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quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Crítica: Um Dia de Chuva em Nova York



UM DIA DE CHUVA EM NOVA YORK
por Joba Tridente

Ah, essas poderosas produtoras puritanas que, preocupadas com suas reputações conservadoras (?), estremecem o mercado do entretenimento em prol do patrimônio da família, do patrimônio da moral e do patrimônio do mercado, pela preservação do patrimônio dos bons costumes norte-americanos. Quebra de contrato (de cinco filmes) da Amazon Studios, mimimi de atores inseguros e factoides à parte..., eis que, dois anos depois do tititi da onda de assédios no reino cinematográfico, finalmente a comédia romântica Um Dia de Chuva em Nova York (A Rainy Day in New York), escrita e dirigida pelo mestre Woody Allen, chega às salas de cinema (que não o boicotaram) em alguns países, inclusive no Brasil.


Um Dia de Chuva em Nova York é um filme nostálgico, com toques de melancolia, trilha sonora envolvente, diálogos irônicos e personagens inquietos..., algo habitual nas obras de Allen, mas que nunca soam redundantes, já que a retórica sempre traz argumentos diferentes. Desta vez o contexto é bem mais juvenil, ao apresentar três jovens (brancos e muito ricos), na faixa dos vinte anos, em busca de um lugar na sociedade, para satisfação pessoal e ou de suas abastadas famílias: Gatsby Welles (Timothée Chalamet), culto e sem rumo, apaixonado pela boemia e por um bom piano num bar esfumaçado;  Ashleigh (Elle Fanning), aspirante a jornalista e apaixonada por cinema; Shannon (Selena Gomez), apaixonada por moda.

A trama de encontros, desencontros e revelações bombásticas, acontece praticamente num dia chuvoso de sábado, quando o casal de universitários Gatsby e Ashleigh vai passar um fim de semana romântico em Nova York. Ela, porque conseguiu marcar uma entrevista com o renomado diretor de cinema Roland Pollard (Liev Schreiber). Ele, porque quer apresentar as maravilhas da cidade para a sua amada. Porém, apesar da agenda cultural combinada, a ingênua e entusiasta Ashleigh acaba indo além do tempo previsto com o depressivo Roland e, de quebra, se vendo dando atenção também ao incompreendido roteirista Ted Davidoff (Jude Law) e ao sensual ator Francisco Vegas (Diego Luna). Enquanto aguarda pela amada, Gatsby anda pela cidade, e, entre alguns velhos amigos, encontra Shannon, a irmã de uma ex-namorada. Daí, até o final da noite, tudo (mesmo) pode acontecer com esse trio tão desencontrado, mas cheio de desejos..., a mãe de Gatsby (Cherry Jones) que o diga! Depois de tantos atropelos sob a chuva do sábado, a tranquilidade do domingo certamente surpreenderá a cada um...


Maravilhosamente fotografada por Vittorio Storaro, a trama de Um Dia de Chuva em Nova York parece tecer uma viagem no tempo e ou um resgate no tempo, ao trazer um jovem alter ego de Woody Allen de ontem para dialogar com a Nova York de hoje, que ainda guarda preciosos resquícios do passado do diretor. A divertida provocação causa um curioso estranhamento na atmosfera verbal e visual do jovem casal contemporâneo, mas com viés vintage..., principalmente em Gatsby, saudoso de um passado cultural que não viveu. Saudade essa manifestada numa emocionante sequência em que ele toca piano e canta a adorável Everything Happens to Me (Tudo Acontece Comigo, 1940), de Tom Adair e Matt Dennis, que Frank Sinatra gravou quatro vezes, mas cuja versão (no filme) se aproxima da interpretação de Chet Baker.

(Nota: Infelizmente, como é padrão nas traduções cinematográficas brasileiras (excetuando alguns musicais), sempre que aparece alguém cantando, mesmo tendo a ver com a trama, a tradução cessa, como se fosse crime traduzir letra de música. Toda via melódica, no entanto, para você não ser levado(a) a esmo pela enxurrada dos versos, saiba que a canção fala de um cara que lamenta seu azar no amor, no lazer, no jogo..., por mais que ele tente acertar, algo dá errado.). Como se ouve ali, para quem conhece o valor das palavras do coração, Allen não economiza seus diálogos geniais nessa belíssima sequência, mas sabiamente aproveita um que está pronto e o condensa com maestria numa tocante cena melódica. Talvez, o que quer que tivesse escrito, por melhor que fosse, naquele momento único soaria banal...


