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quinta-feira, 11 de maio de 2017

Crítica: Alien: Covenant

Alien: Covenant
por Joba Tridente

Há 38 anos, Alien, o Oitavo Passageiro, de Ridley Scott, aterrorizou plateias em quase todo o mundo terrestre. Depois, a cada retorno, o monstrengo foi se tornando tão vulgar e chato que, nas suas últimas aparições, até em dupla com outro alienígena, o Predador, não provocava sequer um arrepio no inverno. Então, nos idos de 2012, Scott achou que, 33 anos depois, devia ele mesmo resgatar a sua “cria” alienígena em um prólogo denominado Prometheus, que, a princípio, não seria o prólogo de Aliens (1979), mas que acabou sendo. Com sua especulação metafísica sobre a origem, os meios e o fim do homem, o resultado foi decepcionante.  Ou como ironizou a mídia especializada e grande parte dos espectadores: Prometheus prometeu e ficou na promessa!


Após cinco anos de muita conversa atravessada nos bastidores, eis que vamos reencontrar Ridley Scott, mais uma vez querendo assustar a sua fiel plateia com as conveniências alienígenas em Alien: Covenant (Alien: Covenant, 2017). O drama de ficção científica, com alguns aborrecidos sustos sonoros, além da pretensa discussão filosófica sobre criador e criatura, que reverbera por toda a trama (fala do androide Davi (Michael Fassbender) para o seu criador Peter Weyland (Guy Pearce): - Você procura o seu criador. Eu estou olhando para o meu! Você vai morrer. Eu não!), narra as desventuras (é claro!) da tripulação da aeronave Covenant que, a caminho do planeta Origae.6 (levando 2000 colonos), é despertada para resolver uma grave avaria no veículo. Sim, as espaçonaves terrestres, dependendo do engenheiro, sempre dão problemas no espaço, onde nenhum pedido de socorro será ouvido, e todos os tripulantes, habilitados ou não para o serviço técnico, vão ter de se virar para consertar a nave, se quiserem seguir viagem rumo a um mundo onde o homem jamais esteve...


Continuando, além de alguns humanos, como o capitão Oram (Billy Crudup) e a segunda no comando Daniels (Katherine Waterston), faz parte da tripulação o simpático androide Walter (Michael Fassbender), uma réplica gentil do androide psicopata Davi (Fassbender), que sumiu ao final de Prometheus. Acontece que, diferente de um pedido de socorro, a bela canção Take Me Home, Country Roads, de John Denver (1943-1997) pode ser ouvida no espaço. E como a curiosidade mata o rato, já que o planeta de onde chega a canção está a uma semana de viagem e o Origae.6 a sete anos (em crio-sono), nada melhor que fazer uma visitinha e, se a terra for boa, encurtar a viagem, trocando um paraíso pelo outro. Nem é preciso dizer que o paraíso vai virar o inferno, com a chegada dos ansiosos e descuidados humanos. Daí, é só acompanhar o rotineiro pega-pega (ou fura-fura) entre alienígenas e humanos, contar mortos e feridos e apostar em quem sobreviverá! Ah, e adivinha quem é o responsável pela emissão da música-isca pelo espaço?


Para quem conhece toda a série do metálico alienígena cabeçudo que baba ácido, incluindo as tolas parcerias Alien/Predador, Alien: Covenant é apenas (ou tão somente) mais do mesmo e (pior!) com muito menos terror, suspense, tensão e muito mais previsibilidade. Não importa a quantidade e ou variedade de Aliens de Scott (aqui vai do microscópico ao gigantesco), os ataques são explosivamente iguais e, com certeza, continuarão se repetindo nos próximos (três?) filmes. Assim, diante da tradicional (e bocejante) sandice humana, não é difícil saber quem tentará salvar o dia, (despertando a força que não sabia ter) e quem (excetuando o androide?) estará ali apenas para boi de piranha, digo, bucha de alien (tipo os camisas vermelhas da série televisiva Star Trek).


