Mostrando postagens com marcador Penélope Cruz. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Penélope Cruz. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Crítica: Assassinato no Expresso do Oriente


Assassinato no Expresso do Oriente
por Joba Tridente*

O romance policial Assassinato no Expresso do Oriente, da rainha do suspense Agatha Christie (1890-1976), que traz o meticuloso detetive belga Hercule Poirot numa das suas mais famosas aventuras investigativas, foi lançado em 1934. No ano de 1974, a popular obra da Dama do Império Britânico (1971) e do Crime, ganhou a sua clássica (e definitiva!) versão cinematográfica. O filme Assassinato no Expresso do Oriente, com seu elenco espetacular e estelar, dirigido com elegância pelo mestre Sidney Lumet (1924-2011), a partir do roteiro de Paul Dehn (1912-1976), recebeu seis indicações ao Oscar, que premiou a atriz coadjuvante Ingrid Bergman (1915-1982), e dez no BAFTA, premiando novamente Bergman, o ator coadjuvante John Gielgud (1904-2000) e a trilha de Richard Rodney Bennett (1936-2012). Neste final de novembro de 2017, a obra literária que também ganhou adaptações para a tv e o teatro, chega aos cinemas brasileiros sob a direção de Kenneth Branagh (Henry V, Hamlet, Voltar a Morrer, Thor).


Assassinato no Expresso do Oriente (Murder on the Orient Express, 2017), dirigido e protagonizado por Kenneth Branagh, baseado no roteiro de Michael Green (Lanterna Verde, Logan, Blade Runner 2049), é uma versão atropelada do romance homônimo de Agatha Christie, cujo motivo condutor que envolve o icônico Hercule Poirot (Branagh) teria sido inspirado no dramático rapto e morte do bebê Charles Lindbergh (em 1932), e que, na trama bem urdida pela autora, virou Daisy Armstrong.

O ano é 1934 e (após um prólogo engraçadinho e moralista, típico de Histórias Maravilhosas, onde soluciona um roubo na Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém, implicando um sacerdote, um rabino e um imã,), Poirot é obrigado a interromper suas férias em Istambul para resolver um caso em Londres. Contando com a providencial ajuda do seu amigo M. Bouc (Tom Bateman), diretor da Compagnie Internationale des Wagons Lits, o investigador consegue um lugar no luxuoso Expresso do Oriente (Istambul-Trieste-Calais), espantosamente lotado para a época do ano. Porém, a viagem é bruscamente interrompida por uma avalanche, o que acaba sendo providencial para o excêntrico Hercule Poirot resolver o misterioso assassinato de um passageiro.


Em meio à nevasca, um morto e doze suspeitos (de classes e nacionalidades diferentes) que não contavam com a presença do célebre investigador a bordo, à espera de socorro, de voz de prisão e de enterro. No jogo de cena, as aparências enganam, mas as identidades não.

Ao contrário de Sidney Lumet, que a partir do excelente roteiro de Paul Dehn (1912-1976), mais fiel ao livro, vai se desvelando cena a cena, juntando e analisando calmamente as peças do intrigante quebra-cabeça hediondo, até completá-lo no desconcertante epílogo, o impaciente Branagh parece não ver a hora de chegar aos “finalmentes”, fazendo do seu Poirot mais um adivinhador vaidoso dos seus “achismos” do que um investigador que usa metodicamente sua massa cinzenta. Apressado, o diretor e ator irlandês praticamente elimina o suspense do enredo e a sua narrativa truncada acaba claudicando para um final morno, não pela conhecida e polêmica conclusão do caso, mas pela discutível (ou risível) cena teatral (de gosto pra lá de duvidoso!) da revelação (Eu te acuso!) ao estilo mesa de Santa Ceia (claro-escuro). Uma metáfora sobre assassinos frios e calculistas, abóbadas e “fim” de túnel (dependendo do ponto de vista) tão estranha quanto ao corte do personagem Doutor Constantine, cuja função de médico (na trama) foi incorporada ao Coronel Arbuthnott (Leslie Odom Jr.), com um denso ajuste de cor de pele..., para desajustar o preconceito racial e confundir o espectador.


