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quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Crítica: Um Dia de Chuva em Nova York



UM DIA DE CHUVA EM NOVA YORK
por Joba Tridente

Ah, essas poderosas produtoras puritanas que, preocupadas com suas reputações conservadoras (?), estremecem o mercado do entretenimento em prol do patrimônio da família, do patrimônio da moral e do patrimônio do mercado, pela preservação do patrimônio dos bons costumes norte-americanos. Quebra de contrato (de cinco filmes) da Amazon Studios, mimimi de atores inseguros e factoides à parte..., eis que, dois anos depois do tititi da onda de assédios no reino cinematográfico, finalmente a comédia romântica Um Dia de Chuva em Nova York (A Rainy Day in New York), escrita e dirigida pelo mestre Woody Allen, chega às salas de cinema (que não o boicotaram) em alguns países, inclusive no Brasil.


Um Dia de Chuva em Nova York é um filme nostálgico, com toques de melancolia, trilha sonora envolvente, diálogos irônicos e personagens inquietos..., algo habitual nas obras de Allen, mas que nunca soam redundantes, já que a retórica sempre traz argumentos diferentes. Desta vez o contexto é bem mais juvenil, ao apresentar três jovens (brancos e muito ricos), na faixa dos vinte anos, em busca de um lugar na sociedade, para satisfação pessoal e ou de suas abastadas famílias: Gatsby Welles (Timothée Chalamet), culto e sem rumo, apaixonado pela boemia e por um bom piano num bar esfumaçado;  Ashleigh (Elle Fanning), aspirante a jornalista e apaixonada por cinema; Shannon (Selena Gomez), apaixonada por moda.

A trama de encontros, desencontros e revelações bombásticas, acontece praticamente num dia chuvoso de sábado, quando o casal de universitários Gatsby e Ashleigh vai passar um fim de semana romântico em Nova York. Ela, porque conseguiu marcar uma entrevista com o renomado diretor de cinema Roland Pollard (Liev Schreiber). Ele, porque quer apresentar as maravilhas da cidade para a sua amada. Porém, apesar da agenda cultural combinada, a ingênua e entusiasta Ashleigh acaba indo além do tempo previsto com o depressivo Roland e, de quebra, se vendo dando atenção também ao incompreendido roteirista Ted Davidoff (Jude Law) e ao sensual ator Francisco Vegas (Diego Luna). Enquanto aguarda pela amada, Gatsby anda pela cidade, e, entre alguns velhos amigos, encontra Shannon, a irmã de uma ex-namorada. Daí, até o final da noite, tudo (mesmo) pode acontecer com esse trio tão desencontrado, mas cheio de desejos..., a mãe de Gatsby (Cherry Jones) que o diga! Depois de tantos atropelos sob a chuva do sábado, a tranquilidade do domingo certamente surpreenderá a cada um...


Maravilhosamente fotografada por Vittorio Storaro, a trama de Um Dia de Chuva em Nova York parece tecer uma viagem no tempo e ou um resgate no tempo, ao trazer um jovem alter ego de Woody Allen de ontem para dialogar com a Nova York de hoje, que ainda guarda preciosos resquícios do passado do diretor. A divertida provocação causa um curioso estranhamento na atmosfera verbal e visual do jovem casal contemporâneo, mas com viés vintage..., principalmente em Gatsby, saudoso de um passado cultural que não viveu. Saudade essa manifestada numa emocionante sequência em que ele toca piano e canta a adorável Everything Happens to Me (Tudo Acontece Comigo, 1940), de Tom Adair e Matt Dennis, que Frank Sinatra gravou quatro vezes, mas cuja versão (no filme) se aproxima da interpretação de Chet Baker.

(Nota: Infelizmente, como é padrão nas traduções cinematográficas brasileiras (excetuando alguns musicais), sempre que aparece alguém cantando, mesmo tendo a ver com a trama, a tradução cessa, como se fosse crime traduzir letra de música. Toda via melódica, no entanto, para você não ser levado(a) a esmo pela enxurrada dos versos, saiba que a canção fala de um cara que lamenta seu azar no amor, no lazer, no jogo..., por mais que ele tente acertar, algo dá errado.). Como se ouve ali, para quem conhece o valor das palavras do coração, Allen não economiza seus diálogos geniais nessa belíssima sequência, mas sabiamente aproveita um que está pronto e o condensa com maestria numa tocante cena melódica. Talvez, o que quer que tivesse escrito, por melhor que fosse, naquele momento único soaria banal...


