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quinta-feira, 14 de março de 2019

Crítica: O Parque dos Sonhos


O Parque dos Sonhos
por Joba Tridente

Dar asas à imaginação..., para que ela voe livre e encontre espaços vagos na memória, onde possa criar mundos infinitos ou diversões únicas! Será que nos dias de hoje, com o advento da internet e do celular, até mesmo quem é filho do interior se dá ao luxo de inventar e reinventar e reciclar brinquedos e ou material descartado sonhando mundos outros? Ou, massificado, fica mesmo com o que está pronto e quando este quebrar joga no lixo? Questiono porque sei, por experiência própria, que não é fácil trabalhar atividades lúdicas com crianças viciadas em jogos eletrônicos (games).


O parágrafo acima pode ser um razoável argumento para a ótima animação O Parque dos Sonhos, cuja trama acompanha as aventuras da criativa jovem June, de 12 anos, pelo mundo da imaginação. Desde a tenra infância June leva uma vida feliz na companhia dos participativos pais, dividindo momentos encantadores, especialmente com a mãe, na construção de um impressionante parque de diversões em miniatura que é cuidado por um chimpanzé (Peanut), uma javali (Greta), dois castores (Gus e Cooper), um porco espinho (Steve) e um urso (Boomer). Porém, quando sua mãe precisa se ausentar para um longo tratamento de saúde, a garota, em fase de crescimento, vai perdendo o ânimo em continuar sozinha com a inventiva brincadeira..., sem saber que a sua decisão pode causar a maior confusão num Parque dos Sonhos (semelhante ao seu) que existe em algum lugar paralelo da sua imaginação...


Embora traga algum resquício da melancolia e do caos presentes em Divertida Mente (2015) e História Sem Fim (1984), já que também trata da insegurança de uma criança que, diante de fatos que não compreende (como a doença da mãe) e temendo pelo pior, não consegue reagir à tristeza e à raiva, para continuar sozinha um jogo tão divertido (a dois)..., a animação O Parque dos Sonhos (Wonder Park, 2019), dirigida por David Feiss e roteirizada por Josh Appelbaum e André Nemec, tem história e dinâmica próprias. A começar pela bela cenografia que, com excelente 3D de profundidade, convida o espectador a mergulhar num universo maravilhoso e acompanhar (em linguagem acessível a qualquer público) os percalços de June para botar ordem nos seus dois mundos, o físico e o da imaginação, e ainda resolver a carência do afeto materno.


O que mais chama a atenção em O Parque dos Sonhos é que não há uma só criança do bairro de June conectada, feito um zumbi, a um computador e ou a um celular. A garotada é esperta, ativa e cria suas brincadeiras malucas (que deixam os pais de cabelo em pé!) como a maioria das crianças de antigamente criava, usando o que encontrasse jogado fora pelo caminho ou na vizinhança. Uma delícia! Espero que sirva de estímulo para a criançada do mundo real! Se ao menos ajudar a desconectá-la por um tempo, já terá valido o esforço.

No entanto, não creio que a maioria dos pais de hoje (cansados e sem imaginação) permitiriam que seus filhos (dependentes de brinquedos prontos) se “arriscassem” tanto nas brincadeiras de ruas e quintais, por um momento inesquecível de felicidade, como as que se vê (com algum desconto) na tela..., independente de não existirem mais quintais. Na trama de espírito juvenil, a construção da montanha russa artesanal, com seu hilário resultado cartum, é genial! Perigosa? Talvez! Mas é convidativa! E é o que importa nessa idealização retrô que pode despertar a curiosidade de qualquer jovem espectador inteligente para outras traquinagens infantojuvenis..., digamos, mais seguras (risos). Ou até provocar nele uma invejazinha das animadas crianças do “faz de conta”...


Muitos pontos se destacam na narrativa fluída, como a técnica irretocável (ainda que, desde o nascimento da animação digital (CGI),  a eterna vesguice dos personagens, que nunca entendi a razão, me incomode); as texturas e a harmonia das cores; o desenho e a personalidade de cada personagem humano ou animal. Toda via da viagem no tempo, porém, enquanto adulto saudoso, vale ressaltar a forma inteligente, muito bem arquitetada, que o enredo “encontrou” de convidar o espectador infantojuvenil sedentário a dar asas à imaginação (desde que seus pais sejam também parceiros de construção, é claro!), como eu fazia quando criança de interior e, evidentemente, sem me dar conta do futuro tecnológico à minha espera. Nota: não sou um zumbilular, já que não uso celular!


