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terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Crítica: Alita: Anjo de Combate


Alita: Anjo de Combate
por Joba Tridente

O bom de saber nada sobre certos filmes baseados em mangá, hq ou best-seller é que você não precisa fazer comparações entre o filme e a obra original.  O ruim é quando você precisa pesquisar certos detalhes sobre o filme e descobre que ele é bem diferente da obra que, aparentemente, é melhor que o material filmado.


Alita - Anjo de Combate (Battle Angel Alita, 2019) acontece lá em 2563, após mais uma guerra catastrófica (vagamente explicada) e, como é de praxe nessas tramas mirabolantes pós-apocalípticas, os sobreviventes de dividem entre a utopia celestial Zalem, uma cidade nas nuvens, para os ricos e poderosos, e a distopia, na decadente Iron City, um pesadelo na Terra, onde a ralé humana divide espaço com robôs, andróides, ciborgues etc. A Cidade de Ferro, à beira de um lixão, recebe diariamente todo tipo de descarte de Zalem. É ali, numa ronda diária, que o bondoso doutor Dyson Ido (Christoph Waltz), especializado na criação e conserto de robôs, ciborgues e congêneres, encontra a cabeça e o tronco de um corpo mecânico adolescente que, após uma operação delicada, devolve à vida a jovem desmemoriada Alita (Rosa Salazar, por captura de expressão e movimento).


Aos poucos Alita vai se inteirando da cidade e da sua população estranha, se apaixona pelo humano Hugo (Keean Johnson) e pelo violentíssimo jogo Rollerball, digo, Motorball, praticado apenas por ciborgues e robôs ou algo mecânico parecido com um ou outro. Porém, de flashback em flashback, a garota acaba se lembrando de quem realmente ela é e a quê realmente serve..., despertando (obviamente) o interesse dos sinistros trapaceiros Vector (Mahershala Ali) e Chiren (Jennifer Connelly), quase figurantes de luxo. A partir daí e 100% restabelecida, sai da frente, que a pancadaria que ela provocará (caçando ou sendo caçada) não tem fim. Ou melhor, acho que tem, mas deve estar guardada para o previsível terceiro filme (se este virar franquia). Para quem não gosta de spoiler, saiba que, infelizmente, algumas (?) surpresas de Alita - Anjo de Combate está nos trailers. Como eu não assisto a trailers (porque trazem a síntese e, praticamente, os melhores momentos de um filme), pude aproveitar melhor a sessão em 3D-IMAX.


Escrito por James Cameron (Titanic, Avatar) e Laeta Kalogridis (Altered Carbon), com direção de Robert Rodriguez (El Mariachi, Sin City), a ficção científica Alita - Anjo de Combate é um filme para jovens e fãs de esportes violentos. Também deve agradar àquele público pouco pensante, já que o roteiro, preguiçoso que só, não se esforça muito para contar uma história coerente ou minimamente crível (dentro do gênero, evidentemente). Assunto algum (ou personagem) é aprofundado. Um “fato” aparece do nada, quica aqui e ali e desaparece feito arco-íris em dia de pouca chuva, sem mesmo completar o arco. Será que estão deixando o que importa para os próximos capítulos? Talvez! Mas, pelo final deste, já que houve mudança entre o mangá e o filme, dois finais podem ser previstos (mas não vou dar spoiler..., adivinhe por conta própria).


Não conheço e não creio que venha a ter tempo para apreciar o aclamado mangá cyberpunk Battle Angel Alita, de Yukito Kishiro..., mas, entre escorregadelas e furos e ótimos efeitos especiais, ainda que rasteira, achei visualmente apreciável a romântica fábula futurista cyberpunk juvenil de James Cameron e Robert Rodriguez. Embora seu futurismo cinematográfico robótico seja reciclado (haja referências!) de grandes produções do passado (Rollerball - Os Gladiadores do Futuro (1975), Blade Runner (1982), Robocop (1987), A.I - Inteligência Artificial (2001), Elysium (2013), Ghost in the Shell (2017), Altered Carbon (2018)...), o seu figurino antiquado (retrô? vintage?) não tenha mudado em 500 anos (?), e não brinde o público com uma linha de humor sequer..., não deixa de ser um bom passatempo para quem gosta de muita ação (e pouca convicção) em um filme-pipoca de dimensões épicas. 

