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quarta-feira, 2 de março de 2022

Crítica: Batman


B  A  T  M  A  N

The Batman

por Joba Tridente 

Após duas produções horrorosas, descartáveis e totalmente esquecíveis, mas que tem (?) lá seus fãs..., Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012), do Christopher Nolan, e Batman vs Superman: A Origem da Justiça (2016), do Zack Snyder..., eis que o notório vigilante noturno e o “maior detetive do mundo”, cujo mero sinal de presença na área/cena do crime, apavora bandidos e corruptos de Gotham City, está de volta às telas do cinema numa aventura, no mínimo, interessante: Batman (The Batman, 2022), dirigido por Matt Reeves (Planeta dos Macacos - A Origem; Planeta dos Macacos - O Confronto; Planeta dos Macacos: A Guerra). 

Em Batman, roteirizado por Reeves e Mattson Tomlin, o espectador acompanha uma semana (31 de outubro a 6 de novembro) das mais agitadas de Bruce Wayne/Batman (Robert Pattinson) na conturbada Gotham City, onde não há limites para o crime e nem para a corrupção compartilhada por políticos, policiais, empresários. Ali, um charadista anda assassinando cruelmente homens públicos e deixando mensagens enigmáticas para o Batman, com indicações do local e da próxima vítima. O que faz o carrancudo Bruce (ego) e o soturno Batman (alter ego), com seus traumas à flor da pele e do espírito e sempre à beira de mais uma explosão de fúria, em nome da vingança justa, empreenderem uma corrida contra o tempo para desmascarar o criminoso, sempre a um passo à frente. 

“Eu sou a vingança!” 


Neste seu segundo ano de (polêmica) vigilância noturna em Gotham, o solitário e irredutível Batman só pode contar com a assistência doméstica e empresarial de Alfred Pennyworth (Andy Serkis) e a assistência legal do tenente da polícia James Gordon (Jeffrey Wright). Porém, como até na sombra da noite os braços do crime deixam rastro, não demora para que o vigilante/detetive se encontre, para um bate-papo amistoso e/ou nem tanto, com infratores de renome como Oswald Cobblepot/Pinguim (Colin Farrell), Carmine Falcone (John Turturro) e até com a vingadora independente Selina Kyle/Mulher-Gato (Zoë Kravitz), que acaba mexendo com os sentimentos do Vigilante Noturno. No entanto, se no submundo do crime uma mão criminosa leva à outra, no submundo da internet (Deep/Dark Web), onde psicopatas como Edward Nashton/Charada (Paul Dano) são alimentados pelas mãos mensageiras de delinquentes seguidores obscuros, a procura de pistas é muito mais difícil, até para alguém altamente equipado como Wayne. 


O dramático Batman é um filme (noir) com muitas referências ao cinema dos gêneros suspense, policial, terror, e às mais famosas HQs do Homem-Morcego. Mas é bom que se diga, referências estas que só têm valor se descobertas pelo cinéfilo e o/ou leitor de quadrinhos do Batman. Comentá-las é estragar a surpresa..., ainda que Reeves já tenha citado as mais visíveis e alguns críticos - desmancha-prazeres - falado da maioria delas. Pois, se o público não as (re)conhece, desvelá-las acrescentará nada à apreciação da trama cheia de reviravoltas e reflexões sobre justiça, corrupção em grande escala e filantropia na caótica Gotham City, tomada por bandidos de todos os naipes. Uma coisa é citar referências que serviram de base para o desenvolvimento do roteiro e outra é dizer onde exatamente elas aparecem, obrigando-se a revelar trechos importantes do enredo. Assim, quem quiser que busque pelos tais easter eggs por aí..., por conta e risco do spoiler. 


Batman está longe de ser tão somente um filme de referências customizadas. O diretor e roteirista Matt Reeves, que olha para o futuro do jovem investigador e ambíguo herói em formação, e não para o seu passado, acertadamente não perde tempo recontando (pela enésima vez) a sua origem e/ou a razão da sua raiva (mais ou menos) contida em relação à justiça feita com as próprias mãos e àquela outorgada às autoridades nem sempre ilibadas. O que não quer dizer que estas questões estejam ausentes na intensa e claustrofóbica narrativa noturna espetacularmente fotografada por Greig Fraser. Porém, o contexto em que são discutidas é outro e bem mais complexo..., beirando o nosso cotidiano, cuja “humanidade” a cada dia despenca um pouco mais no precipício da arrogância. Algumas vezes ela é silenciosa (mas gritante!), se fazendo presente na sutileza da troca de olhar entre Batman e um inconsolável menino que, incompreensivelmente, acabou de perder o pai barbaramente assassinado. 


