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quarta-feira, 12 de junho de 2019

Crítica: MIB: Homens de Preto Internacional


MIB: Homens de Preto Internacional
por Joba tridente

Há 22 anos, MIB: Homens de Preto, um excelente filme de ficção científica, com seu humor pastelão e negro e muita bizarrice, dirigido por Barry Sonnenfeld e estrelado por Tommy Lee Jones e Will Smith causou sensação nos cinemas. Baseado na HQs Men in Black (1991), de Lowell Cunningham, a produção que custou meros 90 milhões, arrecadou perto de 600 milhões de dólares. Em 2002 chegou aos cinemas o menos impactante Homens de Preto 2 e, em 2012, fechando admiravelmente a trilogia, o divertido Homens de Preto 3, também protagonizados por Lee Jones e Smith e dirigidos por Sonnenfeld.

Em tempos de recomeço de franquias milionárias, ou de apresentação independente de episódio perdido, eis que, sete anos depois, MIB está de volta, recauchutado e sugerindo, nas entrelinhas, uma mudança de “comportamento (ou apego) machista” à sigla titular que, caso retorne em novos capítulos (internacionais?),  não causará surpresa se virar WIB: Mulheres de Preto, protagonizado por dupla feminina, tal o empoderamento e a presença delas nas batalhas contra alienígenas mal intencionados. Ou MIB: Men in Black & WIB: Women in Black..., já que o terno preto básico cai bem em um ou em outro gênero! Uma conversa também ouvida no entrecena de X-Men Fênix Negra.


Uma vez que (por enquanto) os realizadores de MIB: Homens de Preto Internacional (Men in Black International, 2019) acreditam que em argumento vitorioso não se deve mexer muito, a variação no roteiro (bem) juvenil de Matt Holloway e Art Marcum é pequena. Daí, o que pode ser novidade para alguns espectadores, pode parecer meio repetitivo para outros. Porém, nada aborrecido! Estão em cena a tradicional dupla improvável, formada pelo experiente agente inglês H (Chris Hemsworth) e a dedicada estagiária norte-americana M (Tessa Thompson)..., que teve contato com extraterrestre quando criança e se considera preparadíssima para ser agente MIB..., a ação tresloucada, as armas estranhas, os alienígenas fofos (as) ou bizarros (as) e, é claro, o bom humor (leve) e meio pastelão, com umas gags bem legais. A melhor delas faz referências ao (ex-) Thor de Hemsworth. Aliás, os dois protagonistas já dão um bom trocadilho com o tema...

Assim como os roteiristas, o diretor F. Gary Gray evita invencionices e opta por uma direção sem sobressaltos..., levando em conta os absurdos da história dividida entre Londres, onde o agente T (Liam Neeson) é o chefe da Agência MIB, Marrakech e Paris. Mais uma vez o pivô do conflito entre humanos e imigrantes extraterrestres é uma joia preciosa, tão bela e apocalíptica quanto o Colar de Órion (do MIB, 1991) e a Luz de Zartha (do MIB 2, 2002). Ah, essa mania alienígena de miniaturizar energia cósmica! O porém (há sempre um!) é que, além de cuidar para que a tal joia interplanetária não caia (clichê: é claro que vai cair!) em mão erradas, H e M também precisam descobrir se há ou não um espião traíra entre os agentes MIB, por trás da morte misteriosa de um importante alien e que pode colocar em risco (claro!) o equilíbrio do universo e a existência da Terra! E por falar em Paris, as questões relacionadas à Torre Eiffel (onde se dará o desfecho da missão policial e ou espacial) e do seu idealizador Gustave Eiffel, me lembrou uma fantástica sequência do interessante Tomorrowland - Um Lugar Onde Nada É Impossível (2015).


