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sábado, 30 de novembro de 2019

Crítica: Entre Facas e Segredos



ENTRE FACAS E SEGREDOS
por Joba Tridente

Após a decepcionante versão de Kenneth Branagh para Assassinato no Expresso do Oriente, em 2017,  os fãs de filme de mistério já podem compensar a escorregada do britânico (que em 2020 lança a releitura de Morte no Nilo, já adaptada em 1978 por John Guillermin), com o divertido Entre Facas e Segredos (Knives Out, 2019) do americano Rian Johnson (Looper, Star Wars - Os Últimos Jedi).


A história acompanha as investigações do célebre detetive Benoit Blanc (Daniel Craig), contratado anonimamente, para resolver as circunstâncias da morte (assassinato ou suicídio?) do famoso escritor de suspense Harlan Thrombey (Christopher Plummer), encontrado degolado, em sua mansão, na manhã seguinte à comemoração do seu 85.º aniversário. Harlan era um milionário cercado pelos filhos, noras e netos sanguessugas que ele sustentava de bom grado. Pelo menos é o que faz parecer a sua parentalha feliz com a mesada viciante. E quando se trata de aparência, os Thrombey, sejam eles descendentes e ou agregados, são mestres em causar boa impressão..., ou se safar tentando. Para o detetive da polícia, tenente Elliott (LaKeith Stanfield), a cena da morte do escritor sugere suicídio. Para o experiente Blanc, assim como o vazio no buraco da rosquinha, a cena da morte guarda alguns segredos que ele espera desvelar antes que o Testamento de Harlan apague os vestígios do suicídio (?) ou do assassinato (?). Quanto ao policial Trooper Wagner (Noah Segan), que é apaixonado por romances de mistério e acompanha eufórico os desdobramentos do caso, ele não vê a hora da intrincada trama (que imita a arte literária) fazer sentido e receber o ponto final de Benoit Blanc.


O interessante nessa trama de simplicidade enganosa e muito divertida em suas “reviravoltas”, escrita pelo próprio Johnson, é que, praticamente, desde o princípio, o espectador sabe (ou pensa que sabe) como ocorreu a morte de Harlan e vai ficar matutando se deixou escapar alguma gota do mistério, já que, se está (?) tudo esclarecido, Blanc insiste em encontrar a peça motivacional que falta no vazio da rosquinha. Será que o que foi mostrado não passa de uma farsa? Será que o ato mortal não é tão claro (mesmo que você tenha assistido à ação!) como parece e que o sangue da degola pode ter respingado em mais de um personagem? O que Blanc deixou escapar ao interrogar a filha de Harlan, a empresária Linda (Jamie Lee Curtis), o seu marido Richard (Don Johnson) e Ransom (Chris Evans), o filho playboy do casal? O detetive notou que o cabisbaixo Walter (Michael Shannon), o caçula que administra a editora do pai, a sua esposa Donna (Riki Lindhome) e o filho extremista Jacob (Jaeden Martell) se portam de modo suspeito? E quanto à falsidade em pessoa Joni (Toni Collette), nora de Harlan, e a sua inocente filha Meg (Katherine Langford), estão escondendo o jogo em troca de “migalhas”? Como o espectador poderá ver e ouvir, entre um questionamento e outro, é que todos parecem magoados com algum acontecimento ocorrido na festa de aniversário de Harlan, mas seriam eles capazes de um ato tão insano? Para ter todas as perguntas respondidas, o público vai ter de esperar o epílogo (real)..., logo após o que seria o ponto final definitivo!


Como é de praxe, a narrativa começa meio confusa, mas logo os nós vão sendo atados e quando menos se espera (mesmo!) o espectador já sabe “o” quem (matou), “o” como (morreu) e “o” porquê do tal crime. Bom, sabe mais ou menos. Pois, quando se trata de mistério, o melhor é não acreditar em soluções fáceis, já que nem tudo que se ouve ou se vê em cena tem a ver com o fio da meada que, quando menos desfiar, melhor para enredar. O elenco é brilhante, o roteiro uma delícia e a direção um primor. O script brinca com o farsesco sem apelar para a metalinguagem, assim como trata de questões de imigração, prisões e extremismo governamental (norte-americano?), sem qualquer teor de panfletagem: por isso é que funciona (subliminarmente?)!

