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quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Crítica: Benedetta

B E N E D E T T A

por Joba Tridente 

Há uma lenda que conta: Quando Jesus nasceu, um grito de dor ecoou por toda a Grécia, anunciando que o alegre Deus Pã (Deus da Natureza, dos Pastores, o Amante da Música e criador da Flauta de Pã) morreu. Com a morte de Jesus Cristo surgiu um “novo” conceito religioso (que, conforme a mitologia judaico-cristã, é contrário às suas reflexões): o cristianismo, com suas hediondas cruzadas, invasões e apropriações de terras e de obras de arte, negação da ciência, inquisições, catequeses, conluio com governos extremistas, escravização de povos nativos etc. São muitos os atos ignominiosos (em nome de Jesus Cristo) à disposição de qualquer um que queira mergulhar em águas turvas ou na lama para entender as origens obscuras da fé cega cristã. 

Para falar de cristianismo e/ou de catolicismo, nos dias de hoje, qualquer autor tem de estar muito bem preparado para expor seu ponto de vista às plateias fanáticas e/ou liberais. Pois, conforme o enfoque, ele pode sair do palco com arranhões provocados por espinhos venenosos e/ou coroado com auréola de luz néon. O polêmico diretor holandês Paul Verhoeven que o diga! Não está sendo fácil enfrentar hordas de católicos carolas no lançamento do seu provocativo drama histórico Benedetta, situado no século XVII. Haja hipocrisia na eucaristia de cada um preocupado com o pecado alheio que é sempre maior que o seu... 

“Um convento não é um lugar de caridade” 


Adaptado livremente do livro Immodest Acts: The Life of a Lesbian Nun in Renaissance Italy (1986), da historiadora Judith C. Brown, por Verhoeven e David Birke, o drama com viés satírico Benedetta (França, Bélgica, Holanda, 2021), que vem sendo considerado blasfêmia pelos católicos arrogantes (que preferem as lendas aos fatos), conta a história real da Irmã Benedetta Carlini (Virginie Efira), criada para ser uma fiel Esposa de Jesus Cristo (Jonathan Couzinié), e que, já adulta e vivendo desde criança no Convento da Mãe de Deus, afirma ver e conversar com Jesus (seu futuro marido) e, como prova, até recebe seus estigmas. Há relatos de que, quando menina, Benedetta (Elena Plonka) também conversava com Maria, mãe de Jesus, que a protegia e atendia aos seus pedidos (alguns deles estão na narrativa). 


A história das visões e da intimidade sagrada e profana de Benedetta e Jesus (galanteador, vingador, salvador, assexuado, deus) ganha força e desperta o interesse investigativo do Vaticano e a adoração do povo crédulo de Pescia, na Toscana, Itália, onde fica o convento, comandado pela Abadessa Felicita (Charlote Rampling), mais preocupada com os lucros da Casa Sagrada do que com a fé..., ao contrário da Irmã Christina (Louise Chevillotte), que não acredita nas visões e profecias de Benedetta. Porém, como toda via tortuosa dos pecados confessáveis e/ou ocultáveis tem lá a sua cruz expiatória, enquanto a peste negra se espalha pela Itália, a rotina de orações, enlevo e visões de Benedetta ganha novos odores e adornos, com a chegada de Bartolomea (Daphné Patakia) ao convento. A jovem acaba provocando na Irmã Benedetta um intenso desejo sexual, deixando-a entre a cruz e a luxúria. Mas, é com a visita do lascivo Núncio Apostólico Alfonso (Lambert Wilson), decidido a desmascarar a Sagrada Irmã Benedetta, que o circo religioso pega fogo e as libidinosas chamas da vaidade não distinguem mais o Céu e o Inferno de cada um... 

