sábado, 30 de novembro de 2019

Crítica: Facas e Segredos



FACAS E SEGREDOS
por Joba Tridente

Após a decepcionante versão de Kenneth Branagh para Assassinato no Expresso do Oriente, em 2017,  os fãs de filme de mistério já podem compensar a escorregada do britânico (que em 2020 lança a releitura de Morte no Nilo, já adaptada em 1978 por John Guillermin), com o divertido Facas e Segredos (Knives Out, 2019) do americano Rian Johnson (Looper, Star Wars - Os Últimos Jedi).


A história acompanha as investigações do célebre detetive Benoit Blanc (Daniel Craig), contratado anonimamente, para resolver as circunstâncias da morte (assassinato ou suicídio?) do famoso escritor de suspense Harlan Thrombey (Christopher Plummer), encontrado degolado, em sua mansão, na manhã seguinte à comemoração do seu 85.º aniversário. Harlan era um milionário cercado pelos filhos, noras e netos sanguessugas que ele sustentava de bom grado. Pelo menos é o que faz parecer a sua parentalha feliz com a mesada viciante. E quando se trata de aparência, os Thrombey, sejam eles descendentes e ou agregados, são mestres em causar boa impressão..., ou se safar tentando. Para o detetive da polícia, tenente Elliott (LaKeith Stanfield), a cena da morte do escritor sugere suicídio. Para o experiente Blanc, assim como o vazio no buraco da rosquinha, a cena da morte guarda alguns segredos que ele espera desvelar antes que o Testamento de Harlan apague os vestígios do suicídio (?) ou do assassinato (?). Quanto ao policial Trooper Wagner (Noah Segan), que é apaixonado por romances de mistério e acompanha eufórico os desdobramentos do caso, ele não vê a hora da intrincada trama (que imita a arte literária) fazer sentido e receber o ponto final de Benoit Blanc.


O interessante nessa trama de simplicidade enganosa e muito divertida em suas “reviravoltas”, escrita pelo próprio Johnson, é que, praticamente, desde o princípio, o espectador sabe (ou pensa que sabe) como ocorreu a morte de Harlan e vai ficar matutando se deixou escapar alguma gota do mistério, já que, se está (?) tudo esclarecido, Blanc insiste em encontrar a peça motivacional que falta no vazio da rosquinha. Será que o que foi mostrado não passa de uma farsa? Será que o ato mortal não é tão claro (mesmo que você tenha assistido à ação!) como parece e que o sangue da degola pode ter respingado em mais de um personagem? O que Blanc deixou escapar ao interrogar a filha de Harlan, a empresária Linda (Jamie Lee Curtis), o seu marido Richard (Don Johnson) e Ransom (Chris Evans), o filho playboy do casal? O detetive notou que o cabisbaixo Walter (Michael Shannon), o caçula que administra a editora do pai, a sua esposa Donna (Riki Lindhome) e o filho extremista Jacob (Jaeden Martell) se portam de modo suspeito? E quanto à falsidade em pessoa Joni (Toni Collette), nora de Harlan, e a sua inocente filha Meg (Katherine Langford), estão escondendo o jogo em troca de “migalhas”? Como o espectador poderá ver e ouvir, entre um questionamento e outro, é que todos parecem magoados com algum acontecimento ocorrido na festa de aniversário de Harlan, mas seriam eles capazes de um ato tão insano? Para ter todas as perguntas respondidas, o público vai ter de esperar o epílogo (real)..., logo após o que seria o ponto final definitivo!


Como é de praxe, a narrativa começa meio confusa, mas logo os nós vão sendo atados e quando menos se espera (mesmo!) o espectador já sabe “o” quem (matou), “o” como (morreu) e “o” porquê do tal crime. Bom, sabe mais ou menos. Pois, quando se trata de mistério, o melhor é não acreditar em soluções fáceis, já que nem tudo que se ouve ou se vê em cena tem a ver com o fio da meada que, quando menos desfiar, melhor para enredar. O elenco é brilhante, o roteiro uma delícia e a direção um primor. O script brinca com o farsesco sem apelar para a metalinguagem, assim como trata de questões de imigração, prisões e extremismo governamental (norte-americano?), sem qualquer teor de panfletagem: por isso é que funciona (subliminarmente?)!

Enfim, Facas e Segredos não é um filme hilário, mas tem momentos de excelente humor, principalmente relacionado à Marta Cabrera (Ana de Armas), uma imigrante latina (sabe se lá de onde!) que serve tanto de assistente quanto de cuidadora de Harlan, além de peça-chave para Benoit Blanc destrinchar este imbróglio. Ah, fique atento para não perder uma impagável gag que reverencia um certo trono de uma famosa série de tv. Um espetáculo e tanto para se passar muito bem o tempo...


Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeos-documentários fiz em 1990. O primeiro curta-metragem (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado em Curitiba, no Paraná, Brasil.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Crítica: A Grande Mentira



A GRANDE MENTIRA
por Joba Tridente

Dizem que na mesa do pôquer vence quem blefa melhor. Dizem que na mesa da negociata um trapaceiro profissional pode cair do alto do seu castelo de cartas sem nem saber de onde veio a rasteira. Dizem que na mesa da vida a cobrança das ações do passado pode vir antes da sobremesa. Ou não! Vai depender da dose de sorte (esperteza) e ou da dose de azar (estupidez) de cada jogador para se saber quem vai brindar com champanhe ao final da partida. Situações (meramente ilustrativas) que podem ser conferidas no bom thriller A Grande Mentira, dirigido por Bill Condon (Deuses e Monstros, Kinsey, Dreamgirls, Mr. Holmes), a partir da adaptação de Jeffrey Hatcher para o romance The Good Liar (O Bom Mentiroso, 2015), do escritor britânico Nicholas Searle (ex-oficial de inteligência do Reino Unido).


