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domingo, 18 de fevereiro de 2018

Crítica: Trama Fantasma



Trama Fantasma
por Joba Tridente*

O mundo da moda que já rendeu obras cinematográficas relevantes, como Prêt-à-Porter, de Robert Altman (1925-2006), ou no mínimo instigantes, como O Diabo Veste Prada, de David Frankel, ambas de certo modo divertidas no humor negro e no de amenidades, agora abre as cortinas da passarela para o mistério e a introspecção em Trama Fantasma (Phantom Thread, 2017), de Paul Thomas Anderson (Magnólia e Sangue Negro)


Produzido, roteirizado, fotografado e dirigido por Paul Thomas Anderson (Vício Inerente e O Mestre), o melancólico drama romântico Trama Fantasma, ao contrário do que possa sugerir o título, não é um filme de terror, ao menos nos moldes tradicionais, embora a ação e a reação de seus personagens egocêntricos e obsessivos compulsivos provoquem algum temor, encerrando um clima de suspense. O fantasma em questão tem mais a ver com a vaidade de quem produz moda exclusiva e a fraqueza de quem tem o privilégio de ostentar a grife.

É nesse mundo de aparências (e alguns segredos) que transita o meticuloso designer de moda britânico Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis) que veste a realeza e a elite europeia. Discípulo do costureiro inglês Charles Frederick Worth (1825-1895), o "pai da alta-costura” e dos desfiles de moda com modelos, Woodcock não deixa coisa alguma sobrepor a sua devoção à costura e ou perturbar seu ato de criação..., nem mesmo os amores ocasionais. Para tanto ele conta com a dedicação exclusiva da sua quase silenciosa irmã Cyril (Lesley Manville) na administração da casa e da sua vida “amorosa”.


Em Londres de 1950, onde se desenrola a tessitura desse conto (quase gótico) bordado com glamour entremeado de pontos de amargura, o egoísta Woodcock, que não assimilou a onda do prêt-à-porter e sequer o significado de chiqué na moda do pós-guerra, leva uma vida de galo-rei, sempre no centro das atenções e objeto de desejo das mulheres descartáveis. Toda via dos alfinetes e alinhavos, no entanto, ao conhecer a bela e insinuante garçonete Alma (Vicky Krieps), numa cidadezinha interiorana, ele vai ter de rever seus conceitos de descarte fácil de amores ocasionais. Porém, enquanto não se dá conta do nível das suas loucas obsessões, resta ao casal saber quem domará e moldará quem a seu gosto no desfile prazeroso e subserviente da objetificação onde competem a mulher funcional e o homem ideal.


Entre o previsível e o surpreendente num relacionamento amorosamente doentio do trio Woodcock/Cyril/Alma, onde não faltam humilhação, machismo e feminismo, Trama Fantasma não se furta a desvelar também, através de uma fotografia detalhista e diálogos por vezes ácidos, os bastidores e o palco das ilusões de um circuito fashion em que executores e consumidores de moda desconhecem a palavra crise econômica e tampouco sabem lidar com a crise de identidade. É num desses maquiavélicos recortes de crise de identidade, envolvendo a dama do high society Barbara Rose (Harriet Sansom Harris, inesquecível), que está a sua melhor e mais incômoda sequência. Na dor mais profunda, a cor é verde esmeralda. Há, sem dúvida, outras sequências notáveis, inclusive sombrias, já que o elenco protagonista é excepcional e o script muito bom, mas nenhuma se compara a esta que é de uma tristeza absurda.  


Enfim, com seu clima de thriller psicológico e de romance desesperado; performances maravilhosas: Daniel Day-Lewis, num irretocável canto do cisne, Lesley Manville, magnética e Vicky Krieps, encantadora; roteiro e direção excelentes; cenografia minimalista (por vezes claustrofóbica) e fotografia impressionante no detalhamento da Casa de Costura, com sua estreita escada em caracol que obriga funcionárias e clientes a escalá-la para chegar ao celestial atelier de criação do deus da alta-costura Woodcock e então comungar com suas vestes divinas, bem como do registro da dança de mãos e dedos ressecados na artesania do corte e da costura na constância de agulhas e linhas; a delicadeza clássica nas pontuações musicais de Jonny Greenwood (Radiohead)..., Trama Fantasma, do prolixo Paul Thomas Anderson, embora me pareça se estender (assim como seus filmes anteriores) além da metragem ideal e possa provocar algum bocejo, é um obra magnífica!