Acredito que quanto menos se esperar, mais o público vai gostar deste escapismo que começa com uma história bacana, com potencial, mas que acaba perdendo o embalo narrativo (não a violência padrão!!!) e se tornando cada vez mais palatável (ou genérico!), para, então, ir se dissipando da memória do espectador enquanto ele deixa a sala de cinema...


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

sábado, 24 de janeiro de 2015

Crítica: Grandes Olhos


O que será que torna popular, da noite para o dia, uma obra de arte? O acaso? Ser descoberta por uma celebridade? O artista ser também um exímio vendedor? E por que uma obra de arte que faz tanto sucesso com o grande público é tão menosprezada pela crítica especializada e por artistas menos conhecidos? Atualmente, o artista plástico brasileiro Romero Britto, xodó das celebridades norte-americanas e personalidades mundiais, que vende a rodo a sua colorida arte pop, é o saco de pancada da vez.

Quem, antes dele, também criou alvoroço nas terras do Tio Sam, na década 1960, foi o casal Walter e Margaret Keane, com seus quadros, pôsteres e cartões, onde figuravam crianças melancólicas e de grandes olhos. Excetuando Andy Warhol, que disse algo tipo: “Se a obra de Keane fosse ruim não faria tanto sucesso”, os especialistas (como o crítico John Canaday, de New York Times)  diziam que ela era apenas kitsch, decorativa e sem nenhum valor. O que não impediu o casal de faturar milhões de dólares e inspirar artistas de outras artes, como Tim Burton, também um colecionador de Keane. Hoje o que mais se vê são animações com personagens de olhos grandes.


E por falar em controvérsia, é Tim Burton quem traz à telona o segredo por trás do sucesso das telas e telinhas melodramáticas dos Keane em Grandes Olhos (Big Eyes, EUA, 2014). Na verdade, a fraude por trás do sucesso. Quem pintava os quadros era Margaret (Amy Adams), mas quem levava a fama (com a sua conivência) era Walter Keane (Christoph Waltz), seu marido. O casal se conheceu numa exposição de rua, em meados dos anos 1950: ele expondo suas paisagens parisienses e ela suas meninas tristes de grandes olhos. Logo se casaram e Walter decidiu que já era hora de buscar uma galeria. Esnobados, ele encontrou uma alternativa, alugar as paredes de um bar, onde a obra de Margareth foi descoberta e a dele preterida. Como ela também assinava Keane, ele achou melhor assumir a autoria, alegando para a esposa que o mercado não aceitava muito bem uma artista. A partir de então, Margaret pintava e Walter vendia os quadros, fazendo nome e fortuna. A farsa foi desvelada em 1970, seis anos após a separação do casal, mas o processo se estendeu até 1990.

Grandes Olhos é (mais) uma história (hollywoodiana) inspirada em fatos. Se na sinopse parece interessante, no cinema fica a desejar. Infelizmente, excetuando a direção de arte, com ótima reconstituição de época (1950,60,70), o filme não dá liga..., pincela, pincela e a tinta não seca. O roteiro raso e parcial, da irregular dupla Scott Alexander e Larry Karaszewski, beira o infantilóide..., respinga aqui e ali para resultar num descartável quadro borrado mais abstrato que expressivo.


A direção de Burton é tacanha, claudicante. Uma hora esboça uma dramédia e na outra uma comédrama. Não que isso importe, já que os “personagens” não têm alma, são meras caricaturas mudas ou falastronas. As performances de Waltz e de Adams são dignas do prêmio Framboesa de Ouro ou do Nafta. Desperdício total de talento. Ele, se esforçando para ser engraçado, está mais para vilão maçante de desenho animado do que para cínico. Ela, se esforçando no papel de vítima do sistema machofalocrata americano (da época?) que não dava voz e nem trabalho decente às mulheres, é só caras e bocas choramingas (também nas pinturas)..., até conhecer as salvadoras Testemunhas de Jeová.