Enfim, Entre Facas e Segredos não é um filme hilário, mas tem momentos de excelente humor, principalmente relacionado à Marta Cabrera (Ana de Armas), uma imigrante latina (sabe se lá de onde!) que serve tanto de assistente quanto de cuidadora de Harlan, além de peça-chave para Benoit Blanc destrinchar este imbróglio. Ah, fique atento para não perder uma impagável gag que reverencia um certo trono de uma famosa série de tv. Um espetáculo e tanto para se passar muito bem o tempo...


Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeos-documentários fiz em 1990. O primeiro curta-metragem (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado em Curitiba, no Paraná, Brasil.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Crítica: 007 Contra Spectre


A grande cartada do universo James Bond começou em 1953, com o sucesso do romance Cassino Royale, de Ian Fleming (1908-1964)..., seguiu por mais 13 livros do autor britânico e, a partir de 1968, em diversas obras pelas mãos e imaginação de outros escritores. No cinema chegou em 1962, apresentando Sean Connery em Dr. No. Na trilha aberta pelo ator escocês, o agente secreto especial OO7 ou “Bond, James Bond!”, com licença para matar e sempre a serviço de Sua Majestade (inglesa) foi incorporado também por George Lazenby, Roger Moore, Timothy Dalton, Pierce Brosnan e o atual Daniel Craig..., que anda dando sinais de cansaço da “espionagem bondiana” na telona.


007 Contra Spectre (Spectre, 2015) dirigido por Sam Mendes (Skyfall) traz o elegante agente secreto, com licença também para dirigir máquinas possantes e pilotar aeronaves e lanchas, numa operação complicada e talvez derradeira (?) na pele de Craig..., a se interpretar (literalmente) a cena final aberta a novos rumos. Com um prólogo espetacular, em sequência de tirar o fôlego, a trama “começa” na Cidade do México, no dia da Festa dos Mortos (Finados). Ali, James Bond (Daniel Craig) encontra um pedaço do fio da meada que o levará ao tradicional tour pelo mundo (Londres, Roma, Alpes, Marrocos), à cata de Franz Oberhauser (Christoph Waltz), o chefão da Spectre, uma organização terrorista que atira para todos os lados e ataca em todas as frentes (no momento: fármaco e internet) em busca de um alvo perfeito para corroer e dominar (?!) o mundo (e quiçá, no futuro, o universo!).


Com um roteiro um tanto confuso (para quem se importa!), onde é difícil entender a razão (se é que há!) da vilania, alguns furos, clichês e aquela previsibilidade, entre um desconcerto amoroso maduro (Lucia/Monica Belucci) e o outro jovem (Madeleine Swan/Lea Seydoux), o agente de grife continua na sua lida (acompanhado e ou sozinho) para sanear o planeta de todas as psicopatias. Desta vez, seguindo uma pista deixada pela falecida chefe M (Judi Dench), o garboso agente precisa voltar ao seu passado, se quiser garantir o seu futuro. É que, de certa forma, o seu passado (aquela coisa de família e de infância) e o seu presente (aquela coisa de agente secreto) carregados de tragédias, estão amarrados no carretel de frustrações (?) e vinganças (?) e demência do maléfico Oberhauser, que também espera desmontar caprichosamente o MI6.


Embora 007 Contra Spectre busque a originalidade (num gênero batido!), é a história padrão, com suas cenas de ação e pancadaria, humor nonsense e meio pastelão, intrigas internacionais, intrigas nacionais, intrigas de agentes culminando na suspensão (pro forma) de James Bond, que acaba predominando. Sem ir muito além do lugar comum, a narrativa a que se acostumou (e gosta!) o espectador, (aparentemente) está apenas mais comedida, ou melhor, menos explícita na violência (menos sangue!) e na insinuação sexual (menos cama).

