Mostrando postagens com marcador Anton Yelchin. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Anton Yelchin. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Crítica: Star Trek: Sem Fronteiras

Star Trek: Sem Fronteiras
por Joba Tridente

Não me parece necessário ser um trekker de carteirinha para gostar da franquia Star Trek (séries, filmes, hqs) que, comemorando o seu 50º. aniversário, chega aos cinemas com uma interessante aventura retrofuturista: Star Trek: Sem Fronteiras. Fiquei fã quando, na adolescência, assisti casualmente, na televisão, a reprise do antigo seriado (hoje clássico) Jornada nas Estrelas (atual Star Trek). Apaixonado por ficção científica, ele me arrebatou pela “discussão” filosófica e conceito humanitário em suas entrelinhas. Daquele dia até hoje jamais me esqueci de: “O Espaço..., a fronteira final. Estas são as viagens da nave estelar Enterprise, em sua missão de cinco anos para explorar novos mundos, pesquisar novas vidas, novas civilizações, audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve.”


Star Trek: Sem Fronteiras (Star Trek Beyond, 2016), dirigido por Justin Lin, o 13º. filme da franquia, chega aos cinemas trazendo uma história bacana, escrita por Simon Pegg e Doug Jung, que remete ao velho e bom seriado criado por Gene Roddenberry. O enredo é simples (mas eficiente!) e garante uma boa diversão: Obrigados a interromper um merecido descanso na magnífica Yorktown (cidade-planetóide que parece ter sido projetada pelo genial Escher), para atender a um pedido de socorro, o comandante James T. Kirk (Chris Pine) e sua tripulação são emboscados pelo misterioso Krall (Idris Elba). Com a Enterprise destruída, e os sobreviventes dispersos no planeta Altamind, tem início uma corrida contra o tempo para Kirk reunir a equipe, encontrar um meio de fugir dos domínios do furioso inimigo da Federação Unida dos Planetas e evitar que ele cometa um atentado devastador.


Como se vê, o roteiro é padrão (um pedido de socorro e suas consequências) e o que conta, mesmo, é como esta empolgante narrativa, que não tem intenção alguma de reescrever a gênese da série, é conduzida na medida certa para divertir e também emocionar com recortes preciosos. Como, por exemplo, entre outros, o da destruição da Enterprise. Ao longo da saga Star Trek, várias aeronaves USS foram destruídas, mas, possivelmente, nunca de forma tão impactante e dramática quanto a USS Kelvin, em Star Trek (2009), quando Kirk (Chris Hemsworth) a coloca em rota de colisão com a nave romulana Narada, para salvar a sua esposa Winona..., e agora, quando a USS Enterprise é atacada por um “enxame” de naves “abelhas” comandadas pelo “zangão” Krall, em uma sequência espetacular, com um desfecho de cortar o coração, que assinala um acontecimento importante entre os dois eventos. Não vou tirar o seu prazer de descobrir qual é o fato e tampouco revelar a analogia entre as duas cenas primordiais nesta nostálgica trama. Apenas lhe digo: fique atento aos sinais que abrem e fecham histórias, porque, ao captar a “mensagem”, você vai se arrepiar.


Toda via cheia de ação que segue, a aventura trágica dos nossos heróis continua surpreendendo e, diante do imprevisível, aos abnegados oficiais da Federação Unida dos Planetas resta recuperar as forças, cuidar dos feridos e tentar escapar da arapuca. É neste porém que Star Trek: Sem Fronteiras cresce e aparece com soluções bem engenhosas (tão juvenis quanto rebeldes) na exploração de uma tecnologia (ultra)passada (retrô) que pode salvar o dia e ao desvelar detalhes da curiosa inter-relação (fraternal?) entre os oficiais da frota e seus dilemas (banais?).

Star Trek: Sem Fronteiras é assim, na sua aparente simplicidade se esconde um vendaval de emoções que, após a sessão, é difícil de se conter. A trama que começa com um melancólico registro do Kirk, sobre a mesmice da sua rotina, vai ganhando ritmo e dramaticidade até alcançar o ápice numa impressionante batalha, ao som apoteótico de Sabotage, do Beastie Boys (sequência que, mantidas as devidas proporções, ouso dizer, equivale à dos músicos alucinados de Mad Max: Estrada da Fúria). Outro momento inesquecível e de rara sagacidade neste enredo (enxuto!) onde menos é sempre mais.


Enfim, considerando a excelência dos efeitos especiais e do ótimo 3D-IMAX; a simpatia do elenco e dos adoráveis personagens: James T. Kirk (Chris Pine), Spock (Zachary Quinto), McCoy-Magro (Karl Urban), Scott (Simon Pegg), Checov (o saudoso Anton Yelchin), Uhura (Zöe Saldãna), Sulu (John Cho), Krall (Idris Elba) e Jaylah (Sofia Boutella); a beleza do figurino e capricho da maquiagem; o roteiro redondo, o drama sem pieguice e o humor sutil (quase nonsense); a narrativa rolando sem firulas e ou equívocos, fazendo jus ao melhor da saga cinquentona; uma trilha sonora que valoriza mais do que incomoda a trama; a direção ponderada (e cheia de garra!) de Justin Lin..., e pela pungente homenagem a Leonard Nimoy, o eterno (primeiro) Spok, numa belíssima cena, e agradecimento ao talentoso Anton Yelchin, por seu jovial Checov, o sci-fi Star Trek: Sem Fronteira é reflexão (profunda sobre a pertinente motivação criminosa do maquiavélico Krall) e diversão da melhor qualidade para trekker de carteirinha e ou mero fã de ocasião que sabe apreciar o que é bom!

