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quinta-feira, 10 de maio de 2018

Crítica: A Noite do Jogo


A Noite do Jogo
por Joba Tridente

O cinema é feito de grandes e pequenos prazeres..., e também de prazer nenhum. E nem sempre é questão de estado de espírito durante a sessão. Tem mesmo a ver com argumento, roteiro, elenco e direção, que somente em mãos certas são eficazes. Como é o caso da sensacional comédia A Noite do Jogo (Game Night, 2018).


A Noite do Jogo é uma deliciosa surpresa de qualidade cada vez mais rara no entretenimento humorístico hollywoodiano. A comédia adulta e excêntrica, protagonizada por um elenco notável, ótimo roteiro de Mark Perez e brilhante direção da dupla John Francis Daley e Jonathan Goldstein, gira ao redor de um grupo de amigos que semanalmente se encontra para se divertir com jogos de tabuleiro e também comer salgadinhos, bebericar e jogar conversa fora. 

No entanto, a noitada tranquila..., que sempre acontece na casa do romântico casal Max (Jason Bateman) e Annie (Rachel McAdams), para onde se dirigem Kevin (Lamorne Morris) e Michelle (Kylie Bunbury), também casados, e o tolo Ryan (Billy Magnussen) com suas namoradas, ocasião em que o estranho vizinho policial Gary (Jesse Plemons) é propositadamente esquecido..., está prestes a mudar, com a chegada de Brooks (Kyle Chandler), o irmão mais bonito, mais empreendedor e mais bem sucedido de Max, propondo um jogo inédito valendo o seu belo Corvette Stingray. A proposta de Brook é simular o sequestro de um dos participantes, deixando pistas pela casa. Porém, assim que ele acontece, a confusão está armada, já que nem tudo é o que parece, tanto para os personagens quanto para o espectador, nessa trama inteligente e hilária envolvendo máfia, bandidos, policiais, atores e pessoas comuns se divertindo em busca de um prêmio. (Não assista ao trailer!!!)


É bom lembrar que, com sua bem dosada mistura de comédia de erros com thriller, excelente ritmo e ação alucinada (na maior parte) pastelão, A Noite do Jogo tem nada a ver com o também divertido Jumanji: Bem-vindo à selva e ou o enfadonho Jogador nº.1. A sua plataforma é de outro nível. A sua pegada é mais adulta e bem mais ousada, ao brincar de brincar com a metalinguagem cinematográfica, fazendo inesquecíveis citações de atores, personagens e cenas de filmes de ação e violência. E mais, além de não subestimar a inteligência do espectador, a sua trama perspicaz consegue a proeza de iludir o público (sobre o que é real ou falso) até o final da narrativa. (Não assista ao trailer!!!)


Despretensiosa e instigante, A Noite do Jogo, com suas histórias entranhadas umas nas outras, é uma comédia de erros que funciona não apenas pela engenhosidade do roteiro, mas por envolver prazerosamente o espectador em uma trama irretocável.., até mesmo a cenografia é um trunfo. Fazia um bom tempo que eu não ria tanto. O seu humor é genuíno e para todos os gostos: humor negro, humor bobo, humor chulo, humor pastelão, gags visuais geniais..., com sequências antológicas (de chorar de rir), como a da extração de uma bala.  (Não assista ao trailer!!!)


Enfim, quanto menos você souber do surpreendente enredo, maior a será a sua satisfação e muito mais intensa a sua imersão nessa história maluca e cheia de reviravoltas até a sequência final que acompanha os créditos. O elenco, que inclui Sharon Horgan, na pele de Sarah, a acompanhante da vez de Ryan, está afinadíssimo e pra lá de descontraído. Cada ator/personagem tem o seu tempo de brilho na tela, mas quem rouba todas as cenas é Jesse Plemons. Se gosta de uma comédia astuciosa e realmente engraçada, não perca. Ah, e o mais importante: Não assista ao trailer!!!



