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quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Crítica: Aquaman


AQUAMAN
por Joba Tridente

Se você é do tipo que sempre torce o nariz para os filmes da Warner/DC, mas que sempre assiste, nem que seja para reclamar do tom sombrio..., possivelmente vai mudar os seus conceitos (ao menos temporariamente) ao assistir ao iluminado Aquaman, dirigido pelo malaio James Wan, especialista em filmes de terror (que nunca vi), que me pareceu excelente na condução desta fantasia submarina de beleza inequívoca.

Aquaman (Aquaman, EUA, 2018), escrito por David Leslie Johnson-McGoldrick e Will Beall, traz tudo o que você precisa e ou sempre quis saber sobre a origem do divertido herói anfíbio Aquaman (Jason Momoa). Ou ao menos a sua origem (digamos) clássica, já que em HQs nunca se pode confiar cegamente e os roteiristas raramente se apegam fielmente a ela, não é? Para quem prefere curtir as surpresas (e que surpresas!) na telona a perder o encanto com o trailer, vou escrever apenas o essencial.


Nesse início de franquia o espectador companha, num breve prólogo, o encontro (amoroso) de Atlanna (Nicole Kidman), a rainha da Atlântida, com o faroleiro Tom Curry (Temuera Morrison), o nascimento de Arthur Curry (Mamoa) e o aparecimento do primeiro inimigo do herói ocasional Aquaman, o perverso e vingativo Manta Negra (Yahya Abdul-Mateen II). Na sequência, em três atos que vão crescendo em intensidade e estética: o encontro de Arthur/Aquaman, treinado pelo seu mentor Vulko (Willem Dafoe), com Mera (Amber Heard), a filha do rei Nereus (Dolph Lundgren) e noiva do belicista Orm (Patrick Wilson), meio-irmão de Arthur e atual rei de Atlântida que, além de declarar guerra aos humanos, desafia o herói mestiço a lutar pela coroa do reino submarino..., se quiser evitar o iminente combate entre os povos dos sete mares e os povos da superfície. Arthur, que jamais quis ser rei de reino algum, só terá uma chance real, contra Orm, se encontrar o poderoso Tridente de Atlan..., escondido em algum lugar da Terra.  


Aquaman tem boa trama, repleta de ação e aventura bem satisfatórias (a sequência duas em uma, em que Aquaman e Mera enfrentam vilões, em dois planos diferentes, na Sicília, é simplesmente espetacular). O elenco é afiado e adequado aos personagens bem desenvolvidos. Mera não é apenas um rostinho bonito, um bibelô do fundo do mar, mas uma guerreira ousada e que está ali (porrada a porrada) com Aquaman. Não faltam (!!!) bom humor e ótimas gags..., e os efeitos especiais (caríssimo espectador!) são de cair o queixo (principalmente se visto em IMAX).


Aquaman é de uma beleza absurda e, principalmente por ser tão divertido, nem parece filme da DC Universo Expandido. Ou melhor, parece a nova DC, que finalmente está (?) deixando de ser sombria para atrair (?) o público juvenil que vai ao cinema em busca de diversão e não (apenas) de aflição num filme de super-heróis amargurados com seus passados bastardos e ou alienígenas. Cá pra nós, não bastasse a eficiente narrativa, só pelas estonteantes e surreais cenas submarinas, com a sua rica fauna e a inacreditável (re)criação da Atlântida em três tempos (nova, antiga, ruínas), já vale o ingresso. A qualidade técnica é tão impressionante que, em algumas sequências mal se consegue discernir o que é ator e o que é personagem animado em CGI.

Aquaman é uma produção que surpreende do princípio ao fim. Mas para curtir completamente esta alucinante viagem submarina (com roteiro simples, mas não banal) é preciso esquecer a lógica e se deixar levar por um toboágua vertiginoso durante duas horas e meia por mares de águas mansas, turbulentas ou abissais. A viagem, com alguma borrifada de horror, é tão envolvente e refrescante que o espectador sequer vê o tempo passar. Não vai querer nem dar aquela fugidinha pro banheiro (como é comum em filme de tamanha metragem)..., e olha que incentivo de água jorrando pra tudo quanto é lado não falta.