Enfim, Woody Allen, diretor de Vicky Cristina Barcelona - o filme mais sensual que já assisti até hoje, e de: Tudo Pode Dar Certo; Para Roma Com Amor; Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos; Meia-Noite em Paris; Blue Jasmine, entre outros que amo, mas que não resenhei, continua me surpreendendo positivamente. Assim, considerando as tiradas inteligentes sobre cinema, cultura de almanaque, literatura de costumes, relacionamentos amorosos e de ocasião; a mordacidade dos diálogos; o humor leve; a fotografia fantástica; a jovialidade do roteiro e do elenco, que se sai muito bem; o ritmo narrativo que precisa apenas de 90 minutos para contar uma história simpática; a trilha sonora; o jogo de espelhos com a veracidade do teatro e o engodo da vida..., a comédia romântica agridoce Um Dia de Chuva em Nova York é um bom espetáculo para se assistir em qualquer clima...

Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeos-documentários fiz em 1990. O primeiro curta-metragem (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado em Curitiba, no Paraná, Brasil.

domingo, 17 de novembro de 2013

Crítica: Blue Jasmine


Quanto mais velho, mais surpreendente. Assim me parece Woody Allen a cada novo filme. O seu discurso continua tocando com ironia as relações familiares, amorosas, sociais..., mas o seu olhar sempre encontra um outro viés narrativo.

Blue Jasmine é um drama no fio da navalha tragicômica que raros mestres têm habilidade para manusear com precisão.  Falar com classe e elegância sobre decadência não é para qualquer autor/diretor, naturalmente. Na trama, cuja catarse final pode justificar ou não o prólogo, Jasmine (Cate Blanchett), ex-socialite e ex-mulher-bibelô do investidor financeiro Hal (Alec Baldwin), perde o rumo e o chão, ao se divorciar, e se vê obrigada a passar uma temporada com a irmã Ginger (Sally Hawkins), em San Francisco. Decadente, na rua da amargura, mas sem perder a elegância dos tempos de fartura, enquanto não decide o que fazer da sua vida, continua sonhando alto, via web.


As duas irmãs foram adotadas quando crianças, mas o destino tratou de separá-las social e economicamente: uma para o glamour e a outra para a labuta. Enquanto Jasmine (com o mundo aos seus pés) se “aprisiona” no faz de conta, “ignorando” a lógica das aparências e os tropeços da mentira, Ginger (com o mundo fora de seu alcance) se conforma com a mediocridade da sua rotina de comerciária.  Iguais nas suas diferenças, ambas buscam a felicidade ou algo parecido no cotidiano possível. O ingrediente econômico (a gosto) que dá um sabor agridoce à vida de Jasmine, à beira de um surto, e de Ginger, voando baixo para evitar turbulências, tambem dá ponto à receita e ganha a cumplicidade do espectador que alterna sentimentos de ódio, amor e compaixão por elas. Gosta-se ou não das personagens woodyallenianas porque elas lembram gentes que conhecemos do lado de cá da vida, cuja imagem é muito mais nítida e nem se precisa efeito 3D para emular a realidade.

Blue Jasmine (2013) é um vendaval de emoções arrebatador. Allen sabe a ocasião de fazer a piada, cortar o riso, provocar a lágrima, numa mesma cena. Sob uma trilha sonora menos evocativa, é tão prazeroso quanto constrangedor a ebulição de sentimentos que provoca. O filme pode ser de Cate Blanchett, magnífica na pele de Jasmine, mas tanto Hawkins quanto Baldwin se saem bem de escada.

Num ambiente de frustrações e impulsos de vingança, crime e castigo podem ter peso e medida diferentes e ou equivalentes. Já que cada um é muito mais carrasco e vítima da sua própria vida do que imagina..., um final feliz ou à francesa é muito relativo.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Crítica: Para Roma Com Amor



Quem é mestre não perde a o senso de direção mesmo dirigindo em terras estrangeiras. Nos últimos anos, a cada nova obra, os detratores de Woody Allen têm caçado uma chance de espinafrá-lo por filmar (com a mesma categoria) na Europa que lhe garante condições (verba) de trabalho. Entre tantas bobagens dizem até que só faz filmes turísticos. Quem dera todos os filmes turísticos (de agência de publicidade e ministérios assemelhados) tivessem a mesma qualidade de argumento, roteiro e elenco que ele reúne ao seu redor.

