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sexta-feira, 25 de março de 2016

Crítica: Batman vs Superman: A Origem da Justiça


Desavenças entre o noctívago Batman e o solar Superman não são nenhuma novidade no universo HQ-DC. O sombrio e o iluminado já se bateram algumas vezes..., e entre mortos e feridos, os dois sobreviveram para novos embates. Agora, sequestrando uma página de hq aqui, roubando meio argumento de hq acolá, e aspirando a obra-prima gráfica O Cavaleiro das Trevas (1986), de Frank Miller..., digo,  e se inspirando na famosa novela gráfica de Miller, os roteiristas Chris Terrio e David S. Goyer, com direção de Zack Snyder e bênçãos (pitacos e influência) do pretensioso Christopher Nolan (do bom Batman Begins, 2005, do razoável Batman - O Cavaleiro das Trevas, 2008, e do terrível Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge, 2012).

O confronto Batman vs Superman: A Origem da Justiça (Batman V Superman: Dawn of Justice, 2016) acontece logo após a catastrófica batalha entre o Superman (Henry Cavill) e o vilão kriptoniano Zod (Michael Shannon), narrada em O Homem de Aço e que deixou um incalculável rastro de destruição em Metrópolis e Gotham City. Manipulações políticas e midiáticas, manifestações de ódio, fanatismo generalizado (lembrando a hipocrisia reinante na “rede social” Facebook no Brasil), dividem a opinião pública e acabam comprometendo a idoneidade moral do Homem de Aço (assunto já explorado no filme solo de 2013) e influenciando o atormentado, vingativo e inescrupuloso Batmaníaco do taciturno Bruce Wayne (Ben Affleck), que se considera mais uma vítima da batalha estelar e quer cobrar (do alienígena) a sua parte na porrada, em uma luta de vida ou morte.  


Nessa arena, o maquiavélico psicótico Lex Luthor (Jesse Eisenberg), é claro, espera assistir, de camarote, ao “acerto de contas”. Uma vez que a aparição dos coadjuvantes Diane Pince/Mulher Maravilha (Gal Gadot) e Apocalypse (Robin Atkin Downes) não é novidade para ninguém..., já dá para o espectador deduzir (sem qualquer spoiler) até mesmo o “final” da história..., se é que conhece a saga do Superman nos quadrinhos e (para mim) a sua (talvez) melhor e mais melancólica aventura.

Como qualquer produto da DC que se preze (positiva e ou negativamente), Batman vs Superman: A Origem da Justiça é grandiloquente (ao gosto de Nolan) e dado a frases prontas (clichês piegas) de impacto sócio-político e econômico, para o público (adulto?) mais intelectualizado achar que a sua inteligência não esta sendo subestimada e que o filme está (seriamente?) conectado (e comprometido?) com o seu tempo etc. Bobagem! Este é apenas mais um artifício narrativo manipulando frases (rasas) ao vento, já que não há interesse (ou estofo?) algum em se aprofundar o dito, que fica pelo não dito.


Batman vs Superman: A Origem da Justiça não é uma colcha de retalhos apenas de hqs dos heróis protagonistas, também se ocupa em fazer citações da trilogia cinematográfica Batman via  Nolan. Os furos do roteiro não são de bala, são de preguiça mesmo. O argumento é tosco e o enredo confuso e pouco convincente nesse universo quadrinhesco em mutação. Nem a trilha sonora horrorosamente sinfônica e ensurdecedoramente desconexa consegue imprimir alguma emoção ao gélido e insosso drama(lhão).

As crises e dilemas dos heróis se repetem: aceitar-se superior/divino e ou humano/marginal? E por falar nisso, a se calcular a neurose de cada futuro integrante da futura Legião, acho que, para discutir os traumas e as psicopatias de cada um, será necessário um ato inteiro do filme para a terapia em grupo. E como, ao contrário da Marvel, a DC não é chegada nem em humor negro, duvido que seja, ao menos, minimamente tão divertida e inocente quanto a sessão de terapia que acontece com personagens de games na ótima animação Detona Ralph (2012).