*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Crítica: Spotligh - Segredos Revelados


Que a liberdade de imprensa anda fragilizada e ou questionada em muitas partes do mundo, não é novidade. Que há muito ela está deixando de lado a imparcialidade, também. O seu humor caminha próximo ao das nada confiáveis redes sociais, onde o amor e o ódio, entre “amigos”, variam conforme o nível de apoio e de contestação. A mídia imprensa mingua. A mídia televisiva perde a consistência em meio ao mercado sensacionalista de produtos desgastáveis ou descartáveis. A notícia impressa, falada, vista de manhã, já pode ser outra à tarde..., embora seja sobre o mesmo assunto. É só uma questão de repercussão e retorno (capital?).

Houve um tempo em que o jornalismo investigativo era bem mais confiável e comprometido (com a verdade) que hoje. Conheci jornalistas que “morreram” em serviço. No entanto, conforme o foco, a imprensa ainda é uma pedra incômoda para muita gente (sub)mundo afora. Spotligh - Segredos Revelados, de Tom McCarthy, diretor dos excelentes O Agente da Estação (2003) e O Visitante (2008) e roteirista da animação UP (2009), é daqueles filmes que, ao pautar o bom jornalismo (em vias de extinção?), prestam um grande serviço à memoria do espectador..., além de servir de inspiração aos futuros jornalistas, mesmo que a plataforma futura seja outra.

Pedofilia Católica não é assunto novo no cinema. Recentemente, o documentarista norte-americano Alex Gibney chocou o “mundo dos inocentes” com o seu explosivo Minha Máxima Culpa: Silêncio na Casa de Deus (2012), um mergulho na vida do velhaco sacerdote Lawrence Murphy, que abusava de meninos com deficiência auditiva. Este, infelizmente não é um assunto esgotado, mas, na mídia certa, pode alcançar o alvo e o seu redor.


Como dizer não a Deus?

Spotligh - Segredos Revelados (Spotlight, 2015) é um magnífico registro da cobertura jornalística dos abusos sexuais praticados por padres católicos, em Boston (EUA), realizada pela equipe Spotlight, do The Boston Globe, em 2001/2002. A matéria impressa ganhou repercussão internacional, abalou a cúpula da Igreja Católica Romana, e a equipe recebeu o Prêmio Pulitzer Prize de Serviço Público, em 2003.

Não fosse o pedido do novo editor do Globe, Marty Baron (Liev Schreiber), para os jornalistas aprofundarem a denúncia publicada numa coluna, sobre um padre local que, há 30 anos, abusava sexualmente de crianças da sua paróquia, talvez o spot nem tivesse sido acesso, e aquela cidade jamais viria saber que não era apenas um “santo” padre, mas setenta, os lobos sedentos em batina de cordeiro. Judeu, vindo de Miami e sem vínculos com a “cega” comunidade católica, Marty não temia o “olhar” de reprovação nem das autoridades eclesiásticas, como o Cardeal Law (Len Cariou), para tocar no assunto escabroso. O que foi fundamental para garantir o sucesso da sagrada investigação.


O roteiro enxuto, escrito pelo próprio McCarthy, em parceria com Josh Singer, é direto: denúncia, levantamento de dados, publicação do artigo. Sem romances, dramas familiares e nem histórias paralelas. Coisa alguma desvia a atenção da cativante narrativa que refaz o itinerário dos jornalistas na apuração dos fatos, com um elenco de primeira. Entre o briefing (de Marty) e o deadline (do artigo) há uma prestativa equipe, formada pelo editor da Spotlight, Walter “Robby” Robinson (Michael Keaton), os repórteres Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams), Michael Rezendes (Mark Ruffalo) e o pesquisador, Matt Carroll (Brian d’Arcy James)..., que  não pode perder o foco. E não perde. Em busca da verdade, por mais chocante e dolorosa que seja, vasculha bibliotecas, arquivos públicos, ouve vítimas e seus advogados, como o incansável Mitchell Garabedian (Stanley Tucci).

Spotligh - Segredos Revelados fala de crimes de confessionário, de sacristia, de altar, com a mesma convicção que fala da prática do bom (e velho?) jornalismo. Num drama comprometido tão somente com os fatos, em que os roteiristas ouviram tanto os protagonistas da história real quanto os coadjuvantes desse infortúnio, a produção não poderia ser menos que irretocável. Com direção dinâmica, que aguça os sentidos, Tom McCarthy deve despertar em muitos espectadores uma admiração maior pelo jornalismo real, sem glamour e de muita ralação, que está perdendo espaço para o jornalismo praticado por “estrelas” da comunicação, cuja informação é menos, muito menos importante que ele, todo poderoso mercador de notícias do 4º Poder.