Enfim, Woody Allen, diretor de Vicky Cristina Barcelona - o filme mais sensual que já assisti até hoje, e de: Tudo Pode Dar Certo; Para Roma Com Amor; Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos; Meia-Noite em Paris; Blue Jasmine, entre outros que amo, mas que não resenhei, continua me surpreendendo positivamente. Assim, considerando as tiradas inteligentes sobre cinema, cultura de almanaque, literatura de costumes, relacionamentos amorosos e de ocasião; a mordacidade dos diálogos; o humor leve; a fotografia fantástica; a jovialidade do roteiro e do elenco, que se sai muito bem; o ritmo narrativo que precisa apenas de 90 minutos para contar uma história simpática; a trilha sonora; o jogo de espelhos com a veracidade do teatro e o engodo da vida..., a comédia romântica agridoce Um Dia de Chuva em Nova York é um bom espetáculo para se assistir em qualquer clima...

Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeos-documentários fiz em 1990. O primeiro curta-metragem (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado em Curitiba, no Paraná, Brasil.

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Crítica: Mamma Mia! Lá Vamos Nós de Novo


Mamma Mia! La Vamos Nós de Novo
por Joba Tridente*

Em tempos de exploração gratuita de violência explícita, nos meios de comunicação e de entretenimento (incluindo animações), nada melhor que uma boa comédia musical romântica, como a irresistível Mamma Mia! La Vamos Nós de Novo, roteirizada e dirigida por Ol Parker, para levantar o astral, reequilibrar as energias e botar um sorriso sincero nos lábios do espectador (cansado dos horrores cotidianos). Escapismo? Talvez? Mas, atualmente, se a gente não escapar de vez em quando, por algumas poucas horas que seja, enlouquece!


Mamma Mia! La Vamos Nós de Novo (Mamma Mia! Here We Go Again, 2018), continuação que faz jus ao inesquecível Mamma Mia de 2008, sempre no embalo dos compassos sonoros contagiantes do grupo sueco de musica pop ABBA (1972-1982 e anunciado retorno para 2019), conta duas boas histórias amorosas que se entrelaçam. Numa, em flashback, conhecemos as versões jovens da esfuziante Donna (Lily James), logo após a sua formatura em Oxford, em 1979, e o itinerário aventureiro e romântico que a levou à paradisíaca ilha grega Kalokairi; de suas maiores amigas Rosie (Alexa Davies) e Tanya (Jessica Keenan Wynn); e dos seus três complicados amores Harry (Hugh Skinner), Bill (Josh Dylan) e Sam (Jeremy Irvine), futuros candidatos a pai de Sophie (Amanda Seyfried). Noutra história, em 2005, enquanto o marido Sky (Dominic Cooper) estuda hotelaria em Nova York, a insegura Sophie prepara uma homenagem à sua mãe Donna (Meryl Streep), falecida há cinco anos, com a inauguração do Hotel Bella Donna, onde reencontraremos as versões bem mais velhas de seus três complicados pais Harry (Colin Firth), Bill (Stellan Skarsgård) e Sam (Pierce Brosnan) e das ansiosas amigas Rosie (Julie Walters) e Tanya (Christine Baranski). Ali, em Kalokairi, já não é surpresa ou spoiler, quem também chega para abrilhantar (mesmo!) a festa, é Cher, como Ruby, a avó ausente de Sophie, que fará um divertido dueto com Andy Garcia, o sedutor Señor Cienfuegos, na famosa Fernando. E, para arrematar tudo, numa sequência comovente, quem dá o ar da graça é a diva Meryl Streep...