Ah, e por falar que o humor que rola fácil e mordaz na Marvel não faz parte da DC, os roteiristas de Batman vs Superman até tentam alguns gracejos, mas são tão ruins que é impossível esboçar um sorriso amarelo sequer. Nesta trama de explosão, tiro e pancadaria, o mais próximo que Terrio e Goyer conseguem chegar do que lhes parece humor é um brevíssimo diálogo constrangedor (!!!) entre Martha Kent (Diane Lane) e Batman (Affleck), sobre um apetrecho usado por muitos heróis e super-heróis e que a Pixar já se saiu muito melhor ao falar dele em Os Incríveis (2004). Se viu a animação, vai se lembrar, na hora, da piada lá,  ao ouvir a insinuação imbecil cá. Onde está o Deadpool quando mais se “precisa” dele?

A sequência de abertura (que deve durar uns quinze minutos), mostrando a batalha de Superman e Zod, sob o ponto de vista de Bruce Waine, agrega descaradamente todos os clichês tradicionais do gênero herói/catástrofe (ou vice-versa) que todo cinéfilo conhece de cor e salteado. Ou melhor, quase todos os clichês, pois não me lembro de ter visto algum cachorrinho em perigo. Quanto ao “casal romântico” Clark e Lois Lane (Amy Adams) os autores patinam e patinam, os atores se entregam e se entregam, porém, os personagens se olham, se abraçam, se beijam, insinuam sexo..., mas química que é bom..., nada!


Enfim..., após o equivocado O Homem de Aço (2013), parece que ainda não será desta vez que o diretor Zack Snyder (notório por 300, Watchmen, Sucker Punch) encontrará a sua redenção cinematográfica..., ao menos se depender da crítica, já que tem um público espectador que o admira mesmo nos deslizes. Esses fãs, que não estão nem aí para questionamentos filosóficos, sociais, econômicos, psicológicos..., se tiverem um pouco de paciência com a narrativa arrastada, com certeza vão se deliciar é com o explosivo terceiro ato e até se esquecer da pipoca com pururuca e do refrigerante quente...


Se eu não gostei de nada? Gostei do elenco (Henry Cavill, Ben Affleck, Jesse Eisenberg...), da fotografia de Larry Fong e (do melhor de tudo, mesmo!) dos fantásticos e alucinantes pesadelos do Batman!

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Crítica: Mad Max: Estrada da Fúria


Sempre que ouve falar em refilmagem de clássicos, como se faltassem ideias no reino da fantasia hollywoodiana, muito cinéfilo sente um frio na espinha. Por isso o antigo anúncio do “resgate” da franquia de Mad (Mel Gibson) Max deixou muita gente em suspense por quase uma década. Ainda que se divulgasse que o “resgate” seria feito pelo seu criador George Miller e o personagem reencarnado por Gibson. Tempo foi e tempo veio e depois dos contratempos, eis que o filme pronto chegou às telonas. Os cinéfilos e fãs da trilogia - Mad Max (1979), Mad Max 2 (1981) e Mad Max - Além da Cúpula do Trovão (1985) - vão sentir um frio mais intenso na espinha e o estômago revirar, mas de felicidade. O Mad Max: Estrada da Fúria é muito melhor do que poderia supor a nossa enorme impaciência. É fascinante, criativo, desconcertante, surreal, bizzaro..., uma “ópera punk heavy metal” pra ninguém botar defeito. Quer dizer, tem uma ou outra nota fora da pauta, mas tão insignificante que compromete em nada o ritmo ensandecido deste filme que parece já ter (re)nascido clássico.


