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quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Crítica: O Cristal Encantado: A Era da Resistência



O Cristal Encantado: A Era da Resistência
por Joba Tridente

Creio que uma das minhas memórias cinematográficas afetivas mais significativas é a do fascinante filme O Cristal Encantado (1982), fantasia dirigida pelo mestre das marionetes Jim Henson (1936-1990), que também dirigiu o mágico Labirinto (1986) e diversos filmes para a tv e cinema das suas famosas criações: Os Muppetts e Vila Sésamo..., e por Frank Oz (Pequena Loja de Horrores, 1986; Os Safados, 1988; Nosso Querido Bob?, 1991; Será Que Ele é?, 1997; Os Picaretas, 1999; A Carta Final, 2001; Morte no Funeral, 2007, entre outros, incluindo séries para televisão).

A razão de tal memória é porque (na época) estava vivendo uma fase de pesquisas míticas (não confundir com místicas) e o surpreendente final da trama sombria (quando os urRu (bem) e os Skeksis (mal) se fundem e voltam a ser unos e divinos UrSkeks) me levou a fazer uma analogia ao discurso de Aristófanes (447a.C.-385a.C.), proferido em O Banquete (385 a.C.- 380 a.C.), de Platão (428 a.C.-348 a.C.), sobre o amor/desejo, em que ele discorre sobre o mito da  unidade primitiva (ou o princípio uno dos seres humanos duplos de si mesmos) e sua posterior mutilação (separação), sujeitando o homem a passar a vida à procura da sua (cara) metade contrária e, ao encontrá-la, fundir-se novamente num só ser e reencontrar o perfeito equilíbrio com a natureza... Daí o meu entusiasmo com a série O Cristal Encantado: A Era da Resistência (The Dark Crystal: Age of Resistance, 2019), que mistura artesania da melhor qualidade na criação de bonecos belíssimos e tecnologia de ponta (CGI) nos detalhamentos para uma releitura deslumbrante do filme de  Henson e Oz.


A primeira temporada da imersiva série, já disponível na Netflix, em dez episódios dirigidos pelo francês Louis Leterrier (que melhorou muito desde os esquecíveis Fúria de Titãs e Truque de Mestre), e que conta com a inestimável participação do genial ilustrador inglês Brian Fround (O Cristal Encantado e Labirinto) na criação e arte das marionetes, expande maravilhosamente o universo do Planeta Thra..., onde sete distintos clãs de inocentes Gelflings e um de graciosos Podlings estão submetidos à “proteção” dos perversos Skeksis, guardiões do poderoso Cristal da Verdade, o Coração de Thra, enquanto a anciã e ex-guardiã Mãe Aughra perscruta o universo em seu potente observatório.

Além das espécies citadas, Thra está repleta de plantas e animais fantásticos. Porém, quando o planeta começa a apresentar sinais de desequilíbrio, escasseando a sua energia natural, afetando principalmente a vida dos Gelflings, e a verdade sobre as intenções malignas dos asquerosos reptilianos abutres Skeksis vem à tona, os pacatos elfos precisarão deixar as suas diferenças pessoais e ou tribais de lado e lutar pelo bem comum de todos os que vivem nos arredores da temível fortaleza dos dominadores..., sem saber se poderão contar com a ajuda do grande oráculo Mãe Aughra, mas cientes de que muitos deles podem não sobreviver. Acredite, algumas perdas você não vai se conformar de jeito nenhum.


O Cristal Encantado: A Era da Resistência que se passa antes dos fatos narrados no cultuado filme O Cristal Encantado, é potencialmente matriarcal e ou feminista. Cada clã é administrado por uma Gelfling Maudra e entre os três protagonistas Gelfings selecionados para encontrar uma forma de reequilibrar o planeta e derrotar os Skeksis, estão o intrépido guerreiro Rian (marionetista: Neil Sterenberg, voz: Taron Egerton , a erudita Princesa Brea (marionetista: Alice Dinnean, voz: Anya Taylor-Joy), com sua insaciável fome de saber e entender o mundo ao seu redor, e a adorável e inesquecível pacifista das cavernas Deet (marionetista: Beccy Henderson, voz: Nathalie Emmanuel). Os três, em performances incríveis de seus manipuladores e dubladores, divertem e emocionam profundamente o público. Não há como ficar indiferente à ingenuidade e ao pavor deles diante do mal desconhecido e da coragem inigualável para enfrentar a força maléfica dos Skeksis. Aí, em certos momentos íntimos ou sequências de ação espetacular, a arte dos bonecos é tão precisa que a gente, absorvido pelo contexto, nem lembra que quem está em cena são marionetes e não atores de carne e osso...