Grandes Olhos (e pequenas ideias) é parcial do princípio ao fim. A única “verdade” que lhe interessa é a da “vítima” Margaret Kaene. Quanto ao egocêntrico Walter Kaene, pelo material biográfico disponível na web, não era tão inepto como a trama faz crer. Seu pioneirismo na cultura de massa, ao produzir em larga escala, antes de Warhol, reproduções das “suas” obras em pôsteres e cartões, para “atender” a quem não podia pagar pela obra original, merecia mais destaque. Mas ele não é o foco da história.

Para dar alguma substância ao melodrama, Burton até evoca no sub-subtexto, em duas breves sequências, uma “conversa clichê” sobre “o que é arte”, para o galerista Ruben (Jason Schwartzman), que influencia a compra de seus clientes, e para o crítico e historiador de arte do New York Times, John Canaday (Terence Stamp), que influencia os seus leitores ditando o que é ou não de “bom gosto”. Não tivesse morrido em 1985, seria interessante conhecer o pensamento de Canady para a arte que se “pratica” hoje em dia. Mas, como também essa discussão não é o foco da história, passa batida. Ah, e se você espera também o levantamento de uma bandeira do movimento feminista, esqueça..., verá apenas a “libertação econômica” de uma mulher que se cansou de criar e o marido levar a fama.


Grandes Olhos carece de ritmo, de humor (real), de romance (real), de arrebatamento. Seus personagens são tão assexuados e insossos que nem é preciso tirar a criançada da sala (elas não vão se interessar mesmo), tamanho o puritanismo da história: dois ou três beijinhos e nada mais. Nesse quesito a série baba Glee é muito mais avançada, com um só beijo o garoto “engravidou” a garota. A sequência-paródia (fósforos na fechadura) de O Iluminado (1980), de Stanley Kubrick, é tão imbecil que leva um tempinho para (quem tem) o cérebro processar. Ela também merece um Framboesa de Ouro ou um Nafta de pior sequência de todos os tempos.

Enfim, considerando a marca Tim Burton (no máximo em 30%) e que muitos conhecem os quadros (bregas?) das crianças olhudas de Keane, mas desconhecem a farsa autoral; que há ao menos uma sequência realmente burtoniana (no supermercado) digna de boa nota...,  se quiser, arrisque, vai que você gosta. A melhor consideração é sempre aquela que se faz por conta própria. 


Nota: Se tiver curiosidade em conhecer o intrincado mercado da arte, leia A Palavra Pintada (The Painted Word, 1975), de Tom Wolfe, lançado no Brasil pela LPM, em 1987, com tradução de Lia Alverga-Wyler.  


quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Crítica: Django Livre



Não fosse a sazonalidade, o cinema seria uma chatice sem fim. Com a magia das estações, no entanto, mexe e vira e mexe: ploft!..., das cinzas surge uma Fênix que voa conforme a intensidade da luz e do som, deixando brasas que (re)arderão quando sopradas. A beleza, graça e vitalidade da nova Fênix dependem da força do soprador que tanto pode (apenas) espalhar cinzas quanto produzir um retumbante fogaréu. Desde que “trocou” a vida de balconista da Video Archives pela de roteirista e diretor em Hollywood, Quentin Tarantino só faz botar lenha na sua fogueira. Para alguns espectadores é fogo que pela, para os detratores é fogo morto, só porque ele realiza primeiro o que sequer pensaram.

Segundo Tarantino, a criação de Django Livre surgiu há mais de 10 anos: A gênese inicial de toda a ideia foi a de um escravo que se torna um caçador de recompensas e sai atrás de feitores que se escondem em fazendas agrícolas. Eu comecei a escrever e o Django se apresentou a mim. No início, ele era apenas quem ele era - o sexto numa fileira de sete escravos acorrentados. Mas ele foi se revelando para mim, cada vez mais, à medida que eu ia escrevendo. Eu sempre quis fazer um faroeste. Eu gosto de todos os faroestes, mas como os spaghetti westerns sempre foram os meus favoritos, eu pensei que, no dia em que eu fizesse um, seria naquele universo do Sergio Corbucci. Ao adequar a história de um homem que se infiltra numa fazenda escravagista norte-americana, a fim de resgatar a sua esposa, ressaltou: Não pode ser mais angustiante do que era na vida real. Não pode ser mais surrealista do que era na vida real. Não pode ser mais ultrajante do que era na vida real. É inimaginável se pensar na dor e no sofrimento que ocorreram neste país. A realidade se encaixa no panorama colossal de um faroeste spaghetti que se poderia imaginar para esta história.