Com seu deslumbrante visual subaquático, feito cenário de Contos de Fadas (para A Pequena Sereia, por exemplo), e inspiradas (e reconhecíveis) referências visuais a clássicos da ficção científica cinematográfica, Aquaman pode até parecer escapista, mas vale ressaltar que as suas vigorosas braçadas pelos sete mares não são tolas e ou gratuitas. Na “sutileza” dos diálogos (e imagens) “subliminares” em seu roteiro redondinho, há tempo para se mirar o arpão e acertar em cheio questões relacionadas à poluição dos mares e a extinção da vida marinha.

Enfim, quando pensava já ter visto tudo o que poderia imaginar e esperar de mais uma rotineira adaptação de hq, salta d’água e para a água este Aquaman, contando a história de um super-herói que não tem receio de mostrar a sua simpática cara de “homem-peixe” que odeia perder a happy hour..., por causa da cerveja que entorna, é claro! Confira, sem medo de se extasiar!


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Crítica: Assassinato no Expresso do Oriente


Assassinato no Expresso do Oriente
por Joba Tridente*

O romance policial Assassinato no Expresso do Oriente, da rainha do suspense Agatha Christie (1890-1976), que traz o meticuloso detetive belga Hercule Poirot numa das suas mais famosas aventuras investigativas, foi lançado em 1934. No ano de 1974, a popular obra da Dama do Império Britânico (1971) e do Crime, ganhou a sua clássica (e definitiva!) versão cinematográfica. O filme Assassinato no Expresso do Oriente, com seu elenco espetacular e estelar, dirigido com elegância pelo mestre Sidney Lumet (1924-2011), a partir do roteiro de Paul Dehn (1912-1976), recebeu seis indicações ao Oscar, que premiou a atriz coadjuvante Ingrid Bergman (1915-1982), e dez no BAFTA, premiando novamente Bergman, o ator coadjuvante John Gielgud (1904-2000) e a trilha de Richard Rodney Bennett (1936-2012). Neste final de novembro de 2017, a obra literária que também ganhou adaptações para a tv e o teatro, chega aos cinemas brasileiros sob a direção de Kenneth Branagh (Henry V, Hamlet, Voltar a Morrer, Thor).


Assassinato no Expresso do Oriente (Murder on the Orient Express, 2017), dirigido e protagonizado por Kenneth Branagh, baseado no roteiro de Michael Green (Lanterna Verde, Logan, Blade Runner 2049), é uma versão atropelada do romance homônimo de Agatha Christie, cujo motivo condutor que envolve o icônico Hercule Poirot (Branagh) teria sido inspirado no dramático rapto e morte do bebê Charles Lindbergh (em 1932), e que, na trama bem urdida pela autora, virou Daisy Armstrong.

O ano é 1934 e (após um prólogo engraçadinho e moralista, típico de Histórias Maravilhosas, onde soluciona um roubo na Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém, implicando um sacerdote, um rabino e um imã,), Poirot é obrigado a interromper suas férias em Istambul para resolver um caso em Londres. Contando com a providencial ajuda do seu amigo M. Bouc (Tom Bateman), diretor da Compagnie Internationale des Wagons Lits, o investigador consegue um lugar no luxuoso Expresso do Oriente (Istambul-Trieste-Calais), espantosamente lotado para a época do ano. Porém, a viagem é bruscamente interrompida por uma avalanche, o que acaba sendo providencial para o excêntrico Hercule Poirot resolver o misterioso assassinato de um passageiro.


Em meio à nevasca, um morto e doze suspeitos (de classes e nacionalidades diferentes) que não contavam com a presença do célebre investigador a bordo, à espera de socorro, de voz de prisão e de enterro. No jogo de cena, as aparências enganam, mas as identidades não.

