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quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Crítica: Adoráveis Mulheres

Adoráveis Mulheres
por Joba Tridente

Lançado originalmente em dois volumes (1868 e 1869) e posteriormente em apenas um (1880), o romance altruísta Little Women (Mulherzinhas), da escritora norte-americana Louisa May Alcott (1832-188), é um fenômeno de crítica e de popularidade, principalmente entre o público feminino, que se vê absorvido pela singularidade e resiliência das jovens irmãs March: Meg (16), Jo (15), Beth (13) e Amy (12). A consideração à obra é tanta que a história da carismática Família March continua recebendo adaptações para teatro (desde 1912), musical, ópera, rádio, televisão (só na BBC foram quatro minisséries: 1950, 1958, 1970 e 2017) e cinema (de 1917 até hoje já somam sete). A mais recente versão cinematográfica do cativante Little Women (Adoráveis Mulheres) a chegar às salas de cinema, com roteiro e ousada direção de Greta Gerwig (Lady Bird), traz em seu elenco Emma Watson (Meg), Saoirse Ronan (Jo), Eliza Scanlen (Beth), Florence Pugh (Amy), Laura Dern (Marmee), Mery Streep (a solteirona tia March), Timothée Chalamet (Laurie, jovem rico e ocioso apaixonado por Jo), Louis Garrel (professor Friedrich Bhaer) e James Norton (tutor John Brooke).


Adoráveis Mulheres (Little Women, 2019) é um drama romântico familiar situado em Concord (Massachusetts) e Nova York, entre as décadas de 1860 e 1870. Na versão de Greta Gerwig, o espectador é apresentado às idiossincrasias da benevolente Família March (em meio à Guerra de Secessão Americana e após o conflito) através do relato, em flashbacks, da impulsiva aspirante a escritora Jo (Ronan), que, na adolescência, escreve peças teatrais e as encena com as irmãs (Meg, que sonha com uma vida melhor e roupas de qualidade; Beth, a tímida e gentil pianista; Amy, a caçula mimada que espera se casar com um homem rico), e, na fase adulta, se dedica à literatura comercial. Fruto de uma família muito amorosa e solidária, Jo fará de tudo para mantê-la unida. Mas, mesmo que não aceite pensar no assunto, sabe que vai chegar o dia em que cada uma deixará o ninho dos pais para construir o seu..., inclusive ela. Afinal, a busca de identidade e de um lugar no mundo (doméstico e ou profissional) não requer, necessariamente, se desfazer dos laços de família ou deixar de lado o amor matrimonial e os valores humanos.


Ao traçar um paralelo entre a história dos March, relatada por Jo, e um possível processo criativo de May Alcott, que teria se inspirado em sua própria família para escrever Adoráveis Mulheres, o roteiro de Gerwig flerta discretamente com a metalinguagem, homenageando a escritora ativista e com pendor feminista. Toda via narrativa, no entanto, se, por um lado, essa relação entre criadora e criaturas dá um certo frescor à célebre história centenária, por outro, a forma embaralhada (via flashback) escolhida para recontá-la pode não agradar a todo espectador. É que, uma vez que a narrativa inusitada acompanha, de forma totalmente fragmentada, o desenrolar da vida de cada uma das (sonhadoras) irmãs e de alguns personagens circunvizinhos, caberá a ele dar coerência ao enredo. Esse vai e vem (fora de ordem) de passagens (sequências) que joga com o tempo e o espaço narrativo, contribui para abreviar o sentimento do público em relação à doença de Beth, por exemplo. Algumas sequências (passagens) são tão ligeiras que, por mais que uma cena/diálogo evoque uma emoção genuína, não há sequer tempo de absorver e mesmo de se comover antes do próximo salto para o futuro (qualquer) e ou passado (qualquer) da trama. É como se um leitor ansioso folheasse o livro ao acaso, lendo uma página aqui e outra acolá, na esperança de aparecer alguém que lhe explique o encadeamento da trama. Para quem conhece o romance, tudo bem..., a edição jogo da memória cinematográfico pode até ser divertida. Mas, para quem está sendo apresentado a este alvoroçado universo feminino, vai precisar de paciência para amarrar as pontas do enredo. Ou seja: um jogo se cena gratuito que soa mais como puro exibicionismo.