Trinta anos. O tempo não parou e a tecnologia seguiu célere no mundo real caótico e, por muitas vezes, à beira de um cenário apocalíptico, quer pela força da natureza, quer pela demência humana. E demência é o que não falta aos sobreviventes do caos no escaldante mundo pós-apocalíptico (?) de Max Mad, com suas estradas e “acampamentos” cheios de fúria e miséria, onde a solidariedade é mínima. É esse mundo de ontem, com resquícios de hoje, no pesadelo do amanhã, que nos chega pelas mãos de George Miller, aguçando e perturbando novamente os nossos sentidos com um argumento insano (?), um roteiro crível e um apuro técnico de cair o queixo.


Mad Max: Estrada da Fúria (Mad Max: Fury Road, 2015) acelera pela desértica Terra tomada pela secura, onde um oásis, como a Cidadela, é uma dádiva rara. Tão rara que é defendida com impressionante reserva de artefato bélico, pelo seu “imperador" tirano Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne) e seus asseclas descerebrados e sempre prontos para ir para o Valhala.  É nesse paraíso oculto, onde “subir” ao céu e ou “descer” ao inferno é bem mais que uma metáfora-motriz nos pés e mãos descartáveis alavancando plataformas, que Mad Max (Tom Hardy) é aprisionado. E é dele que, em meio à tortura, na perseguição à Imperatriz Furiosa (Charlize Theron) ele escapa para viver uma saga que pode lhe trazer alguma paz de espírito (errante) após a perda da mulher e filho.


Mad Max: Estrada da Fúria é um filme de aventura e ação, mas muita ação e violência pós-apocalíptica. Se os diálogos são mínimos a expressividade dos atores, principalmente de Hardy e Theron, é hipnotizante. Há que se destacar também a performance difícil de  Nicholas Hoult na pele do inocente útil Nux, um guerreiro-menino à serviço de Immortan Joe. A fotografia de John Seale é uma pintura rara que só aumenta a credibilidade da trama sonorizada pelos acordes ensurdecedores de Junkie XL (Tom Holkenborg). O desenho da frota de carros customizados (e de seus condutores) é precioso, vai deixar muita gente querendo um “brinquedinho” daqueles de presente de Natal..., enquanto ainda existe Natal!

A inventividade de Miller, que dividiu a excelência do roteiro com Brendan McCarthy (escritor de HQ) e Nico Lathouris, parece não ter limites na criação de personagens e coreografias automotivas capazes de embasbacar até os fãs do Cirque du Soleil. Se o Mad Max de 1979 (e os dois que o seguiram) foi exaustivamente “imitado” (e jamais igualado), com certeza o de 2015 não será diferente.


Com seu humor negro e sequências de fazer disparar o coração, se agarrar na cadeira, suar frio e até se emocionar..., saber se este Mad Max é melhor que algum dos três filmes anteriores é o que menos importa, já que a época e até as emoções são outras. Ainda que algo emblemático continue forte e influente por décadas ou séculos, não se deve esquecer que é na sua criação que ele mais resplandeceu. Portanto, rever a trilogia de ontem para comparar com o filme de hoje me parece uma grande bobagem, já que a nova produção não é refilmagem e sim uma história original. Apenas o universo é o mesmo. O argumento contorna e contempla o feito passado, mas de olho na plateia futura.

Para quem quer uma sensação muito mais intensa, recomenda-se assistir em tela gigante numa sala com potentes alto-falantes, principalmente para curtir o grande achado de Miller: dois carros sonorizados. Em um, instrumentos de percussão e, no outro, um guitarrista alucinado, com sua guitarra incendiária, dando moral aos guerreiros de Immortan Joe. Mais uma maluquice deliciosa num roteiro em que a presença dos artistas e seus dublês é mais forte que o CGI que, quando preciso, comparece em sequências (tempestade de areia!) e efeitos inacreditáveis.

