(The Last
of England)
por Joba Tridente
O ativista, escritor, cenógrafo, roteirista, diretor Derek Jarman (Sebastiane; A Tempestade;
Caravaggio; Wittgenstein; Blue) é um
capítulo a parte na cinematografia britânica. Mestre do desconcerto visual, da
erotização divinizada, da metaforização sociopolítica, suas obras (que
incomodam espectadores de mente tacanha) são verdadeiros manifestos de cor e luz
embalados por trilhas sonoras que, por vezes, tornam-se protagonistas. É, sem
dúvida, um dos autores internacionais que mais sublimaram o fazer
cinematográfico, buscando novas sensações e novas costuras na edição de imagens
captadas pelos mais diversos meios. Nesse sentido, Crepúsculo do Caos (The
Last of England, 1987 - o título vem de uma pintura, de 1855, do pré-rafaelista Ford Maddox Brown) radicaliza na mensagem, sem qualquer
sinal de esnobismo, sobre a tolerância (sexual, social e racial). Na verdade,
sobre a falta de tolerância. Crepúsculo
do Caos estreia dia 30/09/2021
no serviço de streaming Petra Belas Artes À LA CARTE, com mais quatro novos títulos*.
“o amanhã foi cancelado por falta de interessados”
Lá se vão 34 anos e o Crepúsculo do Caos, de Derek Jarman (1942/1994), que poderia soar
datado e tematicamente localizado, com sua visão pós-apocalíptica de uma
Inglaterra totalitária sob o comando da mão de ferro Margaret Thatcher, continua
mais atual que nunca, com a ascensão da extrema-direita na Europa (?) e dos
novos fascistas emergindo no contingente de outros continentes. Com fotografia
de Christopher Hughes e Derek Jarman, que aproveitou fotos e imagens (em
super-8, VHS, 35 mm) também da família, sonorizado por Simon Turner e Andy Gill
e narrado por Nigel Terry, a ficção
futurista roteirizada por Jarman, com citações de Shakespeare, TS Eliot, Allen
Ginsberg..., é um filme que atropela o espectador com a pungência e urgência da
sua narrativa imagética.

É impossível ficar indiferente diante do tropel de
imagens que evocam violência física, desespero sexual, mendicância, fome,
drogas, execução, colonização (Índia), tortura, terrorismo (Irlanda), guerra
(Malvinas)..., num retrato ferino da morte sociocultural do que se conhece como
civilização. Ama-se ou deixa-se a sala às primeiras imagens homoeróticas no
viés da angústia de um belo jovem ('Spring'
Mark Adley) seduzido pelo belo Cupido
de Caravaggio. Ativista dos direitos dos homossexuais (ingleses), Derek, que
sempre afrontou o conservadorismo (hipócrita) inglês, não se faz de galinha
morta e canta de galo diante da homofóbica Cláusula
28, de Thatcher..., fazendo seu canto de revolta ecoar além Reino.
Num
olhar furtivo, realidades sociais, políticas e econômicas passadas e presentes amalgamam
num painel ainda (?) atemporal. Têmpera raspada num vidro. Bandeiras virando
trapo, símbolos ressignificados, cidadãos virando nada na sina migratória,
virando lixo nas fronteiras, virando bicho na clandestinidade. Hoje, a
sequência (bizarra?) do casamento de uma jovem (Tilda Swinton), que passa pela execução do marido (irlandês?) e
culmina no corte em frangalhos do vestido de noiva, pode ser lida como a saída
(Brexit) do Reino Unido da União
Europeia, sem perder (ou ganhando mais) a força da indignação e da denúncia.

Merecedor do Prêmio
Teddy, de 1988, em Berlim, para Derek Jarman e do júri para Tilda Swinton, Crepúsculo do Caos, talvez seja o filme
mais crítico à Grã-Bretanha já realizado. Com poesia e porrada ele desvenda o
que se quer oculto e reescreve o que ser quer esquecido ou apagado das páginas
da história. Não é de fácil digestão e vai muito além da sinopse: “Uma visão pessoal do diretor sobre o
declínio de seu país, em uma linguagem mais próxima da poesia do que da prosa.
Uma meditação sombria em Londres e Belfast sob Thatcher.”..., já que permite
as mais diversas leituras e releituras por ingleses (desunidos) e espectadores que
só estão de passagem apreciando a paisagem da troca, ou da troça.

