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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Crítica: A Ilha de Bergman

A ILHA DE BERGMAN

Bergman Island

por Joba Tridente

Fårö é uma ilha de areia fina e paisagem árida, repleta de monólitos de calcário, chamados ‘raukar’, no mar Báltico, a nordeste de Gotland, a maior ilha da Suécia. Hoje em dia Fårö é mais conhecida como a Ilha de Bergman, não porque o famoso cineasta fosse seu proprietário, mas porque adquiriu propriedades, viveu e trabalhou na ilha por mais de 40 anos e foi onde rodou filmes como Através de um espelho; Persona; A hora do lobo; Vergonha; A paixão de Ana; Cenas de um casamento. Ali encontra-se o Centro Cultural Bergman, que proporciona ao turista fã do cineasta o Safári Bergman (passeio por locais de filmagem e pontos curiosos) e a Semana Bergman (com seminários, sessões de cinema, conferências), no final do mês de junho. Ou seja, atrações turísticas cinéfilas, em torno da obra e do grande diretor sueco, não faltam. Inclusive, uma das casas de Ingmar Bergman (1918-2007) é oferecida como residência de artista para autores em crise criativa e/ou em busca de inspiração, como é o caso dos protagonistas do drama romântico A Ilha de Bergman (Bergman Island, 2021), escrito e dirigido pela francesa Mia Hansen-Løve. 

“Bergman foi tão cruel em sua arte

quanto em sua vida.” 


Híbrido de ficção e documentário (mas longe do docudrama), A Ilha de Bergman é um provocante exercício de metacinema que explora as nuances do desejo e da reflexão no fazer cinematográfico, ao acompanhar a rotina de viagem e de desenvolvimento de roteiros de um casal de cineastas nova-iorquinos, Tony (Tim Roth) e Chris (Vicky Krieps). Enquanto o reconhecido diretor Tony participa de eventos da Semana Bergman, do Safári Bergman e escreve com facilidade o seu roteiro..., a insegura Chris, tomada pela melancolia, enfrenta uma crise de criatividade que só começa a ser vencida quando conhece o estudante de cinema Hampus (Hampus Nordenson) e decide traçar o seu próprio itinerário pela ilha bucólica, pesquisando apenas que lhe interessa. 

Mais tranquila, ela esboça algumas ideias para um filme, que se passa em Fårö, ao longo de três dias, e cujos protagonistas, Amy (Mia Wasikowska), uma jovem cineasta, e Joseph (Anders Danielsen Lie), seu ex-namorado, estão ali para prestigiar o casamento de uma amiga e, inevitavelmente, se recordam da relação amorosa que tiveram há algum tempo. Enquanto Chris discute a trama com Tony, esperando que ele a ajude resolver o final da história, o roteiro vai ganhando forma na imaginação do marido (e do espectador). Quanto ao epílogo, este será a chave que fechará as duas narrativas (envolvendo Chris e Amy) e arrematará uma terceira, num encadeamento irresistível e surpreendente em que as aparências (de personagens transitando entre os filmes) realmente enganam, principalmente no cinema. Bem, o termo “fim” também não é dos mais confiáveis... 

“A morte é apenas uma luz se apagando.” 


Uma vez na Ilha de Bergman e às voltas com um roteiro que acaba se dividindo em três e trata basicamente de relações humanas (familiares, conjugais, amorosas, sociais, culturais), a(s) história(s) contada(s) por Hansen-Løve acaba(m) resvalando na obra singular do mestre sueco..., principalmente a Cenas de Um Casamento (constantemente citada no enredo), num catártico contraponto nas “três” narrativas. Porém, ainda que invoque situações análogas em alguns pontos estruturais (notadamente nos diálogos), não parece ser o caso de uma releitura (fragmentada)..., ainda que pairem dúvidas. 