Enfim, considerando que o “suspense” infantojuvenil de “sustos” sonoros, deve agradar aos fanáticos espectadores pouco exigentes; que o “roteiro” simplório tem menos falhas que Prometheus, mas continua perdido no espaço do gênero e (talvez por isso?) subestimando o público com sequências insensatas (idiotas?) ou piegas; que a “pegada” gore está mais é para o trash; que a reflexão religiosa (fé cega e pagão imolado) é inócua; que o elenco é ótimo, porém seus personagens (excetuando Davi/Walter) são rasteiros e emotivamente imbecis; que a produção impecável e os excelentes efeitos especiais não são suficientes para maquiar a falta de criatividade, inclusive na direção..., Alien: Covenant (apesar da belíssima cena da aula de flauta entre androides) é um presente de grego. Tire suas dúvidas por conta própria..., vai que gosta!

Nota: No YouTube tem dois prólogos, criados por Ridley e seu filho Luke, que não estão em Alien Covenant: O primeiro tem a ver com o final de Prometheus e o segundo com a hibernação dos astronautas. Não são spoiler e não comprometem o filme. Você pode assistir agora e ou depois. Legendas em espanhol.


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

sábado, 26 de setembro de 2015

Crítica: Perdido em Marte


Os títulos em português brasileiro para obras (principalmente) cinematográficas é matéria para as mais diversas teorias (da conspiração?) na internet. Eu mesmo já comentei em outras ocasiões sobre esta ignóbil mania (estraga prazeres) que estupidifica o espectador com seu spoiler e ou por ter nada a ver com o assunto..., como é o caso do Perdido em Marte, versão livre de The Martian (O Marciano), do romance escrito por Andy Weir e que inspirou o sci-fi homônimo de Ridley Scott. Pra começo, meio e fim de conversa, o astronauta Mark Watney, de Matt Damon, não está “Perdido em Marte”, se muito, foi “Deixado em Marte”.  O título original não é mero capricho e ou achismo do autor, está muito bem inserido e justificado, com ironia, na história.


Perdido em Marte (The Martian, 2015) gira ao redor do astronauta e botânico norte-americano Mark Watney (Matt Damon) que, durante uma tempestade de areia, ao ser atingido por detritos e perder a consciência, é dado como morto e deixado em Marte, pela tripulação da Nave Hermes. Ao recobrar a consciência, ferido e a milhões de quilômetros de qualquer outro ser humano, mais que se lamentar, ele decide que vai viver pelo maior tempo possível. Usando sem moderação (e modéstia) o seu conhecimento de botânica e de matemática, no consumo balanceado do alimento disponível no Laboratório Hab, ele calcula que terá uma sobrevida de uns dois anos. E mais, certo de que, mesmo que a Agência Espacial descubra que está vivo, não haverá tempo hábil para um resgate, se põe a gravar um diário, registrando em vídeo o seu progresso (Nem sei quem vai ler isto. Acho que alguém vai acabar encontrando. Talvez daqui a cem anos. Que fique registrado: não morri em Sol 6. O restante da tripulação certamente achou que eu tivesse morrido, e não posso culpá-los. Talvez decretem um dia de luto nacional em minha homenagem e minha página na Wikipédia vá dizer: “Mark Watney foi o único ser humano que morreu em Marte.” E, provavelmente, isso estará correto. Porque, sem dúvida, vou morrer aqui. Só que não em Sol 6, como todo mundo está achando., tradução de Marcelo Lino  para a edição brasileira da Arqueiro)..., até que acaba encontrando uma forma de se comunicar com a Terra, causando surpresa e suspense na NASA.

Assim uma fantástica corrida contra o tempo se inicia. Enquanto em Marte, o botânico faz valer a sua formação acadêmica, usando a ciência (real) para resolver questões relacionadas à sua sobrevivência (produção de água e de alimento), na Terra os cientistas da NASA esmiúçam a física para encontrar uma forma de resgatá-lo com vida.