É claro que a vida não é um musical onde tudo se resolve com uma canção ou uma dança, uma utopia ao alcance de qualquer um (até para quem não tem dotes de cantor ou de dançarino), mas bem que poderia ser (ou ter sido)..., não fosse o egoísmo, o egocentrismo, a ganância que submete a grande maioria do gênero humano ao capital que nos distingue como civilização (?) serviçal. Será por isso que muitos de nós inveja a liberdade dos animais não-humanos e dos silvícolas remanescentes e se apega tanto às fantasias de uma vida bucólica? Será que a tecnologia, em algum dia futuro, nos libertará do trabalho estafante que hoje nos aprisiona e nos devolverá uma vida de sonho onde a amizade vale mais que o dinheiro? Com o avanço da ciência, é uma antiga cogitação. Mas, o que fazer com os crédulos da Terra Plana?


Em Mamma Mia! La Vamos Nós de Novo, a vida é uma festa que não se deixa frustrar pela tempestade passageira que (sempre) traz a reboque a bonança. A receita é simples, beirando a ingenuidade, mas repleta de ingredientes clichês que poderia desandar facilmente em outras mãos. Não faltam as doces armadilhas dos amores jovens e as agridoces dos velhos amores que se atam e desatam nas tramas da vida que sempre podem deixar alguns fios soltos para os retardatários apaixonados, na visão generosa de Ol Parker, que também roteirizou os adoráveis O Exótico Hotel Marigold (2011) e O Exótico Hotel Marigold 2 (2015), com seus personagens idosos acertando contas amorosas com o passado e ou descobrindo novos amores.


É fácil gostar de Mamma Mia! La Vamos Nós de Novo, com suas duas boas histórias, sua trilha envolvente (ainda que por vezes alguma balada soe melancólica) com 18 canções do ABBA (I Have A Dream, com arranjo grego, ficou exuberante!), sua coreografia simplória e seus personagens bem escritos e admiravelmente interpretados por todo o elenco (sem exceção!). A comédia, de um romantismo gostoso (assim-assim meio piegas), tem direção segura e ágil de Parker, que demostra muita criatividade também nas excelentes transições de tempo e de cenários campestres, em sequências de bela plasticidade.


Assim, ainda que você não seja lá muito amante de musicais (porque do nada alguém começa a cantar e a dançar suas alegrias ou dores de amores), se, em vez de ficar se ocupando com a coerência ou a plausibilidade do roteiro (que não precisa ser original para ser bom, desde que bem escrito), se deixar levar pela narrativa totalmente descompromissada, feito os adoráveis personagens por seus sonhos, pode se surpreender se remexendo na cadeira, cantarolando alguma canção e decididamente apaixonado pelo filme...


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Crítica: O Exótico Hotel Marigold 2


Em 2012 uma das grandes surpresas no cinema foi a adorável comédia romântica inglesa O Exótico Hotel Marigold. No seu saboroso diálogo há uma fala tão marcante que muitos espectadores a usam como autoajuda (!?): “Na Índia, temos um ditado: tudo vai dar certo no final. Então, se não estiver tudo certo, é porque ainda não é o final.

Três anos depois, os mesmos John Madden (direção), Ol Parker (roteiro) e elenco nos recepcionam outra vez no Exótico Hotel Marigold para uma estadia de duas horas e um convívio divertido com hóspedes bem ou mal humorados e suas pertinentes reflexões agridoces sobre a velhice e o tempo que a idade (veloz ou vagarosa) se faz sentir no físico ou na mente de cada um.


A nossa viagem começa nos EUA, onde os sócios Sonny Kapoor (Dev Patel) e Muriel Donnelly (Maggie Smith), à procura de investidores, visitam o empresário Ty Burley (David Strathairn), que só dará uma resposta após a visita de um cliente espião ao Hotel Marigold. No retorno à Jaipur, Soony só faz estressar: é o casamento com Sunaina (Tena Desae); a expansão dos negócios; a visita do espião americano, que ele acredita ser o novo hóspede Guy Chambers (Richard Gere), um romancista que chega ao Marigold no mesmo dia em que a turista Lavinia Beech (Tamsin Greig). O tumulto com a chegada do tal “espião comercial” é muito engraçada e uma “pegadinha” muito bem resolvida.

