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quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Crítica: Mamma Mia! Lá Vamos Nós de Novo


Mamma Mia! La Vamos Nós de Novo
por Joba Tridente*

Em tempos de exploração gratuita de violência explícita, nos meios de comunicação e de entretenimento (incluindo animações), nada melhor que uma boa comédia musical romântica, como a irresistível Mamma Mia! La Vamos Nós de Novo, roteirizada e dirigida por Ol Parker, para levantar o astral, reequilibrar as energias e botar um sorriso sincero nos lábios do espectador (cansado dos horrores cotidianos). Escapismo? Talvez? Mas, atualmente, se a gente não escapar de vez em quando, por algumas poucas horas que seja, enlouquece!


Mamma Mia! La Vamos Nós de Novo (Mamma Mia! Here We Go Again, 2018), continuação que faz jus ao inesquecível Mamma Mia de 2008, sempre no embalo dos compassos sonoros contagiantes do grupo sueco de musica pop ABBA (1972-1982 e anunciado retorno para 2019), conta duas boas histórias amorosas que se entrelaçam. Numa, em flashback, conhecemos as versões jovens da esfuziante Donna (Lily James), logo após a sua formatura em Oxford, em 1979, e o itinerário aventureiro e romântico que a levou à paradisíaca ilha grega Kalokairi; de suas maiores amigas Rosie (Alexa Davies) e Tanya (Jessica Keenan Wynn); e dos seus três complicados amores Harry (Hugh Skinner), Bill (Josh Dylan) e Sam (Jeremy Irvine), futuros candidatos a pai de Sophie (Amanda Seyfried). Noutra história, em 2005, enquanto o marido Sky (Dominic Cooper) estuda hotelaria em Nova York, a insegura Sophie prepara uma homenagem à sua mãe Donna (Meryl Streep), falecida há cinco anos, com a inauguração do Hotel Bella Donna, onde reencontraremos as versões bem mais velhas de seus três complicados pais Harry (Colin Firth), Bill (Stellan Skarsgård) e Sam (Pierce Brosnan) e das ansiosas amigas Rosie (Julie Walters) e Tanya (Christine Baranski). Ali, em Kalokairi, já não é surpresa ou spoiler, quem também chega para abrilhantar (mesmo!) a festa, é Cher, como Ruby, a avó ausente de Sophie, que fará um divertido dueto com Andy Garcia, o sedutor Señor Cienfuegos, na famosa Fernando. E, para arrematar tudo, numa sequência comovente, quem dá o ar da graça é a diva Meryl Streep...


É claro que a vida não é um musical onde tudo se resolve com uma canção ou uma dança, uma utopia ao alcance de qualquer um (até para quem não tem dotes de cantor ou de dançarino), mas bem que poderia ser (ou ter sido)..., não fosse o egoísmo, o egocentrismo, a ganância que submete a grande maioria do gênero humano ao capital que nos distingue como civilização (?) serviçal. Será por isso que muitos de nós inveja a liberdade dos animais não-humanos e dos silvícolas remanescentes e se apega tanto às fantasias de uma vida bucólica? Será que a tecnologia, em algum dia futuro, nos libertará do trabalho estafante que hoje nos aprisiona e nos devolverá uma vida de sonho onde a amizade vale mais que o dinheiro? Com o avanço da ciência, é uma antiga cogitação. Mas, o que fazer com os crédulos da Terra Plana?


Em Mamma Mia! La Vamos Nós de Novo, a vida é uma festa que não se deixa frustrar pela tempestade passageira que (sempre) traz a reboque a bonança. A receita é simples, beirando a ingenuidade, mas repleta de ingredientes clichês que poderia desandar facilmente em outras mãos. Não faltam as doces armadilhas dos amores jovens e as agridoces dos velhos amores que se atam e desatam nas tramas da vida que sempre podem deixar alguns fios soltos para os retardatários apaixonados, na visão generosa de Ol Parker, que também roteirizou os adoráveis O Exótico Hotel Marigold (2011) e O Exótico Hotel Marigold 2 (2015), com seus personagens idosos acertando contas amorosas com o passado e ou descobrindo novos amores.


É fácil gostar de Mamma Mia! La Vamos Nós de Novo, com suas duas boas histórias, sua trilha envolvente (ainda que por vezes alguma balada soe melancólica) com 18 canções do ABBA (I Have A Dream, com arranjo grego, ficou exuberante!), sua coreografia simplória e seus personagens bem escritos e admiravelmente interpretados por todo o elenco (sem exceção!). A comédia, de um romantismo gostoso (assim-assim meio piegas), tem direção segura e ágil de Parker, que demostra muita criatividade também nas excelentes transições de tempo e de cenários campestres, em sequências de bela plasticidade.


Assim, ainda que você não seja lá muito amante de musicais (porque do nada alguém começa a cantar e a dançar suas alegrias ou dores de amores), se, em vez de ficar se ocupando com a coerência ou a plausibilidade do roteiro (que não precisa ser original para ser bom, desde que bem escrito), se deixar levar pela narrativa totalmente descompromissada, feito os adoráveis personagens por seus sonhos, pode se surpreender se remexendo na cadeira, cantarolando alguma canção e decididamente apaixonado pelo filme...