Enfim, considerando a narrativa linear e bem (re)costurada; a engenhosa arte dos aliens graciosos e ou repulsivos; a qualidade do CGI dos expressivos imigrantes do universo e além e dos equipamentos bélicos e ou de locomoção; o ótimo elenco, que inclui ainda Emma Thompson, que retorna na pele da agente O, Rafe Spal, o agente C e Rebecca Ferguson, a alien Rizza; o bom ritmo; as sequências malucas e a ação eletrizante quase contínua..., embora tenha deixado de lado as paródias e os gracejos hollywoodiano, MIB: Homens de Preto Internacional é um agradável e esquecível passatempo juvenil que te entretêm por duas horas. Quem assistiu aos trailers não vai ter muita surpresa.


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta-metragem (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

terça-feira, 19 de abril de 2016

Crítica: O Caçador e a Rainha do Gelo


Quem gosta de literatura oral sabe que os contos populares reunidos em publicações sofrem alterações (independente ao quem conta um conto aumenta um ponto) para atender (principalmente) aos interesses de mercado. Já era assim na época de Charles Perrault (1628-1703) e de Jacob Grimm (1785-1863) e Wilhelm Grimm (1786-1859), cujas histórias em comum (anteriormente “destinadas” ao leitor e ou ouvinte adulto) têm lá as suas diferenças. Onde Perrault era trágico, os Grimm eram românticos ou divertidos. Aos poucos o mundo infantil nos livros foi ganhando cor, fantasia, magia, encantamento. Todavia, com as novas mídias contemporâneas, provavelmente muitas narrativas adaptadas do passado serão cada vez mais irreconhecíveis no futuro. Este parágrafo é o mesmo que escrevi na abertura da resenha crítica do filme Branca de Neve e o Caçador (2012). Por que ele foi replicado? Continue lendo!

No meu tempo de criança havia o Era Uma Vez e ponto. Hoje, se na literatura há estudos psicológicos dos personagens fantásticos e o resgate dos Contos Populares originários das Narrativas Orais, no esfomeado cinema (principalmente) hollywoodiano, há também o Era Uma Vez Antes e o Era Uma Vez Depois do Era Uma Vez tradicional. Na verdade, há Era Uma Vez para todos os gostos (inclusive os duvidosos), com releituras e misturas de Contos de Fadas, como: A Garota da Capa Vermelha (2011), João e Maria: Caçadores de Bruxas (2013), Jack - O Caçador de Gigantes (2013), Caminhos da Floresta (2014)..., entre outros. Todos, é claro, dispostos a desvelar o passado e ou o futuro dos famosos personagens literários. Todavia digitalizada, como nem todo novo autor ou roteirista tem a criatividade de um Grimm ou Perrault..., dá-lhe tralha.


Baseado em personagens criados por Evan Daugherty, para a sua “adaptação” de Branca de Neve e o Caçador, e no roteiro de Evan Spiliotopoulos e Graig Mazin, O Caçador e a Rainha do Gelo, dirigido por Cedric Nicolas-Troyan, é um Conto de Fadas do Contador de História doido. A trama acéfala, ao mesmo tempo prólogo e epílogo “explicativos” da origem do Caçador (Chris Hemsworth) e da psicopatia das irmãs rainhas Ravenna (Charlize Theron), a bela serial killer madrasta da Branca de Neve, e a genocida Freya (Emily Blunt), faz a gente pensar que a narrativa se passa num reino (malévolo?) paralelo. Vou tentar esclarecer no próximo parágrafo.

É mais ou menos assim: metade da história O Caçador e a Rainha do Gelo (The Huntsman: Winter’s War, 2016) ocorre no passado e metade no futuro dos fatos presentes em Branca de Neve e o Caçador. Tipo: no encantador reino de Branca de Neve, vivem a usurpadora e assassina Rainha Ravena (Theron) e sua ingênua e romântica e bondosa irmã Rainha Freya (Blunt)... - E a Branca de Neve? Já falo da Branca de Neve! Então, uma tragédia (anunciada?) suficiente para despertar o lado maligno de Freya (como deseja Ravena) acontece e a torna frígida. Porém, como a nova malvada não quer ser pedra de gelo sozinha, decide congelar o mundo (e vai comer o quê?) e “brincar” de genocídio de adultos e sequestro de crianças, que serão treinadas para matar e jamais amar e ou transar, digo, praticar sexo reprodutivo. Como é que nascem mais crianças, pra tomar o lugar dos guerreiros mortos, eu não sei! Deve ser geração espontânea! - E a Branca de Neve? Daqui a pouco falo da Branca de Neve! Ah, quer saber, vou falar é já! A Branca de Neve não é importante nessa história e portanto só vai aparecer, por alguns segundos, ajoelhada e de costas, no terceiro ato... Tá, eu sei que um monte coisas que disse é spoiler..., mas isso também não tem a menor importância.


