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quarta-feira, 3 de abril de 2019

Crítica: SHAZAM!



SHAZAM!
por Joba Tridente

No mundo cinematográfico dos fictícios heróis e super-heróis norte-americanos, ainda há espaço para algum poderoso de renome ou para algum poderoso sem notoriedade fazer o nome? Hollywood acredita que sim! O mais novo super-herói dos quadrinhos a chegar no cobiçado panteão traz em seu nome-mantra a essência de seis personagens míticos: Salomão (sabedoria), Hércules (força), Atlas (resistência), Zeus (poder), Aquiles (coragem), Mercúrio (velocidade), cuja combinação (no estilo anagrama) da primeira letra de cada nome, ao ser pronunciada por ele: - SHAZAM!, desperta seus sentidos heróicos e o coloca num figurino vermelho, dourado e branco para enfrentar o ambicioso vilão soturno Dr. Sivana (ou Dr. Silvana, como ficou conhecido no Brasil).

Bem, “novo super-herói” é força de expressão. Para os espectadores de primeiro (?) contato com o personagem-duplo da DC, é bom saber que este SHAZAM, que agora estreia na telona do cinema, não é um novato. Criado pelo roteirista Bill Parker e o desenhista C.C. Beck, a sua jornada (e que jornada!) no universo das HQs, começou em 1940, nas páginas da Whiz Comics, da editora Fawcett. Depois de uma ”pancadaria” judicial, foi parar na DC Comics. Noutra confusão de direitos de propriedade de “maravilhosos”, a esperta Marvel tratou logo de registrar o seu Capitão Marvel. Aí, sem alternativa, a DC teve que se contentar com o título SHAZAM!. É mais ou menos isso! Mas, essa história rocambolesca de nomes e personagens “iguais mas diferentes” você encontra melhor detalhada em sites especializados em HQ. Só lembrando, SHAZAM, o original, que foi um e voltou outro, já apareceu em séries televisivas e desenhos animados...


SHAZAM! (SHAZAM!, 2019), filme de ação e aventura juvenil, com boa dose de humor adolescente (quase pastelão), roteirizado satisfatoriamente por Henry Gayden e Darren Lemke e dirigido com desenvoltura por David F. Sandberg, conta a história do frágil garoto de lar adotivo Billy Batson (Asher Angel), de 14 anos, que busca incessantemente por sua mãe biológica e..., logo após ser adotado pelo casal Rosa (Marta Milans) e Victor Vasquez (Cooper Andrews), em cuja casa aconchegante ele conhece o irônico deficiente Freddy (Jack Dylan Grazer), especializado em super-heróis..., é convocado por uma Mago Ancião (Djimon Hounsou), para se tornar um defensor da Terra. Para tanto, basta a Billy aceitar e clamar o nome-mantra do Mago para se transformar no musculoso e nada hábil adulto SHAZAM (Zachary Levi, excelente!) e vice-versa.


Toda via dos poderes inesperados (sem manual de instrução), no entanto (quem se lembra do início de carreira do Homem Aranha?), ainda que se divirta com seus novos dons, na companhia de Freddy, que tenta lhe ensinar como agem os heróis famosos, Billy (um traumatizado adolescente no corpo de um adulto ingênuo) só vai se dar conta das suas responsabilidades quando se encontrar frente a frente com o ambicioso e vingativo Dr. Thaddeus Sivana (Mark Strong), que se apossou dos Sete Pecados Capitais (Gula, Avareza, Luxúria, Ira, Preguiça, Orgulho, Inveja). Nessa hora, ou Billy/SHAZAM acredita em si mesmo, ou vai ter que improvisar no cara a cara com as sete feras voláteis!


Embora não consiga escapar totalmente do clichê pancadaria e destruição (típico do “gênero”), SHAZAM! traz uma história de origem divertida e totalmente descompromissada, com gags legais sobre heróis e super-heróis DC e situações cômicas e reflexivas que remetem ao clássico Quero Ser Grande (Big, 1988), de Penny Marshall. Sem apelar para o melodrama (afinal a mira é o público jovem), em meio às aventuras e desventuras de um super-herói bizarro, que só pensa em divertir o público ao seu redor com seus poderes “mágicos”, o roteiro roda o bambolê e tangencia com  sutileza e inteligência a delicada questão da família adotiva e ou biológica na formação e no caráter de uma pessoa.   