Dirigido com vigor por Ridley Scott, que há muito devia um entretenimento de excelência ao seu público, Perdido em Marte é uma ficção científica literalmente engenhosa (ou seria literalmente científica?), principalmente por conta de seu simpático protagonista Mark Watney (“Se o oxigenador quebrar, vou sufocar. Se o reaproveitador de água quebrar, vou morrer de sede. Se o Hab se romper, vou explodir. Se nada disso acontecer, vou ficar sem alimento e acabar morrendo de fome. Então, é isso mesmo. Estou ferrado.”), num show arrebatador de Matt Damon.

O roteiro de Drew Goddard é cativante, divertido e plausível na sua “decupagem” nerd, meio que uma longa e bem-humorada palestra sobre os percalços (?) da fascinante exploração espacial que nos aguarda num futuro próximo. Fiel à linha da elogiada pesquisa científica que norteou romance homônimo de Weir, passa ao largo da pretensiosa (e inócua) especulação metafísica de Interestelar (2014) de Christopher Nolan, onde Damon fazia o papel (sem pé nem cabeça) de Mann, um astronauta psicopata “à espera de resgate” num planeta gelado e inóspito (ou seja, do gelo inconsistente para a caldeirinha consciente).


A trama, que acaba se dividindo em três núcleos distintos de ação (Marte, NASA, Nave Hermes), não está interessada na ciência especulativa, mas na ciência prática que (sem pieguice e ou lição de moral) pode resolver questões cruciais para o desenvolvimento e sobrevivência da humanidade (na Terra ou no Céu). Mas, fique tranquilo(a), a gente absorve facilmente as razoáveis explicações científicas e fica até tentado a dar sugestões..., ou estudar com mais afinco a matéria.

O grande trunfo de Perdido em Marte, cujo argumento pode até soar banal (a história de um resgate), está na condução da narrativa que começa como drama leve (?) da persona esperançosa (mas conformada) do engraçado astronauta Mark, vai ganhando corpo e emoção e quando menos se espera, envolve o espectador num suspense inquietante que o deixa antenado até a última cena. É impossível não torcer pelo simpático e solitário botânico, com suas ironias e reflexões (diante de um crucifixo de madeira, por exemplo) a milhas e milhas e milhas do Planeta Azul. Ou ficar indiferente às decisões burocráticas e técnicas dos cientistas da NASA a milhas e milhas e milhas do Planeta Vermelho.


Perdido em Marte é um filme sublime. Inspirador! O seu elenco, de ótima safra (Chiwetel Ejiofor, Jeff Daniels, Jessica Chastain, Donald Glover, Sean Bean, Kristin Wiig, Benedict Wong, Sebastian Stan, Kate Mara, Michael Peña), capitaneado pelo irretocável Matt Damon, dá o seu melhor..., até mesmos os menos coadjuvantes se destacam nas performances. Sequências impressionantes, bons diálogos (ou monólogos comoventes!), efeitos especiais de qualidade, montagem caprichada, trilha “disco music” para os nostálgicos, com direito ao bônus da contagiante glam rock Starman, de David Bowie..., fecham o belo pacote. Imperdível!!!

domingo, 21 de dezembro de 2014

Crítica: Êxodos: Deuses e Reis


Quando era garoto e já louco por cinema, morando no interior de São Paulo, ouvia o pessoal mais velho dizer que a cidade de Oswaldo Cruz era tão longe da capital que quando o filme Os 10 Mandamentos chegasse lá, pra ser exibido no grande Cine São José, só teria 5 Mandamentos. Humor interiorano: peca, mas não quebra a tábua das piadas religiosas. Ah, não me lembro quantos anos após o lançamento no Brasil o épico passou por lá, mas me lembro de ter preenchido um álbum inteiro de figurinhas do filme.

