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terça-feira, 2 de julho de 2019

Crítica: Homem-Aranha: Longe de Casa


Homem-Aranha: Longe de Casa
por Joba Tridente

Havia quem apostasse que ele jamais voltaria do pó de Thanos. Havia quem apostasse que, assim como outros heróis, suas células estariam espalhadas por todo o universo. Havia muitas teorias estapafúrdias sobre heróis e super-heróis que não voltaram e ou sequer voltariam da Guerra Infinita que culminou no Ultimato. Mas ele não só voltou como, mesmo precisando urgentemente de férias e de um bom plano para conquistar MJ (Zendaya), o adorável adolescente Peter Parker/Homem-Aranha (Tom Holland, excelente) já está soltando (meio a contragosto, é verdade) suas teias na Europa, para mais uma vez salvar o mundo, enquanto a sua vida romântica desanda.

Enredado ao ótimo Homem-Aranha: De Volta ao Lar (2017) e ao alucinante Vingadores: Ultimato (2019), a mais recente aventura juvenil Homem-Aranha: Longe de Casa (Spider-Man: Far From Home, 2019), dirigida por John Wats (HA: De Volta ao Lar) traz o aracnídeo às voltas com os mistérios do Mysterioso (Jake Gyllenhaal, excelente), um Herói que diz ser de uma Dimensão Paralela e que aparece no nosso planeta, perseguindo quatro vilões estranhos, e, através do agente Nick Fury (Samuel L. Jackson), pede a ajuda do Homem-Aranha para combater os Elementais da Natureza (Terra, Ar, Água, Fogo) que destruíram o seu mundo. Bem, é claro que o ex-Herói da Vizinhança não vai negar teia.


Mas, tinha que ser justamente agora, quando ele se prepara para sair em viagem de férias pela Europa, com a sua turma do colégio, e acredita ter a chance de finalmente se declarar à MJ, na Torre Eiffel? Bem, num tempo de escassez de Heróis (pós-Ultimato) e já que até o gorducho Thor foi guardar outras galáxias, cabe a ele (mesmo sendo um “aprendiz” de Herói) honrar os Vingadores (é o mínimo que o seu mentor Tony Stark esperaria dele). Assim, na hora do não tem tu vai tu mesmo, vale tudo para o garoto que ainda não aprendeu a conciliar os ardores da adolescência com as grandes responsabilidades..., até mesmo encarnar um obscuro Macaco Noturno para enfrentar as chamas de um vilão incandescente. 

Homem-Aranha: Longe de Casa, roteirizado por Erik Sommers e Chris McKenna (que bateram cartão em De Volta ao Lar) é uma comédia juvenil de ação e aventura de ficção científica, onde não faltam bons efeitos especiais; destruição (óbvio!) de grandes marcos arquitetônicos; romances improváveis; piadas e gags (previsíveis) que, assim como no filme anterior, nem sempre funcionam; sequências de tirar o fôlego, no terceiro ato, com algumas cenas que até lembram a magnífica animação Homem-Aranha no Aranhaverso (2018); e o melhor, tem reviravoltas espetaculares para quem conhece (ou não!) o personagem Mystério..., inclusive nas duas cenas pós-créditos. A primeira é uma bomba que vai dar o que falar (assim como Vingadores: Guerra Infinita) e a segunda é uma pegadinha genial, levemente (?) relacionada a uma fala (que pode passar despercebida) no segundo ato!


