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quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Crítica: Cegonhas - A História Que Não Te Contaram

Cegonhas - A História Que Não Te Contaram
por Joba Tridente

No meu tempo de menino, lá no interior de São Paulo, acreditava que, segundo os adultos, os bebês eram trazidos pelas cegonhas, mesmo jamais ter visto uma..., ou talvez por isso. Conforme fui crescendo e aprendendo a ler, descobri, nos Contos de Fadas, que as crianças, principalmente as minúsculas, como a Pequerrucha (Thumbelina ou Polegarzinha), de Hans Christian Andersen, poderiam nascer de uma flor. Mais tarde soube que nos Estados Unidos da América, algumas crianças nasciam em pés de repolho. Depois, descobri outras formas mais prazerosas de fazer bebês, que dispensavam aves, jardins e hortas.


Bem, esse meu tempo lúdico ficou lá pra trás, mas foi bem divertido reencontrá-lo na surreal animação Cegonhas - A História Que Não Te Contaram, um filme onde o que não falta é imaginação para brincar com estereótipos da família tradicional (americana?) e seu mirabolante conservadorismo (religioso?). Segundo a trama, escrita por Nicholas Stoller, também seu diretor, ao lado de Doug Sweetland, há muitos anos (ou talvez nem tanto) cabia a uma imensa colônia de cegonhas, instalada no cume de uma altíssima montanha, o serviço de produção e entregas de bebês para os casais em todo o mundo. Para tanto, bastava que o casal interessado enviasse uma carta, com as suas características, ao grupo, lá no topo do mundo, para que, em pouco tempo, um bebê fosse produzido (nas alturas) e entregue (em terra firme) no lar doce lar dos humanos. Mas, sabe como é, com a evolução da humanidade, o desenvolvimento industrial e tecnológico, os casais aprenderam a produzir os próprios filhos e dispensaram o método ultrapassado das cegonhas..., que não tiveram outra escolha a não ser mudar de ramo e passar a entregar eletroeletrônicos de última geração da Loja da Esquina


É aí que começa essa história maluca e engraçada. Desde que trocaram a produção e entrega de bebês por um bem sucedido comércio eletrônico, o empreendimento das cegonhas só faz crescer. No entanto, o funcionário padrão Junior e a desastrada órfã humana Tulipa podem comprometer os negócios da empresa se não conseguirem entregar (antes que o chefão descubra) uma bela criança que foi produzida acidentalmente. O problema da entrega nem é a falta de treino da dupla improvável, mas os perigos que vão encontrar pelo caminho, como a determinada e hilária alcateia de lobos capaz das mais absurdas transformações para ficar com o bebê e ainda roubar as cenas.


Cegonhas - A História Que Não Te Contaram é daquelas animações que têm tudo para agradar toda a família. O roteiro resolve com criatividade a conhecida saga do bebê perdido (de outras animações), tem ótimo ritmo e aquele humor nonsense, meio cartum-pastelão, com uma pegada de humor negro (com final genial) que não falha. Além da cenografia impecável, chama a atenção a excelência técnica dos expressivos e carismáticos personagens, com seus olhos enormes. É incrível como um mero (?) detalhe (olhos) é suficiente para distinguir os personagens desta com os de outras animações. O enredo, repleto de ação e aventura (ao gosto da criançada e sem desapontar os adultos), com boas reviravoltas, diverte e emociona, sem ser piegas, ao questionar sutilmente a constituição de laços familiares, filhos solitários e pais ausentes, em significativas sequências. Algumas cenas da órfã Tulipa e do filho único de um casal de corretores “digitais” são emblemáticas nessa discussão.


Enfim, boa direção, trama curiosa, personagens cativantes (quem resiste ao sorriso de um bebê?), bons números musicais (que poderiam ser vertidos para o português), piadas saudáveis, crítica aos viciados em trabalho (workaholic) e aos patrões cruéis, fazem de Cegonhas - A História Que Não Te Contaram um excelente e gracioso programa para reflexão e passagem do tempo (que, por sinal, é fortemente marcado em diálogos pertinentes). Vale reforçar que, embora o tema seja a produção de bebês, os papais não precisam ficar preocupados, pois não se trata de um filme de educação sexual. O desenho (basicamente uma ficção científica leve) é uma bela e gostosa fantasia sem nenhuma intenção de ensinar os pequenos a fazerem filhos. Ele apenas brinca, de forma inteligente, com elementos da velha lenda escandinava popularizada por Hans Christian Andersen (1805-1875) em As Cegonhas, que você lê abaixo.