E por falar em fotografia, o tratamento de luz e sombra (nos mais diversos tons) que Fraser dá às imagens, principalmente noturnas, é um absurdo, de cair o queixo. É notável o modo como ele aproxima desesperadamente o espectador da ação..., jogando-o dentro das cenas, invariavelmente envoltas num ar sombrio, cinzento glacial, raramente vazado por uma luz outonal laranja-avermelhada. A ensandecida perseguição automobilística de Batman ao Pinguim, vista por ângulos inusitados, talvez seja a mais aflitiva sequência..., uma aula de fotografia aliada a uma edição formidável de William Hoy e Tyler Nelson. Mas gosto também da divertida e alucinante fuga de Batman, entre escadas em caracol, rumo a uma clarabóia, e a da sua descida (na vertical) por uma pilastra. 


Assim, considerando a qualidade do efeito sonoro (ruídos indistintos, pisadas pesadas, respiração abafada) que conduz o clima de suspense, levando terror aos bandidos (e espectadores) que não sabem o quê sairá das trevas para enfrentá-los (em cenas de lutas muito bem coreografadas); considerando as pitadas de humor leve e sincero e as incômodas sequências de grande violência, com muitas mortes e, praticamente, sem sangue (para não amedrontar os inocentes jovens norte-americanos); considerando a seleção de referências ao cinema clássico e/ou cult e às melhores histórias em quadrinhos do Vigilante Noturno; considerando a performance do excelente elenco e o convincente desenvolvimento de personagens traumatizados (em busca de redenção?) como Batman, Charada e Mulher-Gato, irmanados na intenção, mas não nos métodos, ao reagir justiceiramente e/ou vingativamente à sociedade opressora; considerando alguns diálogos e ou monólogos pertinentes sobre fazer justiça ou buscar por vingança, pelo ponto de vista de um assassino frio e calculista e/ou de um herói adrenalinado que, às vezes, passa do limite..., remetendo à famigerada fala: “Bandido e polícia é tudo a mesma coisa.”, do filme brasileiro Lúcio Flávio - O passageiro da agonia, de Hector Babenco; considerando o uso oportuno da mídia, recortes televisivos e internet, para falar de política, questões sociais, idolatria, crimes cibernéticos e aliciamento nas redes sociais; considerando o apurado figurino, principalmente a apavorante vestimenta do ultrajante Charada; considerando a magnífica direção de Matt Reeves e desconsiderando a maldita trilha sonora extremamente alta (é de enlouquecer!) que raramente cessa para dar um alívio de segundos aos ouvidos..., Batman, com sua aura de mistério, é um filme de muita ação e grandes achados narrativos que ainda vai dar muito que falar. Quanto à metragem de quase-quase três horas, acredite se quiser, não me incomodou... 

 

NOTA: As considerações acima são pessoais e, portanto, podem não refletir a opinião geral dos espectadores e cinéfilos de carteirinha. 

Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros videodocumentários fiz em 1990. O primeiro curta-metragem (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba. 


terça-feira, 1 de agosto de 2017

Crítica: Planeta dos Macacos: A Guerra

Planeta dos Macacos: A Guerra
por Joba Tridente

Provando que nem toda releitura cinematográfica é descartável ou subestima a inteligência do espectador, chega aos cinemas o fascinante Planeta dos Macacos: A Guerra..., um desfecho à altura da saga espetacular que recomeçou com O Planeta dos Macacos: A Origem (2011), seguido de Planeta dos Macacos: O Confronto (2014). Uma saga que tem mais divergências do que referências à franquia original nascida lá nos idos de 1968 e também inspirada na obra O Planeta dos Macacos/La Planète Des Singles (1963), de Pierre Boulle.


