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quarta-feira, 30 de maio de 2018

Crítica: Gnomeu e Julieta: O Mistério do Jardim


Gnomeu e Julieta: O Mistério do Jardim
por Joba Tridente*

Sete anos após a criativa releitura musicada de Romeu e Julieta, de William Shakespeare, na animação britânica (com fortes elementos teatrais) Gnomeu e Julieta, o romântico casal de gnomos de jardim, está de volta para mais uma empolgante história. Desta vez, pegando carona nas páginas literárias do misterioso mundo de Sir Arthur Conan Doyle, a dupla se junta aos agentes Sherlok e Watson, para resolver o estranho sumiço de gnomos dos jardins de Londres.


Repleta de ação e aventura, a animação Gnomeu e Julieta: O Mistério do Jardim (Sherlock Gnomes, 2018), com bom roteiro de Ben Zazove e direção cuidadosa de John Stevenson (Kung Fu Panda, 2008), começa com uma estratégica mudança de cenário: sai a bucólica Stratford-Upon-Avon (terra natal de Shakespeare) e entra a urbana Londres, onde os recém-chegados Gnomeu (James McAvoy) e Julieta (Emily Blunt), juntam-se ao arrogante e egocêntrico adorno de jardim Sherlock Gnomes (Johnny Depp) e seu subestimado parceiro Dr. Watson (Chiwetel Ejiofor), para encontrar a sua família que, assim como os gnomos dos jardins da capital inglesa, desapareceu sem deixar rasto. Bom, na verdade, o sequestrador até que tem deixado pistas por onde passa, sugerindo que o autor dos crimes é o malvado Moriarty (Jamie Demetriou), o mascote de uma doceria e arqui-inimigo de Gnomes. O problema é que Moriarty morreu no último confronto com Sherlock. Então, quem está sequestrando e se fazendo passar pelo vilão? Qual o destino dos gnomos sequestrados? Será que o famoso Sherlok Gnomes, com seu incomparável espírito analítico, conseguirá resolver mais esta caso? É ver pra crer.


Fazendo referências a várias histórias de Conan Doyle para Sherlock Holmes, incluindo O Cão dos Baskervilles e o polêmico O Problema Final, o desenho animado, que faz bom uso de elipses, para dar mais agilidade à envolvente trama, também apresenta uma insinuante versão “Barbie” da única mulher a vencer o genial Sherlock (nos livros): a admirável Irene Adler (Mary J. Blige)..., numa sequência fascinante em que ela brinda o espectador com Stronger Than Ever, a nova composição de Elton John e Bernie Taupin. Há, pelo menos, mais umas duas outras sequências muito boas, mas perde a graça, se eu citar.


Assim como no filme anterior, o requinte no detalhamento e na textura dos gnomos (com todo tipo de avaria) dá uma veracidade ainda maior na composição irretocável de cada expressivo personagem. E falando de excelência técnica e CGI, o que também chama muito a atenção são os impressionantes flashes (em 2D) que ilustram as lembranças (em preto e branco) de Sherlok e (em cores) de Moriarty ao desvelar o raciocínio investigativo de um e o plano maléfico do outro. Enquanto a mente de Gnomes se aproxima da meticulosidade estética de M.C. Escher (1898-1972), a de Moriarty não vai além de uns rabiscos.


Não resta a menor dúvida de que, ao investir na releitura de obras literárias de grandes escritores universais, estes adoráveis personagens (com suas idiossincrasias humanas) têm potencial para maravilhar espectadores de diferentes fixas etárias e mesmo despertar-lhes o interesse pela literatura. Vejo estes graciosos gnomos e adornos de jardim, cheios de personalidade, como uma trupe de atores pronta para representar textos dos mais diversos autores nos mais diferentes cenários. Eles se saíram muito bem com William Shakespeare e com Conan Doyle. É uma ideia original que, em mãos certas (de roteiristas e diretores), sempre resultará num divertido espetáculo para toda a família..., desde que esta não esteja preocupada com lição de moral e ou se algum dos gnomos será quebrado durante o espetáculo.


