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quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Crítica: Ben-Hur


Ben-Hur
por Joba Tridente

Que Hollywood refilma sucessos estrangeiros, para faturar um troco e para que o americano medíocre não precise ler as legendas, é notório. Assim como refilmar o seu próprio cinema (clássico ou não) em busca de plateias (de gênero) mais jovens. Agora, com a onda de cine-evangelização (Êxodos: Deuses e Reis e Noé, entre outros), então, dá-lhe releitura de produções com apelo cristão em toda a sua diversidade doutrinária..., ou seria religiosa?

Lançado em 1880, o romance Ben-Hur – A Tale Of The Christ, do escritor americano Lew Wallace (1827-1905), chegou aos cinemas em 1907, pelas mãos do canadense Sidney Olcott. Em 1925 foi a vez de Fred Niblo recontar a história que, em 1959, ganhou a espetacular adaptação de William Wyler, arrebatando 11 Oscar e se tornando um clássico, com a sua icônica sequência da corrida de quadriga. Agora, 109 anos depois da primeira adaptação, o épico está de volta (na mais infiel das versões!) às desaconchegantes salas dos shoppings, para jogar poeira nos olhos dos jovens (principalmente evangélicos).


Ben-Hur (Ben-Hur, 2016), dirigido por Timur Bekmambetov, é um grande imbróglio. O excesso de “liberdade poética”, com seus versos de pé quebrado, cometido pelos roteiristas Keith R. Clarke e John Ridley, deixa a obra original de Wallace praticamente irreconhecível. Nessa imitação barata, a narrativa rasa gira, corre, dilacera, reza ao redor do judeu Judah Ben-Hur (Jack Huston) e do seu amigo romano Messala (Toby Kebbell), adotado (?) ainda criança por sua família e herdeiro de uma ultrajante nódoa (?) do pai... Nem Lew pensaria em tamanha sandice fraternal e ou penal! A amizade de ferro entre os dois “irmãos” começa a enferrujar quando o nobre Ben-Hur é acusado de tentativa de assassinato (em mais uma abominável intervenção absurda dos roteiristas na obra original) e o então pretoriano Messala ajuda a condená-lo a passar o resto da vida como escravo acorrentado às galés romanas. 

Intervalo/spoiler: Como devem ter achado (essa gente adora deixar sua marca de imbecilidade) que o acidente do ladrilho (na cabeça do Pretoriano) era insignificante para justificar a severa punição a Judah Ben-Hur (exílio e escravidão vitalícia), os "autores" criaram novos personagens e reescreveram (?!) a cena, transformando o acidente em atentado, ignorando que a força da trama (que provoca repulsa a quem lê o romance de Lew e ou vê os filmes anteriores) está justamente neste “mero” detalhe: insignificância do acidente..., que serve de combustível para que o invasor romano reforce o seu poder de opressão contra qualquer ato (que lhe pareça) de rebeldia. Continuando: O judeu promete sobreviver ao castigo e voltar para se vingar do ex-irmão. E volta! O acerto de contas entre os dois ex-amigos se dará numa pista (vale tudo) de corrida de quadrigas..., e, desta vez, com direito a um (inescrupuloso) epílogo cristão! Intervalo/spoiler: Não satisfeitos com a adulteração do acidente, também sumiram com personagens importantíssimos no desenrolar do enredo (durante e pós-escravidão), mudaram a ordem de acontecimentos e ajeitaram até mesmo uma (inacreditável!) punição divina (aqui se faz e aqui – ou no Céu – se paga) para o “terrorista” zelote.


É impossível assistir a este discutível Ben-Hur, de Bekmambetov, sem compará-lo aos bons filmes anteriores e, principalmente, ao romance de Lew Wallace, de onde os realizadores parecem ter se apropriado apenas de alguns detalhes (título, nome de personagens, encontro com Cristo, competição), já que o quê se vê na telona é um arremedo da história original. Ou melhor, é um resumão novelesco temperado com moralidade cristã. É claro que não se pode esperar muito de um filme puritano onde protagonistas usam calças compridas estilosas, possivelmente desenhadas e muito bem costuradas (a mão?) pelos “descendentes” do estilista afogado por Deus em Noé (2014), mas, numa produção que testa a paciência e fé do espectador, não é nenhum pecado esperar por um milagre. Em vão!  

