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quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Crítica: O Cristal Encantado: A Era da Resistência



O Cristal Encantado: A Era da Resistência
por Joba Tridente

Creio que uma das minhas memórias cinematográficas afetivas mais significativas é a do fascinante filme O Cristal Encantado (1982), fantasia dirigida pelo mestre das marionetes Jim Henson (1936-1990), que também dirigiu o mágico Labirinto (1986) e diversos filmes para a tv e cinema das suas famosas criações: Os Muppetts e Vila Sésamo..., e por Frank Oz (Pequena Loja de Horrores, 1986; Os Safados, 1988; Nosso Querido Bob?, 1991; Será Que Ele é?, 1997; Os Picaretas, 1999; A Carta Final, 2001; Morte no Funeral, 2007, entre outros, incluindo séries para televisão).

A razão de tal memória é porque (na época) estava vivendo uma fase de pesquisas míticas (não confundir com místicas) e o surpreendente final da trama sombria (quando os urRu (bem) e os Skeksis (mal) se fundem e voltam a ser unos e divinos UrSkeks) me levou a fazer uma analogia ao discurso de Aristófanes (447a.C.-385a.C.), proferido em O Banquete (385 a.C.- 380 a.C.), de Platão (428 a.C.-348 a.C.), sobre o amor/desejo, em que ele discorre sobre o mito da  unidade primitiva (ou o princípio uno dos seres humanos duplos de si mesmos) e sua posterior mutilação (separação), sujeitando o homem a passar a vida à procura da sua (cara) metade contrária e, ao encontrá-la, fundir-se novamente num só ser e reencontrar o perfeito equilíbrio com a natureza... Daí o meu entusiasmo com a série O Cristal Encantado: A Era da Resistência (The Dark Crystal: Age of Resistance, 2019), que mistura artesania da melhor qualidade na criação de bonecos belíssimos e tecnologia de ponta (CGI) nos detalhamentos para uma releitura deslumbrante do filme de  Henson e Oz.


A primeira temporada da imersiva série, já disponível na Netflix, em dez episódios dirigidos pelo francês Louis Leterrier (que melhorou muito desde os esquecíveis Fúria de Titãs e Truque de Mestre), e que conta com a inestimável participação do genial ilustrador inglês Brian Fround (O Cristal Encantado e Labirinto) na criação e arte das marionetes, expande maravilhosamente o universo do Planeta Thra..., onde sete distintos clãs de inocentes Gelflings e um de graciosos Podlings estão submetidos à “proteção” dos perversos Skeksis, guardiões do poderoso Cristal da Verdade, o Coração de Thra, enquanto a anciã e ex-guardiã Mãe Aughra perscruta o universo em seu potente observatório.

Além das espécies citadas, Thra está repleta de plantas e animais fantásticos. Porém, quando o planeta começa a apresentar sinais de desequilíbrio, escasseando a sua energia natural, afetando principalmente a vida dos Gelflings, e a verdade sobre as intenções malignas dos asquerosos reptilianos abutres Skeksis vem à tona, os pacatos elfos precisarão deixar as suas diferenças pessoais e ou tribais de lado e lutar pelo bem comum de todos os que vivem nos arredores da temível fortaleza dos dominadores..., sem saber se poderão contar com a ajuda do grande oráculo Mãe Aughra, mas cientes de que muitos deles podem não sobreviver. Acredite, algumas perdas você não vai se conformar de jeito nenhum.


