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sábado, 12 de setembro de 2015

Crítica: Obra


Obra, de Gregório Graziosi, é um filme sem gênero. Parece (mas não é) drama, suspense, cult. Se muito, está próximo de um teste de paciência e sem direito a brinde de binoclinho. Ou de uma experiência que faz a gente pensar que, realmente, fazer cinema não é tão simples como prega a máxima Glauberiana: uma câmera na mão e uma ideia na cabeça. Cinema é bem mais que estética fotográfica e beleza do branco e preto. Requer outras sensibilidades, como um bom argumento e um excelente roteiro, por exemplo. Lembrando que um bom argumento não resulta, necessariamente, um bom filme. Ele é apenas o “prólogo” de um roteiro que pode ser destruído e ou melhorado pelo diretor durante a filmagem.

Obra caminha ou se arrasta ao redor da cidade de São Paulo, vazia no cinza concreto das suas construções emblemáticas ou “sem valor” arquitetônico.  Nesta capital esfriada e entristecida encontramos o arquiteto João Carlos (Irandhir Santos) às voltas com três questões doloridas em diferentes intensidades: hérnia de disco hereditária; cemitério clandestino no terreno herdado da família paterna, onde pretende erguer um ambicioso projeto arquitetônico; nascimento do primeiro herdeiro. Monossilábico (tal e qual os outros personagens..., só São Paulo resmunga o tempo todo), pouco ou nada se sabe das suas intenções (se é que há!) em relação às ossadas no seu quintal e ou à gravidez da esposa arqueóloga (Lola Peploe).


Num panorama onde tudo é muito afetado e o clean invernal sugere mais contenção de despesas que refinamento, os “diálogos” mínimos deixam a narrativa ainda mais inacessível. Não há razão alguma para o espectador se envolver ou demonstrar qualquer apreço pelo taciturno pai do arquiteto (Marku Ribas) e ou pelo estourado mestre de obras (Júlio Andrade), cujo destino é tão (absurdo? surreal? misterioso?) idiota que... Ah, deixa pra lá!

Quanto aos crimes embaixo e em cima da terra e o castigo (?), os roteiristas Graziosi, Paolo Gregori e José Menezes não dão a mínima, não estão nem aí pro abacaxi azedo que plantaram na cova dos neurônios implodidos na cabeça do espectador. Daí, como não se ocuparam desses detalhes (bobos? toscos? inúteis?), quem estiver acordado que imagine o que bem ou mal quiser dos mortos (escravos? pedreiros? guerrilheiros?) e do casamento do arquiteto com uma mulher que só fala em inglês. Está bom pra você ou quer que aumente o buraco da fechadura?


Obra (2014), não é filme para o grande público que lota as sessões de comédias globais. Todavia, já que o vazio (em sua pretensiosa profundidade cool) tem lá seus apreciadores, deve arrebanhar alguns cinéfilos predispostos a encontrar o fio da meada hermética que encarcera tudo em planos fechados e cenários decadentes nesta novela vaga. Agora, se os curiosos vão encontrar ao menos o prumo, ai é outra construção. Enfim, como nem todo sólido mancha o ar, o consolo para a maioria é a bela e premiada fotografia em branco e preto de André Brandão.

Dando asas à indignação, digo, à imaginação: Será que a ideia (de um filme em aberto?) é de franquia e as “respostas” para os trocentos questionamentos virão com Obra 2 e Obra 3? Eu é que não vou ficar carregando tijolos daqui pra lá. É muita coisa ao redor pra se ficar guardando qualquer entulho na memória.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Crítica: Viajo porque preciso, volto porque te amo


 VIAJO PORQUE PRECISO, VOLTO PORQUE TE AMO
por Joba Tridente

Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo. A frase, pintada numa parede, poderia estar no para-choque de um caminhão. Ou na letra de uma música romântica. O experimental filme de Marcelo Gomes e Karin Aïnouz é uma ficção com cara de documentário com cara de ficção. Um híbrido pé na estrada, onde um acervo de fotografias, músicas, textos, cartas e anotações fazem mais que meramente ilustrar um roteiro de inesperada beleza.


