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domingo, 30 de dezembro de 2018

Crítica: Meu Querido Filho


Meu Querido Filho
por Joba Tridente

É do aclamado livro O Profeta (1923), do mestre libanês Gibran Khalil Gibran (1883-1931), a breve prosa poética Os Filhos, que vem marcando profundamente gerações de leitores, sem jamais perder a pertinência: “E uma mulher que carregava o filho nos braços disse: “Fala-nos dos filhos.”/ E ele disse: “Vossos filhos não são vossos filhos./ São filhos e filhas da ânsia da vida por si mesma./ Vêm através de vós, mas não de vós./ E, embora vivam convosco, não vos pertencem./ Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,/ Pois eles têm seus próprios pensamentos./ Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;/ Pois suas almas moram na mansão do amanhã, que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho./ Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis faze-los como vós,/ Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados./ Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como setas vivas./ O Arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a Sua força para que Suas flechas se projetem, rápidas e para longe./ Que vosso encurvamento na mão do Arqueiro seja vossa alegria:/ Pois assim como Ele ama a flecha que voa, ama também o arco que permanece estável.” (tradução de Mansour Challita).


Cito Gibran Kalil nesta introdução porque, ainda que num outro (?) contexto, é impossível não se lembrar deste belo e profundo conto ao assistir Meu Querido Filho (Weldi, 2018), o sensível filme escrito e dirigido com elegância pelo tunisiano Mohamed Ben Attia, cuja trama enreda o espectador num pungente drama familiar e social, com um leve viés psicológico, em que um dedicado pai, Riadh (Mohamed Dhrif), busca desesperadamente por seu filho Sami (Zakaria Ben Ayyed) que, sem nenhuma justificativa e às vésperas do vestibular, vai embora de casa, para se juntar a militantes terroristas do ISIS, na Síria. Desenvolvida a partir do ponto de vista de Riadh, a narrativa compartilha com o público a mesma sensação de perplexidade e angústia de um pai que, ao lado se sua mulher Nazli (Mouna Mejri), não consegue compreender a razão do amado filho único do casal, dar um rumo inesperado à sua vida, influenciado pela doutrina jihadista.

O que leva um jovem estudante de classe média, feito Sami, a quem seus zelosos pais não deixam faltar coisa alguma, a tomar uma atitude tão drástica? Adrenalina? Autoafirmação? Certamente, em todo o mundo, não são poucos os Sami que diariamente os pais perdem para o terrorismo, o tráfico de droga e de armas, o mercenarismo, as ideologias políticas e religiosas equivocadas. E há também aqueles jovens que deixam seus lares para se dedicar a causas meritórias em diversas partes do mundo e, às vezes, acabam frustrando os planos (profissionais) de seus familiares. A dor da perda é sempre menor naquele que olha de fora do que em quem a sente por dentro. O corte do segundo cordão umbilical pode deixar sequelas...


Conforme material de divulgação, publicado no site Instituto da Cultura Árabe, o diretor e roteirista Mohamed Ben Attia encontrou o argumento para Meu Querido Filho ao ouvir, em uma rádio, relatos de pais que estavam à procura dos filhos que tinham se juntado ao Estado Islâmico: “Infelizmente, tornou-se quase que comum. Um dia, ouvindo um pai falando sobre sua história, realmente me afetou. Ele continuava repetindo: ‘meu filho’. Eu rapidamente percebi que o que me interessou mais não foram as razões que fizeram o filho sair, mas o ponto de vista dos que ficaram para atrás: os pais dele, que não viram isso chegando”.

Uma vez que a “sangria” não está na jugular, mas no coração de um pai desnorteado com o desaparecimento do filho, a narrativa sóbria pode não dar as respostas que o público deseja, sobre o terrorismo e suas facções no Oriente Médio e ou sobre as inquietações juvenis num mundo além das conexões digitais..., mas tentará objetivá-las. Num drama pessoal e dolorosamente humano, onde não há espaço para maniqueísmos e ou polemização, o espectador saberá tão somente o que Riadh sabe sobre a perturbadora realidade ao seu redor, porque é apenas a ele que acompanhamos na cruel jornada de resgate de Sami.


Meu Querido Filho é de um realismo tocante. O naturalismo que evoca não está impresso apenas na performance arrebatadora do veterano Mohamed Dhrif e ou na entrega do bom elenco iniciante, mas se estende equilibrado pela cenografia e fotografia que lhe garantem um caráter documental crível. Com ótimo roteiro (se ocupando apenas do que é essencial ao fato em questão) e edição que vai acentuando o ritmo e encurtando sequências até se bastar com elipses (sem exibicionismo) num desfecho comovente, este introspectivo drama tunisiano há de calar fundo no coração de qualquer platéia...