Trama Fantasma recebeu seis indicações ao Oscar 2018: Filme, Diretor, Ator, Atriz Coadjuvante, Trilha Sonora e Figurino.


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Crítica: Mãe!


Mãe!
por Joba Tridente*

Filme vai e filme vem e lá está novamente o visionário diretor, roteirista e ambientalista Darren Aronofsky dividindo opiniões da crítica e do público com seu thriller psicológico Mãe! (Mother, 2017)..., um filme incômodo e que (só?) ganha sentido quando vira pauta de discussão e todas as suas metáforas são decifradas. Alegorias é o que não falta a esta trama hipnotizante que trata de ambientalismo, amor, devoção, submissão, desesperança, mitologia judaico-cristã, história, misticismo e o que mais a sua leitura desejar, com intensidade e provocação pouco vistas nos cinemas.


A história começa com uma arrepiante abertura evocando o despertar da Mãe (Jennifer Lawrence, magnífica), esposa do criador Ele (Javier Bardem). O casal vive isolado numa agradável casa em meio à natureza exuberante. Enquanto Mãe restaura amorosamente o lar doce lar, Ele busca um motivo substantivo para criar mais um grande poema. Certa noite o estranho Homem (Ed Harris) bate à porta, pedindo pouso. Na manhã seguinte a provocativa Mulher (Michele Pfeiffer) se junta a ele e, na sequência, os filhos (Domhnall Gleeson e Brian Gleeson)..., transtornado a tranquilidade naquele Éden. Este é só o princípio da ebulição que virá com outros buliçosos “convidados” noturnos.

Escrito por Aronosfsky, o roteiro de Mãe! (que guarda referências sugestivas ao O Bebê de Rosemary (1968), de Roman Polanski, conceituais à antropofagia sacra e profana de O Bebê Santo de Mâcon (1993), de Peter Greenaway, à filosofia do amor e do perdão da atual fase de Terrence Malick, iniciada com o irretocável A Árvore da Vida (2011), e ao abismal Anticristo (2009), de Lars von Triers) não é do tipo que se conecta facilmente com o grande público acostumado com as narrativas banais dos filmes de suspense. Sabiamente (!) sem trilha sonora para direcionar o “medo” latente do espectador, o enredo, que traça um paralelo no modo em que o os homens tratam as mulheres e os humanos tratam o planeta, não alivia pra ninguém. É cruel em todos os sentidos. Aliás, este paralelismo entre Homem/Mulher e Homem/Terra, abordado (ou mixado) com competência por Aronofsky, já foi discutido anteriormente pela filósofa e ecofeminista Susan Griffin, em seu livro Woman and nature, de 1978.


Mãe!, que se desenvolve a partir do ponto de vista de Mãe (Lawrence), conduzido pelas esmagadoras imagens de Matthew Libatique, traz cenas fortes e algumas (de violência extrema) bem repugnantes. Faz duras críticas ao machismo, ao egocentrismo e narcisismo. Não deixa hóstia sobre hóstia ao escancarar a fé cega cristã, a devoção sem limites e a hipocrisia dos seus ritos levados ao pé da letra. Apavora ao desnudar as celebridades e seus cultuadores de aparências em sequências de humor negro que seriam cômicas não fossem tragicamente possíveis. Pode não ser um drama convencional de terror, mas algumas cenas, de tão indigestas, podem fazer um(a) espectador(a) mais sensível e ou suscetível deixar a sala.