Enfim, considerando a história infantojuvenil de ação e suspense e alguma ousadia na linguagem visual (e entrelinhas) muito bem costurada; as reviravoltas convincentes; a narrativa inteligente que prioriza mais o conteúdo que o humor fácil, já que é engraçada, mas não chega a ser hilária; o elenco de ponta que dá voz aos gnomos e adornos de jardim; a seleção musical do produtor (da animação), compositor e cantor Elton John, que não incomoda; a qualidade do roteiro de Ben Zazove e a notável direção de John Stevenson..., Gnomeu e Julieta: O Mistério do Jardim, que é uma produção britânico-americana, tem tudo para deixar o seu público alvo (pensante) ligadíssimo e, consequentemente deve agradar também aos acompanhantes (pensantes) da garotada.


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Crítica: Assassinato no Expresso do Oriente


Assassinato no Expresso do Oriente
por Joba Tridente*

O romance policial Assassinato no Expresso do Oriente, da rainha do suspense Agatha Christie (1890-1976), que traz o meticuloso detetive belga Hercule Poirot numa das suas mais famosas aventuras investigativas, foi lançado em 1934. No ano de 1974, a popular obra da Dama do Império Britânico (1971) e do Crime, ganhou a sua clássica (e definitiva!) versão cinematográfica. O filme Assassinato no Expresso do Oriente, com seu elenco espetacular e estelar, dirigido com elegância pelo mestre Sidney Lumet (1924-2011), a partir do roteiro de Paul Dehn (1912-1976), recebeu seis indicações ao Oscar, que premiou a atriz coadjuvante Ingrid Bergman (1915-1982), e dez no BAFTA, premiando novamente Bergman, o ator coadjuvante John Gielgud (1904-2000) e a trilha de Richard Rodney Bennett (1936-2012). Neste final de novembro de 2017, a obra literária que também ganhou adaptações para a tv e o teatro, chega aos cinemas brasileiros sob a direção de Kenneth Branagh (Henry V, Hamlet, Voltar a Morrer, Thor).


Assassinato no Expresso do Oriente (Murder on the Orient Express, 2017), dirigido e protagonizado por Kenneth Branagh, baseado no roteiro de Michael Green (Lanterna Verde, Logan, Blade Runner 2049), é uma versão atropelada do romance homônimo de Agatha Christie, cujo motivo condutor que envolve o icônico Hercule Poirot (Branagh) teria sido inspirado no dramático rapto e morte do bebê Charles Lindbergh (em 1932), e que, na trama bem urdida pela autora, virou Daisy Armstrong.

O ano é 1934 e (após um prólogo engraçadinho e moralista, típico de Histórias Maravilhosas, onde soluciona um roubo na Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém, implicando um sacerdote, um rabino e um imã,), Poirot é obrigado a interromper suas férias em Istambul para resolver um caso em Londres. Contando com a providencial ajuda do seu amigo M. Bouc (Tom Bateman), diretor da Compagnie Internationale des Wagons Lits, o investigador consegue um lugar no luxuoso Expresso do Oriente (Istambul-Trieste-Calais), espantosamente lotado para a época do ano. Porém, a viagem é bruscamente interrompida por uma avalanche, o que acaba sendo providencial para o excêntrico Hercule Poirot resolver o misterioso assassinato de um passageiro.


Em meio à nevasca, um morto e doze suspeitos (de classes e nacionalidades diferentes) que não contavam com a presença do célebre investigador a bordo, à espera de socorro, de voz de prisão e de enterro. No jogo de cena, as aparências enganam, mas as identidades não.