Ao contrário de Sidney Lumet, que a partir do excelente roteiro de Paul Dehn (1912-1976), mais fiel ao livro, vai se desvelando cena a cena, juntando e analisando calmamente as peças do intrigante quebra-cabeça hediondo, até completá-lo no desconcertante epílogo, o impaciente Branagh parece não ver a hora de chegar aos “finalmentes”, fazendo do seu Poirot mais um adivinhador vaidoso dos seus “achismos” do que um investigador que usa metodicamente sua massa cinzenta. Apressado, o diretor e ator irlandês praticamente elimina o suspense do enredo e a sua narrativa truncada acaba claudicando para um final morno, não pela conhecida e polêmica conclusão do caso, mas pela discutível (ou risível) cena teatral (de gosto pra lá de duvidoso!) da revelação (Eu te acuso!) ao estilo mesa de Santa Ceia (claro-escuro). Uma metáfora sobre assassinos frios e calculistas, abóbadas e “fim” de túnel (dependendo do ponto de vista) tão estranha quanto ao corte do personagem Doutor Constantine, cuja função de médico (na trama) foi incorporada ao Coronel Arbuthnott (Leslie Odom Jr.), com um denso ajuste de cor de pele..., para desajustar o preconceito racial e confundir o espectador.


O grande elenco coadjuvante de Assassinato no Expresso do Oriente, que conta com Judi Dench, Johnny Depp, Michelle Pfeiffer,  Willem Dafoe, Penélope Cruz, Josh Gad, Lucy Boynton, Tom Bateman, Leslie Odom Jr., Olivia Colman, Derek Jacobi, Manuel Garcia-Rulfo, Sergei Polunin, Daisy Ridley..., é bom, mas não é tão cativante quanto o estelar de Sidney Lumet. Ansioso em contar uma história que prioriza as minúcias, principalmente nos diálogos, Branagh acaba interrompendo as performances (e a voz) de cada ator e ou atriz, fazendo com que suas personagens picotadas soem um tanto superficiais. Nesse quesito, com mais tempo em cena e razoavelmente caracterizado com um belo bigode de quatro pontas, ainda que sem a “cabeça de ovo” de Poirot, quem se sai melhor é o próprio Branagh!


Quando se desliza na neve, tem de estar sujeito aos escorregões e, embora seja um ótimo diretor, desta vez Kenneth Branagh foi ao chão, a sua arte gelou e ficou a desejar. Assim, considerando a conversão da fascinante trama de suspense de Ágatha Christie em trama policialesca chique-ostentação; a bela fotografia (em 65 mm) de Haris Zambarloukos; a cuidadosa direção de arte; os bons efeitos visuais; a trilha musical (argh!) redundante; uma ou outra pitada de humor (quase inglês); a ação totalmente descabida de socos, perseguições, tiros e pontapés..., pela ligeireza da narrativa, Assassinato no Expresso do Oriente deve conquistar apenas uma nova geração de “espectadores” (acostumados aos blockbusters rasteiros) que não têm paciência e nem cérebro para degustar e ou se deixar enredar por uma boa história de suspense. Já para o cinéfilo realmente apaixonado por cinema, não deve passar de um filme que, quadro a quadro, ressalta ainda mais as qualidades da versão de Sidney Lumet. Pode não ser totalmente descartável (para quem não conhece a adaptação de 1974), porém, tampouco é memorável. 

Agora é esperar para ver se o quê nos chegará com a próxima aventura de Hercule Poirot investigando uma Morte no Nilo, se um crocodilo aborrecido ou uma múmia mofada.


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

domingo, 1 de junho de 2014

Crítica: A Culpa é das Estrelas


Câncer é um assunto que ainda hoje exige muito tato, muita delicadeza na sua abordagem, seja na vida real, seja na ficção (livro, cinema, tv, teatro).  Doenças variadas, dependência química são temas caros à Hollywood, que não tem pudor algum em tratá-los comercialmente, abusando da pieguice, do clichê..., sempre de olho na bilheteria e no Oscar. Poderia dizer que até virou um gênero cinematográfico: autoajuda. Porém, como felizmente há sempre um mas, na intenção de diretores mais ousados e ou independentes e ou pouco (?) conectados com os produtores, um filme ou outro acaba se destacando na mesmice, como é o caso do comovente A Música Nunca Parou (2011), de Jim Kohlberg, o envolvente 50/50 (2011), de Jonathan Levine e agora do sensível A Culpa é das Estrelas (The Fault in Our Stars), de Josh Boone.


