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quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Crítica: Vice


Vice
por Joba Tridente

Ah, um vice! Para que serve um vice qualquer coisa se não para tapar buraco, quando e se um dia quem sabe talvez uma tragédia “irreversível” o fizer necessário? Certo? Há controvérsia! Principalmente se o vice for a sombra da sombra presidencial à espera do sol do meio dia. Se não há mais bobo no futebol, por que haveria na política? Ainda mais na política! Temos exemplos no Brasil e em países da redondeza de vice-presidentes que, numa cochilada do destino, acabaram ocupando a cadeira “maior” da nação. E outros que, se fazendo de mosca morta, preferiram agir e se dar muito melhor na surdina. Como nos faz crer o roteirista e diretor Adam McKay (A Grande Aposta) com o seu (um tanto híbrido) drama satírico Vice..., que traz a cinebiografia estilizada do todo poderoso vice-presidente norte-americano (2001/2009) Dick Cheney (Christian Bale), também conhecido como “o político mais secreto da história americana”. Ou era...


Vice (Vice, EUA, 2018), se propõe a decifrar as maquiavelhices de Dick Cheney, para chegar ao poder e se manter, não invisível e descartável (como qualquer vice por aí), mas, (in)visível e temerosamente determinado a influenciar a economia petrolífera e bélica norte-americana. Cheney, obviamente, preferia o cargo máximo, mas, ao “inverter” o jogo dos gabinetes, aumentou as suas vantagens na mesa de negociação e o lucro fácil com a “invisibilidade” vice-providencial, digo, vice-presidencial. Uma tramoia (comum?) que requer habilidade de pescador e que leva o cidadão a acreditar que os bastidores soturnos da política são iguais ou assemelhados em muitos países, acima ou abaixo da Linha do Equador. Bem, nem todo peixe grande, que morde a isca, morre pela boca. Mas é preciso um pescador esperto para mantê-lo nadando ao seu redor e preso ao anzol. E Cheney sabia muito bem o que queria pescar quando lançava a isca...

O enredo perspicaz vai de um passado inconsequente do então jovem (sem rumo) Cheney, no Wyoming, ao político-empresário (sempre emergente) em Washington, mestre (e senhor da guerra) na arte da manipulação (inclusive digital). Embora diga bem mais ao bipartidarismo mental, emocional e estomacal do norte-americano, que aos órgãos de gente ajustada a outra nutrição, mundo afora, tem seus momentos de universalidade.


McKay não poupa recursos cômicos (humor negro!) e cênicos para apresentar a sua versão da ascensão de Dick Cheney e o papel daqueles que alvoroçaram ao seu redor, como sua vigilante mulher Lynne (Amy Adams), o mentor Donald Rumsfeld (Steve Carell), o “presidente” George W. Bush (Sam Rockwell), entre outros..., numa maliciosa crônica política que, por vezes, é mais interessante na forma que no conteúdo incômodo..., principalmente pelo excepcional uso de elipses e de metalinguagem. A quebra da quarta parede dá um toque de intimidade (ou intimidação!) e conivência numa história tão indiscreta (?) quanto repugnante (!) e absurda. Outro ponto alto é o narrador misterioso (Jesse Plemons), que, com seus comentários sarcásticos sobre o vice-presidente, aos poucos vai sendo amarrado ao enredo, até se tornar imprescindível à trama..., ou ao drama pessoal de Cheney. Mais que a licença poética, há que se ressaltar tamanha liberdade de expressão.


Considerando o que disse acima e o que omiti, para não constituir spoiler, gostei. Vice é imersivo e desconcertante ao ilustrar, com eficientes pinceladas de humor cáustico, as mudanças (?) nos EUA e no mundo após o 11 de setembro de 2001, com as decisões xenofóbicas dos reacionários Dick Cheney e Donald Trump. O espectador vai rir (amarelo ou gargalhar) das piadas ou gags visuais..., mas que elas doem, quando cai a ficha, ah, doem. Afinal, um vice que é piada hoje, pode ser a autoridade máxima e perigosa amanhã...