Ah, e não chegue atrasado ou perde um ótimo curta, feito com pecinhas de Lego, sobre Mestres do Kung Fu.


ilustração de William Heath Robinson (1872–1944)

AS CEGONHAS
Hans Christian Andersen


UMA cegonha construíra seu ninho no telhado da última casa de um povoado. A mamãe cegonha estava sentada no ninho com seus filhotes, que assomavam seus biquinhos negros, pois ainda não haviam adquirido sua cor vermelha. Papai-cegonha estava a pouca distância, na beira do telhado, em e entorpecido, com um recolhido embaixo do corpo, fazendo de sentinela. Parecia esculpido em madeira, devido à sua imobilidade.
- Minha esposa deve ficar satisfeita ao ver uma sentinela guardando seu ninho - pensava. - Ninguém sabe que sou seu marido e talvez todos pensem que recebi ordens para montar guarda aqui. Isso é muito importante.
E continuou de num , porque as cegonhas são verdadeiras equilibristas.
Um grupo de garotos brincava na rua; e, ao ver a cegonha, um dos mais atrevidos, seguido pelos outros que lhe faziam coro, entoou uma cantiga a respeito das cegonhas, cantando-a meio de improviso:
Vela por teu ninho, pai-cegonha,
Onde te esperam três pequeninos.
0 primeiro morrerá de urna estocada,
0 segundo queimado
E o terceiro enforcado.
- Que dizem esses garotos? - perguntaram os filhotes. - Dizem que morreremos queimados ou enforcados?
- Não façam caso - respondeu a mamãe-cegonha. - Não os ouçam, pois ninguém lhes fará nenhum mal.
Mas os meninos continuavam cantando e apontando para as cegonhas; somente um, chamado Pedro, disse que era vergonhoso divertir-se à custa daquelas pobres aves e não quis imitar os companheiros.
Mamãe-cegonha consolou seus pequeninos, dizendo-lhes:
- Não se preocupem com isso. Vejam seu pai como está firme em cima de um .
- Temos muito medo - replicaram os filhotes, escondendo as cabecinhas dentro do ninho.
No dia seguinte, quando os meninos voltaram a brincar, viram novamente as cegonhas e repetiram a canção.
- E' verdade que morreremos queimados ou enforcados? - perguntaram de novo os filhotes.
- De forma alguma! - replicou a mãe. - Vocês aprenderão a voar. Eu os ensinarei. Logo iremos para os campos em busca de rãs. Elas vivem na água e quando nos veem, fazem muitos cumprimentos e começam a coaxar. Mas nós as engoliremos. Esse é um verdadeiro banquete, de que vocês vão gostar muito.
- E depois? - perguntaram os filhotes.
Mais tarde todas as cegonhas do país e reúnem para as manobras do outono e então vocês terão que voar da melhor maneira possível, para quem não puder voar se verá atravessada pelo bico do chefe. Assim sendo, vocês terão que ter muito cuidado para aprender o máximo que puderem, quando começarem os exercícios.
- De qualquer forma é bem possível que acabemos do jeito que dizem os garotos. Veja, eles voltam a cantar a mesma coisa.
- Ouçam a mim e não a eles - replicou secamente a mãe-cegonha. - Depois das grandes manobras, voaremos para os países cálidos, que ficam muito longe, para além dos bosques e das montanhas. Iremos para o Egito, onde existem casas de três cantos, cujas pontas chegam até as nuvens; chamam-se Pirâmides e são muito mais antigas do que qualquer cegonha pode imaginar. Ali existe um rio que inunda as suas margens e toda a terra se cobre de lodo. E então podemos andar por ali comodamente, sem deixar de comer rãs.
- Oh! - exclamaram os filhotes.
- Sim, é esplêndido. Durante o dia inteiro não se faz mais do que comer. E enquanto nós estamos bem ali, neste país não há uma folha nas arvores; e faz tanto frio que as nuvens se gelam em pedacinhos que caem ao solo.
Queria descrever a neve, mas não sabia fazê-lo melhor.
- E as crianças más não se gelam em pedacinhos? - perguntaram os filhotes.
- Não, mas lhes acontece algo parecido e têm de passar muitos dias presas em suas casas escuras; vocês, em troca, voarão para países distantes, recebendo o calor do sol entre as flores.
Passou-se algum tempo e os filhotes se desenvolveram bastante para ficarem em no ninho e olharem à sua volta. Papai-cegonha voava todos os dias de ida e volta ao ninho com rãs e serpentes, além de outros bons bocados que conseguia arranjar. E era muito divertido observar as manobras que fazia para divertir seus filhos; virava a cabeça completamente em direção à cauda e batia o bico como se fosse um chocalho. E lhes contava tudo que lhe acontecera nos pântanos.
- Bem, é hora de que aprendam a voar - disse um dia sua mãe.
E os pequenos tiveram de ficar em , na beira do telhado. Quanto lhes custou conservar o equilíbrio batendo as asas e como estiveram a ponto de cair!
- Agora olhem para mim - disse a mãe. - Vejam como têm de sustentar a cabeça. E os pés se movem assim. Um, dois, um, dois. Desta forma poderão percorrer o mundo inteiro.
