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quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Crítica: Mamma Mia! Lá Vamos Nós de Novo


Mamma Mia! La Vamos Nós de Novo
por Joba Tridente*

Em tempos de exploração gratuita de violência explícita, nos meios de comunicação e de entretenimento (incluindo animações), nada melhor que uma boa comédia musical romântica, como a irresistível Mamma Mia! La Vamos Nós de Novo, roteirizada e dirigida por Ol Parker, para levantar o astral, reequilibrar as energias e botar um sorriso sincero nos lábios do espectador (cansado dos horrores cotidianos). Escapismo? Talvez? Mas, atualmente, se a gente não escapar de vez em quando, por algumas poucas horas que seja, enlouquece!


Mamma Mia! La Vamos Nós de Novo (Mamma Mia! Here We Go Again, 2018), continuação que faz jus ao inesquecível Mamma Mia de 2008, sempre no embalo dos compassos sonoros contagiantes do grupo sueco de musica pop ABBA (1972-1982 e anunciado retorno para 2019), conta duas boas histórias amorosas que se entrelaçam. Numa, em flashback, conhecemos as versões jovens da esfuziante Donna (Lily James), logo após a sua formatura em Oxford, em 1979, e o itinerário aventureiro e romântico que a levou à paradisíaca ilha grega Kalokairi; de suas maiores amigas Rosie (Alexa Davies) e Tanya (Jessica Keenan Wynn); e dos seus três complicados amores Harry (Hugh Skinner), Bill (Josh Dylan) e Sam (Jeremy Irvine), futuros candidatos a pai de Sophie (Amanda Seyfried). Noutra história, em 2005, enquanto o marido Sky (Dominic Cooper) estuda hotelaria em Nova York, a insegura Sophie prepara uma homenagem à sua mãe Donna (Meryl Streep), falecida há cinco anos, com a inauguração do Hotel Bella Donna, onde reencontraremos as versões bem mais velhas de seus três complicados pais Harry (Colin Firth), Bill (Stellan Skarsgård) e Sam (Pierce Brosnan) e das ansiosas amigas Rosie (Julie Walters) e Tanya (Christine Baranski). Ali, em Kalokairi, já não é surpresa ou spoiler, quem também chega para abrilhantar (mesmo!) a festa, é Cher, como Ruby, a avó ausente de Sophie, que fará um divertido dueto com Andy Garcia, o sedutor Señor Cienfuegos, na famosa Fernando. E, para arrematar tudo, numa sequência comovente, quem dá o ar da graça é a diva Meryl Streep...


É claro que a vida não é um musical onde tudo se resolve com uma canção ou uma dança, uma utopia ao alcance de qualquer um (até para quem não tem dotes de cantor ou de dançarino), mas bem que poderia ser (ou ter sido)..., não fosse o egoísmo, o egocentrismo, a ganância que submete a grande maioria do gênero humano ao capital que nos distingue como civilização (?) serviçal. Será por isso que muitos de nós inveja a liberdade dos animais não-humanos e dos silvícolas remanescentes e se apega tanto às fantasias de uma vida bucólica? Será que a tecnologia, em algum dia futuro, nos libertará do trabalho estafante que hoje nos aprisiona e nos devolverá uma vida de sonho onde a amizade vale mais que o dinheiro? Com o avanço da ciência, é uma antiga cogitação. Mas, o que fazer com os crédulos da Terra Plana?


Em Mamma Mia! La Vamos Nós de Novo, a vida é uma festa que não se deixa frustrar pela tempestade passageira que (sempre) traz a reboque a bonança. A receita é simples, beirando a ingenuidade, mas repleta de ingredientes clichês que poderia desandar facilmente em outras mãos. Não faltam as doces armadilhas dos amores jovens e as agridoces dos velhos amores que se atam e desatam nas tramas da vida que sempre podem deixar alguns fios soltos para os retardatários apaixonados, na visão generosa de Ol Parker, que também roteirizou os adoráveis O Exótico Hotel Marigold (2011) e O Exótico Hotel Marigold 2 (2015), com seus personagens idosos acertando contas amorosas com o passado e ou descobrindo novos amores.