Pode até ser questão de orçamento para contratar um elenco maior (ou escolha equivocada de elenco), mas, em filmes que se passam em épocas diferentes, com personagens que transitam entre a juventude e a velhice, me incomoda a idade dos intérpretes, que nem sempre condiz com a idade dos personagens. E isso vem desde os primórdios do cinema, quando atrizes e atores, com idade e porte físico de 30 anos, “representavam” personagens com a metade da idade. Na maioria das vezes nem a maquiagem salva (O Irlandês que o diga!). Assisti recentemente à adaptação de Adoráveis Mulheres numa bonita e luminosa minissérie da BBC, dirigida por Vanessa Caswill em 2017, e revi a melancólica e envolvente versão cinematográfica dirigida por Gillian Armstrong em 1994. O curioso, na versão de Armstrong, é que, excetuando o fato de apenas a personagem de Amy (aos 13: Kirsten Dunst) envelhecer quatro anos (aos 17: Samantha Mathis), as personagens convencem na jovialidade (física) na primeira fase.

Lembrei desse detalhe acima porque, na versão de Greta Gerwig para Adoráveis Mulheres..., cuja narrativa ágil e não linear quica feito uma bola de pingue-pongue no presente (adulto) e no passado (adolescente), sem se preocupar  com o contexto ou a sequência anterior..., as personagens não envelhecem um fio de cabelo e ou de barba em sete anos. É constrangedor ver Florence Pugh (com a voz grave) fazendo papel duplo: a Amy menina mimada e vaidosa de 13 anos (cabelo solto) e a Amy adulta preocupada com a segurança econômica de um bom casamento, aos 20 (cabelo preso). A atriz, por suas características físicas, dá um ar bem caricato à personagem jovem que, mesmo sendo a mais nova, parece a mais velha das quatro irmãs.


Enfim, embora confunda desnecessariamente o espectador, com um roteiro (de thriller?) que se quer moderno (na exposição de lembranças esparsas), quando a simplicidade original pede linearidade, Adoráveis Mulheres, com seus personagens francos, contraditórios, alegres e repletos de boas intenções, ainda que tenha um apelo (atemporal) feminino/feminista, com diálogos e ou monólogos pertinentes (a mulher no casamento; direitos civis; racismo; moral; solidariedade), não é um filme exclusivo para mulheres jovens e adultas, tem um bocado a dizer também ao público masculino, já que o seu subtexto (inspirador em dias obscuros) tem abrangência global. O elenco é excelente; a direção de arte, o figurino e a fotografia (de Yorick Le Saux) são deslumbrantes. Descontando uma ou outra situação caricata ou inverossímil e a ausência de humor, os/as fãs da roteirista e diretora não devem se decepcionar...


Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeos-documentários fiz em 1990. O primeiro curta-metragem (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado em Curitiba, no Paraná, Brasil.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Crítica: Lady Bird: A Hora de Voar



Lady Bird: A Hora de Voar
por Joba Tridente*

A impressão de se assistir a um filme norte-americano sobre adolescentes é a de que (com variação mínima) se você viu um já viu todos, pois o perfil dos personagens (estudantes do ensino médio) é padrão: brancos classe média (que têm por amigos o gordo, o gay, o negro e, mais recentemente o latino e o asiático) e brancos ricos (que têm amigos brancos, magros ou atléticos)..., e na motivação dos seus confrontos banais: o ciúme, a inveja, o esporte, as provas escolares, o romance, o oportunismo, a vagabundagem. Independente da classe baixa ou alta, em geral, os jovens são muito tolos. Ah, e não faltam sonhos realizados mais por sorte do que por mérito etc. É tão padrão que você sabe como tudo termina antes mesmo de começar a assistir. É o tipo de entretenimento “cômico” juvenil que não exige raciocínio algum do espectador e pode ser degustado imerso no maior combo do mundo e até mesmo viajando nas redes sociais com celular de última degeneração, digo, geração. Cinco minutos depois da sessão, você nem se lembra mais o quanto pagou pelo passatempo.


