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quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Crítica: Spotligh - Segredos Revelados


Que a liberdade de imprensa anda fragilizada e ou questionada em muitas partes do mundo, não é novidade. Que há muito ela está deixando de lado a imparcialidade, também. O seu humor caminha próximo ao das nada confiáveis redes sociais, onde o amor e o ódio, entre “amigos”, variam conforme o nível de apoio e de contestação. A mídia imprensa mingua. A mídia televisiva perde a consistência em meio ao mercado sensacionalista de produtos desgastáveis ou descartáveis. A notícia impressa, falada, vista de manhã, já pode ser outra à tarde..., embora seja sobre o mesmo assunto. É só uma questão de repercussão e retorno (capital?).

Houve um tempo em que o jornalismo investigativo era bem mais confiável e comprometido (com a verdade) que hoje. Conheci jornalistas que “morreram” em serviço. No entanto, conforme o foco, a imprensa ainda é uma pedra incômoda para muita gente (sub)mundo afora. Spotligh - Segredos Revelados, de Tom McCarthy, diretor dos excelentes O Agente da Estação (2003) e O Visitante (2008) e roteirista da animação UP (2009), é daqueles filmes que, ao pautar o bom jornalismo (em vias de extinção?), prestam um grande serviço à memoria do espectador..., além de servir de inspiração aos futuros jornalistas, mesmo que a plataforma futura seja outra.

Pedofilia Católica não é assunto novo no cinema. Recentemente, o documentarista norte-americano Alex Gibney chocou o “mundo dos inocentes” com o seu explosivo Minha Máxima Culpa: Silêncio na Casa de Deus (2012), um mergulho na vida do velhaco sacerdote Lawrence Murphy, que abusava de meninos com deficiência auditiva. Este, infelizmente não é um assunto esgotado, mas, na mídia certa, pode alcançar o alvo e o seu redor.


Como dizer não a Deus?

Spotligh - Segredos Revelados (Spotlight, 2015) é um magnífico registro da cobertura jornalística dos abusos sexuais praticados por padres católicos, em Boston (EUA), realizada pela equipe Spotlight, do The Boston Globe, em 2001/2002. A matéria impressa ganhou repercussão internacional, abalou a cúpula da Igreja Católica Romana, e a equipe recebeu o Prêmio Pulitzer Prize de Serviço Público, em 2003.

Não fosse o pedido do novo editor do Globe, Marty Baron (Liev Schreiber), para os jornalistas aprofundarem a denúncia publicada numa coluna, sobre um padre local que, há 30 anos, abusava sexualmente de crianças da sua paróquia, talvez o spot nem tivesse sido acesso, e aquela cidade jamais viria saber que não era apenas um “santo” padre, mas setenta, os lobos sedentos em batina de cordeiro. Judeu, vindo de Miami e sem vínculos com a “cega” comunidade católica, Marty não temia o “olhar” de reprovação nem das autoridades eclesiásticas, como o Cardeal Law (Len Cariou), para tocar no assunto escabroso. O que foi fundamental para garantir o sucesso da sagrada investigação.


O roteiro enxuto, escrito pelo próprio McCarthy, em parceria com Josh Singer, é direto: denúncia, levantamento de dados, publicação do artigo. Sem romances, dramas familiares e nem histórias paralelas. Coisa alguma desvia a atenção da cativante narrativa que refaz o itinerário dos jornalistas na apuração dos fatos, com um elenco de primeira. Entre o briefing (de Marty) e o deadline (do artigo) há uma prestativa equipe, formada pelo editor da Spotlight, Walter “Robby” Robinson (Michael Keaton), os repórteres Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams), Michael Rezendes (Mark Ruffalo) e o pesquisador, Matt Carroll (Brian d’Arcy James)..., que  não pode perder o foco. E não perde. Em busca da verdade, por mais chocante e dolorosa que seja, vasculha bibliotecas, arquivos públicos, ouve vítimas e seus advogados, como o incansável Mitchell Garabedian (Stanley Tucci).