Hoje os tempos são outros. De película em película o cinema digitalizou. A leitura analítica e a releitura cinematográfica da antiga passagem bíblica são outras. Êxodos: Deuses e Reis (Exodus: Gods and Kings, 2014), de Ridley Scott, não é refilmagem de Os 10 Mandamentos (The Ten Commandments, 1956), de Cecil B. DeMille, mas tem sua grandiloquência e uma pitada de ousadia contemporânea que deve incomodar evangélicos parados no velho testamento e cristãos que seguiram adiante.


Ao contrário do público religioso, que espera assistir a filmagem de um conto bíblico tal e qual no livro de mitologia judaico-cristã e realizado por um diretor crente, a mim incomoda absolutamente nada o fato de Scott se definir (?) ateu. O mestre Pier Paolo Pasolini também o era e realizou o belíssimo Evangelho Segundo São Mateus (Il Vangelo Secondo Matteo, 1964). Mas voltemos nos séculos, lá pelos idos de 1300 a.C, no Egito governado pelo Faraó Seth (John Turturro), para encontrar Ramsés (Joel Edgerton) e o seu “primo” Moisés (Christian Bale) se preparando para rechaçar a invasão dos hititas e acalmar os ânimos dos israelitas escravizados em Pithom, cidade egípcia onde o futuro líder dos hebreus conhece a sua origem e num gesto de fúria acaba provocando o seu exílio. Em seu retiro, Moisés se casa com a bela Zipporah (Maria Valverde), tem um filho Gershon (Hal Hewetson) e conhece o vingativo deus (menino pirracento) dos hebreus, na figura inocente e malévola de Malak (Isaac Andrews), que o convoca para libertar os israelitas. De volta ao Egito, as famosas pragas, o êxodo, o mar e a peregrinação...

Até aqui (excetuando Malak) nada de novo na sinopse, já que estas são “passagens” mais ou menos conhecidas até por leigos. O que conta é como Ridley Scott trabalha esses “fatos”..., ou melhor, atualiza (cientificamente) alguns “fatos”. Assim como DeMille (de quem se apropriou do Faraó Seth e Ramsés, governantes em outra época), ele não se apega muito ao relato bíblico..., mas quando se apega, como no caso das 10 Pragas Divinas, é de virar o estômago. Também porque não se sabe quando (e se) teria ocorrido o relatado, já que a Bíblia sequer dá o nome de algum Faraó. No entanto, já que Cecil B. resolveu a questão (manipulando a história e a religião) e ninguém chiou, ficou por isso mesmo: Seth e seu filho Ramsés II eram contemporâneos de Moisés e amém!


Ora, se estamos falando de Hollywood, o paraíso das ilusões, onde qualquer ficção pode ganhar ares de veracidade e a liberdade extrapolar qualquer poética, o lance é sempre acreditar duvidando. De volta ao Êxodo: Deuses e Reis, a impressão é a de que Scott não está nem aí para datas, seja a de 1300 a.C. (data provável do nascimento de Ramsés II e não do seu reinado), seja a do cabalístico 12 de Moisés: exilado aos 40 anos; retorno aos 80 para libertar os hebreus; peregrinação até os 120 procurando assentamento. A controversa gagueira do profeta e o suporte vocal do irmão Arão, acabou se perdendo na tempestade de areia no Saara.

Ridley Scott realizou um filme enxuto e (de certo modo) muito pessoal, focando apenas nos parágrafos essenciais da lenda israelita. Portanto, como não há muito espaço para peculiaridades domésticas relacionadas às famílias de Moisés (mulher, filhos, mães biológica e adotiva etc), e com a carga emocional praticamente zerada, a narrativa pode parecer irregular: hora arrastada e hora apressada. O conveniente é que, sem o anestesiante impacto (clichê) emocional, o público menos sectário é “convidado” a analisar friamente o benevolente sadismo do deus dos hebreus, no comando das 10 Pragas Divinas. O inconveniente, para espectador sectário, é a forma divertida (ou seria cínica?) que Scott utiliza as explicações científicas para cada ato maligno do divino israelita. Pelo menos para a maioria deles.