No murmurinho cinéfilo, acredita-se que a metaficção de Mia Hansen-Løve (que foi casada com o famoso cineasta francês Olivier Assayas) talvez seja menos ficção do que parece e que, nas entrelinhas, traria elementos da sua vida profissional e pessoal, tanto na composição do enredo quanto no desenvolvimento das personagens. Talvez por isso (?) que, a princípio, a ambiguidade (?) feminina, a dependência e/ou a necessidade da aprovação e/ou da conivência masculina aos projetos profissionais e/ou pessoais de Chris e Amy (alter egos de Mia?) soa bem estranha, já que, também no cinema, as mulheres estão conquistando com relevância o seu espaço. Depois, durante o processo de amadurecimento dos projetos das duas (ou três?) mulheres, aceita-se tais atitudes como catarse (autoral?). Supondo que, para se livrar de todas as aflições, inseguranças, medos femininos, só “exorcizando” os homens (soberanos) que (sublimados) não atendem às suas expectativas. Daí a impressão de uma marioneteira (Mia) manipulando uma marionete (Chris) que manipula outra marionete (Amy)..., na esperança de uma hora as cordas catárticas se romperem e libertá-las (de si mesmas), para que encontrem a independência profissional e pessoal em algum lugar fora da Ilha de Bergman (real e fictícia). Em algum lugar onde as obras impactantes de autores consagrados não fustiguem os (as) autores(as) iniciantes em busca da própria linguagem. 


Enfim, além do ótimo elenco esmiuçando o mirabolante roteiro e da bela fotografia de Denis Lenoir, enquadrando maravilhosamente as peculiaridades da convidativa Fårö, a diretora Mia Hansen-Løve ainda aproveita o itinerário e a (auto)reflexão de seus personagens cinéfilos pela ilha povoada de fantasmas peliculares bergmanianos, para anotar alguns dados biográficos (mais ou menos relevantes) sobre o cineasta, um indistinto homem/artista. Alguns dados são conhecidos e outros recebem comentários irônicos (meio que fora do contexto) da personagem Chris. Nesse ir e vir por uma ilha tão cheia de fatos e fantasias, não falta nem mesmo um “encontro” folclórico com moradores que ainda “cumprem” à risca as recomendações de Bergman sobre as informações que devem dar aos turistas. 

A Ilha de Bergman é um filme que pode fazer o fã de Ingmar Bergman querer revisitar a sua fascinante obra e o espectador leigo a conhecer e certamente se surpreender com o quanto o cinema passado pode fazer sombra no cinema presente. Ah, não confundir o instigante Bergman Island (2021), de Mia Hansen-Løve, com o interessante Bergman Island (2006), de Marie Nyreröd. Pois, entre o devaneio e a memória das águas do mar, nem toda onda é a responsável por esculpir um “raukar”. 

Produzido pela França, Bélgica, Alemanha, Suécia e México, A Ilha de Bergman, chega aos cinemas brasileiros em 24 de fevereiro de 2022, com distribuição da Pandora Filmes.

Trailer Aqui

 

NOTA: As considerações acima são pessoais e, portanto, podem não refletir a opinião geral dos espectadores e cinéfilos de carteirinha. 

Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros videodocumentários fiz em 1990. O primeiro curta-metragem (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba. 


segunda-feira, 29 de março de 2021

Crítica: A Despedida

 


A DESPEDIDA

por Joba Tridente

No universo artístico, conforme o tratamento recebido, a enfermidade, em geral, resulta em curiosa reflexão (sobre a fragilidade da vida) para o espectador saudável, e ou (até) a conformidade para o doente. Quanto mais grave a doença explorada, maiores os percalços do realizador da obra (cinematográfica, teatral, literária, plástica). Pois, dependo da posologia de sentimento, ela pode ter sucesso, ir pra encubação do amanhã ou ser totalmente ignorada até pelos hipocondríacos.

O cinema já falou de alcoolismo, surdez, cegueira, mudez, tabagismo, virose, depressão, psicopatia, câncer, Alzheimer, aids, autismo, esclerose... E também já expôs o drama de quem sofre de doença degenerativa e opta pela eutanásia (Amor; O Escafandro e a Borboleta; Mar Adentro; Menina de Ouro). Mas há sempre alguma variante, no glossário da medicina, a ser consultada. Não exatamente a variante da doença, mas a variante humana, a do doente atingido por uma enfermidade degenerativa e como ele se relaciona com a moléstia que aos poucos o deixa incapacitado, vegetando, apodrecendo numa cama e totalmente dependente de algum cuidador da família e ou não...