Enfim, considerando o que disse acima (apenas o básico, para não estragar a surpresa)..., simplesmente imperdível! Ah, e acredite, você só verá uma loucura maior que esta, se houver uma próximo Mad Max pelas mãos do genial George Miller.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Crítica: A 100 Passos de um Sonho


Cinema é cíclico. Alguns gêneros ou temas sempre teimam em voltar à telona.  Às vezes viram tendência. Às vezes não. Recentemente, três filmes culinários, a serviço da degustação visual e dicas gourmet, botaram a mesa: Comme un chef, de Daniel Cohen, Chef, de Jon Favreau e A 100 Passos de um Sonho, de Lasse Hallström.

A 100 Passos de um Sonho (The Hundred-Foot Journey, 2014) trata da jornada do cozinheiro indiano Hassan Kadam (Manish Dayal) que, após um atentado ao restaurante da família, foi obrigado a deixar a Índia, migrando para a Europa, na companhia do seu pai, Papa (Om Puri), e de três irmãos. Por um incidente do destino, a família acaba se instalando no aprazível vilarejo Saint-Antonin-Noble-Val, no sul da França, onde abrem o restaurante Maison Mumbai, para oferecer aos nacionalistas franceses a mais tradicional comida indiana. O único porém é a concorrência a 100 passos do Mumbai, o requintado Le Saule pleureur, especializado na mais clássica comida francesa e detentor de uma cobiçada estrela do Michelin. A sua proprietária, a arrogante Madame Mallory (Helen Mirren), que sonha com uma segunda estrela, não vê com bons olhos, bons ouvidos e bom nariz a colorida e animada nova vizinhança e suas inebriantes especiarias. Opinião que não é compartilhada pela sua sub chef Margueritte (Charlotte Le Bon).


A 100 Passos de um Sonho é uma comédia com pitadas de drama leve, salpicada de sociabilidade. Adaptada por Steven Knight, do best-seller de Richard C. Morais, é uma história feita para ser degustada sem pressa, ainda que se adivinhe o cardápio. Da entrada à sobremesa, o espectador nem precisa acompanhar o menu para sentar-se à mesa e saborear a trama de odores. A receita do prato principal de cada personagem é óbvia, mas incomoda em nada a digestão neste efervescente banquete de tradições culinárias.


É cada vez mais raro um filme sem clichês. Dizem que todas as histórias já foram contadas e que, portanto, só variam os personagens, independente do gênero cinematográfico. Há controvérsia. A 100 Passos de um Sonho é repleto de clichê. Mas não faz a menor diferença, já que estão perfeitamente integrados à charmosa narrativa, recheada com alguns diálogos picantes e ou agridoce e uma cobertura maravilhosa na fotografia muito bem temperada de Linus Sandgren. Decididamente, fotografar um prato, da colheita dos ingredientes ao serviço final, não é para qualquer um. Mas o desafio maior ficou para o vegetariano Lasse Hallström, que, com muito profissionalismo, dirigiu o filme-cozinha onde a maioria dos pratos é de carnes.


Filmado em locação na França, A 100 Passos de um Sonho é um filme simples, sem grandes novidades, mas envolvente. Assim como o simpático Chef, quebra a rotina da temporada de produções cada vez mais violentas e dá um merecido descanso às retinas. Além de servir de inspiração aos cozinheiros de ocasião. Seus personagens são simpáticos e cativantes. O elenco é excelente. Os novatos Manish Dayal e Charlotte Le Bon surpreendem, mas quem rouba as cenas são os inspiradíssimos veteranos Om Puri e Helen Mirren. Atenção: Não deve ser visto de estômago vazio.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Crítica: Planeta dos Macacos - O Confronto


No Brasil, os dubladores, digo, tradutores de títulos de cinemas, adoram um subtítulo..., o que praticamente entrega (ou estraga) um filme. Planeta dos Macacos - O Confronto (Dawn of the Planet of the Apes, EUA, 2014) está mais para o “Alvorecer” (Dawn), do título original americano, do que do complemento “Confronto”, da adaptação brasileira. Não que falte confronto no filme dirigido por Matt Reeves, muito pelo contrário. Há conflitos em ebulição a cada fotograma e nos mais variados níveis de provocação implícita e ou explícita.

