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sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Crítica: O Primeiro Homem



O Primeiro Homem
por Joba Tridente

A mim, um dos filmes mais fascinantes sobre a corrida espacial norte-americana é Os Eleitos (1983), de Philip Kaufman, baseado no excelente romance homônimo de Tom Wolfe, lançado em 1979. O livro li apenas uma vez, já o filme, assisti várias vezes..., tenho inclusive o DVD. Me lembrei dele ao assistir a cinebiografia O Primeiro Homem, de Damien Chazelle (La La Land: Cantando as Estações, Whiplash), que traz Ryan Gosling na pele do circunspecto astronauta Neil Armstrong (1930-2012), o comandante da missão Apollo 11 e o primeiro homem (do título) a pisar na Lua, em 20 de Julho 1969. Isso não é spoiler, é fato! Mas, não importa, o drama narrado por Chazelle tem mais a ver com a essência, com a personalidade de Armstrong, o homem por trás do astronauta, do que com a história espacial estadunidense que ajudou a escrever.


Adaptado do livro First Man: The Life of Neil A. Armstrong, de James R. Hansen (2005), por Josh Singer (Spotlight - Segredos Revelados e The Post - A Guerra Secreta), O Primeiro Homem (First Man, 2018), traça um panorama interessante sobre o discretíssimo Neil Armstrong, que serviu na Marinha dos EUA; combateu na Guerra da Coréia (1950/1953); foi piloto de teste na Estação de Voo do Comitê Consultivo Nacional para a Aeronáutica (NACA) e entrou para a NASA em 1962, no Grupo dos Nove primeiros astronautas, onde comandou a Gemini VIII, em seu primeiro voo ao espaço, em 1966, e posteriormente a Apolo 11, em 1969.

A saga do lendário astronauta, que ao pisar na Lua criou a frase: "Este é um pequeno passo para o homem e um salto gigantesco para a humanidade", começa a ser narrada pouco antes de Armstrong (Gosling) deixar a NACA, para se inscrever no programa espacial da NASA, num prólogo impactante, a bordo de um avião de teste desenfreado, pilotado por ele, dando o tom da viagem que o espectador fará (por terra e por ar) para acompanhar a sua (in)tensa rotina. Ainda que o (docu)drama acompanhe o dia a dia dos pilotos em cansativas aulas teóricas e perigosas aulas práticas (sujeitas a erros de cálculo que podem custar a vida dos pioneiros espaciais frente ao obsessivo desejo de chegar à Lua antes dos russos, “acomodados” em cápsulas que hoje nos parecem verdadeiras geringonças), o interesse maior de Chazelle é decifrar o enigmático Armstrong, um profissional forte e hábil ao tomar decisões sob pressão e pai e marido introspectivo (de uma fragilidade tocante) no convívio familiar.


Emoldurando a direção subjetiva de Chalezze, está a fotografia magistral e não menos subjetiva de Linus Sandgren (La La Land), incômoda e claustrofóbica em sua constância de close-ups e movimentos nervosos (que podem provocar vertigem em IMAX), buscando desvelar, nas mínimas expressões, o quê o monossilábico engenheiro aeroespacial Neil oculta em seu íntimo. Filmado em 16 e 35 mm e algumas sequências espetaculares em 65 mm-IMAX, O Primeiro Homem coloca o espectador lado ao lado com os astronautas nas precárias aeronaves que, além de apertadas, parecem prestes a se desmontar em pleno voo, espalhando pilotos, placas, circuitos e parafusos para todo lugar. Uma aflição compensada com as imersivas sequências de paisagens siderais de beleza rara, onde aeronaves dançam tal qual dançaram as de Kubrick em 2001 - Uma Odisseia no Espaço (1968)..., ou com as cenas impactantes do cinzento silêncio lunar que nos convida a refletir sobre o futuro que era ingênua especulação ontem e o que poderá ser poluída realidade amanhã.