Agora, continuando com a tramoia, digo trama, adivinhe quem está entre as primeiras crianças sequestradas? Exatamente! O menino Eric, o futuro caçador, e a menina Sara... - Quem é Sara? A Sara, quando crescer (e se tornar a Jessica Chastain) vai ser guerreira e fazer par romântico com Eric e por causa desse amor proibido pela bruxa frígida Freya serão punidos e então Eric vai ganhar o mundo e se tornar O Caçador e salvar a Branca de Neve no filme anterior e voltar para O Caçador e a Rainha de Gelo para ajudar o ex-arqueiro promovido a Príncipe William (Sam Clafin), marido (?) da Branca de Neve (que só aparece de costas por alguns segundos), a encontrar o diabólico Espelho Mágico que desapareceu do Castelo etc etc etc... - É só isso?


Bem, no primeiro ato, o espectador é blindado, digo, brindado com uma enfadonha sequência de matança (praticamente) sem sangue e sem fim, sequestros, treinamento e a mudança de personalidade das crianças/jovens (já visto em trocentos filmes sobre distopia!). No segundo ato, na viagem pelo Reino da Fantasia (repleto de graciosos bichinhos fofinhos figurantes), para encontrar o Espelho Mágico, o Caçador vai contar com a ajuda do anão Nion (Nick Frost), que saiu diretamente do filme Branca de Neve e o Caçador, e do novo anão Gryff (Rob Brydon). O Deadpool faria uma piada sobre os (apenas?) dois anões..., mas eu não ouso! No terceiro ato há o tão (?) esperado epílogo da redenção. É isso! - Como é isso? - Não vai dizer mais nada? Não tem mais nada a ser dito é só isso: duas rainhas psicopatas, dois guerreiros românticos, dois anões machistas e um espelho perverso em pé de guerra. Use a sua imaginação pra juntar essas sete informações num filme fantasia infantilóide de ação e aventura! - Mas... 

Ok! Considerando alguns bons efeitos e elenco de atores esforçados; belo figurino; e, pensando melhor, com uma trilha sonora inconvenientemente horrorosa (pra variar), argumento e roteiro sem pé nem cabeça, direção claudicante..., cá pra nós, sinceramente, esta é uma experiência, digamos, tresloucada. Se você não é um espectador exigente e só quer mesmo passar o tempo se empanturrando de pipoca e refri..., pode até gostar.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Crítica: No Coração do Mar


Até chegar aos cinemas, a história revista do gigantesco cachalote (26 metros), batizado de Moby Dick (1851), por Herman Melville (1819-1891), tem uma rota curiosa. O primeiro relato desta fascinante e sinistra “aventura”, vivida pelos marinheiros do baleeiro Essex, em 20 de novembro 1820, está no livro Narrative of the Most Extraordinary and Distressing Shipwreck of the Whale-Ship Essex, do primeiro imediato Owen Chase (1797-1869), publicado em 1821 e que serviu de inspiração à Melville. Outro tripulante do Essex, Thomas Gibson Nickerson (1805-1883), que aos 14 anos servia como grumete no baleeiro, a pedido do insistente escritor Leon Lewis, escreveu, em 1876, também as suas memórias do trágico acontecimento..., porém, os seus originais ficaram perdidos até 1960 e, após autenticação em 1980, ganharam uma versão resumida, com o título The Loss of the Ship "Essex" Sunk by a Whale and the Ordeal of the Crew in Open Boats, publicada pela Associação Histórica de Nantucket, em 1984, e inspirou In the Heart of the Sea (2000), de Nathaniel Philbrick..., que, por sua vez, é a base do filme homônimo dirigido por Ron Howard.