O título Django Livre é uma clara homenagem ao Django (1966), clássico faroeste spaghetti dirigido por Sergio Corbucci e estrelado por Franco Nero, que faz uma participação especial e divertida, para quem conhece o personagem original. O drama de amor e vingança, é ambientado no sul dos Estados Unidos, dois anos antes da Guerra Civil. A sua trama gira em torno de um caçador de recompensas alemão, o dr. King Schultz (Christoph Waltz) que, no encalço dos assassinos irmãos Brittle, descobre que o único jeito de encontra-los é contando com a ajuda do escravo Django (Jamie Foxx) que, por sua vez, vai precisar dos serviços do alemão para resgatar a sua mulher, Broomhilda (Kerry Washington), comprada pelo perverso Calvin Candie (Leonardo DiCaprio), que tem a seu serviço o repulsivo escravo doméstico Stephen (Samuel L. Jackson).

Django Livre (Django Unchained, EUA, 2012), assim como as obras anteriores do diretor, provoca diversas sensações (e reações) no espectador..., e não só pelo grau de violência (física e psicológica) e ou quantidade de sangue. Seus diálogos estranhos e cenas de puro humor negro (ôps!) tanto garantem riso, quanto convidam à reflexão, como a hilária sequência do ataque da abominável pré-ku klux klan, que pode ser confundida com paródia. Sabendo dosar e ou narrar, uma denúncia (ou crítica) feita com humor é muito mais eficiente.


Evitando as facilidades da computação gráfica, Tarantino optou por filmar o seu primeiro western (faroeste spaghetti ou bang bang) em locações no Wyoming, Louisiana e Califórnia, por serem regiões que remetem aos inimagináveis horrores da escravidão e para dar maior veracidade aos seus personagens, sujeitando atores e equipe técnica às intempéries. Não é um filme para indiferentes e ou apenas para fãs. A preocupação com detalhes técnicos, variedade musical e performances impecáveis de todo elenco são notáveis. É impossível destacar Waltz sem se lembrar de DiCaprio ou de L. Jackson..., todos em momentos inspiradíssimos.

Dramático e impactante, Django Livre vem despertando polêmica desde a sua estreia. Há quem o ache racista, preconceituoso e quem o considere um libelo contra a opressão, um grito de liberdade que precisa ser ouvido. Para o ator Dennis Christopher (Moguy): A escravatura não foi apenas uma pequena nódoa na História. É algo que serviu de alicerce à construção deste país e a crueldade que ela personifica é algo que precisamos analisar. Eu pesquisei muito antes de viajar até aqui, e uma das coisas que aprendi é o pouco que eu tinha aprendido sobre isso na escola. E você nunca sabe até onde pode ir a maldade humana a menos que discuta isso, a menos que você comece a falar disso, a menos que exemplifique isso.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Crítica: Carnage - Deus da Carnificina



Em uma discussão, na saída da escola, Zachary, de 11 anos, filho Nancy (Kate Winslet) e Alan (Christoph Waltz), agride Ethan, 11 anos, filho Penélope (Jodie Foster) e Michael (John C. Reilly)..., e sem querer armam o palco para que seus pais, sem ao menos saber a razão da briga, se encontrem para por um fim às desavenças. A princípio os dois casais se mostram excessivamente polidos, compreensivos, dispostos a encerrar o assunto de uma vez por todas. No entanto, com a interlocutora Penélope (que convocou a reunião em sua casa) extremamente protetora, a conversa entre eles vai se tornando agressiva e fora de controle. Sem que consigam se desvencilhar do assunto, vão se expondo cada vez mais, deixando cair a máscara e mostrando o quanto cada um pode superar o outro em hipocrisia.


