Mostrando postagens com marcador Sci-Fi. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sci-Fi. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Crítica: A Chegada


A  Chegada
por Joba Tridente

Para quem está procurando novidade no gênero ficção científica, uma boa sugestão é o enigmático e introspectivo filme A Chegada, do diretor canadense Denis Villeneuve, baseado na novela A Story of Your Life (prêmios Sturgeon/1999 e Nebula/2000), do escritor Ted Chiang..., obra que discute a (ainda controversa) relatividade linguística Sapir-Whorf ¹.


A Chegada (Arrival, 2016), com suas aeronaves côncavas pairando entre o Céu e a Terra ou entre o Céu e o Mar, feito 12 Torres de Babel em forma de orelha de pedra, nos conduz curiosamente através do signo linguístico a uma intensa viagem ao obscuro interior de nós mesmos. O quê ou quem somos nós diante de um desconhecido? Por que tememos (e nos armamos) diante do desconhecido. A palavra ou sua ausência é o quê nos conduz à glória e ou à derrota..., das meras relações familiares às internacionais (ou interestelares!). Passamos a vida interpretando sinais da natureza animal e não-animal e basta uma imagem e ou gesto em falso, uma palavra mal dita, mal pontuada e ou mal significada, um alimento vencido..., para a linha da vida se tornar ininteligível.


Ver (o outro), ouvir (o outro), compreender (o outro) para, então, dialogar com o outro é a base, o mote deste thriller espetacular que procura na metafísica uma forma diferenciada de se comunicar com o espectador. Nele, acompanhamos fascinados o trabalho da linguista Dra. Louise Banks (Amy Adams) e do físico Ian Donelly (Jeremy Renner), convocados pelo coronel Weber (Forest Whitaker), das Forças Armadas Americanas, para intermediarem o contato entre humanos e alienígenas, cuja nave “pousou” em Montana.

O quê não lhes falta são perguntas aos visitantes espaciais. Porém, como indagar das suas intenções (turismo, imigração ou invasão?) quando não se tem ideia da língua deles e nem ciência de que conhecem a nossa? Enquanto os governos de todo o mundo têm pressa em conhecer a motivação alienígena, para (se preciso) se armar..., Louise precisa de tempo para encontrar a ferramenta certa, a sua Pedra de Roseta para decifrar um painel repleto de signos complexos, no interior da nave. Cena que remete a uma sequência emocionante em Para Sempre Alice (2014), onde, em plena sala de aula, a linguista Alice/Juliane Moore, sentindo os primeiros sintomas do Mal de Alzheimer, não consegue definir “Léxico” (..., as palavras estão todas aí, mas não consigo alcançá-las!). É o mesmo sentimento de impotência de Banks e Donelly frente a um símbolo de “duplo” sentido.


A Chegada, com ótimo roteiro de Eric Heisserer, é um drama existencial pautado pela comunicação entre espécies diferentes, pela busca de um diálogo em comum (pacifista!), seja com ETs, com governos interconectados e ou com cidadãos que se deixam influenciar pela mídia sensacionalista e as religiões descerebradas. A trama intimista desvela a aldeia (que se quer) global a cada dia mais fragmentada. Toda via do verbo mal conjugado, num mundo individualista (que se quer unido), constantemente hackeado (espionado), como confiar em quem nos parece “perigoso” por conta da língua e ou do costume?

Ao contrário das anestesiantes produções de ação explosiva, repletas de efeitos especiais mirabolantes, A Chegada é uma ficção científica provocativa, do tipo que estimula o cérebro, fazendo até mesmo o espectador mais néscio pensar no assunto. Sem parecer didática, a narrativa sóbria (que joga com o fluxo de tempo na memória afetiva) explora as ciências humanas e as exatas sem arrogância e ou achismos bobos..., embora no campo fictício tenha essa liberdade poética imaginativa que diverte fãs do gênero e apavora cientistas (reais). A gravidade singular, no interior da nave extraterrestre, é um achado que pode ter um duplo sentido nas duas ciências!


Enfim, considerando o brilho do roteiro contrario à “lógica” hollywoodiana do mocinho americano versus vilão espacial; a direção equilibradíssima; o elenco excelente; a eficiência dos “tímidos” efeitos especiais; a montagem (pegadinha?) bacana..., definitivamente, este é um filme indicado ao espectador inteligente ou, pelo menos, acima da média, à procura de diversão com reflexão!


1. Relatividade Linguística, sugestão de leitura, entre outras: A teoria da relatividade linguística Sapir-Whorf e Universalismo e Relativismo Linguístico.


Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Crítica: No Mundo da Lua


Após a realização de dois curtas de sucesso (Tadeo Jones (2005), indicado ao Oscar de melhor curta-metragem, e Tadeo Jones e o Porão da Desgraça (2007), ambos ganhadores de inúmeros prêmios, entre eles o respeitadíssimo Goya), Henrique Gato partiu para um longa-metragem e surpreendeu a indústria do entretenimento e os fãs de animação com o arrasa-quarteirão As Aventuras de Tadeo, uma divertida paródia a Indiana Jones. As críticas negativas (principalmente dos espanhóis) foram por conta da americanização dos personagens.