Porém, o “Alvorecer” (do título) está direcionado mais ao “o dia seguinte” à catástrofe (ao recomeço) do que a um “Confronto” iminente. Inclusive, a sequência inicial (ou prólogo) do Alvorecer do Planeta dos Macacos (Dawn of the Planet of the Apes) está bem próxima da sequência inicial (ou prólogo: The Dawn of Man) Alvorecer do Homem, do filme 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick. É praticamente, sem nenhum demérito, uma visita ao clássico sci-fi. Tanto no filme de Kubrick quanto no de Reeves, os seres primitivos estão a um passo da cadeia evolutiva, descobrindo como usar armas e atacar furiosamente uma presa e ou um inimigo em potencial..., o que os colocará (quase?) no topo da cadeia alimentar. O que não quer dizer que o “Alvorecer” (assim como o “Entardecer”) não traga surpresas desagradáveis..., ou visitas indesejáveis para todos.


“Macaco não mata macaco.” é a regra máxima da nova comunidade de símios (gorilas, orangotangos, chimpanzés, bonobos) comandada por César (Andy Serkis), em seus primeiros passos rumo à (re)evolução da espécie. Um caminho que pode tanto aproximar quanto afastá-la da civilização humana.  Na verdade, dez anos após a dizimação de 90% de humanos, pela gripe simiesca (derivada de um vírus criado em laboratório para curar o Mal de Alzheimer) e conflitos entre nações, o que esses macacos mais querem é distância dos tais homens civilizados. Todavia, ainda que, para os humanos, uma regra como “Homem não mata homem.” jamais se aplicaria à matança por cor de pele, cultura, crença religiosa etc, há mais em comum entre as espécies do que supõe um teste de DNA.

Dez anos parece um tempo razoável para se enterrar um passado dolorido. O que os macacos viveram neste período, após a sua libertação dos laboratórios de pesquisa e zoológicos, é visível no semblante de cada um e no dia a dia da colônia, não é preciso de flashbacks. Quanto ao destino dos homens, é o que menos importa ao enorme bando totalmente adaptado à floresta de sequoias de Muir Woods. Ou era, até que a chegada de um grupo de humanos liderado por Malcolm (Jason Clarke), para reativar uma hidroelétrica em território símio, abre feridas em ambos os núcleos.


Neste desafiador drama de ficção, de um lado a diplomacia de Malcom e a intolerância de Carver (Kirk Acevedo), um homem que culpa os macacos pelo vírus..., e do outro, a diplomacia de Cesar e a intolerância de Koba (Toby Kebbell), um bonobo que não perdoa os humanos que o usaram como cobaia em experiências médicas. Cesar e Malcom vão precisar de muito mais que formalidades diplomáticas para acalmar os ânimos e evitar o pior. Uma trégua é bem-vinda para os dois grupos, resta saber quem dará o primeiro (bom ou mau) passo.

Planeta dos Macacos - O Confronto é tenso, perturbador. Reeves mostra-se mais uma vez seguro e ágil na direção. Evidentemente, numa produção de excelência como essa, a cenografia e os efeitos especiais não poderiam ser menores. Contudo, o seu maior trunfo (sofisticado e inteligente) é a comunicação entre os macacos, que mescla linguagem de sinais (que Cesar aprendeu no laboratório) com grunhido e inglês (tosco). O que nos leva às magníficas interpretações (em captura de performance) de Serkis (o compassivo e imponente César) e Kebbell (o apavorante e malicioso Koba). Aliás, Kebbell/Koba tem duas cenas antológicas, quando encontra homens armados numa velha base militar. Também se destacam Nick Thurston, na pele do adolescente Olhos Azuis, filho de Cesar, e Karin Konova, o orangotango conselheiro e mentor Maurice. Dois personagens quase silenciosos, mas de uma expressividade cativante.