Spotligh - Segredos Revelados fala de crimes de confessionário, de sacristia, de altar, com a mesma convicção que fala da prática do bom (e velho?) jornalismo. Num drama comprometido tão somente com os fatos, em que os roteiristas ouviram tanto os protagonistas da história real quanto os coadjuvantes desse infortúnio, a produção não poderia ser menos que irretocável. Com direção dinâmica, que aguça os sentidos, Tom McCarthy deve despertar em muitos espectadores uma admiração maior pelo jornalismo real, sem glamour e de muita ralação, que está perdendo espaço para o jornalismo praticado por “estrelas” da comunicação, cuja informação é menos, muito menos importante que ele, todo poderoso mercador de notícias do 4º Poder.


Sem apelar ao sensacionalismo ou dar chances ao clichê linchador, na exposição da hipocrisia “religiosa”, diante de fatos deprimentes, Spotligh se desenvolve na linha do tempo do bom senso. Em vez de reconstituir cenas de abusos sexuais (afinal este não é um filme para pedófilos voyeurs), McCarthy opta pelos depoimentos pungentes das vítimas traumatizadas. Um depoimento em especial, dado por um padre, tão carrasco quanto vítima, é de virar o estômago.

Spotligh - Segredos Revelados não subestima a inteligência de nenhum espectador pensante, mas deve colocar em xeque a fé cega de muitos religiosos cristãos que confundem as mensagens do seu mestre Cristo com a prática secular e nada cristã dos seus poderosos “representantes”. Um filme para ser ver, discutir em todas as comunidades (religiosas ou não) e exibir principalmente em cursos de jornalismo. Para quem aprecia o melhor do cinema, uma excelente sessão e ótima reflexão. Amém!



Resumos de Dados da Spotlight/The Globe

• Em 2002, a equipe Spotlight publicou quase 600 artigos sobre abusos sexuais por parte de mais de 70 sacerdotes, cujos atos foram ocultados pela Igreja Católica.
• Em dezembro de 2002, o cardeal Law renunciou ao posto na arquidiocese de Boston e foi transferido à Basílica de Santa Maria Maggiore, em Roma.
• 249 sacerdotes foram acusados publicamente de abusos sexuais na arquidiocese de Boston.*
• Até o ano de 2008, 1.476 vítimas tinham sobrevivido a abusos de sacerdotes na área de Boston.*
• Em todo os Estados Unidos, 6.427 sacerdotes foram acusados de abusar sexualmente de 17.259 vítimas.*
• Nos anos transcorridos desde a reportagem da Spotlight, foram descobertos casos de abuso sexual por parte de sacerdotes da Igreja Católica em 105 cidades norte-americanas e 102 dioceses de todo o mundo.*


*Fonte: www.bishop-accountability.org, um banco de dados compilado por Terry McKiernan.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Crítica: Percy Jackson e o Mar de Monstros


No segundo parágrafo da minha crítica ao Percy Jackson e o Ladrão de Raios (2010) eu disse que não havia lido “nenhum livro que narra as aventuras do jovem Percy Jackson entre personagens da mitologia grega, vivendo disfarçados nos EUA. Mas, comparado ao resumo do livro e aos comentários dos leitores, que encontrei pela internet, o filme conta uma (outra) história apenas parecida e com (bem menos) personagens da série.” Mantenho o parágrafo e a maior parte do que disse sobre o filme anterior para essa nova empreitada de mitolices.

Percy Jackson (Logan Lerman) ainda é o mesmo garoto disléxico e com déficit de atenção que descobriu (por acaso) ser um semideus - filho de Poseidon (Deus do Mar) com a humana Sally Jackson - e um predestinado a salvar a Terra e ou o Olimpo das malignas forças divinas. Para a sua proteção e treinamento, ele vive, com outros assemelhados, no Acampamento Meio-Sangue. Desafios, intrigas, inveja, ciúmes etc fazem parte do jogo (já vistos na Hogwarts de Harry Potter). Desde que a sua origem foi desvelada Percy descobriu que há um bocado de profecias que o colocam no centro das atenções (para o bem ou para o mal) de todos os Titânicos Deuses.