Felizmente, desta vez, o trailer não estragou a receita, mas falar demais sobre a sua trama é acabar entregando os ingredientes de qualidade que dão charme e ponto ideal de cozimento nesta história arrebatadora. Se bem que, com certeza, em breve (infelizmente já está na web!), quem não assistir na estreia, vai ser alertado por algum basbaque. Toda via das produções Sony/Marvel, porém, basta dizer que Homem-Aranha: Longe de Casa tem seus momentos de leveza, de pancadaria tradicional do gênero, de emoção genuína e até de uma curiosa explicação do retorno dos desaparecidos. Todo o elenco é muito bacana..., Tom Holland e Jake Gyllenhaal (com personagem difícil e muito bem desenvolvido) estão excepcionais. O roteiro tem lá suas escorregadelas e algumas incoerências (que fazem parte do pacote juvenil expandido), mas não decepciona. A direção de John Watts é certeira e raramente perde o tom. Enfim, os fãs e espectadores de primeira (?) aventura não vão ter do quê reclamar! Ah, não falei (ou reclamei!) da trilha sonora, porque também é uma surpresa...


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Crítica: O Abutre


O assunto mídia impressa e ou televisiva é matéria de cinema há muitas décadas, principalmente nos EUA. Dissecando a ética no jornalismo, por ângulos e gêneros narrativos diferentes, ele sempre provoca no espectador uma sensação de desconforto, tamanho o poder de manipulação da imprensa (e do cinema!).

A mais nova abordagem do tema pode ser vista em O Abutre (Nightcrawler, 2014), do estreante Dan Gilroy, filme que nos remete imediatamente ao clássico A Montanha dos Sete Abutres (Ace in the Hole, 1951), de Billy Wilder, e flerta, entre outros, com o curioso Nos Bastidores da Notícia (Broadcast News, 1987), de James L. Brooks, com o interessante O Quarto Poder (Mad City, 1997), de Costa-Gravas, e com o excelente documentário brasileiro O Mercado de Notícias (2014), de Jorge Furtado.


A trama é uma costura penosa de leads do artigo de capa sensacionalista chamado Lou Bloom (Jake Gyllenhaal), um psicopata que, ao descobrir que pode ganhar mais dinheiro como cinegrafista-gore (de assassinatos, acidentes violentos) do que com o roubo, “deixa” a ladroagem para realizar um sonho perturbador. Notívago e ágil, ele aprende rápido a nova profissão, inclusive a “valorizar” as imagens, para melhorar a negociação com a produtora de tv Nina Romina (Rene Russo), sempre desesperada por uma “notícia de audiência”. Bloom é um cara de rua que faz qualquer negócio para arranjar uma grana e matar a fome. Acredita que sujar as mãos faz parte do serviço (jornalístico), também porque, depois é só lavar. Para alcançar seu ambicioso objetivo, o sujeito mau-caráter, chantagista, bandido, sociopata (que tem nada de anti-herói!), numa comparação tacanha, rola entre seus “colegas” feito uma pesada bola de boliche: precisa. Os pinos que se cuidem!


Na exposição da pauta rotineira de sanguinolência (com trilha sonora!) veiculada por redes de tv (em busca de audiência e anunciantes), com a desculpa de informação de “utilidade pública”, a perturbadora matéria de Gilroy, não revisa a moral de nenhum profissional do telejornalismo. Tampouco discute a ética dos abutres, ou rastreadores noturnos (nightcrawlers), repórteres, geralmente independentes (freelancers), especializados em registrar em foto ou vídeo todo tipo de notícia ruim, na base do quanto pior melhor, para abastecer os telejornais da madrugada e ou da manhã. Cabe ao espectador concluir (por conta própria) se é “vítima anestesiada” e ou “passivo satisfeito” do espetáculo sádico, travestido de jornalismo investigativo. Ou seria jornalismo criminoso, digo, criminal, tão comum em diversos canais abertos e horários (livres!) no Brasil?

O Abutre é um filme difícil de se classificar: drama?; ação?; horror?; thriller?; humor negro?; sátira ao telejornalismo que explora a violência até a última gota de sangue e a miséria humana até a última lágrima? Talvez tudo isso e um pouco mais em sua amoralidade, onde a lógica de se colocar um criminoso para cobrir crimes acaba fazendo sentido quando se conhece a “ilha” editorial e a “necessidade” midiática. Não é preciso ser do meio para saber que o preço da notícia é o preço da audiência (ou vice-versa).