Planeta dos Macacos: A Guerra, novamente dirigido por Matt Reeves, com o roteiro dele e de Mark Bomback, se passa vinte anos após a ruptura entre as espécies humana e símia, causada (em parte) pelo traumatizado bonobo Koba (Tony Kebbell) em PM: O Confronto, onde a palavra de ordem era “Macaco não mata macaco!”. Agora que a vida anda mais calma na comunidade em que César (Andy Serkis) vive com seu grupo, no meio da floresta, uma ameaça carniceira chamada Coronel (Woody Harrelson) aparece com uma ferocidade humana ímpar, despertando não apenas o lado sombrio de César, mas provocando o êxodo dos macacos e uma nova palavra de ordem: “Eu não comecei esta guerra!”.


Esta guerra que foi enredando César, como se sabe, começou com o desenvolvimento de um vírus para o tratamento do Mal de Alzheimer e cujos efeitos colaterais desenvolveram a inteligência “humana” nos símios usados, sem nenhuma piedade, como cobaias (em Origem). O vírus sofreu mutação, virou gripe simiesca, matou bilhões de pessoas em todo o mundo, e, em busca de qualidade de vida, os norte-americanos sobreviventes enfrentaram violentamente os macacos (em Confronto).

Vinte anos depois, com outra mutação do vírus simiesco desencadeando uma estranha doença nos humanos, o Coronel, um militar com visão distorcida de cura e obcecado pela ideia de higienização do planeta, colocou em ação o seu exército particular para dizimar os macacos. Os dardos mortais foram lançados e feridas abertas. Quem sobrevier a esta guerra pessoal do insano Coronel, nascida de reação injustificável a uma dor familiar explicável, contará (literalmente) a história da raça suplantada.


É louvável que uma franquia popular de ficção científica, em meio a cenas pungentes de ação, traga à tona questões sociopolíticas pertinentes (saneamento, campos de concentração, racismo, xenofobia) sem escorregar nos clichês políticos de ocasião e sem forçar leituras óbvias. Nas referências (além do cinema clássico) que me parecem francas, uma das sequências (a mim) mais perturbadoras é aquela em que o Coronel, com maldade na alma e carregado de ironia, olhando para o majestoso César, diz que os seus olhos são tão expressivos que até parecem humanos. Um desconcerto que remete às reflexões do filósofo lituano Emmanuel Levinas (1905-1995) sobre o racismo nazista e a negação de humanidade àqueles considerados impuros. Pensando melhor, em toda a trilogia do Planeta dos Macacos cabem as profundas reflexões de Levinas sobre a dor e o terror no Planeta dos Homens!


Enfim..., considerando que este terceiro capítulo mantém a excelência dos capítulos anteriores no roteiro perspicaz que traz respostas criativas às dúvidas dos espectadores, na direção irretocável, no desenvolvimento de personagens cativantes, na coerência narrativa redonda, bem como nos impressionantes efeitos especiais que fazem o espectador se esquecer de que há um grupo de atores (de captura) dando vida (e que vida!) aos expressivos símios; que as performances do elenco de captura (incluindo o Steve Zahn, como o solitário chimpanzé Macaco Mau, e Karin Konoval, reprisando o adorável orangotango Maurice) e do elenco real (incluindo a bela Amiah Miller, no papel da órfã Nova) são um show à parte; que a trama emociona, sem ser piegas e moralista; que há cenas de beleza estonteante e outras de tristeza absurda..., se você gostou mesmo dos dois filmes anteriores, não perca o magnífico desfecho em Planeta dos Macacos: A Guerra.


NOTA: No Portal Motherboard você pode assistir ao impressionante documentário A Ilha dos Macacos, na Libéria (África) e a três curtas de uma série especial criada para sintonizar o espectador mais afoito ou distraído ao universo de O Planeta dos Macacos. As histórias se passam entre o primeiro e o décimo ano em que eclodiu o levante dos macacos e a dizimação da população pela “gripe símia”. Ou seja, entre O Planeta dos Macacos e o O Planeta dos Macacos - O Confronto. São eles: Spread of Simian Flu: Before the Dawn of the Apes (Year 1), com legenda em português, trata da propagação da gripe. O segundo, Struggling to Survive: Before the Dawn of the Apes (Year 5), com legenda em espanhol, fala da luta pela sobrevivência. O terceiro, Story of the Gun: Before the Dawn of the Apes (Year 10), com legenda em espanhol, é sobre uma arma que vai passando de mão em mão até que... Os curtas lembram A Estrada (2009), de John Hillcoat, mas é um trabalho muito bacana.