Ao contrário de Sidney Lumet, que a partir do excelente roteiro de Paul Dehn (1912-1976), mais fiel ao livro, vai se desvelando cena a cena, juntando e analisando calmamente as peças do intrigante quebra-cabeça hediondo, até completá-lo no desconcertante epílogo, o impaciente Branagh parece não ver a hora de chegar aos “finalmentes”, fazendo do seu Poirot mais um adivinhador vaidoso dos seus “achismos” do que um investigador que usa metodicamente sua massa cinzenta. Apressado, o diretor e ator irlandês praticamente elimina o suspense do enredo e a sua narrativa truncada acaba claudicando para um final morno, não pela conhecida e polêmica conclusão do caso, mas pela discutível (ou risível) cena teatral (de gosto pra lá de duvidoso!) da revelação (Eu te acuso!) ao estilo mesa de Santa Ceia (claro-escuro). Uma metáfora sobre assassinos frios e calculistas, abóbadas e “fim” de túnel (dependendo do ponto de vista) tão estranha quanto ao corte do personagem Doutor Constantine, cuja função de médico (na trama) foi incorporada ao Coronel Arbuthnott (Leslie Odom Jr.), com um denso ajuste de cor de pele..., para desajustar o preconceito racial e confundir o espectador.


O grande elenco coadjuvante de Assassinato no Expresso do Oriente, que conta com Judi Dench, Johnny Depp, Michelle Pfeiffer,  Willem Dafoe, Penélope Cruz, Josh Gad, Lucy Boynton, Tom Bateman, Leslie Odom Jr., Olivia Colman, Derek Jacobi, Manuel Garcia-Rulfo, Sergei Polunin, Daisy Ridley..., é bom, mas não é tão cativante quanto o estelar de Sidney Lumet. Ansioso em contar uma história que prioriza as minúcias, principalmente nos diálogos, Branagh acaba interrompendo as performances (e a voz) de cada ator e ou atriz, fazendo com que suas personagens picotadas soem um tanto superficiais. Nesse quesito, com mais tempo em cena e razoavelmente caracterizado com um belo bigode de quatro pontas, ainda que sem a “cabeça de ovo” de Poirot, quem se sai melhor é o próprio Branagh!


Quando se desliza na neve, tem de estar sujeito aos escorregões e, embora seja um ótimo diretor, desta vez Kenneth Branagh foi ao chão, a sua arte gelou e ficou a desejar. Assim, considerando a conversão da fascinante trama de suspense de Ágatha Christie em trama policialesca chique-ostentação; a bela fotografia (em 65 mm) de Haris Zambarloukos; a cuidadosa direção de arte; os bons efeitos visuais; a trilha musical (argh!) redundante; uma ou outra pitada de humor (quase inglês); a ação totalmente descabida de socos, perseguições, tiros e pontapés..., pela ligeireza da narrativa, Assassinato no Expresso do Oriente deve conquistar apenas uma nova geração de “espectadores” (acostumados aos blockbusters rasteiros) que não têm paciência e nem cérebro para degustar e ou se deixar enredar por uma boa história de suspense. Já para o cinéfilo realmente apaixonado por cinema, não deve passar de um filme que, quadro a quadro, ressalta ainda mais as qualidades da versão de Sidney Lumet. Pode não ser totalmente descartável (para quem não conhece a adaptação de 1974), porém, tampouco é memorável. 

Agora é esperar para ver se o quê nos chegará com a próxima aventura de Hercule Poirot investigando uma Morte no Nilo, se um crocodilo aborrecido ou uma múmia mofada.


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Crítica: Caminhos da Floresta


Há algumas décadas os contos clássicos dos “pais” da literatura “para” crianças Charles Perrault (1628-1703), Jacob Grimm (1785-1863), Wilhelm Grimm (1786-1859) e Hans Christian Andersen (1805-1875) vêm despertando interesse de estudiosos e ganhando novas leituras e ou devolvendo histórias à sua origem, digamos, mais macabras. Em 2002 a DC Comics/Vertigo começou a publicar o sensacional título Fables (Fábulas), que traz os mais famosos personagens dos Contos de Fadas vivendo clandestinamente na Nova York dos dias de hoje. Em 2011 a hq acabou inspirando a série televisiva Once Upon a Time (Era Uma Vez). No entanto, bem antes das duas releituras, Stephen Sondheim e James Lapine escreveram o libreto do musical Into the Wood (Caminhos da Floresta), que junta num mesmo conto, entre outros, Bruxa, Chapeuzinho Vermelho e o Lobo, João (e o Pé de Feijão), Cinderela e Rapunzel. O espetáculo teatral, que estreou no Old Globe Theatre (San Diego) em 1986 e na Broadway (Nova York) em 1987, após várias remontagens de sucesso, “ganha” a sua versão cinematográfica.