Logo voaram durante algum tempo e os pequenos deram uns saltos horríveis e caíram, porque seus corpos eram muito pesados.
- Não quero voar - disse um dos filhotes voltando para o ninho. - Não faço questão de ir para os países mais quentes.
- Quer gelar aqui, ao chegar o inverno? Prefere que venham os meninos e o queimem ou enforquem? Não me custará nada chamá-los.
- Não, não! - respondeu assustada a pequena cegonha.
E imediatamente voltou para a beira do telhado, onde estavam os irmãos.
No terceiro dia todos voavam muito bem. Tentaram voar por mais tempo, porém, quando se esqueceram de bater com as asas, aconteceu a queda irremediável.
Os meninos que as observavam entoaram novamente a sua canção.
- Querem que desçamos voando e lhes arranquemos os olhos? - perguntaram as pequenas cegonhas.
- Não, deixem-nos em paz - disse a mãe. Prestem atenção ao que faço, pois isso é muito mais importante. Um, dois, três. Agora vamos voar para a direita; um, dois, três; agora para a esquerda e em volta da chaminé. foi bastante bem. Este último voo foi tão bom, que, como prêmio, eu consentirei que me acompanhem ao pântano amanhã. Várias cegonhas distintas vão até com seus filhos, de modo que vocês devem esforçar-se para que os meus sejam os melhores de todos. Não se esqueçam de levantar as cabeças. Isso é muito elegante e confere um ar de extrema importância.
- Mas não nos vingaremos desses meninos maus? - perguntaram as pequenas cegonhas.
- Deixem que gritem o quanto quiserem; vocês voarão para a terra das pirâmides, enquanto que eles ficarão aqui gelando. Nessa ocasião não haverá por aqui nem uma folha verde nem uma maçã doce.
- Pois nós queremos vingar-nos disseram as pequenas cegonhas.
Logo depois recomeçaram com os exercícios de voo.
Dentre todos os meninos da rua, nenhum caçoava das cegonhas com maior insistência do que o primeiro a cantar aquela canção burlesca. Era um garoto pequeno, que devia contar uns seis anos. É claro que as cegonhas lhe davam pelo menos cem anos, pois ele era muito mais corpulento do que seu pai ou sua mãe e elas não tinham a mínima ideia da corpulência que podem alcançar as pessoas maiores. Reservavam pois a sua vingança para o menino que fora o primeiro a entoar aquela canção e que não deixava de repeti-la a todo instante. As jovens cegonhas estavam muito irritadas com ele e juraram vingar-se, o que fariam no dia anterior à sua ida daquele povoado.
- Primeiro vamos ver como se comportam nas manobras. Se cometerem algum engano e o general se vir obrigado a atravessar-lhes o peito com o seu bico, os meninos da rua terão acertado na sua profecia. Veremos como se comportam.
- Você verá - responderam otimistas os filhotes.
E não pouparam esforços. Todos os dias praticavam, até que foram capazes de voar como seus próprios pais o faziam. Era um prazer observá-los.
Chegou o outono. Todas as cegonhas começaram a reunir-se, antes de empreenderem a viagem aos países quentes, nos quais passariam o inverno.
Aquelas sim é que foram verdadeiras manobras- Tiveram que voar sobre os bosques, cidades e povoados, para experimentarem as asas, pois iriam realizar uma longa viagem. As jovens cegonhas se comportaram tão bem, que receberam uma quantidade enorme de rãs e serpentes como recompensa. Receberam também ótima colocação e logo foram comer tranquilamente coisas que fizeram, pois seu apetite era enorme.
- Agora nos vingaremos - disseram.
- Sem dúvida - replicou sua mãe. - Agora vocês vão tomar conhecimento do meu plano e acho que gostarão dele. Sei onde fica o reservatório em que se encontram os pequenos humanos e onde ficam até que as cegonhas vão buscá-los para levá-los para a casa de seus pais. As lindas criaturinhas estão dormindo, sonhando coisas muito agradáveis que nunca mais voltarão a sonhar. Todos os pais desejam filhos e todas as crianças almejam ter um irmãozinho ou uma irmãzinha, destinados aos meninos que nunca cantaram essa canção contra nós ou que não tenham caçoado das cegonhas. Todavia, os que a cantaram, jamais receberão um irmão ou uma irmãzinha.
- E que faremos com esse menino mau que cantou a canção? - gritaram as pequenas cegonhas. - Que faremos com esse garoto? Porque devemos fazer algo para vingar-nos como desejamos.
- No reservatórioum menino morto. Morreu sonhando, sem se dar conta. Vamos buscá-lo e levá-lo para a casa desse menino, que chorará muito ao ver que lhe levamos uma criança morta. Em troca, vocês não se esquecerão do menino bom que diz: "E' uma vergonha caçoar assim das cegonhas".
Para ele levaremos um irmão e uma irmã; e como ele se chama Pedro, você também - acrescentou, dirigindo-se a uma das cegonhas se chamará assim como o menino.
E foi tal como disse. E é por isso também, que, em nossos dias, todas as cegonhas levam o nome de Pedro.