Sem apelar ao sensacionalismo ou dar chances ao clichê linchador, na exposição da hipocrisia “religiosa”, diante de fatos deprimentes, Spotligh se desenvolve na linha do tempo do bom senso. Em vez de reconstituir cenas de abusos sexuais (afinal este não é um filme para pedófilos voyeurs), McCarthy opta pelos depoimentos pungentes das vítimas traumatizadas. Um depoimento em especial, dado por um padre, tão carrasco quanto vítima, é de virar o estômago.

Spotligh - Segredos Revelados não subestima a inteligência de nenhum espectador pensante, mas deve colocar em xeque a fé cega de muitos religiosos cristãos que confundem as mensagens do seu mestre Cristo com a prática secular e nada cristã dos seus poderosos “representantes”. Um filme para ser ver, discutir em todas as comunidades (religiosas ou não) e exibir principalmente em cursos de jornalismo. Para quem aprecia o melhor do cinema, uma excelente sessão e ótima reflexão. Amém!



Resumos de Dados da Spotlight/The Globe

• Em 2002, a equipe Spotlight publicou quase 600 artigos sobre abusos sexuais por parte de mais de 70 sacerdotes, cujos atos foram ocultados pela Igreja Católica.
• Em dezembro de 2002, o cardeal Law renunciou ao posto na arquidiocese de Boston e foi transferido à Basílica de Santa Maria Maggiore, em Roma.
• 249 sacerdotes foram acusados publicamente de abusos sexuais na arquidiocese de Boston.*
• Até o ano de 2008, 1.476 vítimas tinham sobrevivido a abusos de sacerdotes na área de Boston.*
• Em todo os Estados Unidos, 6.427 sacerdotes foram acusados de abusar sexualmente de 17.259 vítimas.*
• Nos anos transcorridos desde a reportagem da Spotlight, foram descobertos casos de abuso sexual por parte de sacerdotes da Igreja Católica em 105 cidades norte-americanas e 102 dioceses de todo o mundo.*


*Fonte: www.bishop-accountability.org, um banco de dados compilado por Terry McKiernan.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Crítica: Questão de Tempo


Na ficção literária e ou cinematográfica aprendemos que viajar no tempo pode ser tedioso ou desesperador, prazeroso ou devastador. Depende muito da intenção do viajante, ou de sua distração, como nos alerta (do Efeito Borboleta) o grande mestre e poeta da ficção científica Ray Bradbury no seu antológico conto Um Som de Trovão (já adaptado para o teatro, hq, cinema). Um dos meus filmes favoritos, atrelados ao tema, é A Mulher do Viajante do Tempo (The Time Traveler's Wife, 2009), de Robert Schwentke, que, por aqui, recebeu o ridículo título de Te Amarei Para Sempre..., e que, coincidentemente (?), é protagonizado também por Rachel McAdams.

Questão de Tempo (About Time, Reino Unido, 2013), dirigido por Richard Curtis, é uma simpática comédia romântica, com um pé na ficção científica e outra no positivismo (pós-Comte). O itinerário desta mais recente viagem no tempo, cujo viajante Tim Lake (Domhnall Gleeson) usa a memória (e o desejo!), em vez de artefato mecânico, leva ao amor e ao bem-estar da família e dos amigos. Aos 21 anos, surpreendido pelo seu pai (Bill Nighy) com a revelação de que é herdeiro natural do dom, Tim só tem um desejo: tirar proveito para arranjar uma namorada. Ele acaba “conhecendo”, às cegas, num outro tipo de viagem, a sua amada Mary (Rachel McAdams), mas vai precisar “correr” um bocado se quiser restaurar o tempo perdido e conquistá-la definitivamente. Como viajar no tempo é diferente da magia de uma varinha de condão, quando tenta ir além do combinado, mesmo que por boa causa, o custo da passagem é perturbador, já que nem toda estação é um recanto de felicidade eterna.