Nota: Sempre que tomo conhecimento desse tipo de história, lembro do personagem Iznogoud, criado em 1962 pelos geniais quadrinistas franceses René Goscinny e Jean Tabary.  Iznogoud é um Grande Vizir, em Bagdá. Mas, ambicioso e frustrado por ser o segundo (um vice) no comando, vive procurando um “jeitinho” de substituir o Califa Haroun El Passid. É dele o inesquecível bordão: Quero ser Califa no lugar do Califa!


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Crítica: A Chegada


A  Chegada
por Joba Tridente

Para quem está procurando novidade no gênero ficção científica, uma boa sugestão é o enigmático e introspectivo filme A Chegada, do diretor canadense Denis Villeneuve, baseado na novela A Story of Your Life (prêmios Sturgeon/1999 e Nebula/2000), do escritor Ted Chiang..., obra que discute a (ainda controversa) relatividade linguística Sapir-Whorf ¹.


A Chegada (Arrival, 2016), com suas aeronaves côncavas pairando entre o Céu e a Terra ou entre o Céu e o Mar, feito 12 Torres de Babel em forma de orelha de pedra, nos conduz curiosamente através do signo linguístico a uma intensa viagem ao obscuro interior de nós mesmos. O quê ou quem somos nós diante de um desconhecido? Por que tememos (e nos armamos) diante do desconhecido. A palavra ou sua ausência é o quê nos conduz à glória e ou à derrota..., das meras relações familiares às internacionais (ou interestelares!). Passamos a vida interpretando sinais da natureza animal e não-animal e basta uma imagem e ou gesto em falso, uma palavra mal dita, mal pontuada e ou mal significada, um alimento vencido..., para a linha da vida se tornar ininteligível.


Ver (o outro), ouvir (o outro), compreender (o outro) para, então, dialogar com o outro é a base, o mote deste thriller espetacular que procura na metafísica uma forma diferenciada de se comunicar com o espectador. Nele, acompanhamos fascinados o trabalho da linguista Dra. Louise Banks (Amy Adams) e do físico Ian Donelly (Jeremy Renner), convocados pelo coronel Weber (Forest Whitaker), das Forças Armadas Americanas, para intermediarem o contato entre humanos e alienígenas, cuja nave “pousou” em Montana.

O quê não lhes falta são perguntas aos visitantes espaciais. Porém, como indagar das suas intenções (turismo, imigração ou invasão?) quando não se tem ideia da língua deles e nem ciência de que conhecem a nossa? Enquanto os governos de todo o mundo têm pressa em conhecer a motivação alienígena, para (se preciso) se armar..., Louise precisa de tempo para encontrar a ferramenta certa, a sua Pedra de Roseta para decifrar um painel repleto de signos complexos, no interior da nave. Cena que remete a uma sequência emocionante em Para Sempre Alice (2014), onde, em plena sala de aula, a linguista Alice/Juliane Moore, sentindo os primeiros sintomas do Mal de Alzheimer, não consegue definir “Léxico” (..., as palavras estão todas aí, mas não consigo alcançá-las!). É o mesmo sentimento de impotência de Banks e Donelly frente a um símbolo de “duplo” sentido.


A Chegada, com ótimo roteiro de Eric Heisserer, é um drama existencial pautado pela comunicação entre espécies diferentes, pela busca de um diálogo em comum (pacifista!), seja com ETs, com governos interconectados e ou com cidadãos que se deixam influenciar pela mídia sensacionalista e as religiões descerebradas. A trama intimista desvela a aldeia (que se quer) global a cada dia mais fragmentada. Toda via do verbo mal conjugado, num mundo individualista (que se quer unido), constantemente hackeado (espionado), como confiar em quem nos parece “perigoso” por conta da língua e ou do costume?