domingo, 16 de maio de 2010

Crítica: Robin Hood


Robin Hood
como nunca se viu

No mundo tem Robin Hood pra todos os gostos: da literatura ao teatro, do cinema à TV. Cada um aos modos de seu realizador, para o bem ou para o mal da lenda. No cinema se destacam o clássico As Aventuras de Robin Hood (The Adventures of Robin Hood, EUA, 1938), de Michael Curtiz e William Keighley, com Errol Flynn (Robin) e Olivia de Havilland (Marian); o divertido: Robin Hood (Robin Hood, EUA, 1973), animação da Disney, em que Robin e Marian são raposas, dirigida por Wolfgang Reitherman; o romântico: Robin e Marian (Robin and Marian, EUA, 1976), de Richard Lester, com Sean Connery (Robin) e Audrey Hepburn (Marian); o meia-boca: Robin Hood, o Príncipe dos Ladrões (Robin Hood: Prince of Thieves, EUA, 1991) - Kevin Costner (Robin) e Mary Elizabeth Mastrantonio (Marian), dirigido por Kevin Reynolds; o maluco: A Louca História de Robin Hood (Robin Hood: Men in Tights, EUA, 1993), com Cary Elwes (Robin) e Amy Yasbeck (Marian), na cômica visão de Mel Brooks. Mas, nada se compara à versão épica do mítico herói inglês, com Russel Crowe (Robin) e Cate Blanchett (Lady Marian), de Ridley Scott, que chegou pra ser um novo começo de saga.

As adaptações anteriores têm uma introdução rápida do herói (voltando pra casa) e, então, os rotineiros saques, duelos, Príncipe João, Xerife, Coração de Leão etc. Este Robin Hood, de Ridley Scott, com roteiro de Brian Helgeland, é um longo prólogo que termina onde os outros começam. Por enquanto, Robin é Robin de Lockstride e não voltou pra roubar dos ricos para dar aos pobres. Quer dizer, mais ou menos. Ele até faz jus a fama, ao “recuperar” algumas sementes sequestradas da propriedade de Lady Marion Loxley, em Nottingham, pela Igreja Católica, e pouco antes de chegar ali se apossa de alguns bens. Porém, tudo em boa causa (própria).