Questão de Tempo, com roteiro do próprio Curtis, é divertido e, em alguns momentos, de uma beleza arrebatadora, em meio a pieguice a que estão sujeitos todos os que amam alguém “in tutto il mondo”. Algumas sequências, como a da passagem do tempo do jovem casal, são muito bem resolvidas. É um filme extremamente romântico, com frescor juvenil (não necessariamente adolescente), bons diálogos, mas, por vezes, se atrapalha com o guarda-roupa (pegadinha da trama) e se arrasta com cenas descartáveis. O terceiro ato, mesmo com bons momentos, é quase claudicante. Ainda que com aura de comédia romântica (e suas armadilhas do amor e sexo), o que sobressai e envolve o espectador é a reflexão sobre a arte de atar laços e desatar nós de família e a simplicidade (?) com que Curtis soluciona o grande dilema da sua história: limites da viagem no tempo. 

O humor é o inglês (óbvio!), estranho, seco, irônico - piadas com a fonética sempre funcionam, lá. A divertida sequência “às cegas” me lembrou Woody Allen. No vai-e-vem narrativo, quem marca o seu espaço (entre os coadjuvantes) e rouba as cenas é Tom Hollander, hilário como dramaturgo mal humorado - o desabafo sobre a estreia da sua nova peça é impagável. Há uma química bacana entre Domhnall (Tim) e McAdams (Mary) e entre Nighy (pai) e Domhnall (filho). Para quem gosta de pop romântico, a trilha é propícia, mas pegajosa. Diversão descompromissada para fãs do tema viagem no tempo com uma pegada mais leve, mais romântica..., mais família.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Crítica: Para Sempre



Todo mundo sabe que Hollywood adora levar para as telas dramáticas histórias baseadas em fatos reais. Ela não desiste, mesmo com resultados pouco animadores. Ultimamente, talvez para parecer menos comprometida com as fontes, no tom das adaptações ou das versões, o “baseado” virou “inspirado”. O que não faz diferença para o (influenciável) público-fã de “histórias verídicas” que nunca sabe dizer se gostou do filme, por ser baseado em fatos reais, e ou se não gostou, por achar que a vida real não é assim tão cheia de clichês. No entanto, por mais que alguém negue, o mundo humano é abarrotado de clichês, de pieguices, de breguices, principalmente na intimidade do lar e ou, no mínimo, quando fulanos e beltranos se amam ou se odeiam. O problema do clichê (no cinema e outras artes) é o mau uso..., o abuso da fórmula pronta para manipular emoções de “frágeis” espectadores. Daí todos os incômodos.

O livro The Vow (O Voto) que no Brasil, assim como no cinema, recebeu o romântico e apelativo título Para Sempre, em vez de A Promessa (por exemplo), que tem mais a ver com a trama, caiu no gosto das leitoras brasileiras, mas tem dividido opiniões. Eu o conheço apenas das resenhas postadas na web. E pelo que li, a curiosa história do casal Kim e Krickitt Carpenter tem decepcionado leitoras (e alguns leitores) que esperavam algo no estilo Nicholas Sparks e menos a vida como ela é ou pode vir a ser, já que o livro é mais biográfico que romântico.


Para Sempre (The Vow, 2012), melodrama dirigido pelo estreante Michael Sucsy, é inspirado no dramático episódio da vida do casal Kim e Krickitt Carpenter, ambos vitimas de um grave acidente de trânsito, onde ele se feriu sem gravidade e ela, ao se recuperar do coma, não se lembrava do marido. Na versão cinematográfica (excetuando a sequência do acidente) a história ganha leveza e o real vira ficção: o produtor musical Leo (Channing Tatum) e a artista plástica Paige (Rachel McAdams), vivem um drama parecido, onde o rapaz fará de tudo para ajudar a mulher amada a recuperar as memórias que “guardam” os melhores momentos de uma vida feliz e em comum.