Crepúsculo do
Caos é simplesmente catártico! Assim como a vida (do antes e do
pós-pandemia), o artista busca cor na ausência da cor. No retardo da barbárie, a
imundície iguala todos os miseráveis (executados e executores). No labiríntico
cenário de todas as dores e amores mutilados, onde há trevas: a tocha dos
ignorantes desvela a ferrugem das personas enodoadas pela ganância..., onde há
fome: o descarte é o banquete que escancara os dentes podres dos desesperados.
Um filme construído com imagens e pedaços de filmes novos e antigos..., imperdível
em qualquer época. Uma obra para quem odeia ter a sua inteligência subestimada.
Eros e Thanatos nos pratos da balança cujo fiel é o Caos.
NOTA: As considerações acima são pessoais e, portanto,
podem não refletir a opinião geral dos espectadores e cinéfilos de carteirinha.
Joba
Tridente: O
primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros
videodocumentários fiz em 1990. O primeiro curta-metragem (Cortejo), em
35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e
coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e
divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro
tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder,
2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.
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*ESTREIAS
PETRA BELAS ARTES À LA CARTE
Para a próxima quinta (30/09/2021), o À La Carte anuncia um filme
brasileiro que pode, sim, ser chamado de obra-prima
do cinema mundial: Cabra Marcado para
Morrer (1984), de Eduardo Coutinho
(1933–2014), um filme histórico, necessário, mais do que uma joia
cinematográfica, um registro que continua a refletir a realidade
sócio-político-cultural do Brasil de hoje.
CABRA MARCADO PARA MORRER
Brasil, 1984, cor e p/b, 119 min.
Documentário, 12 anos.
Direção: Eduardo Coutinho
Elenco: Elizabeth Teixeira e Eduardo
Coutinho
Narração: Ferreira Gullar e Tite de Lemos.
O diretor Eduardo Coutinho começou a rodar este
documentário na Paraíba, Nordeste do Brasil, em 1964, quando veio o golpe
militar. Obrigado a interromper o projeto, Coutinho voltou a ele em 1981,
procurando os mesmos lugares e pessoas, mostrando o que havia acontecido desde
então, e tentando reunir uma família cujo patriarca, um líder político que
lutava pelos direitos dos camponeses, havia sido assassinado dois anos antes
das filmagens originais. Este homem era João
Pedro Teixeira. Líder da Liga
Camponesa de Sapé, município paraibano, ele se tornou um símbolo histórico
de resistência, um lutador contra a criminalização dos movimentos populares no
campo, no período pré-golpe de 64.
No dia 02 de abril de 1962, João Pedro foi
assassinado a tiros de fuzil, disparados por dois policiais enquanto voltava de
João Pessoa para a sua casa, vítima de um crime encomendado por um grupo de
latifundiários liderados por Agnaldo Veloso Borges, que assumiu, às pressas, um
cargo político, apenas para garantir sua imunidade, enquanto os demais
envolvidos foram condenados e absolvidos de seus crimes três anos depois.

Cabra Marcado
para Morrer tem como protagonista Elizabeth
Altino Teixeira, viúva de João Pedro. Ela, que por algum tempo assumiu as
causas de seu companheiro assassinado, sendo presa diversas vezes, sobreviveu a
mais de uma tragédia familiar e passou a viver na clandestinidade, adotando um
nome falso e se refugiando no Rio Grande do Norte. Em 1981, quando foi
reencontrada por Eduardo Coutinho, para a retomada e conclusão do filme, ela,
enfim, voltou para a Paraíba, indo morar em João Pessoa, numa casa que ganhou
do próprio Coutinho. Homenageada com o Diploma Bertha Lutz e a Medalha Epitácio
Pessoa, hoje Elizabeth tem 96 anos de idade. João Pedro Teixeira, por sua vez,
além de se manter vivo neste documentário e na memória nacional, virou nome de
rua no município de Parnamirim, no Rio Grande do Norte.
Narrado por Ferreira
Gullar, imortal da Academia Brasileira de Letras e um dos mais importantes
poetas do Brasil, Cabra Marcado para
Morrer ganhou diversos prêmio nacionais e internacionais, e, em 2015,
entrou para a lista da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema)
como um dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos. Embora para
muita gente ele seja o melhor filme
brasileiro já feito. Genial como sempre, mais atual do que nunca, Cabra Marcado para Morrer sempre será
um clássico que todo mundo precisa conhecer.

