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quarta-feira, 12 de junho de 2019

Crítica: MIB: Homens de Preto Internacional


MIB: Homens de Preto Internacional
por Joba tridente

Há 22 anos, MIB: Homens de Preto, um excelente filme de ficção científica, com seu humor pastelão e negro e muita bizarrice, dirigido por Barry Sonnenfeld e estrelado por Tommy Lee Jones e Will Smith causou sensação nos cinemas. Baseado na HQs Men in Black (1991), de Lowell Cunningham, a produção que custou meros 90 milhões, arrecadou perto de 600 milhões de dólares. Em 2002 chegou aos cinemas o menos impactante Homens de Preto 2 e, em 2012, fechando admiravelmente a trilogia, o divertido Homens de Preto 3, também protagonizados por Lee Jones e Smith e dirigidos por Sonnenfeld.

Em tempos de recomeço de franquias milionárias, ou de apresentação independente de episódio perdido, eis que, sete anos depois, MIB está de volta, recauchutado e sugerindo, nas entrelinhas, uma mudança de “comportamento (ou apego) machista” à sigla titular que, caso retorne em novos capítulos (internacionais?),  não causará surpresa se virar WIB: Mulheres de Preto, protagonizado por dupla feminina, tal o empoderamento e a presença delas nas batalhas contra alienígenas mal intencionados. Ou MIB: Men in Black & WIB: Women in Black..., já que o terno preto básico cai bem em um ou em outro gênero! Uma conversa também ouvida no entrecena de X-Men Fênix Negra.


Uma vez que (por enquanto) os realizadores de MIB: Homens de Preto Internacional (Men in Black International, 2019) acreditam que em argumento vitorioso não se deve mexer muito, a variação no roteiro (bem) juvenil de Matt Holloway e Art Marcum é pequena. Daí, o que pode ser novidade para alguns espectadores, pode parecer meio repetitivo para outros. Porém, nada aborrecido! Estão em cena a tradicional dupla improvável, formada pelo experiente agente inglês H (Chris Hemsworth) e a dedicada estagiária norte-americana M (Tessa Thompson)..., que teve contato com extraterrestre quando criança e se considera preparadíssima para ser agente MIB..., a ação tresloucada, as armas estranhas, os alienígenas fofos (as) ou bizarros (as) e, é claro, o bom humor (leve) e meio pastelão, com umas gags bem legais. A melhor delas faz referências ao (ex-) Thor de Hemsworth. Aliás, os dois protagonistas já dão um bom trocadilho com o tema...

Assim como os roteiristas, o diretor F. Gary Gray evita invencionices e opta por uma direção sem sobressaltos..., levando em conta os absurdos da história dividida entre Londres, onde o agente T (Liam Neeson) é o chefe da Agência MIB, Marrakech e Paris. Mais uma vez o pivô do conflito entre humanos e imigrantes extraterrestres é uma joia preciosa, tão bela e apocalíptica quanto o Colar de Órion (do MIB, 1991) e a Luz de Zartha (do MIB 2, 2002). Ah, essa mania alienígena de miniaturizar energia cósmica! O porém (há sempre um!) é que, além de cuidar para que a tal joia interplanetária não caia (clichê: é claro que vai cair!) em mão erradas, H e M também precisam descobrir se há ou não um espião traíra entre os agentes MIB, por trás da morte misteriosa de um importante alien e que pode colocar em risco (claro!) o equilíbrio do universo e a existência da Terra! E por falar em Paris, as questões relacionadas à Torre Eiffel (onde se dará o desfecho da missão policial e ou espacial) e do seu idealizador Gustave Eiffel, me lembrou uma fantástica sequência do interessante Tomorrowland - Um Lugar Onde Nada É Impossível (2015).