Diferente de La La Land: Cantando as Estações, onde, segundo Chazelle, os músicos brasileiros e latinos (leia-se: mexicanos) são personae non gratae nos EUA (leia-se: Los Angeles), porque tomam o lugar dos músicos “nativos” estadunidenses, O Primeiro Homem passa a uma galáxia de distância da hagiografia nacionalista, que seria (?) até natural, por se tratar do retrato de um herói norte-americano. A xenofobia do roteirista e diretor também ficou trancada no armário. O que vemos na tela, é um recorte conciso dos anos 1961 a 1969 da vida do cauteloso Neil Armstrong. Material suficiente para saber quem ele era, como se relacionava com a família e a importância da sua participação na custosa corrida espacial. Não há nem mesmo cenas do famigerado nacionalismo triunfal (viu, mundo, do que nós somos capazes?) pós-pouso na lua. Bandeiras norte-americanas aparecem apenas ocasionalmente, há nada que as destaque além da tradição (ou rotina) de um gesto patriótico.


Enfim, considerando o roteiro enxuto e a direção (documental) sóbria, livre de maneirismos, inclusive na condução do ótimo elenco; a dinâmica dos efeitos especiais e a magnífica fotografia; tentando esquecer a invasiva “trilha sonora” (irritante e desnecessária em boa parte, pois tira a força da trama e do drama), que cresce quando emudece nas cenas lunares..., O Primeiro Homem é um filme bom de se ver e de se deixar envolver. Não se preocupe com a metragem (2h20’) você nem vai sentir o tempo passar, pois vai estar voando alto (preferencialmente em um cinema IMAX) com a extraordinária e assustadora saga de um herói (de carne e osso) do espaço. Uma viagem e tanto para quem gosta do assunto e gostaria de saber um pouco mais dos primórdios da conquista do espaço..., ao menos da conquista da nossa vizinhança celeste.


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Crítica: Blade Runner 2049

Blade Runner 2049
por Joba Tridente

Em Blade Runner (1982), do britânico Ridley Scott, há um dos mais belos e emblemáticos monólogos do cinema, dito pelo replicante/androide Roy Batty (Rutger Hauer): “- Vi certas coisas que a sua gente não acreditaria. Naves de ataque ardendo ao largo de Orion. Vi raios C cintilando na escuridão junto ao Portão de Tannhäuser. Todos estes momentos vão se perder no tempo, como lágrimas na chuva. Hora de morrer.”. Em Blade Runner 2049, do canadense Denis Villeneuve, não há nenhum monólogo e ou cena equivalente. Porém, há uma magnífica narrativa que faz jus ao clássico/cult ao seguir em frente com a história carismática que encanta os cinéfilos há 35 anos.


Com base em personagens criados pelo escritor norte-americano Philip K. Dick (1928-1982), para o romance de ficção científica Do Androids Dream of Electric Sheep? (Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?), lançado em 1966, em vez de um mundo novo, com gosto molhado de distopia zero e escravos androides de última geração, os roteiristas Hampton Fancher (Blade Runner, 1982) e Michael Green (Logan, 2017) optaram por dar continuidade ao caos de 2019, seguindo a trilha da decadência urbana e diferenças sociais até 2049. Ano em que um recado enigmático (“Você nunca viu um milagre!”) do replicante fazendeiro Sapper Morton (Dave Bautista, ótimo) e a descoberta de um segredo (capaz de abalar o poder constituído) provocam um curto-circuito no cérebro do oficial da LAPD, KD6-3.7 (Ryan Gosling, perfeito) e o levam a desconfiar de que há muito mais em comum entre humanos (que nascem com alma) e replicantes (criados sem alma) do que desejam as autoridades. Obrigado a decifrar a misteriosa fala e desvelar o explosivo segredo, enquanto encontra algum sentido para o seu passado nebuloso, K busca a ajuda do caçador Rick Deckard (Harrison Ford, original), que vive isolado nos escombros de Las Vegas.  


