, ganhando releituras (animações, hqs) inclusive (é claro!) norte-americanas, como a do Godzilla (1998) de Roland Emmerich, com a pegada de humor (trash) tradicional de seus filmes-catástrofes. Que o sessentão Godzilla voltou a dar o ar da graça e da força na versão cinematográfica de Gareth Edwards (Monstros), que variava pouco no despertar e nas ações intempestivas do Rei dos Monstros, ao enfrentar o casal de MUTOs. Que o brutamontes tinha ressurgido das profundas (em 1999) por conta de abalos sísmicos, testes nucleares, radioatividade, estupidez humana, arrogância, prepotência etc. Que o roteiro era simplório e a trama até redondinha, na medida para crianças e adolescentes: família (quase) feliz, pai ausente, cientistas em conflito, tragédia, autoritarismo, medidas idiotas, atos “heroicos”. Que havia nada que não tivesse sido visto em trocentos filmes do gênero catástrofe, principalmente quando ela (a catástrofe!) é desencadeada pela ação alucinada dos militares (norte-americanos) ao serem convocados (sempre!) para “resolver” um problema (alheio).


E seja, cá: Passados cinco anos, um “novo” Godzilla vem dar a cara a tapas em Godzilla II: Rei dos Monstros (Godzilla: King of the Monsters, 2019), dirigido por Michael Dougherty (Krampus: O Terror do Natal), que dividiu o “roteiro” com Zach Shields. O panorama é o mesmo para o “novo” melodrama-catástrofe de ação mirabolante que começa ali onde o anterior acabou: enquanto o protagonista de 2014 reencontra a mulher e o filho, que poderiam estar perdidos em meio às ruínas de São Francisco, os protagonistas de 2019 (pai e mãe) choram o desaparecimento de um filho. Fato que desestrutura (?) a família formada pelos cientistas abnegados e traumatizados com sua perda: Dr. Mark Russell (Kyle Chandler), Dra. Emma Russell (Vera Farmiga) e a filha superdotada Madison Russell (Millie Bobby Brown). Unidos no sofrimento, nas cenas iniciais, e divorciados, nas cenas seguintes, o biólogo Mark, que já trabalhou na Monarch, vai para o mato estudar o comportamento dos lobos, enquanto a paleobióloga Emma, que ainda trabalha na Monarch, vive na cidade com sua inteligente e sensível filha Madison..., a única que se comunica com Mark. Antes de se separar, o casal criou a ORCA, uma máquina bioacústica que permite a comunicação com os animais pré-históricos e até mesmo o seu controle. É preciso dizer o que vai acontecer com a inflexível cientista e sua filha, quando inescrupulosos especuladores de DNA de Monstros Titânicos se interessarem pela máquina e...? É claro que não!

Se você já assistiu a algum Parque dos Dinossauros, sabe que experiências científicas com espécies desconhecidas podem sair de controle (e sempre saem, porque é clichê!) e aí é a hora de chamar um “salvador da pátria”, (sempre!) relutante até saber que a sua família (ou ex) está correndo perigo... Já que tragédia sem família (em primeiro lugar!) não é tragédia, é acidente, vamos quicando aqui e acolá numa história estapafúrdia até o desfecho previsível e lagrimejante. Mas, aí, se prestar a mínima atenção em quem é quem, no começo do imbróglio, seguirá a trilha de atritos familiares (oh!) e bate-boca entre os “profissionais” da ciência e militares (de novo?) só para confirmar o seu palpite (?) de quem (humano) apertará o botão que porá fim ao espalhafato e quem (humano) recolherá os restos...


Godzilla II é um filme carente (mesmo!!!) de argumento e de roteiro que enxerguem além da fórmula papai, mamãe e filhinhos traumatizados e monstros defendendo território e reinado. Há pouca novidade, nesta versão um tanto acéfala, além da lenga-lenga dos humanos destroçados Mark, Emma e Madison e da presença dos Titãs Mothra, RodanGhidorah e Godzilla, em batalha mortal por território e reinado. Como é uma continuação, estão de volta à cena de conflitos, além de militares norte-americanos enlouquecidos e (sempre!) à beira de um ataque de nervos, os cientistas Ishiro Serizawa (Ken Watanabe), um dos fundadores da Monarch, e a paleozoologista Vivienne Graham (Sally Hawkins). Todos os personagens, “vilões” ou “mocinhos”, quando não estão se matando e ou ressuscitando algum Titã, pra depois tentar explodi-lo com artefatos nucleares, estão “discutindo” um projeto thanosiano de reequilíbrio da vida na Terra. Se em Vingadores, o “vilão” Thanos trama restabelecer o equilíbrio no universo, exterminando meio mundo, para justificar que os sobreviventes tenham uma vida digna e sem misérias..., por aqui, os cientistas andam com algumas ideias estranhas (que não vou contar!) para curar o nosso maltratado planeta, a cada dia mais e mais povoado e depredado e poluído...

Enfim, considerando a criatividade quase zero; roteiro em busca de roteirista; diálogos sofríveis; personagens rasos e ou sem nenhum carisma; personagens que não se sabe a que vieram e ou que desaparecem sem saber o porquê; direção claudicante; furos imperdoáveis; sequências estúpidas e de violência totalmente desnecessária; situações repetidas do filme anterior; linearidade previsível; trilha sonora na maior parte insuportável; atos altruístas e atos heroicos piegas; CGI de qualidade e ótimas cenas de ação entre os Titãs..., o dramalhão Godzilla II: Rei dos Monstros, ainda que sem nenhuma pitada de humor, deve agradar ao público juvenil, ocupado mais com a ação vertiginosa do que com o conteúdo, e aos espectadores adultos sem maiores expectativas que não as de um passatempo descompromissado. Um bom escapismo a todos e a todas!


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta-metragem (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

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