Enfim, considerando a luminosidade, a vivacidade e o humor irreverente que (antes tarde que nunca) está abrindo com louvor brechas na sombria DC; o afinado elenco que segura bem a história divertida que, em sua linguagem gráfica, presta homenagem aos quadrinistas Bill Parker e CC Beck; relevando a qualidade do CGI, a metragem longa (poderia se bem mais enxuta) e o fato de que este não é exatamente o personagem que conheci nas HQs da minha infância..., o hilário e charmoso SHAZAM! é um ótimo passatempo-família para a garotada acima dos 12 anos e seus acompanhantes adultos. Nota: Há duas sequências nos créditos finais. A primeira sugere um novo capítulo da franquia e a última (após os créditos) azara o Aquaman... 


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta-metragem (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Crítica: Valerian e a Cidade dos Mil Planetas

Valerian e a Cidade dos Mil Planetas
por Joba Tridente

Nascida nas páginas da revista Pilote, em 1967, a aclamada série franco-belga de ficção científica em quadrinhos Valérian, que inspirou a franquia Star Wars (sem receber os créditos) e o fascinante O Quinto Elemento (1997), chega aos cinemas meio século depois do seu lançamento, na espetacular leitura do visionário roteirista e diretor Luc Besson, com o convidativo título Valerian e a Cidade dos Mil Planetas (Valérian et la Cité des Mille Planètes/Valerian and the City of a Thousand Planets, 2017).


Repleto de efeitos especiais que superam qualquer produção recente, Valerian e a Cidade dos Mil Planetas é daqueles filmes juvenis de encher os olhos e deixar o espectador (de qualquer idade!) de queixo caído, sem saber para que lado olhar e ou em quê prestar a atenção..., tamanho o deslumbre visual. É uma viagem sensorial e imersiva no que há de mais avançado em tecnologia CGI. Mas, toda via da beleza infinita pelo universo da fantasia e ficção científica, esta admirável cenografia ajuda ou atrapalha na hora de contar as audaciosas aventuras dos jovens agentes espaço-temporais Major Valerian (Dane DeHann) e Sargento Laureline (Cara Delavigne) por mundos nunca antes explorados? Aí depende das suas expectativas! O que melhor te satisfaz: pipoca ou conteúdo?


Quem é fã do antológico O Quinto Elemento (1997) vai se sentir bem próximo ao ambiente e ao enredo do fantástico Valerian e a Cidade dos Mil Planetas, já que esta nova trama (vinte anos depois) tem muito da sua substância original em cenas que até parecem releitura. A mim, Luc Besson, com sua ansiedade hollywoodiana, tem o dom tanto para criar fantasias maravilhosas (OQE) quanto para equívocos como Lucy. No caso de Valerian, pode até haver algum problema de itinerário narrativo (principalmente na condução dos atores), mas em um projeto tão ambicioso, o incômodo passa até meio batido.


Ao adaptar os quadrinhos de Pierre Christin e de Jean-Claude Mézières, Besson  te conduz a uma viagem anos-luz da imaginação. Ambientada no século 28, a história acompanha uma transcendental missão de Valérian (DeHann) e sua parceira Laureline (Delavigne) para resgatar o raríssimo Mül Conversor, um adorável animal que está sendo negociado ilegalmente num centro de compras virtual, em um planeta deserto, e evitar que ele caia em mão erradas no Complexo Espacial Alpha, que abriga espécies de mil planetas. Porém, este é só o início das pequenas e absurdas aventuras, relacionadas a uma grande tragédia cósmica, que os dois (salvando-se mutuamente) vão enfrentar para evitar o colapso da Cidade dos Mil Planetas.


O roteiro de Besson é simples, mas eficiente para a narrativa (juvenil!) despretensiosa que propõe. Megalomaníaco visual? Talvez, mas não há como lhe negar criatividade, que vai muito além da estética, no desenvolvimento de sequências deliciosamente malucas, como a das borboletas luminosas; das águas-vivas mentalizadoras; do inacreditável mercado virtual... O apurado desenho dos personagens extraterrestres mostra que a tecnologia (pra quem pode pagar!) realmente não tem limites.