Não creio que tenha algum filme de Allen que realmente não goste, apesar de apreciar uns mais que outros. Gosto de Match Point (2005), acho fantástico Tudo Pode Dar Certo (2009) e fascinante o Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos (2010). Adoro Meia-Noite em Paris (2011) e amo Vick Cristina Barcelona (2008), um dos filmes mais sensuais (e excitantes) da história do cinema. Em Para Roma Com Amor (To Rome With Love, EUA, Itália, Espanha, 2012), Woody Allen continua excelente diretor e contador de histórias tão possivelmente reais de gente como a gente (ou nem tanto) sempre complicando as relações humanas, para divertir (ou seria advertir?) o espectador.


No belo cenário “teatral” de Roma acontecem quatro ótimas histórias, com roteiros e tempos diferentes, que não se cruzam em nenhum momento. As mais divertidas são as protagonizadas pelo próprio Allen e por Roberto Benigni. Na primeira, Woody é Jerry, um aposentado produtor musical estadunidense (de ideias avançadas e gosto duvidoso) que vai à Roma, com a mulher Phyllis (Judy Davis), conhecer Michelangelo (Flavio Parenti), o noivo romano de sua filha Hayley (Alison Pill), e acaba descobrindo o talento lírico (de chuveiro) de Giancarlo (Fabio Armiliato), o pai de Michelangelo. É claro que Jerry não vai perder a oportunidade de tentar transformar o tímido e nada ambicioso agente funerário em um cantor de sucesso. Por conta dessa ideia maluca ele compra briga com a família inteira e o resultado desse embate ítalo-americano é coisa de gênio! É puro nonsense!

Na segunda história Leopoldo (Benigni), um inexpressivo executivo que é transformado sem qualquer razão, em celebridade instantânea. O sujeito vive o céu e o inferno tentando entender, atender e se desvencilhar de repórteres e paparazzis, a serviço de grandes mídias (televisão e jornais), que ficam feito moscas varejeiras ao seu redor, à espera de alguma declaração idiota. Na terceira história Jack (Jesse Eisenberg) é um jovem norte-americano que vive em Roma com Sally (Greta Gerwig), encontra um “grilo-falante” na pessoa do misterioso conterrâneo arquiteto John (Alec Balwin), que palpita o tempo todo sobre o envolvimento dele com Monica (Ellen Page), uma (dissimulada) amiga de sua namorada e que está de passagem pela cidade.


A quarta história é uma singela homenagem ao mestre Federico Fellini e o seu primeiro filme autoral: Abismo de um Sonho (1952), que vim conhecer há uns cinco anos. Nesta “releitura” encontramos os recém-casados Antonio (Alessandro Tiberi) e Milly (a bela Alessandra Mastronardi), em viagem à Roma para encontrar uns parentes ricos e conservadores e, de quebra, descolar um bom emprego. Pelo menos esse era o plano do jovem casal, até Milly (cabecinha de vento) insistir em procurar um cabeleireiro e se perder pelas ruas da Cidade Eterna e Antonio se meter numa grande confusão com Anna (Penélope Cruz), uma fogosa prostituta que entra por engano no seu quarto.

São narrativas curtas, inventivas, divertidas e românticas onde sobram alfinetadas saborosas para as mídias e suas invenções de celebridades instantaneamente imbecis, e para os produtores e diretores que adoram montagens espetaculosas (e ou incompreensíveis) de óperas e ou de clássicos do teatro universal. Woody Allen nunca perde um diálogo ao criticar as “comodidades” políticas, sociais, religiosas, artísticas. Ele é impar em falar de relações amorosas e sexuais, paranoicas e ou não, deixando claro que, parafraseando um personagem: quando menos se espera, a ocasião faz o tesão. O homem é uma mesa farta de idiossincrasias, mas poucos sabem servi-las tão bem quanto Allen.

O elenco garante a qualidade do espetáculo. Quem conhece a obra do mestre sabe o que esperar e, se por qualquer razão incompreensível não gostar, pelo menos vai fazer um maravilhoso tour por Roma, embalado por marcantes canções italianas.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Crítica: Meia Noite em Paris



O tempo passa, a idade avança e a cada filme Woody Allen (não que precise) prova que ainda é um grande mestre da sua arte. A comédia Meia Noite em Paris é mais uma daquelas pérolas que deve matar de inveja os cineastas menores que "se fazem” em cima da escatologia e das repetidas “piadas” de mau gosto. Não é que Woody não se repita em suas histórias, a diferença é que, se ele o faz, é sempre por um novo viés. 