Um espectador antenado com o os acontecimentos socioeconômicos no mundo e chegado a uma analogia entre a vida real e a fictícia, a partir do universo hollywoodiano, vai se sentir realizado com o pertinente roteiro escrito por Mark Bomback, em colaboração com Rick Jaffa e Amanda Silver, de O Planeta dos Macacos (2011). Os assuntos (que se acredita no subtexto) vão da posse e exploração estratégica de fonte de energia ao fim do imperialismo americano. Será?!

Enfim, quem não está nem aí para subtexto sócio-político, mas procura uma história convincente, com bom conteúdo e instigante reflexão, uma narrativa que não subestima e nem chateia o espectador, vai se sentir (também) muito gratificado.

NOTA: 
No Portal Motherboard você pode assistir ao impressionante documentário A Ilha dos Macacos, na Libéria (África) e a três curtas de uma série especial criada para sintonizar o espectador mais afoito ou distraído ao universo de O Planeta dos Macacos. As histórias se passam entre o primeiro e o décimo anos em que eclodiu o levante dos macacos e a dizimação da população pela “gripe símia”. Ou seja, entre O Planeta dos Macacos e o O Planeta dos Macacos - O Confronto. São eles: Spread of Simian Flu: Before the Dawn of the Apes (Year 1), com legenda em português, trata da propagação da gripe. O segundo, Struggling to Survive: Before the Dawn of the Apes (Year 5), com legenda em espanhol, fala da luta pela sobrevivência. O terceiro, Story of the Gun: Before the Dawn of the Apes (Year 10), com legenda em espanhol, é sobre uma arma que vai passando de mão em mão até que... Os curtas lembram A Estrada (2009), de John Hillcoat, mas é um trabalho muito bacana.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Crítica: AVATAR



Avatar, a mais nova investida cinematográfica de James Cameron, é de deixar qualquer espectador embasbacado com seu magnífico visual em 3-D estereoscópico. Usando e abusando do que há de mais avançado na tecnologia 3-D, o diretor (roteirista e produtor) transforma uma história sobre a exploração de minerais, em um planeta virgem (que para alguns pode até aparecer banal e piegas), num espetáculo contagiante e capaz de tocar o mais insensível crítico dos naturalistas.

Avatar é uma fábula ecologicamente correta. A história se passa em Pandora, uma lua orbitando o planeta gasoso Poliphemus, em Alfa Centauro. É um lugar deslumbrante, como a Terra já foi um dia, com densa vegetação que abriga, além de fantásticas formas de vida animal e vegetal, a civilização dos Na’Vi, pacífica raça humanóide. O seu equilíbrio é quebrado com a chegada de terráqueos em busca de um minério raro e caro. Os invasores, com todo o seu poderio bélico, só têm um propósito: a exploração a qualquer preço. Mesmo que este seja o da vida dos nativos e do perfeito equilíbrio da riquíssima fauna e flora. Como não podem sobreviver à atmosfera de Pandora, usam a manipulação genética para criar híbridos humano-Na´Vi, chamados de Avatares, controlados através da projeção de consciência, e se infiltrar entre os nativos e minar as suas forças. Jake Sully (Sam Worthington), um fuzileiro naval paralítico, e Grace (Sigorney Weaver), uma cientista, ambos comandantes de híbridos, serão o fiel da balança na batalha que se anuncia.

Parece uma história conhecida, não é? Na Terra, vemos e ouvimos diariamente do que a ambição desmedida do homem é capaz. Mas não vemos e nem ouvimos soluções..., apenas promessas ao vento. Avatar fala de um futuro ainda possível. Pelo menos na ficção ou no sonho, já que, por aqui, o que continua nos assombrando é o pesadelo diário imposto pelos senhores do mundo desenvolvido, em seus encontros datados para confabular sobre nada. Pois nunca há clima para se discutir uma solução para o clima. Temas como este (invasão, depredação, domínio, força militar, capitalismo, exploração) não são novidades no cinema (nem de animação), o que difere é o enfoque, a forma de tratar o assunto. Com seu tocante e profundo discurso humanista, é difícil não se deixar envolver pela história tão próxima da nossa realidade e torcer por um final diferente do conhecido, quando o que está em jogo é bem mais que a exploração irracional dos recursos naturais. Sociologia barata, dirão os detratores. Barata ou não (em Avatar saiu caríssima), o tema é tratado com precisão, nas entrelinhas. Jamais o cinema viu um assunto exposto com tamanha beleza e dor. Talvez um dia os homens de negócio consigam enxergar a Terra além das cifras.