Ao contrário das anestesiantes produções de ação explosiva, repletas de efeitos especiais mirabolantes, A Chegada é uma ficção científica provocativa, do tipo que estimula o cérebro, fazendo até mesmo o espectador mais néscio pensar no assunto. Sem parecer didática, a narrativa sóbria (que joga com o fluxo de tempo na memória afetiva) explora as ciências humanas e as exatas sem arrogância e ou achismos bobos..., embora no campo fictício tenha essa liberdade poética imaginativa que diverte fãs do gênero e apavora cientistas (reais). A gravidade singular, no interior da nave extraterrestre, é um achado que pode ter um duplo sentido nas duas ciências!


Enfim, considerando o brilho do roteiro contrario à “lógica” hollywoodiana do mocinho americano versus vilão espacial; a direção equilibradíssima; o elenco excelente; a eficiência dos “tímidos” efeitos especiais; a montagem (pegadinha?) bacana..., definitivamente, este é um filme indicado ao espectador inteligente ou, pelo menos, acima da média, à procura de diversão com reflexão!


1. Relatividade Linguística, sugestão de leitura, entre outras: A teoria da relatividade linguística Sapir-Whorf e Universalismo e Relativismo Linguístico.


Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

sábado, 24 de janeiro de 2015

Crítica: Grandes Olhos


O que será que torna popular, da noite para o dia, uma obra de arte? O acaso? Ser descoberta por uma celebridade? O artista ser também um exímio vendedor? E por que uma obra de arte que faz tanto sucesso com o grande público é tão menosprezada pela crítica especializada e por artistas menos conhecidos? Atualmente, o artista plástico brasileiro Romero Britto, xodó das celebridades norte-americanas e personalidades mundiais, que vende a rodo a sua colorida arte pop, é o saco de pancada da vez.

Quem, antes dele, também criou alvoroço nas terras do Tio Sam, na década 1960, foi o casal Walter e Margaret Keane, com seus quadros, pôsteres e cartões, onde figuravam crianças melancólicas e de grandes olhos. Excetuando Andy Warhol, que disse algo tipo: “Se a obra de Keane fosse ruim não faria tanto sucesso”, os especialistas (como o crítico John Canaday, de New York Times)  diziam que ela era apenas kitsch, decorativa e sem nenhum valor. O que não impediu o casal de faturar milhões de dólares e inspirar artistas de outras artes, como Tim Burton, também um colecionador de Keane. Hoje o que mais se vê são animações com personagens de olhos grandes.


E por falar em controvérsia, é Tim Burton quem traz à telona o segredo por trás do sucesso das telas e telinhas melodramáticas dos Keane em Grandes Olhos (Big Eyes, EUA, 2014). Na verdade, a fraude por trás do sucesso. Quem pintava os quadros era Margaret (Amy Adams), mas quem levava a fama (com a sua conivência) era Walter Keane (Christoph Waltz), seu marido. O casal se conheceu numa exposição de rua, em meados dos anos 1950: ele expondo suas paisagens parisienses e ela suas meninas tristes de grandes olhos. Logo se casaram e Walter decidiu que já era hora de buscar uma galeria. Esnobados, ele encontrou uma alternativa, alugar as paredes de um bar, onde a obra de Margareth foi descoberta e a dele preterida. Como ela também assinava Keane, ele achou melhor assumir a autoria, alegando para a esposa que o mercado não aceitava muito bem uma artista. A partir de então, Margaret pintava e Walter vendia os quadros, fazendo nome e fortuna. A farsa foi desvelada em 1970, seis anos após a separação do casal, mas o processo se estendeu até 1990.

Grandes Olhos é (mais) uma história (hollywoodiana) inspirada em fatos. Se na sinopse parece interessante, no cinema fica a desejar. Infelizmente, excetuando a direção de arte, com ótima reconstituição de época (1950,60,70), o filme não dá liga..., pincela, pincela e a tinta não seca. O roteiro raso e parcial, da irregular dupla Scott Alexander e Larry Karaszewski, beira o infantilóide..., respinga aqui e ali para resultar num descartável quadro borrado mais abstrato que expressivo.


