Mostrando postagens com marcador Dança. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Dança. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 22 de março de 2012

Crítica: Pina



Na vida de cada espectador há sempre um momento especial vivido numa sala de cinema e ou de teatro: uma cena, uma sequência cinematográfica, uma dança que o arrebatou da cadeira, que o arrepiou, que embaçou seus olhos..., que o fez marejar. Sei que para a maioria pouco ou nada se compara a Gene Kelly (1912-1996) cantando e dançado na chuva no delicioso Singin' in the Rain (Cantando na Chuva, EUA, 1952), que está completando 60 anos de preferência e referência dos clássicos musicais. É um dos meus preferidos, também. No entanto, quando morava em Brasília, lá pelas décadas de 1970/1980, a capital federal era palco de muitas mostras de cinema. Numa delas conheci a obra espetacular de Norman McLaren (1914-1987) e fiquei maravilhado diante de seu curta-metragem Pas de Deux (1968).

No começo da década de 1990, quando me mudei para Curitiba, assisti ao melhor espetáculo do Ballet Teatro Guaíra, o impactante Treze Gestos de Um Corpo, criado em 1986 pela coreógrafa portuguesa Olga Roriz, que dirigiu a versão paranaense. E vi, acho que na Cinemateca, o perturbador média-metragem que apresentava, na íntegra, o espetáculo Café Müller (1985), a peça coreográfica criada por Pina Bauch, em 1978, sobre os percalços do (des)amor, e que tem na trilha sonora a belíssima ária O Let Me Weep For Ever Weep (da ópera The Fairy Queen), de Henry Purcell (1659-1695). Esta é a mesma dança que abre o filme Fale com Ela (Hable com Ella, 2002), de Almodóvar. É impossível resistir incólume à experiência gestual/auditiva/visual de Café Müller.


Pina é o documentário de Win Wenders sobre (e para) Pina Bausch (1940 - 2009), a bailarina, coreógrafa e diretora do Tanztheater de Wuppertal. Ele não é a cinebiografia de uma precursora da dança contemporânea e tampouco trata da sua morte, aos 68 anos. É sobre o seu fantástico legado. É sobre a vida que partilhou nos palcos com seus bailarinos e o que ficou. É sobre o fazer uma dança que era teatro que era meta fora da dança convencional. É sobre a desconstrução da palavra e do silêncio. É sobre a incomunicação do homem e da mulher e entre eles, cada vez mais cada uns, nos centros urbanos. É sobre um corpo de baile e o corpo dos seus bailarinos intensos e transbordantes. Poucas vezes a palavra foi tão visual.

Win Wenders é autor de um cinema (em movimento) nem sempre acessível ao grande público. A arte de Pina Bausch também não o era. Há em Bausch (e mesmo em Wenders) um inconformismo constante, uma rebeldia à flor da pele, uma necessidade de cutucar o “establishment” cultural, de reencontrar a humanidade no homem. Uma necessidade de discutir o papel do artista e cidadão (ora palco ora plateia). No Brasil dos anos 1970 o genial Gianfrancesco Guarnieri (1934 - 2006) também processou uma nova linguagem dramatúrgica com as suas afiadas alegorias em Um Grito Parado no Ar (1973) e Botequim (1973). No teatro de resistência (que cutucava a todos com vara curta), o seu “assim é se lhe parece” (a situação) foi além da metáfora. Ainda hoje, nos palcos, há muita linguagem de ontem (na dança e na dramaturgia), possivelmente por ser mais contemporânea.


Pina (Pina, Alemanha, França, Reino Unido, 2011) é um filme muito bonito, intenso, cheio de novidades coreográficas para uma trilha fascinante. Um filme-homenagem de Win Wenders e do Corpo de Baile do Tanztheater de Wuppertal à Pina Bausch. Não há um narrador, há apenas pensamentos preenchendo o vazio dos bastidores. São depoimentos emocionados de velhos e novos bailarinos que vão ganhando forma e ganhando graça e ganhando estranheza ao irromper espaços públicos de uma Wuppertal solitária, mecanizada e indiferente à gente que baila na sua periferia.

