Mostrando postagens com marcador Pedro Almodóvar. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pedro Almodóvar. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Crítica: Julieta


J U L I E T A
por Joba Tridente

Nos últimos anos o cinema de Pedro Almodóvar já não tem me caído tão bem como antigamente. Após o excelente Os Abraços Partidos  (Los Abrazos Rotos, 2009) - que boa parte dos críticos odeia - ele me pareceu piegas e enfadonho em A Pele Que Habito (La Piel que Habito, 2011) - que a maioria dos críticos adora - e totalmente descartável em Os Amantes Passageiros (Los Amantes Pasajeros, 2013)..., que não conheço nenhum crítico que o defenda!


Em Julieta, o seu mais recente trabalho, o cineasta espanhol Pedro Almodóvar, com sua vistosa paleta (explorando tons de vermelho e de azul), desfile de metáforas (para todas as decodificações) e constante estética visual, entre o beneficio e o malefício da dúvida, “sugere” um cine-questionamento sobre a casualidade (e a culpa!) no universo feminino (é claro!).


Inspirado em três contos do livro Fugitiva, da escritora canadense Alice Munro, o roteiro (de Almodóvar) circunda Julieta (Emma Suárez), uma mulher de meia idade que, prestes a se mudar da Espanha para Portugal, com o companheiro Lorenzo (Dario Grandinetti), casualmente, numa esquina de Madri, encontra Bea (Michelle Jenner), uma amiga de adolescência de sua filha Antía (Blanca Parés), que lhe fala de um recente encontro casual com a garota. O comentário faz Julieta mudar os seus planos e começar a escrever cartas para a filha que não vê há muitos anos. São essas cartas/narrativas (redundantes!) que levam o espectador a “mergulhar” nos fragmentos da sua memória, embarcando com a sua versão jovem (Adriana Ugarte) numa viagem de trem onde ela, casualmente, conhece o pescador Xoan (Daniel Grao), futuro pai de Antía que, adolescente (Priscila Delgado), casualmente conhece a jovem Bea (Sara Jiménez)... Há muitas outras casualidades, preguiçosamente alinhavadas para dar forma ao também fragmentado e raso script (“plantão médico”), mas é melhor que o espectador casualmente descubra sozinho.


Julieta (Julieta, 2016) é um melodrama(lhão) com pitadas de thriller, onde a solidão, o ciúmes, a traição, a fuga, a perda, o apego às mínimas lembranças se repetem num depressivo (!) ciclo vicioso, qual herança maldita conspirada pelo destino para aprisionar (e fortalecer?), na dor, mulheres de uma mesma família. Um drama introspectivo e sem espaço para qualquer alívio cômico, mas com iluminadas metáforas por todo canto..., que talvez passem despercebidas, já que, embora até pertinentes, podem não ser tão claras na leitura (consciente) de todo espectador. Ou (quem sabe?) não passem de jogo de cena (de mestre) na “composição” para enredar o público numa história pouco atraente: uma mãe em busca de respostas para o desparecimento misterioso da filha.



Assim, considerando a excelência do elenco e a homenagem a Luis Buñuel (com duas atrizes diferentes na pele de Julieta: Suárez e Urgate); atento à quantidade de mulheres enfermas (em Coma, com Alzheimer, pós Derrame/LER, com Depressão) e de homens (tristes e solitários) excessivamente carentes; pensando na beleza de algumas locações e ao menos de uma sequência fantástica (transição de atrizes no banheiro), que dão ao espectador a impressão de que na vida (almodovariana) de Julieta nem tudo é o que parece na calmaria azul do mar ou na leveza vermelha da argila; vendo os belos signos gráficos do diretor pontuando bem a trama, mas não lhe cobrindo por inteiro; questionando a fragilidade de todos os personagens e o (meu) desinteresse pelo destino de cada um..., Julieta me soa um Almodóvar pela metade. Ou seja, após a sessão, praticamente nada fica na memória!

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Crítica: Os Amantes Passageiros


O mais recente filme de Almodóvar é uma ficção (Oh!). A advertência ao espectador incauto vem no início dos créditos. Como se precisasse. Ora, qualquer frequentador (com algum QI) sabe que até mesmo os filmes baseados (ou inspirados) em fatos reais (por conta ou não das liberdades poéticas) são “pura” ficção.