Ao ler a sinopse e ou assistir ao filme, com certeza um cinéfilo se lembrará de uma meia dúzia de outros com a mesma temática, em produções de maior ou menor apelo comercial e emocional.  O tema tem a sua boa dose de clichê que funciona tanto em filme “A” quanto “B”. Se bem que, não importa quantas vezes a mesma história é contada, mas em como ela é contada. É como uma velha piada, um bom humorista fará o público rir as trocentas vezes em que a (re)contar.


O que faz de Para Sempre uma adaptação interessante é o comedimento da narrativa. O diretor não tem pressa em contar a história de amor e de estranheza de um casal separado por uma falha da memória. Pode parecer timidez e ou mesmo falta de ousadia de Sucsy, mas, ao final, se verá que a sua opção pela simplicidade (ou vá lá: lugar comum) ao falar das facetas do amor (na saúde e na doença) é o mais acertado. Em vez de correr riscos, ser mais original, mudar o rumo da história (como até ensaiou!), já que é uma obra inspirada e sem compromisso com a verdade, preferiu a segurança do (inspirador?) desfecho real.

Para Sempre não chega a ser uma comédia, já que o seu motivo (romântico) responde melhor ao drama (de superação) do que ao humor, mas tem uma ou outra gracinha. A frieza da narrativa (às vezes excessiva) busca um olhar cinematográfico que (falsamente) o distancia tanto da literatura quanto do grande público emotivo. Por isso, é provável que o público chegado a uma dorzinha alheia não encontre no “sofrimento dos personagens” a empatia esperada (como parece não ter encontrado também no livro). O que não deixa de ser saudável, já que propicia uma análise imparcial do filme (e da história). Vale lembrar que este (falso) distanciamento que lhe dá um ar mais cool, tem nada a ver com a ótima performance (e química) de Tatum e McAdams. A princípio parece mais uma busca de estilo de Michael Sucsy, que procura evitar o sentimentalismo barato, indo direto ao que interessa..., mas sem atropelar as sutilezas do (por exemplo) adorável Mnemonic Café. Quer saber o que significa mnemônico? Vá ao Google.


A qualidade de um filme nem sempre é medida pelo grau de prazer e ou de dor que provoca no espectador. Para Sempre, dependendo da leitura, pode ser mais ou menos que uma sessão da tarde. A produção é bem cuidada e a excelência dos atores (incluindo coadjuvantes de luxo: Sam Neill e Jessica Lange) dá um sabor de veracidade ao drama leve, pulverizando clichês. Porém, só o fato de passar ao largo das baixarias que fazem parte do cardápio das novas produções estadunidenses, já é um convite para uma olhadinha descompromissada.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Crítica: Meia Noite em Paris



O tempo passa, a idade avança e a cada filme Woody Allen (não que precise) prova que ainda é um grande mestre da sua arte. A comédia Meia Noite em Paris é mais uma daquelas pérolas que deve matar de inveja os cineastas menores que "se fazem” em cima da escatologia e das repetidas “piadas” de mau gosto. Não é que Woody não se repita em suas histórias, a diferença é que, se ele o faz, é sempre por um novo viés. 

Quem nunca quis viver numa época diferente, até mesmo para fugir da sua realidade? Em Meia Noite em Paris (Midnight in Paris, 2011), o norte-americano Gil Pender (Owen Wilson), roteirista de sucesso em Hollywood, sonha em largar a carreira para se dedicar exclusivamente à literatura. Apaixonado por Paris e embevecido com a ideia de dar um novo rumo à sua vida de escritor, aproveita que está de férias na capital francesa, junto com a noiva Inez (Rachel McAdams) e os pais dela, John (Kurt Fuller) e Helen (Mimi Kennedy), para comunicar a sua decisão. Se os opostos se atraem, Gil e Inez se distraem em interesses outros. Ele quer consumir cultura, encontrar resquícios da adorável Paris dos dourados anos 1920. Ela prefere o consumo material e gastronômico. Ele quer morar em Paris e ela em Malibu. Ele busca na reflexão sobre o fazer arte a inspiração para o seu livro. Ela se contenta em ouvir o enciclopédico pedante Paul (Michael Sheen) falar sobre arte. 