Sobretudo por causa da exuberante plasticidade (que desconecta qualquer um da Terra), pode até parecer que há “cenas de ação em excesso” e “texto de menos”..., e ou que Luc Besson está fugindo do assunto “curto” preenchendo o “vácuo” da história, entre o formidável prólogo (ao som de Space Oddity de David Bowie) e o adequado epílogo, com qualquer coisa vertiginosa só para estender seu discurso (visual). No entanto, o tal “excesso de cenas” serve como encaixe de capítulos de uma história em quadrinhos cujos personagens enfrentam as mais diversas (e bota diversas nisso!) situações para atingir o alvo almejado. Sem elas o script perderia o sentido, já que não haveria nenhum antagonista para responder pela insanidade inicial cometida contra um povo pacífico. Quanto ao texto/diálogo, cá pra nós, é bem melhor menos do que redundante. Também porque são diálogos práticos (alguns com humor), necessários para conduzir sequências e não para reflexão profunda sobre a humanidade. Primeiro a diversão e depois a razão.


Para o espectador mais adulto (exigente!), numa trama em que a maioria dos personagens em ação é de perfeito CGI, a performance do elenco humano fica um pouco a desejar. Já o público adolescente talvez nem repare que os atores Dane DeHann e Cara Delavigne não são ideais para os papéis. Além da jovialidade e tipo físico diferente dos personagens da hq, demonstram pouco carisma e nenhuma química. Sobre a breve participação de Rhiana, embora a sua bela Bubble remeta diretamente à Diva Plavalaguna (Maïwenn Le Besco), de O Quinto Elemento, a cantora tem presença e um número artístico memorável.


Enfim, com muita ação e historietas bacanas, numa narrativa repleta de fantasia e que vira a ficção científica de ponta cabeça, Valerian e a Cidade dos Mil Planetas é um espetáculo que, para melhor apreciação, deve ser assistido com espírito jovem..., do contrário, o espectador com espírito adulto e atrás de alguma mensagem edificante é capaz de se aborrecer. O humor pode não ser dos melhores, mas os adolescentes devem achar alguma graça e, inclusive, aprovar o amor pudico do casal protagonista. Considerando que este é um espetáculo de entretenimento raro, com linguagem de história em quadrinhos e de beleza irretocável, eu o veria novamente..., depois de deixar o meu eu adulto bem trancado em casa!



*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Crítica: Batman vs Superman: A Origem da Justiça


Desavenças entre o noctívago Batman e o solar Superman não são nenhuma novidade no universo HQ-DC. O sombrio e o iluminado já se bateram algumas vezes..., e entre mortos e feridos, os dois sobreviveram para novos embates. Agora, sequestrando uma página de hq aqui, roubando meio argumento de hq acolá, e aspirando a obra-prima gráfica O Cavaleiro das Trevas (1986), de Frank Miller..., digo,  e se inspirando na famosa novela gráfica de Miller, os roteiristas Chris Terrio e David S. Goyer, com direção de Zack Snyder e bênçãos (pitacos e influência) do pretensioso Christopher Nolan (do bom Batman Begins, 2005, do razoável Batman - O Cavaleiro das Trevas, 2008, e do terrível Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge, 2012).

O confronto Batman vs Superman: A Origem da Justiça (Batman V Superman: Dawn of Justice, 2016) acontece logo após a catastrófica batalha entre o Superman (Henry Cavill) e o vilão kriptoniano Zod (Michael Shannon), narrada em O Homem de Aço e que deixou um incalculável rastro de destruição em Metrópolis e Gotham City. Manipulações políticas e midiáticas, manifestações de ódio, fanatismo generalizado (lembrando a hipocrisia reinante na “rede social” Facebook no Brasil), dividem a opinião pública e acabam comprometendo a idoneidade moral do Homem de Aço (assunto já explorado no filme solo de 2013) e influenciando o atormentado, vingativo e inescrupuloso Batmaníaco do taciturno Bruce Wayne (Ben Affleck), que se considera mais uma vítima da batalha estelar e quer cobrar (do alienígena) a sua parte na porrada, em uma luta de vida ou morte.  


Nessa arena, o maquiavélico psicótico Lex Luthor (Jesse Eisenberg), é claro, espera assistir, de camarote, ao “acerto de contas”. Uma vez que a aparição dos coadjuvantes Diane Pince/Mulher Maravilha (Gal Gadot) e Apocalypse (Robin Atkin Downes) não é novidade para ninguém..., já dá para o espectador deduzir (sem qualquer spoiler) até mesmo o “final” da história..., se é que conhece a saga do Superman nos quadrinhos e (para mim) a sua (talvez) melhor e mais melancólica aventura.