Caminhos da Floresta (Into the Wood, EUA, 2014), dirigido por Rob Marshall, é um drama musical romântico com pitadas de humor e de horror. Observando a mesma estrutura do teatro, em seu primeiro ato os Caminhos da Floresta são iluminados pelos desejos: a Bruxa (Meryl Streep) quer recuperar a beleza; o Padeiro (James Corden) e sua Mulher (Emily Blunt) querem um filho; Chapeuzinho Vermelho (Lilla Crawford) quer chegar são e salva do Lobo (Johnny Depp) à casa da vovó; João (Daniel Huttlestone) quer seguir os conselhos da mãe (Tracey Ullman) e vender a vaca por um bom preço; Cinderella (Anna Kendrick) e Rapunzel (Mackenzie Mauzy) querem encontrar seus Príncipes (Chris Pine e Billy Magnussen).


Em seu segundo ato, os Caminhos da Floresta são assombrados pelo (alto) preço que os personagem devem pagar pela realização de seus desejos, pois, nem mesmo no Reino da Fantasia os desejos são de graça. Podem ser gratuitos, mas nunca de graça. O preço? A consciência de cada um em cada passo (mal?) dado na trilha da vida vulgar em busca de felicidade (que diz um ditado: não se compra!)..., assunto discutido com maestria no antológico romance de ficção científica Um Estranho Numa Terra Estranha (1961), de Robert A. Heilein. As questões morais (infidelidade, egoísmo, vaidade, insegurança, roubo, assassinato) que afligem os nossos velhos conhecidos também incomodam o espectador (O que você faria?). É a dialética da oposição (moral e imoral, luz e sombra) fazendo eco e sinalizando que talvez a Disney não seja tão irredutível assim.


Quase todo mundo sabe como terminam os Contos da Carochinha..., ou pensa que sabe, ao menos na imaginação, o que aconteceu a cada personagens após o Felizes para Sempre. Há algumas paródias divertidas (pela web, inclusive) em prosa, hqs e animações, sobre o depois do Final Feliz nos Contos de Fadas. Todavia, ainda que tenha uma sequência hilária (deliciosamente brega) com os Príncipes (Pine e Magnussen) cantando Agony, em uma cachoeira, Caminhos da Floresta está longe de ser considerado sátira. Também porque o seu conteúdo ainda guarda resquícios da época (de muitas máscaras de moralidade) em que foi criado o espetáculos teatral.


A adaptação de Caminhos da Floresta ficou por conta de James Lapine (um dos autores do libreto) e, em meio à polêmica puritana do corta não corta cenas da Mulher do Padeiro e do Lobo e Chapeuzinho Vermelho, só o destino de Rapunzel foi mudado. Só pra registrar: a alegada “falta de decoro” das personagens são ridículas se comparadas às novelas brasileiras (da tarde) e séries animadas televisivas. Evidentemente não é a versão definitiva sobre o futuro dos habitantes do Mundo do Faz de Conta, mas é, no mínimo, curiosa, com seu círculo vicioso, suas intrigantes metáforas e passagens (incorretas?) que devem deixar os mais puristas com a pulga atrás da orelha ao ouvir tiradas espirituosas, como a do Príncipe da Cinderela: “Fui criado para ser sedutor e não para ser sincero”.