A princípio, a sessão de 121 minutos me pareceu cansativa e me deixou sem opinião formada. No entanto, ao analisar as idiossincrasias de Aronofsky e me lembrar do vertiginoso último ato, as considerações radicais (?) do roteirista ficaram mais claras (até demais) e me dei conta de que Mãe! está muito além de um apressado simples achismo (gostei! não gostei!) desde o seu belíssimo cartaz, cujo real significado (da amorosa Mãe doando-se toda) só enxerguei após refletir sobre a complexidade e a pertinência do espinhoso script. O que me fez concluir que, após o fascinante Cisne Negro (2010) e o esquecível Noé (2014), o diretor de excelência Darren Aronofsky acertou novamente. Com seu irretocável elenco (Jennifer Laurence está tão fascinante quanto em Winter's Bone/Inverno da Alma, 2010), Mãe! pode não ter o reconhecimento merecido agora, mas provavelmente será considerado cult no futuro.


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Crítica: O Estranho Que Nós Amamos

O Estranho Que Nós Amamos
por Joba Tridente

A chegada aos cinemas do filme O Estranho Que Nós Amamos, com Nicole Kidman e Colin Farrel dirigidos por Sofia Coppola, deve despertar em muitos espectadores o interesse em conhecer a perturbadora versão homônima de 1971, dirigida por Don Siegel (1912-1991) e estrelada por Clint Eastwood e Geraldine Page (1924-1987). Embora baseados na novela A Painted Devil (1966) de Thomas Cullinan (1919-1995), o foco de ambos é, digamos, sexualmente diferente...


Em sua releitura de O Estranho Que Nós Amamos (The Beguiled, 2017) Sofia Coppola, que disse ter escrito o roteiro a partir da novela e não do filme de 1971, transfere a ação ambientada na Louisiana (1863), durante a Guerra Civil Americana, para a Virginia (1864), sul dos EUA, quando Miss Martha Farnsworth (Nicole Kidman), acolhe nas dependências do seu internato feminino, um soldado ianque ferido, John McBurney (Colin Farrell). Conforme recebe cuidados médico e se restabelece, o “bendito fruto” desperta as mais diversas sensações (e desejos) nas sete mulheres residentes..., gerando ciúmes, assédios e tensão sexual, principalmente entre a diretora Martha (Kidman), a professora de francês Edwina (Kirsten Dunst) e a adolescente Alicia (Elle Fanning).


Quando um realizador faz a releitura de uma grande obra, espera-se que seja para acrescentar algo que tenha passado despercebido do espectador/leitor. O que não é o caso de Sofia Coppola com sua adaptação quase singela de O Estranho Que Nós Amamos..., não fosse o impactante final. A direção é perfeita! A performance do elenco é excelente! Esteticamente é belíssimo. Irretocável! Mas tem um porém, seu roteiro não provoca, não excita. É pudico demais ao falar de desejo sexual reprimido das mulheres e jeitoso demais ao tratar da hipocrisia religiosa. O soldado McBurney, Ferrel, não tem malicia e nem é dissimulado e sedutor quanto o “donjuán” McB, de Eastwood, que age feito um Lobo Mau na iminência de um ataque ao “galinheiro”. Diferente da tensão psicológica causada pela presença de um estranho no ninho, crescendo a cada fotograma, na leitura de Siegel, na versão de Coppola o clima de ameaça praticamente ganha força só no epílogo. E até lá o público será poupado (?) de algumas cenas fortes (não vou cometer spoiler!) por conta da moda elíptica que abrevia tudo, até o tempo.


Mesmo sem ter lido a novela de Cullinan, é impossível não comparar as duas versões cinematográficas. Enquanto o filme de Siegel (talvez o seu melhor trabalho) é um excelente thriller psicológico, intenso e apavorante, do princípio ao fim, Coppola opta por um drama bem mais leve, quase bucólico. Ou melhor, opta por uma versão politicamente correta..., excluindo ou passando ao largo de todos os ferrões incômodos ao (seu) público mais sensível (escravidão, pedofilia, incesto, orgia, lesbianismo) e da rica simbologia dos objetos de arte, figurinos e animais (corvo acorrentado, galinhas poedeiras, tartaruga inocente, taturana sacrificada) que, além de pertencimento, dão forte conotação sexual à narrativa de Don Siegel. Assim, comparado à recatada sensualidade do filme de Sofia, a sublime sequência alegórica do sonho de transgressão sexual, numa releitura provocativa do quadro Corpo Morto de Cristo/Pietá (1495), de Sandro Bottcelli (1445-1510), a versão erotizada de Don pode até ser considerada pornográfica, pelos mais puritanos.