Em No Mundo da Lua (Atrapa la bandera ou Capture The Flag, em inglês, 2015), ganhador dos Prêmios Goya e Gaudí, equivocadamente de olho na bandeira econômica do mercado externo, os realizadores espanhóis continuam esquecidos de sua aldeia na louvação à cultura (expansionista) americana. Todavia, deixando de lado este incômodo americanismo, baseado no bom roteiro de Jordi Gasull, Neil Landau, Javier López Barreira, o diretor espanhol Henrique Gato fez um filme infantojuvenil agradável até mesmo para os acompanhantes adultos.


No Mundo da Lua gira ao redor de Mike Goldwing, um garoto de 12 anos, filho e neto de astronautas, que leva uma vida saudável e dinâmica ao lado dos amigos Amy Gonzáles e Marty Farr, mas sofre por não conseguir reunir o pai (Scott) e o avô (Frank), separados por causa de uma antiga desavença. Por isso, ao saber que o programa espacial americano de viagem à Lua vai ser reativado..., para evitar que o bilionário Richard Carson, que alega que o homem (americano “em nome de toda a humanidade”) jamais esteve lá e que portanto o satélite é um território livre para explorar o Hélio 3..., vê, aí, a chance do pai e do avô trabalharem juntos e se reconciliarem. O empenho de Mike é grande, porém, ele, Frank, Amy e o lagarto Igor acabam vítimas do ardiloso Carson e, aprisionados num velho foguete, vão ter que se virar para não acabarem mortos e ou perdidos no espaço rumo à Lua.


Embora seja a corrida espacial pela (re)conquista da Lua que impulsiona a narrativa, o que mais se destaca na trama de ação e aventura é mesmo a (re)conciliação familiar, a (re)união familiar, a realização de sonhos em família. O assunto amor e devoção à família não é totalmente ruim..., já foi desculpa até no dramalhão sci-fi Interestelar (2014), de Christopher Nolan..., só é muito lugar comum. A questão nem é a de filmes e mais filmes baterem na mesma tecla, mas de se conseguir extrair um som realmente novo dessa repetição. E, verdade seja dita, pelo sim, pelo não, batendo daqui para ecoar acolá, Gato e seus roteiristas até que relevam momentos e diálogos singelos e comoventes para os dias de hoje, em que (prisioneiras das tecnologias) as famílias andam cada vez mais disfuncionais.


O título original Pegar a Bandeira refere-se tanto a uma competição esportiva (da abertura do filme) quanto à bandeira (americana) fincada na Lua por Neil Armstrong (“É um pequeno passo para o homem, um salto gigantesco para a humanidade.”) e Edwin “Buzz” Aldrin, em 1969, na missão Apolo XI, e que Carson pretende roubar para simular que jamais algum terrestre esteve lá..., confirmando assim a mais famosa e divertida teoria da conspiração envolvendo o mestre Stanley Kubrick (retratado na “reconstituição” hilária de um mockumentary encontrável na web). Por falar em reconstituição, é uma pena que os realizadores espanhóis tenham optado pelo incômodo beija-mão do estadunidense, em vez do clima de deboche que até ensaia (em alguns momentos com os engenheiros Steve Gigs e Bill Gags, inspirados em Steve Jobs e Bill Gates, que Carson contrata para construir a sua espaçonave), mas sem muito entusiasmo. São opções de script..., fazer o quê?!


Ainda que o traço de alguns personagens lembre características de personagens ícones da Pixar (por exemplo), a técnica trabalhada No Mundo da Lua é excelente. O desenho é limpo e rico em detalhes e as envolventes cenas de ação ganham bom realce com o 3D de profundidade. O humor não é constante, mas está ali numa sequência ou outra. Os personagens são bem resolvidos, simpáticos e facilmente identificáveis pelas crianças. Richard Carson não é um vilão dos mais carismáticos, mas é psicológica e moralmente interessante e funcional na sua ânsia capitalista selvagem.


Enfim, deixando de lado o ranço americanista com sua estrelada bandeira lunar (“em nome da humanidade”), No Mundo da Lua é uma animação que se assiste prazerosamente, independente da idade. Há uns dois furos relacionados com o traje dos astronautas..., um quase imperdoável (se você não notar, quer dizer que não tem importância). Para quem não abre mão das mensagens edificantes há duas: “honrar a família” e “não roubarás”. Mas o público antenado vai se deliciar mesmo é com a última: “criado à imagem e (quase) semelhança”..., que o espectador apressado não vai ver nas ótimas cenas bônus logo após os primeiros créditos finais. Um bom programa para quem quer variar o cardápio de conteúdo e de realizador..., ainda que os Estados Unidos fiquem na América do Norte e não na Espanha.