Albert Einstein teria dito que “A ciência sem a religião é manca e a religião sem a ciência é cega”, e Karl Marx, lembrando alguns filósofos que discutiram o tema anteriormente, citou: “A religião é o ópio do povo”. Qualquer uma das frases, fora do contexto, pode até sugerir um anátema, mas a verdade é que elas suscitam uma reflexão muito mais intensa sobre ciência, fé e capital. Ah, e por falar em maldade divina, recomendo a leitura de Resposta a Jó, de C.C. Jung, uma análise fascinante do belo (por parte de Jó) e perturbador (por parte de deus e do diabo) poema bíblico Livro de Jó.

O Moisés, de Ridley, é tanto um guerreiro (conforme a causa faraônica), quanto um guerrilheiro (conforme a necessidade divina). Um líder (heroico, estrategista econômico) que não se apequena diante da adversidade e muito menos do maquiavélico deus que o convoca para uma missão humanamente impossível. Um homem (sem pátria!) desconfiado que, além de não dizer amém a tudo, questiona a “lógica religiosa” de que os fins justificam os meios.

Muitos críticos têm se apegado mais ao branqueamento dos egípcios do que ao questionamento religioso. É incômodo tanta gente branca e de olho colorido no palácio e entre os escravos no antigo Egito? É! Mas fazer o quê? É rotina (mercadológica) de elenco hollywoodiano e ponto final. A representação de deus na inocente face (da crueldade) infantil também tem dado o que falar..., para mim é o que há de melhor em toda a trama. Os embates (racionais?) entre Moisés e Malak são impagáveis.


Êxodos: Deuses e Reis, embora sucinto, tem história demais e tempo de menos para contar..., o que faz personagens importantes “entrarem” mudos e desaparecem calados. Ele pode até falhar em alguns aspectos, ainda que não me pareça equivocado no foco do episódio bíblico, mas se sobressai nos excelentes efeitos especiais. As panorâmicas e os sobrevoos sobre a região, os monumentos, o Mar Vermelho, as pestilências (!), são de cair o queixo. O elenco (internacional) é bom, mas não chega a surpreender (só Andrews/Malak me arrebatou).

Enfim, é um filme que, para muita gente, será difícil dizer se é bom, ruim ou muito pelo contrário.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Crítica: Prometheus



Na mitologia grega Prometeu é o titã que livrou o homem das trevas e da subserviência divina, dando-lhe o Fogo do Conhecimento. No cinema, Prometheus é a espaçonave que leva uma equipe de cientistas e exploradores em busca do Fogo Primordial.

Dizem que uma parte da humanidade olha para o céu à espera do seu criador e que outra parte perscruta as estrelas (e as águas) ansiosa por saber quem somos, de onde viemos e, mesmo, para onde vamos. Em Prometheus (Prometheus, EUA, 2012), a ficção científica de ação e horror, do diretor Ridley Scott, dois arqueólogos, Elisabeth Shaw (Noomi Rapace) e Holloway (Logan Marshall-Green), encontram, em várias civilizações, indícios da presença de seres oriundos de um mesmo planeta (LV223) e de que estes seriam os deuses criadores da vida na Terra. Com a pesquisa na mão e um projeto na cabeça os cientistas convencem a Weyland Industries a financiar a missão que leva a bordo da espaçonave Prometheus, comandada pelo capitão Janek (Idris Elba), além dos cientistas e o pessoal de segurança, Vickers (Charlize Theron), "executiva" da megacorporação e o androide David (Michael Fassbender), criado pela WI.