É fácil gostar de Mamma Mia! La Vamos Nós de Novo, com suas duas boas histórias, sua trilha envolvente (ainda que por vezes alguma balada soe melancólica) com 18 canções do ABBA (I Have A Dream, com arranjo grego, ficou exuberante!), sua coreografia simplória e seus personagens bem escritos e admiravelmente interpretados por todo o elenco (sem exceção!). A comédia, de um romantismo gostoso (assim-assim meio piegas), tem direção segura e ágil de Parker, que demostra muita criatividade também nas excelentes transições de tempo e de cenários campestres, em sequências de bela plasticidade.


Assim, ainda que você não seja lá muito amante de musicais (porque do nada alguém começa a cantar e a dançar suas alegrias ou dores de amores), se, em vez de ficar se ocupando com a coerência ou a plausibilidade do roteiro (que não precisa ser original para ser bom, desde que bem escrito), se deixar levar pela narrativa totalmente descompromissada, feito os adoráveis personagens por seus sonhos, pode se surpreender se remexendo na cadeira, cantarolando alguma canção e decididamente apaixonado pelo filme...


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Crítica: The Post - A Guerra Secreta


The Post - A Guerra Secreta
por Joba Tridente*

Em um tempo em que fakes são cada vez mais news, criados por imbecis e grupelhos de “informação” em busca de publicidade (e grana fácil), em redes sociais, jornais e revistas (digitais, televisivos, impressos)..., é mais do que pertinente a fala do juiz do Supremo Tribunal dos EUA, Hugo Black, recorrendo à Primeira Emenda da Constituição norte-americana, quando do processo New York Times Co. v. Estados Unidos (1971), por causa da publicação de trechos de um dossiê secreto, desvelando as reais intenções do país na Guerra do Vietnã: “A imprensa deve servir aos governados e não aos governantes”. A afirmação de Black, que você pode ler na íntegra aqui e ou aqui, está presente em The Post - A Guerra Secreta, o novo filme de Steven Spielberg.


The Post - A Guerra Secreta (The Post, EUA, 2017) é um docudrama, com essência de thriller jornalístico, sobre a liberdade de imprensa nos anos 1970 e o seu reflexo nas décadas posteriores. Os eventos do fascinante enredo se passam em 1971, no governo de Nixon (que aparece apenas de costas - suas falas seriam gravações originais), quando o jornal local Washington Post, de propriedade de Katharine 'Kay' Graham (Meryl Streep), a primeira editora de jornal feminino da América, e o editor-chefe Ben Bradlee (Tom Hanks) veem a oportunidade de ganhar mercado e notoriedade com a publicação de um dossiê confidencial norte-americano, relacionado às ações do EUA no Vietnã (1961-1973), depois que o New York Times foi proibido de dar continuidade à sua série de artigos sobre o tema que comprometia os presidentes norte-americanos John Kennedy (1917-1963), Lyndon Johnson (1908-1973) e Richard Nixon (1913-1994) e o Secretário de Defesa dos EUA (1961-1968) Bob McNamara (1916-2009), pois, segundo Nixon, punha em xeque a credibilidade norte-americana (para o resto do mundo).

A trama histórica acompanha os dias tensos que precederam o julgamento da ação contra o New York Times, quando jornalistas, redatores, conselho editorial e advogados do Washington Post, discutem se o jornal tem ou não o direito (segundo a Primeira Emenda Constitucional dos EUA) de publicar novos fatos do dossiê confidencial (de interesse público), colhido da mesma fonte do NYT, e as consequências da publicação: ameaça de prisão, processo, descrédito dos acionistas...