Enfim, com seu humor discreto; as boas gags; sem mensagens piegas e ou lição de moral; criança agindo como criança, sem medo de ser feliz e ou sem reprimir a tristeza e a angústia diante das adversidades (ainda desconhecidas) da vida; roteiro redondinho e perspicaz e, portanto, sem subestimar o público; sem musiquinha chatinha a cada cinco minutos..., O Parque dos Sonhos é uma ótima pedida de filme para toda a família. Ah, mas pra curtir para valer esta bonita e surpreendente animação, os adultos não devem esquecer, em algum canto da casa ou apartamento, a sua eterna criança...


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Crítica: O Grinch


O Grinch
por Joba Tridente

O paraíso do entretenimento cinematográfico é muito louco. Sabe-se lá quantos cifrões passam pelas mentes capitais hollywoodianas para decidir os filmes que (re)produzirão. No mundo literário há trocentas histórias que, dependendo do roteirista e do diretor, dariam excelentes filmes. Mas, em tempos de indefectíveis refilmagens (de novo e outra vez), lá pra bandas da terra das palmeiras e do sol caliente, onde até a Disney vem readaptando suas animações clássicas com atores, alguma releitura pode até surpreender. É o caso da terceira versão de O Grinch, que está de volta em formato de longa-metragem animado, dirigido por Yarrow Cheney e Scott Mosier.


Criado pelo escritor e ilustrador norte-americano Dr. Seuss (1904-1991), o personagem apareceu no divertido poema de 32 versos: The Hoobub and the Grinch, em 1955 e, na sequência, no livro How the Grinch Stole Christmas (Como o Grinch roubou o Natal), em 1957..., que foi adaptado para um curta-metragem de animação televisiva, dirigido por Chuck Jones (1912-2002), com roteiro e arte bem fiéis ao livro e às ilustrações originais, em 1966. A fábula, que também ganhou versões musicais para os palcos, foi adaptada e bem ampliada para o longa-metragem estrelado por Jim Carrey e Taylor Momsey, com direção de Ron Howard, em 2000. Agora é a vez da Illumination Entertainment mostrar a sua versão animada e também ampliada desta história que encanta e enternece gerações há seis décadas.


O Grinch (The Grinch, 2018) é daquelas animações de encher os olhos e de cair o queixo, com sua belíssima arte. O roteiro divertido e dramático (sem pieguice), escrito por Michael LeSieur e Tommy Swerdlow, aquece até o coração mais empedernido, ao contar a envolvente história do velho Grinch, um indivíduo solitário, tão inteligente quão rabugento, que mora no nevado Monte Espicho, no arredor de Quemlândia, com seu fiel e explorado cão Max, e todo fim de ano se incomoda com as alegres e agitadas festas natalinas dos quemlandianos, repletas de cantoria, comilança e consumo desenfreado. Porém, como barulho pouco é bobagem, ao saber que os seus vizinhos estão planejando realizar uma festa natalina três vezes maior que a última, o arredio ser de pelo verde decide que, se quiser sossego e neve fria, o melhor a fazer é se disfarçar de Papai Noel e roubar o Natal deles. Enquanto isso, no aprazível vilarejo a decidida garotinha Cindy-Lou Quem, que vive com a sobrecarregada mãe e dois irmãos bebês, traça um plano infalível para encontrar o Papai Noel e, cara a cara, lhe fazer um pedido muito especial...


Se você se viu tentado a assistir ao trailer, infelizmente vai perder algumas surpresas e gags visuais engraçadíssimas. Mas, mesmo assim, há muita coisa ainda para se curtir e rir e refletir nessa fábula sessentona que soa contemporânea, ao falar de consumismo, solidariedade e amor ao próximo. Embora não faça diferença na apreciação, vale ressaltar que, excetuando o curta de 1966, as duas versões mais recentes tomaram liberdades iguais, mas diferenciadas (pensando no público alvo), ao criar um passado para o triste (e quase trágico) Grinch e um núcleo familiar para Lucy..., além do perfil do protagonista, que em 2000, na pele de Jim Carrey, lembrava o vilão Coringa e, agora, em 2018, está mais para mal-humorado (digamos) azarado.