Se as declarações de Craig sobre o seu futuro sem James Bond, são verdadeiras e ou mero marketing, isso só o tempo dirá. No entanto, o que se percebe nesta nova aventura, que presta homenagem a algumas das mais mirabolantes produções anteriores (se é fã vai curtir as citações!), é que James Bond está mais humano (!) e claramente cansado dessa vida de caçador de bandido pelo bem da “humanidade”. Ou será apenas a perturbação do personagem Bond numa grande performance de Craig?


Enfim, considerando a marca James Bond, o ótimo elenco e excelentes sequências de ação; a inspirada fotografia de Hoyte van Hoytema em perfeito casamento com algumas músicas da trilha de Thomas Newman (ou seria o contrário?); as duas gags antológicas (sofá e o motorista velho)..., ainda que a trama se apresente embaralhada e o jogo nunca fique muito claro na mesa, 007 Contra Spectre é uma boa diversão pipoca. Chegue no horário e cuidado para não engasgar na sequência inicial. Só por ela, o filme já vale uma olhada.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Crítica: Millennium - Os Homens Que Não Amavam As Mulheres



Verdade ou mito de que o público americano só vê (e só gosta?) de filme falado (dublado) em inglês americano, parece ser a explicação mais lógica para a falta de lógica de refilmagens (e releituras) americanas de filmes não-americanos. Raramente alguma refilmagem americana vale o ingresso. Mera pretensão hollywoodiana em achar que tem algo maior a dizer ou frustração por não ter realizado a obra primeiro?

Millennium - Os Homens Que Não Amavam As Mulheres (The Girl with the Dragon Tattoo, EUA, Suécia, Inglaterra, Alemanha, 2011), de David Fincher é um drama revisionista, de suspense tipicamente americano, que parece feito só para mostrar aos europeus como se faz um thriller americano com matéria prima europeia. O filme que, para não parecer plágio, conta a mesma história, mas com alguns elementos (muito) diferentes do original Os Homens Que Não Amavam As Mulheres (Män Som Hatar Kvinnor, Suécia/Dinamarca/Alemanha, 2009), de Niels Arden Oplev, se baseia no primeiro livro da trilogia Millennium, de Stieg Larsson (1954-2004). Ele trata da investigação do jornalista Mikael Blomkvist (Daniel Craig) e da hacker Lisbeth Salander (Rooney Mara) sobre o desaparecimento de Harriet Vanger (Moa Garpendal), sobrinha-herdeira do megaempresário Henrik Vanger (Christopher Plummer).


Quem viu o filme sueco (ou leu o livro) não ficará indiferente a esta versão americana. A narrativa que vai se montando feito um quebra-cabeça, envolvendo assassinatos brutais, religião e intolerância, começa a todo vapor, mas o seu contínuo ritmo vertiginoso (puro exibicionismo) logo perde o interesse e a história parece não ter fim. Enquanto o Millennium de Oplev (com roteiro de Nikolaj Arcel) é conciso e vai direto ao assunto para contar uma boa história detetivesca em 152 minutos, o Millennium de Fincher (com roteiro de Steven Zaillian) parece uma mariposa dando voltas em volta da lâmpada para esquentar em seus 158 minutos. O primeiro (ainda que com alguns furos) aposta na inteligência do espectador, o segundo o subestima e passa o tempo todo antecipando,  explicando e justificando cada ato “insano” (a cena na loja do tatuador é constrangedora: saiba, espectador, que fazer tatuagem dói!).


Um opta pela sutileza e o outro se apega a situações-clichês. Como, por exemplo, as (questionáveis) sequências dos estupros, que têm uma força impressionante na versão sueca, e não passam de gratuidades (quase risíveis) na americana. Se em sua notável performance, o ator Peter Andersson imprime uma personalidade asquerosa no repulsivo tutor Nils Bjurman, o mesmo não pode ser dito da interpretação insossa de Yorick van Wageningen que (mal dirigido) só falta dizer para a vítima: com licença que vou estuprá-la e me desculpe, por ser de maneira não convencional, não ortodoxa, não papai-mamãe.