Rob Marshall, que esteve ótimo na direção de Chicago e (a mim) decepcionou em Nine, embarca com vontade no enredo “fantasia”, costurando satisfatoriamente três universos diferentes: teatro, cinema e livro ilustrado, com excelentes soluções cênicas e bons efeitos especiais. Ainda que não tenha nenhuma música grudenta ou assobiável, Caminhos da Floresta tem composições surpreendentes. O elenco é bacana e dá conta do recado. Não espere grandes vozes (operísticas)..., estas são mais modestas, tipo gente comum (feito os personagens) cantando. O que não quer dizer que não arrebatem o espectador.

Enfim, vale ressaltar que Caminhos da Floresta é um filme para quem aprecia o Universo Fantástico, com suas histórias míticas, repletas de simbolismo infantil e adulto, mas que goste também de musical. 

terça-feira, 9 de julho de 2013

Crítica: O Cavaleiro Solitário


Quem tem boas lembranças das velhas HQ e ou seriados do Zorro, na TV, que fique com elas, porque não vai ser fácil reencontrá-las em O Cavaleiro Solitário (The Lone Ranger), a nova “releitura” do herói (caubói), que no Brasil dividia o título com o Zorro (capa espada). Os dois foram criados por autores norte-americanos: o Zorro (espadachim) Don Diego De la Vega, por Johnston McCulley, em 1919; o Zorro (caubói) John Reid, por  George W. Trendle, em 1933. Ambos ganharam versões e reversões desde que saíram de um conto e de um programa de rádio, para os quadrinhos, cinema e tv. Mas só um deles (adivinha qual?) gritava:  "Hi-yo Silver..."

O Cavaleiro Solitário (The Lone Ranger, EUA, 2013), dirigido por Gore Verbinski, é a terceira adaptação cinematográfica em longa-metragem. Anteriormente foram rodados Zorro e o Ouro do Cacique (The Lone Ranger), em 1956, e Zorro e A Cidade de Ouro Perdida (The Lone Ranger and the Lost City of Gold), em 1958. Verbinski disse que: “...só teria interesse em dirigir O Cavaleiro Solitário se pudesse pegar a história clássica e virá-la de cabeça para baixo. Acho que se você for fã da minissérie de TV original, você se surpreenderá com o filme, porque todo mundo conhece aquela história, e não é a história que nós vamos contar. Nós vamos contar a história a partir da perspectiva de Tonto, meio que Dom Quixote, contada do ponto de vista de Sancho Pança. Eu diria que na essência, nossa versão é uma história de amigos e um filme de ação e aventura com muita ironia, humor e uma dose de singularidade suficiente para torná-lo diferente”. Então, tá!


Dito e mais ou menos feito. Baseado no megalomaníaco, porém preguiçoso, roteiro de Ted Elliott, Terry Rossio e Justin Haythe, a história realmente tem nada em comum com a que muita gente conhece. Ela é contada (em flashback) a um garoto, fã da série de rádio Lone Ranger, pelo “nobre selvagem” ancião Tonto (Johnny Depp), parceiro de aventuras do palerma John Reid (Armie Hammer), o Cavaleiro Solitário, na caça ao inimigo comum: o sanguinolento Butch Cavendish (William Fichtner). A tentativa equivocada de imitar descaradamente o clássico O Pequeno Grande Homem, de Arthur Penn (1970), além de não agregar nenhum valor à “obra”, ainda descarrila o indeciso trem...

O Cavaleiro Solitário é infantiloide, ao fazer surgir (sabe-se lá de onde!) um cavalo branco mágico (a lá Meu Querido Pônei), o futuro Silver, e é demente, ao investir na selvageria e violência, com cenas (gratuitas) de canibalismo e genocídio. Dividida em três tempos distintos, a violência pode ser classificada como: extrema (início), moderada (meio) e pastelão (final)..., salpicada ou não com alguma “piada”, pieguice e trocentos clichês. Há três só de trem (muito bem realizados, sem dúvida, mas cansativos clichês cantados meia hora antes). Algumas sequências parecem ter imigrado do Mar do Caribe para o Deserto do Arizona. Alguns personagens que pirateavam ouro lá, agora roubam prata cá. Mudou a época, o local, mas o argumento bobo parece o mesmo. A falta de assunto fica mais evidente por conta de suas arrastadas e empoeiradas duas horas e meia.