Enfim, considerando a narrativa linear e bem (re)costurada; a engenhosa arte dos aliens graciosos e ou repulsivos; a qualidade do CGI dos expressivos imigrantes do universo e além e dos equipamentos bélicos e ou de locomoção; o ótimo elenco, que inclui ainda Emma Thompson, que retorna na pele da agente O, Rafe Spal, o agente C e Rebecca Ferguson, a alien Rizza; o bom ritmo; as sequências malucas e a ação eletrizante quase contínua..., embora tenha deixado de lado as paródias e os gracejos hollywoodiano, MIB: Homens de Preto Internacional é um agradável e esquecível passatempo juvenil que te entretêm por duas horas. Quem assistiu aos trailers não vai ter muita surpresa.


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta-metragem (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Crítica: Battleship - A Batalha dos Mares



No princípio havia uma folha de papel em branco. Ela foi quadriculada e virou um tabuleiro. Palco perfeito para qualquer jogo de estratégia. Era (?) um tempo de avanços e recuos de nações na exposição de seu poderio bélico na terra, no mar, no ar. Era (?) um tempo de espiões. Era (?) um tempo de jogatina política. Era um tempo em que realmente se rabiscava tudo numa folha de papel em branco e tinha-se (?) um telefone (ou um telégrafo) ao alcance das mãos, ao se desvelar o segredo do “inimigo”. Um bom jogo de estratégia pode ser jogado nas mais diversas plataformas ou até mesmo sem elas. Em 1931 os amantes do Batalha Naval (antes rabiscado em qualquer pedaço de papel) adoraram a ideia da Milton Bradley Company lançar o jogo comercialmente. Ele virou febre, mania, moda, online, passou... Hollywood o redescobriu e resolveu inventar uma história infantojuvenil que o justificasse numa plataforma cinematográfica.

Quando se trata de guerra (real ou fictícia) os autoproclamados xerifes do mundo se arrepiam. Antes os estadunidenses se preocupavam com a Guerra Fria, hoje se atrapalham com a Guerra Quente. Assim, para não ferir sensibilidades europeias, arábicas e ou asiáticas, na falta de um oponente terrestre de peso, Hollywood decidiu trazer (ou seria convidar?) um do espaço sideral. Ah, pra quê!? Os recém descobertos goldilocksianos, a muito anos-luz do Havaí, aceitaram o convite enviado (em 2005) pela NASA e, em apenas sete anos, resolveram ver o que os havaianos tinham a lhes oferecer. Inebriados pela beleza e poluição do planeta, os ETs chegaram atropelando satélites e alguns edifícios na China (?), caindo no mar do paradisíaco arquipélago, prontos para trocar fogo com os ultranacionalistas marines norte-americanos, em exercício de rotina ali por Pearl Harbor.


Bem, todos sabem que ETs do mundo todo (e de fora dele) adoram odiar os Estados Unidos da América do Norte e ou seus domínios. Em Battleship - A Batalha dos Mares, com seu ufanismo-exaltação às velhas e novas forças militares (típica dos filmes do gênero), não é diferente. Mas poderia, se o rebelde sem causa (com potencial!) Alex Hopper (Taylor Kitch), não tivesse lido o clássico chinês A Arte da Guerra, de Sun Tzu, certo de que o autor era japonês (Hollywood está trocando jovens idiotas por panacas filosóficos) e se tornado (em apenas dois dias!) um estrategista militar incomparável. Só pode ser uma piada (ruim!).

Explico melhor: Alex é o vagabundo (com potencial!) irmão de Stone (Alexander Skarsgaard), comandante do navio USS Samson. Um belo dia, ao se apaixonar (à primeira vista) por Sam (Brooklyn Decker), filha do almirante Shane (Liam Neeson), comandante do navio USS John Paul Jones, atenta contra o bom senso, comete um delito e, como punição (!), vai servir a marinha já com um posto de oficial naval. Encrenqueiro (com potencial!), ele é motivo de chacota. Mas, como quem ri por último ri melhor, indiferente ao turbilhão de clichês, adivinha quem vai salvar o havaiano mundo norte-americano? Não responda ainda, porque, nesse festival de sandices americanófilas, você ainda pode “vibrar” ou “chorar” com o improvável brilho de um desafortunado marinheiro paraplégico (frustrado e perigoso!), um cientista bobalhão (mais veloz que o Flash!), um oficial japonês mais inteligente (?) que um oficial americano, uma fisioterapeuta sem noção, um soldado adolescente e a sua histórinha sobre lagartos, um punhado de marinheiros aposentados e caquéticos...