É claro que uma produção impecável, de cair o queixo, como essa, não ia deixar barato, e contratou os melhores marionetistas do mercado e um time de ótimos atores e atrizes jovens e tarimbados para dar vida e voz aos bonecos que, em algumas cenas, com poucos movimentos, interpretam melhor que muita gente por aí. Eles têm reações humanas, choram, e nas cenas de ação mirabolante até dispensam os dublês.

A mim, os mais expressivos são a inesquecível e apaixonante Deet (maravilhosa) e a impaciente ogro Mãe Auhgra. Mas, no geral, todos os bonecos são carismáticos, inclusive os literalmente repugnantes e por vezes divertidos (com seu humor negro) Skeksis. Como o elenco é imenso, caso se interesse, confira a lista de marionetistas e atores aqui e as características dos personagens aqui. A sinopse de cada episódio você conhece no próprio canal. Cada capítulo tem a metragem certa para o desenvolvimento da trama e dos personagens com suas inacreditáveis idiossincrasias.


Consciente ou não, o roteiro escrito por Jeffrey Addiss e Will Matthews, deixa escapar em suas entrelinhas, críticas ao sistema capitalista e ao consumo desenfreado de combustível fóssil, ao agronegócio, ao aquecimento global, à intolerância, ao fascismo e ao “analfabeto útil” que acata ordens sem (ter coragem de) questionar. Aqui, ainda não é o discurso de Aristófanes sobre a unidade que chama a atenção, mas o Mito da Caverna, do diálogo entre Sócrates (469 a.C.-399 a.C.) e Glauco em A República (380 a.C.), de Platão. No enredo da série, Deet sai da profundeza da caverna onde vive com seu povo, para conhecer a realidade e o desequilíbrio de Thra, enquanto a insegura e intransigente Princesa Seladon (marionetista: Helena Smee, voz: Gugu Mbatha-Raw), ignorando a realidade exterior, onde vive, penetra na caverna sombria dos dissimulados Skeksis em busca de uma verdade tranquilizadora...


Enfim, é preciso tomar cuidado ao falar de O Cristal Encantado: A Era da Resistência para não cometer algum spoiler, já que cada capítulo traz surpresas nas reviravoltas sensacionais do drama e revelações impactante da personalidade de cada personagem, principalmente dos imorais Skeksis, mexendo com os conceitos do espectador. Comenta-se que a segunda temporada, talvez mais trágica, já está acertada. Porém, independente dela ser realizada ou não, esta maravilha que está no ar e que faria Jim Henson se orgulhar dos filhos que tem e dos amigos artistas que cultivou em vida, esta fantasia sublime, de realismo impressionante e técnica irretocável, ao meu ver, merece todos os prêmios possíveis do ano. Ah, não deixe de assistir, grudado no último episódio, ao Making, que mostra todo o processo de criação da série, incluindo roteiro, cenários, bonecos, CGI, set, filmagem, figurino, trilha sonora etc. É isso! Me desculpe se adjetivei (ou filosofei) mais que resenhei!


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Crítica: Meu Malvado Favorito 3


Meu Malvado Favorito 3
por Joba Tridente*

Sete anos depois de tentar roubar a Lua; adotar as adoráveis órfãs Margo, Edith e Agnes; se casar com a agente Lucy e entrar para o seleto time da Liga Anti-Vilões (AVL), o ex-malvado Gru está de volta para viver dias de grandes surpresas: é demitido da AVL, por não conseguir capturar o vilanesco Balthazar Bratt; descobre que tem um charmoso irmão gêmeo chamado Dru, um playboy exibicionista cheio de “más” intenções..., e, de quebra, ainda conhece um dos mais bem guardados segredos de família sobre o seu desconhecido pai.

A esta breve e suficiente sinopse junte muita ação, algumas boas piadas e gags inteligentes, mais ação e momentos fofos, mais um bocado de ação e “violência-cartum” e moderada dose de vilania vintage e ou retrô, tipo oitentista..., e você tem o divertido Meu Malvado Favorito 3 (Despicable Me 3, EUA, 2017).


