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sexta-feira, 18 de junho de 2010

Crítica: O Profeta


O Profeta
e o Pateta

O Profeta (Un Prophéte, França, 2008) é o personagem do filme e o Pateta sou eu, por ter ficado mais de duas horas, dentro de uma sala de cinema, vendo esta tolice. Só o “drama” tem 155 minutos. Por que Pateta? Ora, para quem não teve paciência de assistir nem a metade do famoso Cidade de Deus (Fernando Meirelles, 2002) e se recusou (mais ainda) a ver seus congêneres virulentos que proliferaram (e continuam proliferando) nas teclas fáceis do tráfico + polícia + droga + favela + corrupção..., assistir a um similar ou genérico, nos moldes franceses, como se bandidos europeus e árabes fossem diferentes, só porque não são favelados brasileiros, vai além do meu Tico-Tico. Porém, se esse tipo de entretenimento, calcado nos programas de baixaria e “matérias” policialescas dos telejornais brasileiros (no ar, a qualquer hora do dia ou da noite, sem nenhuma censura), funciona (?), é premiado e até indicado (pelo Brasil) ao Oscar..., por que os estrangeiros iriam querer ficar de fora? No mundo do cinema, americano refilma e o francês reescreve. Acaba dando tudo no mesmo.

O Profeta começa com Malik El Djebena (Tahar Rahim), um jovem de 19 anos, chegando a uma penitenciária, para cumprir uma pena de seis anos, por um crime nunca revelado. Talvez seja pelo fato dele não se sentir nem francês e nem árabe e nem ter como língua-mãe o francês ou o árabe ou por não saber ler nem em francês e nem em árabe ou por não saber como se comunicar ou agir ou por ou etc em francês ou em árabe. Não importa, o sujeito está na Prisão da Mãe Joana Dark, para pagar por um crime (?) qualquer e mal sabe ele que seus momentos de paz (?) e tranquilidade (?), numa oficina de costura, estão com os dias contados, pois será obrigado (questão de vida ou de morte) a se envolver com César Luciani (Niels Arestrup), o bandidão “dono do pedaço” prisional. A escola que ele não teve fora da prisão, terá lá dentro, apenas com algumas variações sobre a escalada profissional, bastante influenciada pelos colegas de classe. Detalhes, bobagens, já que, de uma forma ou de outra, ele sairá de lá (muito bem) preparado para uma carreira brilhante no mundo marginal que o aguarda nas ruas de Paris e arredores. E então, dá-lhe clichês (tráfico de droga, máfia, bandidos, gangues, traficantes) e cachês (corrupção policial, suborno) e encaixes (assassinatos, tortura, violência múltipla), além de confusão de conceito religioso, daqui e dacolá, até chegar ao final previsto desde o princípio.



Com roteiro de Jacques Audiard e Thomas Bidegain, a partir do texto de Abdel Raouf Dafri, O Profeta, é um drama policial para quem é fanático por violência gratuita e tem orgasmos homéricos assistindo a filmes do gênero prisão, cuja criatividade é zero e a originalidade é nula, já que não passam de variações sobre os mesmos presos, digo temas, realizadas há décadas (principalmente) pelo cinema americano. Quando se vê uma produção do tipo, pode ser interessante, depois de umas duas ou três a curiosidade acaba e não há fotografia, técnica, trilha, direção que dê jeito, e a ensaiada violência, coreografada (?) pra impactar o público, acaba ficando com cara de coisa trash. Inventam-se armas, formas de tortura, pressão psicológica, em nome de um “realismo”, de uma “verdade” que (segundo o roteirista ou diretor) deve ser dita, custe o que custar, “idealizando” um espectador pagante que se divertirá e subliminarmente será conscientizado das armadilhas do sistema e sairá da sala de cinema de um shopping, empunhando uma bandeira e convocando passeadas em solidariedade aos criminosos e pela moralidade universal. Cinema é (tão somente) entretenimento, e a ficção persiste até nas “boas intenções” que tentam provar o contrário.

O Profeta, de Jacques Audiard, é hipócrita e pretensioso, com seu desfile da fauna-flora marginal, coleção européia, para todos os gostos e histórias batidas: pré-bandido, bandido amador, bandido profissional, bandido policial, polícia bandida. O sado-masoquismo (seu ponto forte) é minuciosamente estudado para a satisfação daquele público que se entretêm com programas que exploram e detalham crimes violentos, nos canais abertos de TVs e nas rádios. É uma produção que ganhou muitos prêmios e a baba da crítica. Já vi (e me cansei) filmes policiais demais, para achar quer este tenha algo (mínimo) que possa ser destacado.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Crítica: O Golpista do Ano