Battleship - A Batalha dos Mares (Battleship, EUA, 2012) é um filme de ação literalmente explosivo, do “roteiro” pífio de Erich Hoeber e Jon Hoeber (que só conseguiram acertar em RED) à direção equivocada de Peter Berg. Ele parece cumprir à risca a máxima do saudoso Chacrinha (Abelardo Barbosa): Eu estou aqui para confundir! Eu não estou aqui para explicar! Ou seja, sobra por quês do começo ao fim: Por que só tem duas mulheres no elenco, uma negra (no mar): Rihanna (a “especialista” em armas Cora Raikers) e uma loira (em terra): Brooklyn Decker (a “fisioterapeuta”), que não têm a menor ideia das suas “funções”? Por que o boné de Rhiana está sempre colado naquela peruca horrorosa (não cai nem quando ela afunda na água!)? Por que Raikers é a única marinheira a bordo? Por que os ETs e os humanos estão brigando? Por que um sujeito vagal feito Alex, em vez de ir para a cadeia vai para a marinha e, mesmo sem nenhuma experiência, torna-se tenente? Por que..., ah, me cansei.

Desastres à parte, possivelmente o mais comprometedor nessa produção milionária seja a montagem miserável. São tantos o buracos que, de duas, uma: ou esqueceram de filmar cenas que poderiam dar (!) algum sentido (?) à trama ou foram todas surrupiadas pelo montador. Diretor: da escola Michael Bay de futilidades, mas está a quilômetros do explode-mundos hollywoodianos (com involuntário humor trash) Roland Emmerich. Diálogos: para suicidar o Tico e o Teco. Efeitos especiais: explosões, aeronaves que mudam de forma mas (ainda!) não viram robôs transformers. Ets: lagartos (como sempre!) vestindo armaduras parecidas com as do Homem de Ferro e do Game Halo. Romance: ora, esse é um filme para a garotada que vai ao cinema facebookear e se entupir de pipoca e refrigerante. Enfim, só não é pior porque não é convertido em 3D.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Crítica: Fúria de Titãs 2


Dizem que dificilmente os filmes subsequentes (o segundo é o mais perigoso!) de uma franquia conseguem superar o primeiro. No caso de Fúria de Titãs (Clash of the Titans - EUA, Reino Unido, 2010), de Louis Leterrier, uma refilmagem do clássico homônimo dirigido por Desmond Davis, em 1981, não parecia missão tão impossível, já que o filme de Leterrier foi detonado mundialmente. Quando se anunciou o Fúria de Titãs 2, com direção de Jonathan Liebesman (do equivocado Invasão do Mundo: Batalha de Los Angeles, o original), se imaginava o pior. A boa notícia é que, indo contra quase todas as previsões, a continuação deu certo, superando de longe o seu anterior.