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Crítica: Planeta dos Macacos - O Confronto


No Brasil, os dubladores, digo, tradutores de títulos de cinemas, adoram um subtítulo..., o que praticamente entrega (ou estraga) um filme. Planeta dos Macacos - O Confronto (Dawn of the Planet of the Apes, EUA, 2014) está mais para o “Alvorecer” (Dawn), do título original americano, do que do complemento “Confronto”, da adaptação brasileira. Não que falte confronto no filme dirigido por Matt Reeves, muito pelo contrário. Há conflitos em ebulição a cada fotograma e nos mais variados níveis de provocação implícita e ou explícita.

Porém, o “Alvorecer” (do título) está direcionado mais ao “o dia seguinte” à catástrofe (ao recomeço) do que a um “Confronto” iminente. Inclusive, a sequência inicial (ou prólogo) do Alvorecer do Planeta dos Macacos (Dawn of the Planet of the Apes) está bem próxima da sequência inicial (ou prólogo: The Dawn of Man) Alvorecer do Homem, do filme 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick. É praticamente, sem nenhum demérito, uma visita ao clássico sci-fi. Tanto no filme de Kubrick quanto no de Reeves, os seres primitivos estão a um passo da cadeia evolutiva, descobrindo como usar armas e atacar furiosamente uma presa e ou um inimigo em potencial..., o que os colocará (quase?) no topo da cadeia alimentar. O que não quer dizer que o “Alvorecer” (assim como o “Entardecer”) não traga surpresas desagradáveis..., ou visitas indesejáveis para todos.


“Macaco não mata macaco.” é a regra máxima da nova comunidade de símios (gorilas, orangotangos, chimpanzés, bonobos) comandada por César (Andy Serkis), em seus primeiros passos rumo à (re)evolução da espécie. Um caminho que pode tanto aproximar quanto afastá-la da civilização humana.  Na verdade, dez anos após a dizimação de 90% de humanos, pela gripe simiesca (derivada de um vírus criado em laboratório para curar o Mal de Alzheimer) e conflitos entre nações, o que esses macacos mais querem é distância dos tais homens civilizados. Todavia, ainda que, para os humanos, uma regra como “Homem não mata homem.” jamais se aplicaria à matança por cor de pele, cultura, crença religiosa etc, há mais em comum entre as espécies do que supõe um teste de DNA.

Dez anos parece um tempo razoável para se enterrar um passado dolorido. O que os macacos viveram neste período, após a sua libertação dos laboratórios de pesquisa e zoológicos, é visível no semblante de cada um e no dia a dia da colônia, não é preciso de flashbacks. Quanto ao destino dos homens, é o que menos importa ao enorme bando totalmente adaptado à floresta de sequoias de Muir Woods. Ou era, até que a chegada de um grupo de humanos liderado por Malcolm (Jason Clarke), para reativar uma hidroelétrica em território símio, abre feridas em ambos os núcleos.


Neste desafiador drama de ficção, de um lado a diplomacia de Malcom e a intolerância de Carver (Kirk Acevedo), um homem que culpa os macacos pelo vírus..., e do outro, a diplomacia de Cesar e a intolerância de Koba (Toby Kebbell), um bonobo que não perdoa os humanos que o usaram como cobaia em experiências médicas. Cesar e Malcom vão precisar de muito mais que formalidades diplomáticas para acalmar os ânimos e evitar o pior. Uma trégua é bem-vinda para os dois grupos, resta saber quem dará o primeiro (bom ou mau) passo.

Planeta dos Macacos - O Confronto é tenso, perturbador. Reeves mostra-se mais uma vez seguro e ágil na direção. Evidentemente, numa produção de excelência como essa, a cenografia e os efeitos especiais não poderiam ser menores. Contudo, o seu maior trunfo (sofisticado e inteligente) é a comunicação entre os macacos, que mescla linguagem de sinais (que Cesar aprendeu no laboratório) com grunhido e inglês (tosco). O que nos leva às magníficas interpretações (em captura de performance) de Serkis (o compassivo e imponente César) e Kebbell (o apavorante e malicioso Koba). Aliás, Kebbell/Koba tem duas cenas antológicas, quando encontra homens armados numa velha base militar. Também se destacam Nick Thurston, na pele do adolescente Olhos Azuis, filho de Cesar, e Karin Konova, o orangotango conselheiro e mentor Maurice. Dois personagens quase silenciosos, mas de uma expressividade cativante.