Considerando a qualidade do roteiro e a excelente direção de Dan Roy, ainda que se pondere sobre cenas que tanto beiram a caricatura quanto transcendem a uma possível realidade; a magnífica atuação Jake Gyllenhaal (que emagreceu para o papel) e os ótimos desempenhos de Rene Russo e Riz Ahmed (estagiário de Bloom); a fotografia realista de Robert Elswit; a interessante metáfora do relógio de Bloom, ecoando muito além do deadline da imprensa e do filme..., O Abutre pode surpreender até quem já perdeu a fé na imprensa, também (auto)denominada o quarto poder.

NOTA: Que fim levou a campanha brasileira criada em 2002: Quem Financia a Baixaria é Contra a Cidadania? Pelo que se vê no ar, acho que a grande reflexão da VII Conferência Nacional de Direitos Humanos, não pegou.

sábado, 22 de outubro de 2011

Crítica: Contra o Tempo


Filmes que tratam de viagem no tempo não são novidade e poucos fazem a diferença. Contra o Tempo (Source Code, EUA, 2011), a nova ficção científica do diretor Duncan Jones, tem uma boa produção, mas é difícil não relacioná-lo, entre outros, ao Déjà Vu (2006), filme de Tony Scott. Ambos têm terrorista (a ser detido), uma mulher (por quem o protagonista se apaixona), mensagens (tipo: estive aqui), um “herói cobaia”, indo e voltando no tempo, através de experimentos de alta tecnologia militar, tentando evitar a tragédia num navio (antes) e num trem (agora). 

Duncan estreou muito bem com o ótimo Lunar (Moon, 2009), que infelizmente não fez carreira nos cinemas brasileiros, saiu apenas em DVD, mas este seu Contra o Tempo parece meio apressado. O roteiro de Ben Ripley narra as desventuras do capitão Colter Stevens (Jake Gyllenhaal) que, em nome da pátria, do governo e do militarismo, se vê obrigado a viajar no tempo para evitar um atentado terrorista. Para descobrir o responsável e evitar a tragédia, Stevens assume o corpo físico de um estranho e tem apenas (alguns) oito minutos para salvar vidas e (ainda) se rebelar e se apaixonar.


Contra o Tempo é um filme de ação e tensão contínuas que explora de forma interessante os mistérios da (vida e) morte cerebral, sem se preocupar com a anima. O bom da ficção científica é que, no campo da imaginação, tudo é possível e não há muito o que se questionar. Aceita-se ou não e ponto. Também porque, se começar a pensar muito a respeito, vai ter gente mergulhando no buraco de minhoca, subindo a escada transversal, apossando a mecânica quântica, para explicar todo e qualquer pré e pós conceito científico. O que dá assunto para muita discussão e filosofia de botequim, como foi o caso de Matrix.

Toda ficção que tematiza a viagem no tempo sabe o imbróglio em que se meteu e as consequências futuras, para o bem e ou para o mal. Em Contra o Tempo não é diferente e o seu final (piegas) talvez não agrade a todos. Para o espectador não acostumado aos filmes do gênero pode parecer curioso, em vez de cansativo, as mirabolantes idas e vindas de Colter, em busca do terrorista, em meio aos passageiros do trem, que nem imaginam quantas vezes seus desígnios ser repetirão. Uma situação já explorada exaustivamente em diversas séries televisivas americanas (até mesmo na divertida Supernatural), mas que ainda funciona, quando bem dirigida.


Contra o Tempo é um bom trabalho de Duncan Jones, mas não tem a mesma ousadia do excelente Lunar. Mesmo sendo mais comercial, demorou tanto para ser lançado por aqui que se acreditava sair, também, apenas em DVD. O filme tem dividido opiniões do público e da crítica, mas não há como negar que o jovem diretor, se não se deixar domar por Hollywood, tem um belo futuro.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Crítica: Amor e Outras Drogas


por Joba Tridente

A receita de Amor e Outras Drogas é não desapontar os pacientes, digo, espectadores. A história é inspirada em fatos reais e com boas doses de humor, romance, drama, sexo e algumas dores não controladas. Na sua bula, independente do público ser ou não hipocondríaco, não há contraindicações.