Nota de Rodapé: Assim como quem quer nada, mas querendo o mundo, a Espanha vem chegando “distraída” com belíssimas produções para o público adulto, como a indicada ao Oscar: Chico e Rita, de Fernando Trueba e Javier Mariscal, e ou a grande sensação do AnimaMundi: Rugas, de Ignácio Ferreras. Já para a garotada o destaque fica com: Planeta 51 (que sou fã!), de Jorge Blanco, Javier Abad e Marcos Martinez, e o razoável: O Lince Perdido, de Manuel Sicilia e Raúl García..., entre outros.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Crítica: Rua Cloverfield 10


Se você gostou do ótimo Cloverfield, aquele found-footage sci-fi de terror dirigido por Matt Reeves, lá nos idos de 2008. Se você, ciente de que certos filmes originais de suspense devem ser deixados quietos, sentiu um bafo alienígena melequento atrás da orelha ao saber que o produtor J.J Lost Abrams estava produzindo uma continuação. Bem, dependendo da intensidade do bafo ou da melequeira, sugiro que aguarde até o final da sessão de cinema. É que Rua Cloverfield 10, do estreante Dan Trachtenberg, com pré ou pós acontecimentos alienígenas, pode lhe parecer um tremendo presente de grego. Ou uma pegadinha de mau gosto..., já que, além do Abrams (que trabalhou na surdina, enquanto realizava o remake bobo de Star Wars IV), a única coisa em comum com o filme anterior é o “empréstimo” do título numa “nova” (re)composição. Eles sequer se parecem no suspense, no ET e ou no terror-sci-fi.

Rua Cloverfiel 10 (10 Cloverfield Lane, 2016), com roteiro de Josh Campbell, Matthew Stuecken e Damien Chazelle, está mais para drama, com pinceladas de thriller psicológico pós-apocalítico e seus questionamentos de sobrevivência, do que para divertida aventura de ficção científica com seus monstrengos invasores rastejando na penumbra. A nova história praticamente se passa no interior de um bunker, onde, após um acidente, Michelle (Mary Elizabeth Winstead) acorda. Ali vivem o corpulento proprietário Howard (John Goodman), que lhe diz que ela está ali para a sua segurança e porque o mundo que conheceu (lá fora) não existe mais, e seu hóspede Emmett (John Gallagher Jr.), que garante ter visto o bombardeamento nuclear que acabou com tudo.


E onde entram os aliens nessa cela bem lacrada? Ah, você vai ter que esperar pacientemente pelo epílogo meio trash-gore, acompanhando a saga dos três estranhos confinados num pequeno espaço e sujeitos às mesmas regras de sociabilidade criadas por Howard. Cada um com seu trauma de estimação, carregado feito pecado original judaico-cristão e quê, sinceramente, nem todo expectador (os) perceberá na metáfora do subtexto ou no mea-culpa parede com parede.

Enfim, como nas narrativas do gênero (prisão psicológica) nem tudo é o que parece ser, os três vão ter de confiar um no outro, respirando o mesmo ar de desconfiança, até que o ar externo se torne novamente respirável (em uns dois anos) e os liberte da forçada união. Enquanto isso, cada gesto ou fala impensada pode colocar em risco o tênue equilíbrio no fio da navalha. O público que trate de prestar atenção no jogo de quebra-cabeça e ou cartas-adivinhas. As respostas podem estar nos jogos..., mas o melhor está lá fora esperando (haja paciência!) pelo epílogo, com sua simplificação bélica, no melhor estilo trash da The Asylum e do canal SyFy e das heroínas Sarah Connor (de O Exterminador do Futuro, 1984) e Ripley (de Alien, 1979).


Rua Cloverfiel 10, com suas (curiosas) reviravoltas (previsíveis) de confinamento (já visto) é um drama de duas caras. Por dois terços e um pouquinho é um thriller psicológico relativamente tenso (para o espectador mais sensível e chegado em psicopatias) e pelo tempo restante é um sci-fi de ação e aventura mornas (para quem espera uma continuação impactante e digna do filme original). Acreditando que o público seja fã do Cloverfield (2008), dependendo da expectativa pode ser uma experiência duplamente frustrante..., já que não inova no drama (esticado) de sobrevivência pós-apocalíptica e tampouco avança na linguagem sci-fi. Ou seja, a promessa (primeira) é de uma continuação marcante e a entrega (última) é de um dramalhão com cara de capítulo-piloto para franquia televisiva e ou cinematográfica.



Então..., apesar da frustração diante da “mudança de conteúdo” e de seu apêndice bônus (meia boca); de alguns problemas de continuidade e de pontas soltas doidas para desfiar rapidamente a história (com vocação trash frustrada) e chegar logo na parte dos ETs; da trilha ruidosa e horrorosa..., Rua Cloverfield 10 até que tem boa direção (melhor no drama do que na ficção científica) e um elenco excelente. Acho que o seu “problema” (ou o meu!) é a falta de rumo... 

Todavia da fantasia, sabe aquela sensação de quem pagou para ver o Godzilla (2014) em grande estilo e teve que se conformar com apenas "cinco minutos" de ação com o adorável gorducho dino e aguentar trocentos minutos de drama familiar? Pois é...

sábado, 26 de setembro de 2015

Crítica: Perdido em Marte


Os títulos em português brasileiro para obras (principalmente) cinematográficas é matéria para as mais diversas teorias (da conspiração?) na internet. Eu mesmo já comentei em outras ocasiões sobre esta ignóbil mania (estraga prazeres) que estupidifica o espectador com seu spoiler e ou por ter nada a ver com o assunto..., como é o caso do Perdido em Marte, versão livre de The Martian (O Marciano), do romance escrito por Andy Weir e que inspirou o sci-fi homônimo de Ridley Scott. Pra começo, meio e fim de conversa, o astronauta Mark Watney, de Matt Damon, não está “Perdido em Marte”, se muito, foi “Deixado em Marte”.  O título original não é mero capricho e ou achismo do autor, está muito bem inserido e justificado, com ironia, na história.