A direção de Burton é tacanha, claudicante. Uma hora esboça uma dramédia e na outra uma comédrama. Não que isso importe, já que os “personagens” não têm alma, são meras caricaturas mudas ou falastronas. As performances de Waltz e de Adams são dignas do prêmio Framboesa de Ouro ou do Nafta. Desperdício total de talento. Ele, se esforçando para ser engraçado, está mais para vilão maçante de desenho animado do que para cínico. Ela, se esforçando no papel de vítima do sistema machofalocrata americano (da época?) que não dava voz e nem trabalho decente às mulheres, é só caras e bocas choramingas (também nas pinturas)..., até conhecer as salvadoras Testemunhas de Jeová.

Grandes Olhos (e pequenas ideias) é parcial do princípio ao fim. A única “verdade” que lhe interessa é a da “vítima” Margaret Kaene. Quanto ao egocêntrico Walter Kaene, pelo material biográfico disponível na web, não era tão inepto como a trama faz crer. Seu pioneirismo na cultura de massa, ao produzir em larga escala, antes de Warhol, reproduções das “suas” obras em pôsteres e cartões, para “atender” a quem não podia pagar pela obra original, merecia mais destaque. Mas ele não é o foco da história.

Para dar alguma substância ao melodrama, Burton até evoca no sub-subtexto, em duas breves sequências, uma “conversa clichê” sobre “o que é arte”, para o galerista Ruben (Jason Schwartzman), que influencia a compra de seus clientes, e para o crítico e historiador de arte do New York Times, John Canaday (Terence Stamp), que influencia os seus leitores ditando o que é ou não de “bom gosto”. Não tivesse morrido em 1985, seria interessante conhecer o pensamento de Canady para a arte que se “pratica” hoje em dia. Mas, como também essa discussão não é o foco da história, passa batida. Ah, e se você espera também o levantamento de uma bandeira do movimento feminista, esqueça..., verá apenas a “libertação econômica” de uma mulher que se cansou de criar e o marido levar a fama.


Grandes Olhos carece de ritmo, de humor (real), de romance (real), de arrebatamento. Seus personagens são tão assexuados e insossos que nem é preciso tirar a criançada da sala (elas não vão se interessar mesmo), tamanho o puritanismo da história: dois ou três beijinhos e nada mais. Nesse quesito a série baba Glee é muito mais avançada, com um só beijo o garoto “engravidou” a garota. A sequência-paródia (fósforos na fechadura) de O Iluminado (1980), de Stanley Kubrick, é tão imbecil que leva um tempinho para (quem tem) o cérebro processar. Ela também merece um Framboesa de Ouro ou um Nafta de pior sequência de todos os tempos.

Enfim, considerando a marca Tim Burton (no máximo em 30%) e que muitos conhecem os quadros (bregas?) das crianças olhudas de Keane, mas desconhecem a farsa autoral; que há ao menos uma sequência realmente burtoniana (no supermercado) digna de boa nota...,  se quiser, arrisque, vai que você gosta. A melhor consideração é sempre aquela que se faz por conta própria. 


Nota: Se tiver curiosidade em conhecer o intrincado mercado da arte, leia A Palavra Pintada (The Painted Word, 1975), de Tom Wolfe, lançado no Brasil pela LPM, em 1987, com tradução de Lia Alverga-Wyler.  


quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Crítica: Trapaça



A vigarice é assunto comum em pelo menos dois filmes que concorrem ao Oscar: O Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese, e Trapaça, de David O. Russell. Duas leituras bem diferenciadas do mercado de finanças. A de Scorsese, espetaculosa por natureza de ego pra encher linguiça. A de Russel, cativante por natureza de roteiro primoroso.

Trapaça (American Hustle, EUA, 2013) é daquelas produções que te arrebatam (e não te largam) de crédito (vintage) a crédito. Logo de início o espectador é alertado de que verá uma ficção, sem compromisso com os fatos que a inspiraram e, portanto, nem tudo aconteceu daquela forma. A história se passa na virada da década 1970, nos EUA, e é livremente inspirada no Escândalo Abscam, que derrubou vários políticos norte-americanos envolvidos com tráfico e corrupção pública. A conturbada operação foi orquestrada pelo FBI, com a “colaboração” de um vigarista condenado e de um agente disfarçado de árabe.

