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quarta-feira, 18 de março de 2015

Crítica: O Duelo


Lançado em 1961, o romance A Completa Verdade Sobre as Discutidas Aventuras do Comandante Vasco Moscoso de Aragão, Capitão-de-Longo-Curso, ou simplesmente Os Velhos Marinheiros, de Jorge Amado (1912-2001) não tardou a ganhar notoriedade e a ter seus direitos de adaptação cinematográfica vendidos à Warner Bros.  Ainda nos anos 1970, o romance teria sido roteirizado por Frank Pierson (1925-2012), mas jamais filmado. Em 2010, praticamente cinquenta anos após o seu lançamento, o diretor Marcos Jorge assumiu o projeto, assinando também o roteiro de Os Velhos Marinheiros, rebatizado de O Duelo.

O Duelo – Uma história onde a verdade é mero detalhe (Brasil, 2015), gira em torno de dois contadores de histórias. Ou melhor, de um contador de histórias, o Capitão Vasco Mosco de Aragão (Joaquim de Almeida), que relata as suas aventuras amorosas e heroicas, vividas em alto mar e em países distantes, para uma encantada plateia de moradores da pequena Periperi, no litoral baiano, para onde ele se mudou recentemente. O outro é o fofoqueiro ciumento Chico Pacheco (José Wilker), falastrão local que, não suportando o sucesso do recém-chegado e duvidando daquelas histórias de marinheiro, resolve investigar para provar que não passam de lorotas.


Se no livro o enredo de Jorge Amado é promissor, na tela a adaptação de Marcos Jorge deixa a desejar. São as opções de percurso! A cada história de Aragão a malemolência do ritmo claudica aqui e ou acolá, levantando o pó do mofo que logo reassenta. Os causos de Aragão e as revelações de Pacheco até soam curiosos, mas o didatismo é tanto que não tardam a perder o interesse. Nem mesmo os fragmentos “românticos” dão bom engate. Falta safadeza, falta desejo, falta ginga, falta tesão..., sobra carolice! As cenas de sexo e ou de sedução são meramente ilustrativas. A sensação é a de que, por mais que se lance ao mar, o (con)texto na sai da praia dos lugares comuns da obra de Amado e tampouco das limitadas adaptações cinematográficas.

Híbrido de fantasia (?), com uma pitada de drama e sexo, e meia pitada de humor, O Duelo parece feito a toque de caixa. A trama simplória, que se desenrola em três atos (histórias de Aragão; desvelação de Pacheco; prova de Capitão), com diálogos pouco inspirados e velhas metáforas-clichês, subestimam a inteligência do espectador. Excetuado a sequência engraçadinha na embaixada portuguesa, não há espaço nem para um sorriso amarelo. Não fosse a irritante e ensurdecedora trilha sonora, se sobrepondo ao estranho áudio-robótico da voz (seca e áspera) do elenco, principalmente de Almeida e Wilker, seria fácil pegar no sono. Quanto aos efeitos especiais..., acho que os recursos não eram suficientes nem para um bom recorte de máscaras.


Todavia, nem tudo são pérolas de plástico em O Duelo. Há que se destacar a fotografia de José Roberto Eliezer, a arte de Marcos Flaksman e, ainda que remeta ao fascinante O Fundo do Coração (One from the Heart, 1982) de Ford Coppola, as bem resolvidas fusões de cenários e planos. O elenco faz a diferença nas performances de Joaquim de Almeida, Patrícia Pillar e de um José Wilker livre da síndrome de “caras e bocas” de Jack Nicholson, que o caracterizou nos últimos trabalhos.

Acho que é isso. Como a versão (antiquada e marola) de Marcos Jorge não me arrebatou, minha atenção se voltou para os deslizes técnicos. O que não quer dizer que O Duelo não tenha lá seus argumentos ocultos (a mim) para agradar (ou não) aos leitores (ocasionais) de Jorge Amado.


quarta-feira, 11 de junho de 2014

Crítica: Avanti Popolo


Todo filme experimental acomoda o cinéfilo de carteirinha e ou incomoda o espectador de ocasião. Na viagem cinematográfica proposta por Michael Wahrmann em Avanti Popolo não há meio termo. Ou se pega carona no carro cujo motorista em fuga espera o anoitecer para dirigir anonimamente por ruas desconhecidas, embalado por canções latino-americanas engajadas, até se defrontar com um homem trôpego e sua mala cheia de mágoas. Ou a saída!  Ou se embarca no resgate de registros caseiros em Super-8, de uma gente que nunca se viu, e na ressignificação do (não) fazer cinematográfico panfletário, engajado, proletário ou de autor. Ou a saída!

Em Avanti Popolo (Brasil, 2013) pouco ou nada se sabe do horizonte de seus protagonistas: um filho (André Gatti) recém-divorciado que busca conforto na velha casa do monossilábico pai (Carlos Reichembach), que vive na companhia da inquieta cadela Baleia (Estopinha) e à espera do outro filho que sumiu na soviética. O universo deste trio é micro. O que mantém a casa em pé são as recordações empoeiradas, as lembranças que decoram a imutável sala com sua janela emperrada pela esperança mofada e uma escada que leva a algum lugar do passado também emperrado. Na casa térrea, somente a memória acinzentada pode ocupar um primeiro andar inexistente.  


Assim como o carro que segue a esmo (no prólogo), com seu motorista oculto, guardadas as devidas e poéticas proporções, remete ao belíssimo Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo (2009), de Marcelo Gomes e Karin Aïnouz..., a casa com suas velharias, o estranhamento entre pai e filho, reminiscências, dependências fechadas, o sofá como cama..., remetem ao enfadonho Quando Eu Era Vivo (2014), de Marco Dutra. O seu desconforto está na trinca das paredes e entre pai e filho..., nas belas, melancólicas e casuais pinturas que saltam aos olhos na tinta esmaecida das paredes..., na fugidia cadela Baleia, prisioneira em uma outra história.