Fúria de Titãs 2 (Wrath of the Titans, EUA, 2012) é pura diversão e bem aos modos dos antigos filmes de aventuras greco-romanas. Deixando a ranzinzice de lado: e precisa ser mais que simples diversão? Talvez, depende da expectativa do cidadão. Exigir conteúdo em produções como essa, dirigida ao público infantojuvenil (e aos marmanjos de plantão), é bobagem. Esta nova aventura acontece dez anos depois do intransigente e incrédulo semideus Perseu (Sam Worthington) derrotar o Kraken. Ele ainda insiste em viver num vilarejo de pescadores, onde cria o filho Hélio (John Bell) e lamenta a morte da esposa. Perseu não quer saber de regalias e muito menos das desavenças entre deuses e Titãs. No entanto, Zeus (Liam Neeson) pensa diferente e a intrincada e primordial relação de amor e ódio (e ciúme!) entre pais e filhos (humanos “racionais” e deuses caídos e redimidos) acaba envolvendo Perseu na mais sintomática das guerras (santas). O pior é que ela não garante o céu e ou o inferno aos “vencedores”, já que, no tabuleiro dos sacrifícios, as pedras (sagradas e profanas) oscilam entre a fé e a razão. Nesse embate todos são vítimas do próprio ego.


A questão religiosa já estava em jogo quando Perseu aniquilou o Kraken. Todavia, o que parecia simples capricho devocional dos deuses, virou luta pela supremacia e desejo de vingança (sobrando para os humanos!). Houve um tempo em que, para não ser destronado, Cronos devorava os próprios filhos. Mas não contava com a astúcia de Zeus, Hades (Ralph Fiennes) e Poseidon (Danny Huston), que sobreviveram e o aprisionaram no Tártaro, onde se encontravam encarcerados os monstruosos Titãs, filhos de Urano e Géia. Ali, se banhando em lavas, o vingativo Cronos se aproveita da fraqueza moral de Ares (Edgar Ramírez) e do perturbado Hades para tramar uma forma de punir Zeus e Poseidon e os humanos (que não querem mais saber de deuses). Certo de que um filho de Zeus não foge à luta titânica, Perseu acaba se juntando à rainha Andrômeda (Rosamund Pike), ao semideus Agenor (Toby Kebbell), e a Hefesto (Bill Nighy), para ajudar o pai e evitar um mal maior. O que os heróis vão descobrir, no calor da batalha, é que, com Cronos na parada, a vingança não é um prato que se come frio.

O curioso em uma obra cinematográfica (entre outras) é que o espectador (conforme a sua cultura) pode fazer as mais diversas leituras e se ver “descobrindo coisas” que (talvez) o diretor e os roteiristas nem pensaram em dizer. Às vezes essas descobertas são meros grãos de areia que, fora do todo, podem gerar ideias interessantes sobre algum tema pertinente, como o que se repete nos dois Fúria de Titãs: os percalços da Fé. Para além da metáfora, são muito significativas as imagens de um belíssimo Templo em ruínas e de deuses virando pó. O que nos remete a um conhecido aforismo (excerto de Gênesis 3.19): Memento quia pulvis es et in pulverem reverteris (lembra-te que és pó e ao pó tornarás), e que a cada dia ganha novas interpretações.


É assunto que dá pano para mais de metro de manga e, dependendo do foco, pode resultar em calorosas e (até) divertidas discussões. Se não, veja só, enquanto os deuses gregos, prisioneiros e dependentes da crença humana, fazem de tudo para evitar o deicídio, Cron, o Deus do Conan, o Bárbaro, quer mais que os “seus” fiéis explodam. O próprio cimério reza por rezar, porque sabe que Cron não está nem aí para os problemas do mundo. O genial Millôr Fernandes (1923 - 2012) filosofou que: o homem só é sinceramente ateu quando está muito bem de saúde. Pois é, onde e quando menos se espera pode se encontrar alguma pérola. Não creio que todo o público vá entender o simbolismo (inconsciente) de Fúria de Titãs 2, mas é divertido ir descobrindo um a um.