Percy Jackson e o Mar de Monstros (Percy Jackson: Sea of ​​Monsters, EUA, 2013), dirigido por Thor Freudenthal, trata da busca do “milagroso” Velocino de Ouro. De um lado Percy, o seu meio-irmão ciclope Tyson (Douglas Smith) - filho de Poseidon com uma ninfa do mar, Annabeth (Alexandra Daddario) - filha de Atena, o sátiro Grover (Brandon T. Jackson) e a competitiva Clarisse (Leven Rambin) - filha do deus da guerra Ares, querendo o velo para salvar a protetora do acampamento, Árvore de Thalia, que foi envenenada. De outro o mal-amado e traiçoeiro Luke (Jake Abel) - filho de Hermes, e a sua “gangue argonáutica”, que quer o tosão apenas para “resgatar” Cronos e se vingar dos deuses olimpianos. Todavia, para botar as mãos no precioso Velocino, todos vão precisar de alguma astúcia para vencer o Mar dos Monstros (também conhecido como Triângulo das Bermudas) e o ciclope Polifemo.

Baseado no 2º livro do escritor Rick Riordan, Percy Jackson e o Mar de Monstros é um filme de aventura previsível e ação coreografada na medida para encher os olhos da criançada. Esse saltitar pode cansar um adulto mais exigente ou um amante da mitologia grega que busca pela saga de um herói. Nesse mundo paralelo, onde Perseu, filho de Zeus, virou Percy, filho de Poseidon, por enquanto a jornada ainda não saiu do prólogo. O humor é assim-assim.  Salva-se a brevidade de Nathan Fillion, como Hermes, chefe da OPS (Olympic Postal Service), e uma tirada do Deus Dionísio (Stanley Tucci), que tem seus melhores vinhos transformados em água, por Zeus: "Os cristãos têm um cara que sabe fazer este truque ao contrário". Será que a garotada vai entender?


Percy Jackson, a nova franquia, mesmo seguindo uma fantasiosa linha infantil de “releitura atualizada” da rica mitologia grega, não consegue se livrar do fantasma de Harry Potter, a velha franquia. É impossível não comparar o drama dos protagonistas e as tramas que arrebanham os coadjuvantes. A variação de apetrechos (caneta-espada versus varinha mágica) e monstrengos também é mínima. O elenco é esforçado, mas, com personagens tão rasos, não tem muita chance de mostrar a que veio. Nem mesmo o promissor Logan Lerman, excepcional em As Vantagens de Ser Invisível (2012), consegue dar mais sabor ao insosso Percy.

O roteiro ralo de Marc Guggenheim e a direção morna de Freudenthal têm por alvo o público infantojuvenil (dos 8 aos 13 anos) e fãs de ocasião mais preocupados com efeitos especiais do que com os mitos gregos. Sem cerimônia, eles apelam para a fantasia (o cavalo marinho é belíssimo) e situações de medinho, onde nem mesmo um navio tripulado por confederados zumbis (?) apavora. As “situações de perigo” são ameaças facilmente resolvidas. Nem mesmo as “violentas” sequências do (fantástico) touro mecânico e da pífia batalha final (mix arremedo de Os Caçadores da Arca Perdida (1981) e Fúria de Titãs 2 (2012) provocam alguma tensão. No máximo é um: Olé!, e um: Ahan! Enfim, nada que traumatize o espectador(zinho). Mas, dependendo do acompanhante...

sexta-feira, 29 de março de 2013

Crítica: Jack - O Caçador de Gigantes



Conforme a temporada de arrecadação, os produtores hollywoodianos aproveitam para fazer onda ou saltitar marolas em busca de milhões de dólares. No momento o vento sopra mais ou menos a favor, estufando as velas de novíssimas versões de velhíssimos contos populares clássicos. Ao primeiro sinal de calmaria..., eles tratam de mudar de barco! A horta da vez, que recebeu uma boa chuva e muito adubo, é a do Jack e o Pé de Feijão que, de ladrão e assassino de um gigante, passou a ser o caçador de toda uma sociedade deles. O problema é que, como Jack é um bom rapaz e o Pé de Feijão cresceu além da conta, o caldo talvez não fique ao agrado de todos.

O conto Jack e o Pé de Feijão (The History of Jack and the Bean-Stalk) vem da tradição oral inglesa e, até onde se sabe, o seu primeiro registro em livro é de 1807, creditado a Benjamin Tabart, que justifica os roubos e o assassinato do ladrão Jack. Mas a versão (Jack and the beanstalk) mais popular é a de Joseph Jacobs, de 1890, em que fica tudo por isso mesmo: o garoto rouba, mata e ainda se casa com uma princesa. Por se tratar de tradição oral é claro que, no boca a boca, as versões ganham e ou perdem elementos para a satisfação do público alvo. No Brasil, mesmo, o João e o Pé de Feijão é encontrado em outras versões além das duas citadas. (Se quiser conhecer as versões “originais” de Talbart e de Jacobs, e também a análise delas, é só clicar nos títulos-links.)