Avanti Popolo “fala” de família e de cinema em tempo de revolução. Não necessariamente nessa mesma ordem ele “desconstrói” a família e o cinema em tempos de pós-revolução. A distração atemporal é premeditada. O entrefotograma, também. Metáforas abundam em sequência a plano-sequência a plano-consequência a plano com sequência..., ou não, na leitura do espectador. No subtexto, prenúncio de um novo cinema que já nasce velho (ou natimorto?), e que afinal encontra a sua moldura ideal no antigo templo do Cine São José.


Há mais ou menos 30 anos essa mistura de cinema novo com novela vaga, essa desconstrução de linguagem acadêmica (por acadêmicos) seria sensacional. Hoje, essa experimentação meio setentista soa (a mim) mais como uma curiosidade, um exercício de (meta)linguagem por vezes interessante e por vezes aborrecido. Aliás, os dois melhores momentos são os que ilustram situações de aborrecimento do filho.  

No primeiro, impaciente e com desdém, ele assiste à ressignificação de sequências cinematográficas alheias em contexto revolucionário e ao discurso nonsense de um cineasta (Marcos Bertoni) e técnico em equipamento Super 8, que expõe (com seriedade contagiante), em tempo real, as suas ideias políticas sobre um certo (re)fazer cinematográfico político. Ora, uma vez que o híbrido (docudrama e ou docuficção) Avanti Popolo também é anticinema, e ou conclui-se como, ri de si mesmo ao rir da proposta nonsense (retrôguarda) do criador do Dogma 2002..., paródia (?) ao Dogma 95, de Lars von Trier e Thomas Vinterberg. No segundo, que na verdade é uma divertida sequência anterior, reforçando a “indiferença ao cinema engajado” e o achincalhe “revolucionário”, no alto da sua arrogância, o filho é obrigado a suportar um taxista “nacionalista” (Eduardo Valente) e o seu brinde de hinos estrangeiros..., que se sabe, geralmente é fruto de (pré ou pós) revolução.

Provavelmente a maior provocação de Avanti Popolo (cujo título, conforme explicação radiofônica, faz jus à narrativa) esteja no elenco formado pelos cineastas Carlos Reichenbach (1945- 2012) e Marcos Bertoni, o pesquisador de cinema André Gatti, o crítico de cinema Eduardo Valente. Para não-atores, acostumado aos bastidores e não à frente das câmeras, as atuações até que são razoáveis. O melhor, talvez pela naturalidade de representar a si mesmo, me pareceu Bertoni. Ah, sim, Michael Wahrmann, além do roteiro e direção, faz o locutor de uma rádio apaixonado por música de protesto.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Crítica: Minha mãe é uma peça


Conheço críticos que preferem escrever nada, a comentar negativamente um filme brasileiro. A lengalenga é mesma: ah, mas é um filme brasileiro..., ah, mas é tão difícil fazer um filme no Brasil..., ah, mas é tão difícil chegar às salas de cinema..., ah, etc. Bem, com o apoio de certos produtores nem é tão difícil assim...

Minha mãe é uma peça (Brasil, 2013) é baseado no monólogo homônimo (que não conheço) escrito e interpretado pelo ator Paulo Gustavo. No filme a história gira (praticamente!) ao redor da neurótica Dona Hermínia (Paulo Gustavo), uma quarentona, divorciada de Carlos Alberto (Herson Capri), que vive em função dos filhos Marcelina (Mariana Xavier) e Juliano (Rodrigo Pandolfo), que (como os demais personagens) fazem absolutamente nada na vida. Um dia, cansada de ser confrontada pelos insolentes jovens, Hermínia resolve sair de casa e passar uma temporada com sua tia Zélia (Suely Franco). Ela choraminga suas dores de lá e os “rebeldes sem causa” choramingam de cá.


A narrativa assemelha-se a um conjunto de batidas esquetes (de TV e de Show de Piadas) sem graça (ôps!) e sem ritmo (de cinema) em torno (e no entorno!) da histérica Hermínia, que só faz reclamar (do começo ao fim!) com sua irritante voz de taquara rachada (típica de travesti). Se no teatro o ator desperta o riso fácil do público, com a caricatura de uma solitária dona de casa, no cinema é preciso muito mais que boa maquiagem, figurino florido e bobes na peruca para convencer o espectador de que é uma mulher. E, sinceramente, na telona, travestido de Hermínia, o Paulo Gustavo está mais para crossdressing (ou seria drag queen?) do que para mulher.

Minha mãe é uma peça, dirigido por André Pellenz, é mais uma típica “comédia” ao estilo ria se puder, ou se conseguir, ou sei lá..., que insiste numa só caquética “piada” fecal. O seu “humor” infantilóide tangencia a escatologia comum na nova onda cinematográfica de chanchadas calcadas na baixaria do “humor” televisivo que o novo espectador adora. Porém, como nem tudo que funciona num palco funciona na tela, ela é vítima do roteiro (familiar) chinfrim escrito por Gustavo e Fil Braz, com a colaboração de Rafael Dragaud. Ora, cenários e performances completamente diferentes, óbvio, pedem adaptação e direção distintas. Também porque, nem todo espetáculo teatral pronto (e de sucesso!) resulta em um bom filme. Ou vice-versa.


