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domingo, 29 de março de 2015

Crítica: Vício Inerente


Se você não sabe quem é Paul Thomas Anderson e ou Thomas Pynchon e ficou curioso para assistir o Vicio Inerente (Inherent Vice, EUA, 2014), se prepare para mergulhar num mundo absurdo. Ou nem tanto. Em uma temporada de cinebiograficções (ficções inspiradas em biografias), Vício Inerente é uma bem-vinda lufada (ôps!) nas telas de cinema. Mas, saiba que, assim como o fascinante Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), de Alejandro González Iñárritu, ou o perturbador (“kafkiano”) O Duplo, de Richard Ayoade, baseado no conto homônimo de Dostoievski, o policial neo-noir Vício Inerente tira qualquer um da zona de conforto do ah!, oh!, nossa!..., para o Ahhh! Ohhh! Nosssaaa!

Baseado no livro homônimo de Thomas Pynchon, o policial neo-noir Vício Inerente, dirigido e roteirizado por Paul Thomas Anderson, tem uma pegada de comédia nonsense que arrasta o espectador numa lisérgica viagem ao submundo da intriga policial, digo, da investigação policial, nos psicodélicos anos 1970. Há no ar o prenúncio do fim dos sonhos, da mercantilização da cultura hippie e da nova ordem yuppie. Há no ar desencanto e melancolia e o eco de Woodstock cada vez mais distante. Há na tela uma novela pra lá de maluca!


À margem do establishment, o investigador particular Larry "Doc" Sportello (Joaquin Phoenix), hippie até o talo, recebe a visita da sua bela ex-namorada Shasta (Katerine Waterston), apavorada com um plano funesto arquitetado por Sloan (Serena Scott Thomas), a mulher do seu amante Michael Wolfmann (Eric Roberts). Logo depois Shasta e Wolfmann desaparecem. Tentando descobrir o paradeiro da garota, Doc acaba na mira do paranoico tenente "Bigfoot" Bjornsen (Josh Brolin, roubando cena até do excelente Phoenix), que também é ator de seriado policial..., e de uma escória (doida de pedra ou de pó) que parece ter saído das páginas de alguma HQ retrô. Como se não bastasse, Doc ainda encontra pela frente alguns clientes antigos, reaparecendo do nada, e novos, desaparecendo a todo instante, como o camaleônico Coy Harlingen (Owen Wilson), um ex-comunista a serviço da contrainteligência.

Vício Inerente tem uma trama tão intrincada que nem mesmo os personagens parecem ter um rumo. Vão quicando num lugar e noutro conforme o odor e o sabor do vício que os prende numa grande teia, onde a decisão de qual história e ou alucinação o espectador vai degustar ou aspirar fica por conta da enigmática “aranha” Sortilège (Joanna Newsom), a tecelã das ausências. Ele pode querer dizer muita coisa, tipo visitar o passado estadunidense para compreender o presente americano, e ou simplesmente contar uma divertida e quadrinhesca história de alucinados detetives e seus casos escabrosos. Só isso, nada mais. Não questionei metáforas (se é que há), preferi acompanhar a viagem pastelão para adultos desconectados à procura de uma tomada. Mas, acho que um bocado de gente vai ficar com o plugue na mão.


Vício Inerente é um filme de grandes performances, evidenciadas pelo gráfico enquadramento de história em quadrinho. Mas, sem dúvida, quando Phoenix e Brolin estão em cena, não tem pra ninguém. No entanto, ainda que o emaconhado investigador Doc, de Joaquin Phoenix seja formidável, a personagem de Josh Brolin, na estrutura, é melhor resolvida. O seu depressivo Pé Grande, com corte de cabelo escovinha, é mordaz e violento, mas de uma fragilidade tocante. A sua cena final que o diga. E por falar em cena, numa narrativa tão fragmentada e repleta de bons momentos, é difícil, mas destaco duas sequências espetaculares: a que se passa dentro de um carro, onde Doc (Phoenix), em estado de choque, assiste ao Pé Grande (Brolin) lanchando, não tem preço..., a outra é de humor negro e mostra Coy (Owen) explicando para Doc como conseguiu tocar numa banda sem que os músicos se dessem conta de que ele era um estranho.

Para quem gosta de reminiscência, sim, Vício Inerente lembra Um Perigoso Adeus (The Long Goodbye, 1973), de Robert Altman (1925-2006), baseado na novela homônima de Raymond Chandler (1888-1959), lançada em 1953, não só pelo fato da obra de Altman parecer referência para a obra de Anderson..., mas porque no filme de Altman o roteiro de Leigh Brackett transferiu a ação dos anos 1950 para os alucinados 1970. Então, quando se pinça uma baforada daqui e outra dacolá, naqueles anos loucos... Agora, o quanto Pynchon aspirou de Chandler, pra sua Inherent Vice (2009), você decide!