No Coração do Mar (In the Heart of the Sea, 2015) é um fascinante épico de ação e aventura marítima que reconstitui (em estilo documental) a grande tragédia do baleeiro Essex que, abalroado por uma gigantesca baleia cachalote, em novembro de 1820 naufragou e deixou 21 homens, em três barcos, à deriva no mar, de onde, ao final de 94 dias das mais terríveis provações, incluindo canibalismo, só 8 foram resgatados vivos.

A partir do roteiro compacto de Charles Levitt, a narrativa acompanha o doloroso relato do velho marinheiro Tom Nickerson (Brendan Gleeson) a Herman Melville (Ben Whishaw). Nickerson era um adolescente (Tom Holland) cheio de sonhos, quando embarcou para a sua primeira viagem no Essex, cuja tripulação era comandada pelo inexperiente e orgulhoso capitão George Pollard (Benjamin Walker), que se sentia desconfortável diante da segurança e conhecimento do imediato Owen Chase (Chris Hemsworth), respeitado pelos marinheiros. O que o garoto Tom Nickerson testemunhou nessa tumultuada e fatídica viagem, cheia de desavenças e principalmente horror, após o ataque da baleia, se tornaria um pesadelo que o atormentaria por toda a sua vida.


Com produção de encher os olhos, No Coração do Mar seduz o espectador não apenas por trazer um ponto de vista mais visceral e incômodo à história (também de crueldade) contada por Melville, em Moby Dick, mas também pela grandiosidade da produção rica em efeitos especiais que dão maior veracidade à narrativa. O enredo acerta ao privilegiar apenas o essencial (isso está virando tendência em Hollywood!) do livro de Nathaniel Philbrick: o drama (que não é pouca coisa) da tripulação do Essex, deixando meio de lado as referências à economia baleeira que movimentava o cotidiano do povoado de Nantucket, de onde saíram. Assim, evita as sempre descartáveis histórias paralelas de comida para bagre que, no fundo, não servem nem de isca para moreia.

A direção Ron Howard é admirável. A trama tem excelente fluência..., começa leve, num clima romântico, e antes que se perceba o tom já é de aventura e conforme o vento sopra as velas, a ação ganha o mar até o movimento das águas trazer a tragédia jamais prevista e arrebatar o coração de cada um à deriva sob o olhar (justiceiro?) da cachalote. Nem mesmo as paradas (técnicas) para reabastecimento de informações (flashback) na entrevista de Nickerson a Melville faz o drama perder o ritmo e a intensidade. Na verdade lhe injeta mais ar, já que é esta conversa tensa e fragmentada que conduz a envolvente história (sem a necessidade de insuportável narrador/off) e ao final justifica a versão sombria e quase fictícia de Herman Melville em Moby Dick.


Enfim, considerando que a profundidade do drama nos faz refletir sobre os valores morais do ser humano diante de tragédias e sobre o instinto de sobrevivência das espécies; que Hovard explora todas as nuances do ótimo roteiro, sem jamais cair na pieguice ou se tornar refém do clichê fácil do susto, optando por sugerir e não explicitar algumas situações incômodas; que o carismático e equilibrado elenco navega muito bem em águas turvas; que as cenas com a baleia cachalote impressionam pelo realismo; que o 3D de profundidade é bom; que a edição ágil de Mike Hill impressiona e a fotografia de Anthony Don Mantle  (alheia aos efeitos especiais?) é primorosa e em algumas cenas lembra grandes pinturas a óleo..., acredito que se você gostou das versões cinematográficas de Moby Dick, também vai gostar deste outro lado da história, onde o maior protagonista é o homem e suas mazelas.

Não sei se No Coração do Mar vai se tornar um clássico ou um mero número na coleção de filmes do gênero, mas, por enquanto, é um belo espetáculo em alto mar e terra firme!