Os Amantes Passageiros (Los Amantes Pasajeros, 2013), de Pedro Almodóvar, é meio que de volta ao passado cinematográfico descerebrado e trash (por vezes divertido) do diretor. Um filme “meio que” não vai muito além do “assim-assim”. Ou melhor, um filme tão a deriva (ôps!) que cada espectador deve se sentir livre para viajar na meta(eu)fórica maionese espanhola. Se é que há alguma metáfora (de Estado) nessa comédia eufórica às voltas com um seleto grupo de passageiros em confronto com a tripulação gay da companhia aérea Península, cujo avião perdeu o trem de pouso e voa em círculos, buscando um aeroporto em condições de pouso. Ufa!


Num voo onde tudo pode acontecer (e acontece!), a narrativa tangencia o romantismo desenfreado, o ecletismo religioso e a intimidade (profissional e sexual) de cada um dos bizarros “prisioneiros sem destino” desta aeronave “das loucas”. Até aí tudo bem. Nada mais Almodóvar, mestre em comungar absurdas coincidências e diferenças de seus tragicômicos personagens. Todavia, no painel de controle, alguns botões não funcionam a contento e a redundância sexual acaba perdendo a graça depois da primeira ou segunda enfiada, digo, piada grosseira. A excessiva exploração do desvario sexual (principalmente) da tripulação, por vezes, faz o roteiro parecer tão emperrado quanto o trem de pouso. Assim como as pecaminosas historietas dos passageiros que vão se enroscando no manche. Península, Ibéria..., sei não. Será que a paella está no ponto?

 Se o humor de Os Amantes Passageiros varia entre o hilário (o número musical ao som de I'm So Excited, das Pointer Sisters, é ótimo) e o enfadonho, a culpa não é do excelente elenco, encabeçado por Javier Cámara, que mantém a Península no ar. Mas, se o drama-trágico se perde na turbulência de um argumento pouco inspirado (ou seria confuso?), gerando um desconforto, sem direito ao saquinho plástico de emergência, a responsabilidade é do piloto Almodóvar. Embarcar nessa viagem fica por conta do fã-espectador.

sábado, 26 de novembro de 2011

Crítica: A Pele Que Habito


Quando me proponho a ver algum filme, não leio críticas e ou sinopses reveladoras. Prefiro fazer a minha própria leitura. Sei que apostar no diretor e ou no elenco pode não ser a melhor das alternativas, mas é pelo que vale arriscar, mesmo ciente de que nomes, passado e prêmios não garantem um bom espetáculo. Cinema (também) é uma cultura de risco! Assim, a sensação de ganho ou perda, de horas na sala, dependerá da minha expectativa. Vi A Pele Que Habito, bem depois do lançamento, na primeira de duas sessões, num cinema, praticamente, vazio.

Baseado no roteiro de Pedro e Augustín Almodóvar, A Pele Que Habito é uma ficção científica de horror B, inspirada no livro Mygale (lançado no Brasil pela Editora Record, com o título Tarântula), do escritor francês Thierry Jonquet (1959-2009). Em sua trama rasa e nada convincente, Antonio Banderas é o ilustre e inescrupuloso cirurgião plástico Robert Ledgard que, após duas tragédias em sua família e por razões pessoais, de dedica à pesquisa de uma pele artificial e às novas técnicas de cirurgia, usando como cobaia a paciente Vera (Elena Anaya). A sua governanta é Marilia (Marisa Paredes), uma velha conhecida, cuja intimidade será desvelada aos poucos.


Assisti a todos os filmes de Pedro Almodóvar que passaram no Brasil. Alguns perderam um pouco do encanto numa segunda vista, mas, no geral, continuo gostando da grande maioria. Talvez por isso a frustração diante de A Pele Que Habito (La Piel que Habito, Espanha, 2011), que me pareceu um cinema tributo ao próprio Almodóvar, por conta dos retalhos “referências” de outras produções suas costuradas aqui e ali. Os signos de cada autor são a sua assinatura e com Almodóvar não é diferente. Seus filmes são reconhecíveis pela ousadia, pelas cores, pelas personagens femininas (e atrizes), pela bizarrice, pelo humor (negro) ou melodrama, sem que se leia seu nome nos créditos. Porém, desta vez, nem ele e nem os atores e seus personagens convencem. Todos (!) os seus clichês estão ali, literalmente à flor da pele: tortura, sadomasoquismo, supressão da identidade, violência, submissão, crise familiar e sexual, vingança, mulheres, novelão, fetiche. Mas os elementos não têm liga. Se der continuidade, deu!


