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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Crítica: Os Miseráveis



Na França, um homem roubou um pão para dar de comer a um sobrinho faminto. Foi condenado a 19 anos de prisão. Em liberdade condicional, sem conseguir qualquer tipo de emprego, decidiu encontrar um meio de sobreviver por conta própria. A lei é implacável e irá caça-lo aonde quer que vá. Esta é síntese da síntese do épico romance Os Miseráveis, do genial escritor humanista Victor Hugo (1802 - 1885), publicado em 1862, após 30 anos de maturação. Também poderia ser mera manchete de jornais impressos e ou televisivos.

150 anos depois a ação continua se repetindo mundo afora, seja por um pedaço de pão, um pacote de leite, um pote de manteiga, uma fruta passada..., para saciar a fome. Não muda o mundo abastado. Não muda a sina dos miseráveis. No campo dos governantes, miseráveis culturais impunes, a bola de Victor Hugo será sempre chutada para escanteio. Gente inescrupulosa não lê Os Miseráveis. Não vê Os Miseráveis. Não assiste aos seus miseráveis. Na hora oportuna, recorrem às cebolas baratas.


Os Miseráveis (Les Misérables, Reino Unido, 2012), belo musical dirigido por Tom Hooper (O Discurso do Rei) é um filme inquietante para os amantes do gênero, com ou sem consciência social. Adaptado do megassucesso musical britânico, concebido a partir da obra conceitual dos compositores franceses Alain Boublil e Claude-Michel Schönberg, ele apresenta algumas novidades. Hooper aboliu o uso de playback, exigindo que os cantores cantassem ao vivo durante as filmagens. Ele queria veracidade nos diálogos ou monólogos musicais, e conseguiu. As performances são expressiva, tocantes, e crescem em emoção a cada número musical. O elenco está soberbo. O filme não tem número de dança. É difícil até de se imaginar sequências dançantes com um conteúdo tão forte em um cenário tão duro. Como o norte-americano não gosta do inglês da Inglaterra (Austrália etc), não entende o sotaque, pode ser que um dia Hollywood resolva refilmar..., aí tudo é possível!


Baseado no roteiro de William Nicholson, o drama musical, em três atos (1815 - Toulon/Digne; 1823 - Montreuil-sur-Mer; 1832 - Paris), acompanha a saga de Jean Valjean (Hugh Jackman, excelente), condenado a 19 anos de prisão por roubar um pão, a partir da sua liberdade condicional no ano 1815, em Toulon.  Para Valjean, mesmo livre dos grilhões, o inferno da opressão continua: “Olha para baixo, olha para baixo, você sempre será um escravo, olha para baixo, olha para baixo, você está de pé em seu túmulo”. Constantemente vigiado e sem trabalho ele acaba tomando uma decisão drástica e passa a ter o irascível Inspetor Javert (Russell Crowe) na sua cola.

Sempre a um passo a frente da polícia, Valjean reaparece em 1823 e conhece, em situação desesperadora, Fantine (Anne Hathaway) e Cosette (Isabelle Allen), a filha dela. O decisivo encontro entre Javert e Valjean se dará em Paris, no ano de 1832, em plena revolta, arquitetada por jovens progressistas como Marius (Eddie Redmayne) que, em meio a luta por liberdade, se vê entre duas paixões avassaladoras: Cosette (Amanda Seyfried) e Eponine (Samantha Barks, linda e canta muito!), filha do tresloucado casal de vigaristas: Monsieur e Madame Thénardier  (Sacha Baron Cohen e Helena Bonham Carter), responsável pelo alívio cômico da trama.


Os Miseráveis não é uma obra tão densa quanto o livro, afinal é a versão musical compacta de um romance escrito em cinco volumes, contudo, conservou toda a sua essência. A intensidade de Victor Hugo se faz sentir em cada letra ferina, em cada lamento, na expressão miserável daqueles que desfilam pela tela. Na projeção IMAX, os espectadores vão se sentir no centro dos acontecimentos, mergulhados até o pescoço nos esgotos, partilhando dramas e tragédias. Em algumas cenas vão querer esconder, doces, pipocas e refrigerantes, não por receio de serem roubados pelos personagens, mas por constrangimento. Ouvir Fantine/Hathaway, cantando a visceral I Dreamed a Dream e se descompondo física e mentalmente, faz qualquer um querem abrir um buraco e desaparecer. Todavia, o soco no estômago incomoda, mas não é fatal. Sabe-se representação com final anunciado. Na miséria (encenada ou real), além do shopping ou da sua porta, não há dignidade. Discursos revolucionários ou a lógica de um pensamento do grande romancista e ativista francês Victor Hugo: Se apenas um homem detém o conhecimento: monarquia; Se apenas um grupo de homens responde pelo conhecimento: aristocracia; Se todos os homens têm acesso ao conhecimento: democracia. ..., continuam ecoando no vazio.

domingo, 16 de maio de 2010

Crítica: Robin Hood


Robin Hood
como nunca se viu

No mundo tem Robin Hood pra todos os gostos: da literatura ao teatro, do cinema à TV. Cada um aos modos de seu realizador, para o bem ou para o mal da lenda. No cinema se destacam o clássico As Aventuras de Robin Hood (The Adventures of Robin Hood, EUA, 1938), de Michael Curtiz e William Keighley, com Errol Flynn (Robin) e Olivia de Havilland (Marian); o divertido: Robin Hood (Robin Hood, EUA, 1973), animação da Disney, em que Robin e Marian são raposas, dirigida por Wolfgang Reitherman; o romântico: Robin e Marian (Robin and Marian, EUA, 1976), de Richard Lester, com Sean Connery (Robin) e Audrey Hepburn (Marian); o meia-boca: Robin Hood, o Príncipe dos Ladrões (Robin Hood: Prince of Thieves, EUA, 1991) - Kevin Costner (Robin) e Mary Elizabeth Mastrantonio (Marian), dirigido por Kevin Reynolds; o maluco: A Louca História de Robin Hood (Robin Hood: Men in Tights, EUA, 1993), com Cary Elwes (Robin) e Amy Yasbeck (Marian), na cômica visão de Mel Brooks. Mas, nada se compara à versão épica do mítico herói inglês, com Russel Crowe (Robin) e Cate Blanchett (Lady Marian), de Ridley Scott, que chegou pra ser um novo começo de saga.