O grande elenco coadjuvante de Assassinato no Expresso do Oriente, que conta com Judi Dench, Johnny Depp, Michelle Pfeiffer,  Willem Dafoe, Penélope Cruz, Josh Gad, Lucy Boynton, Tom Bateman, Leslie Odom Jr., Olivia Colman, Derek Jacobi, Manuel Garcia-Rulfo, Sergei Polunin, Daisy Ridley..., é bom, mas não é tão cativante quanto o estelar de Sidney Lumet. Ansioso em contar uma história que prioriza as minúcias, principalmente nos diálogos, Branagh acaba interrompendo as performances (e a voz) de cada ator e ou atriz, fazendo com que suas personagens picotadas soem um tanto superficiais. Nesse quesito, com mais tempo em cena e razoavelmente caracterizado com um belo bigode de quatro pontas, ainda que sem a “cabeça de ovo” de Poirot, quem se sai melhor é o próprio Branagh!


Quando se desliza na neve, tem de estar sujeito aos escorregões e, embora seja um ótimo diretor, desta vez Kenneth Branagh foi ao chão, a sua arte gelou e ficou a desejar. Assim, considerando a conversão da fascinante trama de suspense de Ágatha Christie em trama policialesca chique-ostentação; a bela fotografia (em 65 mm) de Haris Zambarloukos; a cuidadosa direção de arte; os bons efeitos visuais; a trilha musical (argh!) redundante; uma ou outra pitada de humor (quase inglês); a ação totalmente descabida de socos, perseguições, tiros e pontapés..., pela ligeireza da narrativa, Assassinato no Expresso do Oriente deve conquistar apenas uma nova geração de “espectadores” (acostumados aos blockbusters rasteiros) que não têm paciência e nem cérebro para degustar e ou se deixar enredar por uma boa história de suspense. Já para o cinéfilo realmente apaixonado por cinema, não deve passar de um filme que, quadro a quadro, ressalta ainda mais as qualidades da versão de Sidney Lumet. Pode não ser totalmente descartável (para quem não conhece a adaptação de 1974), porém, tampouco é memorável. 

Agora é esperar para ver se o quê nos chegará com a próxima aventura de Hercule Poirot investigando uma Morte no Nilo, se um crocodilo aborrecido ou uma múmia mofada.


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Crítica: Para Roma Com Amor



Quem é mestre não perde a o senso de direção mesmo dirigindo em terras estrangeiras. Nos últimos anos, a cada nova obra, os detratores de Woody Allen têm caçado uma chance de espinafrá-lo por filmar (com a mesma categoria) na Europa que lhe garante condições (verba) de trabalho. Entre tantas bobagens dizem até que só faz filmes turísticos. Quem dera todos os filmes turísticos (de agência de publicidade e ministérios assemelhados) tivessem a mesma qualidade de argumento, roteiro e elenco que ele reúne ao seu redor.

Não creio que tenha algum filme de Allen que realmente não goste, apesar de apreciar uns mais que outros. Gosto de Match Point (2005), acho fantástico Tudo Pode Dar Certo (2009) e fascinante o Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos (2010). Adoro Meia-Noite em Paris (2011) e amo Vick Cristina Barcelona (2008), um dos filmes mais sensuais (e excitantes) da história do cinema. Em Para Roma Com Amor (To Rome With Love, EUA, Itália, Espanha, 2012), Woody Allen continua excelente diretor e contador de histórias tão possivelmente reais de gente como a gente (ou nem tanto) sempre complicando as relações humanas, para divertir (ou seria advertir?) o espectador.


No belo cenário “teatral” de Roma acontecem quatro ótimas histórias, com roteiros e tempos diferentes, que não se cruzam em nenhum momento. As mais divertidas são as protagonizadas pelo próprio Allen e por Roberto Benigni. Na primeira, Woody é Jerry, um aposentado produtor musical estadunidense (de ideias avançadas e gosto duvidoso) que vai à Roma, com a mulher Phyllis (Judy Davis), conhecer Michelangelo (Flavio Parenti), o noivo romano de sua filha Hayley (Alison Pill), e acaba descobrindo o talento lírico (de chuveiro) de Giancarlo (Fabio Armiliato), o pai de Michelangelo. É claro que Jerry não vai perder a oportunidade de tentar transformar o tímido e nada ambicioso agente funerário em um cantor de sucesso. Por conta dessa ideia maluca ele compra briga com a família inteira e o resultado desse embate ítalo-americano é coisa de gênio! É puro nonsense!