A Culpa é das Estrelas é baseado no romance homônimo de John Green, um dos autores favoritos dos jovens. O seu foco é a “rotina” de jovens diagnosticados com câncer e, sob a luz tênue, o romance entre os adolescentes Hazel Lancaster (Shailene Woodley) e Augustus Waters (Ansel Elgort). Ela, aos 13 anos, soube do câncer de tireoide, que evoluiu para metástase no pulmão. Hazel respira com a ajuda de uma cânula no nariz e de um cilindro de oxigênio que carrega para todo canto em que vai. O diagnóstico dele é osteossarcoma que, após uma decisão vital, Augustus acredita que está controlado. Ela é melancólica, outonal, quase trágica na sua dor compartilhada com o livro de cabeceira Uma Aflição Imperial, do escritor Peter Van Houten (Willem Dafoe), em que busca decifrar o “final”, já que a história termina no meio da frase de Anna, uma menina diagnosticada com leucemia. Ele é otimista, primaveril, sempre procurando levar a vida com humor. Na trama, o resguardo dela versus a expansividade dele. 

Apesar da sinopse pesada o tema é tratado com leveza e doses de humor. Por vezes a narrativa o aproxima do apaixonante As Vantagens de Ser Invisível (2012), de Stephen Chbosky, que fala do deslocamento de jovens no seu próprio meio. Iguais no diagnóstico (câncer), mas contrários na filosofia (e expectativa) de vida pós-diagnóstico, Hazel e Augustus traçam caminhos diferentes, mas não o suficiente para que não se tangenciem. Assim, entre uma lágrima reticente (à beira da explosão) e um riso espontâneo (contendo a explosão), surge uma tocante história de amor juvenil no compasso de um relógio sem os ponteiros do tempo.


Josh Boone, ciente da perola real em mãos, com base no bom roteiro de Scott Neustadter e Michael H. Weber, conduz a história de modo sóbrio e jamais sombrio. É claro que, em se tratando do assunto câncer, o lado “sombrio” é tentador, mal ele não afetou o diretor que parece alheio ao sensacionalismo. 

Em sua essência A Culpa é das Estrelas questiona a forma como, principalmente nós ocidentais, dependendo da fragilidade (e sofrimento!) do paciente e ou do grau de egoísmo (apego) de seus familiares, lidamos com os pequenos prazeres da vida e as grandes dores da morte e ou vice-versa. Lembrança e ou anonimato? Viver intensamente (para ser lembrado) a cada segundo ou prostrar-se (para ser esquecido)? O que será que importa quando a única certeza que temos é que a morte é inexorável e hora mais hora menos arrebanha (ou arrebata!) a todos?


A Culpa é das Estrelas é um drama que provoca (também) no espectador um vendaval de reações e emoções, com seus momentos doloridos ou coloridos. Um drama que perturba pela frieza de algumas sequências..., como a imprescindível visita do jovem casal ao escritor Peter Van Houten, em Amsterdã. A química entre Shailene (Hazel) e Ansel (Augustus) é admirável. E a empatia pelo casal tem nada a ver com a exploração da doença, com piedade e ou autopiedade (dos jovens), mas com o desenvolvimento convincente dos personagens e de suas histórias, que passam bem longe do melodrama.

Essa veracidade do filme, com certeza vem do romance (que ainda não li), já que John Green trabalhou como estagiário por cinco meses em um hospital pediátrico que atendia a crianças debilitadas, em estado crítico. Uma ocupação que deu novo rumo, inclusive profissional, à sua vida. 

Enfim, considerando que é um tema difícil, tratado com a maior consideração; que traz um elenco maravilhoso, entregue aos seus personagens; que a produção é cuidadosa; a direção eficiente e a fotografia impecável..., A Culpa é das Estrelas agradará não apenas aos leitores juvenis, mas também aos espectadores (de todas as idades) que gostam de uma história bem contada... Em tempo: Alguns culpam e outros agradecem às estrelas pelo seu bom ou mau destino. E você?

quarta-feira, 7 de março de 2012

Crítica: John Carter: Entre Dois Mundos



O título composto é meio vago: John Carter: Entre Dois Mundos. Quem, digamos, com menos de 50 anos e ou que não curte histórias em quadrinhos (ou pulp-fitcion sci-fi) conhece John Carter? Bem, essa questão não pareceu ser um empecilho para a Disney apostar alto (dizem que US$ 250 milhões) no premiado diretor Andrew Stanton e no personagem criado por Edgar Rice Burroughs (autor de Tarzan, esse todo mundo conhece) há cem anos. A história escolhida para esta primeira adaptação (que deve virar franquia) é A Princess of Mars (Uma Princesa de Marte) e foi publicada em 1917.