Carnage - Deus da Carnificina (Carnage, 2011), de Roman Polanski é baseado na peça teatral homônima de Yasmina Reza, que colaborou com Polanski no roteiro. Excetuando os rápidos prólogo e epílogo (que têm a duração dos créditos) a trama toda se passa, praticamente, na sala de um apartamento, onde os personagens tornam-se prisioneiros do próprio verbo e ou, da falta dele, já que os diálogos estão disfarçados em monólogos à procura de um receptor. Todos divagam sobre o mesmo tema, sem a menor possibilidade de concordância. Nessa catarse coletiva e ou terapia em grupo, cada um acaba expondo a sua verdadeira face dentro e fora do casamento e do trabalho. A certa altura, os filhos passam a ser o menor dos seus problemas, pois o que interessa é o “eu?” ou “você!”. Bom..., pelo menos enquanto a “conversa” não é interrompida por insistentes telefonemas que, de tão desconexos, acabam fazendo parte do imbróglio em que se envolvem.  


Carnage - Deus da Carnificina é um filme bastante provocativo. A narrativa surreal, carregada de humor ácido e absurdo, lembra a do antológico O Anjo Exterminador (1962), de Luis Buñuel. O texto é fascinante, um desafio aos nervos do espectador preso ao círculo vicioso e ridículo do quarteto. É impossível ficar alheio à discussão tão real quanto banal dos casais e ou sequer deixar a sala. Ousado, ainda que teatral ou talvez por isso, o drama é capaz de fazer o espectador saudável adorar se aborrecer com o destempero dos seus civilizados personagens e refletir sobre a roupa suja que tem em casa.

Deus da Carnificina é o cinema de autor (diretor, ator, roteirista) em sua essência. Uma obra que realmente faz jus à sétima arte. Tirando a breve escorregadela de Winslet, numa sequência de bebedeira, o prazer de ver a excepcional performance dos quatro atores é grande. Preferir um a outro é difícil. O interesse muda conforme o “protagonista” da cena. Se bem que, há tempos não via Foster tão bem e Reilly tão natural. A maestria da direção de Polanski se completa com a fotografia de Pawel Edelman, que dá uma cor meio anos setenta ao drama. Um filme irresistível e definitivamente sem saída!

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Crítica: Os Três Mosqueteiros


O romance de aventura capa-e-espada Os Três Mosqueteiros, escrito em 1844, por Alexandre Dumas (1802 - 1870), que teve duas continuações: Vinte anos depois (1845) e O Visconde de Bagelonne (1847) - do qual faz parte O Homem Com a Máscara de Ferro, ganha uma inimaginável e grandiloquente versão cinematográfica. A divertida obra literária, com mais de 20 adaptações para o cinema, diversas animações e séries, volta às telas numa produção bem humorada, usando e abusando do melhor que a tecnologia pode oferecer. 


A história clássica fala do intrépido adolescente D’Artaghan (Logan Lerman), que deseja fazer parte da guarda palaciana e ruma a Paris onde, literalmente, acaba esbarrando nos “inseparáveis” três mosqueteiros: Athos (Matthew Macfadyen), Aramis (Luke Evans), Porthos (Ray Stevenson), e provocando um combate com soldados do malévolo Cardeal Richelieu (Christoph Waltz). Finda a luta, em vez de punição, ele é “premiado” e passa a servir o inseguro e fútil Rei Luis (Freddie Fox), que está sempre preocupado com a renovação do seu guarda-roupa. Em pouco tempo o intrépido garoto vai conhecer a graciosa Constance (Gabriella Wilde) e, na companhia dos novos amigos, enfrentar o “cão de guarda” Rochefort (Mads Mikkelsen), o oportunista e arrogante Duque de Buckingham (Orlando Bloom) e a bela espiã-dupla Milady de Winter (Milla Jovovich), capaz de abalar as estruturas da França, da Inglaterra, de Athos e do espectador desacompanhado. 


Os Três Mosqueteiros (The Three Musketeers, Alemanha/França/Reino Unido, 2011) dirigido por Paul W.S. Anderson, a partir do roteiro de Andrew Davies e Alex Litvak, (como é usual) mantém a trama central da obra de Dumas, e toma alguma liberdade (mudando identidades civis, ordem das intrigas políticas e românticas, traições, espionagem, furtos), fazendo a narrativa ganhar novos rumos na terra e no céu. Juvenil, e com boa dose de ingenuidade nas piadas, o filme recupera o frescor perdido de Os Piratas do Caribe, numa aventura repleta de personagens divertidos e humanos (?) em sua vilania ou heroísmo. 