Robin é um arqueiro que luta bravamente ao lado de Ricardo Coração de Leão e, após a morte do rei, deserta, com quatro amigos. Na estrada encontra um moribundo que pede pra ele levar a coroa do rei morto, pra Inglaterra, e uma espada ao seu pai, Sir Walter Loxley (Max von Sydow), em Nottingham. Robin entrega a coroa e João Sem Terra (Oscar Isaac) é coroado. Ao devolver a espada ao Sir Walter, é convidado a ocupar o lugar do seu filho, que era casado com Lady Marion. Ele acaba se envolvendo com Marion, guerra civil e invasão francesa. Só depois disso tudo, possivelmente no Robin Hood – 2, é que veremos se o fora-da-lei, que virou lenda, em algum momento entre os séculos XII e XIII ou XIV e XV, continua (ou inicia a sua saga) fora-da-lei. Ah, especula-se que teria vivido por volta do século XII.


O título poderia muito bem receber um complemento: Robin Hood - A Origem, aproveitando a onda de origens (e “origens”) que tomou conta das HQs e filmes de super-heróis. Se bem que, com tanto herói perdendo a identidade, por conta dos intermináveis começos e recomeços, é melhor deixar como está. O lendário Robin, na narrativa de Scott, continua sendo um bom sujeito, mas sem a alegria e a sagacidade habituais em outras telas. É um arqueiro (cheio de ressentimentos) quase taciturno, que lutou e não gostou do viu e fez nas Cruzadas. Um cara que lembra Maximus (Crowe), o herói de Gladiador (Gladiator, EUA, 2000) e está muito próximo de Balian (Orlando Bloom), herói de Cruzada (Kingdom of Heaven - Espanha, EUA, Inglaterra, 2005), com suas preocupações político-religiosas. Assim como Balian, Robin bota lenha (com gosto) na fogueira da tirania católica com suas imperdoáveis atrocidades em nome do seu deus.

Na internet se lê muita bobagem sobre esta nova versão. Cobram (onde já se viu?) veracidade com a lenda (conforme apresentada em outros filmes) e coerência com alguns fatos históricos, que estão sendo revistos por historiadores. Ora, lenda por lenda, dúvida por dúvida, que viva o espetáculo, até que se chegue (ou não) a um consenso! Quem não tem o que dizer se incomoda até com a idade de Russel Crowe, como se os outros Robin Hood fossem muito mais novos. Sean Connery que o diga! Esta (re)leitura de Scott, que jura fidelidade histórica (bem, ele é inglês!), é muito melhor do que sugeria o trailer. Pode não ser muito convincente uma Lady Marion tão independente, dando uma de pré Joana d’Arc (Jeanne d’Arc - 1412-1431), mas, sei lá, desde que o feminismo “venceu” (em Hollywood, ao menos), as mulheres viram heroínas, a tordo e a direito, do passado ao futuro, ainda que o macho-falocratismo reine, enfrentando todo tipo alienígena na Terra ou no Céu.

Robin Hood é excelente, factual ou não. Um entretenimento garantido e com ótimas sequências de lutas, mais aprimoradas que em Gladiador e Cruzada. A quantidade de soldados que Ridley coloca em cena de batalha, ocupando cada milímetro da tela, aproximando o espectador da luta, é cada vez mais impressionante. Ponto para a fotografia de John Mathieson. É um filme pra quem gosta de ação e aventura, que vai ao cinema pra se divertir e não pra assistir aula de história geral. Tem alguma graça (não hilária) e pode até agradar o público feminino, apesar do ar pouco romântico. Gostar do ator e diretor já é meio filme projetado, se não, nem a cena de um Russell Crowe, com a sua cara de mamãe quero colo, exibindo um inacreditável e volumoso torso nu, dá jeito.

Com tantas lendas retornando, o que impedia Robin de voltar? Nada! Só o fato de não ser mais uma refilmagem do mesmo, já vale o ingresso. É provocativo (que o diga os pesquisadores), novo, simpático, crítico, muito bem realizado e com ótimas performances. Pra que mais?