Para cada “caco” retirado do filme original, Fincher acrescentou dois ou três na sua leitura alucinada e videoclipista piegas. Perde tempo explicando e inserindo coisas dispensáveis (gato mensageiro: olha o que farei com você!; editora da Milenium: quer ser meu sócio?), situações descartáveis (reencontro de vítima e estuprador no elevador: tô de olho em você!) e passa a toda velocidade pelo que realmente importa. Dificilmente quem não conhece a obra original vai consegui entender os códigos (estilo Dan Brown) e sequer a “análise do material” que leva à solução do caso. Ao optar por uma versão mais romantizada, buscando a emoção fácil do espectador (que gosta de gatinhos e filhos abandonados), o diretor banalizou a história original, para o entendimento e aceitação do publico médio (americano?). Assim, o jornalista Mikael perde a perspicácia, a hacker Lisbeth a intensidade, e o espectador a paciência. Comparado ao original (e não tem como não comparar) esta versão burocrática e didática é um caça-níquel (de fãs) apenas razoável. Isso, por conta da excelente abertura e das boas atuações de Craig e Rooney que, ficam aquém dos atores suecos: Michael Nyqvist (Mikael) e Noomi Rapace (Lisbeth).

Em interessante entrevista à Mariane Morisawa, postada na RevistaÉpoca (online), em 22.01.2012, falando sobre violência, bilheteria e as significativas diferenças entre a versão europeia e a sua, o pretensioso diretor David Fincher disse: “Vi o original uma vez. Não tenho como comentar. Me lembro de achar que era muito bonito, muito arrumadinho. Acho que nosso filme é mais sujo, mais desleixado... E há mais flashbacks do passado. É provavelmente mais Hollywood.” 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Crítica: As Aventuras de Tintim: O Segredo do Licorne



Quando Hollywood volta seus cobiçosos olhos para o mundo dos quadrinhos, em busca de inspiração, os fãs de HQs tremem na base, porque sabem que a Meca do Cinema pouco (ou quase) nada se importa com a fidelidade às fontes inspiradoras. Com o tempo eles até aprenderam que uma coisa (HQ) é uma coisa e outra coisa (Hollywood) é outra coisa. Não que isso satisfaça, mas é uma boa desculpa para não enfartar. No entanto, a simples menção de uma possível “releitura” de Akira (de carne e osso) causa arrepios em muita gente (inclusive em mim). Mas, e o que dizer de As Aventuras de Tintim, de Georges Remi, o Hergé (1907 - 1983), segundo Steven Spielbeg (direção) e Peter Jackson (produção)? Ah, com certeza vai dividir opiniões.


As Aventuras de Tintim: O Segredo do Licorne (The Adventures of Tintin, EUA, Nova Zelândia, 2011) de Spielberg, que a meu ver se sai melhor em filmes de aventura e ação, do que em melodramas piegas, já começou 2012 ganhando o Globo de Ouro, de melhor animação.  Se em cinema nem sempre um currículo conta pontos, aqui ele faz a diferença. Tendo por base três curiosas histórias de Hergé: O Segredo do Licorne (1943), O Caranguejo das Tenazes de Ouro (1941) e O Tesouro de Rackham, o Terrível (1944), a responsabilidade do excelente roteiro não poderia estar em melhores mãos: Steven Moffat (escritor de Doctor Who), Edgar Wright (diretor de Todo Mundo Quase Morto e Scott Pilgrim Contra o Mundo) e Joe Cornish (diretor de Attack the Block). Um escocês e dois ingleses que sabem muito bem como falar com o público infantojuvenil, principalmente com aquele adolescente que odeia mesmice.