Um espectador antenado com o os acontecimentos socioeconômicos no mundo e chegado a uma analogia entre a vida real e a fictícia, a partir do universo hollywoodiano, vai se sentir realizado com o pertinente roteiro escrito por Mark Bomback, em colaboração com Rick Jaffa e Amanda Silver, de O Planeta dos Macacos (2011). Os assuntos (que se acredita no subtexto) vão da posse e exploração estratégica de fonte de energia ao fim do imperialismo americano. Será?!

Enfim, quem não está nem aí para subtexto sócio-político, mas procura uma história convincente, com bom conteúdo e instigante reflexão, uma narrativa que não subestima e nem chateia o espectador, vai se sentir (também) muito gratificado.

NOTA: 
No Portal Motherboard você pode assistir ao impressionante documentário A Ilha dos Macacos, na Libéria (África) e a três curtas de uma série especial criada para sintonizar o espectador mais afoito ou distraído ao universo de O Planeta dos Macacos. As histórias se passam entre o primeiro e o décimo anos em que eclodiu o levante dos macacos e a dizimação da população pela “gripe símia”. Ou seja, entre O Planeta dos Macacos e o O Planeta dos Macacos - O Confronto. São eles: Spread of Simian Flu: Before the Dawn of the Apes (Year 1), com legenda em português, trata da propagação da gripe. O segundo, Struggling to Survive: Before the Dawn of the Apes (Year 5), com legenda em espanhol, fala da luta pela sobrevivência. O terceiro, Story of the Gun: Before the Dawn of the Apes (Year 10), com legenda em espanhol, é sobre uma arma que vai passando de mão em mão até que... Os curtas lembram A Estrada (2009), de John Hillcoat, mas é um trabalho muito bacana.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Crítica: O Hobbit: Uma Jornada Inesperada


Depois de muito diz-que-diz e sai-não-sai, eis que finalmente, para a felicidade geral da nação Tolkieniana, estreia O Hobbit, que, de um, virou dois e três. O filme de aventura e fantasia, com ação muito bem calculada, chega cheio de novidades tecnológicas para todos os gostos e bolsos (2D, 3D, 3D High Frame Rate (HFR), IMAX). 

O Hobbit: Uma Jornada Inesperada (The Hobbit: An Unexpected Journey, Nova Zelândia, EUA, 2012), é baseado no clássico da literatura infantil O Hobbit, do escritor J.R.R. Tolkien. Aclamada pela crítica, a premiada obra acabou recebendo suaves alterações (ou ajustes) em edições seguintes e se tornou uma espécie de prólogo à saga literária O Senhor dos Anéis, cuja adaptação cinematográfica foi vista há quase dez anos.


Muita gente (sem ver o resultado!) anda dizendo que, ao contrário de O Senhor dos Anéis (com suas mil e tantas páginas), O Hobbit se bastaria em um único filme, alegando não haver material literário para três. Grande equívoco!  Julgar uma obra literária pela quantidade de páginas e um filme pela duração é simplificar a criatividade do seu autor, a capacidade narrativa do roteirista e do diretor. A excelência de um filme independe de sua metragem e muito menos da fonte inspiradora, que tanto pode vir de uma mera frase, uma nota de jornal, um poema, quanto de um romance enciclopédico. Para quem se deliciar com esta versão de O Hobbit: Uma Jornada Inesperada, os próximos “capítulos” são: O Hobbit: A Desolação de Smaug (2013) e O Hobbit: Lá e de Volta Outra Vez (2014).

Com roteiro de Fran Walsh, Philippa Boyens, Peter Jackson e Guillermo del Toro, o primeiro filme da nova trilogia, dirigida por Peter Jackson, é diversão de qualidade para novos e velhos fãs do Universo Tolkien. A narrativa bem-humorada, repleta de personagens e situações novas, acompanha a jornada épica do pacato e caseiro hobbit Bilbo Bolseiro (Martin Freeman), do Mago Gandalf (Ian McKellen) e de um grupo de 13 anões, liderados por Thorin Escudo de Carvalho (Richard Armitage), para resgatar o Reino de Erebor (terra dos anões), tomada pelo Dragão Smaug.