Escrito por Josh Singer (o co-roteirista do excelente Spotlight) e Elizabeth Hannah, o roteiro de The Post - A Guerra Secreta, sobre a liberdade de imprensa e jornalismo investigativo setentista, pode até parecer datado, com o crescimento dos “urgentes” web-jornais, em detrimento dos jornais impressos (e mesmo televisivos)..., mas o assunto continua relevante, já que, indiferente à plataforma midiática, por falta de critérios (ou seria de ética?), a maioria dos veículos de comunicação abusa de notícias sensacionalistas (de ocasião!) em benefício de governos, de políticos e do capitalismo selvagem. No papel, na tv ou na internet, como vimos recentemente em O Abutre (2014), a notícia, a cada dia mais emburrecedora, serve tão somente a quem paga mais por sua veiculação...

Confesso que nunca fui fã dos dramalhões piegas de Steven Spielberg (raramente os vejo), prefiro-o nas divertidas fantasias de ação e aventura, do que em produções ao estilo de Ponte dos Espiões. No entanto, assim como em Lincoln (2012), ele me pareceu mais comedido (em pieguice) e seguro em The Post - A Guerra Secreta, que começa claudicante - pois o assunto é meio confuso até para quem não é estadunidense - e depois engata e cresce intensificando o clima de thriller. Há uma escorregadela aqui e outra acolá (repare nos cartazes de cinema na parede) na composição cênica, mas nada que influa no excelente desenvolvimento narrativo que traz um elenco afinadíssimo (Streep e Hanks magníficos), bela fotografia e notável reconstituição de época e de costumes da machista sociedade norte-americana.


Enfim, considerando o suspense (ainda que se conheça o final do caso The Pentagon Papers); a nostalgia das redações físicas e do aparelhamento de impressão gráfica; a oportuna referência ao escândalo político Watergate (lido e visto em Todos Os Homens do Presidente), ocorrido dois anos após este relato; o interesse histórico, mesmo para quem não está (?) familiarizado com o assunto Vietnã e Liberdade de Imprensa (no mundo) e o puxão de orelhas em quem brinca de jornalismo contemporâneo, futilizando a informação séria e enaltecendo a descartável..., The Post - A Guerra Secreta é um ótimo programa para quem espera que a imprensa realmente sirva aos governados e não aos governantes, neste Brasil maculado por políticos corruptos e mídia conivente e noutros países idem.


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Crítica: Caminhos da Floresta


Há algumas décadas os contos clássicos dos “pais” da literatura “para” crianças Charles Perrault (1628-1703), Jacob Grimm (1785-1863), Wilhelm Grimm (1786-1859) e Hans Christian Andersen (1805-1875) vêm despertando interesse de estudiosos e ganhando novas leituras e ou devolvendo histórias à sua origem, digamos, mais macabras. Em 2002 a DC Comics/Vertigo começou a publicar o sensacional título Fables (Fábulas), que traz os mais famosos personagens dos Contos de Fadas vivendo clandestinamente na Nova York dos dias de hoje. Em 2011 a hq acabou inspirando a série televisiva Once Upon a Time (Era Uma Vez). No entanto, bem antes das duas releituras, Stephen Sondheim e James Lapine escreveram o libreto do musical Into the Wood (Caminhos da Floresta), que junta num mesmo conto, entre outros, Bruxa, Chapeuzinho Vermelho e o Lobo, João (e o Pé de Feijão), Cinderela e Rapunzel. O espetáculo teatral, que estreou no Old Globe Theatre (San Diego) em 1986 e na Broadway (Nova York) em 1987, após várias remontagens de sucesso, “ganha” a sua versão cinematográfica.