Enquanto isso, nossos velhos conhecidos aposentados britânicos, continuam driblando o tempo, se ocupando e se adaptando da melhor forma possível naquele aprazível lugar: Evelyn (Judi Dench) negocia com tecidos e o tímido Douglas (Bill Nighy) virou “guia” turístico; Madge (Celia Imrie) ainda testa a paciência dos seus amantes e o afortunado casal Norman (Ronald Pickup) e Carol (Diana Hardcastle) vive mais livre que nunca. Mas, sabe como é a vida, dependendo dos percalços do hoje, o amanhã pode ou não ser um outro dia.


O Exótico Hotel Marigold 2 (The Second Best Exotic Marigold Hotel, 2015), me pareceu tão bom quanto o filme anterior. Não apenas por manter o mesmo clima descontraído (que a nova geração jamais espera das mais velhas) e os diálogos irônicos (Algumas vezes a gente perde. Outras a gente aprende.) ou cínicos, que o notabilizaram..., mas por não estacionar na mesmice. A história não ficou esparramada em uma espreguiçadeira na cobertura ou no jardim do Exótico Marigold, ela seguiu em frente (de onde parou), com seu humor inglês ainda mais desconcertante (a aula sobre o preparo de uma “simples” xícara de chá é de rolar de rir, para quem toma chá e ou não precisa de sachê para mergulhar no humor inglês, evidentemente). Ainda que se perceba um desejo de clichê emotivo aqui ou acolá, o roteiro redondo não deixa pontas soltas. Assim, ninguém tropeça, já que cada personagem tem o seu enredo com começo, meio e fim satisfatoriamente resolvido.


Num tempo em que todo tipo de violência (cada vez mais) gratuita invade repetidamente as salas de cinema, num arremedo idiota dos telejornais que invadem os lares, pautados pela estética do quanto pior melhor, anestesiando o combo cinespectador/telespectador..., é um momento de puro deleite (com mel) apreciar esta charmosa obra onde os idosos são protagonistas de uma vida cheia de curiosas vivências e experiências singulares pra lá de possíveis no mundo real. E ainda que não fossem possíveis, valem como sugestão ou provocação! É claro que a veracidade dos ótimos diálogos deve muito à performance do excelente elenco e à narrativa despretensiosa, colorida e cativante que não privilegia ator algum. Todos têm o seu (bom) tempo em cena para agradar e seduzir o público com a sua mirabolante história paralela. Não é fácil escolher uma, ainda que boas sequências te façam balançar por esta ou por aquela.


Enfim, se há três anos gostou ou desejou ser hóspede do Exótico Hotel Marigold por um pouco mais de tempo no escurinho do cinema, aproveite bem a nova temporada ainda mais colorida, musical e graciosa. Você ainda pode se surpreender com a energia de velhos e novos conhecidos e com “inoportunos” comentários sobre a menopausa e o óbito.

Em 2015, com o bem-vindo retorno ao Exótico Hotel Marigold, a fala que fica, só não sei se como autoajuda, já que flui carregada da mais fina ironia (ou grosseria?) inglesa numa das melhores sequências, é: "Só porque eu estou olhando para você, enquanto fala, não significa que eu estou prestando atenção ."

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Crítica: Elsa & Fred


Será que na terceira idade todos os pecadilhos são perdoáveis? Ou será que quem já está com um pé na cova também merece um puxão de orelhas, ao menos? Histórias focando o cotidiano dos idosos, dificilmente têm meio termo, ou se ama ou se odeia seus excessos (melo)dramáticos e ou trágicos. Bem, a geriatria fora das telas também tem lá os seus percalços..., os seus momentos de humor e dor.

Elsa & Fred está de volta ao cinema nove anos depois. Mas não aderindo à moda da continuação franquiada..., e sim à mania americana de remakes. A comédia romântica, dirigida por Michael Radford, é a refilmagem da coprodução hispano-argentina Elsa y Fred (Elsa e Fred - Um Amor de Paixão, no Brasil), de Marcos Carnevale, e nos papéis que foram de China Zorrilla e Manuel Alexandre traz também dois renomados veteranos: Shirley MacLaine (Elsa) e Christopher Plummer (Fred).