Ao contrário do título, o personagem protagonista é o esperto Tonto, na pele de um Depp repetidor de tipos estranhos que apenas mudam a maquiagem e o figurino. A recriação do coadjuvante (?) Reid (Hammer, desperdiçado) é de revirar os ossos de Trendle. O bravo personagem “tiro certeiro” ou “bala de prata” agora é um imbecil (e insosso bebê chorão!) do começo ao fim da trama. Coisa alguma é levada a sério nessa trama que ainda se embebeda com a perna de porcelana espingarda, “emprestada” de Planeta Terror (2007), de Robert Rodriguez, e o coelho assassino “desentocado” de Monthy Python em Busca do Cálice Sagrado (1975), de Terry Gilliam e Terry Jones. Distrações totalmente desnecessárias. 

O Cavaleiro Solitário é, digamos assim, um filme de fantasia (infantiloide-adulta), de aventura (juvenil) e de ação descerebrada, digo, desenfreada, para tontear o Tico e o Teco. As sacadas (se) engraçadinhas são mínimas. A mais insistente, sobre a máscara do Cavaleiro, nem chega a arranhar a divertida e original do Lanterna Verde (2011). A bala perdida do panaca Ranger Reid deve alcançar algum dos alvos pretendidos, já que mira a esmo os incautos espectadores órfãos dos Piratas do Caribe.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Crítica: O Diário de um Jornalista Bêbado



Ultimamente, quanto não está pirateando pelo Caribe, Johnny Depp, está pescando papeis interessantes, curiosos e ou de mero passatempo em filmes idem. No momento, aqui no Brasil, ele trança as pernas em O Diário de um Jornalista Bêbado (The Rum Diary, EUA, 2011), com roteiro e direção de Bruce Robinson, baseado no livro homônimo de Hunter S. Thompson (1937 - 2005), uma produção que (por causa do teor alcoólico?) apenas tange o drama-denúncia, a comédia-denúncia, e o romance-denúncia, numa história enfadonha. Depp é Paul Kemp (alter ego de Thompson), um jornalista alcoólatra que, na década de 1960, vai “trabalhar” no jornal San Juan Star, em Porto Rico, onde conhece e se apaixona (simples assim!) por Chenault (Amber Heard), noiva do megaempresário (mau caráter!) Sanderson (Aaron Echhart), e se vê metido numa negociata (corriqueira!). O clichê (rebatido!) nem é dos piores, mas a narrativa é de fazer o “Santo” entornar o cálice bem antes do bebum.

O Diário de um Jornalista Bêbado é um filme para se ver, preferencialmente, em estado do ressaca. Só assim é possível saber se vale o esforço (ou deixa pra lá!), já que sóbrio é difícil de engolir esse drama descompromissado com qualquer coisa relevante (?) ao jornalismo gonzo ou bonzo. Superficial e caricato até nas questões pretensamente socioeconômicas que ameaça explorar (uma criança miserável daqui, um diálogo piegas sobre especulação imobiliária e outras jogatinas dali, uma greve qualquer acolá), sai de lugar algum para lugar nenhum. Ou melhor, sai dos EUA, “pra umazinha” saideira (sem fim!) no quintal americano, Porto Rico (dos anos 1960), e de volta para os EUA. Zumbi que é bom, nada! Nem eles querem saber de cérebro podre!