O certo seria deixar o livro de Lew Wallace quieto na estante e a memória do cinéfilo vagar quando quisesse pelos filmes realizados, porém, toda via caça níquel, já que a heresia foi cometida e os lendários personagens acordados, vamos ao que interessa. Com seu enredo raso e maniqueísta, focado na conturbada relação de amizade entre o bom (egoísta) judeu Judah Ben-Hur e o mau (egocêntrico) romano Messala, Ben-Hur força metáfora num “arco dramático” onde a flecha da compaixão contra a intolerância é Jesus Cristo (Rodrigo Santoro) e o alvo da redenção da humanidade é a sua cruz. Ideologia reforçada no simbolismo da corrida de quadrigas, onde a fé de seus condutores é representada nos carros puxados por cavalos brancos (Deus de Israel = luz) e por cavalos negros (Deuses Romanos = trevas)..., dualidade já vista nas cenas iniciais após um acidente com Ben-Hur. A impressão (que fica!) é a de que a motivação (subliminar) da trama é tão somente a doutrinação cristã, a evangelização do espectador, claramente pontuada em fracos diálogos (moralistas e pretensamente políticos) e cenas de perdão a crimes cometidos em nome da liberdade e ou da soberba. Os realizadores levaram mais ao pé da letra o “amai-vos uns ao outros” que o próprio autor do livro.


Pautado por uma trilha pra lá de previsível e talvez pela falta do quê dizer, excetuando as sequências da batalha marítima e da corrida de quadrigas, suas cenas são breves e geralmente em planos fechados (haja close!), para fazer o menos (cenários, personagens, figurantes) parecer mais..., alguns enquadramentos, inclusive, lembram a versão de 1925. Seus personagens (sem o menor carisma) claudicam a esmo pela narrativa, em busca de um rumo, para que o enredo capenga não pareça uma aberração ainda maior. Embora não se espere algum humor num drama religioso trágico, confesso que me diverti, ao menos duas vezes. Uma: ao imaginar que Jesus Cristo poderia aparecer, assim como Ben-Hur, Messala e Esther, vestindo calças de couro/corino. Outra: na crucificação de Cristo, ao lembrar do discurso proferido pelo centurião romano (George Clooney) no genial Ave Cesar! (2016), dos irmãos Coen, que, aliás, presta divertida homenagem ao clássico de 1959.

Enfim, Ben-Hur é um filme de ação (até) violenta, pouca aventura e nenhuma alegria que, dependendo do conhecimento do espectador sobre os filmes anteriores e o romance cristão, poderá ser recebido com: aleluia! e ou: anátema!. Sem mais, desculpa o trocadilho duvidoso: este Ben-Hur é bem ruim.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Crítica: 300: A Ascensão de um Império


Quando começou a boataria sobre a continuação de 300 (2007), de Zack Znyder, que trataria da ascensão de Xerxes, a partir de uma graphic novel a ser escrita também por Frank Miller, estranhei que o nome de Rodrigo Santoro fosse pouco citado. Após a sessão de 300: A Ascensão de um Império entendi que o filme não é sobre a personagem Xerxes, mas sobre Artemísia, levemente inspirada na dissidente grega homônima, rainha de Halicarnasso, que preferiu se juntar ao rei persa e comandar seus próprios navios, na famosa Batalha de Salamina. Ou seja, se em 300, Santoro já não era exatamente o protagonista, agora, a sua presença passa quase despercebida (exagero!)..., se muito, dura uns quinze minutos como coadjuvante, entrando praticamente mudo e saindo praticamente calado.

300: A Ascensão de um Império (300: Rise of an Empire, 2013), dirigido por Noam Murro, com roteiro de Zack Snyder e, Kurt Johnstad, acontece durante, antes e depois dos fatos apresentados em 300 (espartanos), numa espécie de “continuação descontinuada”. O mote ainda é a vingança (e em dose dupla!), mas a rota, agora, é a mobilização do nobre ateniense Themistokles (Sullivan Stapleton) para formar um exército e, em nome da democracia, defender a Grécia dos invasores persas. A ação é centrada nas famosas Batalha de Artemísio e Batalha de Salamina (480 a.C), onde o herói enfrentou a tirana Artemisia (Eva Green), comandante da frota marítima de Xerxes (Rodrigo Santoro).