A trama de A Grande Mentira acontece no ano de 2009, em Londres, e envolve o vigarista profissional Roy Courtnay (Ian McKellen) e a vítima da vez Betty McLeish (Helen Mirren). O casal de octogenários viúvos se conheceu num site de relacionamento amoroso, onde Roy costuma caçar as mulheres perfeitas para seus inescrupulosos ataques financeiros. Com sua esperteza aprimorada em anos de golpes, ao lado do cúmplice Vincent (Jim Carter), o maquiavélico Roy acaba encontrando uma forma de se infiltrar cada vez mais na vida da rica e solidária Betty, provocando desconfiança em Stephen (Russell Tovey), o neto da viúva. Toda via mal-intencionada do predador, no entanto, conforme o roteiro se desenrola, largando dicas/pistas para tudo quanto é lado, não é difícil perceber que alguma coisa está fora de ordem e que o enredo hitchcockiano, com suas reviravoltas (até rocambolescas), pode vir a surpreender com o ás da cartada final. O Destino não é mesmo confiável!


Ainda que a história não seja assim uma obra-prima, entre os contos regulares de trapaceiros sedutores e trapaceados charmosos levados ao cinema, A Grande Mentira é um filme que se assiste com curiosidade e prazer. Talvez, relevando alguns excessos do roteiro, nem tanto pelo desafio de você descobrir, com maior ou menor grau de dificuldade, quem está contando a grande mentira ou quem é o bom mentiroso, do título do elogiado romance..., mas pela atuação impecável de Ian McKellen e Helen Mirren. Com os dois em cena, não importa se alguma sequência parece absurda e até gratuita (na violência), e sim a elegância de suas performances dando sagacidade ao casal da ficção. É uma delícia se deixar envolver pelos gestos meticulosos, pelos olhares de Esfinge: “decifra-me ou te devoro” ou “ama-me e te roubo”, pelos diálogos (falsamente) provocativos e convenientemente subtendidos na interpretação de cada um...


Enfim, com um primeiro ato mais leve e audacioso (jogo de gato e rato) e um segundo mais obscuro e intenso (preparo da armadilha) A Grande Mentira mantém o espectador firmemente conectado até o desfecho teatral, onde apropriadamente destila a ironia do humor inglês (numa gag genial) com uma advertência para os incautos: cuidado! Não sei se todo público vai entender a piada que me fez gostar mais do filme (ao relembrá-la primorosamente encaixada no contexto, na hora de escrever esta resenha) e nem me importar se é ou não discutível certos desdobramentos da trama, já que, além de se tratar de mera ficção, me pareceram plausíveis (e juridicamente ainda possível). Ah, se você não matar a charada a tempo, quando a comédia termina seu queixo vai cair, ao perceber que as pistas desveladas estiveram (camufladas?) na sua frente a narrativa inteira. E aí, quem é a isca e quem é o peixe?

Assim, viajando no verde das azeitonas do dry martini, digo, sem receio de cometer spoilers, que a segunda estrofe da bela canção As Aparências Enganam, de Sérgio Natureza e Tunai, imortalizada por Elis Regina, de certa forma sintetiza o enredo de A Grande Mentira: (...) As aparências enganam aos que odeiam e aos que amam / Porque o amor e o ódio / Se irmanam na geleira das paixões / Os corações viram gelo e depois / Não há nada que os degele / Se a neve cobrindo a pele / Vai esfriando por dentro o ser / Não há mais forma de se aquecer / Não há mais tempo de se esquentar / Não há mais nada pra se fazer / Senão chorar sob o cobertor. Bom, isso não quer dizer que você, um adulto sóbrio, também possa ter essa percepção...


Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeos-documentários fiz em 1990. O primeiro curta-metragem (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado em Curitiba, no Paraná, Brasil.

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Crítica: Um Dia de Chuva em Nova York



UM DIA DE CHUVA EM NOVA YORK
por Joba Tridente

Ah, essas poderosas produtoras puritanas que, preocupadas com suas reputações conservadoras (?), estremecem o mercado do entretenimento em prol do patrimônio da família, do patrimônio da moral e do patrimônio do mercado, pela preservação do patrimônio dos bons costumes norte-americanos. Quebra de contrato (de cinco filmes) da Amazon Studios, mimimi de atores inseguros e factoides à parte..., eis que, dois anos depois do tititi da onda de assédios no reino cinematográfico, finalmente a comédia romântica Um Dia de Chuva em Nova York (A Rainy Day in New York), escrita e dirigida pelo mestre Woody Allen, chega às salas de cinema (que não o boicotaram) em alguns países, inclusive no Brasil.