A viagem rumo às Terras Ermas é longa e perigosa o suficiente para que os 15 determinados guerreiros provem a união do grupo e a sua força e coragem no enfrentamento dos fantásticos: Trolls, Orcs, Wargs, Goblins... Nessa empolgante caminhada, onde são fortalecidos os laços de amizade e reatados os de confiança, Bilbo conhece o enigmático Gollum (Andy Serkis, sublime) e, de quebra, os dois protagonizam a melhor sequência da trama. Vale destacar também as brilhantes performances de Freeman, McKellen, Armitage..., e participações muito especiais de atores/personagens inesquecíveis que retornam à Terra Média: Ian Holm (Bilbo velho); Elijah Wood (Frodo); Cate Blanchett (Galadriel); Christopher Lee (Saruman); Hugo Weaving (Elrond); Orlando Bloom (Legolas).

O Hobbit: Uma Jornada Inesperada tem um bom ritmo (de leitura) e uma riqueza de detalhes impressionante. Gandolf diz que "Todas as boas histórias merecem embelezamento" e O Hobbit esbanja também nesse quesito.  Entre outras maravilhas, quem resiste à convidativa e graciosa aldeia dos hobbits e ou ao deslumbre de Valfenda? Tecnicamente (em 2D), é praticamente irretocável. O praticamente é porque, com tanto tecnologia, ainda me incomoda (desde a trilogia passada) a desproporção dos anões (que nunca estão do mesmo tamanho). A trilha sonora é bacana e o canto dos anões emociona.

Quanto à duração (que consome seis capítulos, mas parece tratar apenas de um), acredito que o prazer de ler e ver depende da história e do seu narrador. Se a narrativa é agradável você quer que ela demore o maior tempo possível. Se não, deixa a sala e ou fecha o livro.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Crítica: As Aventuras de Tintim: O Segredo do Licorne



Quando Hollywood volta seus cobiçosos olhos para o mundo dos quadrinhos, em busca de inspiração, os fãs de HQs tremem na base, porque sabem que a Meca do Cinema pouco (ou quase) nada se importa com a fidelidade às fontes inspiradoras. Com o tempo eles até aprenderam que uma coisa (HQ) é uma coisa e outra coisa (Hollywood) é outra coisa. Não que isso satisfaça, mas é uma boa desculpa para não enfartar. No entanto, a simples menção de uma possível “releitura” de Akira (de carne e osso) causa arrepios em muita gente (inclusive em mim). Mas, e o que dizer de As Aventuras de Tintim, de Georges Remi, o Hergé (1907 - 1983), segundo Steven Spielbeg (direção) e Peter Jackson (produção)? Ah, com certeza vai dividir opiniões.


As Aventuras de Tintim: O Segredo do Licorne (The Adventures of Tintin, EUA, Nova Zelândia, 2011) de Spielberg, que a meu ver se sai melhor em filmes de aventura e ação, do que em melodramas piegas, já começou 2012 ganhando o Globo de Ouro, de melhor animação.  Se em cinema nem sempre um currículo conta pontos, aqui ele faz a diferença. Tendo por base três curiosas histórias de Hergé: O Segredo do Licorne (1943), O Caranguejo das Tenazes de Ouro (1941) e O Tesouro de Rackham, o Terrível (1944), a responsabilidade do excelente roteiro não poderia estar em melhores mãos: Steven Moffat (escritor de Doctor Who), Edgar Wright (diretor de Todo Mundo Quase Morto e Scott Pilgrim Contra o Mundo) e Joe Cornish (diretor de Attack the Block). Um escocês e dois ingleses que sabem muito bem como falar com o público infantojuvenil, principalmente com aquele adolescente que odeia mesmice.