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Crítica: Thor - O Mundo Sombrio


O embate entre luz e trevas parece não ter fim na mitologia do entretenimento ou vice-versa. No mundo da ficção globalizada (religiosa ou pagã) há sempre alguém querendo ser dono da eletricidade e outro louco pra cortar a fiação. Heróis da luz e vilões da escuridão povoam a imaginação de adultos e crianças nas mais diversas manifestações culturais. Quando se trata de histórias em quadrinhos, então, é um esconde-esconde sem fim. Pegando carona na meada do apagão, chega aos cinemas Thor - O Mundo Sombrio.

A história se passa logo após a pancadaria desenfreada em Os Vigadores, quando Thor (Chris Hemsworth) retorna a Asgard, levando o prisioneiro Loki (Tom Hiddleston), e parte para novas batalhas na pacificação dos Nove Reinos. Mal a ordem é restabelecida e eis que surge das profundezas o pesadelo asgardiano: Malekith (Christopher Eccleston). O maldito elfo negro, derrotado por Bor, avô de Thor, acorda para o seu maior ato de vingança universal: escuridão eterna para todos! O pivô inocente útil, para que a trama se cumpra, é Jane Foster (Natalie Portman), a namorada do herói.


Filme-hq de fantasia, Thor - O mundo Sombrio (Thor - The Dark World, EUA, 2013), dirigido por Alan Taylor, mescla muito bem ação, aventura, drama, imaginação e (entre uma referência bíblica e outra) bom humor. Despretensioso (até demais) cumpre o que promete: diversão. Ao trocar acertadamente a base terráquea, (geralmente) em Nova York por Londres (Greenwich), muda, além do ritmo, o nível destrutivo das lutas. Na Inglaterra a destruição urbana é mínima, se comparada à dos seus (heroicos) concorrentes anteriores em solo norte-americano. Mas não menos intensa. Ah, o irônico humor inglês é muito melhor que o pastelão escatológico estadunidense.

Thor - O Mundo Sombrio tem excelente produção. Os cenários, com riqueza de detalhes, são extraordinários e as aeronaves inspiradíssimas. O elenco continua afinado, o que não é uma árdua tarefa, com Hiddleston roubando cena a cena. Duas emocionantes sequências, envolvendo a Rainha Frigga (Rene Russo), merecem destaque pela perfeita composição de elementos dramáticos e técnicos: a perturbadora visita a Loki, na prisão, e o deslumbrante funeral dos guerreiros asgardianos. É o que fica na memória depois de todo o caos.

Originalidade pode não ser o forte do argumento que malha o trevoso ferro frio, mas o roteiro sopra umas brasas da forja e as fagulhas que iluminam história e personagens, fazem de Thor - O Mundo Sombrio, um excelente filme-hq, mesmo com escorregadas, uma das melhores adaptações do gênero. Não acho que deva ser comparado ao ótimo shakespeariano Thor (2011), dirigido por Kenneth Branagh, porque o palco é outro. Agora a lenda cabe mais aos Céus do que à Terra que, como sempre, é um planeta pairando no meio do caminho de algum vilão intergaláctico sem planeta e ou (pior!) chegado numa escuridão.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Crítica: Rush - no limite da emoção


O cenário esportivo é o ideal para fomentar rivalidades reais e ou midiáticas. Conforme o valor (patriótico, monetário, pessoal) em disputa, a animosidade entre os competidores ganha proporções absurdas. Lauda e Hunt, Senna e Prost..., a Formula 1 está repleta de grandes duelos e de histórias emocionantes como, por exemplo, a do campeão póstumo Jochen Rindt, que morreu durante a temporada de 1970, correndo pela Lotus.

Rush, no limite da emoção (Rush, 2013), produção europeia dirigida por Ron Howard, traz para o cinema algumas das mais fascinantes páginas da crônica esportiva da Fórmula 1, dos anos 1970. Em cena: o metódico austríaco Niki Lauda e o desregrado britânico James Hunt (1947 - 1993)..., ambos em busca da corrida perfeita e, é claro, do pódio. Lauda (Daniel Brühl) e Hunt (Chris Hemsworth) deixaram para trás a tradição das suas famílias para dar rodas ao próprio sonho: competir (arriscar a vida?) em pistas de automobilismo mundo afora. Campeões que sabiam a hora certa de trocarem farpas e ou afagos. Dizem que há controvérsia sobre o relacionamento inamistoso deles..., mas como se diz: quando a lenda é maior, imprime-se a lenda!