Em Meu Malvado Favorito 3, dirigido por Pierre Coffin, Kyle Balda e Eric Guillon, os roteiristas Cinco Paul e Ken Daurio não alteram a saga de  Gru e sua estranha família, que agrega também os amorais Minions..., apenas acrescentam novos (e bons) elementos para que ela siga em frente sem comprometer as duas histórias (de sucesso) anteriores. Foi assim também com o Meu Malvado Favorito 2. Agora, além de pais superprotetores, o casal de agentes Gru e Lucy só não dá trégua para os vilões. Principalmente para o complexado Balthazar, um ex-prodígio mirim da tv que perde o posto de protagonista num seriado maluco, quando vira adolescente, e (adulto) decide se vingar dos espectadores (que o esqueceram) e de Hollywood (que o dispensou) com um plano mirabolante (que lembra as tramas trash da Asilum e seriados de monstros japoneses).


A animação tem tudo para agradar a todas as faixas etárias, principalmente pelo seu ritmo alucinante (comum em filmes de super-heróis) para desenrolar e costurar num bom epílogo as quatro tramas paralelas em distintos níveis de ação e aventura: a da vingança de Balthazar que, com seu extravagante figurino com ombreiras, bigodão, estilo musical e dança a la Michael Jackson,  age como se estivesse vivendo nos anos 1980; a do “afetadíssimo” (na horrorosa dublagem brasileira) Dru, irmão “perdido” de Gru, num estilo meio steampunk; a da garotinha Agnes e o seu amor pelos unicórnios, num dos momentos lúdicos de intensa beleza e nonsense; e a da revolta dos Minions que, ansiosos por uma maldadezinha (ou travessura), vão mais uma vez cair na estrada e acabar fazendo homenagens hilárias a produções como Sing - Quem Canta Seus Males Espanta (2016) e Amor Sublime Amor (1960). Ah, entre outras marcantes referências cinematográficas e televisivas estão Star Wars - O Império Contra-Ataca (1980) e Pantera Cor de Rosa (1963).


Enfim, Meu Malvado Favorito 3 deixa a pieguice de lado, e fala naturalmente da complexa convivência em família, das sempre bem-vindas fantasias infantis e dos percalços e mágoas (profundas) no meio artístico, com o descarte (mais comum do que se imagina) de atores e atrizes que já não rendem tanto dinheiro quanto os estúdios esperam deles..., tema também já desenvolvido em diversas ficções para adultos, como em o perturbador Mapa para as Estrelas (2014), de David Cronenberg. Mas não se preocupe, no desenho a linguagem da narrativa é básica e cômica (ou seria irônica?) e ao alcance de todos os públicos. Não tem nenhuma lição de moral, ou sequer jornada do herói (será que jornada do vilão conta?), mas tem uns toques bem bacanas sobre responsabilidades.


Com sua técnica irrepreensível; trilha sonora (que não incomoda!!!) pop; roteiro redondo; excelente direção e personagens (ainda) cativantes; sequências geniais (e ousadas) como a da mãe do Gru (ela é que sabe viver, viu!) à beira da piscina (se cuidem, conservadores!)..., se é fã da franquia, acho que vai gostar! Bem, se não é fã, vai gostar também! Pode não ser tão arrebatador quanto o primeiro Malvado, mas continua um bom programa e um saudável escracho do princípio ao fim.


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

domingo, 18 de dezembro de 2016

Crítica: Sing - Quem Canta Seus Males Espanta


Sing - Quem Canta Seus Males Espanta
por Joba Tridente

Está chegado às salas de cinema mais uma deliciosa, cantante e dançante animação: Sing - Quem Canta Seus Males Espanta, produzida pela Illumination (O Lorax: Em Busca da Trúfula Perdida, Meu Malvado Favorito, Minions, Pets - A Vida Secreta dos Bichos)..., tomara que ao menos ela consiga levantar o astral dos espectadores sobreviventes deste nefasto ano de 2016.


Sing - Quem Canta Seus Males Espanta (Sing, 2016), escrita e dirigida por Garth Jennings, acompanha o dia a dia do incansável produtor teatral Buster Moon (Matthew McConaughey), um coala apaixonado pelo palco e que, mesmo amargando prejuízo com os últimos espetáculos, acredita que o seu teatro pode voltar a ser a grande sensação da cidade onde convivem diferentes espécies animais. Para tanto, num momento de “ou tudo ou nada” (pois quando se está no fundo do poço o único caminho é para cima), ele junta seus parquíssimos recursos e cria um Programa de Calouros.