Um Dia de Chuva em Nova York é um filme nostálgico, com toques de melancolia, trilha sonora envolvente, diálogos irônicos e personagens inquietos..., algo habitual nas obras de Allen, mas que nunca soam redundantes, já que a retórica sempre traz argumentos diferentes. Desta vez o contexto é bem mais juvenil, ao apresentar três jovens (brancos e muito ricos), na faixa dos vinte anos, em busca de um lugar na sociedade, para satisfação pessoal e ou de suas abastadas famílias: Gatsby Welles (Timothée Chalamet), culto e sem rumo, apaixonado pela boemia e por um bom piano num bar esfumaçado;  Ashleigh (Elle Fanning), aspirante a jornalista e apaixonada por cinema; Shannon (Selena Gomez), apaixonada por moda.

A trama de encontros, desencontros e revelações bombásticas, acontece praticamente num dia chuvoso de sábado, quando o casal de universitários Gatsby e Ashleigh vai passar um fim de semana romântico em Nova York. Ela, porque conseguiu marcar uma entrevista com o renomado diretor de cinema Roland Pollard (Liev Schreiber). Ele, porque quer apresentar as maravilhas da cidade para a sua amada. Porém, apesar da agenda cultural combinada, a ingênua e entusiasta Ashleigh acaba indo além do tempo previsto com o depressivo Roland e, de quebra, se vendo dando atenção também ao incompreendido roteirista Ted Davidoff (Jude Law) e ao sensual ator Francisco Vegas (Diego Luna). Enquanto aguarda pela amada, Gatsby anda pela cidade, e, entre alguns velhos amigos, encontra Shannon, a irmã de uma ex-namorada. Daí, até o final da noite, tudo (mesmo) pode acontecer com esse trio tão desencontrado, mas cheio de desejos..., a mãe de Gatsby (Cherry Jones) que o diga! Depois de tantos atropelos sob a chuva do sábado, a tranquilidade do domingo certamente surpreenderá a cada um...


Maravilhosamente fotografada por Vittorio Storaro, a trama de Um Dia de Chuva em Nova York parece tecer uma viagem no tempo e ou um resgate no tempo, ao trazer um jovem alter ego de Woody Allen de ontem para dialogar com a Nova York de hoje, que ainda guarda preciosos resquícios do passado do diretor. A divertida provocação causa um curioso estranhamento na atmosfera verbal e visual do jovem casal contemporâneo, mas com viés vintage..., principalmente em Gatsby, saudoso de um passado cultural que não viveu. Saudade essa manifestada numa emocionante sequência em que ele toca piano e canta a adorável Everything Happens to Me (Tudo Acontece Comigo, 1940), de Tom Adair e Matt Dennis, que Frank Sinatra gravou quatro vezes, mas cuja versão (no filme) se aproxima da interpretação de Chet Baker.

(Nota: Infelizmente, como é padrão nas traduções cinematográficas brasileiras (excetuando alguns musicais), sempre que aparece alguém cantando, mesmo tendo a ver com a trama, a tradução cessa, como se fosse crime traduzir letra de música. Toda via melódica, no entanto, para você não ser levado(a) a esmo pela enxurrada dos versos, saiba que a canção fala de um cara que lamenta seu azar no amor, no lazer, no jogo..., por mais que ele tente acertar, algo dá errado.). Como se ouve ali, para quem conhece o valor das palavras do coração, Allen não economiza seus diálogos geniais nessa belíssima sequência, mas sabiamente aproveita um que está pronto e o condensa com maestria numa tocante cena melódica. Talvez, o que quer que tivesse escrito, por melhor que fosse, naquele momento único soaria banal...


Enfim, Woody Allen, diretor de Vicky Cristina Barcelona - o filme mais sensual que já assisti até hoje, e de: Tudo Pode Dar Certo; Para Roma Com Amor; Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos; Meia-Noite em Paris; Blue Jasmine, entre outros que amo, mas que não resenhei, continua me surpreendendo positivamente. Assim, considerando as tiradas inteligentes sobre cinema, cultura de almanaque, literatura de costumes, relacionamentos amorosos e de ocasião; a mordacidade dos diálogos; o humor leve; a fotografia fantástica; a jovialidade do roteiro e do elenco, que se sai muito bem; o ritmo narrativo que precisa apenas de 90 minutos para contar uma história simpática; a trilha sonora; o jogo de espelhos com a veracidade do teatro e o engodo da vida..., a comédia romântica agridoce Um Dia de Chuva em Nova York é um bom espetáculo para se assistir em qualquer clima...

Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeos-documentários fiz em 1990. O primeiro curta-metragem (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado em Curitiba, no Paraná, Brasil.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Crítica: Cadê Você, Bernadette?



CADÊ VOCÊ, BERNADETTE?
por Joba Tridente

Entre os meus filmes favoritos se encontram alguns de Richard Linklater: Antes do Amanhecer (1995), Antes do Pôr-do-Sol (2004), Antes da Meia-Noite (2013), Escola de Rock (2003), O Homem Duplo (2005), Boyhood - Da Infância à Juventude (2014). Com seus diálogos emocionantes, que também podem ser tão desconcertantes quanto os do mestre Woody Allen, o diretor Linklater, um dos nomes mais interessantes do cinema indie norte-americano, faz de seus filmes um espetáculo raro, que por muito tempo ou mesmo anos, fica ecoando na memória, como a envolvente trilogia “Antes”, por exemplo. Um cineasta capaz de passar doze anos filmando uma história como a de Boyhood, realmente, deve ter muito a dizer com sua arte. O problema é que nem sempre a plateia está olhando para o mesmo horizonte que ele. Sua obra mais recente, Cadê Você, Bernadette?, já está nas salas de cinema. Será que o grande público irá mergulhar na onda da sua protagonista e confortavelmente sintonizá-la?