Assim, é difícil crer que um filme tão insosso e óbvio como Lady Bird: A Hora de Voar, que sai de lugar algum para lugar nenhum, tenha caído, feito cereja caramelizada, nas graças cristalizadas da crítica estadunidense como se a maior novidade do século. Escrito e dirigido pela mais nova queridinha da América, Greta Gerwig, o melodrama inspirado em algum momento estudantil da autora, em sua cidade natal, Sacramento, fala das agruras de Christine “Lady Bird” McPherson (Saoirse Ronan), uma jovem, de 17 anos, que cursa o último ano do ensino médio, no colégio católico Imaculada Conceição, em Sacramento, e não vê a hora de sumir daquele cidade provinciana que ela odeia.


Ao contrário da Dorothy (Judy Garland), que em O Mágico de Oz (1939), disse não haver lugar melhor que o seu lar (no Kansas), Lady Bird acha que qualquer lugar, desde que Nova York, Connecticut ou New Hampshire, é melhor que Sacramento (na Califórnia), onde vive com os pais Marion (Laurie Metcalf) e Larry (Tracy Letts), e o irmão adotivo Miguel (Jordan Rodrigues) e sua namorada Shelly (Marielle Scott). Apesar dos seus limites intelectuais e dos limites financeiros da sua família, a teimosa Lady Bird, que diz ter nascido do lado errado dos trilhos (onde vive a classe média), e que tem na gordinha Julie (Beanie Feldstein) a sua melhor amiga, sonha alto, quer estudar na melhor faculdade do país. Bem, ela “é um pássaro” e está disposta a fazer qualquer coisa para voar dali. Porém, enquanto “suas asas” não crescem o suficiente, ela vai se “socializando”, com a turma do colégio, e descobrindo com seus namorados Danny (Lucas Hedges) e o blasé Kyle (Timothée Chalamet) que nem sempre amor tem a ver com sexo (ou vice-versa).


Aparentemente a proposta do melodrama Lady Bird: A Hora de Voar (Lady Bird, 2017), de Greta Gerwig, que no Brasil recebeu o ridículo subtítulo (A Hora de Voar), é tratar tanto da rebeldia sem causa quanto da causa do tédio, entre os jovens estadunidenses (?) que correm atrás de profissões rendosas e da melhor vitrine social e ou que ficam preguiçosamente à espera da herança acumulada pelos pais. No entanto, assim como o argumento clichê (garota em crise familiar e ou estudantil e ou romântica), o roteiro esquemático traz nada de novo e ou que fira sensibilidades (como bullying), principalmente do público (alvo) feminino..., deixando a morna narrativa seguir linear e sem sustos. Daí que, mesmo para um filme juvenil, quando se espera uma tormenta, que faria jus à transição e amadurecimento da tola Lady Bird (se ela tivesse realizado sequer a jornada da heroína), o que se encontra é uma decepcionante calmaria rumo à fonte dos desejos.


Enfim, considerando que a excelente Saoirse Ronan, de 23 anos, não convence na idade de 17, mas se sai bem na pele da confusa Lady Bird, assim como o elenco coadjuvante em seus devidos papeis rasos; que o requentado filme de adolescente está mais para melancólico que cômico, já que as “piadas” não têm a menor graça (para o espectador adulto); que o desenvolvimento dos personagens femininos é razoavelmente "melhor" que o de qualquer personagem masculino; que a direção é primária e que, apesar de uma trama tão lugar comum e um melodrama tão já visto, recebeu cinco indicações ao Oscar 2018..., Lady Bird: A Hora de Voar deve encontrar o seu público, talvez bem menos ranzinza que eu... Ai que saudade de John Hughes (1950-2009).

*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

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