Após breve introdução sobre o início de carreira, família, encontro e desavenças entre os dois esportistas, o excelente roteirista Peter Morgan centra foco na fatídica temporada de 1976, ano em que o líder Niki Lauda sofreu grave acidente em Nurburgring. Assim como fala de pilotos e suas regras (com e sem limites) que podem ser o diferencial na vitória ou na derrota, garantindo adrenalina ao espetáculo do grande circo da Formula 1, também desvela o curioso universo ao seu redor. Rush faz um “raio x” não tão intenso quanto o documentário Senna (2010), de Asif Kapadia, mas igualmente curioso, em uma arena que abrigava tanto a exposição festiva de Hunt (cerveja, cigarro e mulheres) quanto a introspeção de Lauda (caseiro, disciplinado, quase romântico).


Filmado na Inglaterra, Alemanha e Áustria, Rush não trata de um eventual acerto de contas do tricampeão Niki Lauda (1975, 1977, 1984) com o passado, mas da garra de dois grandes pilotos que (se) desafiaram (e as) intempéries para conquistar preciosos pontos e campeonatos, pelas vias do (simples) prazer de Hunt e ou da (forte) determinação de Lauda. Instantes de um 1976 de ânimos acirrados e que nem mesmo os percalços das curvas em circuitos ultrapassados os fizeram desistir, apesar de deixar marcas no corpo e no caráter de ambos. Vale lembrar que Rush tampouco é uma história de piloto bonzinho versus piloto mauzinho, também porque é impossível saber quem é quem na pista.

Rush tem uma produção de cair o queixo, não faltam nem as máquinas originais: Ferrari 312T2, de Niki Lauda, e McLaren M23, de James Hunt, conduzidas pelos protagonistas. A fotografia de Anthony Dod Mantle deslumbra não apenas por colocar o espectador dentro da ação, mas pela correção de imagem que a faz parecer de época. Um filme onde se busca o realismo em cada detalhe narrativo, a interpretação de Brühl e Hemsworth não poderia ser menos que impecável. Há críticos apostando em Oscar para Daniel Brühl, que rouba as cenas. Um filme imperdível para amantes de corridas e ou de cinema. Um dos melhores do ano.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Crítica: Branca de Neve e o Caçador



Quem gosta de literatura oral sabe que os contos populares reunidos em publicações sofrem alterações (independente ao quem conta um conto aumenta um ponto) para atender (principalmente) aos interesses de mercado. Já era assim na época de Charles Perrault (1628 - 1703) e de Jacob Grimm (1785 - 1863) e Wilhelm Grimm (1786 - 1859), cujas histórias em comum (anteriormente “destinadas” ao leitor e ou ouvinte adulto) têm lá as suas diferenças. Onde Perrault era trágico, os Grimm eram românticos ou divertidos. Aos poucos o mundo infantil nos livros foi ganhando cor, fantasia, magia, encantamento. Todavia, com as novas mídias contemporâneas, provavelmente muitas narrativas adaptadas do passado serão cada vez mais irreconhecíveis no futuro.


Branca de Neve e o Caçador (Snow White and the Huntsman, EUA, 2012), filme de fantasia e aventura, dirigido por Rupert Sanders, é mais uma das várias adaptações do famoso conto, compilado por Jacob e Wilhelm Grimm, que chega aos cinemas. Publicado entre 1812 e 1822, em edições de Contos da Criança e do Lar (Kinder-und Hausmaërchen), esta releitura de Branca de Neve é uma boa miscelânea de várias versões. Com um olho no público adolescente e outro na atual onda de monstrengos que apavoram nas telas, enfrentando bonitões e bonitonas, a tradicional narrativa ganhou ares mais sombrios, mais góticos..., sem esquecer a fantasia claramente influenciada pelos geniais animes do mestre Hayao Miyazaki, como o belo Princesa Mononoke (1997). 