O Cristal Encantado: A Era da Resistência que se passa antes dos fatos narrados no cultuado filme O Cristal Encantado, é potencialmente matriarcal e ou feminista. Cada clã é administrado por uma Gelfling Maudra e entre os três protagonistas Gelfings selecionados para encontrar uma forma de reequilibrar o planeta e derrotar os Skeksis, estão o intrépido guerreiro Rian (marionetista: Neil Sterenberg, voz: Taron Egerton , a erudita Princesa Brea (marionetista: Alice Dinnean, voz: Anya Taylor-Joy), com sua insaciável fome de saber e entender o mundo ao seu redor, e a adorável e inesquecível pacifista das cavernas Deet (marionetista: Beccy Henderson, voz: Nathalie Emmanuel). Os três, em performances incríveis de seus manipuladores e dubladores, divertem e emocionam profundamente o público. Não há como ficar indiferente à ingenuidade e ao pavor deles diante do mal desconhecido e da coragem inigualável para enfrentar a força maléfica dos Skeksis. Aí, em certos momentos íntimos ou sequências de ação espetacular, a arte dos bonecos é tão precisa que a gente, absorvido pelo contexto, nem lembra que quem está em cena são marionetes e não atores de carne e osso...


É claro que uma produção impecável, de cair o queixo, como essa, não ia deixar barato, e contratou os melhores marionetistas do mercado e um time de ótimos atores e atrizes jovens e tarimbados para dar vida e voz aos bonecos que, em algumas cenas, com poucos movimentos, interpretam melhor que muita gente por aí. Eles têm reações humanas, choram, e nas cenas de ação mirabolante até dispensam os dublês.

A mim, os mais expressivos são a inesquecível e apaixonante Deet (maravilhosa) e a impaciente ogro Mãe Auhgra. Mas, no geral, todos os bonecos são carismáticos, inclusive os literalmente repugnantes e por vezes divertidos (com seu humor negro) Skeksis. Como o elenco é imenso, caso se interesse, confira a lista de marionetistas e atores aqui e as características dos personagens aqui. A sinopse de cada episódio você conhece no próprio canal. Cada capítulo tem a metragem certa para o desenvolvimento da trama e dos personagens com suas inacreditáveis idiossincrasias.


Consciente ou não, o roteiro escrito por Jeffrey Addiss e Will Matthews, deixa escapar em suas entrelinhas, críticas ao sistema capitalista e ao consumo desenfreado de combustível fóssil, ao agronegócio, ao aquecimento global, à intolerância, ao fascismo e ao “analfabeto útil” que acata ordens sem (ter coragem de) questionar. Aqui, ainda não é o discurso de Aristófanes sobre a unidade que chama a atenção, mas o Mito da Caverna, do diálogo entre Sócrates (469 a.C.-399 a.C.) e Glauco em A República (380 a.C.), de Platão. No enredo da série, Deet sai da profundeza da caverna onde vive com seu povo, para conhecer a realidade e o desequilíbrio de Thra, enquanto a insegura e intransigente Princesa Seladon (marionetista: Helena Smee, voz: Gugu Mbatha-Raw), ignorando a realidade exterior, onde vive, penetra na caverna sombria dos dissimulados Skeksis em busca de uma verdade tranquilizadora...


Enfim, é preciso tomar cuidado ao falar de O Cristal Encantado: A Era da Resistência para não cometer algum spoiler, já que cada capítulo traz surpresas nas reviravoltas sensacionais do drama e revelações impactante da personalidade de cada personagem, principalmente dos imorais Skeksis, mexendo com os conceitos do espectador. Comenta-se que a segunda temporada, talvez mais trágica, já está acertada. Porém, independente dela ser realizada ou não, esta maravilha que está no ar e que faria Jim Henson se orgulhar dos filhos que tem e dos amigos artistas que cultivou em vida, esta fantasia sublime, de realismo impressionante e técnica irretocável, ao meu ver, merece todos os prêmios possíveis do ano. Ah, não deixe de assistir, grudado no último episódio, ao Making, que mostra todo o processo de criação da série, incluindo roteiro, cenários, bonecos, CGI, set, filmagem, figurino, trilha sonora etc. É isso! Me desculpe se adjetivei (ou filosofei) mais que resenhei!


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Crítica: Os Muppets



Candidato a uma das melhores comédias do ano, Os Muppets retornam aos cinemas literalmente em alto estilo, já que Miss Piggy, Caco, o Sapo (ou Kermit) e Walter, foram vestidos por grifes famosas. Mais ousados, dramáticos, cômicos e malucos do que nunca, estes famosos e adoráveis bonecos do mundo animado, criados pelo genial Jim Henson (1936 - 1990) fazem o espectador confundir as lágrimas do riso e da emoção. Vale muito cada um delas.