domingo, 10 de agosto de 2014

Crítica: Amantes Eternos


Desde o Nosferatu (1922), de Murnau, muitos vampiros passaram pelas telas de cinema. A variada fauna de vampiros já provocou tanto calafrios quanto risos. Os últimos que nos chegam, com o selo Jim Jarmusch de qualidade, são intelectuais que preferem a tranquilidade do lar sombrio, ao burburinho de uma vida noctívaga. Em vez do risco de uma jugular infectada, a garantia de um puríssimo sangue “O” hospitalar.

Em Amantes Eternos (Only Lovers Left Alive, 2013), Adam (Tom Hiddleston) é um vampiro músico apaixonado por instrumentos de cordas raros e discos de vinil. Vivendo em uma Detroit (EUA) em ruínas, conta com a ajuda do simpático humano Ian (Anton Yelchin) para conseguir suas preciosidades musicais. A sua mulher Eve (Tilda Swinton), dona de invejável biblioteca, mora em Tanger (Marrocos). Ali compartilha sangue e filosofia com o dramaturgo Christopher Marlowe (John Hurt), aquele que alguns acreditam ser o autor dos famosos dramas de Shakespeare. O músico cool e a leitora voraz vivem uma relação mais espiritual que física. No entanto, sonhos preocupantes com Ava (Mia Wasikowska), a irresponsável irmã de Eve, faz com que o erudito casal se reencontre para decifrar suas aflições.


Amantes Eternos surpreende por ser um drama romântico, quase trágico, sobre vampiros. Ele nada tem de terror. O que pode frustrar quem espera ver sangueira jorrando, corpos despedaçados, morcegos ao entardecer etc, recursos cênicos tradicionais em filmes populares do gênero. Felizmente, Jarmusch não é tradicional e muito menos faz o gênero cinema popular que se degusta com combo e smartphone. O seu público é o espectador pensante que espera se deliciar com uma história, ainda que gótica, mais reflexiva. E reflexão, entremeada de nonsense e humor negro (óbvio!), é o que não falta a estes vampiros existencialistas que pelos séculos e séculos acompanharam a evolução e a derrocada social, econômica, cultural, científica dos humanos (ou zumbis, como se referem aos homens). Basta um requintado cálice de sangue entre os dedos para que os dândis soltem a língua (venenosa?) com ironias sobre grandes nomes da literatura, teatro, música... Quando estão enfastiados de revisitar o passado, destilam sobre o presente. E vão (sobre)vivendo em meio ao vintage cult e o descontrole (autoral) tecnológico.


Após a sessão me peguei pensando numa possível sintonia entre Estranhos no Paraíso (1982) e Amantes Eternos (2013), por um pequeno detalhe. Lá atrás, Eva (Eszter Balint) chegava da Hungria, para “agitar” a vida do primo Willie (John Laurie) e seu amigo Eddie (Richard Edson). Agora é Ava (ou seria Lilith?) quem chega de Los Angeles para “agitar” o Paraíso de Adam (Adão) e Eve (Eva) e, por tabela, provocar o “Anjo da Guarda” Ian. Achei curiosa e divertida e essa analogia (e ruptura) sobre o Paraíso (Perdido, de John Milton?), ou o que nos parece ser um Paraíso até que a “tentação” maliciosamente o enreda. O que distingue ou sobrepõe a Eva (de ontem) e a Ava (de hoje) eu sei. Porém, talvez eu esteja viajando num sangue contaminado. Quem quiser tirar a dúvida, veja os dois filmes e conclua por conta própria.

Não creio que haja um diretor de cinema mais underground que Jim Jarmusch. Em uma antiga fan page (abandonada em 2011) é possível encontrar em Minhas Regras de Ouro, e ou atribuídas a ele, um conceito interessante sobre autenticidade e originalidade. À margem de Hollywood, seu território é palco de personagens melancólicos e ou entediados com os rumos do mundo. Não há como ficar indiferente à sua constância ou preferência pelos marginalizados que vivem por teimosia vagando pelo ermo, pelo submundo americano, ou alçando voos baixos por outras paragens igualmente soturnas.


Tratados com apaixonada relevância, seus marginais são sempre convincentes e, por isso, tão arrebatadores quanto a música que veste particularmente cada um. Música que foge do estereótipo “trilha sonora” e envolve até a plateia mais sisuda..., se é que público sisudo se arrisca a ver cinema alternativo.  Jarmusch e música são tão indissociáveis que em Amantes Eternos ele comparece com o seu trio (indie) Sqürl em números e intervenções arrepiantes..., principalmente para quem gosta do bom e velho rock. Com certeza esta é umas das trilhas que estará fácil entre as melhores de 2014.

Enfim, considerando a excelência do elenco; a provocação e inteligência do roteiro que dribla todos os clichês; a trilha irretocável que ilumina e aconchega a sombria história; a notável fotografia de Yorick Le Saux; um Jarmusch ainda surpreendente..., reserve já o seu ingresso.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...