Muitos pretendentes à fama de cantor(a) vêm pelo prêmio, mas outros querem mesmo é soltar a bela voz. Da multidão de excelentes candidatos, Moon e a sua assistente Senhorita Crawly, uma lagarta camaleão muito idosa, selecionam o impagável Gunter (Nick Kroll), um simpaticíssimo porco cantor e dançarino literalmente brilhante; o jazzista ególatra Mike (Seth MacFarlane), um rato branco malandro; Rosita (Reese Whiterspoon), uma porca engenhosa, mãe de 25 leitões, que não abre mão da oportunidade; o adorável Johnny (Taron Egerton), um jovem gorila que vai ter de escolher entre os negócios ilegais da família e o seu sonho; a rebelde Ash (Scarlett Johansson) uma porco-espinho punk-rock buscando reconhecimento; a adolescente Meena (Tori Kelly), uma elefanta com bela voz, mas tímida demais...


Após o prólogo vertiginoso, com um impressionante “movimento de câmara” destacando recortes, enquadramentos, planos-sequência, Sing entra no ritmo tradicional (mas não menos ousado) das hollywoodianas histórias musicadas..., entremeando, sem nenhum exagero (apenas o essencial!), pitadas de romance, aventura, ação e drama, na descrição singular e distinta de cada personagem. Numa trama envolvente, em que todos os carismáticos protagonistas têm luz própria, há que saber dosar a energia, para não queimar o filme de nenhum deles.

Sing - Quem Canta Seus Males Espanta tem um roteiro básico e na medida da diversão para todas as idades. É deliciosamente leve, sem ser raso. É bem-humorado, sem precisar se sujeitar à escatologia. As gags são ótimas (a sequência de Moon no lava-carros é sensacional). Na verdade, todos os personagens (até os coadjuvantes!) têm os seus “15 minutos” arrebatadores (alguns, infelizmente, já vistos nos trailers).


A trama criativa (cheia de boas reviravoltas) não força nenhuma mensagem edificante piegas e ou lição de moral conservadora, mas, subliminarmente, dá uns bons toques sobre perseverança e triunfo na carreira (principalmente) artística e deixa espaço para se refletir sobre a rotina das donas de casa; a desestruturação familiar; o mercado de trabalho burocrático e ou artístico para o sexo feminino; a valorização do artista de rua (acredite, já vi artista reagindo da mesma forma que Mike, por conta de alguns trocados)...


Enfim, Sing, codirigido por Christophe Lourdelet, é mais uma boa surpresa neste 2016 de belas animações, como Kung Fu Panda 3; Pets - A Vida Secreta dos Bichos; Cegonhas - A História Que Não Te Contaram; o erótico Festa da Salsicha; Trolls; a obra-prima Kubo e as Cordas Mágicas, o magnífico A Tartaruga Vermelha. Sob direção tão cuidadosa, falar da qualidade técnica é redundância. Os personagens, além de graciosos, têm grande personalidade e uma vida crível. O cenário é bacana, o figurino é perfeito e as canções variadas (cerca de oitenta) para satisfazer a todo público (pop, rock, rap, punk, clássico) dão ritmo e arredondam maravilhosamente a já colorida narrativa.


A cópia que deve chegar aos cinemas brasileiros é a que traz (apenas) os diálogos “dublados” por “celebridades” e as canções (no original inglês americano) sem legenda. O que é uma pena, já que algumas composições têm a ver com a história dos intérpretes (se conseguir, se segure ao ouvir a clássica My Way, numa apresentação arrebatadora de Mike/Seth MacFarlane). Quanto à “dublagem”, a pior (e a voz mais reconhecível) é a da cantora Sandy. Toda via melodiosa, no entanto, se gosta dos gêneros animação e musical, não se deixa levar por esses detalhes (pecaminosos!) da dublagem e da falta de legenda.

Sing - Quem Canta Seus Males Espanta é um espetáculo emocionante e grande na sua inocência. Mesmo que seu enredo não dure muito na sua memória, após a sessão (o que eu duvido!), vale cada minuto da sua exibição.


Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Crítica: Pets – A Vida Secreta dos Bichos


Pets – A Vida Secreta dos Bichos
por Joba Tridente

O universo do desenho animado pode ser paralelo (repleto de histórias já vistas anteriormente, com melhor e ou pior qualidade de arte e ou narrativa) ou único (na originalidade). Como uma animação pode levar entre dois a cinco anos para ficar pronta, dependendo do estúdio e ou condições financeiras, ocasionalmente aparecem “coincidências” no argumento e ou roteiro de obras em produção e que acabam suscitando questionamentos de “espionagem” ou “plágio” no lançamento. A verdade é que, uma vez que a originalidade custa caro, tem sempre uns (artistas) e outros (estúdios) querendo encurtar o caminho, mudando uma coisinha aqui e um gênero acolá numa história conhecida, acreditando ter resolvido o seu problema criativo...., apostando, evidentemente, na memória curta do espectador alvo (geralmente infantil). O que não quer dizer que (re)contar uma história já conhecida seja (de todo) ruim, o que vale é como se (re)conta essa história.

Durante muito tempo assisti curioso, nas salas de cinema, a um mesmo trailer de Pets – A Vida Secreta dos Bichos, ansioso por sua estreia. Ainda que constante, sempre provocando alguns risos e gargalhadas. Somente depois de assistir ao filme em sessão especial (Cabine de Imprensa) fiquei sabendo de mais dois trailer veiculados no YouTube e dei graças pela minha ignorância e espero que os amantes de animação também não tenham sabido deles. É que muito da graça e da surpresa da trama está lá..., o que, pra mim (avesso a trailer/spoiler), tira um pouco do brilho deste divertido e animado desenho animal.


Pets – A Vida Secreta dos Bichos (The Secret Life of Pets, 2016) dá asas à imaginação (assim como outros filmes nos primórdios do cinema) ao se ocupar com uma questão: a rotina doméstica dos animais de estimação quando os seus (solitários) donos saem para a sua rotina profissional. Provavelmente você já se pegou na janela olhando o comportamento, por vezes, estranhos de algum animal (cão ou gato) do vizinho (na web há trocentos vídeos com registros bizarros desses domesticados em “ação”). Que eles têm uma linguagem própria não há a menor dúvida. E o mais interessante é que, além de se entenderem, ainda compreendem o linguajar humano. Um passo à frente do homem que não tem muita noção do que eles estão dizendo.  Aliás, o homem não entende nem o próprio homem.


Abrindo com uma bela sequência aérea sobre Manhattan e Central Park outonal, a crônica nova-iorquina Pets – A Vida Secreta dos Bichos começa num edifício residencial, onde cães, gatos, pássaros trocam confidências, e logo ganha as ruas da cidade. Em um desses apartamentos, com maravilhosa vista para Nova York, o terrier Max leva a vida que pediu a Deus... até a noite em que sua adorável Katie traz para casa o enorme e peludo vira-lata Doug, pra lhe fazer companhia. Óbvio que Max odeia a ideia de compartilhar o que é seu (inclusive o amor da sua dona) com um estranho desclassificado e logo no primeiro dia de relacionamento, por conta da distração do passeador, os dois se metem numa confusão atrás da outra até dar de cara com Bola de Neve, um coelhinho tão foto quanto psicótico, líder da Turma do Bueiro, que agrega animais revoltados com o abandono de seus donos. Perdidos em NY, na tentativa de voltar para casa e se livrar de Bola de Neve e seus capangas (Tatuagem, um porco, Brutus, um cão-focinheira, Croc, um crocodilo e Dragão, um lagarto), Max e Doug acabam se conhecendo melhor. Enquanto isso, como “quem tem amigo tem tudo”, a lulu Gidget, vizinha de Max, estranhando o sumiço dele, convoca uma força-tarefa, que inclui o falcão Tiberius e o cão paraplégico Pops, para encontrá-lo. Assim tem início uma jornada dupla de amizade, solidariedade e até mesmo de redenção..., mas sem ser piegas e moralista.


Pets – A Vida Secreta dos Bichos, dirigido por Chris Renaud e Yarrow Cheney, é um filme infantojuvenil, repleto de gags visuais, nonsense e humor pastelão, que não decepcionará o acompanhante adulto que libertar a sua criança oculta e mergulhar nessa fantasia surreal. Nem é preciso ter algum animal de estimação em casa, para apreciar essa “maluquice”. Mas é bom ficar atento, porque a história, onde os humanos são meros coadjuvantes, talvez pareça boba, alucinante (como qualquer fábrica de salsicha deve ser), mas, no subtexto, traz provocante reflexão sobre a adoção, o cuidado e o abandono de animais domésticos. O gracejo com o cão paraplégico, com a obesidade da gata, com a “psicopatia” dos animais do esgoto, não é gratuito.