Para Elizabeth, cristã criacionista, e seu namorado Holloway, um leigo, digamos, agnóstico, pode ser a chance de desvendar o mito da criação divina dos homens. Para a maioria da tripulação de exploradores é só mais um trabalho. Pelo menos é que eles imaginam, até pousar no inóspito planeta que está longe da imagem do paraíso celestial. Prometheus pode ser visto como prequel (prólogo) da “franquia” Alien, pela referência ao Space Jockey, o gigante extraterrestre com um buraco no peito. Mas também oferece uma leitura paralela à série, para quem não conhece a franquia: Alien, O Oitavo Passageiro (Ridley Scott, 1979), Aliens ( James Cameron, 1986),  Alien 3 (David Fincher, 1992), e Alien Resurrection (Jean-Pierre Jeunet, 1997). As tranqueiras AVP (2004 e 2007) são apêndices estuporados fora do jogo.

À primeira vista, para os amantes da curiosa sci-fi, Prometheus parece meio deslocado, pelo avanço da cinematografia em trinta e três anos e pela mudança de foco no frouxo roteiro dos espetaculosos Jon Spaihts (A Hora da Escuridão) e Damon Lindelof (Lost e Cowboys & Aliens). Vale lembrar que, quanto a tecnologia, o mesmo ocorreu com a franquia Star Wars (George Lucas), cujos episódios I, II, III, filmados 22 anos após os IV, V, VI, eram tecnicamente superiores. Passado o impacto do deslumbre visual, que valoriza ainda mais a obra surreal do artista plástico suíço HR Giger, e a depuração de uma série de referências a filmes (2001 - Uma Odisseia no Espaço, Lawrence da Arábia, Blade Runner, entre outros), é capaz do espectador cinéfilo, chegado em charada, se dar conta de que não sobrou muito espaço para o desenvolvimento da história procedente (?).


O filme inicia com um bocado de perguntas, propondo uma curiosa gênese e explorando bem a ideia do mito de Prometeu (crime e castigo), configurado na nave Prometheus, uma espécie de Olimpo onde a tripulação (feito deuses e homens) discute hierarquias. Ali, o menosprezado e servil androide David, acumulando mais conhecimento que os “companheiros” de viagem, faz as vezes de Prometeu, Epimeteu (criador de homens) e de Pandora (inocente fatal). Assim como, em contrapartida à ciência de Prometeu, a curiosidade de Pandora desencadeou todos os malefícios sobre a humanidade, o emblemático e “infantil”, David, provará sua superioridade sobre os humanos, ao decifrar os códigos que abrem a porta (caixa) que “guarda” segredos e uma força praticamente incontrolável. Se este compartimento estava lacrado para proteger quem estava dentro ou fora da sala, os terráqueos vão descobrir assim que se livrarem de incômodos aliens em fase de evolução. Os limites da ciência e da fé serão testados até o embate final, quando a lei do verbo retornar ao “por quê?” original.

Gostar ou não de Prometheus tem a ver com a capacidade do espectador, fã do Alien (Scott) “viajar na maionese” e descobrir o que é metáfora e o que é embromação (ou filosofia de botequim). Os símbolos (involuntários?) são muitos, mas a maioria leva a lugar nenhum (por enquanto...). O público que aprecia uma história mais profunda, com um roteiro desafiador ao estabelecido, vai ficar na vontade ou esperar por prováveis continuações. É que todo entusiasmo inicial, que dá asas à imaginação, acaba perdendo a corrente de ar em diálogos toscos e situações já vistas em outras produções.


Todavia, quem curte apenas a casca, com certeza vai gostar, porque o filme é muito bonito, alguns efeitos são impressionantes (holograma na pirâmide é de encher os olhos), mas se espera tremer nas bases, com o ataque dos alienígenas, pode se decepcionar. É que neste “prólogo” os bichos estão longe da crueldade daqueles que no futuro atacarão os tripulantes da Nostromo. Não é que sejam bonzinhos, só não convencem. Há, sem dúvida, sequencias pesadas (não de horror), mas elas não afligem tanto. Bom, talvez a cena do parto seja um pouco horripilante. O problema é que quando ocorrem os ataques, o mistério já foi levado pela tempestade de poeira estática.