Essa característica de Wenders, de personagens sempre em movimento (em algum veículo ou a pé) e quando rapidamente “estacionados” em algum local (fechado), um obsessivo aparelho de TV estará (sempre) desligado, aqui ganha um elemento inusitado, mas repleto de significado. Em Pina, onde nem mesmo a expressão silenciosa dos bailarinos é estática, o diretor utiliza um antigo projetor de cinema para mostrar, num palco de teatro e para uma plateia de bailarinos, filmes que registram curiosos momentos da coreógrafa. Wenders agasalha, assim, duas linguagens que ainda se digladiam em seus palcos frios: teatro e cinema.


Pina em 3 D é uma produção que esbanja contemporaneidade. A tecnologia que enche os olhos (e se esparrama pela sala), fascinante na cor, no enquadramento, na proximidade e distanciamento fotográfico, e está a serviço da arte, é mais do que bem-vinda. Mas, verdade seja dita, de nada valeria todo esse aparato técnico se a ideia fosse de meros registros planos das espetaculares remontagens (mesmo que fragmentadas) de Café Müler, A Sagração da Primavera, Kontakthof e Vollmond. Entretanto, tudo isso parece menor diante dos arquivos que mostram Pina Bausch (que diziam ser uma mulher triste) em diferentes momentos de felicidade.

Win Wenders, não abre espaço para a pieguice, nem mesmo neste breve documentário. Sabiamente dispensa discursos críticos de pessoas alheias à dança-teatral de Pina (e “família”), que arrebatou bailarinos mundo afora. O que lhe interessa é a essência de quem vive para dançar e dança para viver. Pina não é um filme-satisfação para a classe de bailarinos e plateia seleta que acreditam em vida inteligente além do ballet clássico, mas um espetáculo para quem gosta de arte além dos rótulos.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Crítica: Não minha filha, você não irá dançar


Não minha filha, você não irá dançar
... quem dança é o espectador

Logo que vi o filme-terapia Não minha filha, você não irá dançar (Non ma fille, tu n’iras pas danser, França, 2009), de Christophe Honoré, pensei que escrever sobre ele era sofrer duas vezes. Era como se o martírio de assisti-lo (do começo ao fim) não fosse pena suficiente pra um cinéfilo. O problema é que o filme, uma das piores produções francesas (e olha que gosto de filme francês) que já vi, precisa ser exorcizado pra eu ficar em paz. Quando se vê maravilhas como Horas de Verão (L’Heure D’Eté), de Olivier Assayas, a gente chega a acreditar que tudo mais que venha da terra de François Truffaut seja uma maravilha, ou no mínimo um bom vinho. Ledo engano. Ultimamente tem vindo muito queijo ruim.

Não minha filha, você não irá dançar, me parece um filme vago, feito pra preencher uma vaga deixada pela Nouvelle vague (Nova onda). Eu sei que o trocadilho é ruim, é de doer. Mas com certeza é muito melhor que o filme repleto de personagens insuportáveis (não se salvam nem les enfants). Com apenas quinze minutos de projeção, a impressão é de estar sendo torturado há horas. Ele fala (ou reclama?) de Lena (Chiara Mastroianni) uma mulher em crise existencial e que, separada do marido e com dois filhos, pensa (só pensa) em dar uma quinada na sua vida, indo passar uns dias na casa dos pais, no interior da França. A casa (de campo) é aprazível, o lugar é bucólico, o cheiro de mato é inebriante (imagino), ideal pra se esquecer da vida..., mas com a chegada da mala sem alça, pra se juntar aos malas com alça quebrada dali, aquilo vira um Inferno. Os pais, com viagem marcada, saem de fininho. A irmã, vai não vai, acaba indo. O ex-marido, convidado pro fim de semana, se manda. O irmão e a namorada (odiada por toda a família) vão cuidar da vida. As crianças ficam por ali, perdidas. Essa “terapia de grupo” começa nos primeiros minutos do filme, com a chegada da paraneurótica Lena, que atravessa o filme infernizando a vida de todos ao seu redor: família, amigos, amantes, patrões. Com uma paciente dessas até mesmo Jung cometeria um justo suicídio. Mas antes “suicidava” a neuroparanóica Lena.