Perdido em Marte (The Martian, 2015) gira ao redor do astronauta e botânico norte-americano Mark Watney (Matt Damon) que, durante uma tempestade de areia, ao ser atingido por detritos e perder a consciência, é dado como morto e deixado em Marte, pela tripulação da Nave Hermes. Ao recobrar a consciência, ferido e a milhões de quilômetros de qualquer outro ser humano, mais que se lamentar, ele decide que vai viver pelo maior tempo possível. Usando sem moderação (e modéstia) o seu conhecimento de botânica e de matemática, no consumo balanceado do alimento disponível no Laboratório Hab, ele calcula que terá uma sobrevida de uns dois anos. E mais, certo de que, mesmo que a Agência Espacial descubra que está vivo, não haverá tempo hábil para um resgate, se põe a gravar um diário, registrando em vídeo o seu progresso (Nem sei quem vai ler isto. Acho que alguém vai acabar encontrando. Talvez daqui a cem anos. Que fique registrado: não morri em Sol 6. O restante da tripulação certamente achou que eu tivesse morrido, e não posso culpá-los. Talvez decretem um dia de luto nacional em minha homenagem e minha página na Wikipédia vá dizer: “Mark Watney foi o único ser humano que morreu em Marte.” E, provavelmente, isso estará correto. Porque, sem dúvida, vou morrer aqui. Só que não em Sol 6, como todo mundo está achando., tradução de Marcelo Lino  para a edição brasileira da Arqueiro)..., até que acaba encontrando uma forma de se comunicar com a Terra, causando surpresa e suspense na NASA.

Assim uma fantástica corrida contra o tempo se inicia. Enquanto em Marte, o botânico faz valer a sua formação acadêmica, usando a ciência (real) para resolver questões relacionadas à sua sobrevivência (produção de água e de alimento), na Terra os cientistas da NASA esmiúçam a física para encontrar uma forma de resgatá-lo com vida.


Dirigido com vigor por Ridley Scott, que há muito devia um entretenimento de excelência ao seu público, Perdido em Marte é uma ficção científica literalmente engenhosa (ou seria literalmente científica?), principalmente por conta de seu simpático protagonista Mark Watney (“Se o oxigenador quebrar, vou sufocar. Se o reaproveitador de água quebrar, vou morrer de sede. Se o Hab se romper, vou explodir. Se nada disso acontecer, vou ficar sem alimento e acabar morrendo de fome. Então, é isso mesmo. Estou ferrado.”), num show arrebatador de Matt Damon.

O roteiro de Drew Goddard é cativante, divertido e plausível na sua “decupagem” nerd, meio que uma longa e bem-humorada palestra sobre os percalços (?) da fascinante exploração espacial que nos aguarda num futuro próximo. Fiel à linha da elogiada pesquisa científica que norteou romance homônimo de Weir, passa ao largo da pretensiosa (e inócua) especulação metafísica de Interestelar (2014) de Christopher Nolan, onde Damon fazia o papel (sem pé nem cabeça) de Mann, um astronauta psicopata “à espera de resgate” num planeta gelado e inóspito (ou seja, do gelo inconsistente para a caldeirinha consciente).


A trama, que acaba se dividindo em três núcleos distintos de ação (Marte, NASA, Nave Hermes), não está interessada na ciência especulativa, mas na ciência prática que (sem pieguice e ou lição de moral) pode resolver questões cruciais para o desenvolvimento e sobrevivência da humanidade (na Terra ou no Céu). Mas, fique tranquilo(a), a gente absorve facilmente as razoáveis explicações científicas e fica até tentado a dar sugestões..., ou estudar com mais afinco a matéria.

O grande trunfo de Perdido em Marte, cujo argumento pode até soar banal (a história de um resgate), está na condução da narrativa que começa como drama leve (?) da persona esperançosa (mas conformada) do engraçado astronauta Mark, vai ganhando corpo e emoção e quando menos se espera, envolve o espectador num suspense inquietante que o deixa antenado até a última cena. É impossível não torcer pelo simpático e solitário botânico, com suas ironias e reflexões (diante de um crucifixo de madeira, por exemplo) a milhas e milhas e milhas do Planeta Azul. Ou ficar indiferente às decisões burocráticas e técnicas dos cientistas da NASA a milhas e milhas e milhas do Planeta Vermelho.


Perdido em Marte é um filme sublime. Inspirador! O seu elenco, de ótima safra (Chiwetel Ejiofor, Jeff Daniels, Jessica Chastain, Donald Glover, Sean Bean, Kristin Wiig, Benedict Wong, Sebastian Stan, Kate Mara, Michael Peña), capitaneado pelo irretocável Matt Damon, dá o seu melhor..., até mesmos os menos coadjuvantes se destacam nas performances. Sequências impressionantes, bons diálogos (ou monólogos comoventes!), efeitos especiais de qualidade, montagem caprichada, trilha “disco music” para os nostálgicos, com direito ao bônus da contagiante glam rock Starman, de David Bowie..., fecham o belo pacote. Imperdível!!!