O enredo que resvala num drama piegas (de novela chicana) sai de lugar algum para lugar nenhum. A personagem protagonista é uma chata (sem garantia de devolução!). As personagens coadjuvantes também.  Aliás, todo mundo é tão vagal na trama que cada um vai pra onde quer. Não há liga no elenco bibelô. Não há empatia com o público. É tipo..., assim (para ambos): O que estou fazendo aqui mesmo? Tudo bem que o filme é baseado em um monólogo de sucesso (seis anos em cartaz!), mas se a intenção era continuar o formato no cinema, para que enredar personagens (sem personalidade!) que nada acrescentam?

Exageros de Paulo Gustavo e sonolenta mesmice dos outros atores à parte, vale destacar nessa claudicante adaptação de 1h25 (que parece não ter fim), entre incômodas sensações de já visto e já ouvido em outros filmes nacionais, a ótima direção de arte e a boa maquiagem.  Enfim..., uma “comédia” para fãs do espetáculo teatral que queiram “rir” de novo (?).

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Crítica: A Busca



Segundo a sinopse, a trama do longa A Busca gira em torno de um médico que cai na estrada em busca do filho adolescente desparecido e acaba reencontrando o pai, com quem teria rompido relações..., sugerindo, aí, uma jornada de autoconhecimento. Segundo o filme, a estrada é apenas um meio de se encurtar a distância entre o pai, o filho e o avô.

A Busca começa com um prólogo explorando uma corriqueira (?) discussão em uma família de classe médica, digo, média. Os médicos Theo (Wagner Moura) e Branca (Mariana Lima) foram casados por 15 anos e têm um filho, Pedro (Brás Moreau Antunes), pivô da briga. Theo é um típico ex-marido invasivo e pai opressivo. Basta o não comparecimento do filho a uma entrevista de intercâmbio estudantil e uma cadeira enviada de presente pelo avô paterno, para despertar a sua fúria e desvelar que também ele tem (ou teve) problemas paternos. Dias depois, na comemoração dos 15 anos de Pedro (em família e sem convidados?), o ex-casal se dá conta de que o garoto desapareceu e logo fica sabendo que ele fugiu montado em um cavalo. Para não incomodar a polícia, Theo monta em seu possante e sai atrás do garoto...


O filme é um drama(lhão) fragmentado (é claro!), com historietas pouco convincentes e ou provocativas o suficiente para alguma introspecção  (mesmo breve) do protagonista que caiu na estrada tão somente para encontrar o filho fujão (em um cavalo) e não para “receber” alguma lição de vida (ou moral). Por mais que a narrativa force a barra, o motivo condutor é apenas o de encontrar o filho e não a si mesmo. Curvas, desvios e tropeços no caminho, sim, perigo iminente, não! Aliás, as pedras-pistas no caminho servem apenas para se alcançar a metragem (de um longa) ou salientar os tombos da direção e a falta de assunto. Firulas de ilha de edição!

A história do cavalo pode até lembrar aquela do excelente filme espanhol A Dançarina e o Ladrão (2009), mas, se muito, apenas tangencia a sua máxima: La vida és un baile que nunca sabes cómo termina. A estrada por onde viaja o “desesperado” Theo, em busca do filho, é bem outra, talvez mais próxima de À Beira do Caminho (2012). Ao redor do médico o mundo está em ordem, ele é que está fora do tom, como é clichê em qualquer road movie. Mas não é só o personagem que está fora de sintonia com a vida interior (em duplo sentido), Wagner Moura também não parece muito confortável na pele de Theo. Reflexo da mão pesada do diretor Luciano Moura, que se perde nas muitas encruzilhadas do seu próprio roteiro (de viagem) engasgado com diálogos inverossímeis.


A Busca (A Busca, Brasil, 2012) propõe uma viagem redentora do protagonista, que o espectador acompanha com uma expectativa de resgate que não se cumpre. Como nenhum personagem é plenamente desenvolvido, em momento algum o gênio explosivo de Theo e ou a sua animosidade paterna é justificada. Tampouco o roteiro se preocupa em dar alguma profundidade ao título (A Busca) que subsistiu ao A Cadeira do Pai que, excetuando o incidente do prólogo, significa menos ainda. Se é que alguém (a essa altura) se importa.

Para falar a verdade, o drama (raso) que começa com uma discussão e termina com um abração, até tem uma mensagem: Falar ao celular e dirigir, ao mesmo tempo, pode ser fatal. Enfim, quem se sai melhor nessa jornada que se quer transformadora (pelo menos até o terceiro ato rural) é o carro-merchandising que protagoniza situações (em diversos pequenos anúncios subliminares) que até o fabricante duvida. Coadjuvante de estampa, depois de exigido em situações limites (rodar milhares de quilômetros sem beber uma gota de combustível ou carregar carga acima do peso), tem um final pouco lisonjeiro. Será que o fabricante aprovou? Afinal esta é uma viagem que está mais para os desafios de um auto (móvel) do que para um (auto) conhecimento.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Crítica: Corações Sujos



Falar da própria aldeia e alcançar a universalidade pode não ser tão fácil como pregava Léon Tosltói. É preciso, antes de mais nada, saber sobre o quê e ou quem falar. O verbo pode se tornar uma faca de dois gumes, se o autor não souber decifrar o conteúdo das entrelinhas diárias dos seus vizinhos. A cultura japonesa, possivelmente, é a mais fechada e indecifrável a um gaijin, mesmo em sua própria terra. Foi o que comprovou a recente revelação de documentos sobre as atividades criminosas da Shindô-Renmei no Brasil.