Como qualquer produto da DC que se preze (positiva e ou negativamente), Batman vs Superman: A Origem da Justiça é grandiloquente (ao gosto de Nolan) e dado a frases prontas (clichês piegas) de impacto sócio-político e econômico, para o público (adulto?) mais intelectualizado achar que a sua inteligência não esta sendo subestimada e que o filme está (seriamente?) conectado (e comprometido?) com o seu tempo etc. Bobagem! Este é apenas mais um artifício narrativo manipulando frases (rasas) ao vento, já que não há interesse (ou estofo?) algum em se aprofundar o dito, que fica pelo não dito.


Batman vs Superman: A Origem da Justiça não é uma colcha de retalhos apenas de hqs dos heróis protagonistas, também se ocupa em fazer citações da trilogia cinematográfica Batman via  Nolan. Os furos do roteiro não são de bala, são de preguiça mesmo. O argumento é tosco e o enredo confuso e pouco convincente nesse universo quadrinhesco em mutação. Nem a trilha sonora horrorosamente sinfônica e ensurdecedoramente desconexa consegue imprimir alguma emoção ao gélido e insosso drama(lhão).

As crises e dilemas dos heróis se repetem: aceitar-se superior/divino e ou humano/marginal? E por falar nisso, a se calcular a neurose de cada futuro integrante da futura Legião, acho que, para discutir os traumas e as psicopatias de cada um, será necessário um ato inteiro do filme para a terapia em grupo. E como, ao contrário da Marvel, a DC não é chegada nem em humor negro, duvido que seja, ao menos, minimamente tão divertida e inocente quanto a sessão de terapia que acontece com personagens de games na ótima animação Detona Ralph (2012).


Ah, e por falar que o humor que rola fácil e mordaz na Marvel não faz parte da DC, os roteiristas de Batman vs Superman até tentam alguns gracejos, mas são tão ruins que é impossível esboçar um sorriso amarelo sequer. Nesta trama de explosão, tiro e pancadaria, o mais próximo que Terrio e Goyer conseguem chegar do que lhes parece humor é um brevíssimo diálogo constrangedor (!!!) entre Martha Kent (Diane Lane) e Batman (Affleck), sobre um apetrecho usado por muitos heróis e super-heróis e que a Pixar já se saiu muito melhor ao falar dele em Os Incríveis (2004). Se viu a animação, vai se lembrar, na hora, da piada lá,  ao ouvir a insinuação imbecil cá. Onde está o Deadpool quando mais se “precisa” dele?

A sequência de abertura (que deve durar uns quinze minutos), mostrando a batalha de Superman e Zod, sob o ponto de vista de Bruce Waine, agrega descaradamente todos os clichês tradicionais do gênero herói/catástrofe (ou vice-versa) que todo cinéfilo conhece de cor e salteado. Ou melhor, quase todos os clichês, pois não me lembro de ter visto algum cachorrinho em perigo. Quanto ao “casal romântico” Clark e Lois Lane (Amy Adams) os autores patinam e patinam, os atores se entregam e se entregam, porém, os personagens se olham, se abraçam, se beijam, insinuam sexo..., mas química que é bom..., nada!


Enfim..., após o equivocado O Homem de Aço (2013), parece que ainda não será desta vez que o diretor Zack Snyder (notório por 300, Watchmen, Sucker Punch) encontrará a sua redenção cinematográfica..., ao menos se depender da crítica, já que tem um público espectador que o admira mesmo nos deslizes. Esses fãs, que não estão nem aí para questionamentos filosóficos, sociais, econômicos, psicológicos..., se tiverem um pouco de paciência com a narrativa arrastada, com certeza vão se deliciar é com o explosivo terceiro ato e até se esquecer da pipoca com pururuca e do refrigerante quente...


Se eu não gostei de nada? Gostei do elenco (Henry Cavill, Ben Affleck, Jesse Eisenberg...), da fotografia de Larry Fong e (do melhor de tudo, mesmo!) dos fantásticos e alucinantes pesadelos do Batman!