Prêmios: XXXV
Festival de Berlim 1985 (Berlim/Alemanha): Prêmios FIPRESCI e Interfilm do Fórum
de Cinema Jovem; FesTróia - Festival Internacional de Cinema de Tróia 1985
(Setúbal/Portugal): Prêmio Golfinho de Ouro; VI Festival do Novo Cinema
Latino-americano 1984 (Havana/Cuba): Prêmio Coral de Melhor Documentário; I
FestRio 1984 (Rio de Janeiro/RJ): Prêmio Tucano de Ouro de Melhor Filme, Prêmio
da Crítica, Prêmio OCIC (Ofício Católico Internacional de Cinema) e Prêmio D.
Quixote da FICC (Festival Internacional de Cinema); 13º Festival do Cinema
Brasileiro de Gramado 1985 (Gramado/RS): Prêmio Hours Concours; Festival de
Cine Realidade 1985 (Paris/França): Grande Prêmio.
Diretor: Nascido
em 11 de maio de 1933, em São Paulo (capital), Eduardo Coutinho foi graduado em
Cinema na França pelo IDHEC (Institut Des Hautes Études Cinématographiques).
Ele iniciou no cinema na década de 1960, participando do movimento Cinema Novo,
passando a trabalhar na TV nos anos 70. Considerado um dos maiores diretores de
documentários do Brasil, Coutinho escreveu e dirigiu filmes antológicos, como
"Cabra Marcado para Morrer" (1984), "Edifício Master"
(2002), "Santo Forte" (1999) e "Jogo de Cena" (2007). Com
apenas dois longas-metragens ficcionais em sua filmografia, "O Homem Que
Comprou o Mundo" (1968) e "Faustão" (1971), o diretor deixou uma
filmografia de 23 títulos, incluindo quatro curtas, e uma longa lista de mais
de 40 premiações em prestigiados festivais nacionais e internacionais. Eduardo
Coutinho faleceu em 02 de fevereiro de 2014, aos 80 anos, no Rio de Janeiro.
VÍTIMAS DO PODER
(Eminent domain)
França | Israel | Canadá, 1990
Drama, 106 min, 14 anos
Direção: John Irvin
Elenco: Donald Sutherland, Anne
Archer, Paul Freeman
Sinopse: Um
membro do Politburo polonês de alto escalão foi banido do partido e deve
descobrir por quê. Ambientado em 1979 na Polônia, antes dos eventos do
Solidariedade.
GANGUE DE LADRAS
(Brave Ragazze)
Itália, 2019, Comédia, 95 min, 14 anos
Direção: Michela Andreozzi
Elenco: Ambra Angiolini , Ilenia
Pastorelli,
Serena Rossi , Silvia D'Amico
Sinopse: A
história é baseada em uma gangue de ladras francesas disfarçadas de homens, que
operou na área de Avignon em meados da década de 1980.
PARA SEMPRE E UM DIA
(Forever and a day)
EUA, 1943, Drama, 104 min, 12 anos
Direção: René Clair, Edmund Goulding,
Cedric Hardwicke,
Frank Lloyd, Victor Saville, Robert
Stevenson e Herbert Wilcox.
Elenco: Kent Smith; Ruth Warrick;
George Kirby,
Doreen Munroe, May Beatty
Sinopse: Durante
a 2ª Guerra Mundial um americano viaja até a Inglaterra para vender uma velha
propriedade da sua família, que fica nos arredores de Londres. Entretanto, ele
encontra na casa uma mulher que lá vive e é contra a venda. Eles conversam e
ela lhe conta a história da mansão, desde a construção por um almirante inglês
em 1804 até o presente. Tanto o americano quanto a moradora da casa ficam
exultantes, pois após um bombardeio a pintura do fundador da casa continua
intacta, uma simbólica prova da resistência da Inglaterra nos momentos mais
difíceis.
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