Quem nunca quis viver numa época diferente, até mesmo para fugir da sua realidade? Em Meia Noite em Paris (Midnight in Paris, 2011), o norte-americano Gil Pender (Owen Wilson), roteirista de sucesso em Hollywood, sonha em largar a carreira para se dedicar exclusivamente à literatura. Apaixonado por Paris e embevecido com a ideia de dar um novo rumo à sua vida de escritor, aproveita que está de férias na capital francesa, junto com a noiva Inez (Rachel McAdams) e os pais dela, John (Kurt Fuller) e Helen (Mimi Kennedy), para comunicar a sua decisão. Se os opostos se atraem, Gil e Inez se distraem em interesses outros. Ele quer consumir cultura, encontrar resquícios da adorável Paris dos dourados anos 1920. Ela prefere o consumo material e gastronômico. Ele quer morar em Paris e ela em Malibu. Ele busca na reflexão sobre o fazer arte a inspiração para o seu livro. Ela se contenta em ouvir o enciclopédico pedante Paul (Michael Sheen) falar sobre arte. 


Desencontros à parte, certa noite Gil está meio perdido, a caminho do hotel, quando um carro antigo para ao seu lado e ele é convidado por F. Scott Fitzgerald (Tom Hiddleston) e Zelda Fitzgerald (Alison Pill) a entrar e a passear pela Cidade Luz e conhecer os seus mais ilustres moradores: Gertrude Stein (Kathy Bates), Hemingway (Corey Stoll), Cole Porter (Yves Heck), Picasso (Marcial Di Fonzo Bo), Salvador Dali (Adrien Brody), T.S. Eliot (David Lowe), Buñuel (Adrien de Van), entre outros. A cada noite a magia se repete e ele viaja ao passado para saborear a companhia de artistas renomados e da encantadora estilista Adriana (Marion Cotillard), ex-amante de alguns futuros famosos. Enquanto para Gil a divertida viagem é algo surreal, para os verdadeiros surrealistas, é coisa normal. O que rende ótimas e inteligentes piadas. O mais interessante é que esses encontros maravilhosos e além da imaginação são tratados de forma tão natural e distraída que o espectador até se esquece da excelente direção de arte de Anne Seibel

Paris é a cidade fetiche de muita gente. Já foi homenageada inúmeras vezes por outros autores americanos, mas raramente de forma tão amorosa como fazem Allen, além do cartão postal, e o diretor de fotografia Darius Khondji, além do lugar comum. Na história que se desenha e se escreve, Woody mergulha fundo na alma cultural (e romântica) dela, vasculha o seu passado para entender o pensamento intelectual que influencia o seu presente. Se a cultura de amanhã é o reflexo da arte que se faz hoje, por que pensar e considerar o ontem tão melhor, se o que interessa é que o futuro seja promissor? É através dessa ironia da sublimação de um tempo passado, que está sempre retornando ao passado, na indefinição do futuro, que Allen vai tecendo a sua filosofia de vida e da arte, às vezes melancólico, às vezes realista, mas nunca gratuito. Ele pode até parecer um derrotado, mas é, com certeza, cheio de esperança. 


Com seu humor nonsense e repleto de referências culturais, Meia Noite em Paris é um filme que requer um pouco mais de conhecimento do espectador. Se desconhecer os autores citados e ou as suas obras, com certeza não vai entender nenhuma piada. A inspirada comédia que garante um sorriso gostoso e uma inesquecível viagem por Paris traz um elenco afinado (com o seu tempo). É bem provável que ao final, quando Gil Pender finalmente curtir a chuva parisiense, que há de levar bem mais que a sua alma, o público fique com uma dúvida: se a arte de hoje é (realmente) feita para o amanhã, a de ontem é (realmente) consumida hoje, quando ela é (realmente) contemporânea? 

sábado, 11 de dezembro de 2010

Crítica: Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos


Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos

Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos (You Will Meet a Tall Dark Stranger, EUA, Espanha, 2009), de Woody Allen, é mais um daqueles mix que só ele sabe fazer: dramático, engraçado, melancólico, irônico, sensual. Só que, desta vez, um pouco mais triste e quase sem esperança de que “tudo” (ainda) pode dar certo, já que nem “tudo” sai como os seus personagens esperam. Sonhadores (às vezes fúteis), eles se atropelam nos seus desejos (pessoais, sexuais, profissionais). Surpresas acontecem na vida real e na tela de cinema, queiram ou não as gentes de cá ou do lado de lá da ficção.