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Crítica: Homem-Formiga


Em 2014, uma das grandes (se não a maior!) surpresas no cinema foi a chegada dos “desconhecidos” e divertidos Guardiões da Galáxia. Seguindo as pegadas da trupe maluca chega agora o pequeno e também (?) quase “desconhecido” Homem-Formiga, querendo provar que também pode ser grande nas bilheterias. Bem, ao menos não lhe falta carisma e uma história nonsense para agradar e encantar adultos, adolescentes e crianças.


Homem-Formiga (Ant-Man, 2015), com direção de Peyton Reed e roteiro de Edgar Wright, Joe Cornish, Adam McKay e Paul Rudd, é um sci-fi de aventura e ação e fantasia baseado no personagem homônimo criado por Stan Lee, Jack Kirby e Larry Lieber. Nunca é demais lembrar que, desde que surgiu em 1962, nas páginas da revista Tales to Astonish - n° 27, assim como outros heróis marvelianos, o Homem-Formiga também teve a sua vida revista e reescrita. Portanto, nada de ficar cutucando o formigueiro com vara curta: hq é hq e cinema é cinema..., ainda que tenham muita coisa em comum, e não estou falando de storyboard. Também porque, por mais que se mude a persona, sempre fica um pouco (para reconhecimento) do super-herói antes da plástica.


Homem-Formiga, o filme, crava as suas garras em Scott Lang (Paul Rudd, esbanjando o mesmo carisma que Cris Pratt em Guardiões), um ladrão recém-liberto que, após um assalto, na tentativa de se redimir e conquistar o respeito da ex-mulher Maggie (Judy Greer) e o direito de visitar a filha Cassie (Abby Ryder Fortson), aceita vestir um super-traje para ajudar o dr. Hank Pym (Michael Douglas) e Hope Van Dyne (Evangeline Lilly) a manter as mãos do ambicioso empresário Darren Cross/Jaqueta Amarela (Corey Stoll) longe da poderosa invenção. Nessa tarefa, além da força de uma tropa de formigas, o herói (de ocasião) vai contar com a “perspicácia” de um trio, meio nerd e meio paspalhão, formado pelo latino ladino Luis (Michael Peña, roubando cenas), Dave (“T.I.” Harris) e Kurt (David Dastmalchian).


Homem-Formiga tem um roteiro despretensioso. O seu maior acerto é o de deixar de lado o melodrama presente nas HQs e optar pelo bom humor, fazendo crer que até mesmo quem tem fobia de formiga vai achar divertidas e inteligentes as sequências protagonizadas pelos insetos. As brincadeiras com a proporção das coisas, principalmente no “duelo” final, são hilárias. Se bem que se você não souber (?) quem é Thomas, provavelmente não vai achar graça no grande achado. As cenas de ação (meio pastelão) são limpas (leia: sem sangue) e, acredite se quiser, apesar do tiroteio e alguma pancadaria, excetuando dois pequenos ambientes, a cidade permanece inacreditavelmente intacta. Nem parece que um herói e um vilão passaram por ali. Será que a escala de destruição é comparável ao tamanho do herói? É ver pra crer.


Enfim, considerando o excelente elenco; a história simples, mas satisfatória no universo dos heróis (e suas fraquezas humanas); o 3D de profundidade e a excelência dos efeitos especiais; as gags espertas envolvendo outras personagens e instituições marvelianas; a falta (ufa!) de lição de moral e ou de jornada do herói..., é uma grande pedida para se ver descompromissadamente nas férias!

Ah, já ia me esquecendo, não fique questionando sobre a Vespa, o Ultron e muito menos sobre a criação dos Vingadores..., aguarde as explicações no decorrer da trama e as cenas entre créditos finais.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Crítica: Capitão América: O Primeiro Vingador


Capitão América: O Primeiro Vingador é um filme de aventura que chega com o propósito de fazer justiça às histórias em quadrinhos originais. Este primeiro capítulo realmente surpreende ao se aproximar muito dos gibis que, há 70 anos, deram vida ao herói norte-americano cheio de boas intenções norte-americanas. Com breves variações e poucas liberdades cinematográficas a produção enterra de vez a triste lembrança da versão trash de 1990: Capitão América: O Filme, dirigido por Albert Pyun.