Em tempo de perdas humanas imensuráveis, ocasionadas pela pestilência do coronavírus, está chegando simultaneamente às salas de cinema e ao streaming uma história que, pela abordagem da eutanásia, há de emocionar e incomodar muita gente..., dos simpatizantes aos opositores: A Despedida. Dirigida pelo britânico Roger Michell (Notting Hill; Chá com as Damas), a narrativa acompanha os preparativos de Lily (Susan Sarandon) e de seu marido Paul (Sam Neill) para um grande final de semana em família. Lily, que sofre com a evolução da esclerose lateral amiotrófica e decidiu submeter-se a um suicídio assistido, espera se despedir da vida e da família em grande estilo. É a sua vontade, enquanto tem condições físicas e mentais de decisão, que espera ser respeitada por todos ao seu redor. Ela quer morrer em paz, se possível. Porém, suas filhas, a controladora Jennifer (Kate Winslet) - casada com Michael (Rainn Wilson) e mãe do adolescente Jonathan (Anson Boon), e a frágil Anna (Mia Wasikowska) - que mantém relação homoafetiva com Chris (Bex Taylor-Klaus), divergem sobre o desejo de eutanásia da mãe. Ou seja, como em toda via de comemoração, na vida ou na arte, o espectador há que se preparar para os indefectíveis atropelos de última hora: confissões avassaladoras, acusações fraternas, mágoas, mea-culpa etc. Quem também se junta ao grupo nesse momento de emoções conflitantes, e acaba prisioneira das discussões alheias, é Liz (Lindsay Duncan), a melhor amiga de Lily.


Cada cultura tem a sua forma de lidar com a morte. Algumas a veem como algo natural, e até comemoram a passagem de um ente querido, outras a escandalizam de tal forma que suas almas ficam penando por séculos. Quando se trata de suicídio e ou de eutanásia, então, a grita de religiosos e familiares egoístas é ensurdecedora. Bom senso e respeito aos mortos, nesta hora, nem pensar. O ódio daqueles que preferem ver um parente apodrecendo numa cama, gastando o que não tem com tratamento sem eficácia, em vez de morto, é maior que a lógica da decência. A discussão do tema, no filme em questão, é, digamos, mais civilizada.

A Despedida (Blackbird, 2019) é a versão melodramática anglo-americana (ao gosto hollywoodiano) para o premiado drama dinamarquês Stille Hjerte (Coração Mudo, 2014), do diretor Bille August (Pelle, o Conquistador; As Melhores Intenções)..., aproveitando, inclusive, com algumas discutíveis atualizações, o mesmo roteiro do também dinamarquês Christian Torpe. Quem assistiu ao Coração Mudo não ficará indiferente à esta (desnecessária) releitura, com suas idiossincrasias anglo-americanas contemporâneas. Pois, ainda que razoavelmente parecidas, há sempre algo na bela cenografia, nos ótimos diálogos, na história crível, nas escolhas da direção, a se comparar nas duas produções.

Em Coração Mudo, o drama frio, direto e praticamente sem trilha sonora, espreme-se pela casa aconchegante..., cujo clima de inquietação, que beira o claustrofóbico, relando em um e outro visitante, a faz parecer pequena para os convidados, sempre “amontoados” com suas dores e mágoas e a forçada cordialidade. Em A Despedida, o melodrama espalha-se pela imensa casa, embalado por trilha sonora chorosa, alcança todos os recantos de sua beleza gélida e individualiza os convidados egocentrados em seus traumas, como se parte da decoração, distanciando a cordialidade. Entre o conter e o ostentar, o melancólico perde espaço para o melodrama e a recente tendência cinematográfica (acrescentando nada ao enredo) assume as “novas” relações amorosas: sai o casal (Sanne/Dennis) e entra o par lésbico (Hoje em dia é chique ter uma lésbica na família!) Anna/Chris..., fazendo soar falsa a reação puritana ao álcool e ao fumo à mesa da última ceia anglo-americana. Deste modo, a impressão é a de que a (desnecessária) mexida de Christian Torpe, em seu próprio roteiro, tenha sido tão somente para tornar a trama mais palatável (adocicada) ao gosto americano, também alheio às legendas. Cortou aqui, acrescentou acolá, mas o importante é que não mudou a essência: o desejo de eutanásia de Lily e o acerto de contas familiares. O motivo que pode mudar o rumo dos acontecimentos, nas duas produções, não é dos mais críveis, mas acaba funcionando no arremate (na versão dinamarquesa o epílogo é mais interessante). Em um o suporte é a razão. No outro, a emoção. Em ambos, a preocupação em questionar o tema com ternura e humanidade..., e longe de qualquer resquício moralizante.