Não minha filha, você não irá dançar não deve ser visto por espectadores depressivos, é aborrecimento na certa. Com um “roteiro” (?) que parece ter sido escrito por quem marcou consulta e não foi, ao menos pra saber um pouco mais sobre psicanálise, o filme teria melhor identidade se chamasse: Desencontros. O tema (apesar de batido) não é ruim, mas não é pra qualquer diretor. É preciso pegar mais leve. Um Woody Allen, com certeza, tiraria de letra e com muito bom humor. Christophe Honoré, no entanto, tropeça na primeira pedra/cena e sai quicando em tudo quanto é parede e (finalmente!) só para num estranho blecaute final. Os personagens são tão vazios quanto a psicologia colegial de seus diálogos. Com seu “discurso existencialista” de botequim (ou um simulacro de algo parecido) Honoré não parece se importar com o bem-estar e ou conforto do espectador. Quer ser (ou parecer) sério. E a recíproca é a mesma: não há porque o espectador absorver (e absolver) a dor de gente mal-amada travestida em personagem mal resolvida.

Durante a projeção, enquanto Lena atormentava, eu divagava se o filme seria diferente com uma direção feminina. Se ficaria mais leve e coerente (e até compreensível) sob o olhar feminino e ou se correria o risco de virar um filme “de mulher pra mulher”. Quem sabe?! Ah, pra não dizer que o filme é um desastre total, há um momento de relaxamento e bom cinema, num apêndice (que deveria ser o filme no lugar do filme) que retratada uma lenda, contada pelo filho de Lena, em que uma jovem só se casaria com o rapaz que conseguisse dançar por 12 horas seguidas... O curta é lindo, mas é apenas um lampejo (inútil) de luz na trama.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Crítica: HANAMI – Cerejeiras em Flor


Hanami – Cerejeiras em Flor
Hanami – Cerejeiras em Flor
as aparências enganam

A difícil arte de conviver e de envelhecer é o tema central do contagiante filme alemão Hanami – Cerejeiras em Flor (Kirschblüten, Alemanha, 2008) de Doris Dörrie. Delicado como a flor da cerejeira (que dura poucos dias) ele traça um painel universal sobre as aparências da vida e da morte, expondo o que nos parece eterno na sua “despercebida” fugacidade.

Hanami – Cerejeiras em Flor fala da descoberta de si mesmo na ausência presente do outro. Trudi (Hannelore Elsner) e o marido Rudi (Elmar Wepper) vivem numa bucólica cidade da Baviera. Ela ama a dança japonesa Butoh e sonha visitar o Monte Fuji. Ele prefere ficar em casa, depois do trabalho, bebendo cerveja. Um dia Trudi toma conhecimento da doença terminal de Rudi e, em vez de contar a ele, decide fazer uma grande viagem com o marido. Ela propõe uma visita ao o filho Karl (Maximilian Brückner), que vive em Tóquio, mas acabam indo a Berlim, onde moram outros dois filhos, Klaus (Klaus Angermeier) e Karolin (Birgit Minichmayr), e de lá até o Mar Báltico, onde Trudi morre repentinamente. Decidido a homenagear a esposa, Rudi vai ao Japão visitar Karl e conhecer o Monte Fuji. É a época do Festival das Cerejeiras em Flor e ele encontra beleza em toda parte, inclusive no Butoh, através de Yu (Aya Irizuki), uma garota que dança num parque.

Kazuo Ohno, o grande mestre do Butoh dizia que “A dança (Butoh) não se ensina. Ela está dentro de cada um de nós. Primeiro tem que analisar sua vida, quando entender sua própria vivência, surgirá sua própria dança”. Hanami – Cerejeiras em Flor não é sobre o Butoh, mas a essência da dança está presente em cada fotograma. Assim como o contraste de culturas na valorização da vida e na compreensão da morte. A metáfora se desenha nos detalhes que confrontam as cidades e as suas celebrações de florescimentos de prédios e de cerejeiras. Ou ainda na efêmera vida das moscas. Melancólico e intenso, o filme de Doris Dörrie desvela os signos das cidades que enclausuram homens que enclausuram a si próprios. Através das lentes precisas e nem sempre confortáveis, do fotógrafo Hanno Lentz, registra a brevidade das coisas em um mundo cada vez mais de ontem.

Saudosista, ou não, Hanami – Cerejeiras em Flor é uma obra envolvente e pega de jeito qualquer espectador, com seu nostálgico discurso sobre a vida simples e a simplicidade da vida, em meio aos atropelos capitais. Caminha a passos ágeis ou lentos, conforme as cidades se abrem ou se fecham à passagem de Rudi sob as cerejeiras ou aos pés do Fuji, lembrando que, mesmo na brevidade, há tempo para mudanças.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...