A começar pela arrepiante abertura, com os logos dos produtores transformados em portões e um mural de bronze em baixo-relevo ganhando cor e forma da Batalha de Termópilas, onde Leônidas (Gerard Butler) morreu com seus comandados, 300: A Ascensão de um Império dá ao espectador aquilo que foi procurar: Sangue! Sangue! Sangue! É um festival de decepamentos (membros voando pra todo lado) aos modos da violentíssima série Spartacus que, por sua vez, se embebedou no sangue de 300. Se prequel ou se sequel, o importante é a quantidade de bloody greco-persa servido aos ávidos espectadores.

Os criadores de 300: A Ascensão de um Império, com suas liberdades prá lá de “poéticas”, é óbvio, não estão preocupados com a veracidade dos fatos, segundo a História Oficial, mas com o impacto visual que o espetáculo (e que espetáculo em 3D IMAX!) vai causar. Esse descompromisso (ou seria descaso?) hollywoodiano com a História Oficial, inclusive, foi visto recentemente na discutível e “didática” animação As Aventuras de Peabody e Sherman. Portanto, é bobagem, total perda de tempo tentar levar a sério uma narrativa cujo experimentalismo (gráfico!) parece ser mais importante que o assunto que ilustra.


Não é preciso ser um historiador para desconfiar das motivações e do desfecho dado a alguns personagens protagonistas (Themistokles e Artemisia) e coadjuvantes (Xerxes e Dario). Afinal, livro é livro, História é História..., e filme é um departamento repleto de clichês ao sabor dos realizadores. Filmes como os dois 300, não foram feitos com intenções didáticas, mas com a pretensão de divertir e (claro!) gerar muita renda (só isso!). Se for preciso mudar a História, em nome da diversão, não resta a menor dúvida que os estúdios vão contar a sua versão, a sua estória.

A suntuosidade cenográfica (a gente nem lembra que é CGI) e as sequências de batalha marítima, de 300: A Ascensão de um Império são de cair o queixo. O enredo que, em seu cortante círculo vicioso, se desenvolve de forma falsamente despretensiosa, empolga mais do que incomoda. A “dissidente” grega Artemisia (Green), que caiu no gosto da crítica, talvez pela beleza do figurino e da atriz, é a personagem menos convincente. Quando parece que ela vai fazer e acontecer..., brocha. E por falar em brochar, a “recatada” sequência de sexo (implícito entre cenas de violência explícita) do casal guerreiro é tão brochante que merece o Framboesa de Ouro pela pior performance sexual. Tá bom..., a cena do beijo na cabeça decapitada é muito boa. Assexuada, mas boa!


Enfim, o filme não encanta como o inusitado 300 (2007) e muito menos sobra algo na memória que vá muito além dos impressionantes efeitos especiais. Uma piadinha (meio sem graça) aqui e outra acolá. Assim como Xerxes (Santoro), outros sobreviventes da batalha anterior, como a narradora Rainha Gorco/Oráculo (Lena Headey) e o descartável corcunda traíra Ephialtes (Andrew Tiernan), aparecem para fazer também uma ponta. Pode ser uma boa diversão para quem gosta do gênero (épico), desde que não se aborreça com estética gore (extrema violência) e entre no clima de ação dessa estória paralela à História Oficial.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Crítica: O Último Desafio



O que esperar quando já se sabe o que esperar de um filme policial estrelado por Arnold Schwarzenegger, cujo título é O Último Desafio? Que não importa quem ou quantos são os bandidos de ocasião, já que todos serão devidamente trucidados? Que não importa quem vai lavar a telona depois da sessão de extrema violência? Que, ao contrário do que sugere o título, este não é o derradeiro filme do astro das pancadarias? Que um monte de outros “quês” não faz a menor diferença, desde o filme de ação faça valer o ingresso?

