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quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Crítica: O Touro Ferdinando

O Touro Ferdinando
por Joba Tridente*

O livro O Touro Ferdinando (The Story Of Ferdinand, 1936), de Munro Leaf, com ilustrações de Robert Lawson, é um dos meus favoritos, desde a infância. Ainda guardo comigo a tradução da escritora Maria Clara Machado (1921-2001), publicada em 1975 pela Edições de Ouro, e sou fã (com ressalva mínima) da animação Ferdinando, O Touro (1938), produzida por Walt Disney (1901-1966) e ganhadora do Oscar de melhor Curta-Metragem.

É difícil imaginar que uma obra tão singela, que conta a história de um touro (Ferdinando) que prefere o perfume das flores do campo ao odor sanguinolento das arenas de touradas, uma história breve e profunda sobre o direito de cada um ser o que quiser, amada por Mahatma Gandhi (1869-1948) e H.G. Wells (1866-1946), tenha sido banida da Espanha pelo ditador Francisco Franco (1892-1975) e queimada na Alemanha pelo nazista Adolf Hitler (1889-1945)..., acusada de promover o pacifismo, a democracia, a liberdade de pensamento. Na nova onda de intolerância que quebra no mundo, nunca é demais lembrar de um poema curto da escritora paranaense Helena Kolody (1912-2004): “no poema/ e nas nuvens,/ cada qual descobre/ o que deseja ver.”


Agora, 80 anos depois do curta (de 7min57) da Disney, Ferdinando está de volta aos cinemas em O Touro Ferdinando (Ferdinand, EUA, 2017) uma versão em longa-metragem (de 1h48) dirigida por Carlos Saldanha (Rio e Rio 2). Produzido pela Blue Sky e 20th Century Fox Animation, os roteiristas Robert L. Baird, Tim Federle e Brad Copeland esticaram ao máximo a história de poucas páginas de Leaf, criando vários personagens não-humanos e humanos para recontar, com muita aventura e ação pastelão, a consagrada fábula.

A releitura animada de O Touro Ferdinando é pensada mais para o publico infantil que juvenil e adulto..., o que não quer dizer que estes dois últimos não possam apreciá-la. Enquadrada com uma paleta de cores naturais (em tons pastel) e muita luminosidade (que se crê) espanhola, a narrativa, acompanha o desenvolvimento de Ferdinando, de bezerro (na fazenda de gado de tourada, de onde fugiu) a touro gigantesco (na fazenda de flores, onde se refugiou e cresce feito animal de estimação de Nina, a filha do florista) que, após muitas confusões, acaba numa arena de touros, que ele sempre evitou.


Embora tenha substituído a suavidade da mãe (vaca) pela truculência do pai (touro), em busca de maior reflexão sobre a banalidade da morte na arena de touradas ou a compensadora morte nos matadouros, o roteiro manteve (ao menos) no prólogo e epílogo, a essência perfumada do conto..., o resto é fantasia com um bando de “bichinhos” simpáticos. É espetáculo nonsense para crianças. A violência da disputa de força entre touros e das (indefectíveis!!!) fugas e perseguições a pé e motorizadas é moderada e, apesar dos muitos estragos materiais na fazenda e na cidade, não há sangue!


Possivelmente, por conta da tradução e dublagem brasileira, o humor fica muito a desejar. Há uma piadinha meio tonga aqui e uma gag clichê ali, mas nada (?) para o espectador jovem ou adulto gargalhar. Como não podia faltar numa animação, há um mix musical num duelo de danças entre touros e cavalos austríacos (Lippizaner). Ao que parece, a presença destes arrogantes cavalos adestrados (com sotaque alemão) é uma referência (inconsciente?) a Hitler. No suporte de “conteúdo” ao protagonista Ferdinando..., que mesmo enorme ainda sofre com o bullying, por gostar do perfume das flores..., fazem parte da fauna improvisada uma cabra (Lupe), cinco touros (entre eles, Valente), três cavalos (entre eles, Hans), um trio de porcos-espinho (Um, Dois e Quatro), um coelho rosado (alívio cômico) e um cão cinzento (Paco). Entre os humanos, além de Nina, o destaque é o toureiro Matador.

O Touro Ferdinando é um filme muito bonito graficamente (o cenário da Casa del Toro é perfeito, nem parece desenho), porém, mesmo com a  mensagem pacifista, reforçada com o anti-bullying, o seus script é básico, simplório. Tem alguns furinhos no roteiro, mas só quem for muito perspicaz vai perceber e então não vale a pena mencioná-los. Quanto à trilha pop, por mais que se almeje uma musicalidade espanhola, há que se lembrar que se trata de um filme norte-americano. Portanto, contente-se com La Macarena.