Blade Runner 2049 é uma daquelas pedras raras que, em mãos dúbias, seria apenas poeira nos olhos, mas que, nas mãos certeiras de Denis Villeneuve (A Chegada, 2016), a lapidação precisa a tornou uma peça elegante em cujas facetas refletem antigas e novas ideias sobre o itinerário mecanicista do criador e de suas criaturas no labirinto da consciência humana em prol de uma alma técnica ou lógica. Premissa que lembrou trechos famosos do poético e polêmico Eclesiastes, que teria sido escrito por Salomão: Eclesiastes 1:11. Já não há lembrança das coisas que precederam, e das coisas que hão de ser, também delas não haverá lembrança, entre os que hão de vir depois. 1:18. Porque, na muita sabedoria, há muito enfado; e o que aumenta em conhecimento, aumenta em dor. Eclesiastes 3:1. Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. 3:2. Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou. 3:3. Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar. 3:6. Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora. 3:7. Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar. 3:8. Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz; 3:16. Vi mais debaixo do sol que no lugar do juízo havia impiedade, e no lugar da justiça havia iniquidade. 3:21 Quem sabe que o fôlego do homem vai para cima, e que o fôlego dos animais vai para baixo da terra?


A trama do thriller de ficção científica Blade Runner 2049 é inteligente em suas costuras tecnológicas e amarras humanitárias e certamente provocará as mais diversas leituras..., sejam elas filosóficas (sagradas ou profanas) e ou descompromissadas de “mesa de bar” (por que não?)..., mas sem banalizar o tema: escravização do homem pelo homem ou pela máquina. Ao ampliar o questionamento sobre os “limites” do avanço tecnológico e a decadência moral e social do homem, Villeneuve reverencia o filme de Scott, sem lhe fazer sombra e ou ser sombreado por ele. A época é outra e (na iminência de um o colapso econômico) o melhor é seguir em frente, continuando a história do capítulo anterior, virando a página e movimentando o fotograma parado há 35 anos nas retinas cinematográficas..., ou há 30 anos na história idiossincrásica da humanidade vagueando atônita na película do tempo.


Enfim, considerando a irretocável direção de Denis Villeneuve; o roteiro atual, pertinente em seus questionamentos: Com o avanço da inteligência artificial, o que será dos milhares de anos de evolução humana? Com a evolução tecnológica restará algo de humano em nós..., ou o que fomos também se perderá no tempo como lágrimas na chuva?); a narrativa sem pressa (e sem didatismo piegas!), para total imersão do espectador (jamais subestimado!) e sem (!) a intenção de ser (!) um blockbuster; a empatia dos personagens (como não se emocionar com o destino do replicante Sapper (Bautista) ou não se apaixonar pela adorável holograma Joi, na pele da linda cubana Ana De Armas?) e a excelência do elenco; o clima melancólico e a fantástica cenografia futurista-retrô; a impressionante fotografia de Roger A. Deakins, dos deslumbres noturnos pelas ruas de Los Angeles, apinhadas de seres nascidos e ou criados (despreocupados com suas almas), aos claustrofóbicos ambientes soturnos dos laboratórios de alta tecnologia aos escombros periféricos..., excetuando a insuportável trilha sonora (igual a trocentas do gênero sci-fi) de Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch, que range praticamente durante quase toda a sessão, Blade Runner 2049 é um filme que pretendo ver mais vezes para absorver também as minúcias que deixei passar. Uma produção ímpar, contemporânea e totalmente coerente com a cinematografia (até então) impecável de Denis Villeneuve.  

Se é fã de ficção científica reflexiva (tão saborosa quanto qualquer obra do mestre Ray Bradbury) e apaixonado pelo Blade Runner de 1982, não pode perder. Mas recomendo, apenas para refrescar a memória, que reveja antes o filme de Ridley Scott.


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

domingo, 30 de julho de 2017

Crítica: De Canção em Canção


De Canção em Canção
por Joba Tridente

Tem filme novo de Terrence Malick nos cinemas: De Canção em Canção (Song to Song, 2017). Mas será realmente um filme novo?

Exibindo como pano de fundo um festival de música em Austin, no Texas, De Canção em Canção apresenta uma variação da mesma penitência religiosa proposta (qual uma oração-reflexo) em Amor Pleno (2013) e Cavaleiro de Copas (2015): homens monossilábicos (caricatura masculina!), sem saber (ou ter) o quê dizer sobre a vida e o amor para suas companheiras, namoradas, amantes..., e mulheres psicóticas, desequilibradas, bipolares, amando e odiando (em pensamento) seus companheiros, namorados, amantes. Ambos incapazes (?) de se manifestarem verbalmente. Enquanto homens andam a esmo e casais se olham (desejosos ou não), se relam, se roçam, insinuam sexo e mulheres possam nuas e ou seminuas, os/as protagonistas pensam (em off) o quê gostariam de falar (mas não dizem!) sobre o amor, o ódio, a vida, a dor, a religião e deus (não necessariamente nessa ordem cristã), uns aos outros, não tivessem tão ensimesmados lambendo as próprias feridas, como se as maiores do mundo.