Enfim, A Despedida tem uma história tocante e, independente da oportuna discussão, certamente vai levar parte do público às lágrimas. O elenco é excelente e cada um tem seu tempo performático. A produção é irretocável, a direção correta e o assunto adulto desvela-se respeitosamente, de forma a manter a atenção e o senso crítico do espectador. Clichês à parte, embora tenha sequências tensas e até de confrontos (convencionais), não é um filme pesado ou sequer deprimente. Quanto ao título original Blackbird, não vi referência e ou sequer metáfora relacionada à vida e ou à morte. Seria interessante que obras com foco na eutanásia servissem de mola propulsora para que a sociedade (ainda) retrógada deixasse o egoísmo de lado e, pensando na dignidade, na dor do outro, discutisse o pertencimento do próprio corpo.

NOTA: As considerações acima são pessoais e, portanto, podem não refletir a opinião geral dos espectadores e cinéfilos de carteirinha.

*Estreia prevista para 31.03.2021, nas salas de cinema e no Now, iTunes, Google Play, Youtube Filmes, Vivo Play e Sky Play.

 

Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros videodocumentários fiz em 1990. O primeiro curta-metragem (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Crítica: A Colina Escarlate


O Castelo de Otranto (1764), de Horace Walpole (1717-1797) é tido como precursor da literatura gótica, que tem em seu panteão nomes como Ann Radcliffe (1764-1823), Charles Maturin (1782-1824), Mary Shelley (1797-1851), Nathaniel Hawthorne (1804-1864), Edgar Allan Poe (1809-1849), Bram Stolker (1847-1912)... As principais características do “romance” gótico são: enredo melodramático, cenário sombrio, segredos (de família), maldições, manuscritos, terror (noturno), demônios, fantasmas (se arrastando pelas fendas).


O diretor Guilhermo del Toro traduz a essência do gênero no seu romântico A Colina Escarlate (Crimson Peak, 2015), uma fantasia à beira do melodrama, onde o grande destaque é uma velha mansão com seus “segredos” escabrosos ruindo no topo de uma colina sangrenta. A história “fantasmagórica” começa em Buffalo, EUA, na virada do século 19, onde a jovem adulta pré-feminista Edith Cushing (Mia Wasikowska), aspirante à escritora, enfrenta o preconceito de editores e de “amigos” por causa de seus manuscritos nada românticos e recheados de “fantasmas-metáforas”. Edith, que não abre mão do estilo gótico, prefere ser comparada a Mary Shelley do que a Jane Austen. Com o apoio do pai, o empresário Carter Cushing (Jim Beaver), ela pretende continuar escrevendo até conquistar um lugar num mercado dominado por homens. Na sua vida não há espaço para o amor. Escrever é a única coisa que lhe interessa.

Ou era..., até conhecer o galanteador baronete inglês Thomas Sharpe (Tom Hiddleston), que apareceu por ali em busca de recursos financeiros para um projeto audacioso. Loucamente apaixonada (à primeira vista), após um incidente com seu pai, a garota (audaciosa que queria ser escritora) se casa e vai morar com o marido e a irmã dele, Lucille (Jessica Chastain), na lúgubre Allerdale Hall, no alto da Colina Escarlate, num lugar qualquer da Inglaterra. Ah (isso não é spoiler!), esqueci de dizer o que del Toro não faz questão de esconder, Edith conversa com fantasmas e um deles, por duas vezes, a preveniu dos “perigos” da Colina Escarlate. Mas, sabe como é, aviso de fantasma é fugaz..., evapora rapidinho.