Corações Sujos, dirigido por Vicente Amorim, é um drama inspirado em eventos relatados no livro homônimo do escritor Fernando Morais, lançado em 2000, que trata dos atos terroristas da organização Shindô-Renmei, nas colônias japonesas do interior de São Paulo, após a derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial. Neste mesmo ano foi publicado, dentro da Coleção Inventário DEOPS, Shindô-Renmei - Terrorismo e Repressão, de Rogério Dezem, uma obra que resgata importantes documentos guardados nos arquivos do Departamento de Ordem Política e Social de São Paulo (Deops), provenientes da investigação sobre as mesmas atividades criminosas da Shindô-Renmei (Liga do Caminho dos Súditos), entre 1945 e 1953. Parece que, de uma hora para outra, em meio aos preparativos da comemoração dos 100 anos da imigração japonesa (1908 - 2008), as portas da aldeia nipônica foram arrombadas e o silencio que era de ouro virou prata na palavra dos nisseis.


Baseado no roteiro de David França Mendes, Corações Sujos conta a história fictícia do fotógrafo Takahashi (Tsuyoshi Ihara), um imigrante japonês que vive com a esposa Miyuki (Takako Tokiwa) numa pequena cidade do interior paulista e, em 1946, após um incidente envolvendo soldados brasileiros e membros da colônia japonesa, é convencido a integrar o grupo Shindô-Renmei (Liga do Caminho dos Súditos). A organização, liderada por Watanabe (Eiji Okuda), um coronel reformado do Exército Imperial Japonês, é a responsável pelo “julgamento” e execução de japoneses considerados “traidores” do Império Japonês, por não acreditarem e ou duvidarem que o Japão tenha saído vitorioso da Segunda Guerra Mundial. Watanabe, que lutou na Guerra da Manchúria e não aceita a derrota do seu país de origem, é um hábil manipulador. É ele quem decide sobre a vida dos kachigumi (vitoristas) e ou morte dos makegumi (traidores - corações sujos), e quem transforma Takahashi em um assassino cruel.

Corações Sujos é impactante e corajoso ao tratar, com imparcialidade, um assunto  extremamente complexo e até controverso para alguns nisseis. Ele não esgota e tampouco aprofunda o tema, passando uma ideia errônea de apenas tangenciar fatos até recentemente desconhecidos da grande maioria dos brasileiros e dos japoneses. Uma infeliz escorregadela no roteiro também contribui para dar a impressão de que a história contada é maior do que a mostrada na tela. A sensação (de furo) é causada (principalmente) pela “presença” e “ausência” do subdelegado (Eduardo Moscovis) em momentos cruciais da trama. Fora isso, parece acertada a opção em falar apenas do Inferno (Shindô-Renmei) dentro do Inferno (Governo Vargas), logo após a Segunda Guerra, já que a repressão aos imigrantes alemães, italianos e japoneses, no período, é mais conhecida do que esta entre os próprios japoneses.


Corações Sujos não é uma tese de mestrado ou sequer um documentário sobre a Shindô-Renmei. Mas um filme de ficção que utiliza informações sobre uma organização criminosa real, como precioso pano de fundo, para contar uma interessante e envolvente história de amor e dor, vivida por estrangeiros em uma terra onde não se reconhecem nem mesmo estre os seus compatriotas. Se, enquanto cinema, chamar a atenção do público para o assunto polêmico, provocando acaloradas discussões socioculturais sobre o deveres patrióticos, honra, fé, tradição, justiça, valores humanos..., já terá valido o esforço.

A excelência do elenco, formado pelos maiores nomes do cinema japonês, em atuações impecáveis, dão à produção um invejável selo de qualidade. Vale destacar as performances de pelo menos três atores: Takako, no papel da compassiva esposa de Takahashi, emociona sem dizer uma palavra..., ela é toda e apenas olhar. A sequência em que “dialoga” com a cesta de milho, a casa e as galinhas pode ser considerada uma das mais fascinantes do cinema brasileiro; Tsuyoshi surpreende o espectador com a precisa transformação do jovial fotógrafo em um ensandecido e sanguinário “samurai”; O veterano Eiji Okuda, na pele de um “fundamentalista” que impõe a “sua verdade” aos colonos e age instintivamente em obediência cega ao Imperador Hiroíto e à tradição japonesa, provoca calafrios.

Corações Sujos tem uma excelente direção de arte de Daniel Flaksman e a fotografia de Rodrigo Monte, mesmo com um incômodo efeito de distorção (alegoria ou afetação?), é belíssima..., em alguns momentos beira o sublime. Quanto à música de Akihiko Matsumoto, ela é muito bonita, mas poderia se menos intrusiva.


Nota: Uma pergunta que não quer calar: O cartaz de Corações Sujos, criado pela Agência Ana França Design, é uma “homenagem” ao emblemático cartaz de Rogério Duarte para Deus e O Diabo na Terra do Sol (1964), de Glauber Rocha, ou é mera “coincidência” de ideia?

Para saber mais sobre a Shindô-Renmei:
No prefácio do livro Shindô-Renmei - Terrorismo e Repressão, de Rogério Dezem, o Prof. Dr. Sedi Hirano escreveu: “A tragédia ocorrida na sociedade dos imigrantes radicados no Brasil não poderia - jamais - ser compreendida de forma alguma no Japão, nem mesmo pelos jornalistas, ainda que estes estivessem sempre na vanguarda dos tempos. O sentimento dos imigrantes que na própria terra natal foram chamados de ignorantes, desprezados por serem desatualizados e que se envolveram em tramas devida ao único pecado que cometeram - o de serem súditos leais e submissos e de acreditarem incondicionalmente no paí­s de sua origem - não poderia ser compreendido por ninguém, a não ser por aqueles que conheceram a história da imigração e que sofreram as mesmas privações num país estrangeiro. Essa aventura da Shindô-Renmei, na verdade, é uma parte do lado trágico da história da imigração japonesa no Brasil. Ela deixou marcas profundas entre os imigrantes japoneses, necessitando ser desvendada e conhecida em profundidade.” O prefácio, na íntegra, pode ser lido aqui: Shindô-Renmei


segunda-feira, 2 de abril de 2012

Crítica: Xingu



Xingu é um filme que precisava ser feito. É uma história que precisava ser bem contada, antes que algum estrangeiro norte-americano lançasse mão e botasse índio bilíngue falando espanhol e inglês americano, ou coisa pior.