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Crítica: Homem-Formiga


Em 2014, uma das grandes (se não a maior!) surpresas no cinema foi a chegada dos “desconhecidos” e divertidos Guardiões da Galáxia. Seguindo as pegadas da trupe maluca chega agora o pequeno e também (?) quase “desconhecido” Homem-Formiga, querendo provar que também pode ser grande nas bilheterias. Bem, ao menos não lhe falta carisma e uma história nonsense para agradar e encantar adultos, adolescentes e crianças.


Homem-Formiga (Ant-Man, 2015), com direção de Peyton Reed e roteiro de Edgar Wright, Joe Cornish, Adam McKay e Paul Rudd, é um sci-fi de aventura e ação e fantasia baseado no personagem homônimo criado por Stan Lee, Jack Kirby e Larry Lieber. Nunca é demais lembrar que, desde que surgiu em 1962, nas páginas da revista Tales to Astonish - n° 27, assim como outros heróis marvelianos, o Homem-Formiga também teve a sua vida revista e reescrita. Portanto, nada de ficar cutucando o formigueiro com vara curta: hq é hq e cinema é cinema..., ainda que tenham muita coisa em comum, e não estou falando de storyboard. Também porque, por mais que se mude a persona, sempre fica um pouco (para reconhecimento) do super-herói antes da plástica.


Homem-Formiga, o filme, crava as suas garras em Scott Lang (Paul Rudd, esbanjando o mesmo carisma que Cris Pratt em Guardiões), um ladrão recém-liberto que, após um assalto, na tentativa de se redimir e conquistar o respeito da ex-mulher Maggie (Judy Greer) e o direito de visitar a filha Cassie (Abby Ryder Fortson), aceita vestir um super-traje para ajudar o dr. Hank Pym (Michael Douglas) e Hope Van Dyne (Evangeline Lilly) a manter as mãos do ambicioso empresário Darren Cross/Jaqueta Amarela (Corey Stoll) longe da poderosa invenção. Nessa tarefa, além da força de uma tropa de formigas, o herói (de ocasião) vai contar com a “perspicácia” de um trio, meio nerd e meio paspalhão, formado pelo latino ladino Luis (Michael Peña, roubando cenas), Dave (“T.I.” Harris) e Kurt (David Dastmalchian).


Homem-Formiga tem um roteiro despretensioso. O seu maior acerto é o de deixar de lado o melodrama presente nas HQs e optar pelo bom humor, fazendo crer que até mesmo quem tem fobia de formiga vai achar divertidas e inteligentes as sequências protagonizadas pelos insetos. As brincadeiras com a proporção das coisas, principalmente no “duelo” final, são hilárias. Se bem que se você não souber (?) quem é Thomas, provavelmente não vai achar graça no grande achado. As cenas de ação (meio pastelão) são limpas (leia: sem sangue) e, acredite se quiser, apesar do tiroteio e alguma pancadaria, excetuando dois pequenos ambientes, a cidade permanece inacreditavelmente intacta. Nem parece que um herói e um vilão passaram por ali. Será que a escala de destruição é comparável ao tamanho do herói? É ver pra crer.


Enfim, considerando o excelente elenco; a história simples, mas satisfatória no universo dos heróis (e suas fraquezas humanas); o 3D de profundidade e a excelência dos efeitos especiais; as gags espertas envolvendo outras personagens e instituições marvelianas; a falta (ufa!) de lição de moral e ou de jornada do herói..., é uma grande pedida para se ver descompromissadamente nas férias!

Ah, já ia me esquecendo, não fique questionando sobre a Vespa, o Ultron e muito menos sobre a criação dos Vingadores..., aguarde as explicações no decorrer da trama e as cenas entre créditos finais.

domingo, 12 de abril de 2015

Crítica: Chappie


Eu sou alucinado por robôs desde criança. Vejo tudo quando é filme e anime (de robô) que encontro. É claro que não vi tudo, mas já vi um bom bocado. Também li contos fascinantes de ficção científica. Por mais que veja filmes e animações e ou leia histórias protagonizadas ou antagonizadas por robôs, a expectativa é a de que há sempre um novo viés a ser explorado. Quando penso a respeito, primeira lembrança é a do belo e melancólico anime Eve no Jikan (2010), de Yasuhiro Yoshiura. A animação fala de um futuro onde a identidade (e a necessidade) de robôs (semelhantes aos humanos) é colocada em xeque e, em meio à intolerância, discutida em um café secreto, onde a regra é a de que não haja discriminação entre androides e homens. Se gosta do tema, procure onde puder e assista ao antológico Eve no Jikan.


Isso posto, vamos ao que interessa, o sci-fi Chappie (Chappie, 2015), de Neill Blomkamp, diretor do surpreendente Distrito 9 (2009) e do instigante Elysium (2013), que me pareceu a continuação (não oficial) de D9. Roteirizado por Blomkamp e Terri Tatchell, este terceiro filme sugere (a mim) um prólogo ao Elysium. Talvez por desenhar os primeiros passos da robotização policial, norma em 2154 e a distinção (informal) de classes.