Uma Princesa de Marte é um título inédito apenas no cinema, porque foi lançado diretamente em vídeo, em 2009, algo próximo de um filme (abaixo de qualquer crítica) com o título quase homônimo: Princess of Mars. Esta “maravilha” (que precisaria melhorar muito, para ser considerada ao menos trash), escrita, dirigida, fotografada, editada etc por Mark Atkins, especialista em mockbuster ou knockuster (da Asylum): “filmes de imitação”, para pegar aquele espectador (nem sempre) trouxa que pensa estar levando vantagem ao comprar (barato) lebre por gato. No Brasil tem uma loja/locadora muito popular que costuma vender essas tranqueiras a preço irrisório. O mais irônico é que esses filmes (falsos) que se aproveitam dos títulos (nem sempre parodiando os roteiros) de prováveis blockbusters, feitos a toque de caixa, com baixíssimo orçamento, e lançados próximos aos originais, com a intenção de confundir o freguês, até fazem sucesso. Alguns se tornam até cult trash. Na internet muita gente baixa um pelo outro..., e ainda reclama da “qualidade”. Mas esse não é o caso do fake John Carter, de Atkins, que parece ter aproveitado as sobras de clássicos como Simbad e Planeta dos Macacos; de épicos greco-romanos; de Star Wars e O Vingador do Futuro; de Guerra ao Terror..., para “adaptar” a HQ John Carter of Mars - The Prisoner of the Tarks, de 1952. Como nos EUA o título da Disney é John Carter e no Brasil é John Carter: Entre Dois Mundos..., o tal Princess of Mars, cujo protagonista (Antonio Sabato Jr.) é teletransportado para Marte, via pen drive, acaba se passando por uma produção original. Ah, a “princesa” é “interpretada” pela ex-estrela pornô Traci Lords, em trajes sumários e com cara de melão.


De volta ao que realmente interessa, John Carter: Entre Dois Mundos (John Carter, EUA, 2012), é uma boa e tradicional produção da Disney para o deleite da família unida. Asséptico, como convém aos atuais filmes norte-americanos destinados ao público infantojuvenil, quase sem (o “traumático”) sangue vermelho, a ficção científica tem aventura, ação e efeitos especiais (de primeira) suficientes para entreter a garotada e seus acompanhantes adultos. A livre adaptação, com roteiro de Stanton, Mark Andrews e Michael Chabon, está próxima do romance de Edgar Rice Burroughs (1875 - 1950). Ela narra a grande aventura do ex-capitão militar John Carter (Taylor Kitsch) que, cansado de guerra entre brancos e índios e soldados, ao tentar se isolar do conflito, é inexplicavelmente transportado para Marte. Lá, por conta da gravidade, ele acaba ganhando incríveis habilidades, aprende que o nome do planeta é Barsoom e, a contragosto, se vê metido numa guerra entre os povos Tharks, Heliumites, Zodangans e Therns, pela soberania do planeta.

O bacana, ao contar a história de Carter em Marte ou Barssom, é que o genial Burroughs não se preocupou com a “veracidade” científica. O que lhe interessava era inventar, dar asas à imaginação, fazer o incrível parecer crível..., pelo menos para o leitor acostumado a fantasiar sobre a vida na Terra e em outros mundos. O que Andrew Stanton faz, em sua estreia com live-action, é a mesma coisa. O espectador de filmes do gênero e leitor de HQs, antenado com o mundo ao seu redor, vai achar que já viu (em algum lugar) situações em comum. Mas é bom que se diga que a maioria dos heróis, tipo Flash Gordon e Buck Rogers, passando pelos alucinados super-heróis e chegando a Indiana Jones, Jedi (Star Wars) e congêneres, foi inspirada na obra de Burroughs. Nem Avatar escapa. Assim, se o público “acredita” nesses heróis, não vai ter por que duvidar do “pacifista” John Carter e o seu curioso passeio por Marte, entre tipos estranhos e “navios” voadores.