Através de cortes (com a introdução de belas imagens), recortes (com a introdução de belas imagens) e picotes (com a introdução de belas imagens) no dia a dia de trabalho ou de badalação de cada personagem, a narrativa tenta dar prumo (ou sentido!) às relações ambíguas entre os artistas da área musical Faye (Rooney Mara), BV (Ryan Gosling), Cook (Michael Fassbender), Rhonda (Natalie Portman)..., que vão se enredando profissional, social e afetivamente tal qual numa balada romântica e caótica de amor e dor (“Te amo! Você é o amor da minha vida! Te amarei para sempre! Te amei!”). Não faltam angústia, melancolia, vazio existencial, a busca por deus, triângulos amorosos e angustiosos, imagens imersivas e contemplativas (sempre em movimento: haja travelling!): paisagens bucólicas com mato, grama, capim, árvore, folhas, pássaros, montanhas, rios, mares, praias, piscina, nascer e por de sol, estradas, viadutos, pontes, carros, aviões..., e o que mais se desejar e imaginar do fascinante arquivo de imagens (salvatela de computador) das quatro estações de Emmanuel Lubezki. A cor do figurino também varia conforme o humor dos personagens. O elo está no conjunto ou num mero detalhe!


Se você não assistiu aos reflexivos Amor Pleno/To the Wonder (2013) e Cavaleiro de Copas/Knight of Cups (2015), este drama light and heavy pode até lhe parecer original e tocante. Porém, pelas vias abstratas (ou seria herméticas?) do mestre tão off das badalações quanto as narrativas em off dos seus últimos trabalhos cinematográficos, praticamente sem diálogos (o que deve gerar uma boa economia em som direto), De Canção em Canção, que deixa muito espectador atônito (!), está mais para um “adendo” a tangenciar sistematicamente os dois filmes anteriores.

Quem não assistiu ao seu belíssimo e inquietante A Árvore da Vida (2011), também pode demorar um pouco para amarrar as pontas do script metafísico. Já o cinéfilo que tem acompanhado os recentes devaneios do messiânico roteirista e diretor, onde seus personagens estão sempre à deriva (revirando os olhos), em busca de um deus cristão que lhes dê respostas e algum significado para suas vidas vazias e ou praticando atos de solidariedade em hospitais e periferias, vai sentir que De Canção em Canção é um dos galhos frágeis e com frutos muito menos suculentos da árvore citada. O argumento de que a salvação do homem se dará através da prática sincera do amor humano é nobre, mas o roteiro para a redenção é pobre.


Decifrar a trama do emblemático De Canção em Canção não é um exercício fácil para o espectador de primeiro Malick, pois depende da intimidade com os seus filmes recentes, bem como da aceitação da sua linguagem (filosófica cristã) cada vez mais redundante, para mensurar o vazio existencial de seus personagens e as particularidades da “mensagem” ou “moral” religiosa nas entrelinhas do drama. Assim, é bem possível que (neste imbróglio transcendental) alguém se perca no labirinto das lamentações, cego pelos flashes de tantas lamúrias pessoais e totalmente alheio aos anseios de quem quer que seja.

A mim..., que após a sessão ainda não tinha opinião formada e chegando em casa assisti ao Cavaleiro de Copas, seguido de Amor Pleno..., confesso que a sensação é mais de frustração, por esta melancólica canção de Malick não ter me convencido totalmente, do que de decepção pela sua idiossincrasia visual. O vazio que me ficou é bem maior que o vazio de seus personagens no show business da vida. Um vazio que não consegui preencher nem com as belas imagens rurais e urbanas que pululam aleatoriamente na telona...