Caminhos da Floresta (Into the Wood, EUA, 2014), dirigido por Rob Marshall, é um drama musical romântico com pitadas de humor e de horror. Observando a mesma estrutura do teatro, em seu primeiro ato os Caminhos da Floresta são iluminados pelos desejos: a Bruxa (Meryl Streep) quer recuperar a beleza; o Padeiro (James Corden) e sua Mulher (Emily Blunt) querem um filho; Chapeuzinho Vermelho (Lilla Crawford) quer chegar são e salva do Lobo (Johnny Depp) à casa da vovó; João (Daniel Huttlestone) quer seguir os conselhos da mãe (Tracey Ullman) e vender a vaca por um bom preço; Cinderella (Anna Kendrick) e Rapunzel (Mackenzie Mauzy) querem encontrar seus Príncipes (Chris Pine e Billy Magnussen).


Em seu segundo ato, os Caminhos da Floresta são assombrados pelo (alto) preço que os personagem devem pagar pela realização de seus desejos, pois, nem mesmo no Reino da Fantasia os desejos são de graça. Podem ser gratuitos, mas nunca de graça. O preço? A consciência de cada um em cada passo (mal?) dado na trilha da vida vulgar em busca de felicidade (que diz um ditado: não se compra!)..., assunto discutido com maestria no antológico romance de ficção científica Um Estranho Numa Terra Estranha (1961), de Robert A. Heilein. As questões morais (infidelidade, egoísmo, vaidade, insegurança, roubo, assassinato) que afligem os nossos velhos conhecidos também incomodam o espectador (O que você faria?). É a dialética da oposição (moral e imoral, luz e sombra) fazendo eco e sinalizando que talvez a Disney não seja tão irredutível assim.


Quase todo mundo sabe como terminam os Contos da Carochinha..., ou pensa que sabe, ao menos na imaginação, o que aconteceu a cada personagens após o Felizes para Sempre. Há algumas paródias divertidas (pela web, inclusive) em prosa, hqs e animações, sobre o depois do Final Feliz nos Contos de Fadas. Todavia, ainda que tenha uma sequência hilária (deliciosamente brega) com os Príncipes (Pine e Magnussen) cantando Agony, em uma cachoeira, Caminhos da Floresta está longe de ser considerado sátira. Também porque o seu conteúdo ainda guarda resquícios da época (de muitas máscaras de moralidade) em que foi criado o espetáculos teatral.


A adaptação de Caminhos da Floresta ficou por conta de James Lapine (um dos autores do libreto) e, em meio à polêmica puritana do corta não corta cenas da Mulher do Padeiro e do Lobo e Chapeuzinho Vermelho, só o destino de Rapunzel foi mudado. Só pra registrar: a alegada “falta de decoro” das personagens são ridículas se comparadas às novelas brasileiras (da tarde) e séries animadas televisivas. Evidentemente não é a versão definitiva sobre o futuro dos habitantes do Mundo do Faz de Conta, mas é, no mínimo, curiosa, com seu círculo vicioso, suas intrigantes metáforas e passagens (incorretas?) que devem deixar os mais puristas com a pulga atrás da orelha ao ouvir tiradas espirituosas, como a do Príncipe da Cinderela: “Fui criado para ser sedutor e não para ser sincero”.


Rob Marshall, que esteve ótimo na direção de Chicago e (a mim) decepcionou em Nine, embarca com vontade no enredo “fantasia”, costurando satisfatoriamente três universos diferentes: teatro, cinema e livro ilustrado, com excelentes soluções cênicas e bons efeitos especiais. Ainda que não tenha nenhuma música grudenta ou assobiável, Caminhos da Floresta tem composições surpreendentes. O elenco é bacana e dá conta do recado. Não espere grandes vozes (operísticas)..., estas são mais modestas, tipo gente comum (feito os personagens) cantando. O que não quer dizer que não arrebatem o espectador.