As adaptações anteriores têm uma introdução rápida do herói (voltando pra casa) e, então, os rotineiros saques, duelos, Príncipe João, Xerife, Coração de Leão etc. Este Robin Hood, de Ridley Scott, com roteiro de Brian Helgeland, é um longo prólogo que termina onde os outros começam. Por enquanto, Robin é Robin de Lockstride e não voltou pra roubar dos ricos para dar aos pobres. Quer dizer, mais ou menos. Ele até faz jus a fama, ao “recuperar” algumas sementes sequestradas da propriedade de Lady Marion Loxley, em Nottingham, pela Igreja Católica, e pouco antes de chegar ali se apossa de alguns bens. Porém, tudo em boa causa (própria).

Robin é um arqueiro que luta bravamente ao lado de Ricardo Coração de Leão e, após a morte do rei, deserta, com quatro amigos. Na estrada encontra um moribundo que pede pra ele levar a coroa do rei morto, pra Inglaterra, e uma espada ao seu pai, Sir Walter Loxley (Max von Sydow), em Nottingham. Robin entrega a coroa e João Sem Terra (Oscar Isaac) é coroado. Ao devolver a espada ao Sir Walter, é convidado a ocupar o lugar do seu filho, que era casado com Lady Marion. Ele acaba se envolvendo com Marion, guerra civil e invasão francesa. Só depois disso tudo, possivelmente no Robin Hood – 2, é que veremos se o fora-da-lei, que virou lenda, em algum momento entre os séculos XII e XIII ou XIV e XV, continua (ou inicia a sua saga) fora-da-lei. Ah, especula-se que teria vivido por volta do século XII.


O título poderia muito bem receber um complemento: Robin Hood - A Origem, aproveitando a onda de origens (e “origens”) que tomou conta das HQs e filmes de super-heróis. Se bem que, com tanto herói perdendo a identidade, por conta dos intermináveis começos e recomeços, é melhor deixar como está. O lendário Robin, na narrativa de Scott, continua sendo um bom sujeito, mas sem a alegria e a sagacidade habituais em outras telas. É um arqueiro (cheio de ressentimentos) quase taciturno, que lutou e não gostou do viu e fez nas Cruzadas. Um cara que lembra Maximus (Crowe), o herói de Gladiador (Gladiator, EUA, 2000) e está muito próximo de Balian (Orlando Bloom), herói de Cruzada (Kingdom of Heaven - Espanha, EUA, Inglaterra, 2005), com suas preocupações político-religiosas. Assim como Balian, Robin bota lenha (com gosto) na fogueira da tirania católica com suas imperdoáveis atrocidades em nome do seu deus.

Na internet se lê muita bobagem sobre esta nova versão. Cobram (onde já se viu?) veracidade com a lenda (conforme apresentada em outros filmes) e coerência com alguns fatos históricos, que estão sendo revistos por historiadores. Ora, lenda por lenda, dúvida por dúvida, que viva o espetáculo, até que se chegue (ou não) a um consenso! Quem não tem o que dizer se incomoda até com a idade de Russel Crowe, como se os outros Robin Hood fossem muito mais novos. Sean Connery que o diga! Esta (re)leitura de Scott, que jura fidelidade histórica (bem, ele é inglês!), é muito melhor do que sugeria o trailer. Pode não ser muito convincente uma Lady Marion tão independente, dando uma de pré Joana d’Arc (Jeanne d’Arc - 1412-1431), mas, sei lá, desde que o feminismo “venceu” (em Hollywood, ao menos), as mulheres viram heroínas, a tordo e a direito, do passado ao futuro, ainda que o macho-falocratismo reine, enfrentando todo tipo alienígena na Terra ou no Céu.

Robin Hood é excelente, factual ou não. Um entretenimento garantido e com ótimas sequências de lutas, mais aprimoradas que em Gladiador e Cruzada. A quantidade de soldados que Ridley coloca em cena de batalha, ocupando cada milímetro da tela, aproximando o espectador da luta, é cada vez mais impressionante. Ponto para a fotografia de John Mathieson. É um filme pra quem gosta de ação e aventura, que vai ao cinema pra se divertir e não pra assistir aula de história geral. Tem alguma graça (não hilária) e pode até agradar o público feminino, apesar do ar pouco romântico. Gostar do ator e diretor já é meio filme projetado, se não, nem a cena de um Russell Crowe, com a sua cara de mamãe quero colo, exibindo um inacreditável e volumoso torso nu, dá jeito.

Com tantas lendas retornando, o que impedia Robin de voltar? Nada! Só o fato de não ser mais uma refilmagem do mesmo, já vale o ingresso. É provocativo (que o diga os pesquisadores), novo, simpático, crítico, muito bem realizado e com ótimas performances. Pra que mais?
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