Prometheus é praticamente o embate dos excelentes Fassbender e Rapace. Frutos da ciência e da fé, seus personagens, David e Elizabeth, são mais completos e complexos que os outros (quase figurantes). Ambos, assim como o replicante Roy Batty (Rutger Hauer), de Blade Runner (1982), são “criaturas” em busca do “criador”, mas por razões diferentes. A única trégua possível, em uma guerra (de egos), é quando sobrevivência de um depende do conhecimento do outro. Pelo menos na ficção, ciência (razão) e fé (esperança) dividem o mesmo “por quê?”. O restante do bom elenco, não tem culpa de seus personagens-clichês e do curto tempo em cena. Quem entrou mudo e saiu calado não deve ter reclamado, já que seu grito não seria ouvido no espaço.

Bom, dizem que no mundo real o que move o homem (espécie) e, por conseguinte, a ciência, são as perguntas e não as respostas, que poderão ser modificadas diante de um novo problema. Certo!? Mas, e no mundo da ficção, o que move um filme, a bilheteria e, por conseguinte, a franquia? Se a resposta (do criador) a um personagem (e ao público) é indiferente, por que perguntar? No caso de Prometheus a narrativa não disse a que veio, pois a questão que o motiva, além de continuar sem resposta, gerou novas questões, agora relacionadas à evolução dos Aliens. Estratégia interessante, mas perigosa, porque, dependendo da bilheteria, a história termina aqui, apesar da promessa final.

domingo, 16 de maio de 2010

Crítica: Robin Hood


Robin Hood
como nunca se viu

No mundo tem Robin Hood pra todos os gostos: da literatura ao teatro, do cinema à TV. Cada um aos modos de seu realizador, para o bem ou para o mal da lenda. No cinema se destacam o clássico As Aventuras de Robin Hood (The Adventures of Robin Hood, EUA, 1938), de Michael Curtiz e William Keighley, com Errol Flynn (Robin) e Olivia de Havilland (Marian); o divertido: Robin Hood (Robin Hood, EUA, 1973), animação da Disney, em que Robin e Marian são raposas, dirigida por Wolfgang Reitherman; o romântico: Robin e Marian (Robin and Marian, EUA, 1976), de Richard Lester, com Sean Connery (Robin) e Audrey Hepburn (Marian); o meia-boca: Robin Hood, o Príncipe dos Ladrões (Robin Hood: Prince of Thieves, EUA, 1991) - Kevin Costner (Robin) e Mary Elizabeth Mastrantonio (Marian), dirigido por Kevin Reynolds; o maluco: A Louca História de Robin Hood (Robin Hood: Men in Tights, EUA, 1993), com Cary Elwes (Robin) e Amy Yasbeck (Marian), na cômica visão de Mel Brooks. Mas, nada se compara à versão épica do mítico herói inglês, com Russel Crowe (Robin) e Cate Blanchett (Lady Marian), de Ridley Scott, que chegou pra ser um novo começo de saga.

As adaptações anteriores têm uma introdução rápida do herói (voltando pra casa) e, então, os rotineiros saques, duelos, Príncipe João, Xerife, Coração de Leão etc. Este Robin Hood, de Ridley Scott, com roteiro de Brian Helgeland, é um longo prólogo que termina onde os outros começam. Por enquanto, Robin é Robin de Lockstride e não voltou pra roubar dos ricos para dar aos pobres. Quer dizer, mais ou menos. Ele até faz jus a fama, ao “recuperar” algumas sementes sequestradas da propriedade de Lady Marion Loxley, em Nottingham, pela Igreja Católica, e pouco antes de chegar ali se apossa de alguns bens. Porém, tudo em boa causa (própria).