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários, em VHS, fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Crítica: La La Land: Cantando Estações


La La Land: Cantando Estações
por Joba Tridente*

Em tempos de violência generalizada no mundo do cinema e no mundo dos espectadores, assistir a uma boa fantasia com vocação melodiosa é um bálsamo..., como se dizia antigamente, e ou nos tempos áureos dos grandes musicais norte-americanos. Em 2016 foi uma delícia assistir aos descompromissados e excelentes desenhos muitíssimos animados Trolls e SING ou ao curioso melodrama brasileiro Elis. Ainda não é possível saber se toda a safra cinematográfica prometida para 2017 será de qualidade, mas começa bem com o simpático musical La La Land: Cantando Estações, escrito e dirigido por Damien Chazelle (Whiplash) e protagonizado por Ryan Gosling (Sebastian) e Emma Stone (Mia), uma dupla de atores cheia de disposição para tocar, dançar e cantar os sonhos e frustrações das suas personagens no vai e vem das estações do ano pela ensolarada Los Angeles...


La La Land: Cantando Estações (La La Land, EUA, 2016) é um musical com mais diálogos que números musicais e de dança. Ou seja, tem mais gente falando ou reclamando da indústria do entretenimento do que cantando e dançando. Seu roteiro é simples, mas não chega a ser totalmente raso: um músico radicalmente apaixonado pelo jazz conhece uma atriz apaixonada pelo cinema e, claro, se enamoram. Ambos vivem na Cidade dos Sonhos: Los Angeles. Ele é Sebastian (Gosling), pianista que odeia o jazz moderno (e o samba!), toca esporadicamente em casas noturnas e sonha em abrir o próprio bar temático. Ela é Mia (Stone), trabalha como barista, num café instalado dentro dos estúdios da Warner, vai a todos o testes de elenco e sonha em atuar em algum filme. Os dois sabem que LA é mãe e madrasta dos artistas e que apenas a perseverança os levará ao estrelato na música e ou no cinema.


Com uma trama que lembra as histórias (por vezes melancólicas) do diretor e jazzista Woody Allen (como, por exemplo, o ferino Café Society) e referências aos melhores musicais norte-americanos, embora não traga nenhuma canção realmente memorável e ou coreografia (original) espetacular, La La Land é envolvente pela química entre os atores Gosling e Stone que, se não são excepcionais cantores e bailarinos, dão conta do recado com certa graciosidade nos números de dança e interpretação segura nos diálogos e cantoria. Essa “deficiência” dos atores, na música e na dança, acaba até tornando os seus personagens muito mais críveis.


Mas, como nem tudo que brilha são estrelas no céu hollywoodiano, na trama musicada há ao menos uma nota bem desafinada nos arredores de um bar com música ao vivo. Sem a eloquência woodyalleniana (já que não é um filme do mestre), a narrativa trata com exagerada nostalgia (e até escárnio) a questão dos músicos puristas estadunidenses que não conseguem aceitar os rumos que o jazz e o blues tomaram nos EUA e nem a chegada de uma nova geração (norte-americana) de compositores e intérpretes ao mercado, fundindo ritmos em busca de nova sonoridade e plateias. Nesse imbróglio sobra até para o samba (brasileiro)..., ainda confundido (pelo insano Tio Sam) com gêneros musicais latinos (rumba, salsa, bolero, mariachi)..., em duas ou três cenas constrangedoras e totalmente fora de contexto, porém, ao gosto xenofóbico de Trump e onde caberia, sem dúvida alguma (em resposta ao roteirista e diretor Chazelle), a recente fala de Meryl Streep, na premiação do Globo de Ouro: “Hollywood está cheia de estrangeiros. Se expulsarmos todos eles vocês não terão nada para assistir, exceto por futebol e artes marciais mistas”.

Aliás, eu nem sabia que o (execrado) samba (acompanhado de “malditos” petiscos latinos) faz tanto sucesso nas casas noturnas de Los Angeles, a ponto de ser citado no musical como responsável por desempregar tradicionais jazzistas estadunidenses e ser a razão de destempero do personagem Sebastian, numa ridícula cena noturna de vandalismo. Haja fobia! E por falar em estrangeiros, nem vou comentar (pra não me repetir) o destino da personagem Mia.