Chappie se passa no ano 2016, em Johannesburgo, onde, de um lado, a polícia se sente mais segura, no combate ao crime, tendo como escudo robôs policiais..., e por outro, engenheiros mecatrônicos como Deon Wilson (Dev Patel), em constante pesquisa para criar um robô inteligente, e Vincent Moore (Hugh Jackman), militar belicista, que não vê a hora de colocar nas ruas o seu robô exterminador chamado de Alce. No meio, dois criminosos “azarados” (pé de chinelo, mesmo) como Ninja e ¥o-Landi (Ninja e ¥o-Landi Vi$$er, dupla rap-rave da banda sul-africana Die Antwoord) que têm um plano: sequestrar um robô e reprogramá-lo para ajudar nos assaltos. A dupla até consegue seu intento, só não contava que a programação do robô, que a “mamãe” (¥o-Landi) chama de Chappie (Sharlto Copley), fosse tão complicada.


O argumento desta irônica fábula futurista é bom. Destaca-se pela pegada rousseauniana (bondade x corrupção) aplicada na reprogramação do androide Chappie que, ao adquirir consciência, fica dividido entre o modelo ético (do “pai criador” Deon) e o modelo imoral (do “pai sequestrador” Ninja). Um dilema interessante que deve encontrar eco no espectador adolescente, cuja personalidade também está em formação. O assunto (criminalidade, polícia, elite, capitalismo) aliás, não é de todo novidade na filmografia de Blomkamp, que curte efeitos especiais de ponta e muita pancadaria (violência!), mas sem desprezar o conteúdo.


Chappie tem algumas sequências adoráveis (pintura, ostentação, livro infantil), ótimas atuações e efeitos especiais de cair o queixo. O robô (criado a partir da captação de movimentos, na performance de Sharlto, e finalizado em CGI) é de um realismo impressionante. As discussões sociopolíticas e filosóficas (infinitude, identidade, personalidade) são pertinentes e atingem o alvo com seu humor amargo e, por vezes, nonsense. Algumas cenas revoltantes (de humor negro) levantam fagulhas: o que leva alguém a cometer atos criminosos?..., Todo crime merece castigo?..., O fim justifica o meio? Quanto à trilha sonora dramática, além de intrusiva, é um horror, mas a de ação é até aceitável, ainda que óbvia.


Agora, um porém: No todo, os destaques (acima) são pontuados. É que, sempre que se prepara pra decolar para o alto e além e indo onde nenhuma ficção jamais esteve, Chappie patina num roteiro (juvenil) que vai afrouxando e tropeçando num RoboCop (1987) aqui, num Blade Runner (1982) ali, e outros robôs memoráveis (em outras grandes produções, como Um Robô em Curto-Circuito, de 1986) acolá. É impossível não reconhecer as “referências” (ou seria semelhanças?) com os filmes citados, principalmente com RoboCop. 

Não creio que esse detalhe influencie o gosto do espectador comum que vai atrás de ação e aventura e não de referências a um filme de 30 anos atrás. A mim, as citações (não assumidas) ao RoboCop, foi o que mais incomodou. Não fosse isso, seria brilhante. O que não quer dizer que seja ruim..., apenas que, com o bom (e irônico) argumento, merecia um roteiro melhor lapidado.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Crítica: Interestelar


Sempre que no campo da ciência especulativa e ou da ficção científica ouço falar de Buraco Negro e ou de Buraco de Minhoca me lembro de um sic-fi da Disney, de 1979, O Buraco Negro (a jornada começa onde tudo acaba), dirigido por Gary Nelson. O filme, que trata do encontro e de um desafio entre tripulantes de duas naves de exploração e pesquisa (Palomino e Cignus), com seus curiosos robôs V.I.N.cent e Maximilian, à beira de um amedrontador Buraco Negro, ainda hoje recebe críticas negativas, mas sem nunca se chegar a um consenso se pelo argumento tosco, o roteiro ingênuo, os efeitos especiais, a direção. Cultuado ou esculachado, há planos para o seu remake.

Evidentemente, hoje “sabe-se” muito mais sobre os Buracos, mas tal “conhecimento”, se sobrevivermos à degradação da Terra, com certeza será descartado até o final do século. Um Buraco de Minhoca e ou um Buraco Negro pode nos levar à origem (e fim) e ou ao fim (e origem) de nós mesmos no universo, fronteira infinita de horizontes? Dicotomia curiosa, porém vaga no ciclo vicioso da vida em ebulição planetária e big especulação física (quântica?) bang.



Interestelar (Interstellar, 2014), o novo drama sci-fi de Christopher Nolan, se passa num futuro-vintage, em um lugarejo rural norte-americano, onde o desequilíbrio climático tornou a vida insustentável e a tecnologia, como em toda parte, entrou em decadência. Ali, a NASA (já desmantelada) consegue reunir um grupo de quatro astronautas (vividos por Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Wes Bentley e David Gyasi) para uma viagem interplanetária, através de um Buraco de Minhoca, como única alternativa para encontrar planetas habitáveis. Entre os abnegados membros da tripulação, o piloto Cooper (McConaughey) é o mais entusiasmado e o mais dividido. Por um lado, o desejo de voltar ao espaço e o objetivo nobre da viagem. Por outro, a insegurança de não retornar a tempo de salvar os filhos adolescentes do cataclismo iminente.


