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sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Crítica: Blade Runner 2049

Blade Runner 2049
por Joba Tridente

Em Blade Runner (1982), do britânico Ridley Scott, há um dos mais belos e emblemáticos monólogos do cinema, dito pelo replicante/androide Roy Batty (Rutger Hauer): “- Vi certas coisas que a sua gente não acreditaria. Naves de ataque ardendo ao largo de Orion. Vi raios C cintilando na escuridão junto ao Portão de Tannhäuser. Todos estes momentos vão se perder no tempo, como lágrimas na chuva. Hora de morrer.”. Em Blade Runner 2049, do canadense Denis Villeneuve, não há nenhum monólogo e ou cena equivalente. Porém, há uma magnífica narrativa que faz jus ao clássico/cult ao seguir em frente com a história carismática que encanta os cinéfilos há 35 anos.


Com base em personagens criados pelo escritor norte-americano Philip K. Dick (1928-1982), para o romance de ficção científica Do Androids Dream of Electric Sheep? (Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?), lançado em 1966, em vez de um mundo novo, com gosto molhado de distopia zero e escravos androides de última geração, os roteiristas Hampton Fancher (Blade Runner, 1982) e Michael Green (Logan, 2017) optaram por dar continuidade ao caos de 2019, seguindo a trilha da decadência urbana e diferenças sociais até 2049. Ano em que um recado enigmático (“Você nunca viu um milagre!”) do replicante fazendeiro Sapper Morton (Dave Bautista, ótimo) e a descoberta de um segredo (capaz de abalar o poder constituído) provocam um curto-circuito no cérebro do oficial da LAPD, KD6-3.7 (Ryan Gosling, perfeito) e o levam a desconfiar de que há muito mais em comum entre humanos (que nascem com alma) e replicantes (criados sem alma) do que desejam as autoridades. Obrigado a decifrar a misteriosa fala e desvelar o explosivo segredo, enquanto encontra algum sentido para o seu passado nebuloso, K busca a ajuda do caçador Rick Deckard (Harrison Ford, original), que vive isolado nos escombros de Las Vegas.  


Blade Runner 2049 é uma daquelas pedras raras que, em mãos dúbias, seria apenas poeira nos olhos, mas que, nas mãos certeiras de Denis Villeneuve (A Chegada, 2016), a lapidação precisa a tornou uma peça elegante em cujas facetas refletem antigas e novas ideias sobre o itinerário mecanicista do criador e de suas criaturas no labirinto da consciência humana em prol de uma alma técnica ou lógica. Premissa que lembrou trechos famosos do poético e polêmico Eclesiastes, que teria sido escrito por Salomão: Eclesiastes 1:11. Já não há lembrança das coisas que precederam, e das coisas que hão de ser, também delas não haverá lembrança, entre os que hão de vir depois. 1:18. Porque, na muita sabedoria, há muito enfado; e o que aumenta em conhecimento, aumenta em dor. Eclesiastes 3:1. Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. 3:2. Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou. 3:3. Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar. 3:6. Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora. 3:7. Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar. 3:8. Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz; 3:16. Vi mais debaixo do sol que no lugar do juízo havia impiedade, e no lugar da justiça havia iniquidade. 3:21 Quem sabe que o fôlego do homem vai para cima, e que o fôlego dos animais vai para baixo da terra?


A trama do thriller de ficção científica Blade Runner 2049 é inteligente em suas costuras tecnológicas e amarras humanitárias e certamente provocará as mais diversas leituras..., sejam elas filosóficas (sagradas ou profanas) e ou descompromissadas de “mesa de bar” (por que não?)..., mas sem banalizar o tema: escravização do homem pelo homem ou pela máquina. Ao ampliar o questionamento sobre os “limites” do avanço tecnológico e a decadência moral e social do homem, Villeneuve reverencia o filme de Scott, sem lhe fazer sombra e ou ser sombreado por ele. A época é outra e (na iminência de um o colapso econômico) o melhor é seguir em frente, continuando a história do capítulo anterior, virando a página e movimentando o fotograma parado há 35 anos nas retinas cinematográficas..., ou há 30 anos na história idiossincrásica da humanidade vagueando atônita na película do tempo.


Enfim, considerando a irretocável direção de Denis Villeneuve; o roteiro atual, pertinente em seus questionamentos: Com o avanço da inteligência artificial, o que será dos milhares de anos de evolução humana? Com a evolução tecnológica restará algo de humano em nós..., ou o que fomos também se perderá no tempo como lágrimas na chuva?); a narrativa sem pressa (e sem didatismo piegas!), para total imersão do espectador (jamais subestimado!) e sem (!) a intenção de ser (!) um blockbuster; a empatia dos personagens (como não se emocionar com o destino do replicante Sapper (Bautista) ou não se apaixonar pela adorável holograma Joi, na pele da linda cubana Ana De Armas?) e a excelência do elenco; o clima melancólico e a fantástica cenografia futurista-retrô; a impressionante fotografia de Roger A. Deakins, dos deslumbres noturnos pelas ruas de Los Angeles, apinhadas de seres nascidos e ou criados (despreocupados com suas almas), aos claustrofóbicos ambientes soturnos dos laboratórios de alta tecnologia aos escombros periféricos..., excetuando a insuportável trilha sonora (igual a trocentas do gênero sci-fi) de Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch, que range praticamente durante quase toda a sessão, Blade Runner 2049 é um filme que pretendo ver mais vezes para absorver também as minúcias que deixei passar. Uma produção ímpar, contemporânea e totalmente coerente com a cinematografia (até então) impecável de Denis Villeneuve.  

Se é fã de ficção científica reflexiva (tão saborosa quanto qualquer obra do mestre Ray Bradbury) e apaixonado pelo Blade Runner de 1982, não pode perder. Mas recomendo, apenas para refrescar a memória, que reveja antes o filme de Ridley Scott.