Procurando não bagunçar a estrutura central do conto, o roteirista Evan Daugherty deu asas (de corvo, morcego, pássaro azul, borboleta etc) à imaginação ao acrescentar cores fortes e pesadas no revestimento de seus personagens. Branca de Neve (Kristen Stewart) perdeu a inocência, virou uma jovem arrojada e ganhou um look (mais contemporâneo) com ares de Joana D’Arc. O Caçador (Chris Hemsworth) foi transformado num inconsolável beberrão e imbatível mercenário movido a ouro e vingança. A bela madrasta Ravenna (Charlize Theron) está mais malvada e sanguinária. Os anões mineradores mudaram de ramo, o novo negócio pode não ser o mais lucrativo, mas é o que garante a sobrevivência dos (agora) oito representantes de uma raça extinta: O líder Beith (Ian McShane) e seu braço direito Nion (Nick Frost), o genioso Gort (Ray Winstone); os guerreiros durões Coll (Toby Jones) e Duir (Eddie Marsan); o jovem Gus (Brian Gleeson); o sábio vidente cego Muir (Bob Hoskins)  e seu filho e guia Quert (Johnny Harris). O arqueiro Willian (Sam Claflin), amigo de infância de Branca de Neve e filho do Duque Hammond (Vincent Regan), ocupa a vaga de príncipe, por enquanto (?).


A versão (ou seria visão?) pós-moderna do estreante diretor britânico, não economiza no visual dark e na alegoria para recontar a história da famosa princesa de pele branca como a neve, cabelos negros como o carvão e lábios vermelhos como a rosa: “Queria criar um mundo rico e fantástico, mas queria separar conto de fada de fantasia; são duas coisas bem diferentes para mim. Queria criar algo que fosse físico, mas também muito emocional, fazer algo grandioso, um filme em escala épica que também carregasse emoção. Várias vezes, você assiste a um filme com visual muito trabalhado, mas que tem pouco sentimento. Eu queria encontrar a emoção da história”.

Egresso da publicidade, Rupert Sanders segue à risca a cartilha do entretenimento juvenil. A história é bem narrada e não faltam ação e excelentes efeitos especiais (soturnos e lúdicos), apesar da escorregadela no “efeito-anão”, também problemático em O Senhor dos Anéis. Todos os malefícios do mundo, que sempre fizeram parte do universo dos contos populares (e foram amenizados pelos Grimm), estão presentes na trama, assim como algumas passagens sinistras (fuga na floresta) da versão animada da Disney. Sanders trabalha de forma interessante alguns signos da narrativa: como a maçã (em duas belas sequências), a entidade (dourada) do espelho e os dois lados (sombra e luz) da mesma floresta. A sua opção por um terror mais psicológico é oportuna, mas se os signos (metáforas) serão decifrados pelo jovem espectador, aí já é outra conversa.  


Rupert se lembrou de realçar as maldades de Ravenna e o terror de Branca de Neve, que nasceu tal e qual o desejo da rainha (Liberty Ross) mas não imaginava que a beleza a condenaria à prisão, após o assassinato do seu pai, o rei Mingus (Noah Huntley), e à morte, para satisfazer o capricho de imortalidade da sua perversa madrasta. No entanto ele se esqueceu do humor que sempre dá um sabor (e um alívio!) especial aos dramas mais pesados. Ainda assim, Branca de Neve e o Caçador é um bom filme para o público jovem e deve agradar aos mais velhos e curiosos em releituras. Ele prende a atenção do começo ao final aberto, já que, dependendo da bilheteria, deve resultar em mais dois. Não é nenhuma obra-prima, mas a sua Branca de Neve alternativa dá o que pensar.

Charlize Theron é o grande destaque do elenco, com a ofuscante interpretação da perversa Ravena, que cresce mais com a ajuda de maquiagem e efeitos em sequências assustadoras. Chris Hemsworth está num bom momento com seu solitário caçador brigão e, se tivessem mais espaço e tempo, com certeza a ótima trupe dos anões roubaria todas as cenas. Quanto aos bonitinhos Kristen Stewart e Sam Claflin, se não vão além do combinado, também não comprometem o riscado. 