Com diálogos irônicos e personagens graciosos, boas doses de humor pastelão e nonsense, o desenho animado O Grinch é capaz de cativar até mesmo o público alheio ao Natal (cada vez mais materialista). Tecnicamente irretocável, a animação transborda cores e luzes, ao dar forma harmoniosa aos personagens, aos admiráveis objetos de cena e, principalmente, à arquitetura deslumbrante de Quemlândia. Certamente muito adulto vai viajar no tempo ao mergulhar de cabeça e se deixar enredar pela história singela. Toda via Jingle Bells, no entanto, como não poderia ser diferente, o filme que saúda as boas ações do Natal é repleto de canções natalinas que dialogam com a narrativa. Mas, infelizmente, no Brasil, elas não são dubladas e muito menos legendadas..., como se as letras, por vezes edificantes, não tivessem importância para a compreensão das crianças (público alvo) e ou dos acompanhantes que não dominam o inglês. Fora essa bronca antiga, entendendo ou não a cantoria, nada mais te impede de curtir este excelente espetáculo que chega todo rimado para lembrar que o Natal é muito mais que presentes e banquetes faustosos...


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Crítica: Viva - A Vida é uma Festa



Viva - A Vida é uma Festa
por Joba Tridente*

Em 2014, quando pesquisava material para escrever sobre a belíssima animação Festa no Céu (The Book of Life), produzida por Guillermo del Toro e dirigida por Jorge R. Gutierrez, descobri que em 2013 a produtora mexicana Metacube Technology & Entertainment venceu um processo contra a Pixar Animation Studios pelo direito ao título Dia de Muertos, que a empresa da Disney Company pretendia usar em sua produção prevista para 2015. A produtora Metacube, sediada em Guadalajara, já vinha trabalhando há 10 anos no longa-metragem de animação Dia de los Muertos, La Película, que mudou o título para Dia de Muertos - La Leyenda Original... e ficou mesmo apenas Día de Muertos, cuja estreia estava marcada para outubro de 2017, mas, por causa do lançamento de Coco (Viva – A Vida é uma Festa), da Pixar, foi adiado para novembro de 2018..., leia em  Disney una sombra para Día de muertos e 'Día de Muertos': la película 100% mexicana que nació antes que 'Coco' y será eclipsada por Disney e Cinta mexicana 'Día de Muertos' aplazó su estreno por 'Coco'. 

E já que estou falando de temática mexicana, veja os excelentes curtas Hasta Los Huesos, do premiado animador René Castillo (2001), que inspirou Tim Burton em A Noiva Cadáver e Dia de los Muertos (2013), que não é mexicano mas é muito bonito. Haja muertos para tanta animación!’’


Bem, o tal filme da Pixar, esperado para 2015 e lançado em 2017, como já disse acima, é Coco, que no Brasil (talvez para evitar gracejos com “coco”, a fruta, “coco”, a dança, e ou “cocô”, o excremento) recebeu o título de Viva - A Vida é uma Festa..., uma animação que dialoga muito com Festa no Céu (2014), através de seus protagonistas que amam a música, mas são forçados, por suas famílias, a exercerem outra profissão: (Manolo Sanchez) toureador e (Miguel Rivera) sapateiro. Porém, na questão cultural, enquanto Festa no Céu, assim como o recente O Touro Ferdinando, levanta a bandeira de protesto contra a violência nas touradas e a matança de bois na arena, Viva - A Vida é uma Festa trata (ironicamente?) de direitos autorais, do resgate da dignidade de um músico e a paz de espírito de uma rancorosa família (Rivera) com o fim de uma história de amor no passado. É certo que a futura animação mexicana Día de Muertos também dialogue com os dois anteriores ao se debruçar sobre o rico folclore local. Afinal, como diz uma criança que ouve comovida a história da morte Manolo, em Festa no Céu: “Qual é a dos mexicanos com a morte?”.


Por motivos “diferentes” e artimanhas do destino, mas com a paixão em comum pela música, o romântico Manolo Sanchez, em Festa no Céu, e o jovem Miguel Rivera, em Viva - A Vida é uma Festa, vão parar no alegre mundo dos mortos lembrados e no triste mundo dos mortos esquecidos onde, além de seus finados parentes, encontram a força necessária para suas realizações pessoais no diverso mundo dos vivos. Cada trama com sua tessitura: o apaixonado Manolo chega lá, em busca da sua amada Maria, porque foi traído e morto; o inocente Miguel atravessa o umbral por não saber da magia espiritual impregnada nos pertences dos mortos.