A versão estadunidense transfere a ação de Madri/Espanha para New Orleans/EUA e acrescenta poucas (e descartáveis) novidades ao enredo original, que já não era dos mais criativos em 2005. Nessa “releitura” preguiçosa e pouco convincente, o espectador acompanha os novos vizinhos Elsa (MacLaine) e Fred (Plummer) numa balada-clichê de amor à vida e o de desejo de morte. Ela é uma velha alegre e cheia de histórias que vive cada momento a toda velocidade, como se não houvesse amanhã. Ele é um velho ranzinza e hipocondríaco que não faz questão alguma do amanhã. Elsa é traquinas, age como se fosse uma adolescente romântica e inconsequente. Fred é meticuloso, faz jus à idade. Ambos têm lá suas razões pelo modus vivendi. A ocasião os fez vizinhos..., agora, a sorte e ou o azar do que resultar da proximidade, é com eles.

Ao contrário dos americanos de cima, não sou muito fã de refilmagens. Não me lembro de uma que superasse o original. Vejo se desavisado. Elsa & Fred não foge à regra. O “novo” roteiro é convencional e o diretor de O Carteiro e o Poeta (1974) não parece muito empenhado em dar personalidade ao velho script. Radford praticamente (re)utiliza os mesmos diálogos e sequências (espelho) da película argentina, incluindo a referência ao La Dolce Vita (1960), de Fellini.


A narrativa segue superficial e apressada. Por causa da trama previsível (banalizada em versões para todas as idades), às vezes parece tão somente uma compilação de velhas gags..., com uma ou outra risível mais pelo ridículo da cena (inverossímil). Elsa continua falastrona, mas Fred, que era apenas um sujeito triste, meio sem chão com a morte da mulher “organizada”, na Argentina, tornou-se irascível, nos Estados Unidos. A comédia romântica (sem noção) virou um melodrama romântico (sem noção) com alguma gracinha e constrangimentos. Ou melhor, resultou numa história diminutiva: bonitinha, engraçadinha para velhinhos carentezinhos se sentirem amadinhos. Uma história cujo argumento já nasceu senil, muito aquém da excelência dos protagonistas MacLaine e Plummer que, assim como Zorrilla e Alexandre, é o fazem valer o tempo em sua companhia. 

Uma  outra opinião? Bom, quem não conhece a versão portenha, pode se agradar da adaptação americana..., ou vice-versa, desde que não seja muito exigente e não esteja nem aí para a lógica na terceira idade. 

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Crítica: Será Que?


Ultimamente a telona dos cinemas tem sido invadida por jovens adultos (ou quase), românticos e rebeldes (ou vice-versa), numa batalha insana para salvar o futuro do mundo (ou o mundo do futuro) das mãos de déspotas para todos os temores.

Mais pé no chão, no mundo contemporâneo, se desviando sem sucesso das flechadas de Eros, nos chegam o gracioso casal Wallace (Daniel Radcliffe) e Chantry (Zoe Kazan) perdidos de amor na agradável Toronto. Ele, um ex-estudante de medicina, tentando curar a mágoa do último relacionamento, a encontra numa festa, na casa do seu cínico e desbocado amigo Allan (Adam Driver)..., e se apaixona. Ela, uma desenhista de animação, está meio comprometida com o insosso diplomata Ben (Rafe Spall). Chantry lhe oferece apenas amizade. Será que Wallace aceita ser apenas um amigo da mulher que pode finalmente curar a sua dor de cotovelo que dura um ano?


Dirigido por Michael Dowse, a comédia romântica canadense Será Que? (What If e ou The F Word, 2014) fala de amizade e fidelidade (não necessariamente nesta ordem) num relacionamento amoroso. Até onde é possível viver um amor platônico nos dias de hoje, quando “ficar” é muito mais importante que “estar”? O roteiro de Elan Mastai, baseado na peça Toothpaste and Cigars (2003), de TJ Dawe e Michael Rinaldi, busca cumplicidade no público jovem que, se ainda não tem (?) a experiência de um amor não correspondido, deve conhecê-lo de algum romance literário ou do cinema. Também porque o público adulto sabe muito bem como termina essa aventura na vida real. Ainda que, em matéria de amor, sejamos todos amadores.