Cadê Você, Bernadette? (Where'd You Go, Bernadette, 2019) é baseado no best-seller homônimo de Maria Semple, lançado em 2012. O roteiro, assinado Holly Gent, Vincent Palmo Jr. e Linklater, acompanha a misantrópica arquiteta Bernadette Fox (Cate Blanchett) que, ao contrário de seu marido Elgie (Billy Crudup), desenvolvedor de tecnologia inteligente, está no auge de uma crise criativa e, sem se dar conta do seu estado depressivo, acaba perdendo o chão quando a filha Bee (Emma Nelson), faz uma proposta para os três passarem uns dias numa base na Antártica.

O sumiço de Bernadette é mostrado num breve prólogo, belissimamente fotografado por Shane F. Kelly, na Antártica. Há um recuo de algumas semanas e então começamos compreender o título da trama, que vai muito além deste início. Através de emails, narrativas da filha, vídeos e relacionamento com vizinhos, a vida de Bernadette vai se desvelando e, só aos poucos, começamos a compreender as idiossincrasias da personagem, que se mudou da Los Angeles para Seattle, onde o marido trabalha na Microsoft e ela, praticamente, se ocupa da amada filha adolescente Bee. A família, um tanto disfuncional, mora num casarão antigo (parecido com casas velhas e abandonadas de filme de terror) há muito esperando por uma restauração adiada, já que a proprietária, considerada um dos nomes mais importantes da arquitetura norte-americana, está com bloqueio criativo, provocado por um trauma (que só quem é artista profundamente dedicado à sua arte vai compreender a dimensão da dor) que será mostrado no avanço da narrativa.


Ao se emparedar em seu mundo, com abertura de sol apenas para a amada filha e com alguns raios para o amigável marido, Bernadette pede socorro. Mas ninguém, além dela, a ouve. A sua janela está fechada para a (odiada) humanidade ao seu redor..., o que a faz se “relacionar” com Manjula, uma assistente virtual indiana, sempre online, que “resolve” todos os seus problemas materiais. Conforme o enredo amarra as pontas soltas, compreendemos que o questionamento “cadê você?” vai muito além do “último” desaparecimento (na Antártica) da protagonista, que há muitos anos estava perdida dentro de si mesma à espera de um resgate.

Embora classificado como comédia, a mim Cadê Você, Bernadette? sugere um drama psicológico..., com espaço para se compreender uma emocionante jornada do herói tardia. O que não quer dizer que algum espectador não possa achar graça em algumas cenas absurdas.  Toda via retórica dos gêneros cinematográficos, no entanto, creio que os profissionais do divã vão se encantar com uma notável edição de duas sequências em que (sem dividir a tela) Bernadette encontra casualmente o arquiteto Paul Jellinek (Laurence Fishburne) e conversa sobre os velhos tempos (há uma fala curiosa de Jellinek sobre criatividade) e os percalços da profissão, ao mesmo tempo em que o seu marido Elgie se encontra com a psiquiatra Dr. Kurtz (Judy Greer) e fala sobre o comportamento da mulher. Esta fascinante alternância de diálogos é essencial para se compreender como a misantrópica Bernadette chegou àquele estado mental e para sinalizar uma possível saída desse transtorno.


Não sei dizer o quanto a adaptação de Cadê Você, Bernadette?  é fiel ao romance de Semple, pois desconheço a obra, mas o roteiro (com alguma obviedade) me pareceu enxuto, na medida certa para contar uma história que vai lapidando sem pressa a aspereza do assunto até chegar redondinha (e sem subestimar o espectador) ao satisfatório epilogo. A direção de Richard Linklater é precisa. O elenco é formidável e, claro, Cate Blanchett não decepciona. Como já disse, não há alívio cômico, mas (procurando bem) nada impede o espectador de encontrar sinais de humor e, ao menos, abrir um leve sorriso. Além da fotografia, destaco tanto a cenografia quanto a edição. Ah, e se a misantrópica Bernadette vai ser encontrada e ou se encontrou, você só vai saber assistindo!


Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeos-documentários fiz em 1990. O primeiro curta-metragem (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado em Curitiba, no Paraná, Brasil.

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Crítica: A Odisseia dos Tontos



A ODISSEIA DOS TONTOS
por Joba Tridente

Se você é do tempo dos “caras pintadas” deve se lembrar do desastroso Plano Collor (mais conhecido como “confisco da caderneta de poupança”)..., aquela lambança sem precedentes, do presidente Collor e da sua ministra da economia Zélia, que apavorou o país ao confiscar os ativos financeiros de todos (?) os brasileiros. É claro que a dupla foi odiada desde então e o imbróglio todo, com mais alguns dados gráficos, felizmente não acabou em pizza, mas em impeachment de um e sumiço de outra nos EUA, na década de 1990.

Pois você sabia que dez anos depois, da derrocada aqui, um plano econômico parecido (o corralito) foi implantado na Argentina? Bem, no Brasil o fato desagradável rendeu motivos ao tenso filme Terra Estrangeira (1996), de Walter Salles e Daniella Thomas. Na Argentina, motivou a deliciosa dramédia A Odisseia dos Tontos (La odisea de los Giles, 2019), de Sebastián Borensztein (Um Conto Chinês e Kóblic)..., uma envolvente história de ação e reação anárquica (ou seria de revanche?) que pode fazer você se perguntar: “Por que não pensei nisso na época, camarada?.