É um filme para fãs convictos de Depp (que dá conta do copo!) e não muito de Thompson (quem?). Tem um bom elenco, mas nenhum “personagem” cativante. A direção é fraca e as atuações mornas. Se bem que, com um roteiro que não diz a que veio e que já vai tarde..., exigir boas interpretações (com diálogos tolos) é ir longe demais pelo mar do Caribe. Quem pode “faz papel” de gente bonita (Aaron e Amber), quem não nasceu photoshopeado se vira como chapado (Giovanni Ribisi) ou parceiro de bebedeira (Michael Rispoli). Com seu “humor” raso, e uma sequência pastelão, Bruce Robinson perde o bonde da história com “mais uma do Thompson”. A biografia do jornalista e escritor (mostrando à maioria dos espectadores quem foi o tal sujeito) seria bem mais eficiente do que a notícia “bombástica” que Kemp insiste em publicar e, de tão velha, não serve nem para embrulhar peixe.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Crítica: Piratas do Caribe - Navegando em Águas Misteriosas


Dizem que em franquia que dá lucro não se mexe, mas se algo, realmente novo, não for feito com Piratas do Caribe, esta segunda trilogia pode ir por água abaixo. 

Em Piratas do Caribe - Navegando em Águas Misteriosas, o Capitão Jack Sparrow (Johnny Depp) continua malandro, mau caráter incorrigível, sempre querendo levar vantagem em tudo (ou será que não?), no final o espectador decide. Com roteiro de Ted Elliott e Terry Rossio, esta produção, dirigida por Rob Marshall (que, por enquanto, merece ser lembrado pelo espetacular musical Chicago), narra as peripécias e artimanhas do quase intrépido Jack Sparrow para chegar à Fonte da Juventude, cujo caminho ele descobriu no final de Piratas 3. Como o segredo descoberto em alto mar é carregado por ondas nada amistosas e pescado em águas espanholas e inglesas, o dissimulado pirata vai fazer de tudo para chegar primeiro ou, ao menos, tomar posse do lugar antes que os seus concorrentes lancem mão. Na falta do Pérola Negra, ele acaba se envolvendo com a ardilosa pirata Angélica (Penélope Cruz) e entrando de gaiato no Vingança da Rainha Ana, fazendo uma viagem que não será (nem um pouco) facilitada pelo lendário inescrupuloso e sanguinário Barba Negra (Ian McShane), que é perseguido pelo vingativo Capitão Hector Barbossa (Geoffrey Rush). 



Apesar de ser o mais fraco da franquia, Piratas do Caribe - Navegando em Águas Misteriosas (Pirates of the Caribbean: On Stranger Tides, EUA, 2011) é um simpático filme de ação e aventura com pitadas de romance às avessas. As tradicionais piadas pastelão, malabarismos, correria, engarrafamento de carruagens, explosões, pancadaria, lutas de espada e tiros de garrucha (é claro!), até divertem, mas não empolgam. Não têm mais o gostinho de novidade. As bizarrices desapareceram e, excetuando algumas belas e mortais sereias, a navegação por águas misteriosas, com um motim aqui, uma desavença acolá, é até tranquila. Os fãs, com certeza, vão sentir falta dos espetaculares efeitos especiais (corte de despesas), dos monstrengos “trash” e das “gags” contínuas. Mas, novamente, vão se defrontar com uma avalanche de personagens e histórias que servem mais para confundir do que para explicar. Ou melhor, para encher linguiça, como a da tola “participação” dos espanhóis na busca da Fonte da Juventude. 



A mudança do diretor Gore Verbinski (que deu uma cara ágil à série) por Rob Marshall mudou também o ritmo narrativo. Agora ele é um pouco mais lento e mais dramático. A impressão é a de que os piratas estão velhos demais para novas trapaças e garruchas fumegantes. O filme continua com ótima produção técnica e excelentes performances do elenco. Tem alguns momentos (na primeira parte) engraçados, porém, parece faltar algo neste novo tempero. É uma típica (porém longa) sessão pipoca que se estende para mais de duas horas. Portanto, quem gosta de bebericar um refrigerante que se cuide, é muita água rolando, caindo, subindo..., para se aguentar sentado por tanto tempo. Ah, e quanto ao 3D, seja esperto, não caia nesse conto do vigário (ou seria do pirata?).

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