Enfim, considerando que Vício Inerente tem clima, cor e charme de Graphic Novel; que a reconstituição de época é impecável; que seleção musical é deliciosa, ainda que não inclua Meu Bem, Meu Mal (1981), de Caetano Veloso, que sintetiza o real vício de Doc, que é a paixão por Shasta: Você é meu caminho/ Meu vinho, meu vício/ Desde o início estava você/ Meu bálsamo benigno/ Meu signo, meu guru/ Porto seguro onde eu vou ter/ Meu mar e minha mãe/ Meu medo e meu champanhe/ Visão do espaço sideral/ Onde o que eu sou se afoga/ Meu fumo e minha yoga/ Você é minha droga/ Paixão e carnaval/ Meu zen, meu bem, meu mal;  que a certa altura o espectador fica perdido na poltrona da sala e só lhe resta assistir a um tempo (tão celebrado) se esvaindo na tela, certo de que anos como 1960/1970, quando o comunitário tentava domar o individualismo na ingenuidade (?) da paz e amor e o poder da flor, só serão possíveis no cinema..., a minha dica é que veja despretensiosamente, como se lesse um bom livro. O que houver (?) de subliminar, que o cérebro resgate depois!


NOTA: Download (grátis) da trilha sonora alternativa de Inherent Vice..., na verdade trilha sonora do livro..., montada e disponibilizada desde 04 de outubro de 2014, pelo crítico Philip J Reen, no curioso site Noiseless Chatter. Para entender melhor essa história de trilha sonora literária acesse o site e leia a matéria. Ah, a trilha de Reed é ótima e tão mix quanto a do filme de Anderson.

 Acho que é isso!

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Crítica: Os Estagiários


Ainda não é o filme sobre o Google, que muita gente gostaria de ver (inclusive eu, que achei insuportável Rede Social), mas não deixa de ser uma brevíssima amostra, mesmo com grande liberdade “poética”, do que pode vir a ser.

Quando se trata de filme norte-americano tipo disputa (colegial), a variação é mínima, nos grupos que concorrem a um prêmio (emprego, universidade, time), geralmente formado por personagens da mesma faixa etária. No grupo “a” (o favorito!) um personagem inteligente, porém arrogante (que se sabe como vai terminar) comanda seus “amigos” subservientes. No grupo “z­“ (o azarão!) um personagem esforçado, porém simpático, “lidera” seus companheiros igualmente excluídos. As equipes entre “a” e “z” nunca têm importância, pois a disputa é entre a “melhor” (que sempre se dá mal) e a “pior” (que sempre se dá bem). Às vezes o final surpreende, contrariando o clichê, como em Universidade Monstros. Mas, no geral, a regra do jogo é a mesma: disse me disse, puxada de tapete, bullying, trapaça..., até o final (evidentemente) feliz. Mensagens edificantes sobre aprendizado, amizade, confiança, superação etc, não faltam na premiação dos ex-fracassados!

Os Estagiários (The Internship, EUA, 2013), dirigido por Shawn Levy, é uma comédia mediana que não foge a nenhum clichê do “gênero” competição. Muda-se apenas algumas características físicas e psicológicas dos competidores e a locação. A história juvenil gira em torno dos quarentões desempregados Billy McMahon (Vince Vaughn) e Nick Campbell (Owen Wilson) que, tendo nada a perder, se inscrevem, como estagiários, em um concorrido programa de habilidades que oferece vagas no Google. Os dois “analfabetos digitais” que, a exemplo de Alexandra Owens (Jennifer Beals), de Flashdance, citada por Billy, não desistem de seus sonhos, vão ralar um bocado, para serem aceitos e competir “de igual” com os jovens geeks.


Liberdades “corporativas” à parte, Os Estagiários, escrito por Vince Vaughn e Jared Stern, vale mais pela viagem turística ao sistema Google, do que pela sua trama simplória. Nem mesmo o humor rende o esperado. Se muito, fica ali no engraçadinho e bobices nerdianas para adolescente “Y”. Tampouco a ingenuidade da dupla protagonista convence (não saber sobre X-Men?). Até a dissecação dos neologismos do Google (Nooglers, Googliness) é mais engraçada que a maioria das falas e ou tiradas (sobre idade, gosto musical e cinematográfico).

A narrativa tenta um diferencial (mesmo que rápido) no confronto de gerações (e aptidões), mas a previsibilidade fala mais alto e nem personagens psicologicamente “curiosos”, como Yo Yo (Tobit Raphael), um jovem sob pressão maternal, e ou Stewart Twombly (Dylan O'Brien), o geek obsessivo, escapam da simplificação. É tudo muito certinho..., e o que está fora de ordem acaba se ajustando antes do clichê final. Em alguns momentos a trama me pareceu próxima a Os Picaretas, só que, infelizmente, sem a ousadia e genialidade Frank Oz (direção) e Steve Martin (roteiro).