Esta primeira animação (de três), que procura ser fiel aos quadrinhos (adaptando e não recriando), serve como um cartão de visitas, apresentando (principalmente para o público americano que não conhece Tintim) personagens importantes no universo do herói. Tudo começa numa bela manhã quando, em uma Feira de Artes e Antiguidades, logo após posar para um artista (Hergé), Tintim (Jamie Bell) compra uma bela maquete do navio Licorne e descobre que um sujeito estranho e o sinistro Sakharine (Daniel Craig) estão interessados na mesma peça. Tentando descobrir a razão de tanto interesse por um objeto relativamente barato, ele e o seu fiel fox terrier Milu acabam “embarcando” numa fascinante viagem, repleta de perigos, onde conhecem o beberrão e quase sempre ranzinza Capitão Archibald Haddock (Andy Serkis), que vai lhe fazer companhia em muitas outras aventuras, e a cantora de ópera Bianca Castafiore (Kim Stengel), que também vai dar o ar da graça futuramente. A única certeza que o corajoso jornalista tem é a de que, se (realmente) precisar e não tiver muita pressa, pode recorrer aos serviços dos desastrados agentes policiais Dupond (Simon Pegg) e Dupont (Nick Frost), os seus eternos coadjuvantes.


O Segredo do Licorne é uma animação belíssima, divertida, e com aquele ritmo de ação e aventura característico de Spielberg (correria e pancadaria com muito humor) em seus filmes meio família. Muita gente vai se lembrar do intrépido Indiana Jones, mas é bom que se diga: Tintim já era intrépido muito antes do Indiana. As características dos personagens de Hergé foram mantidas. Talvez haja algum exagero na bebedeira de Haddock, mas é dela e das trapalhadas de Dupond e Dupont que saem as melhores gags. A fantástica abertura do filme em 2D já diz a que veio. Ou quase. O deslumbramento visual da história que a segue, então, do primeiro ao último quadro, é indescritível.  É difícil saber se o que envolve o espectador é a excelência da narrativa de mistério ou os cativantes Tintim, Milu (espontâneos) e Haddock (dramático).


Segundo Hergé: “Sou eu, sob todas as formas! Tintim, quando quero ser heróico, perfeito; os Dupondt, quando sou estúpido; Haddock, sou eu quando tenho vontade de me exteriorizar.” O jornalista perspicaz, com cara de adolescente e audácia de gente grande, que ganhou a Bélgica em 10 de Janeiro de 1929, é um personagem que evoluiu à medida que o seu autor adquiria conhecimento real da geografia, da história, do comportamento sócio-político dos povos em todo o mundo. Alguns críticos e estudiosos ainda se debruçam sobre as publicações, analisando histórias como Tintim no País dos Sovietes, Tintim no Congo, Tintim na América, por se acreditar que elas caracterizam uma ideologia fascista, colonialista, racista. Bem, não deve ser fácil analisar obras de ontem com os olhos de hoje, num contexto completamente diferente.


Polêmicas à parte, a verdade é que, em pouco tempo, Tintim ganhou a Europa e, bem antes de chegar a Steven Spielberg e Peter Jackson, a suas aventuras investigativas ganharam o cinema e a televisão. Em 1947, Claude Misonne dirigiu a animação belga, feita com marionetes, de O caranguejo das tenazes de ouro. Nos anos 1960 foi a vez de duas adaptações com atores: Tintim e o mistério do Tosão de Ouro, dirigida por Jean-Jacques Vierne (1961), e Tintim e as laranjas azuis, por Philippe Condroyer (1964). Na virada da década o jornalista aventureiro voltou ao mundo animado com Tintim e os prisioneiros do sol, longa dirigido por José Dutillieu (1969), e Tintim e o lago dos tubarões, por Raymond Leblanc (1972). A televisão popularizou ainda mais o personagem. Entre 1958 e 1963 a Belvision produziu 104 episódios animados de As Aventuras de Tintim, por Hergé e, em 1991, a Ellipse Programmé (França) e a Nelvana (Canadá) lançaram As Aventuras de Tintim, uma série em 39 capítulos que fez a alegria da criançada. Esta última série passou pela TV Cultura e (re)estreia nesta sexta (20) no Canal Futura.