A riquíssima produção enche os olhos do espectador e também lhe tira o fôlego, tamanha a beleza cenográfica, figurinos e efeitos especiais capitaneados por ótimo 3D. É provável que grande parte do público, que se assustou com o (coerente) sanguinolento Conan, note (positiva ou negativamente) a falta de sangue, violência explícita, erotismo, mas vale (re)lembrar que esta (re)leitura é infanto-juvenil. A suavização da obra de Dumas (que é baseada em personagens históricos), em nada tira a graça desta suntuosa produção fantasiosa que ensaia a continuidade (com o Cerco de La Rochelle), parecendo querer contar a história completa.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Crítica: Água para Elefantes

por Joba Tridente 

Água para Elefantes (Water for Elephants, EUA, 2011), de Francis Lawrence, baseado no best-seller homônimo de Sara Gruen, está dividindo opiniões de ontem e de hoje, para ontem e para hoje. Dizem que a romântica produção tem cara de filme antigo. Mas, qual é o problema em se fazer um filme de época nos dias de hoje? Ou melhor, como se fazer um filme, cuja ação se passa na década de 1930, sem que ele seja ou pareça ser um filme de época da década de 1930? Bahhh!

Água para Elefantes é, na medida, para quem aprecia um bom drama romântico, com pitadas de tragédia. Com roteiro assinado por Richard LaGravenese, que tomou a liberdade poética de unir personagens e pinçar apenas o essencial do livro de Gruen, o filme conta (muito bem) a história de Jacob Jankowski (Robert Pattinson), um jovem estudante de veterinária que perde os pais, num acidente, e se vê obrigado a pegar a estrada em busca de trabalho. Ao embarcar num trem, ele acaba se juntando à trupe do Circo Benzini Bros, que passa por dificuldades financeiras, por conta da Grande Depressão norte-americana. Ali, no palco das grandes ilusões, em meio a acolhedora família circense, Jacob sofre um bocado, nas mãos do psicótico August (Christoph Waltz), o dono do circo que não poupa nem a sua esposa Marlena (Reese Witherspoon), a amazona por quem se apaixona. No entanto, apesar das dores do ofício, perdas e humilhações, esta também será uma inesquecível e enriquecedora experiência de vida para ele: “Fui eu que peguei o trem, ou foi o trem que me pegou?”.

O mérito de Água para Elefantes, e que pode ser a causa de desagrados, é que ele não trata exatamente da recessão econômica americana, e sim daqueles que tentam sobreviver à Crise de 1929, como os integrantes do Circo Benzini Bros, capazes de ações sórdidas ou solidárias. A Grande Depressão é “mero” pano de fundo para o desenvolvimento de um (perigoso) triângulo amoroso e da relação deste (improvável) trio com os demais artistas circenses e, principalmente, com a exploração (cruel) dos animais que usam nas atrações principais. É um filme que emociona e provoca no espectador sentimentos que vão do riso às lágrimas, passando, com toda certeza, pela indignação. É uma história simples, talvez até banal, apesar das cenas mostrarem o contrário, na sua linearidade. Não é previsível, porque desde o início sabemos como ela irá terminar, mas surpreende pela bela e tocante narrativa.

A produção tem um apuro técnico invejável, na reconstituição de época, com ótima direção de arte. O figurino é caprichado e a bonita trilha sonora de James Newton Howard, complementa as cenas, sem induzir emoções baratas no espectador. A fotografia de Rodrigo Prieto faz a diferença no retrato de uma geração desesperada com a recessão econômica que engolfava ricos e pobres, artistas e plateias. É provável que muita gente vá ao cinema para ver o galã Robert Pattinson, que a crítica adora malhar, desde que o jovem ganhou projeção (e arrebatou corações) com a saga Crepúculo, que não vi e que, (talvez) por isso, ele não me pareceu tão mau ator assim. Pode ser ainda um pouco limitado, mas parece esforçado e disposto a convencer que (também) não é apenas um rostinho bonito no crepúsculo dos deuses. Reese Witherspoon, com seu tipo físico comum (mirrado), interpreta com alguma graça a glamourosa artista do circo decadente e Christoph Waltz, literalmente apavora, com seu maléfico August. Entretanto, quem rouba a cena é a adorável Rosie, interpretada pela veterana Tai, uma maravilhosa elefanta de 42 anos.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Crítica: O Besouro Verde