Na segunda história Leopoldo (Benigni), um inexpressivo executivo que é transformado sem qualquer razão, em celebridade instantânea. O sujeito vive o céu e o inferno tentando entender, atender e se desvencilhar de repórteres e paparazzis, a serviço de grandes mídias (televisão e jornais), que ficam feito moscas varejeiras ao seu redor, à espera de alguma declaração idiota. Na terceira história Jack (Jesse Eisenberg) é um jovem norte-americano que vive em Roma com Sally (Greta Gerwig), encontra um “grilo-falante” na pessoa do misterioso conterrâneo arquiteto John (Alec Balwin), que palpita o tempo todo sobre o envolvimento dele com Monica (Ellen Page), uma (dissimulada) amiga de sua namorada e que está de passagem pela cidade.


A quarta história é uma singela homenagem ao mestre Federico Fellini e o seu primeiro filme autoral: Abismo de um Sonho (1952), que vim conhecer há uns cinco anos. Nesta “releitura” encontramos os recém-casados Antonio (Alessandro Tiberi) e Milly (a bela Alessandra Mastronardi), em viagem à Roma para encontrar uns parentes ricos e conservadores e, de quebra, descolar um bom emprego. Pelo menos esse era o plano do jovem casal, até Milly (cabecinha de vento) insistir em procurar um cabeleireiro e se perder pelas ruas da Cidade Eterna e Antonio se meter numa grande confusão com Anna (Penélope Cruz), uma fogosa prostituta que entra por engano no seu quarto.

São narrativas curtas, inventivas, divertidas e românticas onde sobram alfinetadas saborosas para as mídias e suas invenções de celebridades instantaneamente imbecis, e para os produtores e diretores que adoram montagens espetaculosas (e ou incompreensíveis) de óperas e ou de clássicos do teatro universal. Woody Allen nunca perde um diálogo ao criticar as “comodidades” políticas, sociais, religiosas, artísticas. Ele é impar em falar de relações amorosas e sexuais, paranoicas e ou não, deixando claro que, parafraseando um personagem: quando menos se espera, a ocasião faz o tesão. O homem é uma mesa farta de idiossincrasias, mas poucos sabem servi-las tão bem quanto Allen.

O elenco garante a qualidade do espetáculo. Quem conhece a obra do mestre sabe o que esperar e, se por qualquer razão incompreensível não gostar, pelo menos vai fazer um maravilhoso tour por Roma, embalado por marcantes canções italianas.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Crítica: Piratas do Caribe - Navegando em Águas Misteriosas


Dizem que em franquia que dá lucro não se mexe, mas se algo, realmente novo, não for feito com Piratas do Caribe, esta segunda trilogia pode ir por água abaixo. 

Em Piratas do Caribe - Navegando em Águas Misteriosas, o Capitão Jack Sparrow (Johnny Depp) continua malandro, mau caráter incorrigível, sempre querendo levar vantagem em tudo (ou será que não?), no final o espectador decide. Com roteiro de Ted Elliott e Terry Rossio, esta produção, dirigida por Rob Marshall (que, por enquanto, merece ser lembrado pelo espetacular musical Chicago), narra as peripécias e artimanhas do quase intrépido Jack Sparrow para chegar à Fonte da Juventude, cujo caminho ele descobriu no final de Piratas 3. Como o segredo descoberto em alto mar é carregado por ondas nada amistosas e pescado em águas espanholas e inglesas, o dissimulado pirata vai fazer de tudo para chegar primeiro ou, ao menos, tomar posse do lugar antes que os seus concorrentes lancem mão. Na falta do Pérola Negra, ele acaba se envolvendo com a ardilosa pirata Angélica (Penélope Cruz) e entrando de gaiato no Vingança da Rainha Ana, fazendo uma viagem que não será (nem um pouco) facilitada pelo lendário inescrupuloso e sanguinário Barba Negra (Ian McShane), que é perseguido pelo vingativo Capitão Hector Barbossa (Geoffrey Rush). 