Enfim, vale ressaltar que Caminhos da Floresta é um filme para quem aprecia o Universo Fantástico, com suas histórias míticas, repletas de simbolismo infantil e adulto, mas que goste também de musical

domingo, 7 de setembro de 2014

Crítica: O Doador de Memórias


Quando do lançamento cinematográfico de Divergente (2014), de Neil Burger, baseado na trilogia homônima (2011/2013) da escritora Veronica Roth, escrevi: “Utopia distópica e ou distopia utópica é um assunto perturbador e recorrente na ficção científica. Quando bem desenvolvido, na literatura ou no cinema, pode resultar em acalorada e reflexiva discussão. No entanto, parece que os novos autores não querem saber de lição de casa: ler ou ver os mestres do gênero que trataram do tema. Como o passado não parece ser de interesse de quem projeta literariamente ou cinematograficamente o futuro, e o leitor ou espectador infantojuvenil está mais interessado na aventura romanceada no caos do que na reflexão do caos..., o que vier é lucro para editores e produtores.” 

Falava da nova onda de filmes que trata superficialmente do assunto (distopia) numa linguagem juvenil, e que já havia trazido o blockbuster Jogos Vorazes (2012), de Gary Toss, baseado na trilogia homônima (2008/2010) de Suzanne Collins. Até então não conhecia O Doador de Memórias, o premiado livro de Lois Lowry, lançado em 1993, que certamente serviu de referência para os best-sellers posteriores das outras duas autoras. Desde o seu lançamento, o ator Jeff Bridges tentou em vão adaptá-lo para o cinema, reservando para seu pai Lloyd Bridges (1913-1998), o papel do Doador, que agora lhe coube. O que explica, mas não justifica totalmente, porque a versão dirigida por Phillip Noyce, que chega aos cinemas vinte anos depois, tem um ar meio de história já vista.


É impossível não se lembrar de Divergente (que escrito depois chegou antes ao cinema), e ou ficar alheio aos resquícios de obras anteriores, na literatura: Admirável Mundo Novo (1932), Aldous Huxley, 1984 (1949) de George Orwell, Fahrenheit 451 (1953), de Ray Bradbury..., e no cinema: THX 1138 (1971), de George Lucas, e Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (2004), de Charlie Kaufman/Michel Gondry. Sequências mais lúdicas podem também remeter ao “Rosebud” de Cidadão Kane (1941), de Orson Welles e ao “vermelho” de Pleasantville (A Vida em Preto e Branco, 1998), de Gary Ross.

Toda via distópica tem a mesma raiz: controle de distúrbios. Lenga-lenga de todo déspota que, em troca de sua magnânima proteção e do nirvana, anula (esteriliza) o cidadão, suprimindo as suas necessidades (sociais) básicas. O equilíbrio compulsório (individual e coletivo), a harmonia forçada, como a minoria (rebelde) sabe, dura até o primeiro chute no calcanhar. O que nem sempre satisfaz a turba mentecapta acomodada ao jugo. Como a que habita a Comunidade, um agrupamento de “pessoas” (sobreviventes de um conflito global) localizado num platô (?), cuja fronteira é o vazio e um vislumbre de Alhures.


Ali, sob o comando da (holográfica) Anciã-Chefe (Meryl Streep), para não se repetir os erros do passado, proíbe-se o passado. Ou melhor, proíbe-se toda e qualquer lembrança do passado existente até o “surgimento” da estéril Comunidade, onde humanos e vegetais vegetam impassíveis, sem a presença de animais (irracionais!) para perturbar a ordem emocional. O único vislumbre da vida anterior na Terra é acessível apenas ao velho Doador de Memórias (Jeff Bridges) e ao seu aprendiz Jonas (Brenton Thwaites), um adolescente de 16 anos que tem a Capacidade de Ver Além e que, ao conhecer o que está oculto no admirável mundo novo da Comunidade, passa a questionar o porquê das proibições impostas pelo Comitê de Anciãos etc....