Enfim, considerando o que escrevi acima, se optar por não assistir antes (e ou depois) a versão de O Estranho Que Nós Amamos (1971), com certeza dará uma boa acolhida ao bonito “remake” de Sofia Coppola, que apenas optou por oferecer menos, quando o texto (em questão) pede mais. De uma forma ou de outra, saiba que, se hoje a fotografia de Philippe Le Sourd inebria os sentidos, ontem a fotografia de Bruce Surtees (1937-2012), arrepiava a alma...


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Crítica: O Presente


Já disse várias vezes que um bom cartaz e um bom título são meio caminho para içar o espectador para uma sala de cinema. Recentemente o cartaz do divertidíssimo “B” Como Sobreviver a um Ataque Zumbi me deixou curioso, e não me arrependi de gargalhar com a paródia. No mesmo período o pôster de O Presente também chamou a minha atenção. Pensei ser filme de terror, mas é um thriller psicológico da melhor qualidade. Quer dizer, se a praga, digo prática do bullying for considerada terror, o filme não deixa de dividir o gênero e o adjetivo.


O Presente (The Gift, 2015), escrito e dirigido com muita expressividade por Joel Edgerton, é um drama de suspense daqueles de mexer não apenas com os nervos, mas com a consciência de muitos espectadores. Com bom argumento e excelente roteiro, o tema não poderia ser mais pertinente e consequentemente mais perturbador: bullying (do passado assombrando o presente). A história enreda o apaixonado casal Simon (Jason Bateman) e Robyn Callum (Rebecca Hall) e Gordon “Gordo” Moseley (Joel Edgerton), um antigo “colega” de escola de Simon. O casual reencontro dos dois “amigos” traz à tona um passado que Simon quer esquecido e o cordialmente estranho e solitário Gordo ainda espera que seja exorcizado..., o que faz com que aos poucos ele se intrometa inconvenientemente na rotina do casal, trincando o seu alicerce.

Na ensolarada Califórnia, nos arredores de Los Angeles, à beira da Cidade dos Sonhos, o pesadelo pode estar à espera de Simon e Robyn, na entrada da elegante casa, embalado num belo pacote com um bilhete pessoal e ambíguo num envelope vermelho, e ou bater à sua porta e ser entregue em mãos, com gentilezas de boas-vindas por um novo velho “amigo”. O quê busca Gordo? O quê teme Simon? O quê sabe Robyn da perversidade envolvendo os dois? A crueldade juvenil, impune no passado, pode ser responsável por adultos problemáticos, no futuro?


O Presente é um filme tenso que, sequência a sequência, te surpreende ao fugir dos clichês e da previsibilidade ao falar de amor, amizade, crueldade estudantil, baixa autoestima, mercado de trabalho. Uma narrativa que coloca uma pulga atrás da sua orelha sobre a conjugação do verbo magoar. Um filme que não acaba antes do último plano, ainda que alguma “verdade” seja “desvelada” pouco antes do epílogo. Leva-se um tempo para a gente se levantar da poltrona e segurar a emoção após imergir na mente turva e ou confusa de seus protagonistas (o que te deixará pensativo e cabisbaixo por horas) enquanto sobem os créditos finais.

Enfim, considerando que este é um drama psicológico, cujo teor chiaroscuro não subestima (mas estimula!) a inteligência do espectador; que a direção de Joel Edgerton é refinada e eficaz e seu econômico roteiro (excetuando dois desnecessários áudio-sustos) é um primor no desenvolvimento da envolvente trama muito bem fotografada e editada; que as performances do trio protagonista são notáveis; que este é um dos melhores filmes de suspense que vi nos últimos anos..., se gosta do gênero, se dê de presente uma sessão de O Presente.