A produção flerta com a ficção científica (nem tanto por se passar em 2012, mas porque, a despeito da existência de uma pele artificial, a ciência médica ainda não criou aquele tipo de pele inviolável (imune a fogo, cortes, picadas) e tampouco tem tecnologia para modificar um esqueleto (da cabeça aos pés), como faz o Dr. Ledgard. Se já era difícil engolir a o troca-troca de rosto de John Travolta e Nicolas Cage em A Outra Face (Face/Off), de John Woo, aceitar a modificação da ossatura humana é pior ainda. Haja metáfora e imaginação! É mais fácil acreditar que Clark Kent e Superman são duas pessoas diferentes. Quanto ao horror B, ele se dá por conta do clima kitsch chic, beirando o trash, que a permeia: o “baiano brasileño” Zeca (Roberto Álamo), fantasiado de Tigre, seria hilário, não fosse ele uma ridícula caricatura bem ao gosto dos gringos que ainda pensam que samba é rumba.


Apesar de Almodóvar estar (ausente?) em tudo, do começo ao enfadonho e tolo final, A Pele Que Habito parece ter sido dirigido por um cover (dele) enroscado numa atadura. Todavia, nem tudo é um equívoco neste filme que se assiste bocejando. Há que se destacar a direção de arte, na minuciosa temática dos quadros espalhados pela casa-clínica de Ledgard, mas o que chama a atenção, mesmo, é o que se vê nas entrelinhas do leitmotiv, em duas belas sequências: a da releitura de Venus del Espejo, de Diego Velázques (1599 - 1660), transformada em Venus del Video, quando o doutor examina a sua paciente deitada nua, através de uma imensa tela de televisão (que remete ao belo Os Abraços Partidos); e o grito visual de Vera, ainda que prisioneiro, extrapolando a dor e se espalhando pela parede do quarto. Num melodrama sonolento e de pouco interesse, com uma óbvia “reviravolta reveladora” e um final, precedido de risível chantagem (!), pra lá de previsível, foi o que me valeu.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Crítica: Os Abraços Partidos




Acertando ou errando (?) Pedro Almodóvar continua sendo unanimidade. Seu mais recente trabalho, Os Abraços Partidos (Los Abrazos Rotos, Espanha, 2009), tem dividido inflamadas opiniões. Encontra-se todo tipo de comentário. Uns críticos dissecam a vida do diretor espanhol, outros dissecam a obra e ainda há os que se debruçam apenas sobre o filme. Não tem meio termo, o filme é amado ou achincalhado.

Com um título plural ao do singular e ótimo filme argentino, O Abraço Partido (El Abrazo Partido, Argentina, 2004), do diretor Daniel Burman, que também fala de desejo, rejeição, amores, traição, segredos, reparação, com uma outra latinidade (é claro), Os Abraços Partidos, de Almodóvar, é igual na exposição, mas diferente no acento dramático de seus filmes anteriores. O diretor continua tratando de assuntos pertinentes ao seu universo como: cinema, desejo, sexo, vingança, segredos, ciúme..., mas com alguma variação de gênero. Desta vez o spot não está exatamente sobre as mulheres (Lena e Judit), mas sobre os homens (Mateo/Harry, Enrique, Diego, Raio X). É a partir do mundo deles que descobrimos os segredos que os envolvem e também os escondidos pelas mulheres. São eles os responsáveis pelo silêncio trágico e redenção delas, através de imagens perdidas ou restauradas.

Em entrevistas recentes, Almodóvar disse ter deixado as drogas por amor à vida. No filme, quem deve seguir o conselho é Diego (Tamar Novas), um DJ que, acidentalmente toma uma overdose e vai parar num pronto socorro. Ali, numa conversa “informal” com um roteirista cego, Harry Caine (Lluiz Homar), de quem é secretário, alguns segredos começam a ser desvelados. Diego vai entender o porquê da aversão da mãe Judit (Blanca Portillo), produtora de cinema, e de Caine, por Raio X (Rubén Ochandiano), um jovem cineasta, e seu pai, o magnata Ernesto Matel (José Luiz Gómez). Vai saber quem é a bela Magdalena Rivas (Penélope Cruz), mulher de Ernesto e atriz do filme Chicas e Maletas (Meninas e Malas), de Mateo Blanco, que despertou a paixão desenfreada nos dois homens.