Excetuando as intermináveis “piadas” escatológicas, principalmente as relacionadas a Elvis Presley e o sanduíche Ouro de Tolo (com receita e tudo mais), Será Que? é um filme muito simpático. Tem bom ritmo, locações convidativas em Toronto e Dublin, e (importante!) a trilha não chega a incomodar. O elenco veste bem seus personagens metropolitanos e a química entre os charmosos Radcliffe e Kazan é uma delícia. A narrativa tenta algumas tiradas ousadas (adorei as interferências animadas e a boa dose de melancolia romântica), mas, infelizmente, acaba optando pelo lugar quase comum (e clichês de ocasião). Com seu argumento simples, mas bacana, não chega a subestimar a inteligência dos espectadores, no entanto, poderia ser menos óbvio. O encanto seria maior.

Ah, também achei interessante o jogo de palavras imantadas para criação poética. Ele me lembrou a Oficina de Poesia Aleatória que criei há 15 anos e continuo orientando para alfabetizandos e pós-graduandos..., sem me preocupar com o futuro despótico.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Crítica: Questão de Tempo


Na ficção literária e ou cinematográfica aprendemos que viajar no tempo pode ser tedioso ou desesperador, prazeroso ou devastador. Depende muito da intenção do viajante, ou de sua distração, como nos alerta (do Efeito Borboleta) o grande mestre e poeta da ficção científica Ray Bradbury no seu antológico conto Um Som de Trovão (já adaptado para o teatro, hq, cinema). Um dos meus filmes favoritos, atrelados ao tema, é A Mulher do Viajante do Tempo (The Time Traveler's Wife, 2009), de Robert Schwentke, que, por aqui, recebeu o ridículo título de Te Amarei Para Sempre..., e que, coincidentemente (?), é protagonizado também por Rachel McAdams.

Questão de Tempo (About Time, Reino Unido, 2013), dirigido por Richard Curtis, é uma simpática comédia romântica, com um pé na ficção científica e outra no positivismo (pós-Comte). O itinerário desta mais recente viagem no tempo, cujo viajante Tim Lake (Domhnall Gleeson) usa a memória (e o desejo!), em vez de artefato mecânico, leva ao amor e ao bem-estar da família e dos amigos. Aos 21 anos, surpreendido pelo seu pai (Bill Nighy) com a revelação de que é herdeiro natural do dom, Tim só tem um desejo: tirar proveito para arranjar uma namorada. Ele acaba “conhecendo”, às cegas, num outro tipo de viagem, a sua amada Mary (Rachel McAdams), mas vai precisar “correr” um bocado se quiser restaurar o tempo perdido e conquistá-la definitivamente. Como viajar no tempo é diferente da magia de uma varinha de condão, quando tenta ir além do combinado, mesmo que por boa causa, o custo da passagem é perturbador, já que nem toda estação é um recanto de felicidade eterna.


Questão de Tempo, com roteiro do próprio Curtis, é divertido e, em alguns momentos, de uma beleza arrebatadora, em meio a pieguice a que estão sujeitos todos os que amam alguém “in tutto il mondo”. Algumas sequências, como a da passagem do tempo do jovem casal, são muito bem resolvidas. É um filme extremamente romântico, com frescor juvenil (não necessariamente adolescente), bons diálogos, mas, por vezes, se atrapalha com o guarda-roupa (pegadinha da trama) e se arrasta com cenas descartáveis. O terceiro ato, mesmo com bons momentos, é quase claudicante. Ainda que com aura de comédia romântica (e suas armadilhas do amor e sexo), o que sobressai e envolve o espectador é a reflexão sobre a arte de atar laços e desatar nós de família e a simplicidade (?) com que Curtis soluciona o grande dilema da sua história: limites da viagem no tempo. 

O humor é o inglês (óbvio!), estranho, seco, irônico - piadas com a fonética sempre funcionam, lá. A divertida sequência “às cegas” me lembrou Woody Allen. No vai-e-vem narrativo, quem marca o seu espaço (entre os coadjuvantes) e rouba as cenas é Tom Hollander, hilário como dramaturgo mal humorado - o desabafo sobre a estreia da sua nova peça é impagável. Há uma química bacana entre Domhnall (Tim) e McAdams (Mary) e entre Nighy (pai) e Domhnall (filho). Para quem gosta de pop romântico, a trilha é propícia, mas pegajosa. Diversão descompromissada para fãs do tema viagem no tempo com uma pegada mais leve, mais romântica..., mais família.

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