“Seu pior inimigo é o seu corpo” 


A trama de Benedetta (cujo nome significa Bem-Aventurada, já que mãe e filha sobreviveram ao difícil parto), narrada meio que na linha do nunsploitation, é consistente e intensa na reflexão da lucrativa fé cristã que move cegamente multidões ao âmago da igreja dominante, enquanto reprime intencionalmente a sexualidade clerical e a dos fervorosos fiéis (mantendo a submissão de todos sob “controle”). Seus diálogos, repletos da mais fina ironia na costura das variantes da rígida devoção religiosa com as jubilosas tentações da carne, são excelentes. Quanto ao propalado teor erótico..., este diverte mais do que excita, principalmente em relação à confecção e ao uso de um inusitado consolo sexual, que pode dar o que pensar ao espectador que arriscar fazer uma analogia com a mística virgindade da Virgem Maria. Aliás, a desconcertante reação da menina Benedetta, sob uma estátua de Nossa Senhora que caiu sobre ela, é muito mais forte e erotizada do que as cenas das libertinas Benedetta e Bartolomea adultas. O simbolismo do alimento da fé diz muito mais sobre o misticismo da futura beata do que os seus “pecados” da carne em busca do divino. Afinal, o que vale mais na “austera” vida religiosa: o Pai Nosso ou a Ave Maria? 


Ainda que o fio condutor seja a controversa vida da Irmã Benedetta Carlini, o diretor e roteirista Verhoeven parece mais ocupado com os fatos que conduzem à discussão sobre as manipulações da fé e da sexualidade, no mundo (macho-falocrata divino) de ontem e de hoje, do que com o escândalo resultante na apropriação de atos indecorosos nos subterrâneos religiosos que, dependendo do ponto de vista do espectador ou do crente, são incertos. Portanto, o que menos importa é se Benedetta era uma impostora religiosa e sexual..., se estava possuída ou não por alguma entidade benigna, em seus momentos de êxtase proféticos e/ou por entidade maligna, na prática das delícias sexuais. Aqui o cutucão é mais em cima!   

Enfim, passando ao largo de qualquer atitude maniqueísta, mais uma vez o sempre provocativo Paul Verhoeven não decepciona na direção, na escolha do excelente elenco e tampouco na intenção de um enredo tão intrigante (potencialmente explosivo) que tem incomodado muito espectador ao “profanar” o sagrado e “sacralizar” o profano. Pela reação de parte do público (que protesta contra o filme sem nem saber do que se trata), o envolvente Benedetta não vai arrancar facilmente a máscara dos hipócritas. 


Sobre a reação histérica dos católicos que o acusaram de blasfêmia, quando o filme estreou em Cannes, Paul Verhoeven respondeu: "Eu realmente não entendo como posso ser um blasfemador em relação a algo que realmente aconteceu. Não se pode simplesmente mudar a história depois do fato. É possível dizer se foi certo ou errado, mas você não pode mudar a história. Creio que a palavra blasfêmia, nesse caso, para mim, é idiota."

Trailer: aqui. 

Na Wikipedia tem um ótimo artigo sobre a freira católica, mística e lésbica Benedetta Carlini (1590-1661).

 

NOTA: As considerações acima são pessoais e, portanto, podem não refletir a opinião geral dos espectadores e cinéfilos de carteirinha. 

Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros videodocumentários fiz em 1990. O primeiro curta-metragem (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.


terça-feira, 25 de maio de 2021

Crítica: Henrique V


HENRIQUE V

por Joba Tridente 

Setenta e sete anos após o lançamento oficial nas salas de cinema, está chegando à plataforma de streaming Petra Belas Artes À LA CARTE, em cópia remasterizada digitalmente e de encher os olhos, com a exuberante beleza cênica, o drama inglês Henrique V (Henry V - The Chronicle History of King Henry the Fift with His Battell Fought at Agincourt in France, 1944), protagonizado e dirigido por Laurence Olivier, que colaborou, com Dallas Bower e Alan Dent, na adaptação da peça homônima de Shakespeare. 