Eu me lembro de uma frase que pautava o Projeto Rondon e que chamou a minha atenção: “matar um índio, jamais, se preciso for, morrer por ele”, uma “tradução” da frase original: “morrer, se preciso for, matar, nunca”, do marechal Cândido Mariano da Silva Rondon (1865 - 1958). Era adolescente, não tinha idade e nem formação para participar e morria de inveja dos novos “bandeirantes”. Nessa época havia (também) muita notícia desencontrada sobre o trabalho de socialização que Orlando, Cláudio e Leonardo Villas Bôas desenvolviam junto às comunidades indígenas. Com o tempo as informações sobre a árdua lida dos irmãos acabaram encontrando foco. As ações que colocaram em prática, para garantir (com alguma dignidade) a sobrevivência dos povos indígenas, ainda hoje causam rebuliço e frio na espinha de governantes, agropolíticos, agroempressários, que continuam defendendo uma política (de ocasião) extrativista ampla, geral e irrestrita.


Assim como Rondon, os irmãos Villas Bôas procuraram conhecer, registrar e preservar a cultura indígena. Em 1958, quando da morte de Rondon, o antropólogo Darcy Ribeiro (1922 – 1997) fez um belo discurso em sua homenagem e, entre outros princípios, citou este: “O segundo princípio de RONDON é o do respeito às tribos indígenas como povos independentes que, apesar de sua rusticidade e por motivo dela mesma, têm o direito de ser eles próprios, de viver suas vidas, de professar suas crenças e de evoluir, segundo o ritmo de que sejam capazes, sem estarem sujeitos a compulsões de qualquer ordem e em nome de quaisquer princípios.” Claudio Villas Bôas também apostava na cultura: “Se achamos que nosso objetivo aqui, na nossa rápida passagem pela terra é acumular riquezas, então não temos nada a aprender com os índios. Mas, se acreditamos que o ideal é o equilíbrio do homem dentro de sua família e dentro de sua comunidade, então os índios têm lições extraordinárias para nos dar". Na trilha aberta por um segue a passos largos o outro.


Os heroicos Orlando (1914 - 2001), Claúdio (1916 - 1998) e Leonardo Villas Bôas (1918 - 1961) tinham consciência dos seus limites, estrangeiros que eram em terras nacionais indígenas. Mas sabiam da importância e da necessidade de cruzarem pacificamente a fronteira sociocultural e evitar (o impossível!) que outros homens (mal intencionados) chegassem antes. Assim, entre uma batalha e outra, abriram 1.500 quilômetros de picadas, percorreram 1.000 quilômetros de rios, abriram 19 campos de pouso, desbravaram 43 vilas e cidades, contataram 14 tribos e enfrentaram mais de 200 casos de malária. O preço foi alto, mas valeu a pena entrar num embate (ainda longe do fim) que garantiu direitos mínimos aos povos da floresta, até então considerados “ninguém”.


Xingu (Brasil, 2011), de Cao Hamburger, é um pertinente registro da histórica saga dos irmãos Orlando (Felipe Camargo), o responsável pelas articulações entre as desiludidas etnias e o titubeante poder oficial, Claúdio (João Miguel), o homem de campo inconformado com a situação dos silvícolas, sertanista extremamente consciente das consequências de cada gesto de “benevolência” dos brancos (inclusive dos seus): “Nós somos o antídoto e o veneno”, e Leonardo Villas Bôas (Caio Blat), o impulsivo e romântico desbravador que via a Expedição Roncador-Xingu como algo importante, porém, cansativo. A narrativa abrange o período que vai da Expedição Roncador-Xingu (1943) à criação da reserva indígena Parque Nacional do Xingu (1961). O fascinante drama, que lembra um documentário ao vivo, tamanha a entrega do elenco de atores (destaque para a excelência de José Miguel) e não-atores (os indígenas) ao projeto cinematográfico, é inspirado em fatos reais. Com roteiro do próprio Hamburger, em colaboração com Elena Soarez e Anna Muylaert, o épico traz à tona um Brasil de ontem, mas que ainda hoje insiste em tropeçar nos próprios erros.  


Cao é um cineasta que se destaca pela elegância na direção. Um dos poucos diretores que consegue dizer muito com o mínimo, sem jamais subestimar a inteligência do espectador e sem abusar de clichês. Xingu é a sua versão (compacta) de tudo que ouviu e leu (e filtrou) sobre os Villas Bôas, das desavenças familiares aos intensos conflitos com as tribos e posseiros, sem negligenciar as conturbadas negociações governamentais para a implantação do “território indígena”. É um filme que instrui, emociona e também constrange ao falar de direitos (reais), conquistas e barganhas. Em sua singularidade, não esgota o assunto sobre a posse da terra e das almas evangelizadas (e perdidas) desde os primeiros invasores europeus. No entanto, ao retratar com eficiência o trabalho dos irmãos Villas Bôas espera-se (ao menos) que desperte interesse (estudantil) e até abra discussão (comunitária) sobre um tema tão caro à maioria dos brasileiros.

Xingu foi rodado em belíssimas locações. A paisagem mítica e selvagem (cenário perfeito para a trama) garante o realismo na excepcional fotografia de Adriano Goldman, emoldurando uma história que, além da reflexão, convida o espectador urbano a fazer uma viagem sensorial. Um filme imperdível!