Sagaz, enquanto rolam os créditos iniciais (e finais) rola a música tema de Pinóquio, clássica animação da Disney, ganhadora de dois Oscars em 1941 (melhor trilha sonora e melhor canção): When You Wish Upon a Star (de Leigh Harline e Ned Washington): When you wish upon a star/ Makes no difference who you are/ Anything your heart desires/ Will come to you (…) If your heart is in your dream/ No request is too extreme/ When you wish upon a star/ As dreamers do (…) Fate is kind/ She brings to those who love/ The sweet fulfillment of/ Their secret longing (…) Like a bolt out of the blue/ Fate steps in and sees you through/ When you wish upon a star/ Your dreams come true. A balada fala que ao fazer um pedido a uma estrela, não importa quem você seja, se o pedido for de coração, ele será atendido. A versão de Leon Redbone é tocante e antes que o espectador comece a se debulhar em lágrimas, lembrando das peripécias do menino de madeira que virou menino de verdade, uma frase Shakespeareana: A vida é cheia de som e fúria, mas no final não significa nada, encerra o prólogo.


No palco armado, numa Londres em qualquer lugar do mundo, cada personagem choraminga sua dor, ciente do seu ponto de fuga. Helena (Gemma Jones), na meia idade, não aceita a separação e busca respostas (pagando e bebendo para ouvir o que quer) nas consultas a uma futuróloga charlatã, que lhe garante que ainda vai encontrar um homem alto e moreno (do título original). O ex-marido Alfie (Anthony Hopkins) acredita poder recuperar a juventude perdida e, na tolice dos “enta”, busca o “afeto” de uma garota atriz/acompanhante: Charmaine (Lucy Punch). A filha do casal, Sally (Naomi Watts), com o casamento em crise, busca a felicidade no trabalho (enquanto não conquista a independência financeira), sonhando com o amor do patrão Greg (Antonio Banderas). Roy (Josh Brolin), marido de Sally, é um escritor (frustrado) de um sucesso só que, infeliz no amor e na profissão, se apaixona pela vizinha de vermelho Dia (Freida Pinto). Acreditar em si mesmo exige um pouco mais do que força de vontade. Caso contrário, a rasteira é certa.


Nesta nova trama de Woody Allen, o espectador cai de paraquedas no seio de uma família pra lá de complicada. Cada um remói seu problema achando que a culpa é sempre (a falta de complacência) do outro. Um ciclo vicioso que começa e termina em Helena. Se há muita verdade nos desejos dos personagens (amor, sucesso, felicidade, trabalho, filho, casamento), há também muito jogo de cena, pra enganar a solidão e as (pequenas?) frustrações cotidianas. Helena se consulta com uma vidente cartomante (que lhe prevê um futuro promissor) porque é muito mais barato (e produtivo) do que se consultar com um psicanalista (que não lhe vê futuro algum). Crédulos ou incrédulos cada um se deixa cegar pelo egocentrismo. O amanhã pode estar nas mãos do Acaso, do Destino ou das Cartas de um Tarô, e o tal homem alto e moreno, não passar de uma metáfora.


Apesar de todo o seu ceticismo em Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos, não acho que Woody tenha perdido a mão como diretor ou roteirista, como alegam os seus detratores. É um drama curioso e, dependendo do estado de espírito de espectador, bem engraçado. Talvez esse riso (não digo gargalhada) venha depois da exibição, ao se lembrar de alguma passagem, principalmente nas trocas de palavras e farpas entre Helena, Sally, Roy. Os atores estão ótimos e a trilha sonora é maravilhosa. Para fãs (ou não) é mais um bom filme com a assinatura de um mestre cinematográfico em constante questionamento (social, filosófico, moral, religioso...). Ah, e de brinde ainda tem boas, divertidas e dramáticas reviravoltas. O público não perde por esperar para ver se (afinal) o novo livro de Roy vai fazer mais sucesso que o primeiro (no surpreendente final).