O Último Desafio (The Last Stand, EUA, 2013), dirigido pelo coreano Kim Jee-woon, gira (em alta velocidade!) em torno de velho Xerife Ray Owens (Arnold Schwarzenegger), que vive na pequena Sommerton Junction, fronteira com o México, e descobre, da pior maneira possível, que a sua pacata cidade está na rota de fuga (e colisão!) do famigerado traficante Gabriel Cortez (Eduardo Noriega). O bandido que escapou espetacularmente de um comboio do FBI, pilota um Corvette ZR1 que, com mais de 1.000 cavalos de potência, atinge a 300 km/H. Como desgraça pouca é bobagem, antes de se preocupar com Cortez, o Xerife vai ter de resolver um “probleminha” de território com a quadrilha dele, chefiada por Burrell (Peter Stormare), que já chegou à região. Ray Owens, ex-policial de narcóticos (que já viu sangue e morte demais), vai contar apenas com a sua astúcia e a ajuda de um grupo despreparado: os policiais Mike (Luis Guzman), Sarah (Jaimie Alexander) e Jerry (Zach Gilford), um desocupado curando a ressaca na cadeia, Frank (Rodrigo Santoro), e um maluco colecionador de armas, Lewis (Johnny Knoxville), que tem um arsenal parecido com aquele visto em Exterminador do Futuro 2.


O roteiro de Andrew Knauer é puro clichê: traficantes, FBI, refém, Xerife em fim de carreira, perseguição de carro e a pé, tiroteio, pancadaria, destruição e muito sangue. Quando começa (após o fantástico prólogo) você já sabe como vai terminar. E os fãs do gênero querem mais do que isso? Os personagens são rasteiros, pouco interessantes, mas o tom de humor dos diálogos, principalmente aqueles em que o velho Owens (o personagem) parodia o velho Schwarzenegger (o ator) ajudam a digerir. Ray e seu grupo heterogêneo lembra um exército brancaleônico. Na verdade, à parte a violência, o tom do filme é meio Brancaleone e meio Monty Pyton. Não é um humor negro tarantinesco, é mais pastelão. Estranha mistura!


O Último Desafio não é um filme que exige grandes interpretações, portanto o elenco está dentro da competência combinada. Ou, no mínimo, se divertindo e ganhando um din din, já que nem mais o Arnold é de aço. O cultuado Kim Jee-woon (mestre do horror) parece não se importar muito com o roteiro fraco (cheio de referência a filmes antigos de Schwarzenegger) e consegue o máximo do mínimo, nesse gênero batido que só tem ganhado alguma sobrevida ao dialogar com o humor. Ele sabe o que quer das cenas de ação e o seu fotógrafo Ji-yong Kim sabe muito bem como filmar. Já na fantástica abertura (uma das mais bonitas dos últimos anos) e crédito inicial , eles dizem a que vieram. Toda a trama tem o ritmo narrativo de HQs. Os enquadramentos são incríveis e vão da “simplicidade” dos Mangás à sofisticação das Graphic Novels, resultando em sequências sensacionais. A perseguição no milharal é fascinante na sua tensão e plasticidade. Fazia tempo que não via uma sequência tão criativa e tão bem realizada.

O Último Desafio é insano, banal, engraçado, saudosista, realista, óbvio, violentíssimo..., mas não há como negar que é um filme que cumpre o que promete. Os fãs de Schwarzenegger, que há muito esperavam por esse reboot, e de Santoro, se firmando nesse concorrido mercado..., não vão ter do que reclamar. 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Crítica: Reis e Ratos



É difícil saber se o mundo (da política) teve (e ainda tem) mais reis que ratos e ou mais ratos que reis. As duas espécies sabem camuflar muito bem os seus interesses (fisiológicos). Mas o povo, na sua “ingênua idade”, segue acreditando que um dia (será que em Dezembro de 2012?) virá alguém para salvar as dores da sua Pátria (amada, idolatrada, salve, salve quem puder!).