É interessante notar que, em ambas as produções, é forte a presença de mulheres em situação de empoderamento feminino e ou de matriarcado (nos dois lados da vida)..., bem como, entre outros detalhes curiosos e homenagem justa à cultura mexicana (nas viagens intramundos), vale ressaltar o fantástico encontro de Manolo com as irmãs Adelitas (participantes ativas da Revolução Mexicana) e de Miguel com a revolucionária artista Frida Khalo. 


O argumento de Viva - A Vida é uma Festa é o tradicional: um personagem em busca de um sonho e o pesadelo que será para realizá-lo, já que terá de enfrentar, entre outros dissabores, a própria família..., porque histórias de superação (protagonizadas por vivos ou mortos) funcionam com espectadores de qualquer idade. 

Embalado por excelente trilha sonora (que soa muito melhor em versão espanhola, como a Recuérdame (Remember Me) de Kristen Anderson-Lopez e Robert Lopez, indicada ao Oscar 2018), o espectador acompanha a emocionante jornada do pequeno Miguel Rivera, um garoto adorável de 12 anos que nasceu para ser músico, de corpo e alma, e tem no ator e cantor Ernesto de la Cruz, o seu grande ídolo. Todavia, a paixão musical do menino não é compartilhada pela sua família matriarcal (de sapateiros), que acredita ser ela a responsável pela infelicidade de todos os membros do clã desde o dia em que o seu tataravô, que era cantor e compositor, foi embora de casa (para viver de música), abandonando a mulher Amélia e a filha pequenina Inês (a Coco). Por décadas foi assim na Família Rivera: cabeça baixa, na fazedura de calçados, e coração fechado para qualquer manifestação musical..., até o jovenzinho cheio de vida Miguel decidir quebrar a tradição e trilhar o seu próprio caminho.


Tradição familiar, que cerceia sonhos juvenis e provocam frustrações irreparáveis, e divagações sobre a morte (ou o pós-vida) não são temas fáceis de se tratar, principalmente quando o público alvo preferencial é a criança (ou jovem) em fase de formação, em fase de descoberta dos ganhos e das perdas na vida..., assuntos que Festa no Céu e Viva - A Vida é uma Festa tratam com naturalidade e segurança, sem exceder na dureza crítica (necessária) e ou se deixar seduzir pela pieguice moralizante (patrimonial). Assim, em um e outro desenho animado os protagonistas chegam ao final da jornada em paz com o passado e prontos para conquistar um futuro por mérito próprio.


Viva - A Vida é uma Festa é uma animação prazerosa, contagiante e nos presenteia ao menos com duas sequências antológicas: uma no mundo dos vivos (com Miguel e Coco) e outra no mundo dos esquecidos (com Miguel, Héctor, Chicharrón), favorecidas ainda mais com as canções-tema: Recuérdame e Juanita. 

Embora menos inventiva no enredo, na criação, cor e traçado gráfico de personagens que Festa no Céu (com seus deslumbrantes - e manipuláveis - bonecos de madeira e quinquilharias metálicas), mas não menos intensa, a animação Viva - A Vida é uma Festa, dirigida por Lee Unkrich e Adrian Molina, autor do melodramático roteiro, mantém o padrão técnico habitual (com sua prodigiosa plasticidade) da Disney/Pixar. Enfim, mais um filme maravilhoso para celebrar o cinema e a tradição mexicana.

*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Crítica: Trolls


TROLLS
por Joba Tridente

Conta-se que no ano de 1959, como não podia comprar um presente de Natal para a sua filha, o pescador e lenhador dinamarquês Thomas Dam (1909-1986), esculpiu uma Boneca Troll, que imediatamente despertou o interesse das crianças de Gjøl. Com o tempo começou a produzir vários modelos em vinil e plástico especial. No início dos anos 1960 os Bonecos Troll, também conhecidos como “Bonecos da Boa Sorte”, fizeram grande sucesso nos EUA e a partir da década de 1970, até os anos 2000, foram copiados, reinventados, descaracterizados como se não tivessem autoria..., que só foi restaurada à família Dam, em 2003. Os Trolls ganharam seu primeiro desenho animado para TV em 1992, com o título Magical Super Trolls. Vieram, então, games, programa de rádio e em 2004 a série animada Trollz. Em 2013 a DreamWorks adquiriu a propriedade intelectual para explorar a franquia Troll, que já teve seus bonequinhos fazendo ponta na série Toy Story, da concorrente Disney/Pixar..., e agora traz os personagens numa cantante, dançante e coloridíssima animação em 3D pra lá de glitterizada.