Ao fim da sessão, imediatamente me lembrei da música As Aparências Enganam. Acho que ela poderia tranquilamente encerrar o filme. Diz a bela canção, de Sergio Natureza e Tunai, imortalizada por Elis Regina: As aparências enganam, aos que odeiam e aos que amam/ Porque o amor e o ódio se irmanam na fogueira das paixões/ Os corações pegam fogo e depois não há nada que os apague/ Se a combustão os persegue, as labaredas e as brasas são/ O alimento, o veneno, o pão, o vinho seco, a recordação/ Dos tempos idos de comunhão, sonhos vividos de conviver/ As aparências enganam, aos que odeiam e aos que amam/ Porque o amor e o ódio se irmanam na geleira das paixões/ Os corações viram gelo e, depois, não há nada que os degele/ Se ha neve cobrindo a pele, vai esfriando por dentro o ser/ Não há mais forma de se aquecer, não há mais tempo de se esquentar/ Não há mais nada pra se fazer, senão chorar sob o cobertor/ As aparências enganam, aos que gelam e aos que inflamam/ Porque o fogo e o gelo se irmanam no outono das paixões/ Os corações cortam lenha e, depois, se preparam pra outro inverno/ Mas o verão que os unira, ainda, vive e transpira ali/ Nos corpos juntos na lareira, na reticente primavera/ No insistente perfume de alguma coisa chamada amor.

domingo, 20 de junho de 2010

Crítica: Tudo Pode Dar Certo



Tudo Pode Dar Certo
num filme de Woody Allen, o que poderia dar errado?

Tudo Pode Dar Certo (Whatever Works, França, EUA, 2009), com roteiro e direção de Woody Allen, é a mais recente obra do genial diretor a estrear no Brasil. Para quem não gosta de seu trabalho e todo ano propaga a morte da sua criatividade cinematográfica, ele tem nada a dizer, mas ao seu público fiel cabe o presente de mais uma deliciosa e divertida comédia. E o melhor, sem clichê, vício irritantemente comum, aos roteiristas e diretores menores de Hollywood, e que o público com QI abaixo da média adora.

De passagem por Nova York, Allen realizou este Tudo Pode Dar Certo, um projeto antigo que ganhou forma, sem perder o humor cáustico que deixa salobre qualquer água benta. O humorista Larry David, é o seu alter ego da vez, na persona do adorável rabugento físico Boris Yellnikoff, ex-professor da Universidade de Columbia, quase ganhador do Nobel que, nas horas vagas, quando não está condenando toda a humanidade ao limbo, se torna um impaciente professor de xadrez, para azar das crianças. Certa noite, ao voltar para casa, ele encontra Melodie St. Ann Celestine (Evan Rachel Wood), uma bela garota interiorana, que implora por sua ajuda. Meio a contragosto ele oferece abrigo por uma noite e acaba se envolvendo muito mais do que gostaria. Um ano depois, na cola da garota, aparecem a mãe, Marietta (Patricia Clarkson), e, logo após, o pai, John (Ed Begley Jr.). Eles são conservadores, crentes fervorosos (mas cheios de pecadilhos) que, de uma forma ou de outra, vão repensar e mudar radicalmente o rumo das suas vidas, na grande cidade, e aceitar de bom grato o preço da felicidade. O único que parece incapaz de rever os seus filosóficos conceitos científicos (embasados na religião e na política) é Yellnikoff. O livre pensador acredita que o mundo seria muito melhor sem a raça humana.


Irônico, sarcástico, Boris odeia a ignorância e, por mais que a evite, está sempre rodeado por ela. A sua inteligência parece funcionar como um imã à estupidez. O seu mau humor, pela incapacidade de aceitar as pessoas como elas são, é uma constante que não se dissipa nem com as breves e gloriosas idéias de suicídio. Em Tudo Pode Dar Certo, não há a “quietude” erótica e exótica do inesquecível Vicky Cristina Barcelona (2008), apesar do desejo aflorando em todas as formas possíveis de serem colhidas, mas há a incomparável metralhadora verbal de Woody Allen, tão rápida e certeira, nos monólogos e diálogos ácidos de Boris Yellnikoff, que (acredito) muitos espectadores não têm nem tempo de assimilar ou entender as tiradas de mestre. A audácia maior, no entanto, fica por conta da ousada forma de anexar a platéia à narrativa do filme. Não é um recurso novo (já foi usado até em desenho animado), mas sempre funciona a história do ator que fala ou se dirige à plateia. Aqui a conivência é perfeita, cria-se até uma expectativa do momento em que a “conversa” será retomada durante a projeção do filme. Olhos e ouvidos atentos, o público sai da sua passividade e vira (literalmente) um coadjuvante explícito.