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Crítica: Marmaduke


Marmaduke
simpático pra cachorro

Tem ator (atriz) que odeia contracenar com crianças e, principalmente, com animais, só porque eles (realmente) roubam a cena até de quem não é canastra. Owen Wilson e Richard Gere que o digam. Recentemente tivemos dois grandes exemplos (entre outros) de que os cães são mesmos danados. Um bom momento foi no divertido Marley e Eu (Marley & Me, 2008) e, depois, no emocionante Sempre ao Seu Lado (Hachiko: A Dog's Story, 2009).

O primeiro, baseado no best-seller homônimo de John Grogan, é dirigido por David Frankel e mostra o “caos” em que se torna a vida do casal John (Owen Wilson) e Jennifer (Jennifer Aniston), que, antes de ter um filho, decide adotar um filhote de cão labrador, se esquecendo que até os cachorros um dia crescem e, com eles, os “problemas”. No segundo, com direção de Lasse Hallström (refilmagem de Hachiko Monogatari, filme japonês dirigido por Seijiro Koyama, em 1987, baseado em um fato real ocorrido no Japão na década de 1920), traz Richard Gere na pele de Parker, um professor de música que encontra um filhote da raça akita, perdido numa estação de trem, e o leva pra sua casa. O belo cão que, segundo a tradição, escolhe o seu dono, ganha o nome de Hachiko e cria um maravilhoso vínculo com o Parker, que perdura além da vida.

Agora, apostando no público infantil e nos amantes dos cachorros, chega a comédia Marmaduke, dirigida por Tom Day, que narra as aventuras de um desastrado dog alemão com a família humana Winslow, no Kansas, e, depois com dois grupos de cães, separados por raças e pedigrees, na Califórnia. Marmaduke, narrado na primeira pessoa (?), é uma espécie de cinebiografia canina inspirada na História em Quadrinhos homônima, criada em 1954, pelo cartunista norte-americano Brad Anderson, que virou uma série animada pra TV (Heathcliff and Marmaduke), na década de 1980.

Já não me lembro da animação Heathcliff and Marmaduke (Lorde Gato). Das tirinhas de humor (que até hoje são publicadas nos EUA) conheço apenas as imagens postadas na rede, que me parecem muito divertidas, irreverentes, nonsense. Marmaduke, o filme, pode não ter conseguido captar humor estranho da HQ, mas não chega a ser tão decepcionante como o chato Scooby Doo ou o Garfield, que perderam a personalidade no cinema. Acho que está mais próximo (ainda que distante) do meu favorito Um Cão do Outro Mundo (Good Boy!, 2003), dirigido por John Robert Hoffman, que trata de uma canina invasão extraterrestre.


Focado na vida adolescente do imenso e desengonçado dog alemão, que se apaixona pela bela Jezebel, uma cadela afghan, namorada de um trunculento rottweiler (?), o alfa do Parque, onde a rapaziada canina vai passear, Marmaduke segue a linha das produções americanas que falam de adolescentes que mudam de cidade e encontram dificuldades pra se enturmar. Cães ou humanos, os problemas estão todos lá e deverão ser superados, um a um, até que o nosso “herói” cresça e aprenda com os seus próprios erros que, cá pra nós, conforme a raça e a idade, não passam de uma simples pisada na bola. E, assim, a cada tropeço, escada acima, ou escorregão, ladeira abaixo, há um momento para refletir e enaltecer a família e os (verdadeiros) amigos. Valores humanos de um lado e valores caninos de outro, é bom que se diga que, na trama, a lenta família Winslow é mera coadjuvante. Poderia até se chamar Windows, já que não passa de janelas abertas para Marmaduke brilhar.

Marmaduke é uma comédia simpática, apesar dos deslizes de situação “cômica”, de digitalização (animação) e do excesso de preceitos morais pra lá de humanos. Mas deve agradar ao seu público alvo. Os cães reais são bem treinados e propiciam alguns momentos engraçados e românticos, graças também à ilha de edição. No entanto, faltou ao diretor (e roteiristas) acreditar mais na força da imagem e síntese dos cartuns. É claro que uma coisa (cartum) é uma coisa e outra coisa (filme) é outra coisa, porém, entre o explícito e a falta de sutileza, acaba se perdendo a piada. Aí, ao colocar a raça canina agindo tal e qual a humana, no melhor e no pior da convivência familiar e grupal, a ironia acaba indo esgoto abaixo. E, na busca do humor vazio, honestamente, crianças e adultos bem que podiam ser poupados dos indigestos clichês humanos de escatológicas comédias humanas realizadas por humanos americanos!

Bem, quem não gostou da tecnologia usada na animação UP – Altas Aventuras (2009), pra fazer os cães se comunicarem com os humanos, pode muito bem gostar desta, em que os cães e gato, parecem mesmo falar. Quer dizer, desde que não se importe com a dublagem horrorosa. Como se tivesse outra opção!
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