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segunda-feira, 12 de junho de 2017

Crítica: A Múmia

A MÚMIA
por Joba Tridente*

Conta-se que, lá nos idos de 2014, o Dracula Untold (Drácula: A História Desconhecida), da Universal, era para ser o prólogo de um novo selo-franquia, o Dark Universe, dedicado ao resgate de monstros clássicos dos “primórdios” do cinema e do estúdio. Mas, com o vampiresco fiasco e apostando na memória curta do espectador, bombardeada por tanto filme-catástrofe de super-herói, a Universal esperou a poeira baixar para lançar um novo e ambicioso prólogo ao seu projeto: A Múmia (The Mummy, 2017)..., cuja missão é tirar dos túmulos de celuloide o Frankenstein, a Noiva do Frankenstein, o Van Helsing, o Lobisomem, o Homem Invisível, o Fantasma da Ópera, o Monstro do Pântano...


Como quem assistiu aos trailers (que só vi depois da sessão especial) já sabe tudo o que vai acontecer no drama de ação e aventura, pois 80% da trama estão lá (em desavergonhado spoiler), não há muito a dizer sobre a sinopse. Mas, caso saiba nada a respeito: ..., lá pras bandas do conflituoso Oriente Médio, o corajoso militar e ladrão de túmulos ou vice-versa Nick Morton (Tom Cruise) e o seu medroso parceiro Chris Vail (Jake Johnson), numa de suas ambiciosas empreitadas, são surpreendidos pelos terroristas do Estado Islâmico (os inimigos da vez!) e salvos por um explosivo pelotão do exército inglês, que causa a abertura de uma antiga tumba. Com a chegada providencial da arqueóloga Jenny Halsey (Annabelle Wallis), ficamos sabendo que o mausoléu guarda (ou prende!) a urna com o corpo da renegada princesa egípcia Ahmanet (Sofia Boutella), enterrada viva por cometer crimes hediondos.


Paralelamente, em Londres, operários do metrô encontram uma imensa sepultura de Cruzados (aqueles truculentos soldados do exército católico que matavam, escravizavam e roubavam quem não aceitava a religião do seu deus do amor). O que o túmulo inglês tem a ver com a tumba egípcia? Pela coincidência (?), tudo! Pela lógica (?), nada! Porém (sem ele não tem história!), no voo para a capital inglesa, onde o sarcófago será aberto e a múmia estudada pelo Dr. Henry Jekyll (Russell Crowe), chefão da organização secreta Prodigium, um grave acidente na aeronave desencadeia “estranhos” (e reciclados) acontecimentos. Aí, está armado o pandemônio (de sempre?), com o desfile de mortos-vivos e vivos-mortos, monstros, fantasmas etc...

Com seus três “prólogos” de apresentação (Antigo Egito para a princesa Ahmanet; Oriente Médio para os ladrões Nick e Chris; Londres para o (médico e monstro) Dr. Henry Jekill), A Múmia, cuja história foi escrita por três autores e o roteiro por mais três, é um verdadeiro balaio de ratos trançado com gaze elástica costurada com finas teias de aranhas. Após os “prólogos”, a claudicante ação em Londres, se resume nos pífios argumentos do Dr. Henry (sabe-se lá como ainda está vivo!): “desenterrar o mal para estudar o mal e (assim) combater o mal”. Entendeu? Não importa, já que nem mesmo a presença da secular múmia se justifica neste clube de ambiciosos (é claro!) vilões. Acredite, não há sequer um personagem bom (ou íntegro) nessa história descerebrada. Todos, além de rasos, são maus. A única coisa que interessa a cada um deles é a riqueza, o poder. Se for preciso matar (e está na cara que é!) para dominar o mundo (!), faz parte do pacote “macabro”.


Apesar do que disse acima (e ou por isso) A Múmia, dirigido por Alex Kurtzman, é um filme de terror infantojuvenil que não assusta nem criança do fundamental. Toda via do barulho infernal, no entanto, se não estiver com o phone do smart no ouvido, um jovem pode até pular da poltrona, com os indefectíveis áudio-sustos explodem tímpanos, que ressuscitam até mosca morta. Apesar da intenção, A Múmia não provoca medo algum. As piadas (ou gags) são horríveis. Risível mesmo, só a malfadada tentativa de parecer trash e ou filme “B”.