Construído a partir de imagens captadas entre 1999 e 2009 (pelos diretores), através de variados tipos de câmeras (Super 8, DVCam, High 8, “snap shots”), a narrativa roda em torno de um geólogo, José Renato (Irandhir Santos), fazendo pesquisa de campo, para avaliar o possível percurso de um canal a ser construído com o desvio das águas do único rio caudaloso da região. Para tanto, terá que atravessar todo o Sertão Nordestino. A viagem solitária é longa o suficiente para José refletir sobre o seu trabalho e, principalmente, fazer declarações de amor (A única coisa que me faz feliz nessa viagem são as lembranças de ti) e desamor (A única coisa que me deixa triste nessa viagem são as lembranças de ti) a uma mulher que gostaria que estivesse à sua espera. Ele “colhe” pedras e analisa fendas. Ela “colhe” flores e é apaixonada por samambaias. Não sabemos como é seu tipo físico. Dele, só ouvimos a sua voz falando a um gravador (ou ao carona espectador), sobre tudo o que lhe parece importante: paisagens, gentes, fendas, amor, rochas, solidão, prazer..., num itinerário que parece não ter fim, rasgando regiões semidesérticas e isoladas.


Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo é uma viagem sensorial inesquecível, ao âmago de um homem apaixonado por uma mulher e pelo seu trabalho. Uma obra que desperta sentimentos controversos, ao provocar o olhar do comum. Pela simplicidade poética. Pela poesia musical do simples. Pelo excesso do vazio. Pelo contexto fora do contexto, quando o pré-conceito encontra distância suficiente para se desvelar. Quando Caetano Veloso gravou a música Sonhos, de Peninha, numa versão intimista, para muitos a composição desconhecida (?), que já havia sido gravada por Tim Maia e Sandra de Sá, inesperadamente deixou de ser brega. Críticos analisaram a letra e a acharam boa e também elogiaram (com gosto) outra composição (considerada) brega, que virou cult, na voz de Maria Bethânia: É o Amor, de Zezé de Camargo. Então se propalou que todo apaixonado é brega, que todo bom sentimento é brega. Que as rádios estão repletas de música brega em ritmo de rock, pop, samba, mpb, clássico... O brega virou apenas uma questão de ponto de vista e de estado de espírito. Assim é, quando um sapateiro canta Último Desejo, de Noel Rosa, espalhando, pelo cascalho afora, a desbragada paixão de alguém que segue em frente, na busca de um amor que ficou atrás.

O filme, na verdade, só acontece com a conivência do espectador que embarca na viagem proposta, disposto a aceitar a legenda do narrador, no encadeamento do texto-imagem, mesmo que possa sugerir outra coisa. Sem um texto, ele é apenas um ajuntamento de imagens que permitem infinitas leituras, menos a de quem fotografou. Podem significar muito ou nada, dependendo do olhar. Com um texto, o espectador vê tão somente aquilo que elas insinuam. É a encantadora cena de uma senhora, fazendo rosas de espuma, que nos faz perceber que o motivo da história está mais na sugestão, na intenção (ou tensão) da fala, do que necessariamente na leitura das imagens que, em outras circunstâncias, estariam disponíveis para qualquer outro monólogo..., ou diálogo.


Com vagas (mas fortes) lembranças dos inquietantes Cinema, Aspirinas e Urubus e o Céu de Suely, o lírico Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo é uma tocante história pra quem gosta de ler e (também) de escutar. Mas não é para o espectador ligeiro (ou talvez seja), que não se dá um tempo, que atende e fala ao celular, na sala de cinema. Que não tem paciência para, na pausa ou no silêncio, conhecer o que lhe é diferente. É um filme pra se deixar emocionar, com sua fotografia monótona, cheia de particularidade, desvelando um Brasil longe de tudo, até de si mesmo. Com uma gente que não se conhece, atrás de um sonho que não chega. Gente que é feliz na sua solidão. Gente que nega a solidão pra ser feliz. Encontrando cidades à espera de virar mar, desaparecer em águas que podem nunca chegar. Vagando por estradas que levam e trazem anônimos na sua própria terra. O espectador que recusar tal carona, jamais compreenderá o belo voo final, na rota do autoconhecimento.

Nota: Cinema, Aspirinas e Urubus foi dirigido por Marcelo Gomes, em 2005, e Céu de Suely, por Karin Aïnouz, em 2006.


Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeos-documentários fiz em 1990. O primeiro curta-metragem (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado em Curitiba, no Paraná, Brasil.

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