O Golpista do Ano
ou: Eu te amo, Phillip Morris

Eu Te Amo, Phillip Morris, que no Brasil recebeu o execrável título de O Golpista do Ano, pode deixar muito espectador em sauna justa, digo saia justa, se for fã do trio protagonista e entrar no cinema esperando ver uma coisa e assistir a outra. Tem tudo para agradar até quem ainda não decidiu sair do armário, mas, se o desavisado tiver tendências homofóbicas, vai querer receber o seu dinheiro de volta. É que o híbrido filme dos roteiristas e diretores John Requa e Glenn Ficarra conta a história realmente verdadeira de Steven Russell (Jim Carrey) e seus absurdos e inacreditáveis golpes para viver uma vida glamorosamente “gay, gay, gay”. Esqueça A Gaiola das Loucas (1978) ou Priscila, A Rainha do Deserto (1994), porque aqui a pegada é bem diferente.

Rebombinando: O Golpista do Ano (I Love You Phillip Morris, França, EUA, 2009), dirigido pelos politicamente incorretos Requa e Ficarra, é um filme que desfila pelos mais variados gêneros cinematográficos: biografia, comédia, drama, policial, prisão, para narrar a espetacularmente complicada e turbulenta vida de Steven Russel (Carrey): um bom policial, bom marido, bom pai de família, bom religioso que, após um grave acidente, decide assumir a sua homossexualidade. Parece simples, não? Acontece que Russel acredita que a felicidade gay está em ser fashion. E para viver no luxo, o faustoso personagem decide aplicar “inocentes” golpes em seguradoras. Bem, como uma mentira sempre puxa outra a reboque, acaba exagerando na dose e nos presentes para a ex-mulher e filha e para o seu namorado Jimmy Kemple (Rodrigo Santoro) e vai parar num presídio, onde se apaixona por Phillip Morris (Ewan McGregor), um prisioneiro ingênuo e romântico. E isso é só o começo do drama narrado pelo próprio Steven Russel, em seu leito (hospitalar) de morte. A ironia, o sarcasmo, a inversão de valores que vem depois..., é ver pra crer.


Baseado na biografia de Steven Russel, publicada no livro Eu te Amo, Phillip Morris (I love you Phillip Morris: a true story of life, love, and prison breaks), do jornalista Steve McVicker, lançado no Brasil pela Editora Planeta, o filme lembra (a princípio) dois outros grandes momentos cinematográficos, envolvendo golpistas brilhantes: Prenda-me se for capaz (Catch Me If You Can, 2002), de Steven Spielberg, com Leonardo DiCaprio, no papel de Frank Abagnale Jr, que aos 18 anos era um mestre na arte dos disfarces e dos golpes milionários; e Os Safados (Dirty Rotten Scroundels, 1988), dirigido por Frank Oz, onde Michael Caine (Lawrence Jamieson) e Steve Martin (Freddy Benson) são dois vigaristas que seduzem milionárias de meia idade – refilmagem de Dois Farristas Irresistíveis (Bedtime Story, 1964), direção de Ralph Levy, com Marlon Brando e David Niven. Porém, a lembrança é apenas por conta da malandragem, da esperteza, da classe dos golpes, já que segue por um viés bem mais incômodo.

O Golpista do Ano, que vem enfrentando problemas de distribuição nos EUA, é ferino, mordaz, com seu (involuntário) humor negro e suas cenas de sexo semi-explícito. Ele traça um painel divertidamente triste de um mundo (nem sempre) alegre, como fazem parecer os homossexuais que se assumem e botam o bloco na rua, na boate, na moda..., mas que, na maioria das vezes, fora do armário, se veem obrigados a suprir uma carência (principalmente) afetiva com agrados além das posses e da pose. Russel “viveu” tantas personas, em busca do prazer e da felicidade (também de quem amava) que, a certa altura, não tinha mais certeza de quem realmente era. Porém, o mais importante, sabia “quem” não queria ser.

Não é um filme linear e nem tão pouco clichê. Assim como o roteiro, a direção provoca o espectador e, ao mesmo tempo em que o diverte, o adverte sobre arraigados conceitos e preconceitos da (homos)sexualidade. Sem deixar de cutucar a religiosidade, família, negócios, amizade. Quem resistir ao “chocante” prólogo vai se surpreender com Jim Carrey, exercitando todo o seu talento dramático e cômico, na companhia de Ewan McGregor, ator que personifica Phillip com uma sutileza arrebatadora, e de um competente Rodrigo Santoro que, mais uma vez, não entra mudo, mas sai de cena de forma dramática. É um excelente programa (sem trocadilho) pra quem gosta de variar (sem queimar) o filme e costuma deixar o puritanismo trancado na gaveta do criado mudo.
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