Apesar de ser o mais fraco da franquia, Piratas do Caribe - Navegando em Águas Misteriosas (Pirates of the Caribbean: On Stranger Tides, EUA, 2011) é um simpático filme de ação e aventura com pitadas de romance às avessas. As tradicionais piadas pastelão, malabarismos, correria, engarrafamento de carruagens, explosões, pancadaria, lutas de espada e tiros de garrucha (é claro!), até divertem, mas não empolgam. Não têm mais o gostinho de novidade. As bizarrices desapareceram e, excetuando algumas belas e mortais sereias, a navegação por águas misteriosas, com um motim aqui, uma desavença acolá, é até tranquila. Os fãs, com certeza, vão sentir falta dos espetaculares efeitos especiais (corte de despesas), dos monstrengos “trash” e das “gags” contínuas. Mas, novamente, vão se defrontar com uma avalanche de personagens e histórias que servem mais para confundir do que para explicar. Ou melhor, para encher linguiça, como a da tola “participação” dos espanhóis na busca da Fonte da Juventude. 



A mudança do diretor Gore Verbinski (que deu uma cara ágil à série) por Rob Marshall mudou também o ritmo narrativo. Agora ele é um pouco mais lento e mais dramático. A impressão é a de que os piratas estão velhos demais para novas trapaças e garruchas fumegantes. O filme continua com ótima produção técnica e excelentes performances do elenco. Tem alguns momentos (na primeira parte) engraçados, porém, parece faltar algo neste novo tempero. É uma típica (porém longa) sessão pipoca que se estende para mais de duas horas. Portanto, quem gosta de bebericar um refrigerante que se cuide, é muita água rolando, caindo, subindo..., para se aguentar sentado por tanto tempo. Ah, e quanto ao 3D, seja esperto, não caia nesse conto do vigário (ou seria do pirata?).

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Crítica: NINE


O único filme de Fellini que nunca consegui assistir por inteiro (e não por falta de oportunidade) é o 8 e ½. Nunca ultrapassei a mais de 30 minutos. Contrariando muitos críticos e estudiosos, acho o filme mais chato que o grande mestre realizou. Já me prometi várias vezes tentar assisti-lo até o fim, mas nunca cumpri a promessa..., e duvido que a cumpra. Mas, se não consegui ver o original até o fim, vi a sua “releitura” no híbrido musical: NINE.

NINE (NINE, EUA, 2009), de Rob Marshall, é a versão cinematográfica do espetáculo teatral de sucesso da Broadway que, por sua vez, é a releitura do filme 8 e ½, de Federico Fellini, de 1963. É um quase teatro filmado e um quase musical. É um filme estranho, e excessivamente dramático, pesado mesmo (chato?). NINE, o filme, fala de Guido Contini (alter ego de Fellini), um famoso e mulherengo diretor de cinema que, prestes a rodar seu 9º filme: Itália, enfrenta um bloqueio de criatividade e, em plena crise de meia-idade, acaba passando a limpo a sua vida, até então, repleta de emoções. Entre devaneios com belas mulheres, à espera de uma inspiração o diretor vai se desconstruindo até se tornar um nada e novamente buscar o chão firme.


Como tudo que é “novo” demora um pouco pra ser digerido, NINE ainda é uma incógnita.  O filme se passa na Itália, onde o cineasta italiano Guido Contini (Daniel Day-Lewis) quer rodar seu filme, e todo mundo fala inglês americano e com um sotaque de doer. E tem gente que estranha a recente animação em que o astronauta americano, Charles “Chuck” Baker, fala a mesma língua (idioma) que os nativos do Planeta 51, que, “por coincidência”, também é o inglês americano. Mas Planeta 51, de Jorge Blanc, é uma sátira! Se o filme NINE é uma “releitura” americana e super hollywoodiana de 8 e ½, qual o problema em se transferir a ação para lá? É o que Hollywood costuma fazer com suas infindáveis refilmagens de produções estrangeiras de sucesso: americaniza um a um, do começo ao fim. Porém, se há “equívocos” há alguns acertos, não que sejam confortáveis (na verdade são muito enfadonhos e cansativos), como a filmagem em estúdios. É claro que, em se tratando de um filme sobre um cineasta em crise, diante da realização de seu filme (e aqui não há metalinguagem), nada mais pertinente que rodar NINE em um set real, sem prescindir de algumas belas locações. Mas, convenhamos, o cenário e o figurino são de uma pobreza criativa de dar dó.