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Crítica: Thor



THOR
por Joba Tridente



Para os fãs de HQs é sempre um risco quando um personagem tem as suas aventuras adaptadas para o cinema. Nem sempre o herói encontra roteiristas e ou diretores à altura. E, pior, geralmente (re)contam a sua história incluindo passagens (que nunca existiram) ou excluindo momentos importantes. Como se não bastasse, de tempos em tempos, os super-heróis têm a sua personalidade virada do avesso (Batman que o diga!), de forma que nem eles mais se reconhecem pelo famigerado nome.

Thor (Chris Hemsworth), o filho de Odin (Anthony Hopkins), é um jovem impulsivo e arrogante que, na noite da sua coroação, acaba provocando uma guerra contra os Gigantes de Gelo, colocando o Reino de Asgard em perigo. A sua punição é o exílio e quem se beneficia é o seu maquiavélico irmão Loki (Tom Hiddleston). Apesar de ser destituído dos seus poderes e, principalmente, do famoso martelo Mjolnir, o exilado Thor não fica tão mal na fita. Assim que literalmente cai do céu, no Novo México, enquanto se ambienta, conhece e (é claro!) se apaixona pela astrofísica Jane Foster (Natalie Portman) e é cortejado pela SHIELD (Superintendência Humana de Intervenção, Espionagem, Logística e Dissuasão). Porém, vai descobrir que, de nada vale ser um cara saradão, se não tem poderes para enfrentar o Destruidor.
  

O filme se preocupa, primeiramente, em situar o espectador no universo mítico nórdico. Depois, trocando uma coisinha aqui e outras ali (que o fã do herói vai sentir falta e reclamar), desvela a personalidade rebelde do Deus do Trovão e as razões da sua queda na Terra (Midgard). Como o tempo do cinema é bem menor (e mais caro) que o de uma história em quadrinho ou animação, e os fatos acabam sendo atropelados (ops!) e abreviados, resgatei na WEB o sermão de Odin (da HQ), quando exila Thor: "Tu és o filho favorito de Odin! Além de valente e nobre, tua alma é imaculada! Mas ainda assim és incompleto! Não tens humildade! Para consegui-la deverás conhecer a fraqueza... sentir dor! E para isso necessitas deixar o Reino Dourado e despir-te de tua aparência divina! A Terra, lá aprenderás que ninguém pode ser verdadeiramente forte se, em realidade, não for humilde! Por um tempo não mais serás o Deus do Trovão! A tua memória também tirarei! Agora, vai! Uma nova vida te espera!".


Thor (Thor, EUA, 2011), dirigido pelo shakespeariano Kenneth Branagh, é um simpático épico de ação e aventura, assim na Terra como em Asgard. Com roteiro de Ashley Edward Miller, Zack Stentz e Don Payne, baseado no personagem criado pelos míticos Stan Lee e Jack Kirk, em 1962, o Deus do Trovão ganha uma versão que, apesar da tradicional infidelidade autoral, deve agradar quem cresceu lendo as suas aventuras ou assistindo a série (mais ou menos) animada na televisão. É uma produção grandiosa e, excetuando a farsa do 3D, tem efeitos visuais esplendorosos. A direção de Branagh é eficiente, consegue um feito inesperado: humanizar o malvado Loki (do inspirado Hiddleston), além de fazer um filme divertido e com uma boa dosagem cômica (sem piadas escatológicas) e de ação. Não sei será um divisor de películas marvelianas, mas está muito acima da média que se vê dos filmes de heróis. Ah, e quem quiser saber o que reserva a próxima produção que trará Thor, na companhia de Capitão América, Homem de Ferro, Hulk, Nick Fury, em Os Vingadores, não deve sair da sala antes dos créditos finais.

Para saber mais sobre as animações e quadrinhos de ThorFANTVDesenhos AnimadosHeróis HQ.

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