Como O Doador de Memórias me pareceu, por vezes, aborrecido, com seu roteiro um tanto simplório e sem muita convicção, decidi conferir o premiado livro. O drama literário (superior à versão cinematográfica!) é breve, de fácil leitura, e tem alguma originalidade no relato tão absurdo quanto reflexivo de uma população que (num futuro indistinto) opta literalmente por uma vida em preto e branco: (...) Houve um tempo, aliás, em que a pele tinha muitas cores diferentes. (...). Hoje em dia a pele de todos é a mesma... (...) Nosso povo fez essa opção... (...) Antes do meu tempo, antes do tempo anterior ao meu, muito tempo atrás. Desistimos das cores quando desistimos do sol e acabamos com as diferenças. (...) Adquirimos controle sobre muitas coisas. Mas tivemos de abrir mão de outras.” Só não é dito como conseguiram tal (e)feito (psicológico?) de anular a cor da pele e de tudo mais, de dessensibilizar a população e de controlar o tempo (sempre ameno), além de “apagar” o sol, a lua, as estrelas e mesmo assim “usufruir” do dia e da noite. 


Assim como no livro, boa parte da narrativa é filmada em preto e branco (com nuances de cinza e sépia e, às vezes, uma corzinha vazada). A cor, por vezes saturada, aparece no despertar das memórias para Jonas e, claro (coisa que nunca entendi!), duplamente para o espectador. Quem tiver bons olhos verá outras infiltrações. A ideia de que, para se evitar o racismo (e outros “ismos”), o Comitê de Anciãos optou pela eugenia ariana (nazista?), apostando em uma sociedade formada só por gente de cor branca (geneticamente alterada) é curiosa. Mas, o que poderia dar pano pra muita manga, não se sustém na sua bizarrice, Faltam contrapontos para aprofundar uma saudável e colorida discussão étnica e ética. Como dizia o bordão de um velho programa televisivo no Brasil: Porque sim não é resposta!

Contradições e ou controvérsias à parte (nas duas obras), fragmentos de documentários e de noticiários inseridos na trama enriquecem a leitura cinematográfica..., mas suscita outro questionamento: por que as antiquíssimas memórias do Doador não vão além de um século atrás, se ele detém toda a memória do mundo? Será por conta da memória curta do público-alvo juvenil? Será também por causa desse espectador jovem que os roteiristas Robert Weide e Michael Mitnick fizeram uma adaptação equivocada do livro de Lowry, transformando uma novela seca e reflexiva (protagonizada por um inocente garoto de 12 anos) em um (insípido) melodrama (protagonizado por um romântico garoto de 16 anos)? Parece que sim e, como sempre no plano das releituras, mudanças piegas desnecessárias.


O Doador de Memórias (The Giver, EUA, 2014), com mais diferenças do que pontos em comum com o livro, é irregular, mas não é de todo descartável. Além do bom elenco, tem lá seus momentos de interesse e belas sequências (eu dispensaria os valores religiosos em ambos). É evidente que filmado tal e qual seria muito melhor. Mas aí resultaria em um cinema mais independente e possivelmente (?) menos comercial (?). Se servir de consolo, um adulto que não conseguir pegar carona na história pode divagar nas metáforas e ou analogias (conscientes?): da maçã; da árvore em Alhures; do vazio; do Gabriel, do Jonas, do preto e branco... Ah, nem é preciso dizer porque o onipresente Morgan Freeman não está no elenco, não é?

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Crítica: Julie e Julia


Julie e Julia
o prazer de comer e de amar

Penso que Deus deve ter sido um artista brincalhão para inventar coisas tão incríveis para se comer. Penso mais: que ele foi gracioso. Deu-nos as coisas incompletas, cruas. Deixou-nos o prazer de inventar a culinária.”, diz o mestre Rubem Alves, em Festa de Babete, artigo escrito para o Correio Popular de Campinas (SP).

Maravilhoso! É o mínimo que se pode dizer de Julie e Julia (Julie & Julia, EUA, 2009), filme escrito e dirigido por Nora Ephron e estreladíssimo por Meryl Streep e Amy Adams. O cinema já serviu de veículo pra muito deleite gastronômico. Um dos filmes mais famosos é o magistral dinamarquês A Festa de Babete (Babettes Gaestebud/1987), dirigido por Gabriel Axel, e um dos mais divertidos é a animação Ratatouille (Ratatouille, EUA/2007) dirigida por Brad Bird. Mas Julia e Julie tem um sabor diferente, que não está apenas na comida.