Capitão América, alterego de Steve Rogers, o mais patriota de todos os heróis americanos de HQs (dependendo de quem conta a sua história), foi criado na década de 1940 por Joe Simon e Jack Kirby. Ele não tem nenhum poder especial, apenas força física, e como arma de defesa e (se preciso) ataque usa um escudo mais rápido que um cometa e tão eficiente quanto um bumerangue. A primeira revista Captain America Comics, em cuja capa ele aparece vestindo uma roupa nas cores da bandeira americana (vermelho, branco e azul), e esmurrando Hitler, saiu em março de 1941, meses antes dos EUA entrarem na II Guerra Mundial. Como se vê o “Yes, We Can! (Sim, Nós Podemos!)”, vem de longe. Nem o ET Superman (criado em 1938) chegava a tanto.  

Fruto de uma experiência científica que o transformou em um supersoldado, Steve Rogers e ou Capitão América já foi morto (e substituído) algumas vezes (seis ou sete), por conta do humor dos roteiristas e ou do clima sócio-político envolvendo os EUA e o (sempre) resto mundo. Nos anos de 1960, o super-herói (original) acabou ganhando uma versão, que serviu de base para o filme de Pyun e agora de Johnston, onde ele sofre um acidente de avião e desaparece ao final da Segunda Guerra, no Atlântico Norte. O Sentinela da Liberdade ficou, por décadas, “enterrado” no gelo (em coma) até ser encontrado (na HQ, pelos Vingadores em guerra contra Namor, o Príncipe Submarino). Na sua última morte, em 2007, conforme a minissérie Fallen Son: A Morte do Capitão América, ele volta a ser enterrado no gelo por aqueles que o encontraram (até a próxima ressurreição). Assim, enquanto Capitão América, O Filme se passa saltitando entre as décadas de 1940 e 1990, o Capitão América: O Primeiro Vingador se passa (praticamente) no período da II Guerra.


Para quem não é fã de quadrinhos e ou não se lembra da história, Steve Rogers (Chris Evans) é um garoto órfão que atende ao apelo norte-americano de convocação para o alistamento militar e que, por ser franzino e ter a saúde debilitada, é dispensado. No entanto, pela sua insistência, acaba despertando o interesse do Dr. Erskine (Stanley Tucci), um cientista alemão, asilado nos EUA, que descobriu uma fórmula capaz de transformar pessoas de qualquer porte físico em supersoldados. Rogers, com seu corpo duplicado, musculoso, esbanjando saúde, ganhou logo a patente de Capitão América, para zelar pela segurança da pátria estadunidense. No campo de batalha o saudável soldado nacionalista conhece o pior dos seus pesadelos, Caveira Vermelha (Hugo Weaving), alterego de Johann Schmidt (ou vice-versa), oficial alemão que sofreu com os efeitos colaterais ao passar pela mesma experiência de Steve.

Divertida e irônica, a narrativa explora as várias mídias (inclusive HQ) usadas pelo Governo e Forças Armadas americanas na apresentação do Capitão América, então um objeto propagandista caro e raro, para vender bônus de guerra, convocar jovens e persuadir a população de que a hora dos EUA salvar o mundo tinha chegado. A propaganda era (e ainda é!) uma arma de persuasão poderosa na mão dos governantes das nações em guerra, todas usavam e abusavam de tais artifícios, principalmente difamatórios. No site Grandes Guerras, um artigo sobre A propaganda na Segunda Guerra Mundial, em um parágrafo sobre os alemães, diz: “...Outros discursos e cartazes promoviam e retratavam a união entre soldados e trabalhadores, instando os últimos a "fazer sua parte" no esforço de guerra, demonstrando cenas de batalha em uma maneira semelhante ao período romântico (era Napoleônica). Este tipo de cartaz normalmente explorava a figura masculina, musculosa, pois se imaginava que a força do homem era um conceito interessante para inspirar a confiança nos tempos difíceis.” De volta ao Capitão, o bom moço loiro, inocente até nas “coisas” do amor, porém bonito e confiante, vai fazendo tudo como querem os figurões, até resolver agir por conta própria e dizer a que foi criado. Seleciona um grupo de Soldados Gloriosos, entre eles o parceiro Bucky Barnes (Sebastian Stan), e parte para cortar a cabeça da HYDRA e acabar com os planos do vilanesco Caveira.