Baseado no livro La Noche de la Usina, de Eduardo Sacheri (La pregunta de sus ojos / O Segredo dos seus olhos), e no roteiro do próprio Borensztein, a trama de A Odisseia dos Tontos, como toda boa odisseia, ousa vários gêneros (drama, comédia, suspense, ação, aventura) para contar a louca história de um heróico grupo de moradores de uma vila da província de Buenos Aires que, no ano de 2001, às vésperas do confisco bancário corralito, perde todo o dinheiro juntado para montar uma cooperativa, num golpe armado pelo corrupto gerente do banco e um inescrupuloso advogado, e decide arquitetar um plano para tentar recuperar o dinheiro. Giles (tonto ou tolo): pessoas ingênuas que são facilmente enganadas por empregadores, manipuladas por autoridades e exploradas por políticos etc...

Ao abrir A Odisseia dos Tontos com a bela valsa O Danúbio Azul (1866), de Johann Strauss II (1825-1899), acompanhando uma explosão que lança pro alto um amontoado de ferragem, reverenciando a famosa elipse do filme 2001 - Uma Odisseia no Espaço (1968), de Stanley Kubrick (1928-1999), em que, logo após descobrir o uso de uma “arma” que lhe dará domínio sobre outras espécies, um macaco pensante lança um osso/nave ao espaço, Sebastián Borensztein já diz a que veio, não apenas por começar situando a sua saga no emblemático ano 2001, o mais explosivo ano político e econômico argentino, que culminou com cerca de quarenta mortos e cinco troca de presidente em duas semanas do mês de dezembro..., mas também para mostrar como um grupo de amigos (mais ou menos pensantes), vitimado pelo corralito e também favorecido pelo acaso, encontrou uma solução brilhante para seus problemas financeiros e empresariais. Essa explosão espetacular, que será vista novamente e no contexto real, por um ângulo mais irônico, no terceiro ato, também tem a ver com a evolução dos macacos de Kubrick, mas é melhor você desvelar (e rir) por conta própria. Ah, e se for atento(a) perceberá outras minúcias curiosas na cenografia, bem como na trilha sonora.


A Odisseia dos Tontos tem uma narração nada redundante de Fermín Perlassi (Ricardo Darín), do prólogo ao epílogo, que ilustra mais a alma do que os passos dos seus parceiros de jornada em busca de justiça (com as próprias mãos e ou com o quê estiver à mão). A ação de caça ao tesouro pessoal (os dólares economizados) parece insano, mas o desespero dos enganados é o combustível (ops!) que alavanca muitas iniciativas, para o bem dos amigos (montar uma cooperativa para empregar um bocado de gente do vilarejo) ou para o mal dos espertalhões (guardar dólares roubados para se dar bem no pós-crise econômica).

É nesse divertido corre-corre do grupo, entre acertos e erros, em busca da melhor estratégia para dar uma rasteira de mestre no vilão e recuperar o que é seu, sem ser descoberto, que vamos conhecendo a personalidade de cada um dos onze protagonistas: o ex-jogador de futebol e mentor Fermín Perlassi (Darín), sua mulher idealizadora da cooperativa Lidia (Verónica Llinás) e o filho universitário Rodrigo (Chino Darín), o anarquista convicto Fontana (Luis Brandoni), o maluco resignado Medina (Carlos Belloso), o peronista piadista Belaúnde (Daniel Aráoz), o advogado trapaceiro Fortunato Manzi (Andrés Parra), a empresária Carmen Lorgio (Rita Cortese) e o seu filho sem menosprezado Hernán (Marco Antonio Caponi), os  consumidores de novas tecnologias irmãos Gómez (Ale Gigena e Guillermo Jacubowicz)..., todos muito bem caracterizados e, em meio a risos e alguma comoção, com bom tempo em cena.


Com uma discretíssima e bem-humorada pegada sócio-política, A Odisseia dos Tontos é um filme que ganha fácil qualquer público, tanto pela genialidade do argumento, muito bem desenvolvido no criativo roteiro, quanto pela direção impecável de Sebastián Borensztein.  A performance do elenco é um espetáculo à parte. É impossível ficar imune à empatia das personagens, sejam elas ignorantes e ou bem informadas. Não importa o tempo de tela e ou a quantidade de falas, cada ator/personagem é único no papel e essencial na trama que beira o absurdo e chega a flertar com o pastelão..., mas sem perder a classe cinematográfica argentina. Pode até parecer “inspirado em fatos”, mas, acredite, é (?) pura ficção. Ou será que não?

Enfim, A Odisseia dos Tontos exala calor humano de uma forma muito particular, muito própria do original cinema argentino. Repleta de boas intenções, é uma comédia tocante, emociona, sem ser piegas, e diverte (com situações e diálogos hilários e piadas políticas impagáveis), sem subestimar a inteligência do público que, caso não tenha a menor ideia do assunto, ainda pode aprender sobre cooperação e sobre cooperativa. A trilha, com rocks argentinos, ilustra bem o enredo com seu final apoteótico (se fosse filme cabeça-de-parafuso o fim, possivelmente, seria completamente diferente). Se é fã ou quer conhecer o cinema dos hermanos, acho que deveria arriscar. Vai que gosta. Difícil não gostar! Ah, não custa lembrar que há uma breve sequência logo no início do pós-crédito que dá bem o tom da revolta capital de um personagem!


Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeos-documentários fiz em 1990. O primeiro curta-metragem (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado em Curitiba, no Paraná, Brasil.

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Crítica: A Vida Invisível



A Vida Invisível
por Joba tridente

Quanto tempo o tempo leva para abrandar a saudade, esmaecer as lembranças e fazer um elo fraterno virar pó de estrela? Poucos dias ou uma vida inteira para quem carrega consigo uma parte qualquer de um pertence compartilhado? Quem é que sabe?! O tempo é tão fugidio quanto o vento!

A Vida Invisível (2019) é o mais recente filme do premiado diretor Karim Aïnouz (Viajo porque preciso, volto porque te amo). Ganhador do prêmio Un Certain Regard, do Festival de Cannes 2019, e escolhido para representar o Brasil no Oscar 2020, o melodrama fala de laços de fraternidade que não se rompem e de memória que não se desvanece...,  bem como de gente que desaparece de vista (por diversas razões) e de gente que está à vista de todos, mas que (por diversas razões) é tratada como se estivesse invisível (desaparecida).


Não li o livro A Vida invisível de Eurídice Gusmão (2016), de Martha Batalha, mas, pelos resumos e resenhas da obra literária na web, parece que os roteiristas Aïnouz, Murilo Hauser e Inés Bortagaray deram uma boa enxugada na história e nas personagens. Ao excluir tramas paralelas, o enredo ganhou agilidade e metragem para falar apenas da ousada Guida (Julia Stockler) e da recatada e talentosa Eurídice (Carol Duarte e Fernanda Montenegro), que sonhavam grande ao entrar na vida adulta nos, ainda (?) conservadores, anos 1950. Porém, a vida real tem lá seus percalços e, quando se tem um pai austero (António Fonseca) e uma mãe submissa (Flávia Gusmão), um sonho pode muito bem virar um pesadelo. Aí, ou você se arrisca, como fez Guida, que, levada pela paixão, se envolveu com um marinheiro estrangeiro e, no vai e vem das marés, acabou trazendo pra casa um incômodo “presente de grego”. Ou se sujeita à “tradição familiar”, como fez Eurídice, de 18 anos, que viu seu sonho de estudar piano em Viena ir teclas abaixo, ao se casar com Antenor (Gregório Duvivier).


Toda via da felicidade incerta, no entanto, as irmãs que, da noite pro dia, se separaram e cujas vidas tomaram rumos inesperados, não perderam a esperança de se reencontrarem. Perto da memória, mas longe dos olhos, embora morando na cidade do Rio de Janeiro, ambas imaginam que a realização dos seus sonhos juvenis as levaram para longe uma da outra. Guida acredita que a irmã está feliz estudando piano na Áustria. Eurídice acredita que a irmã está feliz com o seu amor na Grécia. A saudade as corrói, mas a esperança de um breve reencontro lhes dá força para enfrentar a sociedade repressora e macho-falocrata em que vivem.

Situado nos primeiros oito anos da década de 1950, A Vida Invisível busca foco na carência afetiva e no cotidiano inconstante das resilientes irmãs. A narrativa é comedida na exposição (incômoda) de algumas situações de violência contra a mulher e parece evitar qualquer virtual alívio cômico. Até há uma ou outra “piada picante”, mas, de tão antiga (do tempo do onça), passa batida. O que prevalece mesmo é o tom melancólico, que beira o claustrofóbico, fielmente detectado pela fotografia de Hélène Louvart. Os personagens são verossímeis, a química de todo elenco é excelente e a reconstituição de época é um primor.


Enfim, com a presença marcante de Fernanda Montenegro, na pele da idosa Eurídice, dando os últimos pontos na trama, A Vida Invisível deve comover, principalmente aquele público cujo familiar se “perdeu” (na vida pessoal e ou profissional) mundo afora. É um filme bonito, com uma história básica sobre laços fraternos, que fará os espectadores mais suscetíveis deixar algumas lágrimas na sala de cinema...


Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeos-documentários fiz em 1990. O primeiro curta-metragem (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado em Curitiba, no Paraná, Brasil.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Crítica: Maria do Caritó



 MARIA DO CARITÓ
por Joba Tridente

Em sua belíssima canção Trem das Cores (1982), Caetano Veloso canta: “(...) As casas tão verde e rosa que vão passando ao nos ver passar/ Os dois lados da janela/ E aquela num tom de azul quase inexistente, azul que não há/ Azul que é pura memória de algum lugar”..., versos que nunca esqueci, pela felicidade do “azul quase inexistente, azul que não há, azul que é pura memória de algum lugar” aninhado na minha memória afetiva de interiorano paulista...


Eu sabia absolutamente nada da trama (sequer li a sinopse) de Maria do Caritó, mas ao ouvir a diva Maria Bethânia cantando Santo Antônio (2010), de J, Velloso, na bela abertura (em tons de azul que não há) da nostálgica comédia romântica circense Maria do Caritó, abri um grato sorriso. Daí, ao ver os tons “sagrados” de azul (que é pura memória) se espalhando pela tela e se misturando às cores “profanas” dos cenários e ao sentir a cantilena das falas em verso (Meu Santo Antônio querido, eu vos peço por quem sois, dai-me o primeiro marido, que o outro eu arranjo depois.) e prosa (Caritó é uma pequena prateleira no alto da parede, ou nicho nas casas de taipa, onde as mulheres escondem, fora do alcance das crianças, o carretel de linha, o pente, o pedaço de fumo, o cachimbo. O termo “caritó” também é usado para falar da moça que ficou na prateleira, sem uso, esquecida, guardada intacta...), se acomodando agradavelmente em meus ouvidos, me deixei arrebatar e saboreei, por 90 minutos, sem perder o riso, uma deliciosa história repleta de sentimentos de liberdade e de humor ingênuo que não perde o viço.