Fotos: Beatriz Lefèvre

quarta-feira, 28 de março de 2012

Crítica: Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios



Quem já viu algum filme de Beto Brant sabe que em suas histórias (adaptadas dos livros do escritor Marçal Aquino) os personagens são tensos, irritadiços, ansiosos...., parecem querer (sempre) distância do espectador. Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, é um belo título, sugere um romance melodramático leve. No entanto, traz um drama pesado, melancólico, à beira do trágico.

A trama de Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios (Brasil, 2011), com direção de Beto Brant e Renato Ciasca, se passa numa pequena cidade ribeirinha do Pará, onde a vida de três protagonistas flui em águas enganosamente mansas. O Pastor Ernani (Zé Carlos Machado) é um evangélico que acredita na redenção através da palavra de seu Deus. Lavínia (Camila Pitanga), a sua devotada esposa, tem razões para não duvidar da sua Fé, mas não se satisfaz com o seu amor imparcial. O fotógrafo Cauby (Gustavo Machado), de passagem pela região e apaixonado por ela, quer lhe dar muito mais que cânticos bíblicos. Ernani ama Lavínia que ama Ernani e Cauby, de maneiras (e intensidade!) diferentes. Em comum com os dois homens a mulher tem apenas o presente. O passado com Ernani é uma catarse em andamento. O futuro com Cauby está guardado numa pequena caixa (de Pandora?).


Quando se trata de amor a três (na literatura/música/teatro/cinema) todo mundo sabe que alguém (sempre) acaba sobrando (ou se dando mal) na relação. É que, razão, desejo e paixão são substantivos que não se conjugam no mesmo tempo. Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios tem uma história (se não tão original) ao menos curiosa e muito sensual, na tradução dos atos de amor cujo êxtase deixa seus protagonistas a um passo do Céu e ou do Inferno. Já que, na Fé ou em Eros, o orgasmo é o mesmo. No entanto, ao buscar ser mais do que realmente é (sem nenhum demérito: dramática, romântica, trágica, lasciva, com todos os clichês do gênero), apelando para uma cansativa narrativa viciada em fade, acaba comprometendo a leitura do espectador comum, que não está nem aí para o subtexto.

O filme tem algumas sequências magníficas e outras que não se sabe o que fazem ali. Parecem mais um tapa-buraco, uma pedra no meio do caminho dos amantes que não têm envolvimento algum com “cenas-denúncias” de devastação da Amazônia. Não há nem mesmo uma justificativa plausível para a morte de um pacifista e conciliador que incomodava (?). Barcas com madeira, garimpo, agronegócios..., podem até funcionar como mensagens subliminares, mas como trama paralela inexistem. Enquanto a caravana (coadjuvante) passa não há um cão (protagonista) sequer a ladrar. Já que o Pastor só está interessado em evangelizar e Lavínia e Cauby em fazer sexo. Cada um na sua crença e (aparentemente) alheios ao mundo ao redor.


Baseado no livro homônimo de Marçal Aquino, com roteiro de Beto Brant, Renato Ciasca e do próprio autor, Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios tem excelente elenco, com destaques para a intepretação espetacular de Camila Pitanga (uma das mais intensas do cinema nacional recente), que se entrega de corpo e alma à instável Lavínia, cheia de graça e pecado, e a performance vigorosa de Zé Carlos Machado, na criação de um Pastor tão carismático quanto perturbador. Mas quem rouba as pequenas cenas é Gero Camilo, na pele do colunista Viktor Laurence, cuja verve, docemente venenosa, pode ser o fiel da balança do Senhor (de todos os verbos). Há lacunas a serem preenchidas e excessos a serem lapidados (pelo público). O excesso de fade deixa o filme tão moroso que, a certa altura, parece não ter fim. Ainda assim, apesar dos estorvos, a quase ausência de trilha sonora e a bela fotografia compensam a sessão.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Crítica: Reis e Ratos



É difícil saber se o mundo (da política) teve (e ainda tem) mais reis que ratos e ou mais ratos que reis. As duas espécies sabem camuflar muito bem os seus interesses (fisiológicos). Mas o povo, na sua “ingênua idade”, segue acreditando que um dia (será que em Dezembro de 2012?) virá alguém para salvar as dores da sua Pátria (amada, idolatrada, salve, salve quem puder!).


Não é fácil classificar o filme Reis e Ratos (Brasil, 2011), com roteiro e direção de Mauro Lima. A narrativa delirante, com seu humor velho e rasteiro, abusa da paródia e da caricatura. Está mais próxima (do clima) de uma Commedia dell’arte do que de um Film noir. O argumento é até curioso, na promessa de um thriller político, ao focar (às vésperas do Golpe de 1964) a trama de democráticos norte-americanos (e seus interesses escusos) para desestabilizar o democrático governo brasileiro. Mas (em vez de mistério) o que prevalece é a farsa. O que até seria interessante (e eficiente) se realmente fosse engraçada. Em tempos de Carnaval, lembra mais um samba dos conspiradores doidos tangendo o gado e bebendo parati, do que uma marcha rancheira da família pela liberdade dos ouros teus.

O ano é 1963. A cantora Amélia Castanho (Rafaela Mandelli) vai fazer a abertura da Gincana da Cidade de Bacaxá, no interior do Rio de Janeiro. Pouco antes de se apresentar ela ouve, no rádio do automóvel, uma estranha comunicação, feita pelo seu locutor preferido: Hervê Gianini (Cauã Raymond), alertando sobre a explosão do coreto. O que de fato acontece. A partir deste atentado a história vai se fragmentando (confusa!) em flashbacks, apresentando os responsáveis pelo ato criminoso: Troy Somerset (Selton Mello), um Agente da CIA; Skutch Sanders (Kiko Mascarenhas), Diretor da CIA para assuntos da América do Sul; o Embaixador Americano (Helio Ribeiro); o conspirador Major Esdras (Otávio Müller); o latifundiário anticomunista Esmeraldo Carvalhal (Orã Figueiredo); o assassino de aluguel Paulo Barracuda (Daniel Alvim); o vigarista Roni Rato (Rodrigo Santoro), entre outros.