Quanto ao roteiro de Dan Mazeau e David Leslie Johnson, ele é tão simplório e econômico que não tem nem romance. Ou será que um único beijo pode ser considerado romance? É até menos rocambolesco que o do primeiro filme, mas (infelizmente) não dispensou as (abomináveis) liberdades mítico-poéticas. Os diálogos são mínimos, suficientes apenas para o espectador saber quem é quem e não perder o fio da meada (em meio à pancadaria), e talvez (?) não comprometer o desempenho do elenco competente, mas nada excepcional. Tampouco a história requer grandes atuações. O que poderia ser diferente se a apressada narrativa se aprofundasse na questão da ruptura entre filhos e pais em quatro gerações: Cronos versus Zeus versus Ares e Perseu versus Hélio. Uma singularidade curiosa e comum na cinematografia de Spielberg e que os psicólogos de ocasião adoram decifrar. Porém, como disse acima, a intenção da produção é divertir, não é elucubrar.


Fúria de Titãs 2 é um filme verdadeiramente furioso, e diria até meio mal-humorado. Os efeitos especiais e o bom uso do 3D IMAX proporcionam um clima de ação desenfreada (e vertiginosa) do princípio ao fim. Confesso que em alguns momentos fiquei meio zonzo com a movimentação. Algumas cenas apavoram! E por falar em apavorar, os Ciclopes (aqueles gigantes de um olho só!) são um espetáculo à parte. Perfeitos! Um cinéfilo preocupado com detalhes vai achar que (o duplo) Hefestos lembra o Sméagol de O senhor dos Anéis e ou que o seu labirinto de pedras móveis se parece com o labirinto de aço do (arghhh!) Alien vs. Predador (2004). Na verdade, essa “armadilha” remete ao labirinto de Minos, onde Teseu, com a ajuda de Ariadne, venceu o Minotauro, que (é bom que se diga) tem nada a ver com o monstrengo que aparece aqui. Enfim, este é um entretenimento para quem quer apenas passar o tempo. E nada mais!

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Crítica: Desconhecido


por Joba Tridente

Com um elenco internacional, alavancado pelo ator irlandês Liam Neeson, o curioso thriller Desconhecido (Unknown, 2011) chega aos cinemas com promessas além da sua capacidade cinematográfica, para um (americano) drama (europeu) de suspense internacional.

A mirabolante trama diabólica (não confundir com Trama Diabólica (Sleuth), de Joseph L. Mankiewicz) traz resquícios de Intriga Internacional (North by Northwest) e bem que poderia ser uma bela homenagem ao mestre do suspense Alfred Hitchcock (1899 - 1980), não fosse o excesso de violência explosiva e algumas derrapadas na pista de uma boa história. Poderia, ainda, ser um filme cabeça (Ôps!), não fosse a forçada bate-cabeça do Dr. Martin Harris (Liam Neeson) que chega a Berlim, com a esposa Elizabeth Harris (January Jones), para participar de um Congresso de Biotecnologia, sofre um acidente e quatro dias depois acorda, em um hospital. Ao tentar retomar os seus compromissos se dá conta de que é um estranho em uma terra estranha, onde ninguém (nem mesmo a esposa) o reconhece e um sujeito (Aidan Quinn) ocupa o seu lugar no mundo lógico. Acreditando que tudo não passa de um grande equívoco, sai desesperado em busca de algo ou alguém que o ajude a provar que ele é quem diz ser.

Apesar da falta de criatividade nas (repetitivas) cenas clichês de (sonífera) ação, Desconhecido, dirigido pelo espanhol Jaume Collet-Serra, tem alguns bons momentos, como, por exemplo, o confronto dos Martin Harris e a visita ao Museu de Fotografia, cuja exposição foi montada especialmente para o filme. Dado os devidos descontos ao exagerado roteiro de Oliver Butcher e Stephen Cornwell, que “atiram” em todas as direções, vale destacar, além de Neeson, as performances do ator alemão Bruno Ganz, na pele do sarcástico Ernst Jürgen, um ex-agente da STASI (Polícia Secreta da Alemanha Oriental), e do norte-americano Frank Langella, como Rodney Cole, um amigo de Martin (Liam).