Amor e Outras Drogas (Love and Other Drugs, EUA, 2010), é dirigido por Edward Zwick, coautor do roteiro com Charles Randolph e Marshall Herskovitz, recriado a partir do livro Hard Sell: The Evolution of a Viagra Salesman (Venda Dura: A Evolução de um Vendedor de Viagra), de Jamie Reidy. A trama gira em torno de Jamie Randall (Jake Gyllenhaal), um sujeito bonito e conquistador que não leva a vida (também profissional) muito a sério. Não se apega a nada e a ninguém. O que importa para ele é pegar garotas (o que não tem nenhuma dificuldade) e ganhar muito dinheiro. A vida de Jamie, no entanto, começa a mudar quando arranja um novo emprego, o de vendedor de medicamento antidepressivo e meio que por acaso conhece Maggie Murdock (Anne Hathaway), portadora do Mal de Parkinson. A relação entre eles, de comum acordo, é apenas sexo, sem nenhum compromisso. Mas, assim como a vida profissional do rapaz dá um salto, quando ele troca um produto por outro (dor por prazer) e começa a vender o revolucionário (na época) Viagra, os amantes começam a rever seus princípios de sexo pelo sexo.



Jake Gyllenhaal e Anne Hathaway formam um belo casal e estão ótimos. Não há como não se emocionar com o drama de Maggie, tão jovem e com uma doença degenerativa ainda longe da cura. Ou admirar a cara de pau de Jamie com as suas investidas certeiras em qualquer rabo de saia que lhe interesse. Com suas idas e vindas amorosas, desamorosas, e desastrosas, como é o caso de Josh Randall (Josh Gad), irmão de Jamie e viciado em sexo na internet, Amor e Outras Drogas inicia descontraído, vai ficando meio pesado, mas na parte final, prestes a escorregar sob o peso da dramaticidade, consegue dar uma reviravolta bem satisfatória. Um dos momentos mais marcantes ocorre em uma tragicômica convenção de pacientes de Mal Parkinson onde a Lucy Roucis (atriz diagnosticada antes dos trinta anos de idade) interpreta uma comediante com a doença. Lucy, que trabalhou a construção da personagem de Anne, trabalha em Denver com uma companhia de atores chamada PHAMALY (Physically Handicapped Actors and Musical Artists League, Inc. - Liga de Atores e Músicos Portadores de Deficiências).


O roteiro pode não ter ficado uma pílula dourada, mas longe de ser um placebo, dá conta da posologia bem humorada e melodramática. A boa direção procura evitar as facilidades do clichê, nos trocadilhos com a venda e uso do Viagra e nas mudanças de rumo dos protagonistas e coadjuvantes. A fotografia de Steven Fierberg é caprichada e a trilha beira a discrição. É um filme que se assiste mais com sorriso nos lábios do que com lágrimas nos olhos. Apesar da temática farmacológica, não é uma produção que vá fazer a felicidade dos hipocondríacos. Mas vai “divertir” os depressivos com a boa piada de um mendigo e as (benditas) amostras grátis que ele encontra no lixo, por conta de um certo domínio de mercado entre o Zoloft e o Prozac.

O livro (ainda não lançado no Brasil), segundo os comentários de leitores, em sites literários americanos, traz um relato muito engraçado e devastador sobre o comércio de remédios e o advento dos anúncios de medicamentos na TV (no final da década de 1990), e passa longe do drama do filme que, é claro, sempre carrega um pouco na emoção. Afinal, um livro o leitor interpreta do jeito que quiser e um filme ele vê somente o quê o diretor quer. Por isso que nem sempre um tem a ver com o outro.
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