Os Estagiários tem boa produção, bom elenco (formado por jovens atores), argumento razoável..., mas não surpreende..., não arrebata.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Crítica: Meia Noite em Paris



O tempo passa, a idade avança e a cada filme Woody Allen (não que precise) prova que ainda é um grande mestre da sua arte. A comédia Meia Noite em Paris é mais uma daquelas pérolas que deve matar de inveja os cineastas menores que "se fazem” em cima da escatologia e das repetidas “piadas” de mau gosto. Não é que Woody não se repita em suas histórias, a diferença é que, se ele o faz, é sempre por um novo viés. 

Quem nunca quis viver numa época diferente, até mesmo para fugir da sua realidade? Em Meia Noite em Paris (Midnight in Paris, 2011), o norte-americano Gil Pender (Owen Wilson), roteirista de sucesso em Hollywood, sonha em largar a carreira para se dedicar exclusivamente à literatura. Apaixonado por Paris e embevecido com a ideia de dar um novo rumo à sua vida de escritor, aproveita que está de férias na capital francesa, junto com a noiva Inez (Rachel McAdams) e os pais dela, John (Kurt Fuller) e Helen (Mimi Kennedy), para comunicar a sua decisão. Se os opostos se atraem, Gil e Inez se distraem em interesses outros. Ele quer consumir cultura, encontrar resquícios da adorável Paris dos dourados anos 1920. Ela prefere o consumo material e gastronômico. Ele quer morar em Paris e ela em Malibu. Ele busca na reflexão sobre o fazer arte a inspiração para o seu livro. Ela se contenta em ouvir o enciclopédico pedante Paul (Michael Sheen) falar sobre arte. 


Desencontros à parte, certa noite Gil está meio perdido, a caminho do hotel, quando um carro antigo para ao seu lado e ele é convidado por F. Scott Fitzgerald (Tom Hiddleston) e Zelda Fitzgerald (Alison Pill) a entrar e a passear pela Cidade Luz e conhecer os seus mais ilustres moradores: Gertrude Stein (Kathy Bates), Hemingway (Corey Stoll), Cole Porter (Yves Heck), Picasso (Marcial Di Fonzo Bo), Salvador Dali (Adrien Brody), T.S. Eliot (David Lowe), Buñuel (Adrien de Van), entre outros. A cada noite a magia se repete e ele viaja ao passado para saborear a companhia de artistas renomados e da encantadora estilista Adriana (Marion Cotillard), ex-amante de alguns futuros famosos. Enquanto para Gil a divertida viagem é algo surreal, para os verdadeiros surrealistas, é coisa normal. O que rende ótimas e inteligentes piadas. O mais interessante é que esses encontros maravilhosos e além da imaginação são tratados de forma tão natural e distraída que o espectador até se esquece da excelente direção de arte de Anne Seibel

Paris é a cidade fetiche de muita gente. Já foi homenageada inúmeras vezes por outros autores americanos, mas raramente de forma tão amorosa como fazem Allen, além do cartão postal, e o diretor de fotografia Darius Khondji, além do lugar comum. Na história que se desenha e se escreve, Woody mergulha fundo na alma cultural (e romântica) dela, vasculha o seu passado para entender o pensamento intelectual que influencia o seu presente. Se a cultura de amanhã é o reflexo da arte que se faz hoje, por que pensar e considerar o ontem tão melhor, se o que interessa é que o futuro seja promissor? É através dessa ironia da sublimação de um tempo passado, que está sempre retornando ao passado, na indefinição do futuro, que Allen vai tecendo a sua filosofia de vida e da arte, às vezes melancólico, às vezes realista, mas nunca gratuito. Ele pode até parecer um derrotado, mas é, com certeza, cheio de esperança. 


Com seu humor nonsense e repleto de referências culturais, Meia Noite em Paris é um filme que requer um pouco mais de conhecimento do espectador. Se desconhecer os autores citados e ou as suas obras, com certeza não vai entender nenhuma piada. A inspirada comédia que garante um sorriso gostoso e uma inesquecível viagem por Paris traz um elenco afinado (com o seu tempo). É bem provável que ao final, quando Gil Pender finalmente curtir a chuva parisiense, que há de levar bem mais que a sua alma, o público fique com uma dúvida: se a arte de hoje é (realmente) feita para o amanhã, a de ontem é (realmente) consumida hoje, quando ela é (realmente) contemporânea? 
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