Tom Cruise passa praticamente o filme inteiro com cara de basbaque, olhos estalados, como se não tivesse a menor noção do que está fazendo em cena. Até aquele meme do Travolta confuso é mais dramático e emocionante. Já a “arqueóloga” Jenny, de Wallis, parece estar ali só pra cumprir cota (e ser salva), assim como Brie Larson, a “fotojornalista” Mason, em Kong - A Ilha da Caveira. Se o insípido Dr. Jekill, de Crowe, não está claro a que veio..., é melhor você concluir por conta própria a “importância” do bobalhão Vail, de Johnson. O filme só não é um desastre total porque tem uma ou duas sequências razoáveis. Se bem que a do avião “gravidade zero” parece sobra de Missão Impossível. Por que só umas duas? Ora, porque a maioria vai lhe parecer já vista em alguma sala de cinema, na tv e ou na telinha do seu pc.


Enfim, considerando que A Múmia não vai muito além de vitrine para o vaidoso ator e dublê Cruise mostrar a sua invejável forma física de atleta; que a melhor performance (e personagem!) é a de Sofia Boutella (Ahmanet); que nem só de boas intenções se faz um filme original (com velhos personagens) de terror ou suspense; que fazer humor não é contar piada chula (de orgasmo de 15 segundos) ou múmia falar inglês “porque é uma língua de fácil domínio”; que seria interessante saber a opinião Robert Louis Stevenson (1850-1894) sobre a “imortalidade” de seu personagem Dr. Henry Jekill (Será que o Victor Frankenstein tem algo a ver com isso?); que os diálogos são um horror (ôps!); que a história infantojuvenil é apenas a convencional (ressuscita-se uma múmia (do mal!) mas não se tem domínio sobre ela); que o triângulo amoroso Ahmanet/Nick/Jenny é um quadrado (não conto!) e tosco..., acho que o público alvo, que não gosta de dar muito trabalho aos seus neurônios, pode até gostar da pancadaria sem sangue mas com muita poeira (ou seria cálcio?) de ossos quebrados.

Quanto a mim, acho o press-book, com as informações sobre a produção do filme e as “revelações” da paixão da equipe (desde criancinha) por monstros, muito melhor!


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Crítica: Star Trek: Sem Fronteiras

Star Trek: Sem Fronteiras
por Joba Tridente

Não me parece necessário ser um trekker de carteirinha para gostar da franquia Star Trek (séries, filmes, hqs) que, comemorando o seu 50º. aniversário, chega aos cinemas com uma interessante aventura retrofuturista: Star Trek: Sem Fronteiras. Fiquei fã quando, na adolescência, assisti casualmente, na televisão, a reprise do antigo seriado (hoje clássico) Jornada nas Estrelas (atual Star Trek). Apaixonado por ficção científica, ele me arrebatou pela “discussão” filosófica e conceito humanitário em suas entrelinhas. Daquele dia até hoje jamais me esqueci de: “O Espaço..., a fronteira final. Estas são as viagens da nave estelar Enterprise, em sua missão de cinco anos para explorar novos mundos, pesquisar novas vidas, novas civilizações, audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve.”


Star Trek: Sem Fronteiras (Star Trek Beyond, 2016), dirigido por Justin Lin, o 13º. filme da franquia, chega aos cinemas trazendo uma história bacana, escrita por Simon Pegg e Doug Jung, que remete ao velho e bom seriado criado por Gene Roddenberry. O enredo é simples (mas eficiente!) e garante uma boa diversão: Obrigados a interromper um merecido descanso na magnífica Yorktown (cidade-planetóide que parece ter sido projetada pelo genial Escher), para atender a um pedido de socorro, o comandante James T. Kirk (Chris Pine) e sua tripulação são emboscados pelo misterioso Krall (Idris Elba). Com a Enterprise destruída, e os sobreviventes dispersos no planeta Altamind, tem início uma corrida contra o tempo para Kirk reunir a equipe, encontrar um meio de fugir dos domínios do furioso inimigo da Federação Unida dos Planetas e evitar que ele cometa um atentado devastador.