Enfim, considerando que a animação, com boa dose de ação e aventura, tem uma paleta de cores aconchegantes; que a textura dos animais é simples e agradável; que a plasticidade de Manhattan e de Nova York é uma beleza à parte, que o roteiro (surreal) é bacana para a diversão e reflexão (séria!) que se propõe; que a dublagem brasileira não é das piores..., vale os minutos de relaxamento e aprendizado para toda a família.

Ah, não chegue atrasado e nem saia antes dos primeiros créditos, ou perderá o curta-metragem estrelado pelos hilários Minions e o epílogo de arromba com a bicharada do longa!  

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Crítica: Universidade Monstros


Quando lançado, em 2001, o desenho animado Monstros S.A, da Pixar, foi a grande sensação da temporada. Dez anos depois, Universidade Monstros chega com tudo para conquistar novos espectadores e, de quebra, satisfazer a curiosidade dos antigos fãs sobre o passado dos simpáticos monstrengos. Quero dizer, nem todos. Tem muita gente que não é chegada em prólogos tardios.

Em Universidade Monstros (Monsters University, EUA, 2013) o adorável monstro verde, de um só olho, Mike Wazowski, e o simpático azulão James P. Sullivan, o Sulley, cursam o primeiro ano do Programa de Sustos da concorrida Faculdade de Sustos. Wazowski, que espera ser um Assustador da Monstros S. A., sonha com isso desde monstrinho. Os dois calouros se estranham assim que se conhecem. Enquanto o determinado Wazowski se dedica de corpo e alma aos estudos, o folgado Sulley (filho de um renomado Assustador) aposta apenas na tradição do seu grito naturalmente apavorante. Por conta dessa e de outras diferenças a situação entre os dois se agrava dentro e fora da sala de aula e, para evitar a expulsão, se veem obrigados a participar de um “monstruoso” (e hilário) Concurso de Sustos. Que vença o que melhor conseguir divertir o público infantil e seus acompanhantes.


Universidade Monstros, com direção de Dan Scanlon, adapta ao universo infantojuvenil temas comuns em filmes sobre estudantes norte-americanos (bullings, brigas e intrigas entre as irmandades universitárias) e reforça (sem pieguice) a perseverança e o valor do trabalho em grupo. Uma vez que a bem-humorada história se passa antes dos tempos conhecidos no primeiro desenho animado, o espectador sabe que a desavença entre Wazowski e Sulley deve ser passageira. O que não sabe (e esse é o grande lance!) é como essa briga de egos vai terminar e quando realmente vão se tornar grandes amigos.

A narrativa, com sabor mais juvenil, guarda alguns bons trunfos (as referências aos clássicos de terror são impagáveis). O ponto alto é a inteligente virada nos últimos minutos, surpreendendo o espectador com um inusitado final. Redundância: A concepção cenográfica de Monstrópolis e do Campus é encantadora e os velhos mostrengos continuam tão carismáticos quanto os novos personagens, como o amável e tímido Scott “Esguicho” Squibbles e os integrantes da desastrada irmandade Oosma Kapa - OK. Ora, é a Pixar aprontando mais uma vez com a sua inesgotável paleta de cores e graciosos desenhos.


Especula-se sobre o porquê deste prólogo da mesma forma que se especulou sobre o “prólogo sequencial” de Star Wars. Não creio que qualquer resposta que se dê satisfaça a um ou outro espectador. Independente do padrão Pixar, é fato que o Universidade Monstros, ao explorar o passado dos habitantes do coloridíssimo mundo paralelo dos monstros, não causa tanto impacto quanto o Monstros S. A. Todavia, ainda continua bem acima da média de outras recentes animações. Por isso, se gosta destes visitantes noturnos, e quer saber como tudo começou..., o melhor é relaxar e curtir este ótimo prenúncio do animado terrir.


Um bonito desenho, em curta-metragem, contando a romântica história de um Guarda Chuva Azul que se apaixona por uma Sombrinha Vermelha, em uma tarde chuvosa, acompanha o longa. Roteiro redondo e personagens expressivos. Simplesmente fascinante!

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