Esta sétima adaptação de Os Muppets (The Muppets, EUA, 2011), dirigida por James Bobin, baseada no roteiro de Jason Segel e Nicholas Stoller, traz um história muito bacana sobre a vida dos artistas de show de variedades, depois da fama. Ou melhor, sobre os bastidores da fama, quando cai o pano, o público deixa o teatro, e a mídia some. O que fazer quando não se é mais uma celebridade? Os Muppets parecem ter a resposta, mesmo que, a princípio, ela não faça muito sentido.


Tudo começa na adocicada Smalltown, EUA, um lugarejo onde os alegres moradores cantam felizes. É dali que o amigável e distraído Gary (Jason Segel) e a sua namorada Mary (Amy Adams) saem para passar as férias em Los Angeles, levando junto o pequeno grande Walter (fã número um dos Muppets e irmão de Gary), que acaba descobrindo uma armação do megaempresário Tex Richman (Chris Cooper) e dos rabugentos Statler e Waldorf, relacionada à posse do velho Teatro Muppet. Para evitar o pior, os três se juntam a Caco, na tentativa de conseguir reunir toda a trupe dos Muppets, montar um Programa Teleton, arrecadar US$ 10 milhões e recuperar a casa de espetáculos. Em se tratando de bonecos sonhadores e temperamentais, a busca aos antigos colegas de palco, o resgate dos talentos perdidos, não será nada fácil, mas será hilária.


Com uma ótima história repleta de confusões, deliciosos números musicais e excelentes canções, Os Muppets é um filme lúdico, mágico, bem humorado, que mata a saudade dos fãs e diverte até quem nunca ouviu falar dos bonecos mais adoráveis da televisão, cinema e (agora) internet. Em poucos minutos ele conquista todo e qualquer espectador. As piadas vão do nonsense ao surreal, sem esquecer a acidez dos oportunistas inoportunos e sempre rabugentos Statler (Nós não queríamos estar no filme, mas achamos que era nosso dever.) e Waldorf (É, alguém precisava alertar ao público sobre o que vão assistir. O mínimo que as pessoas podem fazer é compartilhar nosso sofrimento.) com suas tiradas sarcásticas sobre o espetáculo e principalmente sobre o elenco, se divertindo com o próprio desgosto cultural. Ele brinca com as mídias, as celebridades e os negócios artísticos, mas também fala sério, ao destacar a importância de cada integrante numa montagem teatral.


Como já é tradição em produções anteriores (desde a sua criação) Os Muppets traz, em situações inusitadas, astros como David Grohl, vocalista do Foo Figthers, tocando com Urso Fozzie na trash band Os Moopets, Jack Black, como parceiro de Animal, numa clínica de tratamento de gerenciamento de raiva, e Jim Parsons, num dueto (ou seria quarteto?) da bonita canção “Man or Muppet”, de Bret Mckenzie, com Gary/Muppet e Walter. Tem ainda, Whoopi Goldberg, Zach Galifianakis, Emily Blunt, entre outros, em rápidas aparições. No entanto, celebridades coadjuvantes à parte, as grandes estrelas são mesmos os irônicos bonecos que, livres das “amarras”, roubam as cenas, até dos outros bonecos, como a impagável Miss Piggy, na pele de uma impagável e elegantérrima editora de moda extragrande da Vogue Paris, ou o simpático Walter, arrasando (também) no final encantador. É ver para crer!



Os Muppets, infelizmente, não apresenta divertidos erros de filmagem, junto com os créditos finais, mas, em contrapartida abre a sessão com o engraçadíssimo curta Um Pequeno Grande Erro (Small Fry), do Toy Story, mostrando como os brinquedos enfrentam seus traumas, em uma Terapia de Grupo para Bonecos Abandonados em Parque de Diversão. Portanto, não chegue atrasado.

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