Bem, é claro que a geração mais nova possivelmente não conheça os Bonecos Trolls e sequer imaginam a febre que foi há cerca de 20/30/40 anos.  Mas isso não vai impedir que curtam este divertidíssimo desenho de técnica irretocável, com boas doses de nonsense e cartum e uma pitadinha de humor negro, embalado por uma música pop-dance bacana e bem encaixada (a produção musical é do Justin Timberlake). Sim, eu sei que odeio trilha sonora, mas Trolls é praticamente um musical retrô e ou se dança e ou se canta com ele..., motivos não faltam pra sacudir o esqueleto. Ou se emocionar ao som de True Colours, de Cyndi Lauper...


Escrito por Jonathan Aibel e Glenn Berger, a história de Trolls (Trolls, 2016), dirigida por Walt Dohrn e Mike Mitchell, é simples mas envolvente: os minúsculos Trolls, com seus originalíssimos trajes e cabeleira colorida, viviam em plena de felicidade, cantando, dançando e se abraçando, em seu vilarejo arbóreo, até serem descobertos pelos infelizes Bergens, ogros amarronzados em sua solidão e que só encontravam a felicidade ao saborear um deles no Dia do Trollstício. Para não serem extintos, os doces Trolls fugiram e quando, vinte anos depois, alguns deles foram encontrados e aprisionados pelos Bergens, a confiante Princesa Popy, com seu inveterado otimismo sonoro, e o cinzento Tronco, com seu pessimismo arraigado, saíram em uma arriscada missão de resgate. É claro que, pela estrada afora, vão encontrar todo tipo de perigo (não queira saber antes da hora!), incluindo uma hilária Nuvem, o faminto de felicidade tardia Príncipe Gristle, a sua adorável e romântica serviçal Bridget, e a arrogante Chef de Cozinha dos Bergens.


A animação Trolls é bonita demais em sua festiva paleta de cores psicodélicas e texturas inimagináveis. Sem qualquer traço de pieguice, questiona a natureza da felicidade de uma forma divertida e inteligente (apropriada a qualquer público): será preciso absorver, vampirizar a felicidade alheia para ser feliz?; a felicidade está nos pequenos gestos como, por exemplo, um simples abraço?; qual é o melhor alimento para a felicidade? A metáfora das cores ajuda os pequenos e os adultos distraídos a compreenderem o espírito dessa tal felicidade.

Outros brinquedos já serviram de inspiração hollywoodiana, mas acredito que os dinamarqueses Lego e Bonecos Troll são aqueles de melhor resultado. Apostando na tradicional irreverência da DreamWorks, a produção é inteligente ao brincar com personagens do universo literário (como Cyrano de Bergerac e Gata Borralheira) e lúdico (Smurfs), cinematográfico e televisivo (reality gastronômico MasterChef) e musical (Hair). Os personagens são todos bem resolvidos (desenho e personalidade) e a cativante narrativa emociona e diverte (com seu humor sagaz) até mesmo quando alfineta os “Gurus Espiritualistas”. Os diálogos, assim como as gags visuais, são uma delícia e o clima discoteca 1970/1980 funciona que é uma maravilha, com suas melodias agradáveis, luzes, cores e muuuuiiiiitttoooo glitter. Só fica sentado e de boca fechada quem quer!


Trolls é um delírio visual que diverte e encanta do princípio ao fim, com seu ótimo roteiro, excelente ritmo e apuro técnico com recortes 2D, pop-up, texturas incríveis..., tudo, realmente, de cair o queixo. Ah, e quando digo fim, me refiro às cenas extras pós-créditos. A dublagem brasileira é boa (não conheço a original) ou pelo menos não incomoda. A maioria das canções tem versão em português (por que não verter todas, já que o filme não tem legendas?) e funcionam muito bem no complemento do enredo: se eu não tenho o quê falar, canto ou danço! Pode não ser uma obra-prima feito Kubo e as Cordas Mágicas..., mas é diversão garantida para toda a família que, em uma sequência ou outra, há de se encontrar, com certeza, no contexto deste conto fantástico. E (quem sabe?) após a sessão até queira dar um abraço gostoso e apertado em algum ente querido...


E por falar em abraços, a animação Êpa! Cadê o Noé? também trazia este gostoso e sempre fortalecedor gesto comemorado em 22 de Maio, mas que deveria ser um comportamento social de todas as horas..., como pregam os adoráveis Trolls!