Como se vê, o roteiro é padrão (um pedido de socorro e suas consequências) e o que conta, mesmo, é como esta empolgante narrativa, que não tem intenção alguma de reescrever a gênese da série, é conduzida na medida certa para divertir e também emocionar com recortes preciosos. Como, por exemplo, entre outros, o da destruição da Enterprise. Ao longo da saga Star Trek, várias aeronaves USS foram destruídas, mas, possivelmente, nunca de forma tão impactante e dramática quanto a USS Kelvin, em Star Trek (2009), quando Kirk (Chris Hemsworth) a coloca em rota de colisão com a nave romulana Narada, para salvar a sua esposa Winona..., e agora, quando a USS Enterprise é atacada por um “enxame” de naves “abelhas” comandadas pelo “zangão” Krall, em uma sequência espetacular, com um desfecho de cortar o coração, que assinala um acontecimento importante entre os dois eventos. Não vou tirar o seu prazer de descobrir qual é o fato e tampouco revelar a analogia entre as duas cenas primordiais nesta nostálgica trama. Apenas lhe digo: fique atento aos sinais que abrem e fecham histórias, porque, ao captar a “mensagem”, você vai se arrepiar.


Toda via cheia de ação que segue, a aventura trágica dos nossos heróis continua surpreendendo e, diante do imprevisível, aos abnegados oficiais da Federação Unida dos Planetas resta recuperar as forças, cuidar dos feridos e tentar escapar da arapuca. É neste porém que Star Trek: Sem Fronteiras cresce e aparece com soluções bem engenhosas (tão juvenis quanto rebeldes) na exploração de uma tecnologia (ultra)passada (retrô) que pode salvar o dia e ao desvelar detalhes da curiosa inter-relação (fraternal?) entre os oficiais da frota e seus dilemas (banais?).

Star Trek: Sem Fronteiras é assim, na sua aparente simplicidade se esconde um vendaval de emoções que, após a sessão, é difícil de se conter. A trama que começa com um melancólico registro do Kirk, sobre a mesmice da sua rotina, vai ganhando ritmo e dramaticidade até alcançar o ápice numa impressionante batalha, ao som apoteótico de Sabotage, do Beastie Boys (sequência que, mantidas as devidas proporções, ouso dizer, equivale à dos músicos alucinados de Mad Max: Estrada da Fúria). Outro momento inesquecível e de rara sagacidade neste enredo (enxuto!) onde menos é sempre mais.


Enfim, considerando a excelência dos efeitos especiais e do ótimo 3D-IMAX; a simpatia do elenco e dos adoráveis personagens: James T. Kirk (Chris Pine), Spock (Zachary Quinto), McCoy-Magro (Karl Urban), Scott (Simon Pegg), Checov (o saudoso Anton Yelchin), Uhura (Zöe Saldãna), Sulu (John Cho), Krall (Idris Elba) e Jaylah (Sofia Boutella); a beleza do figurino e capricho da maquiagem; o roteiro redondo, o drama sem pieguice e o humor sutil (quase nonsense); a narrativa rolando sem firulas e ou equívocos, fazendo jus ao melhor da saga cinquentona; uma trilha sonora que valoriza mais do que incomoda a trama; a direção ponderada (e cheia de garra!) de Justin Lin..., e pela pungente homenagem a Leonard Nimoy, o eterno (primeiro) Spok, numa belíssima cena, e agradecimento ao talentoso Anton Yelchin, por seu jovial Checov, o sci-fi Star Trek: Sem Fronteira é reflexão (profunda sobre a pertinente motivação criminosa do maquiavélico Krall) e diversão da melhor qualidade para trekker de carteirinha e ou mero fã de ocasião que sabe apreciar o que é bom!

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