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Crítica: Guardiões da Galáxia


Fui ver Guardiões da Galáxia sem saber exatamente o que esperar, já que não tinha referência alguma sobre os personagens, e, para a minha surpresa, fiquei embasbacado.

Guardiões da Galáxia,(Guardians of the Galaxy, EUA, 2014) dirigido por James Gunn, coautor do roteiro com Nicole Perlman, é daqueles filmes que te pegam logo no prólogo. Baseado em HQ de pouca fama da Marvel, tem uma trama simples (quase infantil), despretensiosa e (por isso) muito divertida. A impressão é a de que a adaptação irreverente, que passa a quilômetros do sci-fi cabeça e da seriedade de Capitão América 2 (2014), quer apenas que o espectador se divirta curtindo uma história com raro equilíbrio de humor, drama, ação, fantasia, aventura, num cenário de cair o queixo.


A grande viagem espacial começa em 1988, quando o garoto Peter Quill (Wyatt Oleff), com seu inseparável walkman na cintura, é sequestrado por ETs e reaparece uns vinte anos depois, vagando pelo espaço, na pista de uma misteriosa esfera prateada que ele logo descobre ser cobiçada por alienígenas como o vilão psicopata Ronan (Lee Pace), o tirano Thanos (Josh Brolin, não creditado), o comerciante O Colecionador (Benicio Del Toro), o seu sequestrador e “pai” adotivo Yondu (Michael Rooker). Está, então, aberta a temporada de caça ao simpático e saudosista ladrão galáctico Quill (Chris Pratt), autodenominado Senhor das Estrelas.

Na sua cola, por razões diferentes, além de bandidos alucinados, estão a verdejante rebelde Gamorra (Zoe Saldana) e os adoráveis caçadores de recompensa Rocket (dublado por Bradley Cooper), um irônico guaxinim geneticamente alterado, e a árvore humanoide (eu sou) Groot (dublada por Vin Diesel). Hora mais, hora menos, os quatro vão acabar se encontrando e, na companhia do grandalhão (sem meias palavras) Drax, O Destruidor (Dave Bautista), ver quem acende a bucha, quem se queima e quem apaga o fogo de um universo pequeno demais pra tanto usurpador.


São tantos os adjetivos de Guardiões da Galáxia que é complicado escrever sobre ele, sem soar redundante. Pra começar, não me lembro da última vez em que vi (se é que já vi!) tamanha ousadia (burlesca) com personagens do universo marveliano e engenhosidade em sequências de dar inveja a MacGyver (com suas fugas mirabolantes). O enredo alegre, cheio de surpresas (e maravilhas da tecnologia CGI), não subestima a inteligência de ninguém, com a sua jovialidade. Não tem lição de moral, subtexto e sequer resvala numa jornada do herói. Também porque, a turma de (mercenários amadores) de Peter Quill, de herói, tem nada. É aí que está o charme da história que se passa num lugar qualquer do Universo, onde alienígenas comuns erram muito e acertam de vez em quando..., ou sempre que convém aos seus negócios futuros.

A caracterização de Quill, aos moldes de Han Solo e Indiana Jones, e o flerte mais descarado com Star Wars e Caçadores da Arca Perdida, não incomodam. Estão mais para reconhecimento (ou citação) do que para paródia. A empatia é automática, para os fãs dos dois aventureiros. Aliás, o serviço de caracterização (maquiagem) de todos os personagens é excelente O elenco encabeçado por Pratt é muito bom e parece se divertir com seus personagens desajustados e seus diálogos literalmente de outro mundo.


As cenas de ação (tipo game) são fascinantes. A teia de aeronaves douradas na batalha de Xandar é um espetáculo arrepiante. Mas, três ou quatro cenas lúdicas protagonizadas pela adorável árvore (eu sou) Groot estão muito além do fantástico. Elas são mágicas, surgem de repente, do nada, te viram de ponta cabeça e te dão um nó na garganta e desaparecem. A narrativa já está lá longe, maluquices pululando na tela, mas a beleza, a delicadeza daquelas imagens ainda persiste na sua retina. Invejável construção e edição de cenas.

Em mim ficou pelo menos três grandes momentos de (eu sou) Groot. Um deles, inclusive (o mais bonito?), me fez lembrar uma cena do clássico Frankenstein (1931), de James Whale..., que não vou citar para não induzir à mesma leitura. Mas qualquer cinéfilo vai reconhecer no ato. Não sei se foi pensada (homenagem) e ou se é o inconsciente do diretor e roteirista pregando peça. Veja bem, as cenas não são semelhantes, apenas a beleza e um gesto as une. E que gesto.


Enfim, considerando a eficácia da direção e o roteiro descompromissado; o nonsense, a trama bacana; os efeitos especiais inacreditáveis, dando forma a um Universo muito além da imaginação; cenografia e fotografia deslumbrantes; a saudável desconexão da trilha composta por rock-baladas de FM anos 70/80; a hilária homenagem a Kevin Bacon e ao Footloose (1984); a embalagem 3D (de profundidade) da melhor qualidade..., ara, se melhorar, estraga!

Ah, antes que me esqueça, pra não dizer que não falei da babel, o fato da língua universal das civilizações galácticas ser o inglês americano, segundo a filologia hollywoodiana, talvez não tenha a menor importância..., já que, além de facilitar a vida dos estadunidenses que odeiam legendas, essa questão já foi (?) plenamente explicada na excelente animação Planeta 51 (2010). E, também, os espectadores terráqueos não-americanos já se acostumaram. Todavia, que seria muito mais divertido se cada povo falasse uma língua diferente, não tenho a menor dúvida!

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