Jack - O Caçador de Gigantes (Jack the Giant Slayer, EUA, 2013), dirigido por Bryan Singer, é um filme fantasia levemente inspirado em Jack e o Pé de Feijão (ou João, no Brasil). Nesta versão cinematográfica, o caipira Jack (Nicholas Hoult) é criado pelo pai viúvo (Tim Foley) e depois pelo tio (Christopher Fairbank) e, em vez da vaca (sem leite), vai vender um cavalo e uma carroça. Distraído, acaba se metendo em uma confusão e perde o cavalo por alguns grãos de feijão (até que rimou!). Em meio a um temporal, acolhe a rebelde e independente (mais uma!) princesa Isabelle (Eleanor Tomlinson), e, para a surpresa de ambos, um feijão brota sob o assoalho, levando a casa e garota para as alturas. Ao saber do sumiço da filha, o rei Brahnwell (Ian McShane) providencia um grupo de resgate, sob o comando de Elmont (Ewan McGregor), o chefe da guarda, e inclui o nada confiável noivo da princesa, Roderick (Stanley Tucci), e o sonso Jack. Trepando no gigantesco pé de feijão eles vão dar na terra celestial dos gigantes (até então apenas uma lenda) e desencadear uma guerra descomunal. Os humanos querem a princesa. Os gigantes querem petisco de gente. Isso é tudo pessoal!

Variação de gênero à parte, o filme dirigido ao público infantojuvenil (dos 7 ao 12 anos?) não é dos mais agitados. A sensação de aventura (com uma pitadinha de romance) está por toda parte, mas a ação (pra valer!) só dá as caras no final, quando explode a grande batalha de ferro e fogo. O roteiro morno de Darren Lemke, Christopher McQuarrie e Studney Dan, é bem linear e traz resquícios de A Princesa Prometida (1987), de Rob Reiner, e de O Senhor dos Anéis (2001), de Peter Jackson, desde o simpático prólogo, onde o pai de Jack e a mãe de Isabelle, coincidentemente, estão lhes contando a mesma história para dormirem. O conto fala de gigantes que vivem acima das nuvens, da guerra que travaram com os humanos e de como foram dominados e mantidos a distancia com o poder de uma coroa e a coragem de um rei.


Jack - O Caçador de Gigantes, enfraquecido pela indecisão de público alvo, carece de humor (a única piada - do enroladinho de carne - está no trailer) e de um roteiro mais esperto. É tudo brando demais (para não chocar a garotada?), casto demais, infantilizado demais. Não há química alguma entre os bons atores e entre os fracos personagens. Não há emoção! A apatia reinante não provoca, não faz o espectador querer tomar partido (a favor dos humanos ou contra os gigantes). O destino de cada personagem é indiferente. Eu vi apenas uma piada (dos assados) e uma sacada genial (com o último grão de feijão), talvez a criançada consiga ver algo mais.

Depois de Avatar (2009), de James Cameron, qualquer cidade vertiginosa, mesmo fazendo parte do contexto, como na história de Jack, já não causa mais tanto impacto. Não há como não comparar as tecnologias. Os efeitos CGI são bem chinfrins e mostram menos do que devia. Há apenas uma cena de travessia (entre os caules), as outras ficam por conta da imaginação do espectador. A artificialidade (e pobreza técnica!) da cenografia (na terra e ou no céu) é constrangedora. Também os gigantes (personagens mais interessantes da trama, ainda que mal resolvidos) parecem desenhados para animar plataforma de videogame. O pé de feijão você jura que é feito de massinha. Já que tudo é tão falso, podiam ter optado logo pelo desenho animado. Com certeza o resultado seria muito melhor. Ah, quem não viu os trailers pode até ter alguma surpresa. E não esqueça: Jack - O Caçador de Gigantes tem nada a ver com João e o Pé de Feijão.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Crítica: Julie e Julia


Julie e Julia
o prazer de comer e de amar

“Penso que Deus deve ter sido um artista brincalhão para inventar coisas tão incríveis para se comer. Penso mais: que ele foi gracioso. Deu-nos as coisas incompletas, cruas. Deixou-nos o prazer de inventar a culinária.”, diz o mestre Rubem Alves, em Festa de Babete, artigo escrito para o Correio Popular de Campinas (SP).