Não é fácil classificar o filme Reis e Ratos (Brasil, 2011), com roteiro e direção de Mauro Lima. A narrativa delirante, com seu humor velho e rasteiro, abusa da paródia e da caricatura. Está mais próxima (do clima) de uma Commedia dell’arte do que de um Film noir. O argumento é até curioso, na promessa de um thriller político, ao focar (às vésperas do Golpe de 1964) a trama de democráticos norte-americanos (e seus interesses escusos) para desestabilizar o democrático governo brasileiro. Mas (em vez de mistério) o que prevalece é a farsa. O que até seria interessante (e eficiente) se realmente fosse engraçada. Em tempos de Carnaval, lembra mais um samba dos conspiradores doidos tangendo o gado e bebendo parati, do que uma marcha rancheira da família pela liberdade dos ouros teus.

O ano é 1963. A cantora Amélia Castanho (Rafaela Mandelli) vai fazer a abertura da Gincana da Cidade de Bacaxá, no interior do Rio de Janeiro. Pouco antes de se apresentar ela ouve, no rádio do automóvel, uma estranha comunicação, feita pelo seu locutor preferido: Hervê Gianini (Cauã Raymond), alertando sobre a explosão do coreto. O que de fato acontece. A partir deste atentado a história vai se fragmentando (confusa!) em flashbacks, apresentando os responsáveis pelo ato criminoso: Troy Somerset (Selton Mello), um Agente da CIA; Skutch Sanders (Kiko Mascarenhas), Diretor da CIA para assuntos da América do Sul; o Embaixador Americano (Helio Ribeiro); o conspirador Major Esdras (Otávio Müller); o latifundiário anticomunista Esmeraldo Carvalhal (Orã Figueiredo); o assassino de aluguel Paulo Barracuda (Daniel Alvim); o vigarista Roni Rato (Rodrigo Santoro), entre outros.


Além do 3D, parece que o cinema vem redescobrindo também o recurso narrativo do flashback, nem sempre com bons resultados. Em Reis e Ratos ele é um “elemento” mais complicador do que facilitador da leitura da obra, digamos, apócrifa. É tanto “vai e vem” que o espectador pode perder a noção do tempo da ação (passada e presente). A falta de convicção na ideia e no desenvolvimento da história e dos cartunescos personagens também compromete. E tem nada a ver com baixo orçamento ou com (apenas) 17 dias de filmagem. A risível impostação de voz de Cauã Raymond, no desempenho do locutor Hervê Gianini e de Selton Mello, no seu Troy Somerset, destoando completamente do resto do elenco, causam estranheza. Pela bizarrice, ambos parecem intérpretes de novela de rádio e ou dubladores de seriados televisivos da Screen Gems apresenta, que fugiram de suas caixas-veículos de comunicação e diversão só para se meterem nas negociatas americanas.

O experimentalismo fotográfico, que varia na cor, no sépia e no preto e branco, e alguns descuidos técnicos (cadê a ferida de Roni Rato?), acabam chamando mais a atenção do que o zum-zum-zum que entorna a História (real?) atropelando a ficção. No entanto, se o público não for muito exigente e realmente não levar muito a sério a barafunda de Reis e Ratos, é capaz de se divertir com alguma piadinha perdida e ou, ao menos, com a excelente atuação de Rodrigo Santoro, irreconhecível sob a maquiagem. Caso contrário, em vez de um gracejo vai ser um bocejo.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Crítica: Meu País


Meu País, longa de estreia de André Ristum, ao contrário do que possa sugerir o título (que tanto pode aguçar a curiosidade e ou afastar de vez o espectador) não tem nenhuma conotação sócio-política (sequer fictícia) relacionada ao Brasil. A sua trama gira em torno de Marcos (Rodrigo Santoro) um empresário que mora na Itália e raramente se comunica com a sua família brasileira, o pai Armando (Paulo José) e o irmão Tiago (Cauã Reymond). Entretanto, com a morte do pai ele se vê obrigado a voltar ao seu país de origem, para colocar ordem nos negócios da família, e se depara com um irmão perdulário e um imbróglio complicado: Manuela (Débora Falabella), uma irmã (com deficiência intelectual), que não sabia existir e que vive internada numa Clínica. 