Se Daniel Day-Lewis parece confortável num papel que ele temia, por não acreditar que pudesse cantar, não se pode dizer o mesmo do resto de elenco estelar de belas atrizes: Penélope Cruz (Carla – a amante sensual), Marion Cotillard (Luisa – a dedicada esposa), Nicole Kidman (Claudia Jenssen - a musa inspiradora), Kate Hudson (Stephanie - a jornalista fogosa) Stacy Ferguson (Saraghina - a prostituta) e as carismáticas Judi Dench (Lilli – a figurinista) e Sophia Loren (a mãe de Guido) num festival de pontas (coadjuvantes?) sem fim. Elas não têm muito o que fazer. É aparecer, falar um pouquinho, cantar um pouquinho, brigar um pouquinho e: tchau, tchau, bambina! Algumas se desnudam, porém, sem qualquer traço de sensualidade (ausência de malícia?) ou expressão de desejo. É como se despissem para tomar uma injeção, um banho ou fazer alguma necessidade. É tudo no automático. Sem graça. Um desperdício total de talentos femininos, mesmo em trajes menores. Os números musicais, que não parecem clip da MTV, carecem de beleza, de ousadia, de novidade. Quanto a Fellini, se muito, é percebível na cena final. NINE não é Fellini (talvez no palco seja diferente) porque falta o sonho, a imaginação ou mesmo o humor encontrado, por exemplo, em Chicago, do próprio Rob Marshall, e na beleza sensual de Moulin Rouge, de Baz Luhrmann, musicais que renovaram o gênero.


Como disse, talvez NINE seja novo demais pra ser digerido facilmente. É um filme que não causa empatia alguma e que se assiste com um certo distanciamento. Um musical mórbido que vai se tornando cada vez mais obscuro a cada canção. Acostumado (condicionado?) a associar musicais à comédia, à alegria, à picardia, a romances pueris, é difícil aceitá-lo retratando situações tão deprimentes. Não tem sentido procurar Fellini onde ele não está. Não vi o filme comparando-o ao 8 e ½, porque nunca vi (por inteiro) esta que é considerada a sua obra-prima. Se tivesse visto talvez compreendesse melhor a dureza, a amargura, a frieza..., a falta de inspiração de Guido Contini/Rob Marshall e o sofrimento insípido das suas belas mulheres.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Crítica: Os Abraços Partidos




Acertando ou errando (?) Pedro Almodóvar continua sendo unanimidade. Seu mais recente trabalho, Os Abraços Partidos (Los Abrazos Rotos, Espanha, 2009), tem dividido inflamadas opiniões. Encontra-se todo tipo de comentário. Uns críticos dissecam a vida do diretor espanhol, outros dissecam a obra e ainda há os que se debruçam apenas sobre o filme. Não tem meio termo, o filme é amado ou achincalhado.

Com um título plural ao do singular e ótimo filme argentino, O Abraço Partido (El Abrazo Partido, Argentina, 2004), do diretor Daniel Burman, que também fala de desejo, rejeição, amores, traição, segredos, reparação, com uma outra latinidade (é claro), Os Abraços Partidos, de Almodóvar, é igual na exposição, mas diferente no acento dramático de seus filmes anteriores. O diretor continua tratando de assuntos pertinentes ao seu universo como: cinema, desejo, sexo, vingança, segredos, ciúme..., mas com alguma variação de gênero. Desta vez o spot não está exatamente sobre as mulheres (Lena e Judit), mas sobre os homens (Mateo/Harry, Enrique, Diego, Raio X). É a partir do mundo deles que descobrimos os segredos que os envolvem e também os escondidos pelas mulheres. São eles os responsáveis pelo silêncio trágico e redenção delas, através de imagens perdidas ou restauradas.