Engraçada do começo ao fim, texto rápido e interessante, pérolas perfeitas, direção irretocável e atuações excelentes, a comédia Tudo Pode Dar Certo, não tem porque dar errado. Quem sabe e domina o que faz, até na reciclagem (de idéias e temas) continua original e sem perder tempo (re)filmando obra alheia. Quando Woody Allen não tem mais (?) como (ou o quê) falar de suas neuras, se põe a falar das neuras dos outros. Contar histórias de suicidas frustrados pode até ser divertido, mas a graça está mesmo em saber como falar das (re)viravoltas da vida e da rasteira na Morte. Com Allen, cada expectador ri um pouco de si mesmo muito além da sala de cinema.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Crítica: Vicky Cristina Barcelona



VICKY CRISTINA BARCELONA
por Joba Tridente

Curitibano, de certa forma, não acha muita graça em comédia de Woody Allen. Humor inglês, então, nem pensar. Bem, como não sou (apenas estou) curitibano, me sinto livre para rir de tudo que é e que pareça ser engraçado.


Sessão da tarde.
Eu me divertindo, rindo. Na minha frente duas mulheres cochichando, durante o filme todo Filme termina e um delas me olha por um bom tempo e depois sai. Acompanho os créditos. Saio da sala. Elas estão me esperando querendo saber porque eu ria tanto.
- Como assim?
- É um filme dramático, tenso, sério, como o senhor pode achar graça?
- É um filme de Woody Allen, com a sua paleta de humor para todos os gostos (evidentemente para quem gosta de um bom humor): sutil, ferino e até mesmo negro, sempre desvelando o que nos parece o ridículo de cada um.
- O senhor acha que somos ridículos? O ser humano é ridículo?
- Acho! Principalmente quando amamos sem qualquer limite. Woody Allen brinca com todas as possibilidades do amor e o desejo intenso, reprimido, ciumento, neurótico, possessivo... Se amamos intensamente somos ridículos. Se reprimimos intensamente esse desejo somos ridículos. O que torna a vida, de certa forma, divertida, se não para a gente, ao menos para os outros. Sim, porque se não somos nós, são os outros. Há sempre o eu e o outro. O ser humano complica o que parece simples: a entrega ao prazer.


Ah, o desejo! Ah, a vontade!
Há sempre um bando de críticos enfadonhos enterrando Woody Allen, filme após filme, como se ele fizesse filme para a crítica e não para o seu público cativo ou não. Viva Woody Allen! Assim como em Dirigindo no Escuro, fica claro (ôpa!) que tudo é uma questão de como se vê um filme do grande diretor. Acredito ter visto todos os filmes de Woody Allen e penso que em nada perdeu sua produção européia: dos londrinos Match Point, Scoop e O Sonho de Cassandra ao espanhol Vicky Cristina Barcelona. Não o vejo como um Woody Alien em terras do velho continente, mas um sujeito ainda com os pés bem firmes no chão e sabendo muito bem onde anda ou navega. O amor e as relações humanas (até mesmo as não-humanas), o desejo e a repulsa ao sexo, em mãos certas, pode resultar em deliciosas e maravilhosas obras de arte, como no filme Cashback, de Sean Ellis, com uma edição fantástica e um registro fetichista raramente visto no cinema.


No delicioso, divertido e alucinante Vicky Cristina Barcelona tudo funciona: roteiro, atores, música belíssima, fotografia magistral..., muito além de um simples postal. Nele, talvez o mais sensual dos filmes de Woody Allen, enquanto o amor é desejo intenso, o sexo se insinua em cada recanto turístico ou não de Barcelona e de Oviedo. A luz quente, a brisa campestre, o roçar de corpos, o sussurro, a música catalã..., tudo tão à flor da pele, transforma expectador em bem mais que mero voyeur


O sensualíssimo Vicky Cristina Barcelona (Vicky Cristina Barcelona, Espanha, EUA, 2008) visita Woody Allen de outros tempos e outros filmes, mas por outras portas e janelas sempre abertas para novas experiências amorosas, avassaladoras, transgressoras, inesperadas..., e nunca confessadas. É divertido e longe de qualquer divã!
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