Baseado no romance Out of My Head, do premiado escritor francês Didier van Cauwelaert, a produção lembra alguns outros filmes sobre desmemoriados (até no acidente) e crise de identidade. Ao ver a saga de terror de Martin, perdido em Berlim e perseguido pela sua própria sombra, pode se achar que ele está procurando respostas nos lugares errados, mas o fim (pouco convincente e melodramático) tenta justificar o meio. A história original se passa em Paris, mas a produção internacional (EUA, Reino Unido, Alemanha, França, Japão) preferiu transferir a trama para Berlim, que também busca uma identidade após a queda do muro e da reunificação alemã. Porém, independente do lugar, Desconhecido poderia ser um suspense muito mais saboroso, se seus realizadores não subestimassem tanto a inteligência do espectador.

Por falar em identidade, no disco I Acto (1973), em um trecho da sua música Eu Não Quero, Zé Rodrix cantava: Eu não quero ser um número/ e uma impressão digital/ Você não quer ser um numero/ e uma impressão digital/ Ninguem aqui quer ser um numero/ e uma impressão digital/ então por quê que todo mundo é apenas um numero/ e uma impressão digital? (...) Mamãe sempre dizia/ meu filho o mundo é isso/ dividido entre o mau e o bem/ e eu aprendi que na face da Terra/ ninguem é igual a ninguem! No fim do filme você vai entender porque a citei.

sábado, 22 de maio de 2010

Crítica: Fúria de Titãs


Já vi muita leitura cinematográfica sobre o mesmo tema, passíveis de comparação, mas releitura (refilmagem) de obra alheia, que cheira a oportunismo, movido tão somente pela conta bancária, é difícil de comparar. Por pior que seja o original, ele sempre tem mais chances que o suplantador de idéias. Infelizmente não é o que pensam os sobrinhos do Tio Sam, cada vez mais chegados numa cinecópia de obra estrangeira de sucesso. Acostumados a levar vantagem em tudo (impondo suas vontades em quase todo mundo), pensam com o bolso e não com a cabeça e, por isso, em vez de dar asas à imaginação, preferem copiar a criar algo novo, mesmo a partir de uma ideia velha.

Com a (re)tomada dos épicos (futuristas ou não) e a curiosidade sobre a Mitologia Grega, despertada pela série literária infantojuvenil Percy Jackson, do escritor Rick Riordan, a(ssa)ssinada no cinema por Chris Columbus, eis que os EUA resolveram pegar pesado com o Reino Unido. Sem se importar com a memória afetiva de milhões de espectadores, que o tem em alta consideração, decidiram que era hora de (re)mexer no inesquecível Fúria de Titãs (Clash of the Titans – Reino Unido, 1981), dirigido por Desmond Davis. Do filme, que para muitos é um clássico do cinema fantasia e para outros um clássico trash, sobrou pouco. Até mesmo a Coruja (mecânica) Bubo, numa cena de lamentável homenagem e tremendo mau gosto, ficou pra trás. Mas isso é o de menos.

Em Fúria de Titãs (Clash of the Titans – EUA, Reino Unido, 2010), os roteiristas Travis Beacham, Phil Hay e Matt Manfredi, destruiram o roteiro de Beverley Cross (do filme de Desmond) e reinventaram a história e a lenda, retirando e acrescentando o que lhes desse na telha e funcionasse melhor no CGI. Louis Leterrier fez o mesmo, com a direção pífia, se achando um erudito interpretando (à sua maneira) a saga do herói grego para a plebe ignara. Na sua visão trágica, Perseu se torna um caso patológico que Freud e Jung recusariam atendimento (ou seria entendimento?). Pobre herói, como se não tivesse provas suficientemente difíceis pra vencer, lhe arranjaram intrigas com seu pai, seu tio, seu avô... O pior, no entanto, é ainda ser obrigado a vencer o trauma da rejeição, a insignificância humana, os “monstros” reais, totalmente renovados e altamente revigorados, preso entre as dimensões 2D e 3D. Destituído de toda a glória de um semideus, retratado como um imbecil, no lusco-fusco de um simulacro 3D, ninguém merece!