Bem, piada (?) de mau gosto com o samba e com a comida mexicana (que você pode nem notar!) à parte, La La Land: Cantando Estações é um bom programa para os amantes de musicais aerados. Ao público acostumado a musicais arrebatadores, a canção-tema, principalmente cantada, pode não soar das mais bonitas. Digamos que, assim como as outras músicas da trilha, está mais para estranha do que para marcante. Mas cumpre a sua função narrativa e, em meio ao cenário e danças, acaba razoável. Se bem que, possivelmente, ao final da sessão, você não vai lembrar nem da letra e nem da melodia. No entanto, toda via passada não importa mais. Já no quesito dança, há ao menos três interessantes coreografias customizadas de outros musicais (autoestrada, praça/rua, observatório) que resistem na memória até você ligar algum aparelho eletrônico...


Enfim, La La Land é uma nostálgica comédia romântica leve e bem comportada (sem sexo e com beijo técnico) sobre os percalços da vida de artista em Los Angeles. Não chega a ser hilária (está bem longe disso), mas tem algumas gags legais relacionadas às apresentações de Sebastian (Gosling) e às audições de Mia (Stone). Inclusive, em uma delas (de puro humor negro), creio que a primeira, Emma Stone está soberba numa performance tão desconcertante quanto toda a cena ao redor. Ryan Gosling também tem ótimas performances.

Com sua história conservadora (assim meio retrô/vintage e com pitadas de melancolia), algumas sequências brilhantes e outras nem tanto, La La Land: Cantando Canções pode não ser tão divertido e criativo quanto SING, mas é um filme que pode ser saboreado sem contraindicação e sem pressa num boa sala de cinema, por toda a família..., desde que a criançada goste de jazz (puro ou fusão) e de dança. Pelo que me lembro, é isso!


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Crítica: Drive


Drive (Drive, EUA, 2011), de Nicolas Winding Refn, é um dos filmes mais econômicos (em verba e verbo) da temporada. Pelo menos na primeira parte, já que na segunda, as imagens de violência são mais gritantes que qualquer diálogo de ocasião. O thriller, baseado no livro homônimo de James Sallis  e com roteiro de Hossein Amini, tem intrigantes planos longos e silêncios perturbadores, bela e discreta trilha sonora (ou algum ruído musical), características do jovem diretor dinamarquês, que não abre mão da (gratuita) violência explícita, explorada de forma radical no estranhíssimo (e Dogmático!) Valhalla Rising (2009), cujo protagonista é mudo e os coadjuvantes mal abrem a boca. Outra curiosidade é que há uma inversão de ação e reação entre os dois, a sanguinolência que principia em um, conclui (parecida: dilacerações, cabeça arrebentada, vísceras expostas) no outro. Valhalla termina metafísico, e Drive começa introspectivo.

2011 foi um ano de homenagens ao cinema mudo e de protagonistas monossilábicos, feito o driver (Ryan Gosling) de Drive. Ele, no melhor estilo James Dean, não tem passado (que se saiba), seu presente é quase de total ausência e seu futuro uma corrida de surpresa. Pode se dizer que o sujeito (que entra em cena praticamente mudo e sai calado) é um “motorista de horas vagas”. Ou melhor, que ele é mecânico, mas também motorista-dublê de filmes de ação e motorista-cúmplice de marginais que cometerem os seus crimes em 5 minutos. Hábil no volante e nos disfarces, no entanto, ao se envolver cordialmente com a garçonete Irene (Carey Mulligan) e seu filho Benício (Kaden Leos) e com Standard Gabriel (Oscar Isaac), o marido dela, a sua vida, pautada pela discrição, começa a borbulhar mais que água no radiador. Seja por instinto paternal e ou necessidade familiar (algum trauma?), o driver se vê obrigado a deixar de ser uma sombra esquiva (um dublê na vida e na arte), quebrar as suas próprias regras e afrontar quem quer ferrar o seu parachoque amigo.