Num clima deliciosamente pop-noir (setentista), onde o que menos importa é a veracidade dos fatos, os roteiristas O. Russel e Eric Warren Singer fuçam os bastidores da famosa Operação Abscam para desvelar, romanticamente, os seus principais personagens, em performances brilhantes do elenco: Irving Rosenfeld (Christian Bale) é dono de lavanderias e vigarista nas horas vagas, um apreciador do jazz de Duke Ellington, assim como sua amante e parceira de golpes Sydney Prosser (Amy Adams) que, com elegância britânica de uma “Lady Edith”, pensa grande, mas não o suficiente para livrar o casal das mãos de Richie DiMaso (Bradley Cooper), um ansioso agente do FBI que, atrás de promoção, usa os trapaceiros numa investigação e coloca em risco a popularidade administrativa do apaixonante Carmine Polito (Jeremy Renner), prefeito de New Jersey preocupado apenas com o bem da sua comunidade. Na periferia dos acontecimentos está Rosalyn Rosenfeld (Jennifer Lawrence), a doidivana mulher de Irving, que, de tão ingênua em sua loirice, nem sabe que pode por toda a operação a perder.


Corrupção pode ser um assunto “espinhoso”, mas nem por isso precisa ser chato ou caricato (como no fantasioso O Lobo de Wall Street). A excelência do enredo, diálogos inteligentes, pincelados com boas doses de humor e romance (estilo novelão latino) e um elenco no seu melhor momento, fazem valer cada minuto e cada centavo de Trapaça. O apuro na reconstituição de época surpreende. A sensação é de se estar vendo não a um filme de época, mas da época, na cor e sabor dos anos 1970/80. Figurino, maquiagem (bobes!), música ambiente..., são um espetáculo à parte. Disse música ambiente porque em momento algum Russel se aproveita de odiosa trilha clichê para induzir emoções. A música, quando aparece em cena, é apenas como raro complemento à ação, como, por exemplo, na sequência em que rola a canção bondiana Live and Let Die, de Paul e Linda McCartney: impagável. Também não tem preço a dança de DiMaso (Cooper) e Prosser (Adams), na 54 - só quem frequentou boates/discotecas naquele tempo vai entender (o ridículo?). Agora, se é pra antologia, a cena de Irving (Bale) montando o seu cabelo não tem pra ninguém.

Trapaça é um filme-armadilha que enreda tanto os seus fantásticos personagens - vítimas da própria trapaça que criaram - quanto o espectador, embevecido com suas histórias (de altos e baixos) em sequências memoráveis. Há sempre uma levando à outra ainda melhor..., culpa do timing (cômico, romântico, dramático) do elenco numa narrativa muito bem amarrada e onde o crime e o castigo é apenas um detalhe. Nas reviravoltas do roteiro, Lawrence, com sua desleixada Rosalyn, rouba muitas cenas, mas, creio que as mais tocantes, são as de Renner na pele do sonhador prefeito Carmine, cuja ambição de dar uma vida melhor aos cidadãos do seu estado acaba virando um pesadelo. É impossível não se emocionar, no epílogo, diante da frustração de Carmine e o remorso de Irving.

David O. Russell vem se aprimorando na arte de transformar histórias pequenas (O Vencedor, O Lado Bom da Vida) em grandes pérolas. Trapaça é um colar de pérolas multicoloridas que combina com qualquer roupa, já que é apenas uma questão de tempo (ou moda!) para que o chique vire brega e vice-versa. Diversão, na medida, para quem gosta de pensar durante e depois da sessão de cinema. 

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Crítica: O Mestre



Parece que o assunto reencarnação, karma, darma..., está com tudo neste comecinho de 2013. Depois de A Viagem (de Andy Wachowski, Lana Wachowski e Tom Tykwer), é a vez de Paul Thomas Anderson especular sobre o tema, só que sob foco de seitas milagreiras e ou redentoras de todos os males do mundo, ou ao menos dos seus fiéis. 