Conta-se que, no início da Segunda Guerra Mundial, o notável ator Olivier juntou-se à Força Aérea Real. Porém, o governo britânico tinha outros planos para ele: realizar um filme (shakespeariano) para elevar o moral dos cidadãos. A princípio pensou-se na adaptação de Ricardo III, mas Henrique V saiu-se mais oportuno, principalmente por ater-se à histórica passagem que trata do comando e da vitória do jovem rei contra a França, em Agincourt, em 1415 (um dos conflitos da Guerra dos Cem Anos - 1337/1453), quando cerca de 9 mil soldados ingleses venceram 25 mil soldados franceses. Evento que nos remete a outro feito famoso: Batalha de Termópilas, em que, sob o comando de Leônidas, 300 espartanos enfrentaram e enfraqueceram as tropas de Xerxes, formadas por mais de 300 mil soldados, provocando sua derrocada. 


A trama começa com uma linda aérea sobre uma minuciosa maquete de Londres de 1600, arrebata e deixa o espectador no meio do público barulhento do Globe Theatre, onde será exibida a peça Henrique V, de William Shakespeare. Ali, a câmera (espectadora) se mete nos camarins e mostra a preparação dos atores, desvela os bastidores, gira pela acalorada plateia sempre pronta a reagir ao conteúdo do espetáculo e à presença dos atores mais conhecidos. Já em seu prólogo o Chorus (Leslie Banks) instiga a imaginação do público sobre o texto e o cenário teatral e continua instigando até toda peça sair do palco e ganhar espaço aberto, numa transição memorável (lembrando um espetáculo teatral gigante de rua), com grandes cenários pintados e ou montados, como se cenas da arte medieval que retratam a própria Guerra dos Cem Anos (incluindo iluminuras de Les Trés Riches Heures du Duc de Berry - 1412/1416), por onde transitam os personagens, sob a luminosidade e a coloração que o Technicolor favorece. É indescritível tamanha beleza. 


A partir da mudança de cenário (teatro/locação) a trama ganha sua verdadeira dimensão de texto e de imagem ao expor as provocações políticas e religiosas que acirraram as relações entre os dois reinos; ao exibir os preparativos para a guerra em ambos os lados; ao encenar magnificamente a Batalha de Agincourt..., e culminar com a elaborada cena do casamento de Henrique com princesa francesa, Catarina (Renee Asherson), após um divertido flerte do casal. Por conta de uma adaptação mais flexível e palatável (foram cortadas mais de 1.500 linhas do texto original e passagens de extrema violência foram lapidadas), a narrativa é bem menos tensa do que se espera de uma obra de Shakespeare, há até espaço para umas pitadas deliciosas de humor inglês e de humor jocoso, na introdução de algumas boas histórias paralelas, envolvendo a intimidade e o caráter de alguns personagens (ingleses e franceses - o público francês certamente odeia tais gags), dando um sabor especial ao enredo. 


Com um roteiro enxuto, focado no que era essencial, no momento da Segunda Guerra, Laurence tomou para si a responsabilidade da direção (recusada por William Wyler, Carol Reed e Terence Young) e fez um filme tão extraordinário que ainda surpreendente nos dias de hoje, pela invejável criatividade e ousadia no uso da metalinguagem. Tudo funciona perfeitamente: elenco; direção (Laurence Olivier); cenografia/direção de arte (Paul Sheriff); fotografia (Robert Krasker); edição (Reginald Beck); figurino (Roger Furse). Nem parece que é o primeiro filme a ser dirigido por Olivier. Tanto que foi indicado ao Oscar de Melhor Filme, Melhor Ator, Trilha Sonora Original e Direção de Arte - Decoração de Interiores e deu a Laurence Olivier um prêmio honorário especial “pela notável realização como ator, produtor e diretor de Henry V.”. 