Enfim, O Touro Ferdinando de Carlos Saldanha pode não ser tão impactante quanto o da obra homônima de Munro Leaf e Robert Lawson (onde menos é sempre mais no universo da imaginação) ou tão divertida quanto a animação da Disney (e talvez por isso possa desapontar alguns fãs), mas, principalmente pela arte e excelente 3D, não é um filme descartável. Tem bom ritmo, algumas boas sequências, com destaque para a toureada de Ferdinando e o Matador na arena de Madrid. Com sua linguagem infantilizada o filme pode até não empolgar os jovens e adultos, mas tampouco os aborrecerá.

Ah, infelizmente, as melhores cenas estão expostas nos trailers (que só assisti após a sessão oficial) e, sinceramente, na hora “h”, perdem totalmente a graça...



*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Crítica: Tá Chovendo Hambúrguer 2


A lógica do lucro é simples, apesar de nem sempre eficaz: se um filme vai bem de bilheteria nos EUA e no “resto” do mundo, não adianta chiar, vira, vira, vira e vai virando franquia, até cansar (?) o público fiel. É claro que nem todos os títulos e gêneros são fecundos. Muitas promessas (e apostas altas) de fertilidade (e criatividade) são abortadas no lançamento da matriz. O que (ainda) não é o caso do repasto Tá Chovendo Hambúrguer.

Estimulada pelo grande sucesso em 2009, a comédia de animação Tá Chovendo Hambúrguer 2 (Cloudy With a Chance of Meatballs 2, EUA, 2013) traz Flint e sua turma em uma aventura ainda mais surreal. Para quem não viu (?) a desastrada empreitada de Flint, no filme anterior, um prólogo o coloca no palco dos acontecimentos e continua daí. A nova trama, cuja receita mistura tecnologia (geek: sucesso a qualquer preço) e psicodelia (hippie: paz e amor), trata de dois assuntos: a busca de Flint por reconhecimento profissional no campo científico e a limpeza de ilha, coberta de alimentos produzidos pela máquina FLDSMDFR. Ambos têm um ponto em comum: Chester V, CEO da Live Corp, que, além de oferecer gratuitamente os serviços da sua empresa, para limpar Swallow Falls, convida o jovem inventor a estagiar em sua corporação. O inocente Flint, que idolatra Chester V, aceita seus préstimos, sem questionar a razão de tanta “bondade”.  


Na primeira história a comida chovia sobre os turistas e ilhéus de Chewandswallow (antiga Swallow Falls). Agora, desde que a máquina FLDSMDFR (Flint Lockwood Diatonic Super Mutating Dynamic Food Replicator) despencou na ilha, ela surge da água primordial empoçada ali. Swallow Falls está lá, ainda coberta de restos de comida, mas não é exatamente o mesmo “acidente geográfico”. À semelhança daquela que abriga o Jurassic Park, a ilha (cuja exuberância também lembra Pandora, de Avatar) poderia ser chamada de Éden-Food Island, já que está ocupada por coloridíssimas famílias de comidanimais: bananavestruzes, flamangas, serpentortas, queijaranhas, mosquitorradas, camaranzés, melanfantes, temperossauros...


Como o seu antecessor, Tá Chovendo Hambúrguer 2, dirigido por Cody Cameron e Kris Pearn, começa dinâmico, com uma fascinante estilização do interior da molecular Live Corp,  no Vale do Silício, onde Flint e milhares de outros nerds estagiam em busca de uma vaga (sim, você pode ter visto algo parecido em Os Estagiários). Porém, assim que os diretores e roteiristas caem na real (?) de que o alvo é a criançada e não necessariamente os seus acompanhantes, os dois terços seguintes se arrastam repetitivos e menos envolventes (para o adulto!). É totalmente desnecessária a explicação detalhada (duas ou três vezes) de tudo.

Por mais graciosas e coloridas que sejam as comidanimais, logo vem a conexão com a fauna extravagante de O Lorax: Em Busca da Trúfula Perdida, e Os Croods - Uma Aventura nas Cavernas. Se bem, que nesse caso, é difícil atribuir alguma culpa (ou falta de originalidade!), já que a realização de uma animação toma um bocado de tempo e, quem sabe!, pode ser mera coincidência a exploração do mundo animal absurdo.


Tá Chovendo Hambúrguer 2, apesar do roteiro relativamente simplório (para o adulto!), é uma animação simpática. Por conta da maluquice dos personagens, ela tem bons elementos para agradar a criançada (que adora brincar com a comida!). O seu humor é meio assim-assim: trocadilhos, piadas escatológicas, de duplo sentido, de sentido perdido na tradução e dublagem - só entendi algumas tiradas (como a do tomate, por exemplo) muito depois de ter deixado a sala. Em meio a mensagens edificantes chama a atenção o irônico destino do vilão. Um destino incomum na grande maioria das produções de ação e aventura, independente do seu público alvo.

Ah, adoraria ver a reação dos radicais vegetarianos, veganos, carnívoros, macrôs etc..., diante de uma comida tão linda, tão selvagem e tão viva! Será que passariam fome ou partiriam logo para a “antropofagia”?

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