por Joba Tridente

O Besouro Verde (The Green Hornet, EUA, 2010), dirigido por Michel Gondry, é mais uma investida hollywoodiana no mundo dos super-heróis. A bola da vez não é um personagem de Histórias em Quadrinhos, mas de uma radionovela americana que reinou absoluta entre 1936 e 1952. Com a popularização da TV virou série, mas, apesar de lançar um mito: Bruce Lee (Kato), não obteve o mesmo sucesso do Rádio e, por conta da baixa audiência, na concorrência com o pop Batman, durou apenas uma temporada (1966 - 1967). Criado por George W. Trendle (1884 - 1972), o Besouro Verde serviu como referência para muitos personagens de Quadrinhos que, assim como no cinema, os seus autores “criaram” mudando uma coisinha aqui e outra acolá. Ou seja, diferentes mas iguais, com informações privilegiadas nos jornais ou tribunais onde trabalham etc.

A versão que chega aos cinemas é uma comédia de ação com os mesmos clichês do gênero (sem o humor), já que a violência exposta não é de brincadeirinha. O Besouro Verde, de Gondry, apenas atualiza os personagens originais ao narrar as aventuras e desventuras “heroicas” de Britt Reid (Seth Rogen), um playboy ridículo que vê a sua vida virar de ponta-cabeça quando seu pai, James Reid (Tom Wilkinson), morre e ele herda o jornal Sentinela Diário. Enquanto põe o Tico e o Teco para funcionar conhece Kato (Jay Chou), um ex-funcionário do seu pai, de rara inteligência e mestre das artes marciais e mecânicas, e após um vingativo ato de delinquência propõe a ele uma parceria para combater os criminosos de Los Angeles. Como nenhum dos dois tem experiência no assunto, eles vão precisar da colaboração da jornalista especialista em criminologia Lenore Case (Cameron Diaz) e muita tecnologia para escapar das armadilhas do descerebrado vilão fashion Chudnofsky (Christoph Waltz).


O Besouro Verde é uma espécie de versão pastelão do violentíssimo Kick-Ass - Quebrando Tudo (2010), de Matthew Vaughn. Na verdade poderia ser o contrário, já que esta produção vem (en)rolando há uns bons 10 anos. Assim, temos o mesmo tipo de vilão dominando o quartel das drogas; os heróis de ocasião utilizando a internet em busca de vídeos, seguidores ou de emprego; a preocupação (de vilão e heróis) com a escolha do figurino e de um nome; a violência clichê explode quarteirão, carro, gente etc. O diferencial está apenas no humor, com algumas tiradas nonsense e outras realmente engraçadas, como as críticas às roupas ao cínico Chudnofsky.

É um filme com muita ação (exagerada) e alguns bons efeitos especiais (apesar da enganação 3D), para agradar principalmente o público (masculino) adolescente ou aquele que não se cansa de ver sempre a mesma coisa. O roteiro é meio confuso, mas a aventura poderia ser bem pior, se tivesse vingado a ideia machista de Kevin Smith em transformar o Kato em Kata, possivelmente para botar umas pitadas românticas e cenas de sexo entre os parceiros. Acho que, então, do Besouro Verde original só iria sobrar o nome. O que, infelizmente, é normal nas adaptações cinematográficas e ou revitalização das HQs. Bem, se vale destacar a boa atuação de Christoph Waltz e a agilidade do astro tailandês Jay Chou, que roubam a cena, vale esquecer o decepcionante “humor alternativo” de Seth Rogen (também roteirista e produtor executivo do filme), que não vai além de caras e bocas. O seu Besouro Verde, super-hiper-alter ego de Reid, é um personagem que está na fita para ser engraçado, já que faz absolutamente nada na trama, mas não passa de um mané. Nota-se, aí, que a comédia de Rogen é bem outra. Quanto a Cameron Diaz, ela matraqueia em uma cena aqui e outra acolá, e só!