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Crítica: Não minha filha, você não irá dançar


Não minha filha, você não irá dançar
... quem dança é o espectador

Logo que vi o filme-terapia Não minha filha, você não irá dançar (Non ma fille, tu n’iras pas danser, França, 2009), de Christophe Honoré, pensei que escrever sobre ele era sofrer duas vezes. Era como se o martírio de assisti-lo (do começo ao fim) não fosse pena suficiente pra um cinéfilo. O problema é que o filme, uma das piores produções francesas (e olha que gosto de filme francês) que já vi, precisa ser exorcizado pra eu ficar em paz. Quando se vê maravilhas como Horas de Verão (L’Heure D’Eté), de Olivier Assayas, a gente chega a acreditar que tudo mais que venha da terra de François Truffaut seja uma maravilha, ou no mínimo um bom vinho. Ledo engano. Ultimamente tem vindo muito queijo ruim.

Não minha filha, você não irá dançar, me parece um filme vago, feito pra preencher uma vaga deixada pela Nouvelle vague (Nova onda). Eu sei que o trocadilho é ruim, é de doer. Mas com certeza é muito melhor que o filme repleto de personagens insuportáveis (não se salvam nem les enfants). Com apenas quinze minutos de projeção, a impressão é de estar sendo torturado há horas. Ele fala (ou reclama?) de Lena (Chiara Mastroianni) uma mulher em crise existencial e que, separada do marido e com dois filhos, pensa (só pensa) em dar uma quinada na sua vida, indo passar uns dias na casa dos pais, no interior da França. A casa (de campo) é aprazível, o lugar é bucólico, o cheiro de mato é inebriante (imagino), ideal pra se esquecer da vida..., mas com a chegada da mala sem alça, pra se juntar aos malas com alça quebrada dali, aquilo vira um Inferno. Os pais, com viagem marcada, saem de fininho. A irmã, vai não vai, acaba indo. O ex-marido, convidado pro fim de semana, se manda. O irmão e a namorada (odiada por toda a família) vão cuidar da vida. As crianças ficam por ali, perdidas. Essa “terapia de grupo” começa nos primeiros minutos do filme, com a chegada da paraneurótica Lena, que atravessa o filme infernizando a vida de todos ao seu redor: família, amigos, amantes, patrões. Com uma paciente dessas até mesmo Jung cometeria um justo suicídio. Mas antes “suicidava” a neuroparanóica Lena.

Não minha filha, você não irá dançar não deve ser visto por espectadores depressivos, é aborrecimento na certa. Com um “roteiro” (?) que parece ter sido escrito por quem marcou consulta e não foi, ao menos pra saber um pouco mais sobre psicanálise, o filme teria melhor identidade se chamasse: Desencontros. O tema (apesar de batido) não é ruim, mas não é pra qualquer diretor. É preciso pegar mais leve. Um Woody Allen, com certeza, tiraria de letra e com muito bom humor. Christophe Honoré, no entanto, tropeça na primeira pedra/cena e sai quicando em tudo quanto é parede e (finalmente!) só para num estranho blecaute final. Os personagens são tão vazios quanto a psicologia colegial de seus diálogos. Com seu “discurso existencialista” de botequim (ou um simulacro de algo parecido) Honoré não parece se importar com o bem-estar e ou conforto do espectador. Quer ser (ou parecer) sério. E a recíproca é a mesma: não há porque o espectador absorver (e absolver) a dor de gente mal-amada travestida em personagem mal resolvida.

Durante a projeção, enquanto Lena atormentava, eu divagava se o filme seria diferente com uma direção feminina. Se ficaria mais leve e coerente (e até compreensível) sob o olhar feminino e ou se correria o risco de virar um filme “de mulher pra mulher”. Quem sabe?! Ah, pra não dizer que o filme é um desastre total, há um momento de relaxamento e bom cinema, num apêndice (que deveria ser o filme no lugar do filme) que retratada uma lenda, contada pelo filho de Lena, em que uma jovem só se casaria com o rapaz que conseguisse dançar por 12 horas seguidas... O curta é lindo, mas é apenas um lampejo (inútil) de luz na trama.
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