Drive é um filme que começa muito bem e muito bonito. Seu drama minimalista e envolvente, em tudo (diálogo, fotografia, enquadramentos, trilha, personagens), lembra o bom cinema europeu. As interpretações são magníficas. São muitas a leituras possíveis sobre a solidão, a espera, a amizade, a inocência, as escolhas, as máscaras de cada um. Mas, de repente, Refn parece acordar de um ótimo sonho para reconhecer (?) que a trama é “romântica” demais, não é desastrosa, não é americana, não vai atingir o seu público fiel, e, então, trata logo de furar o carburador narrativo. Ai, a excelência vaza fluidos por todos os buracos, até terminar numa sequência (premonitória?) popularizada pelas recentes produções do Sherlock Holmes. Assim como nas aventuras do famoso detetive inglês, o futuro de driver torna-se previsível. O melhor seria que não!

Drive acontece conforme a expectativa e o envolvimento do espectador com a história simples (mas contundente) e ou com seus dramáticos personagens fora de compasso, quase vegetativos. Os que gostam do bom cinema vão preferir a primeira parte. O mais chegados na gratuidade da ação-clichê vão se extasiar com o motor envenenado da segunda. A injeção de adrenalina aqui não tem a ver com a correria automobilística costumeira do cinema norte-americano. Pois, mesmo se tratando de um vingativo driver (que ironia!), a violência é, digamos, mais privada (... é melhor viver dez anos a mil, do que mil anos a dez/decadence avec elegance, já dizia o Lobão). Nicolas Refn é tão talentoso que tropeça..., mas não cai.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Crítica: Tudo Pelo Poder



Em briga de cachorro grande, ou melhor, de burro grande, sedento de poder, o melhor a fazer é assistir de camarote. É claro que sair respingado de lama é uma possibilidade, mas quem entra num circo, com o picadeiro em chamas, é para se queimar, não é?
  
Baseado na peça teatral Farragut North, de Beau Willimon, Tudo Pelo Poder, dirigido por George Clooney, se passa em Des Moines, Iowa, a poucas semanas do partido democrata escolher o candidato ideal para concorrer à Presidência dos EUA. No primeiro ato o foco está nos bastidores da campanha do governador Mike Morris (George Clooney), um político liberal cujo discurso progressista vem despertando interesse em todos os segmentos da sociedade. Determinado a vencer este jogo ele confia na jovialidade e eficiência do diretor de comunicação Stephen Myers (Ryan Gosling) e na supervisão do experiente Paul Zara (Philip Seymour Hoffman), que travam um corpo a corpo com o maquiavélico Tom Duffy (Paul Giamatti), que trabalha para o candidato Senador Pullman. No segundo ato, a descoberta de fatos graves, um envolvendo a estagiária Molly Stearns (Evan Rachel Wood) e outro que relaciona Myers a Duffy, podendo comprometer toda a campanha, coloca em cheque o compromisso do jovem assessor com a verdade do candidato que defende e aquela em que ele acredita.


O drama, com todos os elementos pertinentes ao thriller político, faz um coeso exercício de reflexão sobre integridade humana. Clooney (o diretor), que escreveu o roteiro, com Grant Heslov e Beau Willimon, mergulha com maestria num assunto que sempre rende muito na imprensa americana: fidelidade (partidária e familiar), explorando bem o afiado papel das redes de comunicação nas investidas da dissimulada colunista política Ida Horowicz (Marisa Tomei).

Ao desenhar a (des)construção de um candidato ao governo americano, a narrativa (catártica para muitos espectadores) propicia uma leitura que vai muito além do “belo” discurso óbvio (dos sacrifícios nacionalistas) que embala o cinismo dos pretendentes ao cobiçado cargo de “senhor do mundo” e daqueles que o assessoram. Uma leitura que melancolicamente reforça o velho pensamento de que, quando se faz concessões, abre-se mão dos sonhos coletivos. Num jogo em que a dialética se torna retórica e se entorna em eloquência, e a única alternativa é ganhar, talvez o idealismo não seja tudo afinal.