Julia e Julie são dois filmes em um. Duas histórias ligadas por uma terceira. A de Julia Child é baseada no livro My Life in France, a de Julie Powell é baseada no livro Julie & Julia e o ponto de liga é o livro Mastering the Art of French Cooking (Dominando a Arte da Cozinha Francesa), de Julia Child, Simone Beck e Louisette Bertholle. Complicado? Que nada, é muito divertido.

A história da norte-americana Julia Child (Meryl Streep) começa em 1948, quando se muda com o marido Paul Child (Stanley Tucci), que é adido cultural da embaixada americana, para Paris, na França. Ali ela descobre as delícias da cozinha francesa e, não satisfeita em degustar, resolve aprender a cozinhar, sendo a primeira americana a cursar a famosa escola de gastronomia francesa, Le Cordon Bleu. Num tempo em que a mulher era praticamente apenas dona de casa e geradora de filhos, Julia (que não podia ter filhos) queria ir além, tentou vários cursos para preencher o seu tempo até se decidir pela culinária, sempre apoiada pelo apaixonado marido Paul.

A história de Julie Powell (Amy Adams) começa em 2002, logo depois de se mudar do Brooklin para o Queens, nos EUA. Ela está com quase 30 anos, trabalha numa repartição pública, mais para ocupar o tempo do que por prazer, enquanto suas “amigas” são grandes executivas. Decidida a dar um rumo melhor à sua vida, por sugestão do apaixonado marido Eric Powell (Chris Messina), ela cria o blog Julie/Julia Project em que desafia a si mesma a cozinhar, em um ano, as 524 receitas do livro Mastering the Art of French Cooking, e dividir a deliciosa e nem sempre fácil experiência com os leitores.

As histórias de Julia (de época) e Julie (contemporânea) correm paralelas, apesar da distância de 50 anos, movidas pela paixão culinária e pelo companheirismo. Cada uma a seu tempo e, às vezes espelho, aguçam a curiosidade do espectador que se diverte com as aventuras culinárias de Julia (na França) e torce por Julie (no Queens) na sua cozinha mínima onde mal cabem um fogão, uma pia e uma geladeira. O excelente roteiro, que casa perfeitamente as histórias, com um texto espontâneo e tiradas inteligentes, não privilegia atores, mas é impossível ignorar uma Meryl (de 1,70m) no corpo de Julia Child (de 1,90m) ou o mesmo o competente Stanley Tucci. Mas se Streep se agiganta ao incorporar uma típica norte-americana cheia de vida, garra, espalhafatosamente contida, amigável, feliz, com a competência de sempre e mais um pouco, Amy Adams também se sai bem ao dar uma cara jovial e verossímil à sua empreendedora Julie Powell.

Julia e Julie fala do prazer de uma boa mesa e também do prazer de uma boa cama, de uma boa companhia, de uma boa cultura e principalmente da busca e realização pessoal. Toca em questões políticas e sociais do pós-guerra (na Europa) e pós-atentados (nos EUA), sem ser maçante ou perder o foco do assunto-tema. É escrito, dirigido e protagonizado por mulheres, mas não é algo “de mulher pra mulher”, ou um filminho feminininho e bobinho de amores impossíveis com final feliz. Julia e Julie é pra todos os sexos que apreciam um bom cardápio e uma ótima comédia sem escorregões, trombadas e piadas escatológicas. Com belas locações na França e em estúdios dos EUA, é um filme pra homem nenhum botar defeito, principalmente os que adoram cozinhar. Ah, é recomendável fazer um lanche antes da sessão, pra não ficar com fome durante a projeção.
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