Escrito por Guilhermo del Toro e Matthew Robbins, o roteiro é meio rasteiro e se ocupa mais em homenagear os filmes “B” (ingleses) e as antigas hqs de terror (saudades da genial Kripta!) do que em contar uma história realmente amedrontadora. No primeiro ato tem duas sequências fantasmagóricas mais (ou menos) “assustadoras”, mas, no segundo, é apenas rotina despertada pelo “buuuuu!” do ruído sonoro. O clima de suspense, que conduz a narrativa na Inglaterra, desperta interesse mais pelo passeio nas entranhas da impressionante e decadente mansão dos “misteriosos” irmãos Sharpe do que pela visita dos fantasmas carentes que brotam sanguinolentos em qualquer lugar por ali.

Intencional ou não, o enredo de A Colina Escarlate nem é tão enredado (no horror) como promete. Muito menos é preciso ser lá muito esperto (se até eu consegui!) para desvendar os “segredos” e ou prever as intenções (os passos, os atos, os gestos) dos irmãos maquiavélicos em sua (previsível) senda. O que não é antecipado num diálogo aparentemente sem importância, será no detalhamento de uma imagem (ao redor). A trama mal costurada deixa muitos pontos (importantes) sem nó. Entre as linhas soltas (sem nexo!) a que mais incomoda é a mudança de personalidade (do vinho para o suco artificial) de Edith. Infelizmente não dá para citar as outras sem entregar de vez toda a “trama” que, como já disse, é nada complexa.
  

Todavia (adoro esta conjunção!), deixando de lado a história pouco inspirada do diretor e roteirista dos geniais A Espinha do Diabo (2001) e Labirinto do Fauno (2006), entre outros, há que se louvar a arquitetura estonteante da casa dos irmãos Sharpe, engenhosamente construída (no estúdio), que rouba (merecidamente) todas as cenas. Cada compartimento é um assombro (ôps!), uma pintura surreal valorizada ainda mais pela fotografia de Dan Laustsen, que não economiza nos enquadramentos. Assim como em Peter Pan, de Joe Wright, uma vez que a narrativa (bem intencionada?) perde o rumo, o que acaba valendo (e muito!) é o visual esplendoroso. As cenas das borboletas, nos EUA, e das mariposas, na Inglaterra, são puro deslumbre. Você pode até não gostar da história, mas é impossível ficar indiferente à cenografia, ao figurino e à fotografia.


Quando um filme chama a atenção mais pelos detalhes técnicos que pelo roteiro raso, e o susto é provocado mais pelo alto volume do ruído da trilha que pela sugestão da imagem espectral, me parece que alguma coisa está fora de ordem. Será? 

Enfim, considerando que o título gótico remete à melancolia de Edgar Allan Poe (de A Queda da Casa de Usher, 1839); que a clara homenagem ao soturno Peter Cushing e a Sherlock Holmes é singela; que mesmo não sendo páreo para a mansão em ruínas o elenco é excelente; que talvez o conteúdo pareça fraco porque é ofuscado pelo extraordinário visual; que a melhor sequência com humanos é a de Lucille alimentando Edith acamada (arrepiante!)..., se gosta da obra de Guilhermo del Toro, acho que vale dar um boa olhadela!

quinta-feira, 5 de março de 2015

Crítica: Mapas para as Estrelas


O tempo passa e Hollywood continua servindo, às plateias afoitas, aquele prato fundo especial, transbordando histórias curiosas e “impensáveis” da sua diversificada comunidade estelar. Feito escaldante feijoada, não faltam ingredientes inusitados e temperos picantes que jamais desandam a receita que nem sempre cai bem no estômago do espectador distraído pelo odor. Como, por exemplo, o catártico Mapas para as Estrelas (Maps to the Stars, 2014) de David Cronenberg.

Em se tratando de Cronenberg, é redundante falar em estranhamento narrativo. Escrito por Bruce Wagner, o drama satírico (ou seria caricatura perversa?) traz uma leitura perturbadora e ousada de velhas questões hollywoodianas do gênero “a vida como ela é (ou imagina-se que seja) em Los Angeles e Beverly Hills”: preço do sucesso; esperança do anônimo; celebridades passadas, presentes e futuras; fantasmas (reais e imaginários); agentes cínicos; inveja do umbigo alheio; vingança (calculada ou improvisada); droga, sexo e imolação etc. Se bem que, quando se fala de show business, o assunto é polêmico em qualquer lugar do mundo e não apenas na “privilegiada” Hollywood.