Enfim, desta envolvente narrativa, além do belíssimo visual, fica de resquício, na memória do espectador, a significativa reflexão “Sobre os ombros do rei!”, pronunciada por Henrique V (Laurence Olivier) após caminhar disfarçado entre os soldados (à serviço da coroa inglesa): “Que todas as vidas, almas dívidas, esposas devotadas, filhos e pecados recaiam sobre o rei! Temos de arcar com tudo. De quantas infinitas satisfações só gozam os outros homens? O que têm os reis que outros homens não têm, exceto o aparato? E que você é, seu aparato idolátrico que sofre de males mortais? Que bebe, em vez da doce homenagem, só o veneno da lisonja? O adoece grandeza e pede ao teu aparato que te cure! Você pode, ao arrumar o joelho do mendigo, dispor-lhe a saúde? Não, sonho, brinca com o repouso de um rei. Eu sou um rei que te descubro. E sei que nem o orbe e cetro, nem a coroa imperial, o trono, a maré de pompa que fustiga a costa deste mundo..., nem tudo isto em leito majestoso pode dormir com o escravo miserável. Quem, com o corpo cheio e a mente vazia pode repousar com a barriga cheia de pão penosamente ganho, jamais vê a noite, a filha do inferno, mas, qual lacaio da aurora ao poente, sua sob o olhar de Febo e toda noite dorme sob o Eliseu. No dia seguinte ajuda Hipérion até seu cavalo e assim vão passando os anos com proveitoso trabalho até morrer. E, exceto pelo aparato, esse miserável que passa os dias labutando e as noites dormindo consegue levar vantagem sobre um rei.” Um filme simplesmente irretocável.

*Estreia prevista para 27.05.2021, no Petra Belas Artes À LA CARTE.

 

NOTA: As considerações acima são pessoais e, portanto, podem não refletir a opinião geral dos espectadores e cinéfilos de carteirinha. 

Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros videodocumentários fiz em 1990. O primeiro curta-metragem (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

  

sábado, 19 de janeiro de 2019

Crítica: A Favorita


A Favorita
por Joba Tridente

Quem não gosta de uma boa intriga amorosa ou política palaciana, principalmente do tipo “inspirada em fatos”? Só é indiferente quem jamais ouviu e ou leu Contos de Fadas, com seus enredos mirabolantes envolvendo príncipes e princesas, reis e rainhas e a plebe em geral. E não há (creio eu) lugar melhor para encontrar intriga de qualidade que num certo reino unido por romances sinistros, dramas maquiavélicos, comédias de erros, tragédias voluntariosas ao gosto bem dosado de um Shakespeare (1564-1616) ou de um irônico Jonathan Swift (1667-1745). Ah, o que seria do mundo sem as “fofocas” reais inglesas de ontem e de hoje?!


Bem, assunto sobre a monarquia inglesa é o que não falta nem para a sétima arte que, dependendo da autoria, direção ou atuação, pode ser mais ou menos contundente. É o caso do provocativo A Favorita (The Favourite, 2018), uma sátira “romanticamente política” dirigida com elegância e muito simbolismo pelo talentoso grego Yorgos Lanthimos (O Lagosta), que não deixa acumular sujeira embaixo e ou atrás de tapetes colossais..., afinal, se houve algo de podre no Reino da Dinamarca, a lama podia muito bem feder na Grã-Bretanha da Rainha Anne (1665-1714), que reinou de 1702 a 1714.

Roteirizado por Deborah Davis e Tony McNamara, com algumas liberdades dramáticas e de calendário, enfatizando as tramas do poder e os fiapos da subserviência, A Favorita traz um recorte (em releitura ousada) da corte da Rainha Anne (Olivia Colman), entre os anos 1704 e 1711, onde (em meio a maquiavélicas discussões parlamentares sobre política de guerra e política de economia) as primas Sarah Churchill (Rachel Weisz) e Abigail Masham (Emma Stone) desenvolvem estratégias ignóbeis para “merecerem” o favoritismo da rainha. Afinal, ser a favorita de Anne significava ser seu braço direito e, por conta de intimidades sexuais, se achar no direito de influenciar e (até) repreender a governanta real..., e ou mesmo “ensaiar” um governo paralelo.


Segundo registros históricos, Lady Sarah Churchill, a Duquesa de Marlborough (1660-1744), aproveitou muito bem o seu período de Guardiã da Bolsa Privada (1702-1710) e de “porta-voz” influente no palácio e no parlamento..., até se achar mais importante que a real cereja do bolo e cair em desgraça real, por conta de seu caráter irascível e ganância. A alpinista social Abigail Masham (1670-1734), que literalmente foi ao chão, mas sacudiu a lama e aprendeu rapidamente o jogo de cintura real, para dar a volta por cima e cobrar caro por seus favores, também nomeada Guardiã da Bolsa Privada (1711-1714), não ficou muito atrás da prima na sede de poder. Cientes da saúde fragilizada e das carências afetivas da Rainha Anne, cada uma, com suas artimanhas bem urdidas, acabou arranjando um jeito de lucrar em família...