Desencontros à parte, certa noite Gil está meio perdido, a caminho do hotel, quando um carro antigo para ao seu lado e ele é convidado por F. Scott Fitzgerald (Tom Hiddleston) e Zelda Fitzgerald (Alison Pill) a entrar e a passear pela Cidade Luz e conhecer os seus mais ilustres moradores: Gertrude Stein (Kathy Bates), Hemingway (Corey Stoll), Cole Porter (Yves Heck), Picasso (Marcial Di Fonzo Bo), Salvador Dali (Adrien Brody), T.S. Eliot (David Lowe), Buñuel (Adrien de Van), entre outros. A cada noite a magia se repete e ele viaja ao passado para saborear a companhia de artistas renomados e da encantadora estilista Adriana (Marion Cotillard), ex-amante de alguns futuros famosos. Enquanto para Gil a divertida viagem é algo surreal, para os verdadeiros surrealistas, é coisa normal. O que rende ótimas e inteligentes piadas. O mais interessante é que esses encontros maravilhosos e além da imaginação são tratados de forma tão natural e distraída que o espectador até se esquece da excelente direção de arte de Anne Seibel. 

Paris é a cidade fetiche de muita gente. Já foi homenageada inúmeras vezes por outros autores americanos, mas raramente de forma tão amorosa como fazem Allen, além do cartão postal, e o diretor de fotografia Darius Khondji, além do lugar comum. Na história que se desenha e se escreve, Woody mergulha fundo na alma cultural (e romântica) dela, vasculha o seu passado para entender o pensamento intelectual que influencia o seu presente. Se a cultura de amanhã é o reflexo da arte que se faz hoje, por que pensar e considerar o ontem tão melhor, se o que interessa é que o futuro seja promissor? É através dessa ironia da sublimação de um tempo passado, que está sempre retornando ao passado, na indefinição do futuro, que Allen vai tecendo a sua filosofia de vida e da arte, às vezes melancólico, às vezes realista, mas nunca gratuito. Ele pode até parecer um derrotado, mas é, com certeza, cheio de esperança. 


Com seu humor nonsense e repleto de referências culturais, Meia Noite em Paris é um filme que requer um pouco mais de conhecimento do espectador. Se desconhecer os autores citados e ou as suas obras, com certeza não vai entender nenhuma piada. A inspirada comédia que garante um sorriso gostoso e uma inesquecível viagem por Paris traz um elenco afinado (com o seu tempo). É bem provável que ao final, quando Gil Pender finalmente curtir a chuva parisiense, que há de levar bem mais que a sua alma, o público fique com uma dúvida: se a arte de hoje é (realmente) feita para o amanhã, a de ontem é (realmente) consumida hoje, quando ela é (realmente) contemporânea? 

quarta-feira, 30 de março de 2011

Crítica: Uma Manhã Gloriosa


por Joba Tridente

Já foram feitos dezenas de filmes tendo como pano de fundo a imprensa (escrita e falada). Alguns inesquecíveis e outros que não vale a pena lembrar. Mas sempre tem alguém achando que ainda falta dizer alguma coisa, de forma diferente do que já foi dito antes, e faz um roteiro com todos os clichês do gênero (só pra variar). Logo, mais um filme Bom Dia Qualquer Coisa, com uma historinha edificante de superação profissional e amorosa e etc e tal, voa de lá de Hollywood para cá de Hollywood.

Uma Manhã Gloriosa (Morning Glory, EUA, 2011), é baseado no (sempre) previsível roteiro de Aline Brosh McKenna e fala (mais uma vez), como já havia feito em O Diabo Veste Prada, da dedicação exaustiva de uma profissional (de Comunicação Social) para se firmar (e vencer) num mercado de trabalho que sonhou por toda a sua vida. Se antes a oportunista Andy Sachs (Anne Hathaway), era contratada como assistente da infernal editora-chefe, Miranda Priestly (Meryl Streep), agora, é a vez da dedicadíssima Becky Fuller (Rachel McAdams), uma ingênua (e atrapalhada, é claro!) garota do interior, mostrar a sua luta (matutina, vespertina e noturna) para vencer no competitivo mundo televisivo. Becky é otimista, é prestativa e não tem medo de cara feia. Becky é viciada no seu trabalho dos sonhos infanto-juvenis: produtora de um telejornal em Nova York. O noticiário matinal Daybreak (que é jogado nas suas mãos) tem a pior audiência nos EUA, mas, como ela sonha o grande sonho americano, vai fazer de tudo para transformar o programa em sucesso. Só faltou combinar com os egocêntricos Mike Pomeroy (Harrison Ford), um jornalista mal-humorado e em fim de carreira, e a falastrona apresentadora Colleen Peck (Diane Keaton), uma ex-miss.