Em Capitão América: O Primeiro Vingador (Captain America: The First Avenger, EUA, 2011), dirigido por Joe Johnston, tudo funciona e conspira a favor do personagem Steve Rogers (seu duplo: Capitão América) e do público. Ambos ganham com a excelência da história que tem ritmo, humor, ação, aventura na medida certa. Os bons roteiristas Christopher Marcus e Stephen McFeely (ambos da trilogia As Crônicas Nárnia), que sabem muito bem contar uma boa história, continuam surpreendendo com uma narrativa simples, básica, porém eficiente. Afinal, complicar pra quê?! Johnston, depois de dividir a crítica com O Lobisomem (The Wolfman), voltou em forma e esbanjando categoria num casamento perfeito entre os quadrinhos heroicos e o cinema de entretenimento, conseguindo uma veracidade dramática impressionante. Os personagens são carismáticos e o elenco está afinadíssimo. A direção de arte (principalmente na reconstituição de época) e os efeitos especiais são um espetáculo à parte. Até mesmo a conversão 3D é boa. Resta saber o que virá na continuidade, quando a ação se tornar contemporânea.

NOTA: Para compreender a complexidade do fantástico universo dos quadrinhos (linguagem próxima, mas diferente do cinema) sugiro a leitura do artigo: Capitão América: Herói ou Vilão?, de Nano Souza, publicado no Universo HQ e do ensaio: Capitão América: Interpretações Sócio-antropológicas de um Super-Herói de Histórias em Quadrinhos, de Luciana Zamprogne Chagas, publicado na Revista Eletrônica Sinais  e também em Guia dos Quadrinhos, que publica outros excelentes trabalhos no link Monografias. 

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Crítica: Thor



THOR
por Joba Tridente



Para os fãs de HQs é sempre um risco quando um personagem tem as suas aventuras adaptadas para o cinema. Nem sempre o herói encontra roteiristas e ou diretores à altura. E, pior, geralmente (re)contam a sua história incluindo passagens (que nunca existiram) ou excluindo momentos importantes. Como se não bastasse, de tempos em tempos, os super-heróis têm a sua personalidade virada do avesso (Batman que o diga!), de forma que nem eles mais se reconhecem pelo famigerado nome.

Thor (Chris Hemsworth), o filho de Odin (Anthony Hopkins), é um jovem impulsivo e arrogante que, na noite da sua coroação, acaba provocando uma guerra contra os Gigantes de Gelo, colocando o Reino de Asgard em perigo. A sua punição é o exílio e quem se beneficia é o seu maquiavélico irmão Loki (Tom Hiddleston). Apesar de ser destituído dos seus poderes e, principalmente, do famoso martelo Mjolnir, o exilado Thor não fica tão mal na fita. Assim que literalmente cai do céu, no Novo México, enquanto se ambienta, conhece e (é claro!) se apaixona pela astrofísica Jane Foster (Natalie Portman) e é cortejado pela SHIELD (Superintendência Humana de Intervenção, Espionagem, Logística e Dissuasão). Porém, vai descobrir que, de nada vale ser um cara saradão, se não tem poderes para enfrentar o Destruidor.
  

O filme se preocupa, primeiramente, em situar o espectador no universo mítico nórdico. Depois, trocando uma coisinha aqui e outras ali (que o fã do herói vai sentir falta e reclamar), desvela a personalidade rebelde do Deus do Trovão e as razões da sua queda na Terra (Midgard). Como o tempo do cinema é bem menor (e mais caro) que o de uma história em quadrinho ou animação, e os fatos acabam sendo atropelados (ops!) e abreviados, resgatei na WEB o sermão de Odin (da HQ), quando exila Thor: "Tu és o filho favorito de Odin! Além de valente e nobre, tua alma é imaculada! Mas ainda assim és incompleto! Não tens humildade! Para consegui-la deverás conhecer a fraqueza... sentir dor! E para isso necessitas deixar o Reino Dourado e despir-te de tua aparência divina! A Terra, lá aprenderás que ninguém pode ser verdadeiramente forte se, em realidade, não for humilde! Por um tempo não mais serás o Deus do Trovão! A tua memória também tirarei! Agora, vai! Uma nova vida te espera!".