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

domingo, 4 de julho de 2010

Crítica: Em Busca de Uma Nova Chance


Em Busca de Uma Nova Chance

Assistir ao cineterapia Em Busca de uma Nova Chance é ter a sensação de estar vendo uma mistura de dois grandes e premiadíssimos filmes do gênero: Gente Como a Gente (Ordinary People, EUA, 1980), de Robert Redford e O Quarto do Filho (La Stanza del Figlio, Itália, 2001), de Nani Moretti. A trama e o drama dos personagens são bem semelhantes. Ou seja, uma família de classe média que se desestrutura com a morte (num acidente) de um dos dois filhos do casal, o mais amado pela mãe, que não aceita tal perda e culpa o filho que “continua” vivo. A mãe perde o chão, o filho perde o rumo e o pai, que segura a estaca, vai acabar desabando junto com a casa. E então começa a (re)construção de uma nova e harmoniosa família, mais firme e forte que a anterior.

Previsível como a trilha sonora que ilustra cada ação dos personagens, feito um vídeoclip mal roteirizado, Em Busca de Uma Nova Chance (The Greatest, EUA, 2009), dirigido por Shana Feste, é uma típica cineterapia pós-morte não recomendada para quem passou por um trauma recente ou for cinediabético. Ele começa com um clipe musical literal, acompanhando as veladíssimas ações amorosas de um jovem casal, Bennett Brewer (Aaron Johnson) e Rose (Carey Mulligan), em um quarto, e segue com os jovens, num carro, por uma via arborizada, até o momento em que o garoto, estupidamente para no meio da estrada, dizendo ter algo importante para dizer à garota, que o aconselha a estacionar no acostamento. Bem, sabe como são impulsivos os jovens apaixonados, não estão nem aí pra segurança..., e antes que ele se dê conta: POW! CRASH!


Isso posto, a sessão terapêutica esta preparada: a mãe, Grace Brewer (Susan Sarandon), surta, não aceita a morte do filho, ignora o marido, Allen Brewer (Pierce Brosnan), a quem acusa constantemente de não sofrer (como ela) pelo filho morto, e não dá a menor atenção ao caçula, Ryan Brewer (Johnny Simmons), que, se sentindo ainda mais rejeitado, se entrega às drogas, É nesse clima pesado de histeria coletiva, quando a psicose de Grace cria um clima de estranheza entre todos, que aparece Rose, dizendo estar grávida de Bennett e não ter pra onde ir.

Não é preciso nenhuma bola de cristal pra saber o que vai acontecer. Rejeição ou redenção? Enquanto o espectador decide vai “apreciar” a obsessão de Grace atrás das últimas palavras do filho, ditas ao motorista que se envolveu no acidente; a busca de Ryan por ajuda através de terapia em grupo; a tentativa de Allen voltar à rotina de professor universitário. Isso tudo embalado por música incidental e acidental. Quanto a Rose, ela sabe quase nada sobre o pai do seu filho.

Triste, melancólico, pesado mesmo, no estilo “mar de lágrimas”, Em Busca de Uma Nova Chance tem um bom elenco que se entrega, com vontade, a um roteiro frágil e sem novidades. Tudo se dará como está escrito, ou se espera, ou se deseja. Apesar do clima trágico é um filme linear (ou seria regular?) onde tudo funciona conforme o “combinado”. E sem piadas escatológicas.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Crítica: O Escritor Fantasma


O Escritor Fantasma
um Polanski menor

O Escritor Fantasma (The Ghost Writer, Reino Unido, 2010), de Roman Polanski, é um thriller político curioso, mas muito aquém do talento do seu polêmico diretor. A narrativa, com situações pouco convincentes (e previsíveis), que levam a um final deplorável, fala de um escritor (Ewan McGregor) que aceita a incumbência de ser o “ghost writer” (o verbalizador das idéias ou criador, na falta delas) do livro de memórias de Adam Lang (Pierce Brosnan), um dissimulado ex-Primeiro-ministro inglês. O escritor (sem nome), na verdade, é contratado para finalizar ou reescrever a obra, praticamente pronta, de outro “ghost writer” (encontrado morto numa praia), em troca de um valor muito convidativo. Ao viajar aos Estados Unidos, onde se encontra “temporariamente” o político, ele logo vai descobrir que, nas entrelinhas da memória de alguns personagens pouco citados, mora um perigo que, aflorado pela sua curiosidade, poderá ser devastador.

Baseado no livro The Ghost, de Robert Harris, “livremente” inspirado nas relações belicosas (e perigosas) do ex-premier britânico Tony Blair com o ex-presidente Bush, o filme, que tem roteiro de Polanski e Harris, pretende uma história de bastidores políticos até possível, mas risível, envolvendo “inteligências”. Ele tem um começo promissor, mas, apesar do seu tom de dúbia ironia, depois de certo tempo começa a perder o encanto e, após um esperado evento trágico, degringola de vez. É uma pena. A impressão é a de que no meio do caminho faltaram idéias e o clima hitchcockiano, que permeia a história, não passa de um preciosismo (realmente) descartável.


Longe de ser uma metáfora ou sátira política, a trama de O Escritor Fantasma, sem nenhuma grande novidade que justifique tal suspense, é conduzida por uma música óbvia, mas que (felizmente) não consegue contaminar a excelente fotografia de Pawel Edelman. Há um ou outro diálogo interessante e boas atuações de um elenco afiado. O destaque fica com McGregor e seu “metamorfo” fantasma/investigador que, por conta dos vacilos do roteiro, só perde o rumo quando se dá conta (tarde demais) de que não era tão fantasma quanto imaginava. Se bem que, diante da “revelação” final, quem costuma ler ou ver ou ouvir jornais se perguntará: tanto barulho por isso? Enfim, um filme mediano para um público fã e não muito exigente.
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