Dirigida por Roger Michell, essa espécie de comédia sem graça, linear até nos nós, mas cheia de boa intenção feminina e feminista, é a típica produção que se vê com bocejo até numa sessão qualquer da tarde ou de uma tarde qualquer. Tem todos os elementos que o público que adora ver de novo o mesmo programa (novela, filme, show de piadas), mas com artistas diferentes, vai se identificar e torcer (mesmo que pela obviedade) não seja preciso, que tudo termine num final feliz, condizente com a entrega da personagem protagonista. Se bem que, em Uma Manhã Gloriosa, se muito, o único personagem que pode causar alguma empatia no espectador é o antipático Pomeroy (Ford), já que o resto do elenco parece ter se espatifado de paraquedas num programa de batidíssimas gags americanas (trombadas, escatologias, escorregões, palavrões, coitus interrompidus). Como nenhum raio cai na IBS, tirando a rede e o tal programete de “entretenimento” do ar, e sala de cinema não tem controle remoto para mudar o filme da tela, o lance é relaxar e esperar pelo fim da projeção.

Tem gente que faz cinema e tem gente que faz televisão. Tem gente que faz uma coisa pensando estar fazendo outra. Mas, o maior dos caras-de-pau (que não está nem aí para os cupins) faz um genérico glamourosamente brega, de ambos, e o exporta para o resto do mundo.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Crítica: Te Amarei Para Sempre



O cinema já nos trouxe muitas histórias de viajantes do tempo. Algumas fizeram mais sucesso que outras e até viraram filmes em série. Já vimos gente viajando através do tempo pelas mais diversas razões: amor, vingança, ambição, tarefa escolar..., e isso tudo com muito humor ou violência ou amor ou suspense ou terror. Mas, acho que nunca se viu uma história como esta d’A Mulher do Viajante do Tempo, com direção de Robert Schwentke, que ganhou um título terrivelmente piegas: Te Amarei Para Sempre.

Baseado no best-seller A Mulher do Viajante do Tempo (The Time Traveler’s Wife), de Audrey Niffenegger, Te Amarei Para Sempre (The Time Traveler's Wife, EUA, 2009) conta a estranha e curiosa história Henry (Eric Bana), um sujeito que, a partir dos seis anos de idade, frente a um terrível acidente de automóvel, descobre-se portador de uma anomalia genética que o faz viajar no tempo. Sem ter nenhum controle sobre si mesmo e sobre essas viagens, rumo ao passado ou ao futuro, onde chega sempre nu, Henry acaba conhecendo e se apaixonando por Clare (Rachel McAdams). Ele a reencontra em algumas dessas viagens e enquanto busca a cura, Clare tenta sobreviver à solidão de ter e não ter o seu amado ao seu lado.

Ao ler um conto ou ver algum filme sobre viagem no tempo, muita gente deve ficar desejosa de tal façanha, imaginando tirar algum proveito. Mas, e se o viajante não tiver controle algum sobre essas viagens para o futuro ou passado e tão pouco souber qual é o seu presente? É tentando decifrar esta interessante questão que embarcamos no bonito drama Te Amarei Para Sempre e viajamos sem saber para onde, a reboque de Henry, numa história sedutora e repleta de fantasia, dirigida com eficiência por Schwentke. No entanto, apesar da trama muito bem resolvida, o filme pode não agradar o espectador que gosta de algo mais previsível, de uma história de amor cheia de reviravoltas rumo a um final feliz. Porém, se ele se deixar levar pela fantasia, como se deliciasse com um Contos de Fadas, onde as coisas acontecem assim-assim, sem maiores explicações, vai ter uma surpresa e tanto e vai querer ver outros filmes que parecem iguais, mas que têm um quê de diferente. E viva a diferença!

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