Toda via alternativa aos salões de festas, de patos ou de coelhos, no entanto, assim como nem todo prendedor de cabelo é uma coroa real, nem tudo que é história oficial está no excelente enredo, que foca apenas a essência da discórdia..., e de uma forma deliciosamente inusitada e totalmente amoral.


Exuberante e de uma beleza plástica incontestável (na reconstituição de época), por se tratar da adaptação de fatos históricos, obviamente a sua trama pode até ser discutível em alguns pontos, mas é impossível não se deixar enredar por ela do princípio ao fim. Ainda que, por vezes, dolorosamente melancólica, não lhe falta sarcasmo, humor negro, nonsense..., e um insinuante flerte com a luxúria. A suntuosa trilha sonora é praticamente um personagem com força suficiente para roubar algumas cenas (e rouba!): incomoda, enaltece, amedronta. Eu, que a cada dia odeio mais as trilhas, aqui me calo. O que é aquela arrepiante versão de Skyline Pigeon do Elton John?


Enfim, protagonizado por três atrizes em estado de graça (com Olivia Colman arrebatando todas as glórias), este drama detalhista - que enche os olhos com tanto requinte visual (como na troca de lentes, que sugere em seus enquadramentos desconcertantes as mais diversas significações, inclusive a de que a imagem certa na hora certa vale mais que mil palavras ou diálogos ferinos) - não deixa de ser sobre o empoderamento feminino em um tempo (?) nada favorável às mulheres. Embora alguns personagens notórios na política e na sociedade britânica, como Robert Harley (Nicolas Hoult), Sidney Godolphin (James Smith), John Churchill (Mark Gatiss) e Samuel Masham (Joe Alwin), deem o conturbado ar da graça em ótimas sequências, a eles está reservado um bom segundo plano narrativo (não na história oficial, é claro..., já que, naquele tempo (?), tapete para puxar não faltava). É Yorgos Lanthimos mais uma vez se superando. O exuberante A Favorita é simplesmente espetacular!


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Crítica: Estrelas Além do Tempo


Estrelas Além do Tempo
por Joba Tridente

Em plena estação das grandes premiações rumo ao Oscar, os meses de dezembro e janeiro são os preferidos para alavancar o lançamento das grandes produções hollywoodianas de apelo (mais) popular, como, por exemplo, aquelas baseadas (ou inspiradas) em fatos. O filme da vez, no melhor estilo cinebiografia compacta, que prioriza um recorte da vida do biografado, trás às telas uma história pouco conhecida, inclusive nos EUA, envolvendo três mulheres negras e a NASA dos anos 1960: Estrelas Além do Tempo.


Baseado no livro Hidden Figures - The American Dream and the Untold Story of the Black Women Mathematicians Who Helped Win the Space Race (2014), da escritora Margot Lee Shetterly, Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures, EUA, 2016), com direção de Theodore Melfi, que compartilhou o roteiro com Allison Schroeder, traz a lume a interessante história da matemática Katherine Johnson (Taraji P. Henson), da engenheira Mary Jackson (Janelle Monae) e da supervisora ​​Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) - as “figuras ocultas” e “mulheres negras” do título original - que tiveram grande importância nos primórdios da corrida espacial norte-americana.

Estrelas Além do Tempo tem uma narrativa tradicional (linear) que prima pela linguagem simples: as três amigas (excetuando Katherine, que abre o prólogo ainda menina) aparecem já adultas e como peças de destaque no grupo de “computadores humanos” do Langley Research Center - NASA, onde mulheres negras, instaladas num edifício só para negros, passam o dia fazendo cálculos para os projetos espaciais desenvolvidos por homens brancos. As três são perseverantes e não se deixam intimidar nem pela cor da pele e nem pelo sexo, já que são inteligentes, estudiosas e curiosas..., acima, inclusive, da média dos seus pares brancos. 