O Mestre (The Master, EUA, 2012), escrito e dirigido por Paul Thomas Anderson, se passa logo após o fim da 2ª Guerra. O drama trata do envolvimento de Freddie Quell (Joaquim Phoenix, excelente), um ex-militar, alcoólatra, que usa os mais inusitados produtos para criar seus coquetéis “envenenados”, e o Mestre ou Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman), um sujeito carismático que viaja pelo mundo divulgando a sua crença, fazendo sessões de hipnose e regressão, alegando curar até mesmo a leucemia. A relação entre o bem nutrido Dodd, o criador do movimento científico-filosófico Causa, e o farrapo humano (esquelético e desconjuntado) Quell é obsessiva e de interdependência..., como se o médico e o monstro. No meio dessa viagem de indução (sem discussões) de ideias nada ortodoxas sobre religião, ciência, medicina, psicoterapia..., tecendo considerações e conduzindo o manipulador e a cobaia, está a possessiva Peggy (Amy Adams) esposa de Dodd.


O Mestre é um drama tenso, desconfortável, com performances marcantes. Sem alívio cômico e recheado de diálogos que convidam a uma reflexão despretensiosa sobre mistérios e decadência da vida humana e do universo, é envolvente, mas não é sedutor. A iniciação do processo de cura de Freddie (um sujeito totalmente sem limites), intencionalmente repetitiva (?), acaba se tornando exaustiva (e dolorosa) até para o público. Embalada por uma música intrusiva, a relação de profunda e doentia camaradagem, vivida por Quell e Dodd, perdidos em seus próprios “eus” e afogados em álcool, nicotina e sexo, é um prato feito irrecusável para os terapeutas junguianos de plantão.  

São muitas as informações a serem processadas durante a longa narrativa e, por isso, passagens mais confusas podem se perder na aparente complexidade da trama pontuada por flashbacks. Como, por exemplo, um curioso nó, embaralhando realidade (acreditar) e sonho (imaginar) de Quell, a ser desatado a cada sequência, e que só deve despertar interesse após a sessão.  Se despertar! Os personagens são ricos, bem construídos e interpretados, o problema da distração é que a história teima em se esticar muito além do amém!


Controverso, O Mestre, de Anderson, chega como se fosse um desvelador documento sobre o escritor de ficção científica L. Ron Hubbard e a Igreja da Cientologia, criada por ele. No filme, aliás, o personagem Lancaster Dodd (que seria o Hubbard) se apresenta como: escritor, médico, físico nuclear e filósofo teórico. Mas é bom que se diga, em nenhum momento fica claro se é um retrato dos primórdios da cientologia e ou um apanhado geral de seitas não-cristãs, significadas na personagem charlatanesca de Dodds. Dizem que houve intervenção do mais famoso ator cientologista para que o diretor não polemizasse o tema e ou aliviasse a Cientologia (fundada em 1952), ocasionando em cortes no filme. Será?

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Crítica: Os Muppets



Candidato a uma das melhores comédias do ano, Os Muppets retornam aos cinemas literalmente em alto estilo, já que Miss Piggy, Caco, o Sapo (ou Kermit) e Walter, foram vestidos por grifes famosas. Mais ousados, dramáticos, cômicos e malucos do que nunca, estes famosos e adoráveis bonecos do mundo animado, criados pelo genial Jim Henson (1936 - 1990) fazem o espectador confundir as lágrimas do riso e da emoção. Vale muito cada um delas.

Esta sétima adaptação de Os Muppets (The Muppets, EUA, 2011), dirigida por James Bobin, baseada no roteiro de Jason Segel e Nicholas Stoller, traz um história muito bacana sobre a vida dos artistas de show de variedades, depois da fama. Ou melhor, sobre os bastidores da fama, quando cai o pano, o público deixa o teatro, e a mídia some. O que fazer quando não se é mais uma celebridade? Os Muppets parecem ter a resposta, mesmo que, a princípio, ela não faça muito sentido.