Em produções desse porte é até redundante falar de tecnologia (de cair o queixo) na captura digital de movimento, que tem em Andy Serkis (King Kong, Gollum, Cesar) um dos mestres na interpretação com "motion capture", técnica usada anteriormente (com eficiência) em animações como: O Expresso Polar (2004) e A Lenda de Beowulf (2007), de Robert Zemeckis; A Casa Monstro (2006), de Gil Kenan; Marte Precisa de Mães (2011), de Simon Wells. E ou destacar o bom uso da plataforma gráfica (e cenográfica) com um dos melhores aproveitamentos do 3D. Resta saber se a animação que tem tudo para agradar os fãs das HQs e seriados televisivos, continuará com a mesma qualidade na próxima aventura com direção Peter Jackson. Enquanto isso não acontece é sentar e curtir o ótimo passatempo (se possível em 3D).

sábado, 5 de novembro de 2011

Crítica: A Casa dos Sonhos



O título e o cartaz de A Casa dos Sonhos podem até sugerir (mais) um filme sobre (mais) uma casa assombrada por fantasmas, demônios e outros “seres” correlatos, mas a ideia (mal resolvida) é a de um thriller psicológico. Em sua (batida) trama, Will Atenton (Daniel Craig) é um editor que espera unir o útil ao agradável: passar mais tempo com a família e finalmente escrever o seu adiado livro. Deixa o emprego, compra uma aprazível casa num bairro tranquilo e se muda com a mulher Libby (Rachel Weisz) e as filhas Dee Dee (Claire Geare) e Trish (Taylor Geare). No entanto, algumas coisas parecem fora de ordem na casa e na vizinhança. Logo Will descobre que uma aparente hostilidade dos vizinhos está relacionada com uma tragédia ocorrida há cinco anos, quando a mãe e duas filhas foram mortas naquela casa. Como em toda redondeza o assunto é tabu, disposto a viver em harmonia com a família e os vizinhos, ele decide pesquisar o corrido, cujo suspeito é o marido, e fica perplexo com as suas descobertas.

Se a sinopse desperta algum interesse, o mesmo não pode ser dito do claudicante roteiro-clichê de David Loucka, que até tenta confundir e parecer inteligente, mas não consegue (igual ao Will) sair do lugar comum. A obviedade é tanta que qualquer espectador, que já tenha visto outros filmes (melhores) de suspense, logo na primeira (re)virada da história sabe quem é o verdadeiro culpado pela chacina. O que não o impede de mudar de opinião, se achar propício. Ou esperar até o ridículo final e dizer: eu não falei? Também porque, quando em um filme dessa natureza os personagens decidem lavar sua honra, já se sabe o banho de água fria que virá. Como se diz, também, que quem entra no fogo é para se queimar, é torcer para que, das cinzas, não surja uma Phoenix Zumbi.


Todo mundo sabe que Hollywood adora se repetir e o público alvo adora (re)ver novos filmes velhos. É uma obsessão lucrativa, mas que, às vezes, dá com os burros n’água.  A Casa dos Sonhos é uma colcha de recordações do gênero. Percebe-se (no princípio) um cuidado na direção de atores e de arte, que cativam o espectador, por conta do trabalho dos protagonistas (Graig, Weisz e as crianças Claire e Taylor Geare), numa narrativa que quer voar alto. Mas, então, sem que nem mais porque, os fotogramas são arrombados e a Casa dos Sonhos vira uma Casa de “Surpresa” da Mãe Joana, abalando mortos e vivos (ou seria mortos-vivos?) com a quantidade de cacos sem qualquer importância, fazendo a história quicar de um lado para o outro.  