Thor (Thor, EUA, 2011), dirigido pelo shakespeariano Kenneth Branagh, é um simpático épico de ação e aventura, assim na Terra como em Asgard. Com roteiro de Ashley Edward Miller, Zack Stentz e Don Payne, baseado no personagem criado pelos míticos Stan Lee e Jack Kirk, em 1962, o Deus do Trovão ganha uma versão que, apesar da tradicional infidelidade autoral, deve agradar quem cresceu lendo as suas aventuras ou assistindo a série (mais ou menos) animada na televisão. É uma produção grandiosa e, excetuando a farsa do 3D, tem efeitos visuais esplendorosos. A direção de Branagh é eficiente, consegue um feito inesperado: humanizar o malvado Loki (do inspirado Hiddleston), além de fazer um filme divertido e com uma boa dosagem cômica (sem piadas escatológicas) e de ação. Não sei será um divisor de películas marvelianas, mas está muito acima da média que se vê dos filmes de heróis. Ah, e quem quiser saber o que reserva a próxima produção que trará Thor, na companhia de Capitão América, Homem de Ferro, Hulk, Nick Fury, em Os Vingadores, não deve sair da sala antes dos créditos finais.

Para saber mais sobre as animações e quadrinhos de Thor: FANTV; Desenhos Animados; Heróis HQ.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Crítica: Watchmen


Os anos 1986/87 foram um marco no mundo dos quadrinhos com o lançamento da estranha e antológica minissérie Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibson, em 12 alucinantes capítulos, envolvendo um grupo de “heróis” num mundo (ainda) em convulsão política e social. Agindo isoladamente ou em parcerias, os Vigilantes Mascarados são sonhadores, egocêntricos, arrogantes, prepotentes e crédulos de que a paz na cidade de Nova York e no mundo depende da ação deles. Mas, se fantasiados procuram passar a imagem de verdadeiros paladinos, em defesa dos fracos e oprimidos (e também a serviço dos governantes e poderosos), sem a máscara (foras da lei ou não) são pessoas tristes, homens e mulheres com todas as suas idiossincrasias.

Duas décadas depois Watchmen (Watchmen, EUA, 2009) chega às telas de cinema e se vai causar o mesmo impacto é difícil de se prever, apesar da boa produção, e da mão pesada mas certeira de Zack Snyder, o mesmo diretor do espetacular 300, baseado na HQ 300 de Frank Miller. Também porque Alan Moore, com todos os seus subtextos políticos e paralelismo antropológico, é prolixo e exige um pouco mais (bem mais) de paciência com a sua obra do que Frank Miller.


Ao contrário da HQ V de Vingança, também de Alan Moore, que se passa na década de 1980 e foi atualizada pelos irmãos Wachowski para ganhar a telona em 2006, Watchmen continua em 1985, com toda a paranóia que tomou conta da década com a Guerra Fria, a iminência de conflito Nuclear e ainda os resquícios da Guerra do Vietnan. Uma década de medos e de alguma esperança na paz. Watchmen, com roteiro de David Hayter e Alex Tse (sem qualquer participação de Alan Moore), está um pouco mais palatável, mas não menos complexo e às vezes até ininteligível em algumas citações - como na estranha conversa/desabafo de Comediante com Moloch sobre a ilha onde estão os artistas, escritores e cientistas desaparecidos - que só faz sentido com o desfecho original da HQ,


É claro que quem espera encontrar a HQ, quadrinho a quadrinho, vai se decepcionar um pouco. A dramática história dos Vigilantes Mascarados está ali, com suas questões políticas, sociais, psicológicas ao extremo, retratando um grupo de pessoas, onde cada um é cada vez mais cada um, na sua megalomaníaca busca pela paz no mundo, acreditando que os seus atos (até mesmo os imperdoáveis) serão justificados no fim. Porém, em versão cinematográfica, onde situações (e personagens) que parecem não ter importância foram descartadas (jornaleiro e seus fregueses, leitor de gibis, história do gibi, investigadores, gangues) e outras reescritas, fazendo a violência, por exemplo, que é apenas insinuada na HQ, ganhar ares além do real (e da necessidade) na telona.


À primeira vista Watchmen encanta pela sua plasticidade e trilha sonora, mas a sensação final é de que para uma razoável reflexão sobre o que é ser humano o diretor lapidou demais os Vigilantes Mascarados. Para quem não conhece a HQ recomendo que a leia depois (ou antes) de ver o filme. Mas sem esquecer que Watchmen, a HQ, é uma coisa e Watchmen, o filme, é outra, apesar das semelhanças e diferenças.
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