Nota: Está previsto para 2017 a estreia de outra animação protagonizada por Trolls. O título é Troll: the Tale of a Tail e o roteiro é baseado no clássico da literatura chinesa Classic of Mountains and Seas (ou Shan Hai Jing)..., um livro que registra seres míticos, e que já era conhecido no século 4.aC. A produção é chinesa e a animação será feita no Canadá. Assista o teaser de Troll: the Tale of a Tail.


Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

sábado, 8 de outubro de 2016

Crítica: Kubo e as Cordas Mágicas


Kubo e as Cordas Mágicas
por Joba Tridente

Kubo e as Cordas Mágicas é a mais recente produção da Laika, que já nos acostumou (mal!) com os excelentes curta Moongirl (2005) e os longas Coraline (2009) e ParaNorman (2012). E parece que a produtora americana não desistiu de fazer a nossa cabeça com animações de rara qualidade.

Nesta mais que bem-vinda e amorosa aventura, o enredo acompanha a saga de Kubo, um menino gentil e carismático que, diariamente, encanta os moradores de uma pequena vila de pescadores, no Japão antigo, com suas incríveis histórias animadas com figuras de origami. À noite ele cuida da sua mãe, que às vezes entra em transe, sob a influência da lua. Certo dia, após orar por um parente morto, Kubo passa a ser perseguido por duas maldosas entidades gêmeas e, para se livrar delas, precisa encontrar a Armadura Impenetrável, a Espada Inquebrantável e o Capacete Invulnerável, que pertenceram a seu pai Hanzo, que foi um grande guerreiro samurai. A sua jornada heroica e de autoconhecimento será longa e perigosa e, além do seu precioso shamisen (um instrumento mágico de cordas), ele contará com a ajuda imprescindível de uma ousada Macaca, de um irrequieto Besouro e de um silencioso e valente Samurai de Origami.


Original, criativo, divertido e um pouco melancólico, o enredo desenvolvido por Marc Haimes e Chris Butler, com ótima direção de Travis Knight, fala diretamente ao coração de todos aqueles jovens e ou adultos espectadores que também adoram ouvir uma boa e tradicional história oral. E nem poderia ser diferente, já que o seu protagonista é um hábil e gracioso Contador de Histórias que durante a narrativa vão se encadeando a outras histórias que não se quer que acabem.

Se não se atentar aos créditos, o público inteirado das coisas do oriente vai achar que está diante de uma belíssima lenda japonesa e de uma irretocável obra cinematográfica vinda da terra do sol nascente..., tanto pela qualidade técnica (mista), onde o apuradíssimo stop-emotion, digo, o stop-motion dá o tom a uma narrativa comovente (sobre perda e superação), quanto pelo excepcional conteúdo. Porém, é bom ressaltar que Kubo e as Cordas Mágicas (Kubo and the Two Strings, 2016) é um filme norte-americano e a sua inegável aparência de épico nipônico deve-se ao respeito de Knight àquele país e à consultoria de artistas japoneses de diversas áreas.


É impossível não se encantar com ele já nos primeiros minutos do seu prólogo, frente à emocionante releitura de A Grande Onda de Kanagawa (1830-1833), a formidável xilogravura de Katsushita Hokusai (1760-1849), onde a mãe de Kubo conduz uma balsa sobre uma gigantesca onda. Encanto que só faz crescer cena a cena e a cada reverência à rica cultura japonesa e a grandes mestres universais como o gravurista Kiyoshi Saito (1907-1997) e os cineastas Akira Kurosawa (1910-1998), Hayao Miyazaki e David Lean (1908-1991)..., referências importantes no desenvolvimento da obra, segundo Knight.


Enfim, considerando que as fantásticas sequências de origami, com certeza, vão fazer muita gente sair da sessão com vontade de dobrar papéis e também criar lindas peças..., isso, se já não tiver feito com um folheto qualquer que tiver no bolso; que a sua mensagem pacifista e nada piegas de amor à humanidade, em um final desconcertante e consagrador, é capaz de fazer marejar o cinéfilo mais durão..., Kubo e as Cordas Mágicas, faz valer cada dia dos cinco anos de trabalho e o preço do ingresso. Provavelmente é um dos filmes mais belos e requintados que verá neste 2016.

Ah, e não saia da sala junto com os créditos, pois vai perder as cenas de bastidores (making of) da construção e manipulação do Mostro Esqueleto que tem quase cinco metros de altura. E quando sair do cinema, não esqueça de colocar o queixo (caído)  no lugar!

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