Em entrevistas recentes, Almodóvar disse ter deixado as drogas por amor à vida. No filme, quem deve seguir o conselho é Diego (Tamar Novas), um DJ que, acidentalmente toma uma overdose e vai parar num pronto socorro. Ali, numa conversa “informal” com um roteirista cego, Harry Caine (Lluiz Homar), de quem é secretário, alguns segredos começam a ser desvelados. Diego vai entender o porquê da aversão da mãe Judit (Blanca Portillo), produtora de cinema, e de Caine, por Raio X (Rubén Ochandiano), um jovem cineasta, e seu pai, o magnata Ernesto Matel (José Luiz Gómez). Vai saber quem é a bela Magdalena Rivas (Penélope Cruz), mulher de Ernesto e atriz do filme Chicas e Maletas (Meninas e Malas), de Mateo Blanco, que despertou a paixão desenfreada nos dois homens.

Em Os Abraços Partidos, todos têm segredos. Todos têm uma vida dupla: prostituição, drogas, paixões, culpa, homossexualidade, rejeição... Harry Caine, roteirista, é o duplo de Mateo Blanco, cineasta que ficou cego após um trágico acidente, há 14 anos, e mudou de identidade. Amargurado, é ele quem nos conduz pelos intricados caminhos da sua memória, onde alguns fatos do passado se misturam à realização de um filme, com Lena, a sua grande paixão. Saltando de 2008 a 1994, ponto a ponto o seu relato vai enlaçando, uma a uma, as pessoas que o rodeiam. Nesse ir e vir, da sua própria história, o roteirista, mestre em criar tramas e também em filmá-las, falseando o olhar do espectador, verá que foi vítima do seu próprio ofício. O ciúme fez o resto. Nada mais Almodóvar do que acertar as contas com o passado. Seus filmes parecerem estar em constante catarse. Suas histórias são pedaços de vida, quebrados pelo ciúme ou pela vingança, que aos poucos vão sendo costurados com linhas coloridas e doloridas..., mas sempre com algum humor (às vezes negro).

O ciúme desatinado, na leitura de Almodóvar, lembra O Ciúme, na canção de Caetano Veloso: “O ciúme lançou sua flecha preta/ E se viu ferido justo na garganta (...) Mas na voz que canta tudo ainda arde/ Tudo é perda, tudo quer buscar, cadê (...) Tanta gente canta, tanta gente cala/ Tantas almas esticadas no curtume/ Sobre toda a estrada, sobre toda sala/ Paira, monstruosa sombra do ciúme.” O ciúme, na visão do diretor espanhol, é mais do que uma lágrima sobre um tomate vermelho ou cruzes decorativas que se repetem no apartamento dos amantes. É uma dor que pode ser expiada no reencontro do eu, mesmo que leve 14 anos e que a imagem que se quer abraçar não possa ser retida na memória. Se não se pode mudar o passado, pode-se enterrá-lo definitivamente.

Os Abraços Partidos, na sua pluralidade de sentimentos contraditórios ou não partilhados, é um excelente filme sobre a arte de fazer cinema e de contar histórias. Não é uma aula sobre cinema, é a própria arte em exposição. Pedro Almodóvar é mestre na captação de nuances e na sutileza com que referencia outros mestres da 7ª Arte. O seu cinema é o de amador, daquele que ama o que faz e se repete incansável na busca de um novo olhar. Em uma das mais belas e desconcertantes sequência, ao exorcizar o ciúme (à flor da pele) de seu marido, que assiste a um vídeo gravado pelo filho dele, registrando todos os seus passos e conversas com Mateo, traduzidas por uma leitora de lábios, Magdalena dubla a si mesma numa fala diferente daquela gravada em vídeo. Ao dublar-se ela interpreta e ao interpretar-se transforma o registro do vídeo, criando um subtexto que penetra a imagem na tela e retorna ao espectador do vídeo (Martel) e ao espectador do filme (que vê a ambos) como se real. No tríplice jogo de cena do vídeo e do filme confundem-se a mulher, a atriz e a amante. Num outro momento será Ernesto Martel, corrompido pelo ciúme, quem usará a palavra para ferir a quem ama, através do filme (dentro do filme). É Almodóvar indo ao extremo da metalinguagem e modificando um vídeo dentro filme e um filme dentro do filme, a favor (ou por causa) da palavra. Ou do ciúme!