Colapso global, falência da tecnologia, família desestruturada (embora o amor paternal fale mais alto) dão a tônica à saga espacial que “homenageia” (e muito!) Stanley Kubrick e seu clássico 2001: Uma Odisseia no Espaço, inclusive com um estranhíssimo robô-monólito. Escrito por Christopher e Jonathan Nolan, Interestelar é uma viagem espacial que encanta mais pela plástica (em IMAX, conforme a cena, a imagem expande) que pelo roteiro, que varia entre a ingenuidade complexa e a complexidade ingênua. Ainda que, na maior parte, o clima de seriedade seja mais de aparência, se o assunto embaralha, os irmãos Nolan recorrem a um curioso reforço didático. Ou seja, em caso de dúvida, um tripulante esclarece (o espectador) ilustrando um diálogo providencial (algumas explicações são primárias, como a da viagem pelo Buraco de Minhoca).


Interestelar tem uma narrativa irregular. Começa intenso, com algumas sequências brilhantes (a tempestade de areia, por exemplo, é de um realismo perturbador), mas vai arrefecendo conforme desenrola a trama (esticada demais). Quanto mais longe da Terra a aeronave viaja, menos inspiração. No interior da estação espacial (por causa do o ar rarefeito?) as cenas não são da melhores, a tripulação é fria, os diálogos são empolgam, e a (não) passagem do tempo (o maquiador morreu engasgado?) é pra lá de equivocada. As sequências nos dois novos planetas exageram na previsibilidade, principalmente no primeiro (para quem viu Gravidade, de Alfonso Cuarón). Quando parece que o epílogo vai recuperar a dignidade da história, o upgrade vira ôps!, escorrega na pieguice e deixa a desejar. 


O Buraco de Minhoca (segundo a ciência) é um atalho entre universos. Um conceito que lembra o ensinamento de Hermes Trimegisto em sua sagrada Tábua de Esmeralda: “Aquilo que está embaixo é como aquilo que está em cima.”..., e assim aparece estoicamente traduzido na fala do astronauta-agricultor Cooper (McConaughey), no início de sua viagem rumo ao desconhecido: "Olhar para o céu e encontrar o nosso lugar nas estrelas. Olhar para baixo e encontrar o nosso lugar na Terra."

Considerando que Christopher Nolan tinha um argumento bacana nas mãos, mas quis ir muito além de onde nenhum homem jamais esteve e acabou ficando sem combustível numa dobra do tempo; que é um drama(lhão) sci-fi, cujos protagonistas são impulsionados pelo amor e devoção à família; que apenas tangencia uma questão chave: O homem é o lobo do homem (Hobbes), que parece ser a razão dessa jornada espacial..., creio que os fãs, ainda que estranhem (a disritmia), vão gostar..., ao menos do visual. 

domingo, 7 de setembro de 2014

Crítica: O Doador de Memórias


Quando do lançamento cinematográfico de Divergente (2014), de Neil Burger, baseado na trilogia homônima (2011/2013) da escritora Veronica Roth, escrevi: “Utopia distópica e ou distopia utópica é um assunto perturbador e recorrente na ficção científica. Quando bem desenvolvido, na literatura ou no cinema, pode resultar em acalorada e reflexiva discussão. No entanto, parece que os novos autores não querem saber de lição de casa: ler ou ver os mestres do gênero que trataram do tema. Como o passado não parece ser de interesse de quem projeta literariamente ou cinematograficamente o futuro, e o leitor ou espectador infantojuvenil está mais interessado na aventura romanceada no caos do que na reflexão do caos..., o que vier é lucro para editores e produtores.” 

Falava da nova onda de filmes que trata superficialmente do assunto (distopia) numa linguagem juvenil, e que já havia trazido o blockbuster Jogos Vorazes (2012), de Gary Toss, baseado na trilogia homônima (2008/2010) de Suzanne Collins. Até então não conhecia O Doador de Memórias, o premiado livro de Lois Lowry, lançado em 1993, que certamente serviu de referência para os best-sellers posteriores das outras duas autoras. Desde o seu lançamento, o ator Jeff Bridges tentou em vão adaptá-lo para o cinema, reservando para seu pai Lloyd Bridges (1913-1998), o papel do Doador, que agora lhe coube. O que explica, mas não justifica totalmente, porque a versão dirigida por Phillip Noyce, que chega aos cinemas vinte anos depois, tem um ar meio de história já vista.


É impossível não se lembrar de Divergente (que escrito depois chegou antes ao cinema), e ou ficar alheio aos resquícios de obras anteriores, na literatura: Admirável Mundo Novo (1932), Aldous Huxley, 1984 (1949) de George Orwell, Fahrenheit 451 (1953), de Ray Bradbury..., e no cinema: THX 1138 (1971), de George Lucas, e Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (2004), de Charlie Kaufman/Michel Gondry. Sequências mais lúdicas podem também remeter ao “Rosebud” de Cidadão Kane (1941), de Orson Welles e ao “vermelho” de Pleasantville (A Vida em Preto e Branco, 1998), de Gary Ross.