NOTA: Pra saber mais sobre a origem do Besouro Verde, sugiro a matéria publicada, em 2004, no Sobrecarga e ou outra publicada posteriormente no InfanTV. Para saber sobre (a já esperada) a descaracterização dele, nas HQs, sugiro matéria veiculada no Vilablog, sobre Kevin Smith, e no Ambrosia, sobre a Editora Dynamite.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Crítica: Bastardos Inglórios


Bastardos Inglórios
por Joba Tridente

Todo cinéfilo que conhece os filmes do cinéfilo Quentin Tarantino sabe das suas referências cinematográficas (menos explícitas que as do parceiro Robert Rodriguez?) ou releituras atualizadas de grandes clássicos ou de produções “desconhecidas”. Ele mesmo nunca negou isso e até cita suas fontes. Em Bastardos Inglórios não é diferente, porém mais divertido. Aliás, acho que Quentin Tarantino só se torna interessante quando não é levado tão a sério, assim como os seus filmes de puro delírio. Afinal, o seu negócio é produzir diversão e não dissertação acadêmica.

Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, EUA, Alemanha, 2009), de Quentin Tarantino, além de divertido, pode ser visto como uma versão alternativa de Operação Valquíria (Valkyrie - de Bryan Singer/2008), entre outras produções cinematográficas sobre a 2ª Guerra Mundial, e até mesmo da verdadeira história desta guerra infame. Num clima de faroeste, bem ao gosto de Sérgio Leone e John Ford, e com as suas melhores canções, a lenda dos Bastardos Inglórios começa com um Era Uma vez... O plano do grupo de soldados americanos judeus é o de matar, com requintes de crueldade, o maior número possível de nazistas, que ocupam a França, e assim espalhar o pânico entre os soldados e o alto comando alemão. A ação suicida dá certo e alguns integrantes do grupo são destacados pra participar de uma operação de extermínio coletivo da alta cúpula nazista, incluindo seu chefe maior, Hitler, durante a estréia do filme NATION’S PRIDE (Orgulho da Nação), numa sala de cinema em Paris.

Ao focalizar a ação numa pomposa sessão de cinema, Tarantino transforma arte cinematográfica (e o próprio cinema) num veículo de criação e destruição da própria arte, já que o filme em questão é sobre os atos heróicos de um soldado nazista que vira astro de cinema, ao interpretar a si mesmo matando centenas de soldados inimigos. Arte ou heroísmo é apenas uma questão de ponto de vista. Palco e sujeito da mídia, desde a sua invenção, o cinema ainda serve aos mais diferentes propósitos, da diversão à propaganda política. Portanto, a catarse dos bastardos vingadores, numa sala de cinema, é muito subjetiva. Mas, eficiente, se possível. Quem não se lembra da trágica noite de 3 de novembro de 1999, quando, na última sessão de Clube da Luta (Fight Club, 1999), numa sala de cinema em São Paulo, o estudante de medicina Mateus da Costa Meira se levantou, sacou uma submetralhadora 9mm e começou a atirar, matando três pessoas e ferindo quatro?

Bastardos Inglórios tem um elenco charmoso, multinacional e afinadíssimo, que vai de Brad Pitt (Aldo "O Apache" Raine) e Diane Kruger (atriz e espiã Bridget von Hammersmark) a Daniel Brühl (militar e ator Fredrick Zoller). Mas o destaque unânime fica com o ator austríaco Christoph Waltz (tenente-coronel Hans Landa) que não rouba só a cena, mas o filme inteiro. Bastardos Inglórios é falado em inglês (britânico e americano), francês e alemão, o que dá mais veracidade e proporciona excelentes tiradas de humor. É um Tarantino mais experiente, mais centrado nos diálogos, nos gestos, nos detalhes muito bem fotografados, mas ainda é o Tarantino com gosto pelas imagens sangrentas, mesmo que num volume menor. O filme, contado em capítulos (será coincidência que A Pedra Mágica, de Robert Rodriguez, também seja em capítulos?), com doses precisas de ação, violência, suspense, paixão, intriga..., tem 2h30, mas passa rapidinho.

Bastardos Inglórios é diversão certa para fãs de Tarantino e também para o espectador que não aguenta mais ver filme de guerra cheio de judeu coitadinho e alemão vítima da situação. Se a vingança é doce ou amarga, saboreada com champanhe, whisky, cerveja ou leite, só aquele que se vinga é que pode dizer. Mas, que o final tão à flor da pele, que não deixa pedra sobre pedra, vai dar a muita gente vontade de aplaudir..., ah, isso vai!
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