Esta primeira animação (de três), que procura ser fiel aos quadrinhos (adaptando e não recriando), serve como um cartão de visitas, apresentando (principalmente para o público americano que não conhece Tintim) personagens importantes no universo do herói. Tudo começa numa bela manhã quando, em uma Feira de Artes e Antiguidades, logo após posar para um artista (Hergé), Tintim (Jamie Bell) compra uma bela maquete do navio Licorne e descobre que um sujeito estranho e o sinistro Sakharine (Daniel Craig) estão interessados na mesma peça. Tentando descobrir a razão de tanto interesse por um objeto relativamente barato, ele e o seu fiel fox terrier Milu acabam “embarcando” numa fascinante viagem, repleta de perigos, onde conhecem o beberrão e quase sempre ranzinza Capitão Archibald Haddock (Andy Serkis), que vai lhe fazer companhia em muitas outras aventuras, e a cantora de ópera Bianca Castafiore (Kim Stengel), que também vai dar o ar da graça futuramente. A única certeza que o corajoso jornalista tem é a de que, se (realmente) precisar e não tiver muita pressa, pode recorrer aos serviços dos desastrados agentes policiais Dupond (Simon Pegg) e Dupont (Nick Frost), os seus eternos coadjuvantes.


O Segredo do Licorne é uma animação belíssima, divertida, e com aquele ritmo de ação e aventura característico de Spielberg (correria e pancadaria com muito humor) em seus filmes meio família. Muita gente vai se lembrar do intrépido Indiana Jones, mas é bom que se diga: Tintim já era intrépido muito antes do Indiana. As características dos personagens de Hergé foram mantidas. Talvez haja algum exagero na bebedeira de Haddock, mas é dela e das trapalhadas de Dupond e Dupont que saem as melhores gags. A fantástica abertura do filme em 2D já diz a que veio. Ou quase. O deslumbramento visual da história que a segue, então, do primeiro ao último quadro, é indescritível.  É difícil saber se o que envolve o espectador é a excelência da narrativa de mistério ou os cativantes Tintim, Milu (espontâneos) e Haddock (dramático).


Segundo Hergé: “Sou eu, sob todas as formas! Tintim, quando quero ser heróico, perfeito; os Dupondt, quando sou estúpido; Haddock, sou eu quando tenho vontade de me exteriorizar.” O jornalista perspicaz, com cara de adolescente e audácia de gente grande, que ganhou a Bélgica em 10 de Janeiro de 1929, é um personagem que evoluiu à medida que o seu autor adquiria conhecimento real da geografia, da história, do comportamento sócio-político dos povos em todo o mundo. Alguns críticos e estudiosos ainda se debruçam sobre as publicações, analisando histórias como Tintim no País dos Sovietes, Tintim no Congo, Tintim na América, por se acreditar que elas caracterizam uma ideologia fascista, colonialista, racista. Bem, não deve ser fácil analisar obras de ontem com os olhos de hoje, num contexto completamente diferente.


Polêmicas à parte, a verdade é que, em pouco tempo, Tintim ganhou a Europa e, bem antes de chegar a Steven Spielberg e Peter Jackson, a suas aventuras investigativas ganharam o cinema e a televisão. Em 1947, Claude Misonne dirigiu a animação belga, feita com marionetes, de O caranguejo das tenazes de ouro. Nos anos 1960 foi a vez de duas adaptações com atores: Tintim e o mistério do Tosão de Ouro, dirigida por Jean-Jacques Vierne (1961), e Tintim e as laranjas azuis, por Philippe Condroyer (1964). Na virada da década o jornalista aventureiro voltou ao mundo animado com Tintim e os prisioneiros do sol, longa dirigido por José Dutillieu (1969), e Tintim e o lago dos tubarões, por Raymond Leblanc (1972). A televisão popularizou ainda mais o personagem. Entre 1958 e 1963 a Belvision produziu 104 episódios animados de As Aventuras de Tintim, por Hergé e, em 1991, a Ellipse Programmé (França) e a Nelvana (Canadá) lançaram As Aventuras de Tintim, uma série em 39 capítulos que fez a alegria da criançada. Esta última série passou pela TV Cultura e (re)estreia nesta sexta (20) no Canal Futura.


Em produções desse porte é até redundante falar de tecnologia (de cair o queixo) na captura digital de movimento, que tem em Andy Serkis (King Kong, Gollum, Cesar) um dos mestres na interpretação com "motion capture", técnica usada anteriormente (com eficiência) em animações como: O Expresso Polar (2004) e A Lenda de Beowulf (2007), de Robert Zemeckis; A Casa Monstro (2006), de Gil Kenan; Marte Precisa de Mães (2011), de Simon Wells. E ou destacar o bom uso da plataforma gráfica (e cenográfica) com um dos melhores aproveitamentos do 3D. Resta saber se a animação que tem tudo para agradar os fãs das HQs e seriados televisivos, continuará com a mesma qualidade na próxima aventura com direção Peter Jackson. Enquanto isso não acontece é sentar e curtir o ótimo passatempo (se possível em 3D).