Na trama, por vezes indigesta, encontramos ao redor da mesa das vaidades, a veterana atriz Havana Segrand (Julianne Moore), disposta a qualquer sacrífico (mesmo!) para voltar aos holofotes com o remake de Stolen Waters, cujo original foi protagonizado por sua mãe Clarice Taggart (Sarah Gadon), que morreu jovem, mas que ainda a assombra, intensificando a sua neurose. Agatha (Mia Wasikowska) é sua dissimulada assistente, uma jovem cicatrizada no corpo e na alma que chega de longe para cumprir à risca um roteiro devastador que vem escrevendo há uma década.  Nessa mesa das ilusões perdidas, os outros espaços são ocupados pelo problemático ator juvenil Benjie Weiss (Evan Bird), que, após a reabilitação, espera reencontrar o sucesso na sua volta à tv, onde já brilhou com a série Bad Babysitter..., e pelos seus pais totalmente disfuncionais: Stafford Weiss (John Cusack), um psicoterapeuta e autor de livros de autoajuda, e Cristina Weiss (Olivia Williams), que administra a carreira do pretensioso garoto. Elenco excelente, incluindo Robert Pattinson, na pele de um motorista de celebridades, Jerome, que também sonha com a fama no cinema e tem a fala mais irônica e oportuna sobre a carreira de ator e roteirista.


A leitura do hipnótico Mapas para as Estrelas varia conforme o interesse do espectador, que pode simplesmente entreter-se com a história de suspense (que também evoca a violência familiar e doméstica) ou mergulhar nas fascinantes metáforas (fogo e água, pais e filhos, fantasmas-vivos e vivos-fantasmas) sugeridas e refletir sobre os percalços da “glamorosa” vida de artista na cidade dos sonhos e pesadelos cinematográficos.

O “mapa” do título vai além de mero instrumento de cicerone, já que serve (muito mais) como veículo de (auto)conhecimento das estrelas e do estrelato. Assim como a citação intermitente do belíssimo poema Liberdade (Liberté), de Paul Élouard, escrito em 1942, que soa como um pedido de socorro que não encontra eco. Leia o poema Liberdade, na íntegra, em tradução de Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira no (link) Falas ao Acaso.


O jogo de palavra “(auto)conhecimento” é proposital. Pois, no universo de faz de conta, onde até as biografias são fictícias, assim como a ampulheta sempre retorna a zero-areia, a seu tempo, carrascos e vítimas devoram-se e regurgitam-se (continuamente) na arrogância do “Eu Sou”!. A vida não é filme onde entre o “gravando!” e o “corta!” há um vazio a ser preenchido na ilha de edição. Num enredo em que todos estão continuamente representando um papel (de sedução), um “mapa”, ainda que só faça sentido no segundo ato, vem a calhar. Já no mundo real, o ‘mapa” para se conhecer o melhor ângulo, o melhor diálogo, o melhor figurino..., na iminência de uma tragédia (profissional ou doméstica), o melhor roteiro é o divã do psicanalista.


Enfim, considerando que um cinéfilo, conhecedor da cinematografia de David Cronenberg, sabe o que esperar do esquisito, tenso e amoral Mapas para as Estrelas; que o espectador de primeiro filme, se vencer o blefe do primeiro ato, pode se surpreender e se horrorizar (?!) com os vencedores de um jogo repulsivo; que este é um filme demente, irônico, ardiloso, de humor negro (mas não hilário!), capaz de embrulhar (?) os estômagos mais sensíveis com uma história que fica martelando na sua cabeça por um bom tempo após os créditos finais..., se é fã, arrisque e considere por conta própria.

domingo, 10 de agosto de 2014

Crítica: Amantes Eternos


Desde o Nosferatu (1922), de Murnau, muitos vampiros passaram pelas telas de cinema. A variada fauna de vampiros já provocou tanto calafrios quanto risos. Os últimos que nos chegam, com o selo Jim Jarmusch de qualidade, são intelectuais que preferem a tranquilidade do lar sombrio, ao burburinho de uma vida noctívaga. Em vez do risco de uma jugular infectada, a garantia de um puríssimo sangue “O” hospitalar.