No vale Tudo Pelo Poder, cabe a Sthephen Myers a função de abrir e fechar as cortinas do palco montado para o show impecável de Mike Morris, ambos prisioneiros do próprio discurso (moralizador?). Aí é que a excepcional fotografia de Phedon Papamichael faz a diferença. Sem ser redundante, compõe no cenário, através de luz e sombra, aquilo que o diálogo oculta ou o que não precisa (ou não pode) ser dito. É à meia-luz que, por duas vezes, somos apresentados a Myers. Na primeira, ele é o sujeito iluminado que sonha o sonho do seu candidato e sai das sombras (do poder) para testar o som (e não o discurso), num palco (à meia-luz), degustando as palavras. Na segunda, ele é o sujeito frio que volta às sombras (do poder) para falar sobre os rumos da campanha, num palco (à meia-luz), degustando o silêncio. Na política os refletores podem iluminar, com a mesma intensidade, sonhos e pesadelos. Mas, na penumbra, todas as falas são parcas.


Nas coxias, onde segredos são desvelados e tramas são tecidas, pode se perder a inocência, mas não o (bom ou mau) caráter. Quando a traição iminente alcança o ponto e muda a representação, já não importa quem “apunhalou” e ou se deixou “apunhalar”, uma vez que os despojos apenas mudarão (ou não!) momentaneamente de mãos. Não fosse a política brasileira repleta de escândalos explícitos que (provados e comprovados) dão em nada, e assim continuará enquanto o eleitor brasileiro (obrigado a votar) não se importar, o excelente Tudo Pelo Poder, na exposição crua do lixo (corrupção, mentira, blefe, chantagem) que nos embriaga, até causaria algum barulho. Com narrativa e atuações magníficas, ele é, sem dúvida, eficiente e (ainda) necessário (ao público jovem), mas no atual estágio do Paraíso da Impunidade, nem marola.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Crítica: Amor A Toda Prova


Como criatividade não é o forte dos tituladores brasileiros e pouca gente se lembra de Amor A Toda Prova (Unconditional Love, EUA, 2002), de P. J. Hogan, uma “nova” comédia americana, com o mesmo título em português, estreia para a felicidade dos românticos de plantão que acreditam na tradicional família e no amor filial acima de tudo.

A história (é claro!) não é das mais originais. Cal Weaver (Steve Carell) é um cara certinho que tem a vida que pediu a seu Deus: uma bela esposa Emily (Julianne Moore), um bom emprego, boa casa, filhos e amigos adoráveis. Porém, como dizem que até mesmo o que é sólido desmancha no ar, o seu mundo perfeito se espatifa quando Emily pede o divórcio e diz que o traiu. Cal vira um choramingas no bar da cidade, onde acaba conhecendo o galanteador Jacob Palmer (Ryan Gosling). O bon vivant que pega todas e não repete mulheres, decide ajudá-lo a esquecer o passado e a descobrir os prazeres de uma nova vida. Como a comédia é romântica, a temporada para encontrar um amor e muita confusão está aberta também para o filho adolescente de Cal e para um grupo de jovens advogados.


Amor A Toda Prova (Crazy, Stupid, Love, EUA, 2011), dirigido por Glenn Ficarra e John Requa, com roteiro de Dan Fogelman, é mais uma comédia clichê (não falta nem a dramática chuva de ocasião!), daquelas que a gente sabe como vai se desenvolver e terminar. Mas, não sei se pelo elenco ou se por evitar a baixaria “cômica” dos recentes filmes do gênero, não deixa de ser simpática e até divertida. Parece incrível, mas ela não tem piadas escatológicas e há apenas duas ou três insinuações sexuais que, aqui, fazem parte do contexto. No entanto, é bom que se diga que a trama é um tanto quanto machista. As aulas de conquista e sedução de Jacob a Cal, incluindo a sua incansável caça de mulheres, sempre disponíveis para o romance ou sexo ocasional, pode incomodar (?) o público feminino. Ou não!


A produção é salpicada de boas canções românticas e tem um momento arrebatador na homenagem a Patrick Swayze (1952-2009) e Jennifer Grey, na recriação de uma cena famosa de Dirty Dancing - Ritmo Quente (1987), de Emile Ardolino. Porém, a narrativa que tem uns arroubos de moderninha, infelizmente, fica apenas na querença da ousadia. No final, quando a tradição, a família e o patrimônio falam mais alto, ela se mostra bem caretinha. Na atual safra de comédias de costumes (macho-falocratas) a impressão é a de que as narrativas querem propalar que não existe vida inteligente fora do casamento tradicional. Pode haver sexo e até prazer, mas, felicidade, não! 
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