Toda via distópica tem a mesma raiz: controle de distúrbios. Lenga-lenga de todo déspota que, em troca de sua magnânima proteção e do nirvana, anula (esteriliza) o cidadão, suprimindo as suas necessidades (sociais) básicas. O equilíbrio compulsório (individual e coletivo), a harmonia forçada, como a minoria (rebelde) sabe, dura até o primeiro chute no calcanhar. O que nem sempre satisfaz a turba mentecapta acomodada ao jugo. Como a que habita a Comunidade, um agrupamento de “pessoas” (sobreviventes de um conflito global) localizado num platô (?), cuja fronteira é o vazio e um vislumbre de Alhures.


Ali, sob o comando da (holográfica) Anciã-Chefe (Meryl Streep), para não se repetir os erros do passado, proíbe-se o passado. Ou melhor, proíbe-se toda e qualquer lembrança do passado existente até o “surgimento” da estéril Comunidade, onde humanos e vegetais vegetam impassíveis, sem a presença de animais (irracionais!) para perturbar a ordem emocional. O único vislumbre da vida anterior na Terra é acessível apenas ao velho Doador de Memórias (Jeff Bridges) e ao seu aprendiz Jonas (Brenton Thwaites), um adolescente de 16 anos que tem a Capacidade de Ver Além e que, ao conhecer o que está oculto no admirável mundo novo da Comunidade, passa a questionar o porquê das proibições impostas pelo Comitê de Anciãos etc....

Como O Doador de Memórias me pareceu, por vezes, aborrecido, com seu roteiro um tanto simplório e sem muita convicção, decidi conferir o premiado livro. O drama literário (superior à versão cinematográfica!) é breve, de fácil leitura, e tem alguma originalidade no relato tão absurdo quanto reflexivo de uma população que (num futuro indistinto) opta literalmente por uma vida em preto e branco: “(...) Houve um tempo, aliás, em que a pele tinha muitas cores diferentes. (...). Hoje em dia a pele de todos é a mesma... (...) Nosso povo fez essa opção... (...) Antes do meu tempo, antes do tempo anterior ao meu, muito tempo atrás. Desistimos das cores quando desistimos do sol e acabamos com as diferenças. (...) Adquirimos controle sobre muitas coisas. Mas tivemos de abrir mão de outras.” Só não é dito como conseguiram tal (e)feito (psicológico?) de anular a cor da pele e de tudo mais, de dessensibilizar a população e de controlar o tempo (sempre ameno), além de “apagar” o sol, a lua, as estrelas e mesmo assim “usufruir” do dia e da noite. 


Assim como no livro, boa parte da narrativa é filmada em preto e branco (com nuances de cinza e sépia e, às vezes, uma corzinha vazada). A cor, por vezes saturada, aparece no despertar das memórias para Jonas e, claro (coisa que nunca entendi!), duplamente para o espectador. Quem tiver bons olhos verá outras infiltrações. A ideia de que, para se evitar o racismo (e outros “ismos”), o Comitê de Anciãos optou pela eugenia ariana (nazista?), apostando em uma sociedade formada só por gente de cor branca (geneticamente alterada) é curiosa. Mas, o que poderia dar pano pra muita manga, não se sustém na sua bizarrice, Faltam contrapontos para aprofundar uma saudável e colorida discussão étnica e ética. Como dizia o bordão de um velho programa televisivo no Brasil: Porque sim não é resposta!

Contradições e ou controvérsias à parte (nas duas obras), fragmentos de documentários e de noticiários inseridos na trama enriquecem a leitura cinematográfica..., mas suscita outro questionamento: por que as antiquíssimas memórias do Doador não vão além de um século atrás, se ele detém toda a memória do mundo? Será por conta da memória curta do público-alvo juvenil? Será também por causa desse espectador jovem que os roteiristas Robert Weide e Michael Mitnick fizeram uma adaptação equivocada do livro de Lowry, transformando uma novela seca e reflexiva (protagonizada por um inocente garoto de 12 anos) em um (insípido) melodrama (protagonizado por um romântico garoto de 16 anos)? Parece que sim e, como sempre no plano das releituras, mudanças piegas desnecessárias.


O Doador de Memórias (The Giver, EUA, 2014), com mais diferenças do que pontos em comum com o livro, é irregular, mas não é de todo descartável. Além do bom elenco, tem lá seus momentos de interesse e belas sequências (eu dispensaria os valores religiosos em ambos). É evidente que filmado tal e qual seria muito melhor. Mas aí resultaria em um cinema mais independente e possivelmente (?) menos comercial (?). Se servir de consolo, um adulto que não conseguir pegar carona na história pode divagar nas metáforas e ou analogias (conscientes?): da maçã; da árvore em Alhures; do vazio; do Gabriel, do Jonas, do preto e branco... Ah, nem é preciso dizer porque o onipresente Morgan Freeman não está no elenco, não é?

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...