Os Abraços Partidos é (sim) Pedro Almodóvar do começo ao fim, exposto nas cores do amor, do ciúme, da vingança. No simbolismo no nome e na identidade dos personagens. É a mão e a voz do diretor na plenitude da técnica e do amor ao cinema. É um filme tão igual quanto diferente dos filmes de Almodóvar e, talvez por isso, sujeito ao gosto o ou ao desgosto do espectador.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Crítica: Vicky Cristina Barcelona



VICKY CRISTINA BARCELONA
por Joba Tridente

Curitibano, de certa forma, não acha muita graça em comédia de Woody Allen. Humor inglês, então, nem pensar. Bem, como não sou (apenas estou) curitibano, me sinto livre para rir de tudo que é e que pareça ser engraçado.


Sessão da tarde.
Eu me divertindo, rindo. Na minha frente duas mulheres cochichando, durante o filme todo Filme termina e um delas me olha por um bom tempo e depois sai. Acompanho os créditos. Saio da sala. Elas estão me esperando querendo saber porque eu ria tanto.
- Como assim?
- É um filme dramático, tenso, sério, como o senhor pode achar graça?
- É um filme de Woody Allen, com a sua paleta de humor para todos os gostos (evidentemente para quem gosta de um bom humor): sutil, ferino e até mesmo negro, sempre desvelando o que nos parece o ridículo de cada um.
- O senhor acha que somos ridículos? O ser humano é ridículo?
- Acho! Principalmente quando amamos sem qualquer limite. Woody Allen brinca com todas as possibilidades do amor e o desejo intenso, reprimido, ciumento, neurótico, possessivo... Se amamos intensamente somos ridículos. Se reprimimos intensamente esse desejo somos ridículos. O que torna a vida, de certa forma, divertida, se não para a gente, ao menos para os outros. Sim, porque se não somos nós, são os outros. Há sempre o eu e o outro. O ser humano complica o que parece simples: a entrega ao prazer.


Ah, o desejo! Ah, a vontade!
Há sempre um bando de críticos enfadonhos enterrando Woody Allen, filme após filme, como se ele fizesse filme para a crítica e não para o seu público cativo ou não. Viva Woody Allen! Assim como em Dirigindo no Escuro, fica claro (ôpa!) que tudo é uma questão de como se vê um filme do grande diretor. Acredito ter visto todos os filmes de Woody Allen e penso que em nada perdeu sua produção européia: dos londrinos Match Point, Scoop e O Sonho de Cassandra ao espanhol Vicky Cristina Barcelona. Não o vejo como um Woody Alien em terras do velho continente, mas um sujeito ainda com os pés bem firmes no chão e sabendo muito bem onde anda ou navega. O amor e as relações humanas (até mesmo as não-humanas), o desejo e a repulsa ao sexo, em mãos certas, pode resultar em deliciosas e maravilhosas obras de arte, como no filme Cashback, de Sean Ellis, com uma edição fantástica e um registro fetichista raramente visto no cinema.


No delicioso, divertido e alucinante Vicky Cristina Barcelona tudo funciona: roteiro, atores, música belíssima, fotografia magistral..., muito além de um simples postal. Nele, talvez o mais sensual dos filmes de Woody Allen, enquanto o amor é desejo intenso, o sexo se insinua em cada recanto turístico ou não de Barcelona e de Oviedo. A luz quente, a brisa campestre, o roçar de corpos, o sussurro, a música catalã..., tudo tão à flor da pele, transforma expectador em bem mais que mero voyeur


O sensualíssimo Vicky Cristina Barcelona (Vicky Cristina Barcelona, Espanha, EUA, 2008) visita Woody Allen de outros tempos e outros filmes, mas por outras portas e janelas sempre abertas para novas experiências amorosas, avassaladoras, transgressoras, inesperadas..., e nunca confessadas. É divertido e longe de qualquer divã!
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...