No filme original havia alguma liberdade, sim, mas também respeito e integridade com os mitos. Agora vai tudo pras cucuias, junto com Kraken-CGI. Fúria de Titãs até começa com um belo visual cósmico, com os deuses e semideuses feito constelações. Mas, ao descer (?) até o futurista Olimpo e entrar na Grande Sala dos Deuses, a coisa degringola de vez. A cenografia consegue ser pior (ou mais ridícula) que o Olimpo de Percy Jackson. O hall onde os Deuses ficam expostos (?) em pedestais, parece um salão do saudoso Hotel Glória, em dia de Concurso de Fantasia de Carnaval, onde Zeus, com aquela estilosa roupita prateada, armadura ao gosto de Clóvis Bornay (1916-2005), poderia tranquilamente desfilar como O Esplendoroso Luar sobre a Acrópole, e Hades seria O Voo Divino da Mariposa Vespertina. Ora, até os Deuses merecem respeito! Será que não foram afrontados o suficiente, quando tiveram suas “identidades” cortadas e (re)cobertas por folhas de parreira, pela Igreja dominante que se apoderou de suas imagens?

Bem, continuando, se para amantes e estudiosos da Mitologia Grega o primeiro filme cometia pequenas infrações, até perdoáveis, a nova versão foi longe demais. Só não mudou o nome dos personagens. No resto, mexeu o quanto pode na narrativa clássica, transformando Perseu, o filho de Zeus e Danae, filha de Acrísio, Rei de Argos, num sem-pai e sem-mãe, e, depois, em sem-família, sem-barco, sem-mar, sem-peixe, sem-teto, sem-terra, sem-amigo, sem-amor..., movido a vingança e desdém aos Deuses. Isso tudo antes de casá-lo com uma mulher que nem faz parte da história. Não é à toa que ele vira um sujeito com irritante crise de identidade. Como o filme é de ação e aventura e não boa comédia (apesar do sugestivo roteiro) o que se vê na tela, entre um desfoque e outro do 3D, é só muita correria e pancadaria. Acho que Leterrier deve ter se espelhado mais no tolo Percy Jackson do que na produção de 1982. Cara esperto, esse incrível diretor de Hulk, digo, diretor do Incrível Hulk (2008), pegou a história de um e adaptou no filme do outro. Hmmmmm!

Deixando de lado a farsa do 3D, a produção de Fúria de Titãs é fantástica. Pena que Louis Leterrier (e equipe) tenha se preocupado (e se divertido) mais em criar cenários suntuosos, encontrar locações perfeitas e usar efeitos especiais realmente impressionantes (excetuando o Olimpo) do que em (re)contar uma boa história. E não foi por falta de elenco: Sam Worthington (Perseu), Liam Neeson (Zeus), Ralph Fiennes (Hades), Mads Mikkelsen (Draco), Gemma Arterton (Io), Alexa Davalos (Andrômeda). Poderia ser um filmaço, se a narrativa fosse original. Por outro lado, quem não conhece (?) a lenda ou o filme de Desmond Davis, com os efeitos em stop-motion, do mestre da animação Ray Harryhausen, pode até gostar, se assistir em 2D. Tem gosto (e cinema) pra tudo!

Cadu Simões, do site Nova Helade, postou uma excelente matéria comparativa sobre Fúria de Titãs.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Crítica: Chloe - O Preço da Traição


Chloe: Julianne Moore e Amanda Seyfried
Chloe – O Preço da Traição

Chloe é o mais recente trabalho do diretor Atom Egoyam. Um observador mais dedicado o reconhecerá, de imediato, como uma (per)versão canadense de Natalie X, (Natalie..., França, 2003) produção dirigida por Anne Fontaine, com Fanny Ardant (Catherine), Gérard Depardieu (Bernard), Emmanuelle Béart (Natalie), nos papéis que agora são de Julianne Moore (Catherine), Liam Neeson (David), Amanda Seyfried (Chloe).