A Casa dos Sonhos (Dream House, EUA, 2011), do diretor irlandês Jim Sheridan, tem uma produção bacana até certa metragem, mas não se sustenta nem com o excepcional desempenho de Daniel Craig. E é difícil saber onde se deu o escorregão que levou Sheridan escada abaixo, se na leitura, correção e ou remendos do roteiro. A verdade é que ele perdeu o foco e quando tentou pular do barco, após o enxerto de cenas e a reedição do produtor Jim Robinson, que ainda distribuiu um trailer revelador, já era tarde até para o elenco. A Casa dos Sonhos é um filme que começa e não termina. Ele simplesmente para por não ter (e ou saber) para onde ir. 

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Crítica: Cowboys & Aliens



Cowboys & Aliens tem cara de filme de western e de sci-fi dos anos 1950. A história que mistura cowboys e alienígenas é maluca, mas bem divertida. Tem um humor ingênuo (quase família), personagens típicos (quase clichê), clima de mistério (quase suspense) e um terror gosmento (quase inocente) que chega a lembrar clássicos trash. Dirigido por Jon Favreau, com algumas referências a produções dos dois gêneros (faroeste e ficção científica), que fazem sucesso (e são revisitados) desde os primórdios do cinema, o filme não decepciona os fãs que curtem um bom passatempo-pipoca com muita correria, tiros, pancadaria, aliens horripilantes, bandidos, mocinho de caráter duvidoso etc. E, de quebra, ainda supera a HQ em que foi baseado.


Na Graphic Novel Cowboys & Aliens um interessante prólogo desenha uma intenção metafórica: o expansionismo inglês (na América) exterminando e subjugando indiscriminadamente os nativos, e o expansionismo alienígena (no Universo) fazendo o mesmo com outras civilizações. A HQ tem um começo até promissor, com a invasão alienígena no Velho Oeste de 1873, em plena disputa territorial entre ingleses e nativos, mas acaba perdendo a graça e a criatividade no meio do caminho, quando índios e brancos se juntam para combater o inimigo em comum. Na verdade os personagens dos quadrinhos são tão chatos quanto mal resolvidos. No filme a questão da terra não é prioritária, a narrativa busca foco (mesmo que superficial) nos terríveis objetivos alienígenas, parecidos, aliás, com os dos humanos conquistadores e a sua ambição desmedida por tudo que gere lucro. É a razão (e não o acaso) que une ingleses e ameríndios na batalha feroz contra os aliens.


Cowboys & Aliens (Cowboys & Aliens, EUA, 2011) aproveita apenas a ideia central da HQ homônima (invasão alienígena no Velho Oeste) para contar uma história bem mais interessante que a original. Nela encontramos, em pleno deserto, no Território do Novo México, em 1875, o desmemoriado forasteiro Jake Lonergan (Daniel Craig) despertando de um pesadelo para viver outro muito pior. Ele não sabe quem é, como chegou ali e porque tem um bracelete no braço. Até que encontre respostas para todas as suas perguntas e utilidade para o tal bracelete, vai bater muito e apanhar um bocado. Bem, bater e ou apanhar seria o menor dos seus problemas, se não estivesse acontecendo em meio a invasão de demoníacos aliens interessados na mesma preciosidade que ele. Para enfrentar uma ameaça que vem dos Céus, mas que os pioneiros e nativos acreditam vir dos Infernos, o solitário Jake vai blefar e se envolver com cowboys da pesada (que sabem quem ele é, mas de quem ele não se lembra), como o Coronel Woodrow Dolarhyde (Harrison Ford), com índios e com uma bela e misteriosa mulher: Ella (Olivia Wilde).


Procurar mensagens subliminares, aprofundamento científico e social, lógica nesta ótima releitura da HQ de Scott Mitchell Rosenberg, é bobagem. O filme de aventura, suspense e ação (com pitadas de terror) parece não ter outra intenção além de contar uma boa e divertida história, garantida por um elenco competente, narrativa (clássica) dinâmica, diálogos curtos e grossos, excelente direção, bela fotografia e um final digno. Para quê mais?
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