O dia a dia, cheio de restrições às negras, não era fácil na National Aeronautics and Space Administration (NASA). Em plena Guerra Fria, com a União Soviética a ponto de conquistar o espaço sideral (e, segundo os norte-americanos, também o mundo), a matemática perita em geometria analítica Katherine é requisitada por Al Harrison (Kevin Costner), diretor do Space Task Group, para revisar os complexos cálculos da sua graduada equipe de homens brancos que pretendem colocar em órbita o simpático astronauta (branco) John Glenn (Glen Powell). Ela não era apenas a primeira mulher cientista, mas também a primeira mulher negra a integrar a (desconfortável) equipe branca machista.


Na corrida contra o tempo (soviético) e sem alternativas de especialistas masculinos brancos, a engenheira Mary é designada para auxiliar na melhoria do projeto da cápsula espacial reprovada nos testes de túnel de vento. Já a produtiva ​​Dorothy, insistente no reconhecimento profissional da sua função de supervisora do grupo de “computadores humanos”, acaba sendo convocada para assumir (junto com suas matemáticas negras) a programação do recém-criado e instalado computador gigantesco da IBM, que ela estudou profundamente e descobriu a razão do estresse dos incompetentes técnicos brancos.


Embora situado nos anos 1960, período tenebroso de segregação racial em Virgínia, o foco da trama de Estrelas Além do Tempo é o pioneirismo das três mulheres negras literalmente geniais. As suas trajetórias de vida são inspiradoras até mesmo para brancos que se consideram desafortunados, já que Katherine Johnson, Mary Jackson e ​​Dorothy Vaughan se destacaram em suas áreas não por conta de algum privilégio por serem negras, mas porque foram à luta, estudaram por conta própria, buscaram graduação, cientes dos obstáculos que enfrentariam para ter acesso com alguma dignidade ao mercado de trabalho em “território branco”. Uma luta contínua de valorização do indivíduo de cor negra que continua não só nas terras do Tio Sam, mas na maior parte do mundo. O conhecimento está ao alcance de quem o busca, independente e indiferente à raça, ao sexo e ou à cor da pele.


Como não li o livro, não sei dizer o quanto é “liberdade poética” e o quanto é “assim é se lhe parece” em Estrelas Além do Tempo. Toda via da metragem cinematográfica, no entanto, o filme não é nenhum melodrama chororô sobre os malefícios do racismo norte-americano, mas sobre como três mulheres negras e graduadas não se deixaram intimar por ele, lhe deram uma rasteira e fizeram história ao integrar uma equipe (de homens brancos) que colocou o astronauta Glenn em órbita. Ao menos no cinema, elas não choram pelos cantos e nem abaixam a cabeça quando desconsideradas (pelo sexo e pela cor). Não se entregam nem mesmo em situações terrivelmente constrangedoras.


Enfim, considerando que este inspirador drama histórico, onde a sutileza dos detalhes (até mesmo em diálogos) vence qualquer cinema-ostentação, é dirigido com elegância e que as três atrizes surpreendem em cena com excelentes performances; que todo elenco (incluindo Kirsten Dunst, Jim Parsons, Mahershala Ali) se sai também muito bem; que a produção é cuidadosa na reconstituição de época; que a segregação racial e o sexismo (presentes no trabalho, na escola e em família) são conversados, discutidos e ilustrados em cenas curtas e, às vezes, aparecem implícitos em sequências de forte impacto..., Estrelas Além do Tempo é um excelente programa para se calcular a grandiosidade e a pequenez humana na matemática da terra e na elipse do céu.

NOTA: Para antes e ou depois da sessão recomendo ouvir, com o Karnak: Alma não tem cor, do genial André Abujamra: “Alma não tem cor/ Porque eu sou branco/ Alma não tem cor/ Porque eu sou negro/ (...) Percebam que a alma não tem cor/ Ela é colorida/ Ela é multicolor”. Ou na deliciosa versão portenha da banda latina Perotá Chingó: Alma não tem cor.
  

*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

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