Maravilhoso! É o mínimo que se pode dizer de Julie e Julia (Julie & Julia, EUA, 2009), filme escrito e dirigido por Nora Ephron e estreladíssimo por Meryl Streep e Amy Adams. O cinema já serviu de veículo pra muito deleite gastronômico. Um dos filmes mais famosos é o magistral dinamarquês A Festa de Babete (Babettes Gaestebud/1987), dirigido por Gabriel Axel, e um dos mais divertidos é a animação Ratatouille (Ratatouille, EUA/2007) dirigida por Brad Bird. Mas Julia e Julie tem um sabor diferente, que não está apenas na comida.

Julia e Julie são dois filmes em um. Duas histórias ligadas por uma terceira. A de Julia Child é baseada no livro My Life in France, a de Julie Powell é baseada no livro Julie & Julia e o ponto de liga é o livro Mastering the Art of French Cooking (Dominando a Arte da Cozinha Francesa), de Julia Child, Simone Beck e Louisette Bertholle. Complicado? Que nada, é muito divertido.

A história da norte-americana Julia Child (Meryl Streep) começa em 1948, quando se muda com o marido Paul Child (Stanley Tucci), que é adido cultural da embaixada americana, para Paris, na França. Ali ela descobre as delícias da cozinha francesa e, não satisfeita em degustar, resolve aprender a cozinhar, sendo a primeira americana a cursar a famosa escola de gastronomia francesa, Le Cordon Bleu. Num tempo em que a mulher era praticamente apenas dona de casa e geradora de filhos, Julia (que não podia ter filhos) queria ir além, tentou vários cursos para preencher o seu tempo até se decidir pela culinária, sempre apoiada pelo apaixonado marido Paul.

A história de Julie Powell (Amy Adams) começa em 2002, logo depois de se mudar do Brooklin para o Queens, nos EUA. Ela está com quase 30 anos, trabalha numa repartição pública, mais para ocupar o tempo do que por prazer, enquanto suas “amigas” são grandes executivas. Decidida a dar um rumo melhor à sua vida, por sugestão do apaixonado marido Eric Powell (Chris Messina), ela cria o blog Julie/Julia Project em que desafia a si mesma a cozinhar, em um ano, as 524 receitas do livro Mastering the Art of French Cooking, e dividir a deliciosa e nem sempre fácil experiência com os leitores.

As histórias de Julia (de época) e Julie (contemporânea) correm paralelas, apesar da distância de 50 anos, movidas pela paixão culinária e pelo companheirismo. Cada uma a seu tempo e, às vezes espelho, aguçam a curiosidade do espectador que se diverte com as aventuras culinárias de Julia (na França) e torce por Julie (no Queens) na sua cozinha mínima onde mal cabem um fogão, uma pia e uma geladeira. O excelente roteiro, que casa perfeitamente as histórias, com um texto espontâneo e tiradas inteligentes, não privilegia atores, mas é impossível ignorar uma Meryl (de 1,70m) no corpo de Julia Child (de 1,90m) ou o mesmo o competente Stanley Tucci. Mas se Streep se agiganta ao incorporar uma típica norte-americana cheia de vida, garra, espalhafatosamente contida, amigável, feliz, com a competência de sempre e mais um pouco, Amy Adams também se sai bem ao dar uma cara jovial e verossímil à sua empreendedora Julie Powell.

Julia e Julie fala do prazer de uma boa mesa e também do prazer de uma boa cama, de uma boa companhia, de uma boa cultura e principalmente da busca e realização pessoal. Toca em questões políticas e sociais do pós-guerra (na Europa) e pós-atentados (nos EUA), sem ser maçante ou perder o foco do assunto-tema. É escrito, dirigido e protagonizado por mulheres, mas não é algo “de mulher pra mulher”, ou um filminho feminininho e bobinho de amores impossíveis com final feliz. Julia e Julie é pra todos os sexos que apreciam um bom cardápio e uma ótima comédia sem escorregões, trombadas e piadas escatológicas. Com belas locações na França e em estúdios dos EUA, é um filme pra homem nenhum botar defeito, principalmente os que adoram cozinhar. Ah, é recomendável fazer um lanche antes da sessão, pra não ficar com fome durante a projeção.
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