Recentemente premiado no 44°. Festival de Cinema de Brasília do Cinema Brasileiro: diretor (André Ristum), ator (Rodrigo Santoro), montagem (Paulo Sacramento), trilha sonora (Patrick de Jongh) e Juri Popular, Meu País é um drama familiar intenso e idílico, cuja concepção lembra o cinema gaúcho e italiano. Talvez pelo distanciamento dos personagens (frios) e seus dramas familiares, que estão mais próximos da literatura do que da novela (costumeira no cinema). Apesar do bom ritmo narrativo e da curiosa história, não há clima para o envolvimento do espectador que (também) não se reconhece na tela. É com se ele estivesse passando por algum lugar e ouvisse pedaços de um relato, sem muito detalhamento, e captasse apenas a essência do que esta sendo dito. O que pode ser melhor que a prosa inteira. Ou um fiasco. 


Na trama proposta pelo roteiro de Ristum, Marco Dutra e Octavio Scopelliti, o público tem pouca ou nenhuma referência sobre o comportamento dos personagens, e sairá da sala sem nenhuma resposta à sua dezena de por quês. É claro que poderá conjecturar durante todo o filme, por conta de um olhar, gesto e ou sequencia intempestiva, e concluir a história como quiser. Porém, num enredo (econômico) que só tem o meio, ele terá que conceber um princípio e um fim. O que não deixa de ser interessante para alguns espectadores, mas incômodo para a maioria que gosta de tudo explicadinho. 

Segundo André Ristum, o “Meu País” do título refere-se ao “país interior” de Marcos. Ou seja, tem mais a ver com sentimentos familiares do que com ufanismo (para o bem ou para o mal). Se o país físico (chão) confunde-se com o país afetivo (família), Marcos deve ser um sem-pátria. A ternura (se muito) só lhe é possível através da deficiência da irmã e da eficiência da esposa Giulia (Anita Caprioli), que o acompanha, mas se sente estrangeira nos braços do marido que se sente estrangeiro no seio da (própria) família que vive de aparências. Egoístas e egocêntricos, cada irmão é “um país” em vias de explosão, enquanto Manuela é um “mundo novo”, um estorvo que pode acirrar a disputa pelo “território alheio”, ou ser o “país neutro” da conciliação. 


O ponto em comum, entre os três, é a identidade perdida de cada um. A linha entre o “cuidar” e o “amar” é tênue e “cuidar” não que dizer, necessariamente, “amar”. Os irmão sabem que afeto (perdido) se (re)conquista, mas não se obriga. Partir ou ficar pode ser muito mais que uma metáfora. O que lembra uma antiga canção: O amor é o meu país (Ivan Lins / Ronaldo Monteiro De Souza), de 1970: Eu queria, eu queria, eu queria/ Um segundo lá no fundo de você/ Eu queria me perder, ah! me perdoa/ Porque eu ando a toa sem chegar/ (...) Quão mais longe se torna o cais, lindo é voltar/ É difícil meu caminhar, mas vou tentar/ Não importa qual seja a dor,/ Nem as pedras que eu vou pisar/ Não me importo se é pra chegar/ Eu sei, eu sei/ De você fiz o meu país/ Vestindo, festa e final feliz/ (...) Eu vi, eu vi/ O amor/ É o meu país/ (...) Sim, eu vi/ O amor/ É o meu país. 

O diferencial de Meu País está no seu foco narrativo, que conta com direção segura e um elenco (contido) eficiente. O grande destaque, sem dúvida, é a excelente atuação de Rodrigo Santoro (que vem surpreendendo desde o inquietante O Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodanzky e o belíssimo Abril Despedaçado, de Walter Salles, ambos de 2001) e a marcante participação de Paulo José. Não é um filme fácil, mas se deixa ver com um certo prazer.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Crítica: O Golpista do Ano


O Golpista do Ano
ou: Eu te amo, Phillip Morris

Eu Te Amo, Phillip Morris, que no Brasil recebeu o execrável título de O Golpista do Ano, pode deixar muito espectador em sauna justa, digo saia justa, se for fã do trio protagonista e entrar no cinema esperando ver uma coisa e assistir a outra. Tem tudo para agradar até quem ainda não decidiu sair do armário, mas, se o desavisado tiver tendências homofóbicas, vai querer receber o seu dinheiro de volta. É que o híbrido filme dos roteiristas e diretores John Requa e Glenn Ficarra conta a história realmente verdadeira de Steven Russell (Jim Carrey) e seus absurdos e inacreditáveis golpes para viver uma vida glamorosamente “gay, gay, gay”. Esqueça A Gaiola das Loucas (1978) ou Priscila, A Rainha do Deserto (1994), porque aqui a pegada é bem diferente.