Tudo começa na adocicada Smalltown, EUA, um lugarejo onde os alegres moradores cantam felizes. É dali que o amigável e distraído Gary (Jason Segel) e a sua namorada Mary (Amy Adams) saem para passar as férias em Los Angeles, levando junto o pequeno grande Walter (fã número um dos Muppets e irmão de Gary), que acaba descobrindo uma armação do megaempresário Tex Richman (Chris Cooper) e dos rabugentos Statler e Waldorf, relacionada à posse do velho Teatro Muppet. Para evitar o pior, os três se juntam a Caco, na tentativa de conseguir reunir toda a trupe dos Muppets, montar um Programa Teleton, arrecadar US$ 10 milhões e recuperar a casa de espetáculos. Em se tratando de bonecos sonhadores e temperamentais, a busca aos antigos colegas de palco, o resgate dos talentos perdidos, não será nada fácil, mas será hilária.


Com uma ótima história repleta de confusões, deliciosos números musicais e excelentes canções, Os Muppets é um filme lúdico, mágico, bem humorado, que mata a saudade dos fãs e diverte até quem nunca ouviu falar dos bonecos mais adoráveis da televisão, cinema e (agora) internet. Em poucos minutos ele conquista todo e qualquer espectador. As piadas vão do nonsense ao surreal, sem esquecer a acidez dos oportunistas inoportunos e sempre rabugentos Statler (Nós não queríamos estar no filme, mas achamos que era nosso dever.) e Waldorf (É, alguém precisava alertar ao público sobre o que vão assistir. O mínimo que as pessoas podem fazer é compartilhar nosso sofrimento.) com suas tiradas sarcásticas sobre o espetáculo e principalmente sobre o elenco, se divertindo com o próprio desgosto cultural. Ele brinca com as mídias, as celebridades e os negócios artísticos, mas também fala sério, ao destacar a importância de cada integrante numa montagem teatral.


Como já é tradição em produções anteriores (desde a sua criação) Os Muppets traz, em situações inusitadas, astros como David Grohl, vocalista do Foo Figthers, tocando com Urso Fozzie na trash band Os Moopets, Jack Black, como parceiro de Animal, numa clínica de tratamento de gerenciamento de raiva, e Jim Parsons, num dueto (ou seria quarteto?) da bonita canção “Man or Muppet”, de Bret Mckenzie, com Gary/Muppet e Walter. Tem ainda, Whoopi Goldberg, Zach Galifianakis, Emily Blunt, entre outros, em rápidas aparições. No entanto, celebridades coadjuvantes à parte, as grandes estrelas são mesmos os irônicos bonecos que, livres das “amarras”, roubam as cenas, até dos outros bonecos, como a impagável Miss Piggy, na pele de uma impagável e elegantérrima editora de moda extragrande da Vogue Paris, ou o simpático Walter, arrasando (também) no final encantador. É ver para crer!



Os Muppets, infelizmente, não apresenta divertidos erros de filmagem, junto com os créditos finais, mas, em contrapartida abre a sessão com o engraçadíssimo curta Um Pequeno Grande Erro (Small Fry), do Toy Story, mostrando como os brinquedos enfrentam seus traumas, em uma Terapia de Grupo para Bonecos Abandonados em Parque de Diversão. Portanto, não chegue atrasado.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Crítica: Julie e Julia


Julie e Julia
o prazer de comer e de amar

“Penso que Deus deve ter sido um artista brincalhão para inventar coisas tão incríveis para se comer. Penso mais: que ele foi gracioso. Deu-nos as coisas incompletas, cruas. Deixou-nos o prazer de inventar a culinária.”, diz o mestre Rubem Alves, em Festa de Babete, artigo escrito para o Correio Popular de Campinas (SP).