Em Os Abraços Partidos, todos têm segredos. Todos têm uma vida dupla: prostituição, drogas, paixões, culpa, homossexualidade, rejeição... Harry Caine, roteirista, é o duplo de Mateo Blanco, cineasta que ficou cego após um trágico acidente, há 14 anos, e mudou de identidade. Amargurado, é ele quem nos conduz pelos intricados caminhos da sua memória, onde alguns fatos do passado se misturam à realização de um filme, com Lena, a sua grande paixão. Saltando de 2008 a 1994, ponto a ponto o seu relato vai enlaçando, uma a uma, as pessoas que o rodeiam. Nesse ir e vir, da sua própria história, o roteirista, mestre em criar tramas e também em filmá-las, falseando o olhar do espectador, verá que foi vítima do seu próprio ofício. O ciúme fez o resto. Nada mais Almodóvar do que acertar as contas com o passado. Seus filmes parecerem estar em constante catarse. Suas histórias são pedaços de vida, quebrados pelo ciúme ou pela vingança, que aos poucos vão sendo costurados com linhas coloridas e doloridas..., mas sempre com algum humor (às vezes negro).

O ciúme desatinado, na leitura de Almodóvar, lembra O Ciúme, na canção de Caetano Veloso: “O ciúme lançou sua flecha preta/ E se viu ferido justo na garganta (...) Mas na voz que canta tudo ainda arde/ Tudo é perda, tudo quer buscar, cadê (...) Tanta gente canta, tanta gente cala/ Tantas almas esticadas no curtume/ Sobre toda a estrada, sobre toda sala/ Paira, monstruosa sombra do ciúme.” O ciúme, na visão do diretor espanhol, é mais do que uma lágrima sobre um tomate vermelho ou cruzes decorativas que se repetem no apartamento dos amantes. É uma dor que pode ser expiada no reencontro do eu, mesmo que leve 14 anos e que a imagem que se quer abraçar não possa ser retida na memória. Se não se pode mudar o passado, pode-se enterrá-lo definitivamente.

Os Abraços Partidos, na sua pluralidade de sentimentos contraditórios ou não partilhados, é um excelente filme sobre a arte de fazer cinema e de contar histórias. Não é uma aula sobre cinema, é a própria arte em exposição. Pedro Almodóvar é mestre na captação de nuances e na sutileza com que referencia outros mestres da 7ª Arte. O seu cinema é o de amador, daquele que ama o que faz e se repete incansável na busca de um novo olhar. Em uma das mais belas e desconcertantes sequência, ao exorcizar o ciúme (à flor da pele) de seu marido, que assiste a um vídeo gravado pelo filho dele, registrando todos os seus passos e conversas com Mateo, traduzidas por uma leitora de lábios, Magdalena dubla a si mesma numa fala diferente daquela gravada em vídeo. Ao dublar-se ela interpreta e ao interpretar-se transforma o registro do vídeo, criando um subtexto que penetra a imagem na tela e retorna ao espectador do vídeo (Martel) e ao espectador do filme (que vê a ambos) como se real. No tríplice jogo de cena do vídeo e do filme confundem-se a mulher, a atriz e a amante. Num outro momento será Ernesto Martel, corrompido pelo ciúme, quem usará a palavra para ferir a quem ama, através do filme (dentro do filme). É Almodóvar indo ao extremo da metalinguagem e modificando um vídeo dentro filme e um filme dentro do filme, a favor (ou por causa) da palavra. Ou do ciúme!

Os Abraços Partidos é (sim) Pedro Almodóvar do começo ao fim, exposto nas cores do amor, do ciúme, da vingança. No simbolismo no nome e na identidade dos personagens. É a mão e a voz do diretor na plenitude da técnica e do amor ao cinema. É um filme tão igual quanto diferente dos filmes de Almodóvar e, talvez por isso, sujeito ao gosto o ou ao desgosto do espectador.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...