Rebombinando: O Golpista do Ano (I Love You Phillip Morris, França, EUA, 2009), dirigido pelos politicamente incorretos Requa e Ficarra, é um filme que desfila pelos mais variados gêneros cinematográficos: biografia, comédia, drama, policial, prisão, para narrar a espetacularmente complicada e turbulenta vida de Steven Russel (Carrey): um bom policial, bom marido, bom pai de família, bom religioso que, após um grave acidente, decide assumir a sua homossexualidade. Parece simples, não? Acontece que Russel acredita que a felicidade gay está em ser fashion. E para viver no luxo, o faustoso personagem decide aplicar “inocentes” golpes em seguradoras. Bem, como uma mentira sempre puxa outra a reboque, acaba exagerando na dose e nos presentes para a ex-mulher e filha e para o seu namorado Jimmy Kemple (Rodrigo Santoro) e vai parar num presídio, onde se apaixona por Phillip Morris (Ewan McGregor), um prisioneiro ingênuo e romântico. E isso é só o começo do drama narrado pelo próprio Steven Russel, em seu leito (hospitalar) de morte. A ironia, o sarcasmo, a inversão de valores que vem depois..., é ver pra crer.


Baseado na biografia de Steven Russel, publicada no livro Eu te Amo, Phillip Morris (I love you Phillip Morris: a true story of life, love, and prison breaks), do jornalista Steve McVicker, lançado no Brasil pela Editora Planeta, o filme lembra (a princípio) dois outros grandes momentos cinematográficos, envolvendo golpistas brilhantes: Prenda-me se for capaz (Catch Me If You Can, 2002), de Steven Spielberg, com Leonardo DiCaprio, no papel de Frank Abagnale Jr, que aos 18 anos era um mestre na arte dos disfarces e dos golpes milionários; e Os Safados (Dirty Rotten Scroundels, 1988), dirigido por Frank Oz, onde Michael Caine (Lawrence Jamieson) e Steve Martin (Freddy Benson) são dois vigaristas que seduzem milionárias de meia idade – refilmagem de Dois Farristas Irresistíveis (Bedtime Story, 1964), direção de Ralph Levy, com Marlon Brando e David Niven. Porém, a lembrança é apenas por conta da malandragem, da esperteza, da classe dos golpes, já que segue por um viés bem mais incômodo.

O Golpista do Ano, que vem enfrentando problemas de distribuição nos EUA, é ferino, mordaz, com seu (involuntário) humor negro e suas cenas de sexo semi-explícito. Ele traça um painel divertidamente triste de um mundo (nem sempre) alegre, como fazem parecer os homossexuais que se assumem e botam o bloco na rua, na boate, na moda..., mas que, na maioria das vezes, fora do armário, se veem obrigados a suprir uma carência (principalmente) afetiva com agrados além das posses e da pose. Russel “viveu” tantas personas, em busca do prazer e da felicidade (também de quem amava) que, a certa altura, não tinha mais certeza de quem realmente era. Porém, o mais importante, sabia “quem” não queria ser.

Não é um filme linear e nem tão pouco clichê. Assim como o roteiro, a direção provoca o espectador e, ao mesmo tempo em que o diverte, o adverte sobre arraigados conceitos e preconceitos da (homos)sexualidade. Sem deixar de cutucar a religiosidade, família, negócios, amizade. Quem resistir ao “chocante” prólogo vai se surpreender com Jim Carrey, exercitando todo o seu talento dramático e cômico, na companhia de Ewan McGregor, ator que personifica Phillip com uma sutileza arrebatadora, e de um competente Rodrigo Santoro que, mais uma vez, não entra mudo, mas sai de cena de forma dramática. É um excelente programa (sem trocadilho) pra quem gosta de variar (sem queimar) o filme e costuma deixar o puritanismo trancado na gaveta do criado mudo.
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