Avatar é um filme de (muita) ação e com cenas de tirar o fôlego. Nele encontramos referências (ou lembranças) de outros filmes (e literatura) de ficção científica e fantasia. Mas nunca com tal qualidade tecnológica. Nunca tão palpável. O filme arquitetado por James Cameron só se tornou possível com o desenvolvimento de câmeras para a captação de imagens em 3-D estereoscópico. Ferramenta indispensável para o enriquecimento da narrativa e do espetáculo que se apresenta. Em Avatar o efeito 3-D não é mero exibicionismo de um brinquedo novo, mas um coadjuvante de luxo a serviço da história, do cinema, da arte. Ou seja, não basta ter toda essa tecnologia à mão se não se sabe o pra quê. Um bom argumento já é um começo, mas a qualidade do roteiro é imprescindível.

Pra quem não tem fobia de altura, assisti-lo em 3-D-IMax pode ser uma experiência única.

domingo, 29 de novembro de 2009

Crítica: 2012



Partindo da premissa que o povo norte-americano é o povo escolhido e que, em se tratando de catástrofe, somente um único cientista norte-americano é capaz de detectar qualquer tragédia e também encontrar a solução, em meio a problemas familiares e a manutenção da ordem democrática dos (e nos) EUA e no resto do mundo que sobrar em pé, o alemão Roland Emmerich vai dando asas à sua imaginação e, à custa de milhões de dólares americanos, realizando os filmes trash mais caros do mundo: Independence Day de1996 (“releitura” de A Guerra dos Mundos, de George Wells (sem dar créditos), em que destrói os ET’s infectando os sistemas de defesa da nave-mãe com um vírus de computador); Godzilla de 1998 (“releitura” do adorável lagartão japonês, que deixa os cenários de papelão, após testes nucleares, e parte pra aterrorizar Nova York, que é muito mais aterrorizada pelo exército que não poupa nem as propriedades da Disney); O Dia depois de Amanhã (um desequilíbrio ecológico congela a Terra, deixando sobrevivente presos na New York Public Library, e ali, pra se aquecerem, em vez das estantes, cadeiras e mesas de madeira, eles queimam os livros – menos a Bíblia).  As ações de seus filmes geralmente começam, passam ou terminam em Nova York e invariavelmente destroem Los Angeles.  E se preciso for, os “mocinhos xerifes do mundo”, invadem um país de 3º ou 4º mundo. Em O Dia Depois de Amanhã, invadiram o México e em 2012 vão atracar na África.


O espectador pode até xingar ao final da sessão, dizer que foi roubado e que o filme é horrível..., mas um tempo depois, ao se lembrar dele, vai achar graça da idiotice que acabou de assistir. Os filmes de Roland Emmerich estão aquém de qualquer crítica, já que são deliciosas bobagens sem pé nem cabeça ou vice-versa. Não foram feitos (e nem tem como) pra serem levados a sério (a não ser por ele). A profundidade de cada um é o de um pires raso. Quem o assiste, só pode esperar diversão desvairada, voluntária ou não. É puro trash. Vai contra os princípios filosóficos do filme trash, mas é trash. É uma grande caricatura, repleta de canastrões, diálogos inócuos, clichês atrás de clichês e muitos efeitos especiais bacanas e, por isso (tirando o alto custo) trash. Por todo o seu passado cinematográfico é claro que 2012 não podia fugir à regra trash super kitsch. Tem espectador que se satisfaz apenas com os trailers, onde passam só as melhores partes (as dos efeitos especiais). Aqui não é diferente, se fosse cortada uma hora de filme ninguém iria perceber.