Maravilhoso! É o mínimo que se pode dizer de Julie e Julia (Julie & Julia, EUA, 2009), filme escrito e dirigido por Nora Ephron e estreladíssimo por Meryl Streep e Amy Adams. O cinema já serviu de veículo pra muito deleite gastronômico. Um dos filmes mais famosos é o magistral dinamarquês A Festa de Babete (Babettes Gaestebud/1987), dirigido por Gabriel Axel, e um dos mais divertidos é a animação Ratatouille (Ratatouille, EUA/2007) dirigida por Brad Bird. Mas Julia e Julie tem um sabor diferente, que não está apenas na comida.

Julia e Julie são dois filmes em um. Duas histórias ligadas por uma terceira. A de Julia Child é baseada no livro My Life in France, a de Julie Powell é baseada no livro Julie & Julia e o ponto de liga é o livro Mastering the Art of French Cooking (Dominando a Arte da Cozinha Francesa), de Julia Child, Simone Beck e Louisette Bertholle. Complicado? Que nada, é muito divertido.

A história da norte-americana Julia Child (Meryl Streep) começa em 1948, quando se muda com o marido Paul Child (Stanley Tucci), que é adido cultural da embaixada americana, para Paris, na França. Ali ela descobre as delícias da cozinha francesa e, não satisfeita em degustar, resolve aprender a cozinhar, sendo a primeira americana a cursar a famosa escola de gastronomia francesa, Le Cordon Bleu. Num tempo em que a mulher era praticamente apenas dona de casa e geradora de filhos, Julia (que não podia ter filhos) queria ir além, tentou vários cursos para preencher o seu tempo até se decidir pela culinária, sempre apoiada pelo apaixonado marido Paul.

A história de Julie Powell (Amy Adams) começa em 2002, logo depois de se mudar do Brooklin para o Queens, nos EUA. Ela está com quase 30 anos, trabalha numa repartição pública, mais para ocupar o tempo do que por prazer, enquanto suas “amigas” são grandes executivas. Decidida a dar um rumo melhor à sua vida, por sugestão do apaixonado marido Eric Powell (Chris Messina), ela cria o blog Julie/Julia Project em que desafia a si mesma a cozinhar, em um ano, as 524 receitas do livro Mastering the Art of French Cooking, e dividir a deliciosa e nem sempre fácil experiência com os leitores.

As histórias de Julia (de época) e Julie (contemporânea) correm paralelas, apesar da distância de 50 anos, movidas pela paixão culinária e pelo companheirismo. Cada uma a seu tempo e, às vezes espelho, aguçam a curiosidade do espectador que se diverte com as aventuras culinárias de Julia (na França) e torce por Julie (no Queens) na sua cozinha mínima onde mal cabem um fogão, uma pia e uma geladeira. O excelente roteiro, que casa perfeitamente as histórias, com um texto espontâneo e tiradas inteligentes, não privilegia atores, mas é impossível ignorar uma Meryl (de 1,70m) no corpo de Julia Child (de 1,90m) ou o mesmo o competente Stanley Tucci. Mas se Streep se agiganta ao incorporar uma típica norte-americana cheia de vida, garra, espalhafatosamente contida, amigável, feliz, com a competência de sempre e mais um pouco, Amy Adams também se sai bem ao dar uma cara jovial e verossímil à sua empreendedora Julie Powell.

Julia e Julie fala do prazer de uma boa mesa e também do prazer de uma boa cama, de uma boa companhia, de uma boa cultura e principalmente da busca e realização pessoal. Toca em questões políticas e sociais do pós-guerra (na Europa) e pós-atentados (nos EUA), sem ser maçante ou perder o foco do assunto-tema. É escrito, dirigido e protagonizado por mulheres, mas não é algo “de mulher pra mulher”, ou um filminho feminininho e bobinho de amores impossíveis com final feliz. Julia e Julie é pra todos os sexos que apreciam um bom cardápio e uma ótima comédia sem escorregões, trombadas e piadas escatológicas. Com belas locações na França e em estúdios dos EUA, é um filme pra homem nenhum botar defeito, principalmente os que adoram cozinhar. Ah, é recomendável fazer um lanche antes da sessão, pra não ficar com fome durante a projeção.
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