Ah, se possível, não assista ao trailer, também porque nada tem a ver com a tensão filme. E lembre que, nem tudo que enterramos (bem enterrado!) no passado, acaba ficando por lá..., quando menos se espera, alguém pode querer uma exumação...

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Crítica: Terapia de Risco



Se este é o derradeiro filme do polivalente cineasta Steven Soderbergh, para cinema, só os efeitos colaterais da sua futura temporada na TV vão dizer.  Acostumado aos pseudônimos, no exercício também da direção de fotografia, edição, roteiro..., não será nada estranho ele voltar outro (nele mesmo) dizendo que essa história de canto do cisne não passou de uma mentira para vídeo-digital.

Terapia de Risco (Side Effects, EUA, 2013), dirigido com brilhantismo por Steven Soderbergh, é um envolvente thriller fármaco-psicológico, bem no clima de dois grandes mestres do gênero: Hitchcock e Brian DePalma. Possivelmente o melhor suspense da mais recente safra. O roteiro sagaz de Scott Z. Burns, inteligente e cheio de reviravoltas, aliado a uma ágil edição/montagem (de Soderbergh: Mary Ann Bernard) e fotografia (de Soderbergh: Peter Andrews) prende a atenção e a respiração, do princípio (enigmático) ao fim (surpreendente). Num campo onde nem tudo é o que parece, é preciso ser muito esperto para resolver a arrepiante charada antes da prescrição médica final.

Como todo bom thriller, o espectador deve saber o mínimo possível (e manter segredo) da sua eficiente trama que gira em torno dos efeitos colaterais provocados por pílulas antidepressivas. Só um pouquinho mais, então: Emily Taylor (Rooney Mara) é uma jovem depressiva que vê, sem motivo aparente, a sua ansiedade aumentar quando o seu amado marido Martin Taylor (Channing Tatum) é libertado da prisão. Ela busca ajuda dos psiquiatras Dr. Jonathan Banks (Jude Law) e Dra. Victoria Siebert (Catherine Zeta-Jones), que a medicam com remédios “tarja preta”, inclusive em fase de teste, cujo resultado é imprevisível.


Falar de ética em questões que envolvem médicos, pacientes e fabricantes de “drogas milagrosas”, não é nenhuma novidade no cinema. Hoje em dia sabemos de antemão os fatores (pressão financeira, vida conjugal, trabalho) que podem levar ao stress e (daí) ao “maravilhoso” mundo dos psicotrópicos. O que conta, então, é como o assunto é tratado na telona. Nas mãos de Soderbergh, enquanto um pequeno frasco de antidepressivo abre caminho para a cura ou para o horror..., sobram farpas para a farmacologia e inquietações para o público.

As reações de Emily, ao tratamento, são tão fortes que é bem capaz de fazer os mais sensíveis deixarem a sala e ou a pensar duas vezes antes de tomar um simples (?) AAS. O desconforto vem não só da performance de Mara, mas da ausência de música nos momentos mais tensos da primeira parte. Depois, no entanto, a bonita trilha de Thomas Newman, que era apenas pontuada, começa (irritantemente) tocar na hora e sequências erradas. Se, por um lado, joga a tensão no ralo (para o alívio de muitos)..., por outro, libera o espectador para se ocupar com a perturbadora intriga médico-paciente que se instala na trama.

Terapia de Risco é um filme sombrio, porém elegante, comedido ao falar de amor, sexo, ética médica, ainda que ferino. A marca “close” de Soderbergh é evidente (na sua polivalência técnica), mas de nada adiantaria sem a excelência do argumento e a veracidade do elenco, com sua confortável dose de arrebatamento, provocando dúvidas mesmo depois da saída do anestesiante labirinto. Uma narrativa que continua insistindo por um bom tempo..., após a projeção. Um bom jogo para quem gosta de desafios.

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