Para Emmerich, é Deus no céu, o Império Norte-Americano na Terra e um cachorro a salvo e feliz no seio de alguma família norte-americana. Pra quem não presta muita atenção na variação sobre o mesmo “conteúdo” catastrófico das suas produções, vale lembrar que (assim como Spielberg) os seus protagonistas estão sempre em conflito com a família: pais que não compreendem filhos que não compreendem pais que não compreendem mães..., por aí, mas, que no final, todos se redimem. Que lindo! Não importa quão sofisticado (estudado) ou humilde (ignorante) seja o “sujeito” do seu filme (onde mulher é sempre mera coadjuvante) ele será inevitavelmente um homem de caráter, profissional cheio de habilidades. Em 2012, Jackson Curtis (John Cusack) é um escritor e dublê de motorista de limusine (ou vice-versa) pra uma família russa (com cara de comedora de criancinha), enquanto Gordon (Thomas McCarthy), atual marido de sua ex-esposa (por enquanto), é cirurgião plástico e, por força das circunstâncias, se torna um exímio piloto de avião (mais ou menos nessa ordem). Aí, ao dirigir uma limusine ou pilotar um avião (enquanto o mundo desmorona atrás deles), serão os responsáveis pelas melhores e mais divertidas sequências. E assim, entre um efeito especial aqui e a sua repetição ali, entre um clichê aqui e mais dois ali, entre um presidente americano negro, Wilson (Danny Glover) e um cientista negro, Adrian Helmsley (Chiwetel Ejiofor), politicamente corretíssimos acolá, o mundo em 2012 acaba onde (dizem) começou, na África, agora com a forma do crânio de Lucy (aquele fóssil e elo perdido). Uau! Que fofo!  Que gênio!


2012 é sem dúvida um filme de efeitos (e bota efeitos nisso). Roland Emmerich é como a Enterprise do Capitão Kirk: “vai onde nenhum homem jamais esteve”, pena que ele se leve tão a sério na realização catastrófica de seus filmes-catástrofes. Ah, vale lembrar aos religiosos e ufanistas de plantão que a alardeada cena de destruição do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, dura pouco mais que uma piscadela, mal se vê. Portanto, se for ao cinema, por isso, fique atento. E se quiser saber um pouco mais sobre a tal Profecia/Calendário Maia, pesquise antes, porque o filme mal toca no assunto.  Já que até a Cultura Maia vai terra abaixo, em 2012, por que perder tempo com explicações tão banais, não é?!

Bom, e se por um acaso o mundo não acabar em 20 de 12 de 2012, ele ainda tem outra chance em 2112, que é uma data muito mais cabalista: 21 de 12 de 2112..., redondinho tanto na ida quanto na volta. Quem viver, verá!

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Literatura: O Mundo de Gore a Kaufman


capa: Ana Maria Duarte

por Joba Tridente
Tem gente que acha que o curioso filme Mais Estranho que a Ficção, de Marc Forster (Direção) e Zach Helm (Roteiro), bebe no mesmo copo de Charlie Kaufman: Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, Quero Ser John Malkovich e Adaptação. Será? Para quem não conhece ou nunca ouviu falar, sugiro a leitura de Duluth, de Gore Vidal, lançado no Brasil, pela Rocco, em 1987. Com sua língua afiadíssima Gore Vidal nos oferece a paródia de uma cidade onde tudo, absolutamente tudo, pode acontecer. Ali, as pessoas não morrem, tornam-se personagens de seriado de TV, e os personagens literários se revoltam por ter de viver indefinidamente as mesmas histórias cada vez que alguém abre um livro. Isso quando não pulam de um livro para outro.
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