Além do 3D, parece que o cinema vem redescobrindo também o recurso narrativo do flashback, nem sempre com bons resultados. Em Reis e Ratos ele é um “elemento” mais complicador do que facilitador da leitura da obra, digamos, apócrifa. É tanto “vai e vem” que o espectador pode perder a noção do tempo da ação (passada e presente). A falta de convicção na ideia e no desenvolvimento da história e dos cartunescos personagens também compromete. E tem nada a ver com baixo orçamento ou com (apenas) 17 dias de filmagem. A risível impostação de voz de Cauã Raymond, no desempenho do locutor Hervê Gianini e de Selton Mello, no seu Troy Somerset, destoando completamente do resto do elenco, causam estranheza. Pela bizarrice, ambos parecem intérpretes de novela de rádio e ou dubladores de seriados televisivos da Screen Gems apresenta, que fugiram de suas caixas-veículos de comunicação e diversão só para se meterem nas negociatas americanas.

O experimentalismo fotográfico, que varia na cor, no sépia e no preto e branco, e alguns descuidos técnicos (cadê a ferida de Roni Rato?), acabam chamando mais a atenção do que o zum-zum-zum que entorna a História (real?) atropelando a ficção. No entanto, se o público não for muito exigente e realmente não levar muito a sério a barafunda de Reis e Ratos, é capaz de se divertir com alguma piadinha perdida e ou, ao menos, com a excelente atuação de Rodrigo Santoro, irreconhecível sob a maquiagem. Caso contrário, em vez de um gracejo vai ser um bocejo.

sábado, 12 de novembro de 2011

Crítica: Os 3



Os 3 (Brasil, 2011) é um filme brasileiro para quem gosta de cinema de qualidade e para restaurar a confiança do público que entrou de gaiato numa sala e acabou se atolando na pornochanchada em cartaz. Dirigido por Nando Olival, o drama cômico (e ou comédia dramática) narra o dia a dia de um divertido triângulo amoroso formado por três jovens universitários: Camila (Juliana Schalch), Cazé (Gabriel Godoy) e Rafael (Victor Mendes), recém-chegados a São Paulo, que se conhecem em uma festa e decidem dividir um apartamento. Eles são sonhadores, têm segredos, algumas frustrações, e estão virando a página da adolescência. Para conviver como novos adultos, a única regra é não se apaixonar uns pelos outros. Mas, como é mais fácil falar sobre relações (baseadas em amizade, amor, paixão, tesão) do que viver, eles vão ser obrigados a rever seus conceitos, quatro anos depois, quando um despretensioso projeto de graduação (do grupo) cai nas graças de uma grande loja de departamentos, e vira do avesso a vida da garotada. Ou melhor, expõe na rede a estranha vida deste adorável trio que já não sabe se a vida que leva é real ou pura encenação.


Por certo, alguns cinéfilos vão se lembrar que o tema já  propiciou a realização de clássicos e os jovens, menos informados, se muito, vão achar que tem a ver com aquela série chatinha: Aline. Bobagem, a coincidência está apenas no fato de ser um trio. Os 3 cheira a novidade e esbanja contemporaneidade. É deliciosamente juvenil e jovial. Com roteiro do próprio Olival, em parceria com Thiago Dottori, ele enreda o espectador, aos poucos, numa trama bacana, que brinca com a metalinguagem e também com a armação dos sem noção reality shows, surpreendendo o espectador duplamente voyeur. O elenco protagonista tem uma química toda especial e só o fato de não ser formado por “atores” celebridades, daquela tal rede de televisão, já é uma grande vantagem.


Os 3 é extremamente sensual e delicado ao tratar de flerte, amor e sexo. Sabe quando insinuar, o quê e quando mostrar, sem precisar explicitar gratuitamente. Ele tem bons diálogos e um humor saudável, sem escrachos e piadas de baixo calão. A sua comicidade desperta o riso fácil e não a gargalhada espalhafatosa. Ter e saber narrar uma boa história, já é meia metragem ganha, contar com ótimos atores, ajuda muito, mas Os 3 não se bastaria (nestes detalhes óbvios) sem a impressionante fotografia de Ricardo Della Rosa, com closes e enquadramentos inusitados, e a montagem especialíssima de Daniel Rezende, que dá leitura (e liga) às narrativas do filme dentro do filme, na internet e fora dela. Dispor de profissionais técnicos competentes, que fazem o difícil parecer fácil, é o ganho certo da outra metade da metragem.

Destacaria, ainda, a direção de arte de Clô Azevedo, pela habilidosa exploração cênica da atulhada locação, e a interessante trilha de Ed Côrtes, que chama a atenção por ser um complemento e não um incômodo condutor de emoções baratas.  Os 3 é daquelas raras produções nacionais que dão prazer assistir e recomendar. É, sem dúvidas, um dos melhores brasileiros do ano.

sábado, 24 de setembro de 2011

Crítica: Família Vende Tudo


Na onda das novas “comédias” brasileiras, modernosas e “ousadinhas”, chega Família Vende Tudo, com roteiro e direção de Alain Fresnot, um filme que deve agradar aquele público que ri de qualquer coisa, mesmo que não tenha a menor graça. Como quem tem na produção uma Rede XXXXX, não pega resfriado, nem que fique ao relento, por conta do elenco de novelas e seriados, deve fazer uma razoável bilheteria. 