Baseada na aclamada peça teatral homônima, de Newton Moreno, que dividiu a roteirização com José Carvalho, a envolvente história de Maria do Caritó, dirigida por João Paulo Jabur, gira ao redor de Maria (Lilia Cabral) que, ao sobreviver a um parto de risco, que culminou com a morte da mãe, foi prometida pelo pai (Fernando Zylber) ao Santo Djalminha. Acontece que, aos 50 anos, a ardorosa solteirona anda a cada dia mais desejosa de um homem que lhe tire a virgindade prometida ao tal santo.  Maria quer um amor real em vida e não uma alegoria pós-morte. Toda via amorosa dos calores da menopausa, no entanto, na pequena Úrsula, onde mora e é venerada como milagreira, não é fácil driblar os sacrossantos interesses financeiros e político-religiosos do pai, do Coronel (Leopoldo Pacheco) e do Monsenhor (Fernando Neves) e muito menos conseguir um marido para a sua “santitude”. Porém, enquanto ela e sua amiga e confidente Fininha (Kelzy Ecard) atormentam Santo Antônio, na esperança de um milagre (humano) que aquiete os desejos da carne, a chegada de um Circo Mambembe naquela cidadezinha mergulhada na fé cega, trazendo em seu elenco o Galã Russo Anatoli (Gustavo Vaz), o Palhaço Fonsequinha (Fernando Sampaio), a atriz Ingênua (Priscila Steinman) e a proprietária Teodora (Juliana Carneiro da Cunha), pode botar aquele lugar de pernas pro ar... Será que “fé demais não cheira bem”? Ôps!


Maria Caritó, com seu humor brejeiro, é o tipo de filme que me parece fazer diferença (e falta!) no atual cenário cinematográfico (e quiçá político) brasileiro. O enredo é singelo, porém extremamente cativante, com seu clima bucólico, piadas inocentes (ou caipiras) que provocam um riso fácil (sem jamais subestimar a inteligência de qualquer espectador) e mensagens subliminares (sobre política, cultura e religião) muito mais eficientes do que aquelas dos filmes cabeça-de-parafuso tão em moda (e que não vêm com um compêndio do cinéfilo).

Por sua brasileirice,  a narrativa nordestina poderia ganhar vida e forma em qualquer lugar do país (a mim lembrou Minas Gerais), com suas cores de cidade do interior, predominadas pelo azul arrepiante (cuja intensidade emociona), ao embaralhar o cordel com a poesia marota, o teatro com o circo, o causo com a crônica de costumes, fragmentando a fantasia e desnudando a realidade dos sagrados palcos de papel..., e ou de Babel.


Ainda que exale um frescor agradável a todos os espectadores, Maria do Caritó, com pitadas Fellinianas aqui e resquícios do inesquecível A Marvada Carne (1985), de André Klotzel, acolá, deve extasiar principalmente o público mais velho. Quanto ao público mais novo (que perder o lugar no trem do lirismo e ignorar (?) os efeitos da catequese), pode até encarar o trauma de Maria com algum ceticismo, mas certamente não ficará imune ao humor leve (e sem escatologia) da boa trama.  

Enfim, pelo roteiro redondo e a excelência de todos os memoráveis tons de azul na arte de Sérgio Silveira e figurinos de Rô Nascimento, muito bem emoldurados pela fotografia de André Horta; pelo elenco se divertindo com a caipirice (caricatura ou canastrice) das personagens; pela performance irretocável de Lilia Cabral; pelo ritmo narrativo e trilha sonora; pela versatilidade dos diálogos em verso e prosa; pelo humor saudável e levemente “picante”;  pela hora e meia (que voa) de ótimo entretenimento..., espero que Maria do Caritó, que já encantou muita gente no teatro, agora encante um público ainda maior nas salas de cinema!


Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeos-documentários fiz em 1990. O primeiro curta-metragem (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado em Curitiba, no Paraná, Brasil.

domingo, 13 de outubro de 2019

Crítica: A Cidade dos Piratas



A Cidade dos Piratas
por Joba Tridente

Quando se fala em desenho animado, a referência do grande público é a de entretenimento para crianças, com bichinhos e objetos falantes, canções grudentas e histórias edificantes. Mas, no submundo das pranchetas, há muita história ao gosto dos espectadores adultos, que chegou às salas de cinema e ou pode ser encontrada na web, como Psiconautas - As Crianças Esquecidas; Uma Grande Aventura; Anomalisa; Túmulo dos Vaga-lumes; In This Corner of the World; Persépolis; Mary & Max - Uma Amizade Diferente; Rugas; Quando o Vento Sopra; A Festa da Salsicha; Chico e Rita; Fritz, O Gato; O Homem Duplo; Waking Life; Valsa com Balshir; A Ganha-Pão; Perfect Blue; Akira; Heavy Metal; As Bicicletas de Belleville; O Congresso Futurista; Idiots and Angels; O Menino e o Mundo; Uma História de Amor e Fúria; Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock’n’roll... Não há desculpas para quem gosta de animação-cabeça, com temática (sexual, social, política, religiosa) contemporânea, achar que apenas o público infantil é priorizado.