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Crítica: O Planeta dos Macacos - A Origem



Não sou muito fã de refilmagens. São raras as que valem a pena serem vistas. E mais raros os filmes que merecem tal “privilégio”. Mas reconheço que O Planeta dos Macacos - A Origem (Rise Of The Planet Of The Apes, EUA, 2011) saiu muito melhor que a encomenda.

Quem conhece a versão original de O Planeta dos Macacos (1968), e principalmente as sequencias, com toda conotação sociopolítica: De Volta ao Planeta dos Macacos (1970), Fuga do Planeta dos Macacos (1971), A Conquista do Planeta dos Macacos (1972) e Batalha do Planeta dos Macacos (1973), feitas a toque de caixa e com pouquíssimo dinheiro (conforme os Comentários sobre a franquia, no Disco 2 da Edição Especial de 35º Aniversário), vai se surpreender com esta, digamos, releitura da ideia primordial.


O Planeta dos Macacos - A Origem, na verdade, trata-se de uma origem alternativa aos fatos apresentados em A Conquista do Planeta dos Macacos e Batalha do Planeta dos Macacos. Ou seja, Cesar (Andy Serkis) não é filho de pais fugitivos do futuro, mas de chimpanzés capturados na África, para serem cobaias de laboratório, nos dias de hoje. O filme dirigido por Rupert Wyatt faz algumas referências ao O Planeta dos Macacos (1968), que, por sua vez, tomou suas liberdades na adaptação do livro La Planète Des Singles (1963), de Pierre Boulle, mas são apenas homenagens divertidas (e invertidas). E também passa longe da enigmática versão de Tim Burton, de 2001.

O roteiro do casal Rick Jaffa e Amanda Silver, situa a trama na cidade americana de São Francisco. Will Rodman (James Franco) é um cientista a serviço da indústria farmacêutica Gen-Sys, onde desenvolve pesquisa genética na cura do Mal de Alzheimer, doença que aflige o seu pai, Charles (John Lithgow). Por conta de um acidente com os símios usados no experimento, Will se vê obrigado a criar o filho de uma chimpanzé. Enquanto cresce e toma consciência do mundo ao seu redor, Cesar, com inteligência superior à de muitos humanos, desenvolve profundos laços afetivos com Will e com Charles. Nesta convivência familiar de dependência, cooperação e proteção, o primata vai conhecer o lado bom e o lado cruel dos homens, que acabará influindo na hora de tomar uma decisão que irá mudar o seu destino e o de toda a humanidade.


A narrativa de O Planeta dos Macacos - A Origem dosa muito bem as cenas de ação e drama. A história, bem contada e envolvente, abre caminho para reflexão sobre a ética científica no desenvolvimento da ciência e na manipulação de “animais de laboratório”. Por mais que os espectadores mais velhos pensem que conhecem a trama, ela traz um sabor de novidade. Algumas sequências apavoram, mas outras são de grande ternura, de uma beleza estonteante, como aquela em que Will, Charles e Cesar fazem uma refeição, e outra onde Cesar sai de casa para proteger Charles dos desaforos de um vizinho. São de arrepiar! A emoção que vai tomar conta do público e fazer muita gente lacrimejar é por conta da performance de dois grandes atores, um de carne e osso, John Lithgow, com seu personagem portador de Alzheimer, e o ator de captura Andy Serkis (responsável por dar vida anteriormente ao Gollum, de Senhor dos Anéis, e ao King Kong), na criação do expressivo e inesquecível Cesar. James Franco, é claro, também contribui para a qualidade da fita.

Uma vez que esta leitura do mundo dos macacos e homens é diferente, não há como saber o que acontecerá na continuidade da franquia que criou um início, quando a história real começa pelo fim. É esperar para ver. Por enquanto são apenas macacos “de volta para a casa”, se (re)organizando num Parque de Sequoias, nos redores da cidade. Se mantiver a mesma qualidade técnica, já valerá uma olhadela.

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