Robin é um arqueiro que luta bravamente ao lado de Ricardo Coração de Leão e, após a morte do rei, deserta, com quatro amigos. Na estrada encontra um moribundo que pede pra ele levar a coroa do rei morto, pra Inglaterra, e uma espada ao seu pai, Sir Walter Loxley (Max von Sydow), em Nottingham. Robin entrega a coroa e João Sem Terra (Oscar Isaac) é coroado. Ao devolver a espada ao Sir Walter, é convidado a ocupar o lugar do seu filho, que era casado com Lady Marion. Ele acaba se envolvendo com Marion, guerra civil e invasão francesa. Só depois disso tudo, possivelmente no Robin Hood – 2, é que veremos se o fora-da-lei, que virou lenda, em algum momento entre os séculos XII e XIII ou XIV e XV, continua (ou inicia a sua saga) fora-da-lei. Ah, especula-se que teria vivido por volta do século XII.


O título poderia muito bem receber um complemento: Robin Hood - A Origem, aproveitando a onda de origens (e “origens”) que tomou conta das HQs e filmes de super-heróis. Se bem que, com tanto herói perdendo a identidade, por conta dos intermináveis começos e recomeços, é melhor deixar como está. O lendário Robin, na narrativa de Scott, continua sendo um bom sujeito, mas sem a alegria e a sagacidade habituais em outras telas. É um arqueiro (cheio de ressentimentos) quase taciturno, que lutou e não gostou do viu e fez nas Cruzadas. Um cara que lembra Maximus (Crowe), o herói de Gladiador (Gladiator, EUA, 2000) e está muito próximo de Balian (Orlando Bloom), herói de Cruzada (Kingdom of Heaven - Espanha, EUA, Inglaterra, 2005), com suas preocupações político-religiosas. Assim como Balian, Robin bota lenha (com gosto) na fogueira da tirania católica com suas imperdoáveis atrocidades em nome do seu deus.

Na internet se lê muita bobagem sobre esta nova versão. Cobram (onde já se viu?) veracidade com a lenda (conforme apresentada em outros filmes) e coerência com alguns fatos históricos, que estão sendo revistos por historiadores. Ora, lenda por lenda, dúvida por dúvida, que viva o espetáculo, até que se chegue (ou não) a um consenso! Quem não tem o que dizer se incomoda até com a idade de Russel Crowe, como se os outros Robin Hood fossem muito mais novos. Sean Connery que o diga! Esta (re)leitura de Scott, que jura fidelidade histórica (bem, ele é inglês!), é muito melhor do que sugeria o trailer. Pode não ser muito convincente uma Lady Marion tão independente, dando uma de pré Joana d’Arc (Jeanne d’Arc - 1412-1431), mas, sei lá, desde que o feminismo “venceu” (em Hollywood, ao menos), as mulheres viram heroínas, a tordo e a direito, do passado ao futuro, ainda que o macho-falocratismo reine, enfrentando todo tipo alienígena na Terra ou no Céu.

Robin Hood é excelente, factual ou não. Um entretenimento garantido e com ótimas sequências de lutas, mais aprimoradas que em Gladiador e Cruzada. A quantidade de soldados que Ridley coloca em cena de batalha, ocupando cada milímetro da tela, aproximando o espectador da luta, é cada vez mais impressionante. Ponto para a fotografia de John Mathieson. É um filme pra quem gosta de ação e aventura, que vai ao cinema pra se divertir e não pra assistir aula de história geral. Tem alguma graça (não hilária) e pode até agradar o público feminino, apesar do ar pouco romântico. Gostar do ator e diretor já é meio filme projetado, se não, nem a cena de um Russell Crowe, com a sua cara de mamãe quero colo, exibindo um inacreditável e volumoso torso nu, dá jeito.

Com tantas lendas retornando, o que impedia Robin de voltar? Nada! Só o fato de não ser mais uma refilmagem do mesmo, já vale o ingresso. É provocativo (que o diga os pesquisadores), novo, simpático, crítico, muito bem realizado e com ótimas performances. Pra que mais?
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