Chloe, que por aqui, na terra dos (repe)títulos bizarros, virou O Preço da Traição (que já é título de Mulholland Falls, policial com Nick Nolte, dirigido por Lee Tamahori, em 1996) tem dividido opiniões. A sua trama, com pinceladas de melodramática sensualidade e algumas pitadas de thriller, toca uns e não convence outros. É um filme que trabalha com a arte da imaginação de Chloe, Catherine e do espectador que, se não aceitar as regras do jogo de palavras, digamos, um tanto masoquista, entre as duas, vai se decepcionar. Se bem que, se ficar atento, vai matar (ops!) a charada no primeiro encontro e dar o xeque-mate no terceiro, mesmo não tendo visto Natalie X. Aí, a história das belas Julianne e Amanda perde toda a graça.

Catherine (Juliane Moore) é uma famosa ginecologista, casada com David (Liam Neeson), professor universitário, e mãe de um filho adolescente que a trata mal, sem nenhuma razão aparente. Na manhã seguinte ao aniversário de David, ela casualmente encontra no celular do seu marido, uma mensagem enviada por uma jovem. Uma ou mais amantes explicaria a perda do desejo sexual dele. Catherine contrata os serviços de uma prostituta chamada Chloe (Amanda Seyfried), pra seduzir o marido e descobrir a verdade. Chloe relata, com minúcias, cada encontro com David. As detalhadas narrativas sexuais da prostituta provocam desconforto e prazer em Catherine, que se envolve mais e mais com os relatos, sem se preocupar com os sentimentos da garota ou se está indo longe demais.

O Preço da Traição (Chloe - EUA, Canadá, França, 2009) tem uma produção bem cuidada e Julianne, cada vez mais linda e sempre competente, tira de letra um papel carregado de nuances. Amanda é uma bela garota, boa atriz, mas lhe falta o que sobra em Moore, sex appeal. E a personagem de Liam Neeson (David), objeto de desejo sexual das duas mulheres, é um sujeito apático até nas relações sexuais. Talvez por conta de um roteiro fraco, a impressão é a de que Atom perdeu a mão e noção no meio do caminho. O que poderia ser interessante discussão sobre as vias do desejo e do prazer presente e ou inconsciente, acaba ficando sem rumo, um coito interrompido. E o sexo, ausente na ação e onipresente na palavra, glorifica e crucifica a libido, condenando a todos ao limbo. Se na lógica cristã, onde há arrependimento, há perdão, aos eunucos será restituída a força. O que explica o teor morno e automático do desnudamento e da simulação sexual. Idiossincrasia do diretor ou malevolência de uma história rala que, a certa altura, parece que vai (re)virar um Atração Fatal (Fatal Attraction - EUA, 1987, dirigido por Adrian Lyne, com Glenn Close e Michael Douglas? A bem da verdade, acho que uma coisa e outra, já que segue pra um apoteótico final patético, apostando num clichê frouxo, bem ao gosto da tradição, família e patrimônio.

Natalie…: Fanny Ardant e Emmanuelle Béart

A refilmagem é o “gênero” mais difícil pra um diretor de cinema. Se é sua a iniciativa de refilmar (o que duvido!) é porque não gostou de algo na direção do filme alheio e acha que pode fazer melhor. Muita pretensão! Se o interesse é do estúdio, parece que o diretor escolhido pra tal proeza (mesmo que tenha feito bons filmes) ainda não tem competência pra autoria. Ou seja, continua de segunda! Um diretor que “cai” nessa, sempre corre o risco de encontrar um espectador que viu o filme original e fará inevitáveis comparações, raramente pra melhor.
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