Isso posto, vamos ao que interessa: A Cidade dos Piratas. Quem conhece os filmes do cineasta gaúcho Otto Guerra talvez já saiba (será?) o que esperar da sua mais recente animação em longa-metragem A Cidade dos Piratas. Porém, o espectador de primeiro desenho animado e ou o que só sabe da sua desconcertante obra cinematográfica apenas de ouvir falar e ou, ainda, no momento, está curioso por causa das célebres tiras Piratas do Tietê, da quadrinista Laerte Coutinho, que serviu de inspiração para o filme, vai ter uma baita surpresa..., é capaz até de ficar sem chão. Os machos convictos que se cuidem!

É que, longe da sua zona de conforto de mero espectador, alinhavar a balbúrdia, com tanto assunto polêmico (e muito pertinente no Brasil do retrocesso!)..., como transexualidade e homofobia; bissexualidade e preconceito sexual; machismo e feminismo; assédio e lavagem cerebral; poesia e palavrão; poluição urbana e mental; criatividade, desenvolvimento de roteiro e produção cinematográfica; agruras do câncer de cólon de Otto..., mixado a várias entrevistas reais de Laerte, é nada fácil.


Pelo bom uso e anárquico abuso da metalinguagem, ousaria dizer que Otto faz da animação A Cidade dos Piratas, o seu 8 ½, de Fellini..., uma vez que (diretor e personagem na trama) ele discorre com amargura e humor corrosivo sobre os obstáculos que precisou vencer, do início do projeto, em 1993, quando a ideia era simplesmente animar as tiras Piratas do Tiête, até a mudança de gênero (também sexual) de Laerte, que já não se sentia mais à vontade para adaptar o passado machista e tortuoso de seus personagens saqueadores e acabou turvando as águas do rio-esgoto Tietê, alterando, assim, completamente o curso de navegação do desenho animado.

Toda via do tumultuado tráfego n’A Cidade dos Piratas, no entanto, é bom frisar que, nesse ir e vir de piratas por tintas nunca antes navegadas, os roteiristas Rodrigo John, Laerte Coutinho, Thomas Créus e Otto Guerra não desembarcaram e tampouco desterram completamente os velhos piratas das tirinhas..., apenas atenuaram seu protagonismo. No noves fora da embarcação da discórdia, entre mortos e feridos, após um prólogo cruel, quem marca maior presença no enredo é o Capitão. Os demais aparecem em flashes e ou reconfigurados em outras personagens bem consistentes (político rancoroso, empresário enrustido, crossdresser etc), que soam como metáfora do nosso cotidiano (retrógrado) em busca do poder ou da felicidade.


Uma vez que a trama (com suas histórias paralelas) expõe um panorama intenso, embora íntimo e pessoal, do tumultuado processo fílmico do desenho animado, incluindo a separação profissional do diretor com a produtora Marta Machado e a discussão com a equipe de animadores, bem como o desnudamento de Larte (de certo modo já visto em Larte-se), é difícil classificar o gênero cinematográfico de A Cidade dos Piratas, com seu toque documental e biográfico, em meio aos traços uniformes de ficção e realidade.

Talvez, com a opção de costurar retalhos de várias narrativas (não necessariamente do universo dos Piratas do Tiête, mas sem perder a relevância) numa cidade-labirinto autofágica, onde reina um antropomórfico Minotauro, diria que A Cidade dos Piratas é uma animação híbrida em todos os sentidos. Cada um vai senti-la à sua maneira. Este é o papel da arte! Independente do que eu diga e ou do que o espectador verá na telona, a experiência do cinéfilo será sempre única. O que não quer dizer que não possa ser compartilhada e discutida com um público maior.


Enfim, com ou sem definição precisa de gênero, a provocativa animação A Cidade dos Piratas, de Otto Guerra (Rocky e Hudson: Os Caubóis Gays; Wood e Stock: Sexo, Orégano e Rock’n’roll; Até que a Sbórnia nos Separe), tem a leveza e a sutileza de um rinoceronte numa loja de cristais finos. Portanto, esteja preparado mais para o desconforto do que para o riso (raríssimo), mesmo diante de cenas escatológicas. Se por um lado é tecnicamente irretocável, com suas sequências em preto e branco e ou coloridas, gags-cartuns animadas, excelente montagem (sem perder o ritmo e ou atropelar a narrativa, com a inserção das entrevistas de Laerte ao Roda Viva e Marília Gabriela, entre outros programas)..., por outro, a dublagem (principalmente de Marco Ricca) deixa a desejar. Às vezes é difícil entender as falas das personagens..., mas isso não impede saborear alguns diálogos inteligente e a poesia de Fernando Pessoa, bem como os desabafos de Laerte sobre a sua sexualidade (da adolescência à terceira idade).

Não é um filme de fácil digestão, pela quantidade de temas apresentados, mas deve encontrar um público adulto receptivo hoje, e amanhã, possivelmente um pesquisador interessado em nossos medos presentes. Como diz Laerte: O negrume do medo surge ao nos vermos sem a proteção de uma dor que possa ser curada. Estreia dia 31 de Outubro de 2019.


Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeos-documentários fiz em 1990. O primeiro curta-metragem (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado em Curitiba, no Paraná, Brasil.

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