Stanton procurou filmar em paisagens reais, desérticas, para dar mais veracidade à história. A técnica empregada na criação dos cenários e personagens não humanos, como os esverdeados Tharks, de três metros de altura, quatro braços e cabeça de lagarto, é fantástica. Porém, quem rouba a cena é o cachorrão Woola, que tem em Carter o seu mestre. Ele parece ter saído diretamente de um desenho animado para o solo arenoso de Barsoom. Se fosse de verdade e estivesse à venda, dificilmente se encontraria algum para comprar. Os Tharks são os primeiros habitantes locais a surpreenderem John Carter, desnorteado e encantado com as suas habilidades. É através de Tars Tarkas (Willem Dafoe, excelente), o Jeddak (rei) dos Tharks e Sola (Samantha Morton, excelente) que o terráqueo vai se situar naquele estranho mundo.


Antes que você pense que os “marcianos” aprenderam a falar inglês por osmose (naquele tempo ainda não existia TV e o rádio engatinhava), saiba que o método é outro, não sei se mais fácil de engolir (ôps!), mas eficientíssimo. E é menos escatológico, mas parecido com o mostrado no filme de Atkins que, aliás, tem uma outra curiosidade, a máquina de “fabricar oxigênio”, que apareceu em O Vingador do Futuro, e nem é citada nesta versão Disney, mas está na história de Burroughs. Tudo bem que um filme não precisa explicar tudo (como a luz acende e como o avião sabe voar, como dizia Raulzito), mas seria interessante dar uma noção de como Carter e os locais respiram. Detalhes!!!

Se ao chegar o terráqueo dá de cara com os tribais Tharks, ao conhecer a bela Dejah Thoris (Lynn Collins) a princesa de Helium e os intrigantes e belicosos Sab Than (Dominic West), o Jeddak (rei) de Zodanga, e Matai Shang (Mark Strong), o Holy Hekkador (rei) dos Therns, povos semelhantes aos humanos, John Carter entra em contato com uma tecnologia fascinante. Uma maquinaria maravilhosa que remete o espectador ao mundo das engrenagens de Julio Verne. Plasticamente o filme é irretocável e a mistura do visual contemporâneo com o antigo lhe dá um sabor todo especial. É evidente que o resultado não poderia ser diferente tendo na direção um mestre da animação em CGI.


John Carter: Entre Dois Mundos é um filme leve no humor e também na abordagem dos conflitos políticos, sociais e raciais interplanetários. A narrativa se desenvolve no ritmo em que Edgar Rice Burroughs (Daryl Sabara), sobrinho de Carter, lê o seu livro de anotações. Ela não dá lição de moral e não (?!) tem mensagens edificantes piegas. Até tem, mas é tão subliminar que não chega a incomodar. John Carter é um personagem humano que vive uma aventura (que qualquer um gostaria de viver) e gosta dela. O que ele faz (bem ou mal) é mais pela sua sobrevivência de aventureiro. Não é um filme de todo perfeito, tem, é claro, sequências questionáveis por um ou outro ponto de vista (e de leitura), mas é delicioso de se ver. Passa rapidinho e pouco fica na memória, além do Woola..., e nem precisa. Tem uma cena de flashback condenável (saída de Cowboys & Aliens?), perdida no meio de bucólicas outras, mas também passa batida. Quem conhece os personagens e as histórias pode sentir falta “disso” ou querer mais “daquilo”, mas a trama é redondinha, com começo, meio e fim, o que já é uma grande coisa num tempo em que as grandes produções se preocupam mais com os efeitos (3D IMAX) do que com o roteiro. Em caso de franquia, os realizadores vão ter muito tempo para revirar o baú da Marvel Comics e ver o que encontra de “novo” por lá.

NOTA: Se quiser conhecer o fantástico mundo de Edgar Rice Burroughs, sugiro visitar o site ERBzine. Lá se encontra o maior acervo da internet sobre John Carter: HQs, ilustrações, desenhos, artigos, estudos, prévia da animação de 1936, de Bob Clampett (que não chegou a ser realizada). O material disponibilizado está em inglês.

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