Em Amantes Eternos (Only Lovers Left Alive, 2013), Adam (Tom Hiddleston) é um vampiro músico apaixonado por instrumentos de cordas raros e discos de vinil. Vivendo em uma Detroit (EUA) em ruínas, conta com a ajuda do simpático humano Ian (Anton Yelchin) para conseguir suas preciosidades musicais. A sua mulher Eve (Tilda Swinton), dona de invejável biblioteca, mora em Tanger (Marrocos). Ali compartilha sangue e filosofia com o dramaturgo Christopher Marlowe (John Hurt), aquele que alguns acreditam ser o autor dos famosos dramas de Shakespeare. O músico cool e a leitora voraz vivem uma relação mais espiritual que física. No entanto, sonhos preocupantes com Ava (Mia Wasikowska), a irresponsável irmã de Eve, faz com que o erudito casal se reencontre para decifrar suas aflições.


Amantes Eternos surpreende por ser um drama romântico, quase trágico, sobre vampiros. Ele nada tem de terror. O que pode frustrar quem espera ver sangueira jorrando, corpos despedaçados, morcegos ao entardecer etc, recursos cênicos tradicionais em filmes populares do gênero. Felizmente, Jarmusch não é tradicional e muito menos faz o gênero cinema popular que se degusta com combo e smartphone. O seu público é o espectador pensante que espera se deliciar com uma história, ainda que gótica, mais reflexiva. E reflexão, entremeada de nonsense e humor negro (óbvio!), é o que não falta a estes vampiros existencialistas que pelos séculos e séculos acompanharam a evolução e a derrocada social, econômica, cultural, científica dos humanos (ou zumbis, como se referem aos homens). Basta um requintado cálice de sangue entre os dedos para que os dândis soltem a língua (venenosa?) com ironias sobre grandes nomes da literatura, teatro, música... Quando estão enfastiados de revisitar o passado, destilam sobre o presente. E vão (sobre)vivendo em meio ao vintage cult e o descontrole (autoral) tecnológico.


Após a sessão me peguei pensando numa possível sintonia entre Estranhos no Paraíso (1982) e Amantes Eternos (2013), por um pequeno detalhe. Lá atrás, Eva (Eszter Balint) chegava da Hungria, para “agitar” a vida do primo Willie (John Laurie) e seu amigo Eddie (Richard Edson). Agora é Ava (ou seria Lilith?) quem chega de Los Angeles para “agitar” o Paraíso de Adam (Adão) e Eve (Eva) e, por tabela, provocar o “Anjo da Guarda” Ian. Achei curiosa e divertida e essa analogia (e ruptura) sobre o Paraíso (Perdido, de John Milton?), ou o que nos parece ser um Paraíso até que a “tentação” maliciosamente o enreda. O que distingue ou sobrepõe a Eva (de ontem) e a Ava (de hoje) eu sei. Porém, talvez eu esteja viajando num sangue contaminado. Quem quiser tirar a dúvida, veja os dois filmes e conclua por conta própria.

Não creio que haja um diretor de cinema mais underground que Jim Jarmusch. Em uma antiga fan page (abandonada em 2011) é possível encontrar em Minhas Regras de Ouro, e ou atribuídas a ele, um conceito interessante sobre autenticidade e originalidade. À margem de Hollywood, seu território é palco de personagens melancólicos e ou entediados com os rumos do mundo. Não há como ficar indiferente à sua constância ou preferência pelos marginalizados que vivem por teimosia vagando pelo ermo, pelo submundo americano, ou alçando voos baixos por outras paragens igualmente soturnas.


Tratados com apaixonada relevância, seus marginais são sempre convincentes e, por isso, tão arrebatadores quanto a música que veste particularmente cada um. Música que foge do estereótipo “trilha sonora” e envolve até a plateia mais sisuda..., se é que público sisudo se arrisca a ver cinema alternativo.  Jarmusch e música são tão indissociáveis que em Amantes Eternos ele comparece com o seu trio (indie) Sqürl em números e intervenções arrepiantes..., principalmente para quem gosta do bom e velho rock. Com certeza esta é umas das trilhas que estará fácil entre as melhores de 2014.

Enfim, considerando a excelência do elenco; a provocação e inteligência do roteiro que dribla todos os clichês; a trilha irretocável que ilumina e aconchega a sombria história; a notável fotografia de Yorick Le Saux; um Jarmusch ainda surpreendente..., reserve já o seu ingresso.

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