A trama gira (feito metralhadora) em torno de uma família que vende mercadoria contrabandeada do Paraguai e, quando a situação financeira se complica, pede à filha Lindinha (Marisol Ribeiro) que se prostitua. O filho Webster (Robson Nunes), que é evangélico “aleluia” ferrenho, ao ouvir o sermão de uma bispa (Marisa Orth), tem a brilhante ideia de sugerir aos pais, Ariclenes (Lima Duarte) e Cida (Vera Holtz), que a irmã se “ofereça” a Ivan Carlos (Caco Ciocler), um famoso cantor de música brega, engravide e peça uma compensação. A “inocente” garota, linhagem chuchu da serra (herdada da mãe), adora o plano. É claro que, como se trata de uma família de “ingnorantes” as “coisa” vão “estar” dando errado (como reza o tradicional clichê), mas como são boa gente indecente, no fim tudo se ajeita (como reza o tradicional clichê). 


Família Vende Tudo (Brasil, 2011) aposta na exploração dos excluídos (sociais e morais) dispostos a levar vantagem em tudo. O tema não é novo, mas, se bem trabalhado, tem lá a sua curiosidade e significância. O problema é que a narrativa não decide para onde vai levar os seus caricatos personagens, se ladeira (mais) abaixo, se é que isso é possível, e ou ladeira acima, para abrir a porta da felicidade. Há um punhado de histórias (de baixaria, musica brega, periferia, corno, igreja evangélica, prostituição, lesbianismo) dentro de um liquidificador descontrolado sendo cuspidas para todo lado. Nenhuma delas convence. Insinua-se muito, mostra se pouco. É tudo raso. É tudo (hipocritamente) família (?). É tudo programa de TV de quinta categoria. É tudo sem importância e, por isso, sem empatia. 

Ao final, óbvio e troncho, a impressão é a de ter visto um dramédia romântico, mistura de drama que não é drama com comédia que não é comédia, num clima de contos de (sa)fadas dos mais piegas. Sem força para o drama, sem humor (timing) para a comédia e com romance de novela, restou rechear a história com palavrões, até nos trocadilhos com os nomes de cidades, e “brincar” de chanchadinha.

sábado, 27 de agosto de 2011

Crítica: O Homem do Futuro



Ufa! Finalmente estreia mais um filme brasileiro capaz de provar que, para entreter o espectador, não é preciso baixar o nível e nem subestimar o público que tem se deixado envolver pela nova e avassaladora onda de pornochanchadas que tomou conta dos cinemas.

O Homem do Futuro, escrito e dirigido por Claudio Torres, traz Wagner Moura, na pele de Zero, um cientista infeliz, egocêntrico e rancoroso que, por conta de um acidente, volta no tempo e decide acertar as contas com o seu passado. O que ele não contava é que, ao evitar uma humilhação pública, numa festa estudantil, onde se encontram a sua grande paixão, Helena (Alinne Morais), o namorado dela, Ricardo (Gabriel Braga Nunes), e a sua grande amiga, Sandra (Maria Luisa Mendonça), alteraria o futuro de todos. Como se vê, um tema que, com algumas variantes, ainda serve de inspiração para autores em todo o mundo. O melhor exemplo é o antológico e original conto Um Som de Trovão (1952), do mestre Ray Bradbury, já adaptado para HQs, TV e cinema. Mas, será que é possível trapacear o Tempo para, digamos, tirar proveito próprio? No final há uma resposta, se ela vai satisfazer a todos já é outra viagem.


O Homem do Futuro é repleto de referências cinematográficas assumidas pelo autor: “Usei referências de filmes que gosto de assistir e que assisti na minha infância. É uma junção dos seriados que passavam nas tardes de quando era criança como o Túnel do Tempo, Perdido no Espaço e Jornada nas Estrelas. Depois vieram De Volta para o Futuro 1, 2, 3; O Exterminador do Futuro 1, 2, 3 e 4; Peggy Sue; O Efeito Borboleta; A Dona da História de Daniel Filho e A Máquina do João Falcão. É possível perceber para quem tem mais de 40 anos que o figurino do Wagner é uma mistura de Buck Rogers com o professor Robinson de Perdido no Espaço, já a Alinne tem o figurino inspirado em Barbarela.”.  A boa dosagem na mistura de comédia, drama, romance e ficção científica, resultou num filme juvenil, cheio de reviravolta amorosa e profissional, bem ao gosto do público jovem. Quer dizer, desde que não espere a pancadaria típica americana em filmes do gênero. Aqui a ideia é outra, talvez mais “civilizada”.


Quem se acostumou com a linguagem de baixo calão, das recentes comédias brasileiras e americanas, pode estranhar a falta de piadas escatológicas, mas verá que é possível fazer um filme divertido e sem apelações. A produção surpreende com bom roteiro e ótimos efeitos especiais. Porém, decepciona com uma desastrosa continuidade (típica de continuísta de novelas da Rede XXXXX) e uma trilha sonora instrumental acidental (é isso mesmo, acidental!) horrorosa, irritantemente presente nos momentos dramáticos, cortando todo o clima das sequências. Infelizmente, trilha sonora de gosto duvidoso não é falha isolada nos filmes brasileiros (e americanos). O espectador que assistiu ao VIPs, de Toniko Melo, talvez encontre pontos em comum com a performance de Wagner Moura cantando e encantando na pele dos vários personagens criados por Marcelo da Rocha, já que agora, em O Homem do Futuro, ele “é” um, digamos, amalucado triunvirato. Esta aí um ator que realmente se multiplica!
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